quinta-feira, 7 de outubro de 2021

FABIANO: 83 ANOS

"Deixa eu lhe dizer, socialismo Fabiano foi um sonho de juventude pode parecer incrível mas era coisa de 15, 16 anos quando eu era office boy na companhia Gessy Industrial" Quem quebrou o Brasil foi o Geisel, afirma Delfim ***
*** InfoMoney Delfim Netto: de superministro da ditadura a conselheiro de Lula | InfoMoney *** 1 de maio de 1928 (idade 93 anos), São Paulo, São Paulo ***
*** Calendário comemorativo celebra 100 anos de nascimento de Paulo Freire Promovido pelo Conselho de Educação Popular da América Latina e do Caribe, calendário traz ilustrações de 12 cartunistas Pedro Neves Dias Brasil de Fato | Porto Alegre (RS) | 12 de Janeiro de 2021 às 17:38 *** SUBVERSIVO BRANCO ERA CASTELO *** Agora temos que sobreviver. Quando as coisas melhorarem vamos ter tempo para pensar sobre as coisas da vida. ***
*** 1:51 YouTube Resumo de Vidas Secas - Capítulo 2 - Fabiano Assistir Enviado por: Curiosidade Visual, 28 de jun. de 2016 Assistir: *** *** VIDAS SECAS - GRACILIANO RAMOS - CAPÍTULO 2 - FABIANO *** "Neste vídeo vamos contar um resumo da história do livro Vidas Secas de uma maneira simples e didática! Nesse segundo vídeo trazemos o resumo do segundo capítulo capítulo que se chama Fabiano. Assista aqui o resumo do Capítulo 1 https://www.youtube.com/watch?v=C5xnr... Vidas Secas é um livro escrito por Graciliano Ramos no ano de 1938. Ele faz parte da Segunda Geração Modernista e retrata as condições de miséria e as dificuldades enfrentadas por Fabiano e sua família durante o período da seca, em uma representação fiel da grande maioria dos camponeses e nordestinos do Brasil." *** *** https://www.youtube.com/watch?v=c3LRzQvserE *** *** ***
*** Brasil Escola - UOL Castello Branco, o primeiro “presidente” da Ditadura Militar *** Governo Castello Branco O marechal Humberto Castello Branco assumiu a presidência do Brasil logo após o Golpe de 1964 e foi, portanto, o primeiro “presidente” da Ditadura Militar. ***
*** Presidente Humberto Castello Branco (em pé) em passeata militar realizada em 7 de setembro de 1964.* Presidente Humberto Castello Branco (em pé) em passeata militar realizada em 7 de setembro de 1964.* *** Humberto Castello Branco, marechal do Exército brasileiro, foi um dos organizadores do Golpe Civil-Militar de 1964. Foi nomeado presidente brasileiro após eleições indiretas realizadas em 1964 e governou o país até 1967. Conhecido por ter sido o primeiro “presidente” da ditadura militar no Brasil, foi responsável por implantar as bases do sistema de repressão que caracterizou o país nesse período. Resumo Humberto Castello Branco foi o primeiro presidente militar da Ditadura Militar do Brasil, regime iniciado em 1964 e finalizado em 1985. A ascensão de Castello Branco ao poder foi resultado da articulação golpista contra o governo do presidente João Goulart. Castello Branco foi eleito presidente de maneira indireta, e seu governo foi conduzido de forma a implantar a base da repressão no Brasil. Para isso, foram decretados alguns atos institucionais durante seu governo. Além disso, foi implantada uma política de austeridade a fim de conter os gastos do governo, o salário do trabalhador e reduzir alguns de seus direitos. O resultado prático disso foi o início da repressão e do autoritarismo que marcaram os anos da ditadura militar no país. Milhares de pessoas foram expurgadas de suas funções, seja na burocracia civil, seja nas Forças Armadas. Dezenas de políticos também perderam seus direitos e tiveram seus mandatos cassados. Os movimentos sociais, sobretudo camponeses e estudantis, foram fortemente perseguidos. Nos anos do governo de Castello Branco, ocorreram os primeiros casos de tortura e de assassinatos cometidos por agentes do governo, dando o tom de uma das marcas da ditadura no Brasil: o terrorismo de Estado. Golpe de 1964 e posse de Castello Branco Humberto Castello Branco tornou-se presidente do Brasil poucos dias depois do Golpe de 1964, movimento que articulou grupos golpistas nos meios militares e civis e que resultou na deposição do presidente João Goulart. Essa articulação golpista contou também com grande participação dos Estados Unidos, conforme comprovação documentação existente nos dias de hoje. Após o golpe, o Brasil foi governado de maneira provisória por Ranieri Mazzilli, presidente da Câmara dos Deputados, até a realização de uma eleição indireta em 11 de abril. Nessa eleição, Castello Branco concorreu à presidência contra Juarez Távora e Eurico Gaspar Dutra e foi eleito com a maioria absoluta dos votos. A posse de Castello Branco aconteceu, oficialmente, no dia 15 de abril de 1964. Acesse também: Conheça o contragolpe que garantiu JK na presidência Aparato de repressão A Ditadura Militar utilizou como base de seu poder os Atos Institucionais, normas de caráter constitucional decretadas pelos presidentes militares as quais deram o tom da repressão durante os anos da ditadura. O primeiro Ato Institucional foi baixado em 9 de abril, antes mesmo de Castello Branco assumir a presidência do país. Conhecido como AI-1, tinha como objetivo justificar e legitimar o movimento golpista que havia deposto o presidente João Goulart. Além disso, esse ato institucional assentava as bases para o aparato de repressão dos governos militares a partir do fortalecimento do poder Executivo, principalmente do presidente. Neste trecho, a tentativa de justificar o golpe a partir do AI-1 é perceptível: A revolução vitoriosa se investe no exercício do Poder Constituinte. Este se manifesta pela eleição popular ou pela revolução. Esta é a forma mais expressiva e mais radical do Poder Constituinte. Assim, a revolução vitoriosa, como Poder Constituinte, se legitima por si mesma. Ela destitui o governo anterior e tem a capacidade de constituir o novo governo. Nela se contém a força normativa, inerente ao Poder Constituinte|1|. Como consequência direta dos decretos do AI-1 foi realizada uma grande quantidade de expurgos. Políticos foram cassados, juízes e outros servidores públicos foram exonerados, e inúmeros outros civis foram perseguidos. Estádios de futebol e navios da Marinha foram improvisados como prisões. O objetivo dessas ações era “sanear” os meios políticos e administrativos do país, ou seja, expulsar de posições importantes todos aqueles que não compactuassem com as ideias do regime. Dados levantados por historiadores evidenciam a generalização da repressão. As historiadoras Lilia Schwarcz e Heloisa Starling afirmam que o AI-1 sozinho foi responsável direto pela perseguição de 2990 cidadãos, dos quais 1313 eram militares que foram compulsoriamente enviados para reserva, perdendo até mesmo o direito à aposentadoria|2|. O historiador Boris Fausto traz números parecidos: afirma que ao menos 1400 pessoas da burocracia civil e 1200 das Forças Armadas foram expurgadas|3|. Houve perseguição a sindicatos e a movimentos sociais em geral. A União Nacional dos Estudantes, por exemplo, teve sua sede invadida e incendiada antes mesmo do decreto do AI-1. As Ligas Camponesas também sofreram dura repressão: tiveram parte de sua liderança assassinada e o movimento desagregado ainda em 1964. Nos meios políticos, a repressão da ditadura aconteceu a partir da cassação de políticos que não estavam alinhados com o golpe e com os militares. Já em 1964, 41 deputados federais tiveram seus direitos políticos cassados. Desses, 20 pertenciam ao Partido Trabalhista Brasileira (PTB), do qual João Goulart fazia parte. Outro mecanismo utilizado pela ditadura para a repressão foram os Inquéritos Policiais Militares (IPMs), ferramentas usadas para investigar supostas atividades de “subversão”, ou seja, atividades consideradas politicamente ilegais do ponto de vista da ditadura. Essas investigações eram conduzidas por militares com visões políticas radicais e foram responsáveis, só em 1964, por colocar 10 mil pessoas como rés|4|. A repressão aumenta: AI-2 e AI-3 O AI-1 tinha um prazo de validade para atuação: 31 de janeiro de 1966. Isso dava esperanças para aqueles que acreditavam que o Brasil retomaria o caminho da democracia. O AI-1, inclusive, nem havia recebido numeração na época, pois acreditava-se que seria o único decretado. A junta militar, porém, possuía outros planos para o Brasil, e o regime, que já era duro, endureceu-se ainda mais. No final de 1965, foi decretado o Ato Institucional nº 2, que representou uma resposta do governo Castello Branco àqueles que exigiam o endurecimento do regime. A partir do AI-2, o Executivo teve seus poderes reforçados, e foi determinado que a escolha para presidentes aconteceria de maneira indireta. Essa medida do governo de Castello Branco contrariou profundamente parte da elite política do país, principalmente os liberais conservadores que haviam apoiado o golpe de 1964 esperando que o poder fosse transmitido novamente para os civis (da mesma forma que havia acontecido em 1945). Entre os liberais insatisfeitos, o grande destaque foi Carlos Lacerda, político conservador que almejava concorrer à presidência entre 1965 e 1966. Carlos Lacerda havia apoiado o golpe em 1964, no entanto, com o decreto do AI-2, rompeu publicamente com a ditadura. Em seguida, formou a Frente Ampla, movimento de oposição que reivindicava o retorno do regime democrático e lutava pela continuidade de uma política desenvolvimentista no Brasil. Carlos Lacerda percorreu todo o país divulgando a Frente Ampla e aliou-se com dois de seus antigos adversários políticos: João Goulart e Juscelino Kubitschek. Esse movimento foi colocado na ilegalidade em 1968. Outra medida que ampliou a repressão e o autoritarismo da ditadura no Brasil foi o Ato Institucional nº 3, decretado em fevereiro de 1966. Esse ato estipulou no país um sistema bipartidário e extinguiu os antigos partidos, criando dois novos: a Aliança Renovadora Nacional (Arena), partido de apoio ao regime, e o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), entendido como a oposição consentida. Durante o governo de Castello Branco, também foi baixado o Ato Institucional nº 4, que decretou a redação de uma nova Constituição para o Brasil. Essa Constituição ficou pronta em janeiro de 1967 e entrou em vigor em março de 1967, quando Artur Costa e Silva assumiu a presidência do Brasil. Economia ***
*** A política econômica de Castello Branco (de terno escuro) ficou marcada pela austeridade.** *** No plano econômico, o governo de Castello Branco ficou marcado por uma política de austeridade que tinha como objetivo primordial o controle e a redução da inflação no Brasil, além do combate ao endividamento público. Para alcançar esses propósitos, foi criado o Plano de Ação Econômico do Governo (Paeg). Esse plano procurava reduzir o endividamento do governo a partir do controle de gastos. Para isso, foi elaborada também uma política de reajuste salarial que ofertava ao trabalhador reajustes anuais sempre menores que a inflação do ano anterior. Essa política de controle dos salários do trabalhador demonstra bem o caráter austero da política econômica do governo de Castello Branco. Esse pacote trabalhista e econômico consta também da Lei de Greve de 1964, que estipulava condições extremamente complicadas para a realização de greve no Brasil, tornando quase impossível a realização desse direito no país. Em relação aos seus objetivos, o Paeg foi considerado bem-sucedido, pois a inflação caiu a partir de 1965. Apesar disso, esse plano, bem como toda a política econômica desse governo, visava a atender aos interesses do grande empresariado do país, fato que ficou evidente com as medidas tomadas pelo governo de Castello Branco, como controlar o salário dos trabalhadores, restringir o direito de greve, além de retirar outros benefícios dos trabalhadores. |1| Ato Institucional nº 1. Para acessar, clique aqui. |2| SCHWARCZ, Lilia Moritz e STARLING, Heloisa Murgel. Brasil: uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015, p. 457. |3| FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp, 2013, p. 399. |4| SCHWARCZ, Lilia Moritz e STARLING, Heloisa Murgel. Brasil: uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015, p. 456-457. *Crédito da imagem: FGV/CPDOC **Crédito da imagem: FGV/CPDOC Publicado por Daniel Neves Silva *** *** https://mundoeducacao.uol.com.br/historiadobrasil/governo-marechal-castello-branco.htm *** *** ***
*** há 6 dias Valor Econômico - Globo José de Souza Martins: Paulo Freire ameaçava o pilar da dominação *** José de Souza Martins: Paulo Freire ameaçava o pilar da dominação oligárquica e latifundista Seu sistema era libertador, ao criar condições de que o alfabetizado compreendesse o mundo em sua própria perspectiva, e não como objeto Por José de Souza Martins *** Neste centenário do educador Paulo ***
*** G1 - Globo Em centenário de Paulo Freire, educador ganha homenagem em mural na Barra Funda | São Paulo | G1 *** “Eu desconfiava que o senhor era subversivo. Agora tenho certeza”.
*** RCWTV Abertura de Seminário em homenagem a Paulo Freire destaca autonomia, ousadia e esperança *** Assista: *** Autonomia, ousadia e esperança: a docência em Paulo Freire ***
*** Anunciar: tempo de cuidar, aprender e transformar 5,28 mil inscritos - Seminário: Anunciar: tempo de cuidar, aprender e transformar - 100 anos com Paulo Freire (1921-2021) - Abertura: Margarida Salomão - Prefeita de Juiz de Fora Nádia Ribas - Secretária de Educação / Prefeitura de Juiz de Fora - Live: Autonomia, ousadia e esperança: a docência em Paulo Freire - Palestrante: Profa. Dra. Mylene Cristina Santiago (UFJF) - Dia: 16/09/2021 - Horário: 19h * Não há necessidade de inscrição prévia e será emitido certificado (carga horária = 16 horas) para aquelas(es) que participarem dos encontros do Seminário e assinarem a lista de presença durante as transmissões. *** *** https://www.youtube.com/watch?v=_otEqvPeHM4 *** ***
*** Governo Humberto Castelo Branco Humberto Castelo Branco foi o primeiro presidente do Brasil após o golpe militar de 1964. *** CASTELO ERA BRANCO SUBVERSIVO ***
*** A LINHA DURA ABSOLVEU E ABSORVEU O FABIANO DELFIM ***
*** FONTE: Revista Brasileira de História da Ciência, Rio de Janeiro, v. 9, n. 1, p. 139-147, jan | jun 2016 Lucas Pereira: Em algumas entrevistas o s.r. se definiu como um socialista fabiano no início de carreira e posteriormente trilhou por um caminho mais liberal. Como o s.r. encarava a relação entre desenvolvimento e tecnologia? Antônio Delfim Neto: Deixa eu lhe dizer, socialismo Fabiano foi um sonho de juventude pode parecer incrível mas era coisa de 15, 16 anos quando eu era office boy na companhia Gessy Industrial e lá tinha um companheiro, Airton Alves Aguiar, que era muito competente, e lia muito e ele acabou me induzindo a ler os livros do Hg Wells, daquela... Você é muito moço para saber disso, da companhia nacional, que era uma coletânea dirigida pelo Monteiro Lobato e pelo Rangel, introduziu os livros do H.G. Wells, de lá eu acabei me enfiando nesse jogo. O socialismo Fabiano é uma coisa muito interessante porque ele avançaria no fundo sempre democraticamente, por eleição e tudo isso, mas tinha um defeito nisso, eu percebi depois, é que no programa original estava a nacionalização dos fatores de produção, depois eu aprendi que isso não funciona, não tem como funcionar e foi uma coisa que acompanhou o fracasso do socialismo o tempo todo. Não tinha. No fundo no fundo eu me libertei um pouco dessas ideias foi quando eu estava no primeiro ano da USP, no segundo ano, quando eu li um livro do Stigler sobre teoria de preços. Ai me convenci de que tudo aquilo era no fundo um sonho generoso. Me convenci de que pra resolver o socialismo você tem que compatibilizar três valores que são incompatíveis: a liberdade, a igualdade e a eficiência. A igualdade briga com a liberdade. De fato, a igualdade mata a liberdade. Cada vez que a igualdade supera o valor da liberdade ela afoga a liberdade e que igualdade e eficiência é muito pouco provável por que para obter eficiência você precisa de uma certa hierarquia, os três valores não podem ser obtidos juntos. Desde então a minha ideia era o seguinte, como é que você constrói essa sociedade, já que é impossível deles serem maximizados ao mesmo tempo. Você tem que encontrar um jeito de se aproximar deles. E eu acho que o que o homem descobriu quase por uma seleção genética e que a única forma de se aproximar deles é através do jogo entre o mercado e a urna. A urna e um produto do sufrágio universal. O que é o sufrágio universal? É o produto da organização do trabalho pra se defender do abuso do capital. A urna e sempre mais favorável à igualdade e o mercado insisto, não é compatível com a igualdade. Então à medida que você tem esse sistema que se chama de capitalista, dê a ele o nome que você quiser, e o processo democrático, se, digamos, o mercado abusa de seu poder econômico, da sua dominação sobre o trabalhador, a urna vem e corrige. Se a urna exige mais igualdade o mercado vem e corrige porque não tem mais crescimento. Você erra no meio do caminho, escolhe mal, mas a continuidade do jogo deve levar a construir uma sociedade que chamo de civilizada. O fundamental dessa sociedade civilizada é a igualdade de oportunidades. A posição de cada indivíduo não depende do lugar onde ele nasceu. Não importa se eu fui fabricado na suíte presidencial do Waldorf Astoria depois de uma noite de bale de vestido branco e comprido, ou se eu fui concebido de repente, ao acaso, sem querer numa noite chuvosa embaixo do museu Ipiranga. Uma vez produzido eu sou senhor de direitos. E que direitos? Do direito de produzir meu aparato de compreensão do mundo da mesma forma que o sujeito que nasceu lá no Waldorf Astoria. E o que é fundamental para isso? É o sonho que está na constituição que é saúde e educação universais e gratuitas. Esses são os dois mecanismos que produzem a igualdade de oportunidades. Então essa sociedade é muito desigual, essa sociedade é injusta, como é que você da moralidade a essa sociedade? Porque é uma corrida, o capitalismo é uma corrida, o mercado é uma corrida, o mercado é passar na cabeça do outro, você pisa na cabeça do outro, é uma competição, como diz ele mesmo. Quando é que a corrida é justa? Quando todo mundo sai do mesmo ponto. Isto é igualdade de oportunidade. A chegada depende da tua sorte, do DNA, das circunstâncias, chegar atrás não é pecado, chegar na frente não é pecado, desde que vocês tenham partido do mesmo lugar. Então essa sociedade tem uma qualidade e ela é extraída da qualidade da igualdade de oportunidade. Quanto maior for a igualdade de oportunidade, digamos mais justificativa moral você tem você ter um sistema que é economicamente eficiente. *** *** http://www.sbhc.org.br/arquivo/download?ID_ARQUIVO=2790 *** ***
*** Beduka Resumo de Vidas Secas - Graciliano Ramos - Vestibular - ENEM *** seca e branca por cima, preta e mole por baixo. (p. 11/58) depois tomara conta da casa deserta. (p. 11/58) encolhia-se na presença dos brancos e julgava-se cabra. (p. 11/58) Apossara-se da casa porque não tinha onde cair morto, (p. 12/58) Viera a trovoada. (p. 12/58) Ele, Sinha Vitória, os dois filhos e a cachorra Baleia estavam agarrados à terra. (p. 12/58) Entristeceu. Considerar-se plantado em terra alheia! Engano. A sina dele era correr mundo, andar para cima e para baixo, à toa, como judeu errante. Um vagabundo empurrado pela seca. Achava-se ali de passagem, era hóspede. Sim senhor, hóspede que demorava demais, tomava amizade à casa, ao curral, ao chiqueiro das cabras, ao juazeiro que os tinha abrigado uma noite. (p. 12/58) E falava uma linguagem cantada, monossilábica e gutural, que o companheiro entendia. (p. 12/58) As vezes utilizava nas relações com as pessoas a mesma língua com que se dirigia aos brutos - exclamações, onomatopéias. Na verdade falava pouco. Admirava as palavras compridas e difíceis da gente da cidade, tentava reproduzir algumas, em vão, mas sabia que elas eram inúteis e talvez perigosas. (p. 12/58) Uma das crianças aproximou-se, perguntou-lhe qualquer coisa. Fabiano parou, franziu a testa, esperou de boca aberta a repetição da pergunta. Não percebendo o que o filho desejava, repreendeu-o. O menino estava ficando muito curioso, muito enxerido. Se continuasse assim, metido com o que não era da conta dele, como iria acabar? Repeliu-o, vexado: - Esses capetas têm idéias... (p. 12/58) Não completou o pensamento, mas achou que aquilo estava errado. Tentou recordar o seu tempo de infância, viu-se miúdo, enfezado, a camiSinha encardida e rota acompanhando o pai no serviço do campo, interrogando-o debalde. Chamou os filhos, falou de coisas imediatas, procurou interessá-los. Bateu palmas - Ecô! ecô! (p. 12/58) A cachorra Baleia saiu correndo entre os alastrados e quipás, farejando a novilha raposa. Depois de alguns minutos voltou desanimada, triste, o rabo murcho. Fabiano consolou-a, afagou-a. Queria apenas dar um ensinamento aos meninos. Era bom eles saberem que deviam proceder assim. (p. 12/58) Felizmente a novilha estava curada com reza. Se morresse, não seria por culpa dele. (p. 12/58) - Eco! ecô! Baleia voou de novo entre as macambiras, inutilmente. As crianças divertiram-se, animaram-se, e o espírito de Fabiano se destoldou. Aquilo é que estava certo. Baleia não podia achar a novilha num banco de macambira, mas era conveniente que os meninos se acostumassem ao exercício fácil - bater palmas, expandir-se em gritaria, seguindo os movimentos do animal. A cachorra tornou a voltar, a língua pendurada, arquejando. Fabiano tomou a frente do grupo, satisfeito com a lição, pensando na égua que ia montar, uma égua que não fora ferrada nem levara sela. Haveria na catinga um barulho medonho. (p. 12/58) Agora queria entender-se com Sinha Vitória a respeito da educação dos pequenos. Certamente ela não era culpada. Entregue aos arranjos da casa, regando os craveiros e as panelas de losna, descendo ao bebedouro com o pote vazio e regressando com o pote cheio, deixava os filhos soltos no barreiro, enlameados como porcos. E eles estavam perguntadores, insuportáveis. Fabiano dava-se bem com a ignorância. Tinha o direito de saber? Tinha? Não tinha. (p. 13/58) Os outros brancos eram diferentes. O patrão atual, por exemplo, berrava sem precisão. Quase nunca vinha à fazenda, só botava os pés nela para achar tudo ruim. O gado aumentava, o serviço ia bem, mas o proprietário descompunha o vaqueiro. Natural. Descompunha porque podia descompor, o Fabiano ouvia as descomposturas com o chapéu de couro debaixo do braço, desculpava-se e prometia emendar-se. Mentalmente jurava não emendar nada, porque estava tudo em ordem, e o amo só queria mostrar autoridade, gritar que era dono. Quem tinha dúvida? (p. 13/58) Fabiano, uma coisa da fazenda, um traste, seria despedido quando menos esperasse. Ao ser contratado, recebera o cavalo de fábrica, perneiras, gibão, guarda-peito e sapatões de couro cru, mas ao sair largaria tudo ao vaqueiro que o substituísse. (p. 13/58) Sinha Vitória desejava possuir uma cama igual à de seu Tomás da bolandeira. Doidice. Não dizia nada para não contrariá-la, mas sabia que era doidice. Cambembes podiam ter luxo? E estavam ali de passagem. Qualquer dia o patrão os botaria fora, e eles ganhariam o mundo, sem rumo, nem teriam meio de conduzir os cacarecos. Viviam de trouxa arrumada, dormiriam bem debaixo de um pau. (p. 13/58) Olhou a catinga amarela, que o poente avermelhava. Se a seca chegasse, não ficaria planta verde. Arrepiou-se. Chegaria, naturalmente. Sempre tinha sido assim, desde que ele se entendera. E antes de se entender, antes de nascer, sucedera o mesmo - anos bons misturados com anos ruins. A desgraça estava em caminho, talvez andasse perto. Nem valia a pena trabalhar. (p. 13/58) Ele marchando para casa, trepando a ladeira, espalhando seixos com as alpercatas - ela se avizinhando a galope, com vontade de matá-lo. (p. 13/58) Virou o rosto para fugir à curiosidade dos filhos, benzeu- se. Não queria morrer. Ainda tencionava correr mundo, ver terras, conhecer gente importante como seu Tomás da bolandeira. Era uma sorte ruim, mas Fabiano desejava brigar com ela, sentir-se com força para brigar com ela e vencê-la. Não queria morrer. Estava escondido no mato como tatu. Duro, lerdo como tatu. Mas um dia sairia da toca, andaria com a cabeça levantada, seria homem. (p. 14/58) - Um homem, Fabiano. (p. 14/58) Coçou o queixo cabeludo, parou, reacendeu o cigarro. Não, provavelmente não seria homem: seria aquilo mesmo a vida inteira, cabra, governado pelos brancos, quase uma rês na fazenda alheia. (p. 14/58) Tudo seco em redor. E o patrão era seco também, arreliado, exigente e ladrão, espinhoso como um pé de mandacaru. (p. 14/58) Indispensável os meninos entrarem no bom caminho, saberem cortar mandacaru para o gado, consertar cercas, amansar brabos. Precisavam ser duros, virar tatus. Se não calejassem, teriam o fim de seu Tomás da bolandeira. Coitado. Para que lhe servira tanto,livro, tanto jornal? Morrera por causa do, estômago doente e das pernas fracas. (p. 14/58) Um dia... Sim, quando as secas desaparecessem e tudo andasse direito... Seria que as secas iriam desaparecer e tudo andar certo? Não sabia. Seu Tomás da bolandeira é que devia ter lido isso. Livres daquele perigo, os meninos poderiam falar, perguntar, encher-se de caprichos. (p. 14/58) Agora tinham obrigação de comportar-se como gente da laia deles. (p. 14/58) Alcançou o pátio, enxergou a casa baixa e escura, de telhas pretas, deixou atrás os juazeiros, as pedras onde se jogavam cobras mortas, o carro de bois. As alpercatas dos pequenos batiam no chão branco e liso. A cachorra Baleia trotava arquejando, a boca aberta. (p. 14/58) Aquela hora Sinha Vitória devia estar na cozinha, acocorada junto à trempe, a saia de ramagens entalada entre as coxas, preparando a janta. Fabiano sentiu vontade de comer. Depois da comida, falaria com Sinha Vitória a respeito da educação dos meninos. (p. 14/58) ********************************************************************************************* ***
*** SciELO SciELO - Brasil - Antonio Delfim Netto Antonio Delfim Netto *** A introdução de computadores no Ministério da Fazenda: entrevista com Antônio Delfim Netto1 The introduction of computers in the Ministry of Finance: interview with Antônio Delfim Neto Lucas de Almeida Pereira Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo | IFSP O economista Antônio Delfim Netto é figura icônica na história econômica e política do Brasil, especialmente por seu trabalho como ministro durante os governos militares, inicialmente em um período de sete anos no Ministério da Fazenda (1967-1974) e outros seis na Secretária de Planejamento da Presidência (1979-1985). Esta entrevista aborda um aspecto pouco conhecido da atuação de Delfim na Fazenda: a consolidação do uso de processamento eletrônico de dados para fins tributários e fiscais. Durante sua gestão o Serviço Federal de Processamento de Dados (SERPRO) passou a atuar de forma mais efetiva no Departamento de Imposto de Renda e para além dele, por meio de contratos de parceria e consultoria técnica com a Caixa Econômica Federal, Correios, entre outras grandes empresas. Trata-se de um período de informatização da administração pública nacional que foi, em grande parte, capitaneada pelo SERPRO, seja em consultorias, seja na assistência técnica. Ao longo da entrevista veremos que o contato de Delfim com computadores deu-se ainda na primeira metade da década de 1960, enquanto professor da Faculdade de Economia e Administração da USP. Neste período ele e outros pesquisadores da FEA utilizavam o primeiro computador adquirido pela universidade, instalado no Centro de Cálculo Numérico, modelo IBM 1620, em cálculos de econometria. Foi assim que ocorreram os primeiros contatos entre Delfim e o jovem engenheiro José Dion de Melo Teles, que havia se formado há pouco tempo no ITA.2 Delfim chegou a pensar em implantar o uso de computadores na secretaria da fazenda do Estado de São Paulo, em seu período como secretário na gestão de Laudo Natel, o que só aconteceria a partir de 1969 com a criação do PRODESP. Em 1967 ao assumir o Ministério da Fazenda, convocado por Costa e Silva, que um sistema de processamento de dados em sistema fazendário foi utilizado em larga escala a partir da reformulação do Serviço Federal de Processamento de Dados (SERPRO), empresa pública federal de processamento de dados que havia sido criado em 1964 mas não era totalmente operacional. É importante frisar neste caso que o uso de computadores no Ministério da Fazenda era discutido desde o início da década de 1960. Até 1964 os Na edição de O Globo de 12 de março de 1964 o último ministro fazenda de João Goulart, Nei Galvão, afirmava ser fundamental a aquisição de quatro computadores modelo UNIVAC 1004/07 argumentando que “se torna urgente a aquisição uma vez que a paralisação dos serviços mecanizados naquelas delegacias importará em Revista Brasileira de História da Ciência, Rio de Janeiro, v. 9, n. 1, p. 139-147, jan | jun 2016 140 verdadeiro colapso na arrecadação de tributos, com consequências imprevisíveis na execução orçamentária do corrente exercício” (O GLOBO, 12/03/64, p. 6). O fato de indicar a marca e modelo demonstram que não havia a intenção de se abrir um processo de licitação nessa compra, que se realizada, alcançaria os milhões de dólares. O projeto de Galvão não foi adiante em função do golpe militar de 1º de Abril de 1964, mas a ideia de informatizar a fazenda manteve-se entre as prioridades do novo governo, que se apoiaria, neste sentido, nas recomendações advindas da Comissão de Reforma do Ministério da Fazenda. Em meados de 1963, alguns meses antes das declarações de Nei Galvão ao Globo, foi formado o contrato entre o Ministério da Fazenda e a Fundação Getúlio Vargas (FGV), cujo objetivo era elaborar um conjunto de pareceres técnicos acerca de uma reforma administrativa e tributária no ministério. O projeto foi o maior contato de consultoria realizado no país até então, com valor de aproximadamente 200 milhões de reais, estendeu-se ao longo três anos e seus resultados foram publicados em 38 volumes, sendo dois deles integralmente voltados ao SERPRO.3 Ainda sem equipamentos o SERPRO foi inaugurado mediante Decreto-lei em dezembro de 1964, mas manteve-se em atividades restritas, sendo incapaz atender de fato sua principal demanda, a automação das atividades referentes ao imposto de renda. Ao assumir a Fazenda, Delfim Netto, em confluência com as diretrizes do projeto de reforma do ministerial, buscou dotar o SERPRO de maior autonomia, alterando inclusive seu estatuto em agosto de 1970. Ele também decidiu colocar à frente da empresa pública o engenheiro Dion Teles, que havia conhecido no período da USP, com a missão de informatizar a apuração do imposto de renda, processo que começou em 1968 e alcançou números expressivos: entre 1968 e 1969 o número de contribuintes do IR saltou de menos de um milhão para aproximadamente treze milhões, sendo que apenas em 1969, ano no qual o SERPRO passou a ser totalmente operacional, saltou de 403.400 para 4.438.480 declarações (Cf. Ministério da Fazenda, 2010). A partir de 1976 e com o fim do chamado “milagre econômico” e a crise do petróleo o número de declarações caiu, também bruscamente, se estabilizando em cerca de cinco milhões de declarações anuais. Podemos observar esse movimento a partir do gráfico abaixo: Gráfico I – Evolução do número de declarações do imposto de renda Fonte: Relatórios da Delegacia Geral, da Diretoria, da Divisão e do Departamento do Imposto de Renda e sistemas gerenciais da SRF. Disponível em Ministério da Fazenda, 2010. A partir da gestão de Delfim os computadores passaram a ter crescente relevância no Ministério da Fazenda, a adoção de políticas como o PIS, a criação do Cadastro de Informação do Contribuinte (CIC) – documento de caráter fiscal que tornou-se um dos principais documentos sociais do país o Cadastro de Pessoa Física (CPF) – contribuíram para o crescimento vertiginoso do mercado de informática no Brasil entre 1969 e 1974.4 Neste sentido foram discutidas a questão do mercado e da política nacional de informática. Revista Brasileira de História da Ciência, Rio de Janeiro, v. 9, n. 1, p. 139-147, jan | jun 2016 141 A entrevista não se resume à questão do processamento de dados, Delfim Netto tratou também da relação das Forças Armadas com a ciência e tecnologia em áreas como o Programa Nacional de Energia Nuclear e as telecomunicações, bem como de temas relacionados à sua formação e trabalho em ministérios. Lucas Pereira: Em algumas entrevistas o s.r. se definiu como um socialista fabiano no início de carreira e posteriormente trilhou por um caminho mais liberal. Como o s.r. encarava a relação entre desenvolvimento e tecnologia? Antônio Delfim Neto: Deixa eu lhe dizer, socialismo Fabiano foi um sonho de juventude pode parecer incrível mas era coisa de 15, 16 anos quando eu era office boy na companhia Gessy Industrial e lá tinha um companheiro, Airton Alves Aguiar, que era muito competente, e lia muito e ele acabou me induzindo a ler os livros do Hg Wells, daquela... Você é muito moço para saber disso, da companhia nacional, que era uma coletânea dirigida pelo Monteiro Lobato e pelo Rangel, introduziu os livros do H.G. Wells, de lá eu acabei me enfiando nesse jogo. O socialismo Fabiano é uma coisa muito interessante porque ele avançaria no fundo sempre democraticamente, por eleição e tudo isso, mas tinha um defeito nisso, eu percebi depois, é que no programa original estava a nacionalização dos fatores de produção, depois eu aprendi que isso não funciona, não tem como funcionar e foi uma coisa que acompanhou o fracasso do socialismo o tempo todo. Não tinha. No fundo no fundo eu me libertei um pouco dessas ideias foi quando eu estava no primeiro ano da USP, no segundo ano, quando eu li um livro do Stigler sobre teoria de preços. Ai me convenci de que tudo aquilo era no fundo um sonho generoso. Me convenci de que pra resolver o socialismo você tem que compatibilizar três valores que são incompatíveis: a liberdade, a igualdade e a eficiência. A igualdade briga com a liberdade. De fato, a igualdade mata a liberdade. Cada vez que a igualdade supera o valor da liberdade ela afoga a liberdade e que igualdade e eficiência é muito pouco provável por que para obter eficiência você precisa de uma certa hierarquia, os três valores não podem ser obtidos juntos. Desde então a minha ideia era o seguinte, como é que você constrói essa sociedade, já que é impossível deles serem maximizados ao mesmo tempo. Você tem que encontrar um jeito de se aproximar deles. E eu acho que o que o homem descobriu quase por uma seleção genética e que a única forma de se aproximar deles é através do jogo entre o mercado e a urna. A urna e um produto do sufrágio universal. O que é o sufrágio universal? É o produto da organização do trabalho pra se defender do abuso do capital. A urna e sempre mais favorável à igualdade e o mercado insisto, não é compatível com a igualdade. Então à medida que você tem esse sistema que se chama de capitalista, dê a ele o nome que você quiser, e o processo democrático, se, digamos, o mercado abusa de seu poder econômico, da sua dominação sobre o trabalhador, a urna vem e corrige. Se a urna exige mais igualdade o mercado vem e corrige porque não tem mais crescimento. Você erra no meio do caminho, escolhe mal, mas a continuidade do jogo deve levar a construir uma sociedade que chamo de civilizada. O fundamental dessa sociedade civilizada é a igualdade de oportunidades. A posição de cada indivíduo não depende do lugar onde ele nasceu. Não importa se eu fui fabricado na suíte presidencial do Waldorf Astoria depois de uma noite de bale de vestido branco e comprido, ou se eu fui concebido de repente, ao acaso, sem querer numa noite chuvosa embaixo do museu Ipiranga. Uma vez produzido eu sou senhor de direitos. E que direitos? Do direito de produzir meu aparato de compreensão do mundo da mesma forma que o sujeito que nasceu lá no Waldorf Astoria. E o que é fundamental para isso? É o sonho que está na constituição que é saúde e educação universais e gratuitas. Esses são os dois mecanismos que produzem a igualdade de oportunidades. Então essa sociedade é muito desigual, essa sociedade é injusta, como é que você da moralidade a essa sociedade? Porque é uma corrida, o capitalismo é uma corrida, o mercado é uma corrida, o mercado é passar na cabeça do outro, você pisa na cabeça do outro, é uma competição, como diz ele mesmo. Quando é que a corrida é justa? Quando todo mundo sai do mesmo ponto. Isto é igualdade de oportunidade. A chegada depende da tua sorte, do DNA, das circunstâncias, chegar atrás não é pecado, chegar na frente não é pecado, desde que vocês tenham partido do mesmo lugar. Então essa sociedade tem uma qualidade e ela é extraída da qualidade da igualdade de oportunidade. Quanto maior for a igualdade de oportunidade, digamos mais justificativa moral você tem você ter um sistema que é economicamente eficiente. LP: Como se deu sua entrada na secretaria de finanças do Estado de São Paulo? DN: A vida é um acaso, não existe lei histórica, não existe lei de nenhuma natureza isso é tudo papo pra boi dormir, Revista Brasileira de História da Ciência, Rio de Janeiro, v. 9, n. 1, p. 139-147, jan | jun 2016 142 principalmente de economistas e sociólogos de forma que eu primeiro não queria ser economista. Quando estava na Gessy, estava me preparando, tinha terminado, terminei o curso de contador, o velho curso de contador no qual a abertura do curso de contador quando se regularizou a nova profissão os antigos adquiriram a oportunidade de trabalhar na universidade, eu imaginava ser engenheiro, ai abriu se criou a faculdade de economia e eu fui pra faculdade de economia e era muito difícil estudar porque você precisava de tempo integral. E eu fiz o concurso no DR pra poder trabalhar meio dia pra e eu fiz o curso, mostra como isso aqui é um pais fantástico, eu fiz o curso inteirinho e gastei seis mil réis, comprei um selo que era o que se exigia, fui ao correio e comprei um selo de seis mil réis pra passar na língua e colocar no documento em que eu poderia fazer a inscrição na escola por ter sido aprovado no vestibular e nunca mais a universidade me deu tudo, papel, lápis, máquina de calcular, uma roleta pra aprender a jogar probabilidade, tudo, uma biblioteca, ou seja, lá tinha pessoas de vários níveis, todos tendo tido a mesma igualdade de oportunidades, eu tinha nascido no Cambuci que era um bairro pobre e tinha lá gente bem posta familiarmente. Isso mostra que você tinha que é uma sociedade onde você tem a chance de crescer. Eu não escolhi a minha profissão, foi ela que me escolheu. Por isso que eu fui feliz a vida inteira. Eu nunca trabalhei, até hoje eu não trabalho. Eu estou me divertindo aqui com você, quando eu sento pra escrever um artigo eu estou me divertindo, quando tenho a satisfação de fazer uma palestra na escola eu vou com alegria, porque continuo me divertindo. Na minha opinião quando fiz o curso na escola de economia tive muita sorte. Tinha um professor de economia política, era um francês o Paul Hugon, era um institucionalista, um homem muito cuidadoso, tinha uma grande ênfase na história do pensamento econômico, que me ensinou sempre desde o início a ser muito cético, a prestar atenção nos problemas de aproximação metodológica. Depois tive um professor de sociologia o Heraldo Barbuy que era realmente uma coisa fantástica de abertura do mundo. Você imagina que em 49 ele fazia seminários estudando o Simmel, teoria da moeda, então eram coisas formidáveis ele abriu a mente da gente. Nunca foi estritamente apenas técnica de economia, você tinha história tinha uma professora estupenda que era a Alice Canabrava, tinha um professor de moeda crédito e comércio Durval Teixeira Vieira e um professor de matemática muito bom o Stevens. A escola sempre foi muito aberta, eu fui o primeiro aluno que chegou a ser assistente e depois professor e nós sempre mantivemos uma escola aberta. A escola sempre teve marxistas, mainstreams, institucionalistas, nunca houve discriminação. LP: Não havia uma linha ideológica em comum? DN: Nunca teve uma linha ideológica, ela sempre foi muito aberta e caminhou num sentido bastante razoável. Então este processo me levou, eu era professor e assessor, fui pra Associação Comercial como Assessor, em 1952, lá eu encontrei gente fantástica. Pessoas práticas que tinham vindo depois da guerra, que conheciam comércio internacional, sabiam das coisas eram operadores mas não eram operadores como o comerciante comum, eram operadores que tinham curso superior e vieram pro Brasil e todos fizeram fortuna, porque sabiam das coisas. Eu aprendi muito da vida prática ali. Depois fui trabalhar na Bacia Paraná-Uruguai, fui trabalhar pro governo Carvalho Pinto no Plano de Ação, foi talvez o único planejamento que teve algum sucesso. Mas nunca tive nada que ver com o governo. Quando houve a interferência o Adhemar, o Brasil tinha tido a revolução estava se pondo em ordem as finanças públicas e o Adhemar que era uma pessoa muito culta, muito esperta, tinha uma visão profunda, mas ele era arteiro em matéria de finanças, ele fazia arte, então decidiu emitir 100 milhões de Títulos de Crédito de Dívida circulatória do Brasil em São Paulo e que ia destruir o plano do Bulhões e do Roberto Campos, houve intervenção, o vice do Adhemar que tinha sido eleito independente dele, porque naquele tempo você escolhia vice separado, era o Laudo Natel, um sujeito absolutamente brilhante, trabalhou a vida inteira no Bradesco, brilhante um sujeito cuidadoso, bom administrador e que era meu conhecido na associação comercial e ele foi escolhido, escolhido não porque ele tinha sido eleito, portanto ele foi empossado e ai ele me escolheu pra ser secretário da fazenda. E como eu cheguei a ministro? Por outro acidente. O Costa e Silva e tornaria o presidente da república. Pediu pro Ruy Gomes de Almeida que era presidente da associação comercial do Rio, uma indicação de um economista que tivesse alguns conhecimentos de agricultura e o Rui indicou meu nome. Naquela tempo eu trabalhava com café. LP: O senhor havia escrito uma tese sobre café. Revista Brasileira de História da Ciência, Rio de Janeiro, v. 9, n. 1, p. 139-147, jan | jun 2016 143 DN: É, e ele me convidou pra fazer a palestra. Eu fui fazer a palestra, acho que outubro, não sei, fiz a palestra me despedi e fui embora. Nunca mais tive nenhum contato com ele, era secretário da fazenda continuei secretário da fazenda. O Laudo saiu entrou o Sodré escolhido pela Assembleia e o Sodré me convidou para continuar. Um dia desses chegando em fevereiro de 1867 eu recebo uma carta do costa e silva me convidando pra ser ministro. Por carta, nunca LP: Pessoalmente nada? DN: Nada, nada. E é assim que eu cheguei e fui embora posteriormente. Ou seja, a vida é um acidente, a história é um acaso. LP: É descontínua... DN: É.... LP: A administração paulista foi pioneira no uso de computadores para cálculo de impostos, como o senhor avalia essa experiência? DN: Na verdade nós, na secretaria da fazenda trouxemos um computador, um 1130 (IBM) e a sociedade era mais ingênua, você tinha uma ideia falsa do que era um computador. LP: Cérebro eletrônico... DN: É, então o nosso marqueteiro inventou uma história, a publicidade era uma fotografia do 1130 que era uma coisa misteriosa e dizia ele está de olho em você, que era pro sujeito pagar imposto, você compreende. Já era um outro. Estava havendo uma revolução na administração pública do mundo inteiro quando nós fomos para o governo federal o Amílcar de Oliveira Lima nos ajudou, trabalhou comigo a vida inteira, nós fizemos o SERPRO, introduzimos o sistema de computação no Brasil inteiro, na Receita Federal. Nos anos 1970 a receita federal brasileira era usada como exemplo pelo Banco Mundial para os países subdesenvolvidos. Naquele tempo chamava mundo subdesenvolvido, hoje é emergente. A lei de proteção à informática foi outro negócio, infelizmente muito mal feito porque foi entregue a pessoas primitivas, atrasou inclusive o setor industrial. Quando nós tínhamos um programa formidável de construir uma base exportadora da indústria automobilística que foi um programa muito bem sucedido e depois como tudo no Brasil não se procede você não podia por tecnologia embarcada, isso atrasou o Brasil de maneira importante. Eram decisões que tinham outro objetivo. No fundo o domínio da técnica de TI era igual à necessidade do domínio da tecnologia do átomo. As duas estavam ligadas. Ninguém fez o controle de TI simplesmente por prazer de controle, tinha um objetivo final que era dominar o átomo e o TI, e o vetor portador que é o foguete. E tudo isso exigia o que? TI à vontade, TI que não existia disponível, existia disponível pra você comprar o computador mas não havia pra fabricar o seu programa então algumas pessoas eu acho levaram esse setor que estava encarregado desse programa a acreditar que podiam levar o país a um programa independente. Não podia como não aconteceu, mas são duas coisas completamente diferentes. O programa de TI e o programa de modernização do serviço público através de TI. LP: Eu gostaria de voltar depois à essa questão da lei de informática, mas antes pouco tempo após sua chegada ao ministério foi concluída a redação do projeto de reforma do Ministério da Fazenda que foi encaminhado pela FGV desde 1962, e nela se propõe a construção de um serviço de processamento de dados. Quando o s.r. chegou à Fazenda buscou aplicar elementos do relatório? DN: Nos levamos em conta isso ai, mas realmente aquilo foi uma situação autóctone na fazenda, porque você juntou os fiscais, você mudou completamente o regime, uma mudança completa do sistema. Isso se deve muito, basicamente, ao trabalho do Amílcar de Oliveira Lima. LP: Em 1964 foi criado o SERPRO mas ele só foi funcionar efetivamente... DN: Só em 1967-1968. Revista Brasileira de História da Ciência, Rio de Janeiro, v. 9, n. 1, p. 139-147, jan | jun 2016 144 LP: Exato, qual a importância dele dentro do ministério da fazenda? DN: Ele era fundamental, se você quisesse ter uma secretaria da Receita eficiente não tinha outro caminho. E ai o Dion teve um papel importante, o Dion Teles. Ou seja, nos estávamos cercado de gente muito competente nesse processo. LP: No Globo de 16 de outubro de 67 aparecia uma nota que informava que o s.r. estava organizando um grupo de trabalho composto por membros do Serpro, da secretaria da fazenda da Guanabara e da ABRACE visando incentivar o uso de processamento de dados na gestão. Desde o início o s.r. tinha esse pensamento? DN: Sem dúvidas, eu tinha saído da secretaria de São Paulo, aqui era a coisa mais simples porque realmente o ministro da fazenda tinha uma certa importância nomeação dos secretários da fazenda. Na verdade tinha um grupo, todos se conheciam, todos eles eram gente preparada que tinha qualificação, era gente preparada compreende? De forma que tudo isso não nasceu por acaso, isso foi um projeto. LP: E durante esse projeto ocorreu na arrecadação do imposto de renda um crescimento exponencial inédito, atingindo mais de 10 milhões de declarações contra 1 e meio, dois anteriormente, como se deu esse processo de aprimoramento da fazenda e qual o peso dele na primeira metade da década de 1970? DN: Acontece o seguinte, o governo não cria nada, o governo é um transferidor de recursos. A ideia de que o governo produz recursos é muito mais antiga e voltou depois. Quer dizer, a partir de 1964 ninguém acreditava que o governo cria recurso, a gente sabia que o governo é um transferidor de recurso e em geral um péssimo transferidor de recursos, porque o governo precisa transferir 10, ele pega 10 de imposto consome cinco e transfere cinco. Isso era assim até 1964, como foi assim depois de 1985, você tem um interregno que terminou, agora voltou depois do plano real melhorou um pouco. Mas a Fazenda não. A Fazenda teve um aprimoramento constante, hoje eu não tenho dúvida que a Secretaria da Fazenda, a Secretaria da Receita é uma das coisas mais bem constituídas no Brasil, com gente com tradição, com hierarquia, com preparo, ela se cultiva, ela tem cursos na escola de administração. São duas instituições, na minha opinião, de alta capacitação. A qualidade do serviço público melhorou muito, o que piorou foram os governos, isso é outra coisa, mas a qualidade do operador do serviço público melhorou muito. Eles são hoje muito mais qualificados do que eram no passado, mas obviamente quem controla isso é a política. LP: Os seus primeiros anos no ministério da Fazenda também coincidem com um forte investimento estrangeiro de algumas agências notadamente a USAID, no Brasil e a USAID também teve algumas relações com o SERPRO e com alguns setores de informática, qual o peso dos aportes da usai na sua gestão? DN: Foram importantes, até como concepção. Produzia uma economia de recursos enorme. Quando nós entramos no programa que recebia trigo subsidiado o que você fazia com o recurso? Estava investindo, você está recebendo trigo mais barato, mas está pondo dinheiro em obra pública, basta ver o seguinte, nesse período a carga tributária era 23, 24% do PIB e o investimento público era 5% do PIB. Você sabe que praticamente para manter o nível da máquina pública de investimento, digamos simplesmente para restabelecer o valor do patrimônio utilizado você precisa de dois e meio, três por cento ao ano que é a taxa de depreciação, eles tem trinta anos mais ou menos que é a taxa de vida. Hoje você investe menos do que três você está consumindo patrimônio, você não está acrescentando está construindo (erro consumindo) capital e não está acrescentando capital. De forma que, era o seguinte, 33, 34, 23 24 era a regra de 19 cinco era investimento logo o estado investia cinco por cento do PIB. Hoje a carga tributária é de trinta e seis por cento, o investimento não chega a dois, logo o estado consome 34 por cento do PIB. Isso é uma questão elementar não precisa ser físico quântico qualquer sujeito sabe que o setor privado é mais eficiente que o setor público. Qualquer um de nós que frequenta a universidade sabe que aquilo lá e uma instituição pública. O serviço público tem o seu próprio tempo. Ele funciona arrastado, começa na terça feira de manhã na verdade e termina na quinta-feira à noite, o fim de semana é mais comprido, eles se cultivam, tem um sistema em que não é eficiente. Na administração pública todos se acomodam com certo nível de esforço e não maximiza nada está todo mundo acomodado naquele nível. O que acontece se o setor privado é mais produtivo que o setor publica, se eu aumento a transferência para o setor público Revista Brasileira de História da Ciência, Rio de Janeiro, v. 9, n. 1, p. 139-147, jan | jun 2016 145 eu estou dando mais peso para o setor que tem menos eficiência. A taxa de crescimento deve cair, é uma questão de aritmética, não é uma questão de economia. LP: Em 71 a USAID encerrou as atividades, isso impactou para o Brasil? Eu falo no sentido de que os Soft Loans terem sido muito importantes, especialmente no período do campos. DN: Não em 67 já tinha diminuído muito. Ela foi muito importante no ajuste inicial. Foi um ajuste brutal. Bom, o trabalho do Campos e do Bulhões é uma coisa extraordinária. Nos primeiros três anos do Castello ele realmente puseram ordem no país. Promulgou uma constituinte, uma constituição bastante razoável, teve um papel muito importante, mas eles nos ajudaram. Quando terminou a USAID nós já tínhamos musculatura pra continuar sozinhos. LP: EM 69 o s.r. fez o encerramento do primeiro Congresso Nacional de Processamento de Dados lá no Hotel da Glória no Rio de Janeiro, como analisa a comunidade de processamento de dados naquele período? DN: Nós estávamos tentando estimular o crescimento do setor. E deve ser isso, eu nem me lembro mais do discurso, mas ele deve estar lá... LP: Era sobre tecnologia e sociedade. DN: Era aquela concepção que dominava o governo naquele instante. LP: E como que era pro s.r. um indivíduo mais liberal lidar com as ideias mais nacionalistas do regime? DN: Não tem nada a ver uma coisa com a outra. Eu sempre defendi e continuo defendendo você não pode produzir tudo. Mas as vantagens comparativas não são dadas por Deus. As vantagens comparativas são construídas. O Brasil construiu enormes vantagens comparativas, eu não tenho... a minha ideia... eu não sou a favor de estado mínimo, eu sou a favor de estado eficiente. De forma que a minha concepção sempre implicou em uma intervenção importante do estado. Não só com planejamento... quer dizer não é um planejamento soviético um planejamento socialista essas bobagens, era um planejamento indicativo em que você da pro setor privado um horizonte de quatro cinco anos pra frente e na medida que vai se completando o setor privado vai acreditando e despertando o seu espírito animal para investir. Então esse é o ponto central. Economia é confiança, economia é um estado de espirito, só cresce quem acha que vai crescer. Por isso que eu fico triste com o estado de espirito que existe hoje. Hoje o sujeito todo tem há dificuldades, mas qual é a situação dele? Ele sai daqui e senta ali na guia da esquina e vai lá chorar. Não, pra sair de onde está tem que sair daqui e trabalhar. Então a incorporação do conhecimento técnico era fundamental. LP: Durante sua atuação no ministério da fazenda o uso de computadores no Brasil tem um crescimento exponencial chegando em 74 a ser a terceira pauta de importação do país. Existia uma estratégia do governo em relação a esta tecnologia? DN: Existia, mas eu acho que o programa do governo em vez de ajudar atrapalhou. Porque tinha uma demanda muito grande. De novo, foi uma ambição exagerada, porque tinham outros objetivos. É o que eu digo, a indústria de computadores era um instrumento, o Brasil queria na verdade o domínio da tecnologia do átomo, o governo queria o domínio da tecnologia do vetor portador e esta tecnologia as duas coisas dependem basicamente de altos mecanismos de computação que não são cedidos. Não adianta você querer comprar um computador pra trabalhar na tecnologia da a tecnologia atômica, não está à venda. Não adianta você querer comprar um computador, você está construindo um vetor portador, não está à venda e quando você compra vem com restrições. Então por isso que eu digo, tinha o objetivo, talvez fosse, o objetivo até era correto mas o mecanismo pra atingi-lo é que prejudicou o outro. Então você importava tudo. O problema é que depois isso aumentou enormemente o custo da tarifa. LP: O s.r. fez parte da SEPLAN entre 79 e 85, período de gestão, tramitação e aprovação da que ficou conhecida como Lei de Informática. Em 79 foi criada o Serviço Especial de Informação (SEI), tendo assinado o decreto lei o presidente Figueiredo, o chefe do gabinete militar Danilo Venturini e o s.r. Como equacionava suas perspectivas com as do SEI? Revista Brasileira de História da Ciência, Rio de Janeiro, v. 9, n. 1, p. 139-147, jan | jun 2016 146 DN: Era contrário, tanto eu quanto o Ernane Gauvêas que era ministro da fazenda e teve um papel muito importante no debate interno contra a lei da SEI. A lei da SEI é o que eu disse, havia outro objetivo. Eu assinei mesmo, eu fazia parte do governo mas tanto o Ministério do Planejamento como o ministério da Fazenda eram contra os exageros da lei. LP: A SEI tentava trazer para si coisas demais? DN: A SEI tentava trazer pra si coisas que eles nem sabiam. O problema da SEI é um problema interessante que é o da ignorância. Você legisla sobre o que não saber que está legislando. Era míope, essa era a verdade. LP: A sei tinha um caráter mais militar do que técnico. DN: A ideia é que você tinha que desenvolver a capacitação de computação pra objetivos claros, que eram o domínio do átomo e do vetor portador. LP: Como o s.r. avalia a lei de informática especialmente no tocante a capital nacional e externo e a reserva de mercado? DN: A reserva de mercado não teve efeito, tanto é verdade que o resultado foi pífio. Você fez reserva de mercado e não desenvolveu tecnologia interna nenhuma, senão desenvolveu pouca coisa. Ela era muito exigente em componente nacional. Infelizmente nós tínhamos objetivos contraditórios. O objetivo da Lei de Informática era uma capacitação de cálculo para resolver dois problemas que não existia disponibilidade lá fora. Nisso você matou um coelho que não tinha nada a ver com isso, que era o uso da tecnologia para o uso da indústria nacional, para a incorporação de benefícios, para a generalização do uso de computador. Aqui é o que eu digo, governo não é aquilo que você quer. Você é solidário com aquilo, você e solidário com o teu governo. Eu assinei aquilo em solidariedade ao governo, e depois de ter sido vencido na argumentação, é isso. Mas eu quero insistir que o grande opositor interno foi o ministro Gauvêas. LP: Numa entrevista mais recente vinculada ao valor econômico, o s.r. comentou que não utilizava computador, como vê a diversificação de usos do processamento de dados? DN: Eu vejo com normalidade. Eu não estou no computador, mas está tudo aqui, eles me passam, eu leio e devolvo, eu continuo funcionando, eu não tenho proficiência no computador, tanto que eu não escrevo meus artigos no computador, eu continuo escrevendo na máquina porque o barulho da máquina é que me inspira. Agora eu vi que fizeram um computadorzinho que você coloca na máquina de escrever e sai na tela, eu até mandei a Bety (secretária do economista) espiar. LP: Nesse caso para encerrar essa entrevista sobre a história da informática e sua participação, o s.r. acha que o Brasil entrou bem ali na década de 1970, 1980 nesse mercado digital? DN: Entrar bem eu acho que talvez fosse um exagero, ele entrou com um pé arrastando. LP: Era o que dava pra se fazer no período? DN: Hoje, olhando em perspectiva, eu diria que se nos tivéssemos sido um pouco mais liberais como insistia o ministro Gauveias, como insistia o (Roberto) Campos, eu acho que o resultado teria sido melhor. Nos teríamos tido menos exigências, mas incorporaríamos a tecnologia quase naturalmente. O excesso de exigências destruiu um bom programa. Como está acontecendo coma Petrobras. Enquanto a Petrobras quiser que 60% de seu fornecimento seja interno e participar de tudo vai dar em porcaria. LP: Quanto à questão das cópias o s.r. havia comentado em uma entrevista de 1973 que não via problemas na ideia da cópia, o problema era o roubo da patente. Como analisa essa questão da tecnologia no Brasil em relação à cópia? DN: Deixa eu lhe dizer, o Brasil sempre foi muito mais respeitador do que a China por exemplo. Nós nunca tivemos a falta de vergonha de copiar direto. Nós nunca tivemos a falta de vergonha de desmontar o carro, reconstruir e dar o seu nome. O Brasil fez uma plataforma de exportação muito bem sucedida o FIEX que foi destruída depois, inclusive pela lei de informática. Você não precisa ter uma fábrica nacional de automóveis. Você precisa ter e uma tecnologia embarcada Revista Brasileira de História da Ciência, Rio de Janeiro, v. 9, n. 1, p. 139-147, jan | jun 2016 147 no Brasil, como era o projeto do FIEX era projetar carros universais no Brasil e nós produzíamos, nós chegamos a ter uma plataforma exportadora importante, sem exigir o absurdo. LP: O s.r. acha que depois de sua administração, a chegada do general Geisel ao governo ajudou a travar o mercado de tecnologia? DN: Na minha opinião o governo do Geisel pagou o preço de não ter entendido o que estava acontecendo no mundo. O Geisel sempre supôs que soubesse mais de petróleo do que Deus. Sempre. Ele imaginava que era um profundo conhecedor do mercado de petróleo e ficou 25 anos a Petrobras produzindo 100 mil barris por dia. Quando veio a crise o Brasil pagou o preço, o Brasil importava 80 do consumo de petróleo, depois ele tentou corrigir, fez contratos de risco mas era tarde. LP: O sr. na época defendia o uso da tecnologia estrangeira para aprimorar a extração. DN: Isso em 72, nos nunca teríamos estourado em 82 se tivéssemos feito aquilo. Mas não fui eu quem falou isso. Quem me disse que ia haver uma confusão se chama Giscard d’Estaing. LP: O sr. foi avisado anteriormente da questão da subida do preço do petróleo? DN: O Giscard me disse em 71 em Roma na reunião do fundo: se prepara Delfim que os árabes vão fazer um cartel. Nos pagávamos um dólar e meio o barril de petróleo, o Giscard disse “vai ser absurdo vão passar para 6”, passaram para 42. LP: Durante sua administração o s.r. tentou a alguma ação? DN: Claro o Geisel se opôs, se você quiser você tem que ouvir o ministro da Energia, Antônio Dias Leite Jr. O Dias Leite participou dessa reunião, aliás acho que essa discrição está no livro dele sobre história da energia. LP: Muito obrigado pelas informações, há algo sobre o tema que o senhor gostaria de acrescentar? DN: Não, não, o que eu sabia eu falei, agora você quer saber o que eu não sei. Notas e referências bibliográficas Lucas de Almeida Pereira é professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo (IFSP), campus Suzano, e pós-doutorando do Programa de Pós-Graduação em ciências Humanas e Sociais da Universidade Federal do ABC. 1 Entrevista concedida ao pesquisador Lucas de Almeida Pereira, Pós-doutorando do Programa de Pós-graduação em ciências Humanas e Sociais da Universidade Federal do ABC. A entrevista foi realizada no escritório de Antônio Delfim Netto no dia 23 de março de 2015. 2 Três dos primeiros operadores do computador do Centro de Cálculo Numérico eram engenheiros recém-formados pelo Instituto de Tecnologia da Aeronáutica: José Dion de Melo Teles, Valdemar Setzer e Antonio Carlos Rego Gil. Sobre a relação entre a primeira geração de engenheiros do ITA ligados à informática ver: DANTAS, V. Iteotas. In: Guerrilha Tecnológica. A verdadeira história da política nacional de informática. Rio de Janeiro: LTC, 1989. 3 Todos volumes publicados pela comissão foram digitalizados e disponibilizados pela Fundação Getúlio Vargas. Disponível no sítio: http://bibliotecadigital. fgv.br/dspace/handle/10438/12368 . 4 Neste período o uso e instalação de computadores no Brasil cresceu na faixa de 30% ao ano, esse crescimento e os custos associados (que impactava no valor total de importações na balança comercial) levou o governo a criar um órgão federal para análise, assistência e controle de importações de computadores, a Comissão de Coordenação das Atividades de Processamento Eletrônico (CAPRE). Para mais informações desse processo ver: HELENA, S. A indústria de computadores: evolução das decisões governamentais. Revista de Administração Pública. v.14, n.4, p. 73 - 109, 1980. Revista Brasileira de História da Ciência, Rio de Janeiro, v. 9, n. 1, p. 139-147, jan | jun 2016 *** *** http://www.sbhc.org.br/arquivo/download?ID_ARQUIVO=2790 *** *** *************************************************************************************************** ***
*** Capítulo II - Fabiano FABIANO curou no rasto a bicheira da novilha raposa. Levava no aió um frasco de creolina, e se houvesse achado o animal, teria feito o curativo ordinário. Não o encontrou, mas supôs distinguir as pisadas dele na areia, baixou-se, cruzou dois gravetos no chão e rezou. Se o bicho não estivesse morto, voltaria para o curral, que a oração era forte. Cumprida a obrigação, Fabiano levantou-se com a consciência tranqüila e marchou para casa. Chegou-se a beira do rio. A areia fofa cansava-o, mas ali, na lama seca, as alpercatas dele faziam chape-chape, os badalos dos chocalhos que lhe pesavam no ombro, pendurados em correias, batiam surdos. A cabeça inclinada, o espinhaço curvo, agitava os braços para a direita e para a esquerda. Esses movimentos eram inúteis, mas o vaqueiro, o pai do vaqueiro, o avô e outros antepassados mais antigos haviam-se acostumado a percorrer veredas, afastando o mato com as mãos. E os filhos já começavam a reproduzir o gesto hereditário. Chape-chape. Os três pares de alpercatas batiam na lama rachada, seca e branca por cima, preta e mole por baixo. A lama da beira do rio, calcada pelas alpercatas, balançava. A cachorra Baleia corria na frente, o focinho arregaçado, procurando na catinga a novilha raposa. Fabiano ia satisfeito. Sim senhor, arrumara-se. Chegara naquele estado, com a família morrendo de fome, comendo raízes. Caíra no fim do pátio, debaixo de um juazeiro, depois tomara conta da casa deserta. Ele, a mulher e os filhos tinham-se habituado à camarinha escura, pareciam ratos - e a lembrança dos sofrimentos passados esmorecera. Pisou com firmeza no chão gretado, puxou a faca de ponta, esgaravatou as unhas sujas. Tirou do aió um pedaço de fumo, picou-o, fez um cigarro com palha de milho, acendeu-o ao binga, pôs-se a fumar regalado. - Fabiano, você é um homem, exclamou em voz alta. Conteve-se, notou que os meninos estavam perto, com certeza iam admirarse ouvindo-o falar só. E, pensando bem, ele não era homem: era apenas um cabra ocupado em guardar coisas dos outros. Vermelho, queimado, tinha os olhos azuis, a barba e os cabelos ruivos; mas como vivia em terra alheia, cuidava de animais alheios, descobria-se, encolhia-se na presença dos brancos e julgava-se cabra. Olhou em torno, com receio de que, fora os meninos, alguém tivesse percebido a frase imprudente. Corrigiu-a, murmurando: - Você é um bicho, Fabiano. Isto para ele era motivo de orgulho. Sim senhor, um bicho, capaz de vencer dificuldades. Chegara naquela situação medonha - e ali estava, forte, até gordo, fumando o seu cigarro de palha. - Um bicho, Fabiano. Era. Apossara-se da casa porque não tinha onde cair morto, passara uns dias mastigando raiz de imbu e sementes de mucunã. Viera a trovoada. E, com ela, o fazendeiro, que o expulsara. Fabiano fizera-se desentendido e oferecera os seus préstimos, resmungando, coçando os cotovelos, sorrindo aflito. O jeito que tinha era ficar. E o patrão aceitara-o, entregara-lhe as marcas de ferro. Agora Fabiano era vaqueiro, e ninguém o tiraria dali. Aparecera como um bicho, entocara-se como um bicho, mas criara raízes, estava plantado. Olhou as quipás, os mandacarus e os xiquexiques. Era mais forte que tudo isso, era como as catingueiras e as baraúnas. Ele, Sinha Vitória, os dois filhos e a cachorra Baleia estavam agarrados à terra. Chape-chape. As alpercatas batiam no chão rachado. O corpo do vaqueiro derreava-se, as pernas faziam dois arcos, os braços moviam-se desengonçados. Parecia um macaco. Entristeceu. Considerar-se plantado em terra alheia! Engano. A sina dele era correr mundo, andar para cima e para baixo, à toa, como judeu errante. Um vagabundo empurrado pela seca. Achava-se ali de passagem, era hóspede. Sim senhor, hóspede que demorava demais, tomava amizade à casa, ao curral, ao chiqueiro das cabras, ao juazeiro que os tinha abrigado uma noite. Deu estalos com os dedos. A cachorra Baleia, aos saltos, veio lamber-lhe as mãos grossas e cabeludas. Fabiano recebeu a carícia, enterneceu-se - Você é um bicho, Baleia. Vivia longe dos homens, só se dava bem com animais. Os seus pés duros quebravam espinhos e não sentiam a quentura da terra. Montado, confundia-se com o cavalo, grudava-se a ele. E falava uma linguagem cantada, monossilábica e gutural, que o companheiro entendia. A pé, não se agüentava bem. Pendia para um lado, para o outro lado, cambaio, torto e feio. As vezes utilizava nas relações com as pessoas a mesma língua com quese dirigia aos brutos - exclamações, onomatopéias. Na verdade falava pouco. Admirava as palavras compridas e difíceis da gente da cidade, tentava reproduzir algumas, em vão, mas sabia que elas eram inúteis e talvez perigosas. Uma das crianças aproximou-se, perguntou-lhe qualquer coisa. Fabiano parou, franziu a testa, esperou de boca aberta a repetição da pergunta. Não percebendo o que o filho desejava, repreendeu-o. O menino estava ficando muito curioso, muito enxerido. Se continuasse assim, metido com o que não era da conta dele, como iria acabar? Repeliu-o, vexado: - Esses capetas têm idéias... Não completou o pensamento, mas achou que aquilo estava errado. Tentou recordar o seu tempo de infância, viu-se miúdo, enfezado, a camiSinha encardida e rota acompanhando o pai no serviço do campo, interrogando-o debalde. Chamou os filhos, falou de coisas imediatas, procurou interessá-los. Bateu palmas - Ecô! ecô! A cachorra Baleia saiu correndo entre os alastrados e quipás, farejando a novilha raposa. Depois de alguns minutos voltou desanimada, triste, o rabo murcho. Fabiano consolou-a, afagou-a. Queria apenas dar um ensinamento aos meninos. Era bom eles saberem que deviam proceder assim. Alargou o passo, deixou a lama seca da beira do rio, chegou à ladeira que levava ao pátio. Ia inquieto, uma sombra no olho azulado. Era como se na sua vida houvesse aparecido um buraco. Necessitava falar com a mulher, afastar aquela perturbação, encher os cestos, dar pedaços de mandacaru ao gado. Felizmente a novilha estava curada com reza. Se morresse, não seria por culpa dele. - Eco! ecô! Baleia voou de novo entre as macambiras, inutilmente. As crianças divertiram-se, animaram-se, e o espírito de Fabiano se destoldou. Aquilo é que estava certo. Baleia não podia achar a novilha num banco de macambira, mas era conveniente que os meninos se acostumassem ao exercício fácil - bater palmas, expandir-se em gritaria, seguindo os movimentos do animal. A cachorra tornou a voltar, a língua pendurada, arquejando. Fabiano tomou a frente do grupo, satisfeito com a lição, pensando na égua que ia montar, uma égua que não fora ferrada nem levara sela. Haveria na catinga um barulho medonho. Agora queria entender-se com Sinha Vitória a respeito da educação dos pequenos. Certamente ela não era culpada. Entregue aos arranjos da casa, regando os craveiros e as panelas de losna, descendo ao bebedouro com o pote vazio e regressando com o pote cheio, deixava os filhos soltos no barreiro, enlameados como porcos. E eles estavam perguntadores, insuportáveis. Fabiano dava-se bem com a ignorância. Tinha o direito de saber? Tinha? Não tinha. - Está aí. Se aprendesse qualquer coisa, necessitaria aprender mais, e nunca ficaria satisfeito. Lembrou-se de seu Tomás da bolandeira. Dos homens do sertão o mais arrasado era seu Tomás da bolandeira. Porquê? Só se era porque lia demais. Ele, Fabiano, muitas vezes dissera: - "seu Tomás, vossemecê não regula. Para que tanto papel? Quando a desgraça chegar, seu Tomás se estrepa, igualzinho aos outros." Pois viera a seca, o pobre do velho, tão bom e tão lido, perdera tudo, andava por aí, mole. Talvez já tivesse dado o couro às varas, que pessoa como ele não podia agüentar verão puxado. Certamente aquela sabedoria inspirava respeito. Quando seu Tomás da bolandeira passava, amarelo, sisudo, corcunda, montado num cavalo cego, pé aqui, pé acolá, Fabiano e outros semelhantes descobriam-se. E seu Tomás respondia tocando na beira do chapéu de palha, virava-se para um lado e para outro, abrindo muito as pernas calçadas em botas pretas com remendos vermelhos. Em horas de maluqueira Fabiano desejava imitá-lo: dizia palavras difíceis, truncando tudo, o convencia-se de que melhorava. Tolice. Via-se perfeitamente que um sujeito como ele não tinha nascido para falar certo. Seu Tomás da bolandeira falava bem, estragava os olhos em cima de jornais e livros, mas não sabia mandar: pedia. Esquisitice um homem remediado ser cortês. Até o povo censurava aquelas maneiras. Mas todos obedeciam a ele. Ah! Quem disse que não obedeciam? Os outros brancos eram diferentes. O patrão atual, por exemplo, berrava sem precisão. Quase nunca vinha à fazenda, só botava os pés nela para achar tudo ruim. O gado aumentava, o serviço ia bem, mas o proprietário descompunha o vaqueiro. Natural. Descompunha porque podia descompor, o Fabiano ouvia as descomposturas com o chapéu de couro debaixo do braço, desculpava-se e prometia emendar-se. Mentalmente jurava não emendar nada, porque estava tudo em ordem, e o amo só queria mostrar autoridade, gritar que era dono. Quem tinha dúvida? Fabiano, uma coisa da fazenda, um traste, seria despedido quando menos esperasse. Ao ser contratado, recebera o cavalo de fábrica, perneiras, gibão, guarda-peito e sapatões de couro cru, mas ao sair largaria tudo ao vaqueiro que o substituísse. Sinha Vitória desejava possuir uma cama igual à de seu Tomás da bolandeira. Doidice. Não dizia nada para não contrariá-la, mas sabia que era doidice. Cambembes podiam ter luxo? E estavam ali de passagem. Qualquer dia o patrão os botaria fora, e eles ganhariam o mundo, sem rumo, nem teriam meio de conduzir os cacarecos. Viviam de trouxa arrumada, dormiriam bem debaixo de um pau. Olhou a catinga amarela, que o poente avermelhava. Se a seca chegasse, não ficaria planta verde. Arrepiou-se. Chegaria, naturalmente. Sempre tinha sido assim, desde que ele se entendera. E antes de se entender, antes de nascer, sucedera o mesmo - anos bons misturados com anos ruins. A desgraça estava em caminho, talvez andasse perto. Nem valia a pena trabalhar. Ele marchando para casa, trepando a ladeira, espalhando seixos com as alpercatas - ela se avizinhando a galope, com vontade de matá-lo. Virou o rosto para fugir à curiosidade dos filhos, benzeu- se. Não queria morrer. Ainda tencionava correr mundo, ver terras, conhecer genteimportante como seu Tomás da bolandeira. Era uma sorte ruim, mas Fabiano desejava brigar com ela, sentir-se com força para brigar com ela e vencê-la. Não queria morrer. Estava escondido no mato como tatu. Duro, lerdo como tatu. Mas um dia sairia da toca, andaria com a cabeça levantada, seria homem. - Um homem, Fabiano. Coçou o queixo cabeludo, parou, reacendeu o cigarro. Não, provavelmente não seria homem: seria aquilo mesmo a vida inteira, cabra, governado pelos brancos, quase uma rês na fazenda alheia. Mas depois? Fabiano tinha a certeza de que não se acabaria tão cedo. Passara dias sem comer, apertando o cinturão, encolhendo o estômago. Viveria muitos anos, viveria um século,. Mas se morresse de fome ou nas pontas de um touro, deixaria filhos robustos, que gerariam outros filhos. Tudo seco em redor. E o patrão era seco também, arreliado, exigente e ladrão, espinhoso como um pé de mandacaru. Indispensável os meninos entrarem no bom caminho, saberem cortar mandacaru para o gado, consertar cercas, amansar brabos. Precisavam ser duros, virar tatus. Se não calejassem, teriam o fim de seu Tomás da bolandeira. Coitado. Para que lhe servira tanto,livro, tanto jornal? Morrera por causa do, estômago doente e das pernas fracas. Um dia... Sim, quando as secas desaparecessem e tudo andasse direito... Seria que as secas iriam desaparecer e tudo andar certo? Não sabia. Seu Tomás da bolandeira é que devia ter lido isso. Livres daquele perigo, os meninos poderiam falar, perguntar, encher-se de caprichos. Agora tinham obrigação de comportar-se como gente da laia deles. Alcançou o pátio, enxergou a casa baixa e escura, de telhas pretas, deixou atrás os juazeiros, as pedras onde se jogavam cobras mortas, o carro de bois. As alpercatas dos pequenos batiam no chão branco e liso. A cachorra Baleia trotava arquejando, a boca aberta. Aquela hora Sinha Vitória devia estar na cozinha, acocorada junto à trempe, a saia de ramagens entalada entre as coxas, preparando a janta. Fabiano sentiu vontade de comer. Depois da comida, falaria com Sinha Vitória a respeito da educação dos meninos. *** **** https://cs.ufgd.edu.br/download/Vidas%20Secas%20-%20Graciliano%20Ramos.pdf *** *** **************************************************************************************************** ***
*** terça-feira, 5 de outubro de 2021 Luiz Gonzaga Belluzzo* - O pensamento (conservador) antiliberal Valor Econômico É assustadora a indigência cultural dos que se vêem acima dos cidadãos livres e iguais em sua diversidade Instigado (ou provocado?) pelo avanço do pensamento conservador no Brasil e no mundo, cuidei de me entregar à releitura do livro de Karl Mannheim sobre o tema. “O Pensamento Conservador” é mais uma obra que enriquece os estudos do grande sociólogo, considerado o patrono da sociologia do conhecimento. Os leitores devem saber que ele escreveu um livro fundador - “Ideologia e Utopia” - para o desvendamento das raízes sociais e culturais do pensamento nos mundos da modernidade. Mannheim morreu em 1947 aos 55 anos, na aurora do período mais glorioso e igualitário do capitalismo na Europa e nos Estados Unidos. Entre outras obras, escreveu os clássicos “Ideologia e Utopia” e “Ensaios Sobre a Sociologia da Cultura”. No livro “Liberdade, Poder e Planejamento Democrático”, publicado postumamente, cuidou do papel da educação no fortalecimento das democracias que acordavam dos pesadelos totalitários dos anos 1930. Mannheim acolhe a ideia de Ortega y Gasset sobre o homem educado: aquele que se distingue pelo conhecimento das filosofias que regem sua época. Isso deveria ser complementado, diz ele, por um conhecimento dos fatos que permitam a todos formar ideias sólidas acerca do lugar do homem na natureza e na sociedade. Cabe à educação examinar os problemas de nossa sociedade, especialmente aqueles relacionados com a vida democrática. Uma vez tratadas essas questões fundamentais para o homem moderno, o estudante vai encontrar o lugar adequado para a boa formação profissional. Ainda no livro “Liberdade, Poder e Planejamento Democrático”, Mannheim escreveu: “... não devemos restringir o nosso conceito de poder ao poder político. Trataremos do poder econômico e administrativo, assim como do poder de persuasão que se manifesta através da religião, da educação e dos meios de comunicação de massa, tais como a imprensa, o cinema e a radiodifusão”. Para Mannheim, deve-se temer menos os governos, que podemos controlar e substituir, e muito mais os poderes que exercem sua influência no “interior” das sociedades. Uma das marcas registradas do pensamento conservador, o novo e o velho, é a convicção da bondade natural do indivíduo criado na família. Só a família torna o indivíduo capaz de discernir entre o justo e o injusto, o certo e o errado. A sociedade e as instituições, ao contrário, são corruptas e corruptoras. Não são outros os fundamentos da ideologia da direita brasileira, como ficou demonstrado no discurso do depoente Otávio Fakhoury na CPI da covid. Atolados no neopentecostalíssimo da grana, do desamparo e do ressentimento, esses fiéis, ricos ou pobres, estão convencidos da excepcionalidade de suas virtudes e de suas crenças. No universo do conservadorismo contemporâneo, não só no Brasil, as instituições construídas ao longo da história das sociedades, sobretudo o Estado Moderno, com suas garantias jurídicas e instâncias de controle da violência, são consideradas negacionistas das liberdades. Suas leis ambíguas e seus métodos de punição são considerados insuficientemente rigorosos pelos fanáticos da virtude auto alegada. Para eles, o formalismo da lei transforma a Justiça numa farsa, num procedimento burocrático e ineficaz. Não por acaso, está bem esculpida nos corações e nas mentes dos “homens bons e virtuosos” a figura do vingador, aquele destemido que se desembaraça das limitações dessas instituições corruptas e corruptoras para se dedicar à limpeza do país. A sociedade está suja, contaminada pelo vírus da tolerância. Só o herói solitário pode salvá-la, consultando sua consciência, recuperando, portanto, a força da moral “natural”, aquela que Deus infunde no coração de cada homem. É esse Totalitarismo da Boa-Consciência que reivindica o fechamento do Supremo Tribunal Federal. Nos últimos anos, os “homens bons” não se cansaram de disseminar, em seus tuites e congêneres, as consignas que moveram homenzinhos que se exibem na Avenida Paulista: “direitos humanos só para os humanos direitos”. Nas manifestações dos moralistas transcendentais vejo a autoconvocação dos soi-disant iluminados para substituir a onisciência divina e, nessa condição, desferir sentenças irrecorríveis, como as desferidas pelos juízes do Juízo Final, em contraposição aos humanos, os pobres-diabos que se debatem para sobreviver aos ditames da falibilidade e da incerteza. No estágio atual da sociedade de massas, o controle social despótico dispensa a obviedade dos dólmãs, dos coturnos ou da cadeira do dragão. O totalitarismo do Terceiro Milênio não usa coturnos nem câmaras de gás. Usa a “informação” que não pensa em si mesma. O propósito da manipulação e da espetacularização disparadas nas redes sociais é tornar os indivíduos incapazes de compreender a natureza perversa da frenética guerra de fatos e versões “construídas” sob o acicate da concorrência para alcançar o “fundo do poço”. As redes sociais, onde as ideias e as opiniões deveriam trafegar livremente, se transformaram num espaço policialesco em que a crítica é substituída pela vigilância. A vigilância exige convicções esféricas, maciças, impenetráveis, perfeitas. A vigilância deve adquirir aquela solidez própria da turba enfurecida, disposta ao linchamento. Seria uma descortesia dizer aos conservadores de passeata que desperdiço vela com defunto de segunda. Para não descumprir regras de civilidade, teimo em repetir aos ouvidos de quem quiser escutar: a sociabilidade moderna se move entre a inevitável pertinência a uma cultura produzida pela história e a pluralidade dos indivíduos “livres”. A história dessas sociedades “produziu” o mercado, a sociedade civil, o Estado Moderno, suas liberdades e seus interesses. Essa forma de sociabilidade, reivindicada pelo liberalismo político, rejeita a submissão dos indivíduos livres a transcendências religiosas, moralistas e midiáticas. É assustadora a indigência cultural dos que pretendem se colocar "fora" das misérias do mundo da vida, acima do penoso exercício de compartilhar a razão com os demais cidadãos livres e iguais em sua diversidade. *Luiz Gonzaga Belluzzo é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp *** *** https://gilvanmelo.blogspot.com/2021/10/luiz-gonzaga-belluzzo-o-pensamento.html *** *** *********************************************************************************************** ***
*** domingo, 3 de outubro de 2021 George Gurgel de Oliveira* - Paulo Freire e os desafios da educação brasileira No presente texto, fazemos algumas reflexões sobre a educação, como parte integrante de formação da Cidadania e um dos fundamentos de modernização do Estado e da Sociedade brasileira. É a nossa maneira de homenagear o centenário de nascimento de Paulo Freire que, por toda a vida, buscou a inclusão social, através da educação, como o caminho mais democrático de transformação da sociedade. Lembrando ainda Anísio Teixeira e Darci Ribeiro, referências quando se fala em educação no Brasil, e o nosso incansável Cristovam Buarque, quixotes de uma educação a ser construída com a participação efetiva dos que, no dia a dia, fizeram e fazem a educação no Brasil. Discussão oportuna face a atual realidade brasileira, em plena pandemia, desafiada a transformar o sistema nacional de educação frente à nossa difícil realidade política, econômica, social e ambiental, comprometendo as forças democráticas a pautar a questão da educação como um dos fundamentos de um Programa de Governo reformista a ser construído para as próximas eleições presidenciais, em 2022, com a participação efetiva da sociedade. A educação brasileira continua enfrentando sérias dificuldades que vão se ampliando neste segundo ano de Covid-19, nos colocando o imperativo de avaliar o atual sistema educacional brasileiro nas suas vulnerabilidades e potencialidades, durante e pós Pandemia. A sociedade contemporânea é herdeira da revolução industrial quando a ciência, a tecnologia e a educação profissionalizante começam a ser incorporadas nos processos de produção e distribuição de mercadorias, transformando o cotidiano da humanidade, construindo novas relações políticas, econômicas, sociais, culturais e espirituais da sociedade entre si e com a própria natureza. Desde então, a base técnica, científica e educacional construída criou as condições materiais de resolver a maioria dos problemas sociais, econômicos e ambientais existentes, inclusive os desafios educacionais enfrentados hoje pelo Brasil e por toda a humanidade. A internet, a robótica, a micro-eletrônica, as tecnologias de informação, os novos materiais e as energias renováveis entraram definitivamente nas nossas vidas, transformando as relações sociais estabelecidas, modificando a maneira de ser e estar das pessoas em sociedade. Como os que trabalham com educação, o alunato e a sociedade em geral estão dialogando e vivendo estas novas realidades educacionais em plena Pandemia e quais seriam os desafios imediatos da educação brasileira? Os educadores, as organizações acadêmicas, científicas e tecnológicas estão desafiados a enfrentar e superar os antigos e novos dilemas em defesa de uma educação pública de qualidade frente às transformações em curso que estão acontecendo nesta área. As atividades educacionais, hoje realizadas à distância, deverão continuar e ter um papel de destaque durante e pós a Pandemia, podendo consolidar-se um sistema híbrido presencial e à distância, refletindo as mudanças e as novas relações entre formas, conteúdos e resultados pedagógicos diante desta nova realidade. O que deve permanecer e o que deve mudar em relação à educação brasileira? A partir da Constituição de 1988, melhorias vêm acontecendo, inclusive com alguns bons resultados, nos últimos anos. No entanto, em uma velocidade que fica muito a desejar considerando a atual realidade educacional – são mais de 10 milhões de analfabetos no Brasil, além dos analfabetos funcionais. Ainda há que considerar os impactos causados pela própria Pandemia e os desafios econômicos, sociais e ambientais da maioria da sociedade e a necessidade de colocar a educação como fundamento estratégico de afirmação e transformação da sociedade brasileira frente à sociedade mundial. A inexistência de um Sistema Nacional de Educação (SNE) dificulta e muito uma visão mais abrangente da educação brasileira, a curto, médio e longo prazos. Embora previsto já na Constituição de 1988 e no artigo 13 da Lei que institui o Programa Nacional de Educação (PNE), o SNE - que deveria ser constituído até 2016 - ainda não o foi no Brasil. Assim, as demandas e as contradições da educação brasileira vão se acumulando nas últimas décadas, hoje desnudadas com a Pandemia, impondo mudanças urgentes frente à nossa realidade. Como não destacar, por exemplo, uma dessas maiores contradições: em geral, as melhores Escolas de Educação Básica no Brasil são privadas e as melhores Universidades são públicas - uma parcela significativa dos estudantes de Escola Pública, do ensino básico, vão estudar à noite, em faculdades privadas, muitos sem direito a diploma no final do curso, por não serem reconhecidas pelo Ministério da Educação. Portanto, é urgente a criação de um Sistema Nacional de Educação como espaço institucional de diálogo com todos os atores políticos, econômicos e sociais que nos leve à equidade educacional como política de Estado e de toda a Sociedade no caminho da otimização dos recursos materiais e da inteligência nacional em prol de uma educação de qualidade no Brasil. Neste contexto, deve-se incorporar todas as experiências educacionais bem sucedidas nos últimos anos no Brasil. Sejam elas da área federal, estadual ou municipal como também de escolas privadas ou mantidas por fundações e ONGs educacionais. A partir de parâmetros educacionais federais, todas estas escolas e universidades seriam avaliadas e incorporadas, quando bem avaliadas, ao Sistema Nacional de Educação ora proposto. Neste processo de transição para a construção de uma educação de excelência no Brasil, com foco nas regiões de menor Índice de Desenvolvimento de Educação Básica (IDEB), a área federal deverá ter um papel de destaque. A estratégia de federalização da educação pública brasileira aconteceria em função das prioridades destacadas no próprio PNE, criando as condições para a melhoria do IDEB em níveis e conteúdos educacionais de excelência, compatíveis com as demandas educacionais dos Estados e Municípios, considerando a realidade social e econômica onde estão inseridos. Assim, o Governo Federal deveria também assegurar, de maneira permanente, os recursos financeiros, a viabilidade técnica e pedagógica do planejamento e da gestão das demandas federais, estaduais e municipais que alavancariam as regiões de menor IDEB, em cooperação com o Estado e os Municípios da região em questão. Aqui as experiências educacionais bem sucedidas das Fundações, ONGs e Organizações privadas seriam avaliadas a nível federal e, quando aprovadas, incorporadas neste esforço nacional de melhoria da educação pública brasileira. O conceito de sustentabilidade social, econômica e ambiental nos ajuda nesta construção. Deve nortear, de uma maneira transversal, todo o processo de elaboração e viabilização de uma política de educação no Brasil, considerando as distintas realidades sociais, econômicas e ambientais nos planos nacional, estadual e municipal, como instrumento de transformação da vida de cada uma das crianças e da juventude brasileira, em todo o território nacional. O Governo Federal, dialogando com as diversas representações existentes na área de educação do Estado, do mercado e da sociedade civil em geral, deve com a urgência devida realizar uma ouvidoria da realidade atual da educação brasileira, a partir da educação básica, diagnosticando os avanços e limites do atual PNE. A partir do conhecimento da realidade atual da educação pode-se construir, em discussão com a sociedade brasileira, um Sistema Nacional de Educação que venha a implementar um Plano de Metas Educacionais para o horizonte dos próximos 5, 10, 20, 30 anos. São os desafios de uma nova política de educação para o Brasil que devem avaliar a realidade educacional existente, a instabilidade vivida atualmente pelo próprio Ministério de Educação, sem uma política nacional clara para enfrentar os complexos desafios da nossa realidade educacional, funcionando sem a devida integração com os Estados e Municípios, demonstrando como o Governo Federal enfrentou e está enfrentando a situação educacional já no segundo ano de Pandemia. As perdas de aprendizado, individuais e coletivas, são significativas e ainda estão por ser devidamente avaliadas. Esta situação tem atingido diretamente os(as) trabalhadores(as), os(as) educadores(as) e os milhões de alunos(as) de escolas públicas que continuam sem as condições de estudar à distância, em suas casas, desorientando-os(as) e sem um devido apoio governamental que os(as) ajude a superar esta triste e preocupante realidade. Esta situação tem atingido diretamente os(as) trabalhadores(as), os (as) educadores(as) e os milhões de alunos(as) de escolas e universidades públicas que continuam sem as condições de estudar à distância em suas casas, desorientados(as) e sem um devido apoio governamental que os(as) ajude a superar esta triste e preocupante realidade. A agenda nacional da área de educação, a ser pactuada pela sociedade brasileira, deve realizar as reformas educacionais, pensando a educação brasileira no presente e no futuro imediato, considerando as suas especificidades e as desigualdades regionais. A construção de um modelo educacional nacional deve incorporar a educação, a ciência e a tecnologia como valores estruturantes e estratégicos, integrado a um projeto nacional para a melhoria da qualidade de vida da infância e da juventude dos brasileiros e brasileiras com uma atenção devida aos(às) professores(as) e trabalhadores(as) da área de educação. Finalmente, a agenda nacional da área de educação, a ser pactuada pela sociedade brasileira, deve enfrentar os reais problemas educacionais agravados com a pandemia: realizar as reformas educacionais pensando a educação brasileira no presente e no futuro imediato, considerando as suas especificidades e os desafios regionais. A construção de um modelo educacional nacional deve incorporar a educação, a ciência e a tecnologia como valores estruturantes e estratégicos, integrados a um projeto nacional para a melhoria da qualidade de vida da infância e da juventude dos brasileiros e brasileiras, com uma atenção devida aos professores e trabalhadores da área de educação. São os desafios a serem superados. Seremos capazes? Uma contribuição recente para enfrentarmos os desafios e os dilemas da educação brasileira é a publicação e a discussão em andamento realizadas pela Fundação Astrojildo Pereira. A Revista Política Democrática, publicada recentemente: A Educação Presente e o Futuro, reúne textos e análises sobre o presente e o futuro da educação brasileira. Destaque-se o Manifesto: Por um Sistema Nacional Único de Educação, do Professor Cristovam Buarque, como uma colaboração efetiva nesta direção (Revista Política Democrática, ano XXI, nº 57, www.politicademocratica.com.br). *Professor Doutor da Oficina da Cátedra da UNESCO - Sustentabilidade da UFBA e do Conselho do Instituto Politécnico da Bahia *** *** https://gilvanmelo.blogspot.com/2021/10/george-gurgel-de-oliveira-paulo-freire.html *** *** ************************************************************************************************ sábado, 2 de outubro de 2021 Poesia | Ferreira Gullar -Traduzir-se Uma parte de mim é todo mundo; outra parte é ninguém: fundo sem fundo. Uma parte de mim é multidão: outra parte estranheza e solidão. Uma parte de mim pesa, pondera; outra parte delira. Uma parte de mim almoça e janta; outra parte se espanta. Uma parte de mim é permanente; outra parte se sabe de repente. Uma parte de mim é só vertigem; outra parte, linguagem. Traduzir-se uma parte na outra parte — que é uma questão de vida ou morte — será arte? *** *** https://gilvanmelo.blogspot.com/2021/10/poesia-ferreira-gullar-traduzir-se.html *** *** ************************************************************************** sexta-feira, 1 de outubro de 2021 José de Souza Martins* - Paulo Freire, educador Valor Econômico / Eu & Fim de Semana Seu sistema era libertador, ao criar condições de que o alfabetizado compreendesse o mundo em sua própria perspectiva, e não como objeto Neste centenário do educador Paulo Freire, um marco de sua biografia é o acontecimento que ficou conhecido como “As 40 horas de Angicos”, no sertão do Rio Grande do Norte, em 1963. Ali começava uma revolução educacional que se expandiria pelo país, pelo continente e pela África: ensinar adultos iletrados a ler e a escrever em 40 horas. O ensino se baseava no método criado por ele, que alterava profundamente a concepção de alfabetização de adultos. O modo tradicional de fazê-lo pressupunha que todo analfabeto, independentemente da idade, era infantil. Usava-se com ele ou cartilhas para crianças ou cartilhas infantilizadas, com frases de referência, sem sentido, do tipo “Eva viu a uva”. Em se tratando de adultos, o método pressupunha que são eles donos de um saber provado na sua experiência de vida. Portanto, a questão era tratar esse saber como um bem social. A alfabetização começava com a pesquisa da língua e da linguagem das pessoas dos lugares em que ela seria realizada. Em vez de o aluno falar a língua do educador, o educador é que aprendia a língua de quem seria alfabetizado. Na prática, o professor é aluno de seus alunos. Nesse diálogo ele aprende para ensinar, para ser um agente de mediação da universalidade contida no vocabulário, na linguagem e no pensamento de que as palavras são instrumentos. A fala popular é prática que já contém a lógica que poderia dar sentido à palavra escrita e à palavra lida. Porque a vida não é feita de certezas, de respostas prontas, mas de perguntas, de desafios. É a vida que dá sentido às palavras. Muitos estudiosos procuram conexões teóricas entre o método de Paulo Freire e autores e correntes de pensamento que o situem nesse ou naquele campo teórico. Na verdade a prática inspiradora do método de Freire é a do método indutivo desdobrado para o método transdutivo. Aquele que Henri Lefebvre definiu como o momento do método de observação da realidade que desvenda o possível, o que pode ser, mas ainda não é porque está aprisionado na realidade bloqueada. Alfabetizar é quebrar os grilhões desse bloqueio. Sua peculiaridade pedagógica é a de que o aluno, ao perguntar ao professor, ensina-lhe a fazer as perguntas certas à realidade cujas significações e possibilidades escapam dos procedimentos dedutivos de enquadramento do real no já sabido. Em 1963, no mundo inteiro, o saber dos simples estava desafiando o conhecimento consolidado e livresco. Ao interrogar quem os interrogava, os iletrados propunham novas perspectivas de compreensão e interpretação da sociedade nos vários campos do conhecimento: na educação, na religião, na sociologia, na antropologia, na psicologia. E nas outras ciências, por meio das chamadas etnociências. A singularidade do pensamento de Paulo Freire foi a de traduzir-se num método de alfabetização que aculturava o educador. Por isso, sua obra não se propõe de chofre. Mas aos poucos. Na trajetória do exílio, ele foi tendo contato com outros campos de indagação que iam na mesma direção. Alguns dos seus resultados foram a “Pedagogia do Oprimido” e o livro sobre extensão rural. Uma inversão no que a extensão havia sido até então nas escolas de agronomia. O método de Paulo Freire transforma-se, também, em método de explicação. No encerramento das “40 horas de Angicos”, a aula simbólica foi proferida pelo então presidente da República, João Goulart. Duas filas atrás, o comandante do IV Exército, carrancudo, o general Castelo Branco, observava. Poucas horas depois, num jantar no Recife, ele se sentaria ao lado de Paulo Freire e lhe diria: “Eu desconfiava que o senhor era subversivo. Agora tenho certeza”. Muito pouco tempo depois, ele daria o golpe de Estado, deporia Goulart e mandaria prender Paulo Freire. Era subversivo, comentaria com alguém, porque era contra a hierarquia. Na verdade, o método era um método libertador, ao criar condições de que o alfabetizado pensasse com sua própria cabeça, seu próprio discernimento. Compreendesse o mundo e a realidade em sua própria perspectiva, como sujeito, e não como objeto, dominado e oprimido. O método de Paulo Freire completava a obra da abolição da escravatura. O analfabetismo foi e tem sido, no Brasil, um instrumento de dominação e de poder, o poder do atraso que nos tiraniza até hoje. A república anômala alimentou-se dele como meio de usurpação da liberdade teórica concedida aos desvalidos. Angicos tinha 700 eleitores. Alguns dias após o término do curso das 40 horas, 300 dos seus alfabetizados entraram em cartório com os pedidos de título de eleitor. O método de Paulo Freire ameaçava o pilar da dominação oligárquica e latifundista. Poderia transformar um país de servos num país de cidadãos. *José de Souza Martins é sociólogo. Professor emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar, da Universidade de Cambridge, e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador emérito do CNPq. Membro da Academia Paulista de Letras. Entre outros livros, é autor de "Linchamentos - a justiça popular no Brasil" (Contexto). *** *** https://gilvanmelo.blogspot.com/2021/10/jose-de-souza-martins-paulo-freire.html *** *** ************************************************************************** Paulo Freire BIOGRAFIA Paulo Freire é o Patrono da Educação Brasileira por reconhecimento ao mérito de sua obra e das suas contribuições para a educação e alfabetização no Brasil e no mundo. ***
*** Pedagogo, filósofo e escritor, Paulo Freire é visto no mundo todo como uma figura importante na teoria sobre educação, aprendizagem e alfabetização. Pedagogo, filósofo e escritor, Paulo Freire é visto no mundo todo como uma figura importante na teoria sobre educação, aprendizagem e alfabetização. *** Paulo Reglus Neves Freire (1921-1997) foi um educador, escritor e filósofo pernambucano. Tendo sua formação inicial em Direito, Freire desistiu da advocacia e atuou durante o início de sua carreira como professor de Língua Portuguesa no Colégio Oswaldo Cruz, instituição em que o professor havia concluído o Ensino Básico. Freire também trabalhou para o Serviço Social da Indústria (SESI) como diretor do setor de educação e cultura, além de ter lecionado Filosofia da Educação na então Universidade de Recife. Paulo Freire foi agraciado com cerca de 48 títulos, entre doutorados honoris causa e outras honrarias de universidades e organizações brasileiras e do exterior. É considerado o brasileiro com mais títulos de doutorados honoris causa e é o escritor da terceira obra mais citada em trabalhos de ciências humanas do mundo: Pedagogia do oprimido. Leia também: Educação no Brasil Não pare agora... Tem mais depois da publicidade ;) Biografia Paulo Reglus Neves Freire nasceu em 19 de setembro de 1921, na cidade de Recife, capital de Pernambuco. Filho, junto com seus dois irmãos e uma irmã, de um policial militar e de uma dona de casa, Paulo Freire ficou órfão de pai aos treze anos. Sua educação inicial contou com o ingresso no Colégio Oswaldo Cruz, em Recife, por meio de bolsa concedida pelo diretor. Mais tarde, Freire tornou-se auxiliar de disciplina e, após formação, professor de Língua Portuguesa. Em 1943, ingressou no curso de Direito da Universidade de Recife e, em 1944, casou-se com sua primeira esposa, a professora Elza Maia Costa de Oliveira, casamento que durou até o falecimento de Elza, em 1986. Em 1947, Freire foi nomeado diretor do Departamento de Educação e Cultura, do Serviço Social da Indústria, iniciando um trabalho com a alfabetização de jovens e adultos carentes e de trabalhadores da indústria. Em 1959, Paulo Freire passou no processo seletivo para a cátedra de História e Filosofia da Educação, da Escola de Belas Artes da Universidade de Recife, com a tese Educação e atualidade brasileira. Em 1961, o professor tornou-se diretor do Departamento de Extensões Culturais, da Universidade de Recife, o que o possibilitou realizar as primeiras experiências mais amplas com alfabetização de adultos, que culminaram na experiência de Angicos. Por possibilitar a alfabetização de jovens e adultos em cerca de 40 horas e com baixos custos, o método desenvolvido por Paulo Freire inspirou o Plano Nacional de Alfabetização, que começou a ser encabeçado pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC) ainda no governo de João Goulart. A experiência de Angicos causou alvoroço na cidade. Uma greve de trabalhadores de uma obra que se recusaram a trabalhar enquanto não tivessem seus direitos garantidos, como descanso semanal remunerado e uma jornada de trabalho que respeitasse a jornada estabelecida pela Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT), foi o início para a acusação de comunismo contra o projeto de alfabetização freireano. Empresários e fazendeiros, primeiramente do Rio Grande do Norte, não aceitaram a reivindicação dos trabalhadores, antes analfabetos e agora entendedores de seus direitos. Outra questão entrou em jogo no cenário político: na época, somente poderia votar quem fosse alfabetizado. O Plano Nacional de Alfabetização poderia levar o letramento a até seis milhões de brasileiros, o que significaria seis milhões de novos eleitores fora das classes dominantes. Esses fatores foram decisivos para que, ainda em abril de 1964, o Plano Nacional de Alfabetização fosse cancelado. Esses também foram fatores decisivos para a prisão de Paulo Freire, Marcos Guerra (advogado e um dos coordenadores do projeto em Angicos) e dezenas de outras pessoas, que, como no caso de Freire, também foram exiladas. Paulo Freire passou 70 dias preso e foi exilado. No exílio, foi primeiramente para o Chile, onde coordenou projetos de alfabetização de adultos, pelo Instituto Chileno da Reforma Agrária, por cinco anos. Em 1969, o professor pernambucano foi convidado a lecionar na Universidade de Harvard. Em 1970, foi consultor e coordenador emérito do Conselho Mundial de Igrejas (CMI), com sede em Genebra, na Suíça. Até o seu retorno ao Brasil, em 1980, Freire fez viagens a mais de 30 países pelo CMI, prestando consultoria educacional e implementando projetos de educação voltados para a alfabetização, para a redução da desigualdade social e para a garantia de direitos. Foi nesse período em que o pensador brasileiro implementou importantes projetos educativos em Guiné-Bissau, Moçambique, Zâmbia e Cabo Verde. Em 1978, a Lei da Anistia permitiu o retorno de exilados políticos. Em 1980, Freire retornou ao Brasil. Após isso, passou a lecionar na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e na Universidade de Campinas (Unicamp). Em 1986, sua primeira esposa, Elza, com quem teve cinco filhos, morreu. Em 1988, Freire casou-se com sua segunda esposa, Ana Maria Araújo, com quem permaneceu até a sua morte, em 1997. Entre 1988 e 1991, Freire foi nomeado secretário de educação do município de São Paulo pela então prefeita, Luiza Erundina, na época filiada ao Partido dos Trabalhadores (PT). Ao sair do cargo antes do término da gestão, Mário Sérgio Cortella, então assessor de Freire e mais tarde seu orientando de doutorado na PUC-SP, ocupou o cargo até o ano de 1992. No dia 2 de maio de 1997, Paulo Freire morreu, aos 76 anos, após passar por uma angioplastia e apresentar um complexo quadro de saúde devido a problemas no sistema circulatório. Em vida e postumamente, o professor Paulo Freire foi condecorado com 48 títulos honoríficos. Em todo o mundo, cerca de 350 escolas e instituições, como bibliotecas e universidades, levam o seu nome como forma de homenagem. Em 2005, a deputada Luiza Erundina criou um projeto de lei para reconhecer Paulo Freire como Patrono da Educação Brasileira. O projeto de lei somente sancionado em 2012, por meio da Lei 12.612/12, pela então presidente Dilma Rousseff. Segundo levantamento feito, em 2016, por Elliot Greeni, pesquisador especialista em estudos sobre desenvolvimento e aprendizagem da London School of Economics, a obra Pedagogia do oprimido, de Paulo Freire, é o terceiro livro mais citado em trabalhos da área de humanidades no mundo. Até o ano do levantamento, o livro de Freire já havia sido citado 72.359 vezes, estando à frente no ranking de pensadores como Michel Foucault, Pierre Bourdieu e Karl Marx. À frente de Freire estavam apenas Thomas Kuhn e Everett Rogers. ***
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*** EFDeportes.com Uma educação que leva em consideração todas as faculdades que integram a natureza humana, para que o educando alcance a finalidade específica de sua existência, a felicidade. Introdução *** Veja também: Papel de Aristóteles na Educação – a relação entre Educação e Filosofia ***
*** Brasil Escola - UOL Paulo Freire: obras, citações, biografia, método, instituto *** Paulo Freire é mundialmente conhecido pelas suas obras e contribuições à educação. (Créditos: Slobodan Dimitrov / Wikimedia Commons) Paulo Freire é mundialmente conhecido pelas suas obras e contribuições à educação. (Créditos: Slobodan Dimitrov / Wikimedia Commons) Método Paulo Freire No auge da Guerra Fria, os Estados Unidos lançaram um projeto chamado Aliança para o Progresso, que visava a alavancar o processo de crescimento econômico e acabar com o que o bloco capitalista entendia como “crescente comunismo” que vinha assolando a América Latina. No entendimento de quem liderou o projeto, a erradicação do analfabetismo seria uma maneira de frear a ascensão socialista. O Brasil foi um dos contemplados pelo projeto, e no Nordeste, ainda como fase experimental, a cidade de Angicos, no Rio grande do Norte, foi uma das primeiras grandes experiências de tentativa de erradicação do analfabetismo. A escolha da cidade e a verba destinada ao projeto de Angicos, cerca de 36 dólares por aluno, vieram desse plano norte-americano. Paulo Freire elaborou o projeto, formou uma comissão de coordenadores e treinou professores para aplicar o plano. Em 40 horas, percorridas durante quase um mês, 300 jovens e adultos foram alfabetizados pelo método desenvolvido por Freire. O educador brasileiro criticava o modelo de educação que ele chamava de “educação bancária”. Esse modelo é baseado na visão de que o professor é o centro do processo e detentor do conhecimento das matérias, sendo o responsável por depositar aquilo que sabe em seus alunos. Freire falava da importância de pensar-se em uma educação capaz de reconhecer a cultura do educando e agir com base nela, naquela realidade, pois somente assim ela faria sentido para aquele que vai ser alfabetizado. Nas palavras do filósofo: “a leitura do mundo precede a leitura da palavra, daí que a posterior leitura desta não possa prescindir da continuidade da leitura daquele.”ii Na visão de Freire, a leitura (e, no mesmo sentido, a escrita) somente fará sentido se for acompanhada de uma capacidade de ler o mundo, de perceber o mundo, de reconhecer os papéis desempenhados pelos atores do mundo e de reconhecer-se como peça naquele mundo. Por isso, Freire agia com base nas palavras que faziam parte do cotidiano dos trabalhadores em processo de alfabetização para ensiná-los. Marcos Guerra, advogado e coordenador do projeto em Angicos, conta que “a alfabetização era baseada em 12 a 15 palavras apenas que continham todos os fonemas da língua portuguesa. No debate sobre a palavra trabalho, o que é que vem? Vem as condições de trabalho. Aí evoca discussões sobre trabalho, condição de trabalho [...] remuneração de trabalho, garantias, direitos, deveres”.iii Palavras como tijolo, barro, trabalho, labuta e telha eram as norteadoras do método, que não foca no conteúdo ensinado, mas no processo. Outra característica do método freireano é a tentativa de levar uma conscientização política e de classe para os educandos. Talvez esse seja o fator que mais tenha despertado a ira dos setores conservadores, responsáveis por extinguir o Plano Nacional da Alfabetização e por exilar o professor pernambucano. Os depoimentos descritos, a seguir, atestam essa ideia: Depois do curso, uma greve na cidade parou a construção de uma obra. Acredita-se que eles teriam sido inspirados pelo ensino dos direitos trabalhistas em sala de aula, com a metodologia freiriana. Os trabalhadores disseram ao dono da empresa que sabiam que tinham direitos. Eles pediam carteira assinada, repouso semanal remunerado e férias. E o patrão disse: ‘eu não dou isso não, ninguém dá’, lembra [Marcos] Guerra. [...] Eles passaram a reivindicar direitos, como repouso semanal remunerado e jornada de trabalho, que era intensiva e ultrapassava as horas estabelecidas pela lei. A carteira assinada os entusiasmava, conta a juíza aposentada Valquíria Félix da Silva, 78, que foi uma das professoras do curso na cidade.iv A obra de Paulo Freire e o seu método são profundamente marcados pela insistência de levantar-se um novo tipo de educação, capaz de dar autonomia às classes dominadas por meio do diálogo e de uma educação emancipadora. Para quem se simpatiza com as ideias do filósofo pernambucano, essa tarefa é necessária para a criação de um novo Brasil, mais justo e igualitário. Para quem discorda de sua obra (não pretendemos fazer uma afirmação generalizadora, pois podem existir críticas pontuais plausíveis acerca do método ou da obra freireana, e lembrando que as críticas não presumem sua anulação), há, em geral, um medo de que ela seja a cartilha para fazer o que setores conservadores têm chamado de “doutrinação marxista nas salas de aula”. Essa acusação, sustentada nos dias atuais por grupos políticos ligados à extrema-direita, era a mesma que condenava Paulo Freire em 1964. O doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP) e biógrafo de Freire, Sérgio Haddad, conta, em matéria publicada na Folha de São Paulo, acerca do relatório escrito sobre Freire para justificar a sua prisão, dias após o seu exílio. O inquérito, comandado pelo tenente-coronel Hélio Ibiapina Lima, dizia que Paulo Freire era “um dos maiores responsáveis pela subversão imediata dos menos favorecidos”, que “sua atuação no campo da alfabetização de adultos nada mais é que uma extraordinária tarefa marxista de politização das mesmas” e que Freire “é um cripto-comunista encapuçado sob a forma de alfabetizador”.v Leia também: Os objetivos da Educação em nossa sociedade *** *** Obras Entre publicações em vida, publicações póstumas, cartas, entrevistas, ensaios e artigos, somam-se em sua obra quase 40 livros publicados. Os mais importantes, para a compreensão da trajetória intelectual do filósofo e educador, são as seguintes: Pedagogia do oprimido: escrito ainda no início do exílio, quando Freire estava no Chile, o livro propõe uma revisão da relação entre educadores e educandos. O diálogo deve ser a base primeira para a constituição do processo de ensino e aprendizagem. Segundo Freire, “o diálogo é uma exigência existencial”.vi Com base nesse pressuposto, ele reconhece que a educação dialógica é a chave para levar uma educação libertadora às massas, sem excluir a própria massa do processo educativo. Em sua reflexão, Freire questiona-se: “Como posso dialogar, se parto de que a pronúncia do mundo é tarefa de homens seletos e que a presença das massas na história é sinal de sua deterioração que devo evitar?”vii Reconhecendo as massas e os outros e respeitando a diferença dos outros é como o educador deve atuar. Freire defende que a finalidade desse trabalhoso processo é propiciar uma libertação: a emancipação das massas de oprimidos por meio da educação. Educação como prática da liberdade: escrito no exílio após o término de Pedagogia do oprimido, esse livro é uma autocrítica de sua atuação e uma proposta de educação que visa a acabar com a exclusão. Ele aponta a relação intrínseca entre educação, conscientização e inclusão. Cartas à Guiné-Bissau: livro escrito entre 1976 e 1977, período em que Freire atuou no projeto de alfabetização popular promovido em Guiné-Bissau após a sua independência. O conjunto de cartas que compõem a obra tem um objetivo mais reflexivo de apontar a potência, a paixão e a criação daquele povo recém-independente e a aproximação da realidade social africana com a brasileira da época. Pedagogia da autonomia: Freire tem um objetivo muito claro nesse livro de apresentar um conjunto de conhecimentos e práticas indispensáveis a qualquer educador. Como o próprio autor anuncia no escrito, não importa se se trata de um professor ou professora progressista ou reacionário, deve-se saber daquele conjunto básico. O livro carrega em seu primeiro capítulo o título que resume grande parte da defesa de Freire no reconhecimento da alteridade e do respeito à individualidade do educando: “Não há docência sem discência”. Um desses elementos básicos é o reconhecimento da importante relação entre teoria e prática que deve ser primordial e indissolúvel. Segundo Freire, “a reflexão crítica sobre a prática torna-se uma exigência da relação Teoria/Prática sem a qual a teoria pode ir virando blábláblá, e a prática, ativismo”.viii “Pedagogia do oprimido” é terceira obra mais citada em trabalhos de ciências humanas do mundo. (Créditos: Reprodução / Editora Paz e Terra). “Pedagogia do oprimido” é terceira obra mais citada em trabalhos de ciências humanas do mundo. (Créditos: Reprodução / Editora Paz e Terra). Leia também: Educação Instituto Paulo Freire O Instituto Paulo Freire surgiu com base na ideia do professor brasileiro de reunir instituições e implementar ações voltadas para a educação como pilar da inclusão social e da redução da desigualdade econômica. Surgido em abril de 1991 e fundado oficialmente em setembro de 1992, o IPF atua, desde então, promovendo consultorias e elaboração de projetos voltados para a educação de jovens e adultos; implementação de currículo e projetos políticos pedagógicos; e cursos de formação para alfabetizadores e professores em geral. Para conhecer um pouco mais sobre o instituto, basta acessar a página. Citações de Paulo Freire “A leitura do mundo precede a leitura da palavra, daí que a posterior leitura desta não possa prescindir da continuidade da leitura daquele.” “Não existe docência sem discência.” “Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda.” “Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens educam-se entre si, mediatizados pelo mundo.” “A alegria não chega apenas no encontro do achado, mas faz parte do processo da busca. E ensinar e aprender não pode dar-se fora da procura, fora da boniteza e da alegria.” “Ninguém ignora tudo. Ninguém sabe tudo. Todos nós sabemos alguma coisa. Todos nós ignoramos alguma coisa. Por isso aprendemos sempre.” i Confira aqui “Paulo Freire é o terceiro pensador mais citado em trabalhos pelo mundo”. ii FREIRE, P. A importância do ato de ler. 23 ed. São Paulo: Autores Associados: Cortez, 1989. p. 11. iii SOUZA, M. Criticada pelo governo, metodologia de Paulo Freire revolucionou povoado no sertão. Repórter Brasil. Disponível em: https://reporterbrasil.org.br/2019/03/criticada-pelo-governo-metodologia-paulo-freire-revolucionou-povoado-no-sertao/. Acesso em: 4 maio 2019. iv Ibid v HADDAD, S. Por que o Brasil de Olavo e Bolsonaro vê em Paulo Freire um inimigo. Folha de São Paulo. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2019/04/por-que-o-brasil-de-olavo-e-bolsonaro-ve-em-paulo-freire-um-inimigo.shtml. Acesso em: 4 maio 2019. vi FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. 18 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988. p. 79. vii Ibid, p. 80. viii FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 36 ed. São Paulo: Paz e Terra, 2007. p. 22. Por Francisco Porfírio Professor de Sociologia Gostaria de fazer a referência deste texto em um trabalho escolar ou acadêmico? Veja: PORFíRIO, Francisco. "Paulo Freire"; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/biografia/paulo-freire.htm. Acesso em 06 de outubro de 2021. ***
*** 47:22 YouTube Paulo Freire - Brasil Escola Assistir Enviado por: Brasil Escola, 19 de set. de 2021 Assista: *** *** Assista às nossas videoaulas Vídeo 1Vídeo 2 *** *** https://brasilescola.uol.com.br/biografia/paulo-freire.htm *** *** ***************************************************************************************** ***
*** Vagalume Another Brick In The Wall (tradução) - Pink Floyd - VAGALUME *** Assistir: *** *** *** Another Brick In The Wall (tradução) Pink Floyd Outro Tijolo Na Parede Pt. 1 O papai voou pelo oceano Deixando apenas uma memória Foto instantânea no álbum de família Papai, o que mais você deixou para mim? Papai, o que você deixou para mim? Tudo era apenas um tijolo no muro Tudo era apenas um tijolo no muro "Você! Sim, você atrás das bicicletas, parada aí, garoto! " Quando crescemos e fomos à escola Havia certos professores que Machucariam as crianças da forma que eles pudessem (oof!) Despejando escárnio Sobre tudo o que fazíamos E os expondo todas as nossas fraquezas Mesmo que escondidas pelas crianças Mas na cidade era bem sabido Que quando eles chegavam em casa Suas esposas, gordas psicopatas, batiam neles Quase até a morte Pt. 2 Não precisamos de nenhuma educação Não precisamos de controle mental Chega de humor negro na sala de aula Professores, deixem as crianças em paz Ei! Professores! Deixem essas crianças em paz! Tudo era apenas um tijolo no muro Todos são somente tijolos na parede Não precisamos de nenhuma educação Não precisamos de controle mental Chega de humor negro na sala de aula Professores, deixem as crianças em paz Ei! Professores! Deixem nós crianças em paz! Tudo era apenas um tijolo no muro Todos são somente tijolos na parede "Errado, faça de novo! " "Se não comer sua carne, você não ganha pudim Como você pode ganhar pudim se não comer sua carne? " "Você! Sim, você atrás das bicicletas, parada aí, garota! " Pt. 3 Eu não preciso de braços ao meu redor E eu não preciso de drogas para me acalmar Eu vi os escritos no muro Não pense que preciso de algo, absolutamente Não! Não pense que eu preciso de alguma coisa afinal Tudo era apenas um tijolo no muro Todos são somente tijolos na parede Another Brick In The Wall Parte1 Daddy's flown across the ocean Leaving just a memory Snapshot in the family album Daddy what else did you leave for me? Daddy, what'd'ja leave behind for me?!? All in all it was just a brick in the wall. All in all it was all just bricks in the wall. "You! Yes, you behind the bikesheds, stand still lady!" When we grew up and went to school There were certain teachers who would Hurt the children in any way they could (oof!) By pouring their derision Upon anything we did And exposing every weakness However carefully hidden by the kids But in the town it was well known When they got home at night, their fat and Psychopathic wives would thrash them Within inches of their lives. Parte 2 We don't need no education We dont need no thought control No dark sarcasm in the classroom Teachers leave them kids alone Hey! Teachers! Leave them kids alone! All in all it's just another brick in the wall. All in all you're just another brick in the wall. We don't need no education We don't need no thought control No dark sarcasm in the classroom Teachers leave us kids alone Hey! Teachers! Leave us kids alone! All in all it's just another brick in the wall. All in all you're just another brick in the wall. "Wrong, Guess again! 2x If you don't eat yer meat, you can't have any pudding. How can you have any pudding if you don't eat yer meat? You! Yes, you behind the bikesheds, stand still laddie!" Parte 3 I don't need no arms around me And I don't need no drugs to calm me I have seen the writing on the wall Don't think I need anything at all No! Don't think I'll need anything at all All in all it was all just bricks in the wall. All in all you were all just bricks in the wall. Compositor: Roger Waters *** *** https://www.vagalume.com.br/pink-floyd/another-brick-in-the-wall-traducao.html *** *** ******************************************************************************************************* *** NOTÍCIAS:SEJUIZ DE FORA - 17/9/2021 - 16:01 Selecione o idioma​▼ Abertura de Seminário em homenagem a Paulo Freire destaca autonomia, ousadia e esperança ***
*** Portal de Notícias PJF | Abertura de Seminário em homenagem a Paulo Freire destaca autonomia, ousadia e esperança | SE - 17/9/2021Nesta quinta-feira, 16, teve início o Seminário "Anunciar: tempo de cuidar, aprender e transformar - 100 anos com Paulo Freire (1921-2021)", promovido pela Secretaria de Educação (SE) da Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) em comemoração ao centenário de nascimento do patrono da educação brasileira. Abrindo oficialmente o Seminário, a prefeita Margarida Salomão ressaltou a importância de celebrar a obra deste reconhecido brasileiro que é uma personalidade mundial e uma referência transformadora e fundamental nos estudos da educação no final do século XX. Indicando o pensamento de Paulo Freire como inspiração, ela convidou os participantes a refletirem sobre o que teria ele a nos ensinar neste momento tão peculiar, desafiador e difícil que estamos enfrentando. “Penso que ele nos diria: acreditem na educação, no trabalho pedagógico, nas crianças, nos jovens, nestes que são sujeitos de um processo inédito mundialmente, que é a interrupção da educação presencial por conta da pandemia, o que, por muitos, é tratado como uma tragédia irreparável”, afirmou. Na sequência, a professora da UFJF, Mylene Cristina Santiago, abordou aspectos da docência em Paulo Freire. “Nestes tempos em que estamos vivendo diante de uma pandemia, de um cenário político tão hostil e de uma realidade tão dura, com a perda de 580 mil pessoas, é importante trabalharmos com a ideia de autonomia, de ousadia e de esperança, para tentarmos recuperar a nossa força”, ressaltou. A palestra está disponível no canal da SE no YouTube. O Seminário "Anunciar: tempo de cuidar, aprender e transformar - 100 anos com Paulo Freire (1921-2021)" prossegue até 28 de outubro, sempre às quintas-feiras, às 19h. Não há necessidade de inscrição prévia e será emitido certificado (carga horária de 16 horas) para aquelas(es) que participarem dos encontros e assinarem a lista de presença durante as transmissões. Confira a programação do Seminário no documento em anexo. Foto: Assessoria/PJF Veja o anexo *** *** https://www.pjf.mg.gov.br/noticias/view.php?modo=link2&idnoticia2=72440 *** ***

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