sexta-feira, 29 de junho de 2018

STF confirma fim do imposto sindical obrigatório


Supremo mantém fim do imposto sindical obrigatório
Felipe Pontes - Repórter da Agência Brasil






 © Foto: Nelson Almeida/AFP

O plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu nesta sexta-feira (29), por 6 votos a 3, manter a extinção da obrigatoriedade da contribuição sindical, aprovado pelo Congresso no ano passado como parte da reforma trabalhista.
Desde a reforma, o desconto de um dia de trabalho por ano em favor do sindicato da categoria passou a ser opcional, mediante autorização prévia do trabalhador. A maioria dos ministros do STF concluiu, nesta sexta-feira, que a mudança feita pelo Legislativo é constitucional.
O ministro Alexandre de Moraes, que votou nesta sexta-feira para que o imposto seja facultativo, avaliou que a obrigatoriedade tem entre seus efeitos negativos uma baixa filiação de trabalhadores a entidades representativas. Para ele, a Constituição de 1988 privilegiou uma maior liberdade do sindicato em relação ao Estado e do indivíduo em relação ao sindicato, o que não ocorreria se o imposto for compulsório.
“Não há autonomia, não há a liberdade se os sindicatos continuarem a depender de uma contribuição estatal para sobrevivência. Quanto mais independente economicamente, sem depender do dinheiro público, mais fortes serão, mais representativos serão”, afirmou Moraes. “O hábito do cachimbo deixa a boca torta”, disse o ministro Marco Aurélio Mello, concordando com o fim da obrigatoriedade.
Como votaram os ministros
Votaram para que o imposto continue opcional a presidente do STF, ministra Cármen Lúcia, e o os ministros Alexandre de Moraes, Luís Roberto Barroso, Gilmar Mendes, Marco Aurélio Mello e Luiz Fux, que foi primeiro a divergir e a quem caberá redigir o acórdão do julgamento.
Em favor de que o imposto fosse compulsório votaram os ministros Rosa Weber, Dias Toffoli e Edson Fachin, relator das ações diretas de inconstitucionalidade que questionavam o fim da obrigatoriedade. Não participaram do julgamento os ministros Ricardo Lewandowski e Celso de Mello.
Em seu voto, no qual acabou vencido, Fachin sustentou que a Constituição de 1988 foi precursora no reconhecimento de diretos nas relações entre capital e trabalho, entre eles, a obrigatoriedade do imposto para custear o movimento sindical.
“Entendo que a Constituição fez uma opção por definir-se em torno da compulsoriedade da contribuição sindical", afirmou.
O Supremo começou a julgar ontem (28) ações protocoladas por diversos sindicatos de trabalhadores contra alterações na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), feitas pela Lei 13.467/2017, a reforma trabalhista. Entre os pontos contestados está o fim da contribuição sindical obrigatória.
Federações sindicais
As dezenas de federações sindicais que recorreram ao STF alegam que o fim do imposto sindical obrigatório viola a Constituição, pois inviabiliza suas atividades por extinguir repentinamente a fonte de 80% de suas receitas. Para os sindicatos, o imposto somente poderia ser extinto por meio da aprovação de uma lei complementar, e não uma lei ordinária, como foi aprovada a reforma.
Durante o julgamento, a advogada-geral da União, Grace Mendonça, defendeu a manutenção da lei. Segundo a ministra, a contribuição sindical não é fonte essencial de custeio, e a CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas) prevê a possibilidade de recolhimento de mensalidade e taxas assistenciais para o custear das entidades.
"Esse aprimoramento [da lei] é salutar para o Estado Democrático de Direito, que não inibiu, por parte das entidades, o seu direito de se estruturar e de se organizar. Há no Brasil, aproximadamente, 17 mil entidades sindicais, a revelar que essa liberdade sindical vem sendo bem observada", argumentou a advogada-geral da União.

https://www.msn.com/pt-br/dinheiro/economia-e-negocios/supremo-mant%C3%A9m-fim-do-imposto-sindical-obrigat%C3%B3rio/ar-AAzkKhs?li=AAggXC1&ocid=mailsignout

Referências

https://saopaulo.novo.org.br/wp-content/uploads/2017/04/impostosindical-300x143.jpg
https://img-s-msn-com.akamaized.net/tenant/amp/entityid/AAzkZEm.img?h=722&w=1119&m=6&q=60&o=f&l=f
https://www.msn.com/pt-br/dinheiro/economia-e-negocios/supremo-mant%C3%A9m-fim-do-imposto-sindical-obrigat%C3%B3rio/ar-AAzkKhs?li=AAggXC1&ocid=mailsignout

quinta-feira, 28 de junho de 2018

O caso a caso


“Todo o começo é difícil — isto vale em qualquer ciência.” K.Marx







“A vida social é muito mais ampla, muito mais complexa que as condições materiais que a propiciam.” J.P. Netto







A noite ser
A manhã ser
Anoitecer
Amanhecer

Ocaso acaso.



Referências

https://www.marxists.org/portugues/marx/1867/07/25.htm
https://i.pinimg.com/736x/bb/89/35/bb8935facd3ad6e4f8a19b4e3423eb80.jpg
http://3.bp.blogspot.com/-noqHI25FqrQ/VMZjym23zMI/AAAAAAAAGzY/2uzaMgmtbAQ/s1600/10942840_768718033194735_1814371877_n.jpg
https://i.pinimg.com/236x/d6/c3/20/d6c32036c1ea118792fb8970e00a7370--time-time-time-art.jpg
http://www.scielo.br/pdf/sssoc/n117/03.pdf
http://mundovelhomundonovo.blogspot.com/2017/01/introducao-ao-metodo-de-marx.html
http://3.bp.blogspot.com/-noqHI25FqrQ/VMZjym23zMI/AAAAAAAAGzY/2uzaMgmtbAQ/s1600/10942840_768718033194735_1814371877_n.jpg

terça-feira, 26 de junho de 2018

Cultura Barroca Libertária?



Desenho de 1957: Mané Garrincha, o ‘Anjo das Pernas Tortas’
FONTE: Jornal do Commercio (AM)

O ANJO DAS PERNAS TORTAS
Rio de Janeiro , 1962
A Flávio Porto

A um passe de Didi, Garrincha avança
Colado o couro aos pés, o olhar atento
Dribla um, dribla dois, depois descansa
Como a medir o lance do momento.

Vem-lhe o pressentimento; ele se lança
Mais rápido que o próprio pensamento
Dribla mais um, mais dois; a bola trança
Feliz, entre seus pés - um pé-de-vento!

Num só transporte a multidão contrita
Em ato de morte se levanta e grita
Seu uníssono canto de esperança.

Garrincha, o anjo, escuta e atende: - Goooool!
É pura imagem: um G que chuta um o
Dentro da meta, um 1. É pura dança!
Vinicius de Moraes



Nelson Rodrigues e o mito do futebol

Luiz Zanin

Acontece algo curioso em relação à obra de reflexão futebolística de Nelson Rodrigues. Primeiro, ele é o nosso patrono, de todos nós, que tentamos escrever sobre futebol no Brasil. Mas, apesar de ser nosso patrono, ou seja, aquele que estilisticamente mais bem se expressou, e com mais profundidade, não podemos nos dar ao luxo de imitá-lo. Sob pena de cairmos no ridículo.




Cacá Diegues: Um craque barroco
- O Globo

Por motivos às vezes muito diferentes uns dos outros, Garrincha, o mais original de todos os nossos jogadores de futebol, foi sempre equivocadamente mitificado pela imprensa, pelos especialistas e pelos torcedores.

Tratado como exemplo sublime de nossa inocência e generosidade como povo, alguns talentosos jornalistas esportivos e, depois, quase todos os brasileiros de seu tempo o consideraram o suprassumo da simplicidade e do desligamento do que há de mau no mundo.

Uma verdadeira alma de passarinho, como os passarinhos com que, dizia-se, ele convivia nas matas de Pau Grande, onde nascera e morava, nas montanhas vizinhas ao Rio de Janeiro.

E, no entanto, extraordinário jogador de futebol, craque consumado em qualquer posição que jogasse, numa pelada ou no Maracanã, Garrincha fazia, da ponta direita em que jogava, um matadouro de adversários perplexos, incapazes de evitar, não apenas seus dribles imprevistos e nunca vistos, mas também a desmoralização que ele os fazia sofrer, sempre com um sorriso se armando nos lábios e a ginga desmoralizante de seus largos quadris e pernas tortas.

Garrincha foi o mais cruel jogador de futebol para quem o tentasse marcar, para quem estivesse à sua frente. Seus contemporâneos lembram certamente um amistoso contra a Itália, jogado em Milão, na preparação da seleção brasileira para o campeonato mundial de 1958, o primeiro do qual saímos campeões, na Suécia. Garrincha disputava a posição com Joel, ponteiro aplicado do recente tricampeonato carioca do Flamengo, conquistado no início daquela década.

E era Joel, clássico ponteiro de muitas qualidades, o preferido da torcida, da imprensa e da moderna comissão técnica. A favor de Garrincha, estavam apenas os visionários do futebol brasileiro, que sabiam que craques como ele e Pelé eram o emblema de uma nova geração de um novo futebol. Pois naquela noite, em Milão, mesmo disputando uma partida que seria seu teste final para ocupar um lugar na seleção, Garrincha irritava, com o que fazia em campo, todos os dirigentes conservadores da então CBD.

Sem dar bola alguma para as instruções que recebia aos gritos do banco brasileiro, ele praticava todo tipo de jogada que nossos técnicos cartesianos consideravam irresponsável, quase sempre brincando com a bola, os companheiros e os adversários, como costumava fazer regularmente, até nos treinos do próprio Botafogo, onde ele atuava. Em determinado momento,

Garrincha recebeu uma bola no meio do campo e saiu com ela colada aos pés, driblando quem passasse à sua frente, uma, duas ou mais vezes, humilhando cada um que tentasse interromper seu ziguezague em direção ao gol adversário.

Diante do goleiro italiano, Garrincha parou, olhou para trás e viu que não vinha mais ninguém atrás dele. Aí não vacilou e, no mesmo ritmo que vinha, sentou o pobre arqueiro na grama de Milão. Mas não entrou com bola e tudo, como era de se esperar. Garrincha voltou com ela para a entrada da área italiana, driblou duas vezes o goleiro que se levantara em pânico (um drible para vir, outro para ir) e entrou enfim serenamente com a bola na rede adversária.

O banco do Brasil não gostou do que Garrincha havia feito. Durante toda a jogada, gritavam mandando passar a bola, ordenavam que tentasse logo o gol. O banco decisivo jurava que Garrincha nunca mais jogaria na seleção brasileira, ele era moleque demais para a seriedade da missão.

Era desobediente, imprevisível, irresponsável, peladeiro. Ninguém sentiu pena dos defensores e do goleiro que Garrincha humilhara, ninguém falou nisso, não ocorreu a ninguém tocar nesse assunto. Muito menos depois, quando um complô comandado pelo gosto da torcida, jornalistas inteligentes e líderes da seleção como Nilton Santos e Didi, ele se tornaria o titular de nossa ponta direita e um dos maiores astros daquela primeira Copa do Mundo vencida pelo Brasil.

Durante a qual, o que Garrincha fazia com seus adversários era algo parecido com o que fizera com os italianos em Milão, o que costumava fazer com os laterais esquerdos do campeonato carioca. Parecido mais ou menos com o que depois descobrimos que fazia com seus passarinhos, na mata de Pau Grande: caçava-os sem muita poesia e sem nenhuma piedade. A poesia estava no jeito de ele ser no mundo.

Garrincha talvez tenha sido o nosso primeiro grande craque barroco, num país de forte cultura barroca, popular ou erudita, que não deseja reconhecê-la por medo do que isso possa significar, ameaçando o que os outros consideram civilizado. Sempre preferimos elogiar a racionalidade realista que parece conhecer o mundo e apaziguar nossa ignorância com essa ilusão.

Num mundo tão incompreensível como esse em que vivemos hoje, talvez a volumosa cultura barroca de nossas origens pudesse ser mais libertária, a nos indicar um futuro menos comprometido com o que já se sabe. E que sabemos que não presta.

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Cacá Diegues é cineasta




Barroco
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Obra de Aleijadinho: representante do barroco brasileiro

Origens e Características do Barroco 

O barroco foi uma tendência artística que se desenvolveu primeiramente nas artes plásticas e depois se manifestou na literatura, no teatro e na música. O berço do barroco é a Itália do século XVII, porém se espalhou por outros países europeus como, por exemplo, a Holanda, a Bélgica, a França e a Espanha. O barroco permaneceu vivo no mundo das artes até o século XVIII. Na América Latina, o barroco entrou no século XVII, trazido por artistas que viajavam para a Europa, e permaneceu até o final do século XVIII.


Contexto histórico 


O barroco se desenvolve no seguinte contexto histórico: após o processo de Reformas Religiosas, ocorrido no século XVI, a Igreja Católica havia perdido muito espaço e poder. Mesmo assim, os católicos continuavam influenciando muito o cenário político, econômico e religioso na Europa. A arte barroca surge neste contexto e expressa todo o contraste deste período: a espiritualidade e teocentrismo da Idade Média com o racionalismo e antropocentrismo do Renascimento.


Os artistas barrocos foram patrocinados pelos monarcas, burgueses e pelo clero. As obras de pintura e escultura deste período são rebuscadas, detalhistas e expressam as emoções da vida e do ser humano.

A palavra barroco tem um significado que representa bem as características deste estilo. Significa " pérola irregular" ou "pérola deformada" e representa de forma pejorativa a ideia de irregularidade.

O período final do barroco (século XVIII) é chamado de rococó e possui algumas peculiaridades, embora as principais características do barroco estão presentes nesta fase. No rococó existe a presença de curvas e muitos detalhes decorativos (conchas, flores, folhas, ramos). Os temas relacionados à mitologia grega e romana, além dos hábitos das cortes também aparecem com frequência.


BARROCO EUROPEU


As obras dos artistas barrocos europeus valorizam as cores, as sombras e a luz, e representam os contrates. As imagens não são tão centralizadas quanto as renascentistas e aparecem de forma dinâmica, valorizando o movimento. Os temas principais são: mitologia, passagens da Bíblia e a história da humanidade. As cenas retratadas costumam ser sobre a vida da nobreza, o cotidiano da burguesia, naturezas-mortas entre outros. Muitos artistas barrocos dedicaram-se a decorar igrejas com esculturas e pinturas, utilizando a técnica da perspectiva.

As esculturas barrocas mostram faces humanas marcadas pelas emoções, principalmente o sofrimento. Os traços se contorcem, demonstrando um movimento exagerado. Predominam nas esculturas as curvas, os relevos e a utilização da cor dourada.

O pintor renascentista italiano Tintoretto é considerado um dos precursores do Barroco na Europa, pois muitas de suas obras apresentam, de forma antecipada, importantes características barrocas.

Podemos citar como principais artistas do barroco: o espanhol Velásquez, o italiano Caravaggio, os belgas Van Dyck e Frans Hals, os holandeses Rembrandt e Vermeer e o flamengo Rubens.



As Meninas de Diego Velásquez (1656): exemplo de pintura barroca

  

BARROCO NO BRASIL

O barroco brasileiro foi diretamente influenciado pelo barroco português, porém, com o tempo, foi assumindo características próprias. A grande produção artística barroca no Brasil ocorreu nas cidades auríferas de Minas Gerais, no chamado século do ouro (século XVIII). Estas cidades eram ricas e possuíam uma intensa vida cultural e artística em pleno desenvolvimento.

O principal representante do barroco mineiro foi o escultor e arquiteto Antônio Francisco de Lisboa também conhecido como Aleijadinho. Suas obras, de forte caráter religioso, eram feitas em madeira e pedra-sabão, os principais materiais usados pelos artistas barrocos do Brasil. Podemos citar algumas obras de Aleijadinho: Os Doze Profetas e Os Passos da Paixão, na Igreja de Bom Jesus de Matozinhos, em Congonhas do Campo (MG).

Outros artistas importantes do barroco brasileiro foram: o pintor mineiro Manuel da Costa Ataíde e o escultor carioca Mestre Valentim. No estado da Bahia, o barroco destacou-se na decoração das igrejas em Salvador como, por exemplo, de São Francisco de Assis e a da Ordem Terceira de São Francisco.

No campo da Literatura, podemos destacar o poeta Gregório de Matos Guerra, também conhecido como "Boca do Inferno". Ele é considerado o mais importante poeta barroco brasileiro. 

Outro importante representante da Literatura Barroca foi o padre Antônio Vieira que ganhou destaque com seus sermões.




Positivo/natural: sátira barroca e anatomia política*


João Adolfo Hansen

RESUMO
Na sátira barroca atribuída a Gregorio de Matos e Guerra (Bahia, 1682/1694), a ordem do conceito engenhoso dramatiza o conceito de ordem, segundo a doutrina neo-escolástica do corpo místico do Estado como vontade unificada no pacto de sujeição à persona mystiça do Rei. Nele, os vários topoi teológico-políticos elaboram e confirmam o conceito moderno de poder soberano absoluto. Não são mera ornamentação de uma retórica do poder "voltando" à Idade Média, muito menos oposição nacionalista, libertina, herética, etc. aos poderes constituídos, como o anacronismo costuma postular. Segundo a doutrina das duas pessoas do Rei, a sátira intervém na circunscrição do poder ordinário tendo por fundamento o poder absoluto da razão de Estado soberana. Providencialista, é anamnese do Ditado: nela, o ius é sempre lei natural expressa em leis positivas — portanto, Razão. Não se opõe ao privilégio, enfim, mas aos efeitos de seu excesso ou falta. O abuso é paixão retoricamente efetuada, a que se opõe o bom uso pré-formado na vontade real, que a enunciação prudente da persona satírica metaforiza.



Uma das tantas crônicas de Nelson Rodrigues sobre futebol(?)
Embalado pra viagem # 74

Conveniência de ser covarde



Há tempos, fui à rua Bariri ver um jogo do Fluminense. E confesso: — sempre considerei Olaria tão longíqua, remota, utópica como Constantinopla, Istambul ou Vigário Geral. Já na avenida Brasil, comecei a sentir uma nostalgia e um exílio só equiparáveis aos de Gonçalves Dias., de Casimiro de Abreu. Conclusão: — recrudesceu em mim o ressentimento contra qualquer espécie de viagem. Mas enfim cheguei e assisti à partida. Nos primeiros trinta minutos, houve tudo, rigorosamente tudo, menos futebol. Uma vergonha de jogo, uma pelada alvar, que não valia os cinco cruzeiros do lotação. E, de súbito, ocorre o episódio inesperado, o incidente mágico, que veio conferir ao match de quinta classe uma dimensão nova e eletrizante.

Eis o fato: — um jogador qualquer enfiou o pé na cara do adversário. Que fez o juiz? Arremessa-se, precipita-se com um élan de Robin Hood e vem dizer as últimas ao culpado. Então, este não conversa: — esbofeteia o árbitro. Ora, um tapa não é apenas um tapa: — é, na verdade, o mais transcendente, o mais importante de todos os atos humanos. Mais importante que o suicídio, que o homicídio, que tudo mais. A partir do momento em que alguém dá ou apanha na cara, inclui, implica e arrasta os outros à mesma humilhação. Todos nós ficamos atrelados ao tapa. Acresce o seguinte: — o som! E, de fato, de todos os sons terrenos, o único que não admite dúvidas, equívocos ou sofismas, é o da bofetada. Sim, amigos: — uma bofetada silenciosa, uma bofetada muda, não ofenderia ninguém e pelo contrário: — vítima e agressor cairiam um nos braços do outro, na mais profunda e inefável cordialidade. É o estalo medonho que a valoriza, que a dramatiza, que a torna irresgatável. Pois bem: — na bofetada de Olaria não faltou o detalhe auditivo. Mas o episódio não esgotaria, ainda, o seu horror. Restava o desenlace: — a fuga do homem. Pois o juiz esbofeteado não teve meias medidas: — deu no pé. Convenhamos: — é empolgante um pânico assim taxativo e triunfal, sem nenhum disfarcem nenhum recato. Digo “empolgante” e acrescente: — raríssimo ou, mesmo, inédito. Via de regra só o heroísmo é afirmativo, é descarado. O herói tem sempre uma desfaçatez única: — apresenta-se como se fosse a própria estátua equestre. Mas a covardia, não. A covardia acusa uma vergonha convulsiva. Tenho um amigo que faz o seguinte: — chega em casa, tranca-se na alcova, tapa o buraco da fechadura e só então, na mais rigorosa intimidade — apanha da mulher. Mas cá fora, à luz do dia, ele é um Tartarin, um Flash Gordon, capaz de varrer choques de polícias especiais.



Pois bem. Ao contrário dos outros covardes, que escondem, renegam, que desfiguram a própria covardia — o juiz correu como um cavalinho de carrossel. Note-se: há, hoje, toda uma monstruosa técnica de divulgação, que torna inexequível qualquer espécie de sigilo. E, logo, a imprensa e o rádio envolveram o árbitro. Essa covardia fotografada, irradiada, televisionada, projetou-se irresistivelmente. E quando, em seguida, a polícia veio dar cobertura ao árbitro, este ainda rilhava os dentes, ainda babava materialmente de terror. Acabado o match a multidão veio passando, com algo de fluvial no seu lerdo escoamento. Mas todos nós, que só conseguimos ser covardes às escondidas, tínhamos inveja, despeito e irritação dessa pusilanimidade que se desfraldara como um cínico estandarte.

Nelson Rodrigues, em crônica originalmente publicada no jornal Manchete Esportiva, no dia 17 de dezembro de 1955. Texto depois reproduzido no livro O Berro Impresso nas Manchetes: Crônicas Completas da Manchete Esportiva (Agir, 2007) e no fascículo especial da Bravo!: Literatura & Futebol (Abril, 2010).

1ª caricatura de Mario Alberto;
2ª caricatura de William Medeiros.

Em nossa homenagem pelo centenário do nascimento de Nelson Rodrigues, neste dia 23 de agosto de 2012.





Referências

http://cacellain.com.br/blog/wp-content/uploads/2016/04/Mane-Garrincha-1957.jpg
http://gilvanmelo.blogspot.com/2018/06/caca-diegues-um-craque-barroco.html#more
https://www.suapesquisa.com/uploads/site/156x133_barroco.jpg
https://www.suapesquisa.com/uploads/site/obra_barroca.jpg
https://www.suapesquisa.com/barroco/
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40141989000200005
http://3.bp.blogspot.com/-U5ov9eU6src/UDaEL6OH6qI/AAAAAAAACho/QwvXwBgovnI/s320/Nelson-Rodrigues-por-Mario-Alberto.jpg
http://4.bp.blogspot.com/-Q_Bjq8iuy8I/UDaETlbdM1I/AAAAAAAACh0/D33Gj9PRn7I/s320/nelson-rodrigues-por-William-Medeiros.jpg

http://oberronet.blogspot.com/2012/08/uma-das-tantas-cronicas-de-nelson.html

domingo, 24 de junho de 2018

Ser Político é uma atividade muito sazonal

“Olha rapaz, ser político é uma atividade muito sazonal, de quatro em quatro anos temos que nos humilhar pedindo votos, fazendo o diabo para ganhar uma eleição e ainda temos que nos expor prestando contas dos nossos atos.” Dr. Gusmão Benemérito de Favela do Morro da Providência J.L.R. Set. 2017


Lula diz que político ladrão é melhor do que um concursado

“Ana, eu de vez em quando falo que as pessoas achincalham muito a política. Mas a profissão mais honesta é a do político. Sabe por que? Porque todo ano, por mais ladrão que ele seja ele tem que ir pra rua, encarar o povo e pedir voto. O concursado não. Se forma na Universidade, faz um concurso e tá com o emprego garantido para o resto da vida.” Ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva Benemérito da República de São Bernardo

Para Lula, político ladrão é melhor que procuradores e juízes concursados

 Josias de Souza 16/09/2016



Com o luxuoso auxílio dos seus advogados, Lula desperdiça tempo numa cruzada contra Sérgio Moro. Para estigmatizá-lo, recorreu até às Nações Unidas. Denunciado, o ex-presidente passou a demonizar também o procurador da República Deltan Dallagnol e os outros “meninos” da Lava Jato. Lula procede assim por acreditar que, tachando seus investigadores de demônios, fica eximido de todo exame do mal. A começar pelo mais difícil: o autoexame,

Nesta quinta-feira, no comício privê que convocou para politizar a denúncia de que foi alvo, Lula potencializou a impressão de que se tornou um típico político brasileiro— grosso modo falando. Ele discursou por uma hora e oito minutos. A certa altura, a pretexto de criticar os procuradores que têm a mania de procurar e o juiz que cultiva o hábito de julgar, Lula saiu em defesa da classe política, sua corporação. Pronunciou a seguinte frase:

“Eu, de vez em quando, falo que as pessoas achincalham muito a política. Mas a profissão mais honesta é a do político. Sabe por quê? Porque todo ano, por mais ladrão que ele seja, ele tem que ir para a rua encarar o povo, e pedir voto. O concursado não. Se forma na universidade, faz um concurso e está com emprego garantido o resto da vida. O político não. Ele é chamado de ladrão, é chamado de filho da mãe, é chamado de filho do pai, é chamado de tudo, mas ele tá lá, encarando, pedindo outra vez o seu emprego”.

O raciocínio de Lula é límpido como água de bica. Mas vale a pena clareá-lo um pouco mais. Para o morubixaba do PT, política não é sacerdócio, mas profissão. E se parece muito com a profissão mais antiga do mundo. O político, ainda que seja um biltre, um pulha, um larápio será sempre mais honesto do que alguém capaz de molhar a camisa numa universidade para ingressar por concurso no Ministério Público ou na magistratura. Toda vilania, toda calhordice, toda ladroagem será perdoada se o político for para a rua “encarar o povo e pedir voto.”

De acordo com a força-tarefa de Curitiba, Lula é o “comandante máximo” da corrupção. Presidiu uma “propinocracia” urdida para assegurar o enriquecimento ilícito, a governabilidade corrompida e a perpetuação no poder. Lula abespinhou-se com a acusação de que comprou apoio congressual.

“Ontem eu vi eles falarem dos partidos políticos, dos governos de coalisão, vocês sabem que muita gente que tem diploma universitário, que fez concurso, é analfabeto político”, declarou. “O cara não entende do mundo da política. Não tem noção do que é um governo de coalizão. Ele não tem noção do que é um partido ser eleito com 50 deputados de 513 e que tem que montar maioria.” Foi como se o pajé petista dissesse: “Num Legislativo em que todos os gatunos são pardos, mensalões e petrolões não são opcionais, mas imperativos.”

A esse ponto chegou o mito. Assumira o poder federal, em 2003, ostentando uma biografia que empolgava o mundo. Imaginou-se que reformaria os maus costumes. Hoje, convoca a imprensa nacional e estrangeira para informar que foi reformado por eles. E concluiu: 1) que a oligarquia política com o rabo preso no alçapão da Lava Jato é inimputável. Recebeu licença das urnas para roubar. 2) que ‘governabilidade’ virou uma grande negociata para justificar qualquer aliança ou malandragem destinada a fazer da discussão política uma operação de compra e venda.

No fim das contas, um comício que serviria para contestar acabou confirmando as formulações dos analfabetos políticos da Lava Jato. Enquanto procura demônios de ocasião para os quais possa transferir suas culpas, Lula revela o porquê do surgimento de fenômenos como o mensalão e o petrolão. Se a urna é um sabão em pó moral, nada mais natural que políticos como Collor, Renan, Cunha e um incômodo etcétera recebessem, sob Lula, licença para plantar bananeira dentro dos cofres da Petrobras e adjacências,

Lula gosta de citar sua mãe, dona Lindu, para informar que aprendeu com ela a “andar de cabeça erguida por esse país.” Está claro que Lula não apreendeu os ensinamentos de sua mãe. Um governante pode até conviver com certos políticos por obrigação protocolar. Qualquer mãe entenderia isso. Mas ir atrás do Collor, adular o Cunha, entregar a viabilidade do seu governo à conveniência de tipos como Renan… Está na cara que Dellagnol e os outros ''meninos'' de Curitiba precisam assumir a função da mãe de Lula, denunciando-o de vez em quando, nem que seja para dizer: “Olha as companhias, meu filho. É para o seu próprio bem. Certos confortos podem acabar na cadeia.”

Referência


https://josiasdesouza.blogosfera.uol.com.br/2016/09/16/para-lula-politico-ladrao-e-melhor-que-procuradores-e-juizes-concursados/

sábado, 23 de junho de 2018

Lava Jato no Mundo


“(...) E o tal do mundo não se acabou (...)” Assis Valente

Operation Car Wash in the World

'Não há vergonha na aplicação da lei', diz Moro à CNN sobre Lava Jato
A emissora publicou uma matéria de mais de cinco minutos sobre a maior ação contra corrupção já deflagrada no Brasil
Por ESTADÃO CONTEÚDO
Publicado às 18h09 de 22/06/2018 - Atualizado às 18h09 de 22/06/2018



Durante a entrevista, o juiz federal Sérgio Moro afirma que a investigação começou 'muito pequena' - Marcelo Camargo/Agência Brasil

Rio - Em entrevista à rede de TV americana CNN, o juiz federal Sérgio Moro afirmou que a Operação Lava Jato "é uma grande conquista para a democracia brasileira". A emissora publicou uma matéria de mais de cinco minutos de duração sobre a maior ação contra corrupção já deflagrada no Brasil.

"Por um lado, você pode dizer que todos esses casos de corrupção são vergonhosos, mas não há vergonha na aplicação da lei. Então o Brasil está fazendo o que é necessário para ser feito. É uma grande conquista para a democracia brasileira", afirmou o juiz.

Na reportagem, a rede cita a condenação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, preso desde 7 de abril para cumprir uma pena de 12 anos e um mês de reclusão por corrupção e lavagem de dinheiro no caso triplex do Guarujá. Também é citada a investigação sobre o presidente Temer. A CNN afirma que "Moro se tornou um herói" brasileiro após o início da Lava Jato.

Durante a entrevista, o juiz federal afirma que a investigação "começou muito pequena". "Foi uma investigação sobre lavadores de dinheiro profissionais. Mas, seguindo o dinheiro a investigação cresceu, e para todos nós, policiais, promotores, juízes, não só eu, mas os outros juízes envolvidos no caso, foi uma grande surpresa", disse.

O magistrado citou à CNN o caso de dois delatores da Lava Jato, o doleiro Alberto Youssef e o ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa. "Esses dois criminosos decidiram cooperar com os promotores", afirmou.

Sérgio Moro declarou ainda que o apoio da opinião pública foi "muito importante". "O que foi muito importante no Brasil é que temos muito apoio e ainda temos muito apoio da opinião pública brasileira", disse.

Na entrevista, Moro afirmou que o país tem "políticos muito poderosos, empresários muito poderosos que infelizmente cometeram crimes de suborno e lavagem de dinheiro". "Não há desculpa para isso e eles têm que pagar o preço por irregularidades", declarou.






Juiz Sergio Moro no 60 minutes, citando o filme Os Intocáveis.




What in The World: Operation Car Wash

Fareed Zakaria, GPS

With some help from Brazilian Federal Judge Sergio Moro, Fareed breaks down what many see as "the biggest corruption scandal ever, anywhere in the world."
Source: CNN 
https://edition.cnn.com/videos/tv/2018/06/20/exp-gps-0617-what-in-the-world-brazil-corruption.cnn



Roda Viva | Sérgio Moro | 26/03/2018



E O Mundo Não Se Acabou
Carmen Miranda



Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar
Por causa disso a minha gente lá de casa começou a rezar
E até disseram que o sol ia nascer antes da madrugada
Por causa disso nessa noite lá no morro não se fez batucada

Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar
Por causa disso a minha gente lá de casa começou a rezar
E até disseram que o sol ia nascer antes da madrugada
Por causa disso nessa noite lá no morro não se fez batucada

Acreditei nessa conversa mole
Pensei que o mundo ia se acabar
E fui tratando de me despedir
E sem demora fui tratando de aproveitar

Beijei na boca de quem não devia
Peguei na mão de quem não conhecia
Dancei um samba em traje de maiô
E o tal do mundo não se acabou

Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar
Por causa disso a minha gente lá de casa começou a rezar
E até disseram que o sol ia nascer antes da madrugada
Por causa disso nessa noite lá no morro não se fez batucada

Chamei um gajo com quem não me dava
E perdoei a sua ingratidão
E festejando o acontecimento
Gastei com ele mais de quinhentão
Agora eu soube que o gajo anda
Dizendo coisa que não se passou
Ih, vai ter barulho e vai ter confusão
Porque o mundo não se acabou

Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar
Por causa disso a minha gente lá de casa começou a rezar
E até disseram que o sol ia nascer antes da madrugada
Por causa disso nessa noite lá no morro nem se fez batucada
Composição: Assis Valente



Referências

https://odia.ig.com.br/_midias/jpg/2018/06/22/700x470/1_moro-7116771.jpg
https://odia.ig.com.br/brasil/2018/06/5551703-nao-ha-vergonha-na-aplicacao-da-lei--diz-moro-a-cnn-sobre-lava-jato.html
https://youtu.be/ww1xw_Exd58
https://edition.cnn.com/videos/tv/2018/06/20/exp-gps-0617-what-in-the-world-brazil-corruption.cnn
https://youtu.be/DqtPZVBhfNw
https://www.youtube.com/watch?v=DqtPZVBhfNw
https://youtu.be/5GxA4Elbx80
https://www.letras.mus.br/carmen-miranda/687167/

sexta-feira, 22 de junho de 2018

Valhacouto...


...Questão de educação?

“Ai, palavras, ai, palavras
que estranha potência a vossa!” (Cecília Meireles, Romanceiro da Inconfidência)

“...Urge um mínimo de cuidado com as delações. A Justiça não pode se tornar o valhacouto de dedos-duros.”
Editorial / O Estado de São Paulo

"...não era mais do que um sertão desconhecido, considerado como o valhacouto onde imperava o banditismo..." (Cecília Meireles, Questão de educação)

Exercícios Sobre Cecília Meireles

“Estes exercícios sobre Cecília Meireles abordam as principais características da obra poética de uma das mais importantes escritoras do Brasil.”
Publicado por: Luana Castro Alves Perez em Exercícios de Literatura


Questão 1

Sobre Cecília Meireles é INCORRETO afirmar:
a) Embora não tenha pertencido diretamente ao chamado “grupo católico carioca”, formado por Jorge de Lima, Murilo Mendes, Ismael Nery, Tristão de Ataíde, entre outros, Cecília Meireles também apresenta em sua obra traços espiritualistas.
b) A obra de Cecília Meireles caminha em direção à reflexão filosófica e existencial. O espiritualismo e o orientalismo fazem-se presentes na obra da poeta, grande admiradora da cultura oriental.
c) Ao lado da escritora Rachel de Queiroz, Cecília Meireles foi uma das primeiras mulheres a conquistar o reconhecimento do valor de sua obra na literatura brasileira.
d) Filiou-se ao Neossimbolismo e, em seus poemas, é possível notar um lirismo conciliado a uma perspectiva bem-humorada da vida.
e) Suas poesias denotam certa inclinação para a estética simbolista, embora a poeta não estivesse filiada a nenhum movimento literário.


Questão 2

Estão, entre as principais características da linguagem poética de Cecília Meireles:
a) Sua linguagem é marcada pelo experimentalismo e bastante influenciada pela linguagem popular. Buscou a recriação da linguagem a partir do contato com os falares regionais, defendendo os “erros” gramaticais como expressão maior de nossa brasilidade.
b) Sua escrita é direta e simples, quase prosaica, muito embora tenha tido grande conhecimento das formas clássicas de estruturação de poemas, elementos que também podem ser encontrados em sua obra.
c) O cuidado com a seleção vocabular e a inclinação para a musicalidade, para o verso curto e para os paralelismos estão entre as principais características da poesia de Cecília Meireles.
d) Por meio de uma linguagem debochada, irônica e crítica, Cecília Meireles satirizava os meios acadêmicos e também a burguesia, estabelecendo uma profunda ruptura em relação à cultura do passado.

Questão 3

(ENEM – 2012)
Ai, palavras, ai, palavras
que estranha potência a vossa!
Todo o sentido da vida
principia a vossa porta:
o mel do amor cristaliza
seu perfume em vossa rosa;
sois o sonho e sois a audácia,
calúnia, fúria, derrota...
A liberdade das almas,
ai! Com letras se elabora...
E dos venenos humanos
sois a mais fina retorta:
frágil, frágil, como o vidro
e mais que o aço poderosa!
Reis, impérios, povos, tempos,
pelo vosso impulso rodam...
MEIRELES, C. Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1985 (fragmento).
O fragmento destacado foi transcrito do Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles. Centralizada no episódio histórico da Inconfidência Mineira, a obra, no entanto, elabora uma reflexão mais ampla sobre a seguinte relação entre o homem e a linguagem:
a) A força e a resistência humanas superam os danos provocados pelo poder corrosivo das palavras.
b) As relações humanas, em suas múltiplas esferas, têm seu equilíbrio vinculado ao significado das palavras.
c) O significado dos nomes não expressa de forma justa e completa a grandeza da luta do homem pela vida.
d) Renovando o significado das palavras, o tempo permite às gerações perpetuar seus valores e suas crenças.
e) Como produto da criatividade humana, a linguagem tem seu alcance limitado pelas intenções e gestos.


Questão 4

(UFSCAR)
Reinvenção
A vida só é possível
reinventada.
Anda o sol pelas campinas
e passeia a mão dourada
pelas águas, pelas folhas ...
Ah! tudo bolhas
que vêm de fundas piscinas
de ilusionismo ... - mais nada.

Mas a vida, a vida , a vida
a vida só é possível
reinventada. […]
Cecília Meireles
Podemos dizer que, nesse trecho de um poema de Cecília Meireles, encontramos traços de seu estilo
a) sempre marcado pelo momento histórico.
b) ligado ao vanguardismo da geração de 22.
c) inspirado em temas genuinamente brasileiros.
d) vinculado à estética simbolista.
e) de caráter épico, com inspiração camoniana.





Respostas

Resposta Questão 1
Alternativa “d”. Cecília Meireles nunca esteve filiada a um movimento literário, embora seja possível observar características do Neossimbolismo em sua obra.

Resposta Questão 2
Alternativa “c”. É comum encontrar na linguagem de Cecília Meireles elementos que remetem ao Neossimbolismo, como o vento, a água, o mar, o tempo, o espaço, a solidão e a música, características que conferem à sua poesia um caráter fluido e etéreo.

Resposta Questão 3
Alternativa “b”. Analisando o fragmento do Romanceiro da Inconfidência, é possível observar que Cecília Meireles realiza uma reflexão entre o homem e a linguagem ao apontar que as relações humanas, em suas múltiplas condições, têm seu equilíbrio vinculado ao significado das palavras, ideia que pode ser confirmada no verso “Todo o sentido da vida/principia a vossa porta” (leia-se porta das palavras).

Resposta Questão 4
Alternativa “d”. O estilo de Cecília Meireles está associado à estética simbolista, sobretudo porque a poeta faz uso de elementos como a musicalidade e apresenta uma postura que compreende a efemeridade da vida, traços predominantes do Simbolismo.






Apenas delações: Editorial | O Estado de S. Paulo

A 2.ª Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) julgou improcedente ação penal contra a senadora Gleisi Hoffmann, o ex-ministro Paulo Bernardo e o empresário Ernesto Kluger. Os ministros da 2.ª Turma entenderam que a Procuradoria-Geral da República (PGR) não apresentou no processo provas que corroborassem a acusação de que os três réus teriam solicitado e recebido R$ 1 milhão desviado da Petrobrás para a campanha ao Senado, em 2010, da atual presidente do PT. No processo havia apenas delações, sem outros elementos de prova a corroborar as informações provenientes das colaborações premiadas.

“Observa-se que toda argumentação (da PGR) tem como fio condutor o depoimento de delatores. Relatos não encontram respaldo em elementos de corroboração”, disse o ministro Dias Toffoli. Até mesmo os documentos que a PGR apresentou no processo, que supostamente corroborariam as delações, tinham sido produzidos pelos delatores, como uma anotação na agenda de Paulo Roberto Costa, que, segundo a promotoria, fazia referência ao valor repassado ao ex-ministro Paulo Bernardo.

A decisão do STF de absolver a senadora Gleisi Hoffmann por falta de provas deve servir de alerta para o Ministério Público. Essa repartição pública presta um desserviço ao País ao apresentar denúncias com base apenas em delações, que, por sua própria natureza, são parciais. O delator, como se sabe, obtém benefícios ao relatar à Justiça aquelas informações.

No processo contra a senadora petista, há ainda outro aspecto preocupante. Ao longo de toda a ação penal a PGR não trouxe nenhum elemento probatório além do que já estava na denúncia, ou seja, as informações oriundas de delatores. Tem-se, assim, um trabalho duplamente mal feito: além de apresentar uma acusação fraca, só com delações, a PGR depois nada acrescenta para provar suas acusações, como se o seu trabalho se encerrasse com a denúncia. Não foi feito trabalho de investigação que prestasse para os fins pretendidos.

Esse modo de proceder da PGR tem graves implicações. Pessoas inocentes podem ser acusadas injustamente, apenas com base em relatos de delatores. Neste caso, a atuação descuidada do Estado contribuiria para destruir a honra dessas pessoas, pois, como se sabe, uma absolvição num processo penal nunca restabelece fama idêntica a que o réu tinha antes de ser denunciado e levado aos tribunais com a pecha de corrupção. Por mais eloquente que seja a sentença absolutória, sempre pairará sobre a biografia do réu a sombra desabonadora.

A instrução probatória, inepta, que se limita a apresentar relatos de delatores, também contribui para a impunidade. Como ocorreu na ação penal contra a senadora Gleisi Hoffmann, a Justiça não diz que não houve crime – apenas que não houve provas suficientes para condenar. É possível, portanto, que, tivesse a PGR mais diligência, o resultado de muitos casos penais fosse diferente, com a condenação de quem agiu criminosamente. Isso denigre tanto o réu como o acusador.

As delações podem ser um início para o trabalho de investigação criminal. Mas para que sejam de fato úteis, elas não podem ser também a conclusão de investigação. Nenhuma colaboração premiada tem o condão de proporcionar um juízo definitivo sobre um crime. A lei processual estabelece que ninguém deve ser condenado só com base em delações. Por isso, é dever da Polícia Federal e do Ministério Público não se limitar a reunir material trazido por delatores.

Têm sido muitos os casos de delações que surgem com grande estardalhaço, destroem a honra das pessoas citadas, mas depois as autoridades não conseguem confirmar as informações que divulgaram, em geral, açodadamente. O resultado de inquéritos abertos a partir dessas colaborações é o arquivamento. Recentemente, por exemplo, foi arquivado um inquérito eleitoral envolvendo o ex-ministro Aloizio Mercadante, que tinha como base uma delação do empreiteiro Ricardo Pessoa. Segundo o promotor Luiz Henrique Cardoso Dal Poz, responsável pelo caso, “os informes de Pessoa, além das referidas divergências e imprecisões de temas nucleares, não foram confirmados por outras circunstâncias”.

Urge um mínimo de cuidado com as delações. A Justiça não pode se tornar o valhacouto de dedos-duros.


“Mas a vida, a vida , a vida
a vida só é possível
reinventada. […]” (Cecília Meireles)




Cecília Meireles: Timidez

Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve…

- mas só esse eu não farei.

Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes…

- palavra que não direi.

Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,

- que amargamente inventei.

E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando…

e um dia me acabarei.



Cecília Meireles: Timidez, da Expressão Contida, à Esperança

Viviane P. Galvão1
  
Resumo: Este artigo analisa Timidez (1939), poema de Cecília Meireles, que revela uma natureza lírica caracterizada pelos preceitos estéticos e conceituais da modernidade. O poema apresenta um tom melancólico e reflete uma atmosfera de sonho, bem característicos das obras cecilianas. Pretende-se mostrar a delicadeza e leveza que levam ao equilíbrio formal e à simetria do poema, examinando sua forma semântico-estilística enriquecida pela significação simbólica das imagens apresentadas. A partir das concepções de Wordsworth, o artigo procura transmitir os sentimentos e ideias contidos no poema, de maneira simples e não elaborada, retratados pelo Eu Poético, que não revela seu amor por timidez. Utilizam-se igualmente os preceitos de Hegel para caracterizar o lirismo e de Mallarmé para compreender as conotações simbólicas no poema.
Palavras-chave: Cecília Meireles. Timidez. Wordsworth.

Abstract: This article analyses Cecília Meireles’poem Timidez (1939), which reveals a lyrical nature characterized by the aesthetic and conceptual precepts of modernity. The poem presents a melancholic tone and reflects a dreamlike atmosphere, so characteristic of Cecilian works. The purpose of the article is to show the delicacy and grace that lead to the poem´s formal balance and symmetry by examining its semantic-stylistic form and the symbolic meaning of the images. Starting from Wordsworth´s concepts, the article tries to transmit the feelings and ideas comprised in the poem in a simple and not elaborated manner, depicted through the persona who does not reveal her/his love because of shyness. Hegel´s precepts are also used to characterize lyricism, as well as Mallarmé´s principles to understand the symbolic connotations in the poem.
Key words: Cecilia Meireles. Timidez. Wordsworth.

1 Mestranda do Curso de Teoria Literária do Centro universitário Campos de Andrade. E-mail: vivi.prass@hotmail.com




Referências

https://exercicios.mundoeducacao.bol.uol.com.br/exercicios-literatura/exercicios-sobre-cecilia-meireles.htm
http://gilvanmelo.blogspot.com/2018/06/apenas-delacoes-editorial-o-estado-de-s.html
http://gilvanmelo.blogspot.com/2018/06/cecilia-meireles-timidez.html?m=1
http://www.bibliotekevirtual.org/index.php/2013-02-07-03-02-35/2013-02-07-03-03-11/1086-scripta-alumni/n11/10486-cecilia-meireles-timidez-da-expressao-contida-a-esperanca.html