quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

O QUINZE

"O povo tá pricisando d'acreditar em alguém, Terta! Roberto DaMatta: Ano novo? ***
*** há 1 dia Cultura - Estadão Coluna - Roberto DaMatta - Estadão *** O Globo O ano passou de 21 para 22, mas não conseguimos controlar as velhas, triviais e vergonhosas roubalheiras, o machismo, o feminicídio e a violência miliciana e policial. Ademais, aumentamos a taxa de racismo estrutural e estruturante, do “você sabe com quem está falando?” e, para completar, voltou a inflação, em paralelo a uma polarização que, demandando a exclusão do outro, é, em todo tempo e lugar, o timbre do reacionarismo fascista. O calendário muda, mas o estilo aristocrático e elitista, antirrepublicano e autoritário, claro na Presidência e em todo lugar, permanece atrapalhando nossas vidas. Num chavão, o “ano novo” realiza sua costumeira malandragem de mudar não mudando. Continuamos a pensar o tempo como calendário, imaginando que, quanto mais velhos, mais “adiantados” ficamos, quando, na verdade, o Brasil de hoje é uma infâmia de atrasos. É um país a caminho do suicídio moral. Como falar num novo ano se o acontecimento básico deste tempo começa com uma campanha eleitoral que repete a anterior, negando o devir histórico? É abominável ver a repetição da “luta” Lula-Bolsonaro, que, neste “novo ano” de 22, estão muito mais parecidos com criadores de autolorotas negacionistas — esse conceito dominante de um ano novo nascido velho. São nossos mais ávidos postulantes a “supremos magistrados da nação” — uma nação que precisa de muita água benta (e sanitária) para livrar-se de sua danação e que corre o risco de repetir-se no seu rito democrático mais importante. Reprisará na eleição sua sina de conjugar, segundo o oportunismo, burocracia-legal-processualística, compadrio regado a mandonismo elitista e carisma para dar e vender. Estou cheio de messias, milagreiros, curadores, especialistas e religiosos carismáticos. Chega de mediadores canalhas de divindades baratas. Nosso panteão de carismáticos que mudariam o Brasil chegou ao seu limite! Penso que, para termos de fato um novo ano, e não um “Ano-Novo” formal e ritualístico, temos de resgatar uma abandonada e destruída ética de responsabilidade e de honra. A ética do “isso eu não faço!”. Tempos novos são ideais para tirar da latrina princípios e valores que dizem não ao nosso egoísmo e ao nosso “bom-mocismo” condescendente, que concilia Deus e Diabo; que confunde direita com esquerda e cabeça (sejamos educados...) com o traseiro... É preciso pensar mais sinceramente quando se fala em nome do “povo”, que cada vez mais se desgraça, porque os cargos públicos são apossados pelos eleitos (na maioria, aventureiros de gravata italiana) que jamais pensam em trabalhar para o Brasil, pois, mesmo em meio a tempos novos e difíceis, continuam a pensar que são donos do Brasil... Valha-nos, Deus!, como se dizia antigamente... Na festa deste fim de ano, vesti preto. Estou de luto e tomo, é claro, um adequado black label. Mas, nestes anos finais de minha vida, enfrento a tentação de desistir de um país onde a “política” perdeu credibilidade. Passou de projeto a malandragem autoritária. A tal ponto que a mentira, a falsidade e, acima de tudo, a má-fé (essa mestra das fake news e das militâncias mais perversas) tornaram-se projetos para quem escapou da abominação que foi testemunhar um presidente da República recusar a vacina contra a pandemia. Amigos, é grande a vontade de sumir. Mas para onde ir? Para uns Estados Unidos que se perdem em meio ao que foi a liberdade — sua grandiosa virtude democrática? Para uma China materialmente gigantesca que, com ajuda de Confúcio, torna minúscula uma cidadania já hierarquizada? Irei com os zilionários americanos dar voltas em torno do planeta que a bolsonarista alienada diz que é plano? Ou devo apelar para o Papai Noel ianque, de quem a maioria dos brasileiros jamais foi filho ou ganhou o presente da igualdade? Pensei, é claro, em Pasárgada. Mas o melhor mesmo é desejar que o fogo da esperança acenda uma fagulha no coração dos leitores desta coluna. É o cintilar da esperança que construirá um autêntico Ano-Novo. P.S.: Reitero minha solidariedade a Eduardo Raposo e ao diretor do Departamento de Ciências Sociais da PUC-Rio, Marcelo Burgos, contra uma ultrajante e enviesada acusação de racismo. Examinar questões sociais, mesmo as mais execráveis, como o racismo ou o fascismo reverso — exceto se existe má-fé — é o exato oposto de praticar. quarta-feira, 5 de janeiro de 2022 https://gilvanmelo.blogspot.com/2022/01/roberto-damatta-ano-novo.html
*** Nas entrelinhas: Lula aposta no confronto com Bolsonaro, centro não se unifica Publicado em 06/01/2022 - 06:16 Luiz Carlos AzedoDesemprego, Economia, Eleições, Ética, Governo, Memória, Partidos, Política A aliança entre setores social-democratas, liberais e conservadores comprometidos com o Estado democrático de direito hoje não se materializa, porque nenhuma liderança foi capaz de traduzi-la. O artigo do ex-ministro da Fazenda Guio Mantega sobre a política econômica do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, publicado ontem na Folha de São Paulo, na verdade um resumo do que pensa o grupo de economistas que o assessoram, desconectou o projeto petista do colapso econômico do governo Dilma Rousseff em 2015, o que despertou grande polêmica entre analistas e economistas. Ao mesmo tempo, demarcou claramente a candidatura de Lula como um projeto de esquerda, que batizou de social-desenvolvimentista, e não de centro-esquerda. A narrativa de Mantega emula com o discurso nacional-desenvolvimentista do candidato do PDT, Ciro Gomes; ao mesmo tempo, aparta o projeto petista dos setores que defendem uma política social-liberal e de plena integração à economia mundial, o que pode facilitar a vida dos demais candidatos que lutam por um lugar ao sol na chamada terceira via: Sergio Moro (Podemos), João Doria (PSDB), Simone Tebet (MDB), Rodrigo Pacheco (PSD) e Alessandro Vieira (Cidadania). Essa agenda conta com certo consenso entre os agentes econômicos, porém, não sensibiliza o eleitorado, porque não enfrenta o problema das políticas públicas universalistas, do desemprego, da precarização do trabalho e das injustiças sociais. A aliança entre setores social-democratas, liberais e conservadores comprometidos com o Estado democrático de direito foi o eixo do governo de Fernando Henrique Cardoso, mas hoje não se materializa, porque nenhuma liderança foi capaz de traduzi-la em termos programáticos e eleitorais. Em tese, Moro, Doria, Tebet, Pacheco e Vieira são nomes que poderiam representá-la, unindo os setores centristas e moderados de esquerda e direita, mas nenhum desses candidatos até agora se revelou capaz de fazê-lo. Qual a razão? Há várias, dependendo do candidato. No caso de Moro, sua narrativa lava-jatista afasta naturalmente os políticos profissionais, principalmente os enrolados ou chamuscados pela crise ética. Doria enfrenta o carma de ser um político com cabeça, tronco e membros de paulista, e uma forte dissidência partidária, principalmente em Minas e no Rio Grande do Sul. Tebet sinaliza a ocupação de espaço pelas mulheres, mas a cúpula do seu partido é especialista em cristianizar seus candidatos. Pacheco não tem a menor chance de viabilizar a candidatura sem unir Minas em torno do seu nome; Vieira pertence a um pequeno partido, cuja sobrevivência depende da formação de uma federação com outra legenda mais forte. Entretanto, como diria o Barão de Itararé, se dependesse dos técnicos, o besouro não poderia voar. As eleições presidenciais, desde a surpreendente ascensão de Lula ao segundo turno em 1989, mostram que um candidato sem chances aparentes pode surpreender e chegar ao Palácio do Planalto. Em 2018, foi o que aconteceu com a eleição do presidente Jair Bolsonaro. Mas é preciso passar no teste de São Tomé, ou seja, nessas eleições, é preciso ver para crer. Polarização O artigo de Mantega sinalizou uma preocupação muito simétrica à do presidente Jair Bolsonaro, ou seja, consolidar a atual polarização eleitoral, demarcando o terreno já ocupado com uma narrativa ideologicamente definida. Uma espécie de carimbo no passaporte para o segundo turno, facilitada pela fragmentação eleitoral dos setores políticos que defendem um projeto alternativo a ambos, com uma narrativa nem-nem. A candidatura de Ciro Gomes, num eventual segundo turno, baldearia votos para o ex-presidente Lula, mesmo que o pedetista resolva se mandar para Paris. Processo semelhante pode ocorrer com a base eleitoral de Moro, profundamente antipetista, que poderia também transferir grande parte dos seus votos para Bolsonaro no segundo turno, mesmo com Moro tomando outro rumo. Restam Doria, Tebet, Pacheco e Vieira, que têm mais afinidades programáticas do que diferenças. Quem dos quatro poderia ter mais adensamento eleitoral, considerando, agora sim, os seus pontos fortes? Em princípio, seria Doria, governador do maior estado do país. Mas isso não é documento, haja vista o desempenho pífio de Orestes Quércia (MDB), em 1994, e de Geraldo Alckmin (PSDB), nas eleições passadas. Tudo vai depender de quem tiver mais capacidade de tecer alianças e demover outros candidatos, e do seu posicionamento estratégico em relação aos problemas do país, além de uma narrativa eleitoral que surpreenda os adversários, seduzindo os eleitores. Por mais que Lula e Bolsonaro estejam em vantagem, ninguém ganha eleição de véspera. https://blogs.correiobraziliense.com.br/azedo/nas-entrelinhas-lula-aposta-no-confronto-com-bolsonaro-centro-nao-se-unifica/?fbclid=IwAR19W9FZh6drZhkpcWyAK_7RLwREZQRNT1grFEdfGoJdBFUr8bML17kIEk0 ***************************************************************************
*** Enciclopédia Itaú Cultural O Quinze | Enciclopédia Itaú Cultural *** Resumo de livro: O Quinze, de Rachel de Queiroz Postado por: John Lennon Em: Estudantes | comentário : 0 Olá, leitor(a)! Publicado em 1930, O Quinze, de Rachel de Queiroz, é um marco na carreira da autora, que está entre os maiores destaques da literatura brasileira e soube retratar de modo muito particular a vida dos retirantes do sertão nordestino. O livro narra a história, rica em detalhes, de várias famílias que enfrentam dificuldades por conta da seca e precisam constantemente viajar em busca de melhores condições de vida. Outro fato importante sobre a obra é que o enredo é baseado em um acontecimento histórico: a grande seca que assolou o Nordeste brasileiro em 1915. Por isso que o nome do livro é O Quinze, fazendo alusão a essa época. Durante esse período, a própria autora se viu obrigada a deixar sua terra natal com a família, que morava no interior do Ceará. Assim, ela colocou um pouco de si na obra e soube expressar como ninguém a sensação de ter que abandonar o lar em busca de condições melhores de vida. Além disso, muitos aspectos modernistas podem ser notados no livro, como a preocupação com causas sociais, o retrato das adversidades do Nordeste e o trabalho com a linguagem regional e popular, que inclui expressões e marcas da oralidade. Encostado a uma jurema seca, defronte ao juazeiro que a foice dos cabras ia pouco a pouco mutilando, Vicente dirigia a distribuição de rama verde ao gado. Reses magras, com grandes ossos agudos furando o couro das ancas, devoravam confiadamente os rebentões que a ponta dos terçados espalhava pelo chão. Era raro e alarmante, em março, ainda se tratar de gado. Vicente pensava sombriamente no que seria de tanta rês, se de fato não viesse o inverno. A rama já não dava nem para um mês. Imaginara retirar uma porção de gado para a serra. Mas, sabia lá? Na serra, também, o recurso falta… Também o pasto seca… Também a água dos riachos afina, afina, até se transformar num fio gotejante e transparente. Além disso, a viagem sem pasto, sem bebida certa, havia de ser um horror, morreria tudo. Uma vaca que se afastava chamou a atenção do rapaz, que deu um grito: – Eh! menino, olha a Jandaia! Tange para cá! E chamando o vaqueiro: – Você viu, compadre João, como a Jandaia tem carrapato? Até no focinho! O João Marreca olhou para o animal que todo se pontilhava de verrugas pretas, encaroçando-lhe o úbere, as pernas, o corpo inteiro: – Tem umas ainda pior… Carece é carrapaticida muito… E as reses assim fracas… Vicente lastimou-se: – Inda por cima do verãozão, diabo de tanto carrapato… Dá vontade é de deixar morrer logo! – Por falar em deixar morrer… o compadre já soube que a Dona Maroca das Aroeiras deu ordens pra, se não chover até o dia de São José, abrir as porteiras do curral? E o pessoal dela que ganhe o mundo… Não tem mais serviço pra ninguém. Resumo da obra O Quinze, Rachel de Queiroz Fonte: Reprodução A história se passa no ano de 1915, período em que uma seca catastrófica atingiu o Nordeste brasileiro. Porém, na narrativa, o pano de fundo é o interior do Ceará, mais especificamente os arredores da cidade de Quixadá, mesmo local onde a autora morou quando criança e para onde voltou já adulta. O enredo se baseia em 2 histórias paralelas que ao final se juntam: as trajetórias de Conceição e de Chico Bento e sua família. Entretanto, na primeira parte do livro, a história de Chico Bento recebe mais atenção que a de Conceição. Logo no início da narrativa, somos apresentados(as) à Conceição, uma mulher jovem, apaixonada e sonhadora, que mora em Fortaleza e é professora. A personagem aparece em vários trechos do enredo, contudo, ganha destaque mais para o final do livro. Já a história da família de retirantes se inicia quando Dona Maroca das Aroeiras, que possui um grande pedaço de terra, determina que se a chuva não viesse para amenizar a seca até 19 de março, dia de São José, ela teria que soltar todos os animais da fazenda e seus funcionários teriam que partir, pois a senhora também partiria de suas terras. Assim, é introduzida a história de Chico Bento e sua família que, devido à falta de chuva, são obrigados a enfrentar uma dura jornada pelos caminhos do sertão árido e desértico. Eles se tornam retirantes e seguem dos arredores de Quixadá para Fortaleza, capital do Ceará. A família tem que abandonar todas as coisas que possuía, incluindo a terra natal e os animais. Sua situação precária é evidenciada pela forma despreparada e inocente como Chico Bento, sua mulher, Cordulina, sua cunhada, Mocinha, seus 5 filhos e um burro se apresentam para iniciar a jornada. Após esses acontecimentos, conhecemos um pouco mais sobre Conceição e sua avó, que deixa a terra natal, Logradouro, para ir até Fortaleza em busca de melhores condições. Também é apresentado Vicente, primo de Conceição, que, mesmo tendo sido citado antes, somente agora começa a revelar sua personalidade mesquinha. Chico Bento ainda esteve uns momentos na mesma postura, ajoelhado. E antes de se erguer, chupou os dedos sujos de sangue, que lhe deixaram na boca um gosto amargo de vida. Cordulina acordou de seu letargo e voltou-se espantada para o filho, que vinha com aquelas tripas na mão. – Que é isso, menino? – É a tripa de uma criação… o papai matou, mas veio o dono tomar, e por milagre ainda deu o fato… A mãe se levantou do assento, e, trôpega ainda, tomou na mão as vísceras que sangravam: – Pois, meu filho, vá até aquela casa ver se arranja um tiquinho de água mode consertar e lavar… O pequeno bateu e pediu água. Na salinha, com a cabra morta sobre uma mesa, o homem gesticulava com fúria, contando a história à mulher; e vendo chegar o menino, voltou-se, feito uma onça: – Por aqui ainda, seu cachorro? Não tem água coisa nenhuma! já pra fora! Deviam estar na cadeia! Vamos, já pra fora! Achou pouco o que ainda dei? Mas às últimas palavras, já Pedro ia longe, assombrado, numa carreira desabalada de cachorro enxotado. Chegou junto da mãe, chorando de vergonha e de susto: – O homem botou a gente pra fora, chamando tudo quanto é nome… E num foguinho de garranchos, arranjado por Cordulina com um dos últimos fósforos que trazia no cós da saia, assaram e comeram as tripas, insossas, sujas, apenas escorridas nas mãos. O enredo se desenrola voltando para a família de Chico Bento. É aqui que muitas passagens bonitas, bem como sofridas e tristes, são narradas. Entre elas, destaca-se o momento em que Chico encontra outra família de retirantes que está passando fome e comendo carne em decomposição. Então, ele divide o pouco de comida que tinha e acaba ficando sem nada para comer no dia seguinte. Outro trecho triste ocorre quando a família de Chico descansa em um local próximo a uma fazenda. Nesse momento, para aplacar a fome, ele mata uma cabra que estava pastando. Contudo, o dono do animal aparece enfurecido para tirar satisfações. Chico conta sua história, com intenção de explicar o ocorrido e dizer que não queria roubar nem ofender, porém, mesmo assim, o dono da cabra deixa apenas as vísceras do animal para serem consumidas pela família do vaqueiro. Mais adiante, um dos filhos de Chico Bento, o Josias, come uma raiz de mandioca-brava crua, o que causa a morte do garoto. Josias é enterrado em uma cova rasa na estrada por onde caminhavam, tendo apenas direito a uma cruz torta improvisada com 2 galhos secos. Essa é uma das passagens mais tristes do livro. Logo após a morte de Josias, o filho mais velho do casal, Pedro, acaba se perdendo em um local onde eles encontram várias famílias de retirantes. O garoto se junta a outro grupo e vai embora sem que seus pais vejam. Já na capital cearense, a família de Chico Bento é encaminhada para uma espécie de assentamento para sertanejos que fugiam da seca. Eles ficam ali um bom tempo, até encontrarem Conceição, que trabalhava como voluntária nesse campo de refugiados. Só então é revelado que eles se conheciam, que Conceição e Vicente, ao visitarem certa vez as terras de uma parente, encontraram essa família humilde que os recebeu muito bem. Nesse mesmo dia, os primos batizaram o filho caçula do casal, Manuel, apelidado de Duca. Depois de um tempo no assentamento, sem a volta da chuva, Chico Bento ouve algumas histórias sobre as oportunidades de emprego em São Paulo. Então, ele decide se mudar para a capital paulista com a família. Conceição o ajuda a comprar as passagens para a viagem, contudo, por ser madrinha de Manuel, pede que o casal deixe o garoto em Fortaleza, para ser criado por ela. Mesmo não gostando muito da ideia, Chico Bento e Cordulina acabam aceitando a proposta e partem para São Paulo. Conceição percebe que, apesar de gostar de Vicente, nunca terá nada com o primo, que é uma pessoa muito diferente dela. Além disso, acaba conhecendo Marinha Garcia, que morou na região de Quixadá e possuía uma paixão antiga por Vicente. Assim, Conceição abre mão do primo e decide viver só com o afilhado. No final da história, as chuvas chegam, a vida volta ao sertão e as esperanças do povo se renovam. Muitos que estão no campo de retirantes decidem retornar para suas terras e partem novamente em uma jornada de volta. A avó de Conceição também resolve regressar para o sertão, chamando a neta para ir com ela, porém, Conceição decide ficar em Fortaleza com Duca. Lá se tinha ficado o Josias, na sua cova à beira da estrada, com uma cruz de dois paus amarrados, feita pelo pai. Ficou em paz. Não tinha mais que chorar de fome, estrada afora. Não tinha mais alguns anos de miséria à frente da vida, para cair depois no mesmo buraco, à sombra da mesma cruz. Cordulina, no entanto, queria-o vivo. Embora sofrendo, mas em pé, andando junto dela, chorando de fome, brigando com os outros… E quando reencetou a marcha pela estrada infindável, chamejante e vermelha, não cessava de passar pelos olhos a mão trêmula: – Pobre do meu bichinho! Dia a dia, com forças que iam minguando, a miséria escalavrava mais a cara sórdida, e mais fortemente os feria com a sua garra desapiedada. Só talvez por um milagre iam aguentando tanta fome, tanta sede, tanto sol. O comer era só quando Deus fosse servido. Estrutura da obra O livro é curto, com cerca de 80 páginas, e é dividido em capítulos numerados, que intercalam a história de Conceição com a de Chico Bento e sua família. Contexto histórico A obra se passa durante a grande seca de 1915, que assolou o Nordeste brasileiro. Relevância da obra O Quinze é o livro de estreia de Rachel de Queiroz, que se tornou uma das principais representantes da segunda fase do Modernismo no Brasil, ou seja, da Geração de 30. Notas sobre a autora Rachel de Queiroz nasceu em Fortaleza, no Ceará, em 17 de novembro de 1910. Filha de Daniel de Queiroz e Clotilde Franklin de Queiroz, era parente distante, pelo lado materno, de José de Alencar, escritor do Romantismo. Poucos dias após seu nascimento, Rachel de Queiroz se mudou com a família para a cidade de Quixadá, mas, em 1917, fugindo da seca, eles foram morar no Rio de Janeiro. Esse fato marcou a vida da escritora e foi abordado no romance O Quinze, que a colocou entre os grandes nomes da literatura brasileira. Ela se formou no colégio aos 15 anos e, a partir daí, atuou como redatora em jornais do Ceará, para onde voltou. Pouco tempo depois, em 1930, com 20 anos, ela ingressou na literatura. Rachel de Queiroz recebeu diversos prêmios pela sua obra e, em 1977, foi a primeira mulher a ser aceita na Academia Brasileira de Letras. Em 1993, ela também foi a primeira pessoa do sexo feminino a ganhar o Prêmio Camões de Literatura, uma das maiores honrarias literárias em língua portuguesa. Rachel de Queiroz veio a falecer poucos anos depois, em 4 de novembro de 2003, no Rio de Janeiro. Quando Chico Bento, depois daquela noite passada, ali, no abandono da estrada, chamou a mulher e, ajudando a levantar um dos meninos, foi andando em procura do povoado, em vão buscou, pelas voltas do caminho, sentado nalguma pedra, o vulto de Pedro. Na estrada limpa e seca só se via um homem com uma trouxinha no cacete, e mais à frente, dentro de uma nuvem de poeira, um cavaleiro galopando. De repente, uma ideia o sossegou: – Que besteira! Naturalmente ele já está no Acarape… Mas chegaram ao Acarape, e debalde perguntaram pelo menino a todo o mundo. Não… Ninguém tinha visto… Sabia lá!… A toda hora estava passando retirante… Numa bodega, onde o vaqueiro novamente fez indagações, alguém lembrou: – Homem, por que você não vai falar ao delegado? Ele é quem pode dar jeito. Mora ali, naquela casa de alpendre. No modo que agora era o seu, curvado, quase trôpego, Chico Bento endireitou para a casa apontada, que ficava meio apartada das outras, tendo de um lado um alpendre onde se viam algumas cangalhas de palha roída. E bateu à porta, enquanto Cordulina se sentava no chão, na beirada do alpendre. Lá de dentro, uma voz de mulher disse baixinho: – Abre não, menina, é retirante… É melhor fingir que não ouve… Chico Bento escutou; e sua voz lenta explicou, dolorida: – Não vim pedir esmola, dona, eu careço é de ver o delegado daqui… Um homem de cachimbo no queixo mostrou a cara à meia-porta: – Está falando com ele, o que é? Chico Bento ficou um instante encarando o homem, reconhecendo-o. Mas o delegado, impaciente, repetiu a pergunta: – O que é que você queria? – Eu vim falar ao senhor mode um filho meu, que desde ontem tomou sumiço. Nós ficamo na estrada, eu assim, variando, muito fraco… e ele veio, indo até aqui. Quando cacei o menino, não teve quem desse notícia. – Como é ele? – Assim comprido, magrinho, a cara chupada… está dentro dos doze anos… O delegado tirou o cachimbo da boca e, calcando com o dedo o tabaco, abanou a cabeça: – Não tenho jeito que dar não, meu amigo… o menino, naturalmente, foi-se embora com alguém… Um rapazinho, assim sozinho, muita gente quer. Análise da obra A obra retrata o Nordeste do país, portanto, possui caráter regionalista. Com uma narrativa linear, Rachel de Queiroz aborda a realidade dos retirantes nordestinos em 1915, quando a região foi assolada por uma grande seca. Assim, O Quinze é um romance que contém forte teor social, falando sobre a seca, a fome e a miséria. O uso do discurso direto e a análise psicológica dos personagens são recursos utilizados para intensificar essas adversidades. Foco narrativo, narrador e linguagem O foco narrativo da obra é em 3ª pessoa, ou seja, trata-se de um narrador onisciente que revela toda a dimensão psicológica dos personagens, mas sem participar da história, caracterizando-se como um narrador heterodiegético. Já em relação à linguagem, o livro traz aspectos modernistas e regionalistas, tendo um registro coloquial e simples, marcado por frases curtas, precisas e breves. Tempo e espaço A história se passa no ano de 1915, época da grande seca no Nordeste brasileiro. Além disso, o tempo da narrativa é cronológico e os acontecimentos são contados de forma linear. Em relação ao espaço, temos como pano de fundo o estado do Ceará, mais especificamente a região de Quixadá, onde estão situadas as fazendas do pai de Vicente, de Dona Inácia (avó de Conceição) e de Dona Maroca das Aroeiras (patroa de Chico Bento). Existe também uma breve aparição de um cenário mais urbano, quando os personagens estão em Fortaleza e quando a família de Chico Bento parte para São Paulo, cidade que carrega uma imagem de progresso e modernidade. Análise dos principais personagens Os principais personagens de O Quinze, de Rachel de Queiroz, são: Chico Bento Chico Bento representa o sertanejo, o vaqueiro e o retirante, tipificando as pessoas que trabalham cuidando das terras de famílias ricas e fogem da fome e da miséria durante a seca. Conceição Personagem que traz um pouco de leveza para o enredo, Conceição é uma jovem professora que, mesmo sonhando com o amor e desejando se casar, pode ser considerada fora dos padrões da época, como percebemos no decorrer da narrativa com sua evolução e amadurecimento. Ela representa as pessoas que, apesar de possuírem boas condições de vida, também são afetadas pela seca. Cordulina Cordulina expressa a garra e a força de vontade das mulheres nordestinas. Por isso, ela é uma personagem muito impactante, mesmo estando quieta, abatida e cansada em alguns trechos do enredo. Vicente Representa o pequeno detentor de terras e produtor rural. Ao longo da narrativa, Vicente se mostra uma pessoa egoísta e mesquinha, que sempre está em busca de melhorar sua condição financeira. Chico Bento fitava o navio, escuro e enorme, com sua bandeira verde de bom agouro, tremulando ao vento do Nordeste, o eterno sopro da seca. Sentia como que um ímã o atraindo para aquele destino aventuroso, correndo para outras terras, sobre as costas movediças do mar… Conceição, chegando, precisou lhe tocar no ombro para o acordar da fascinação. O vaqueiro virou-se para ela, que vinha toda de branco e risonha, e murmurou lentamente: – Já estava com medo de que não viesse… Quando o bote encostou à escada, dando guinadas violentas, indo e vindo, numa dança, Conceição chamou: – Está na hora… Chico Bento estendeu-lhe a mão: – Adeus, comadre… Uma comoção profunda a pungiu, ante aquela calma sofredora, suave, que escondia tanta reserva de resistência. – Adeus, adeus, seja feliz! Depois foi Cordulina. Numa efusão repentina abraçou a moça, beijando-lhe as mãos, articulando por entre o choro que à última hora irrompera: – Deus lhe pague! Nossa Senhora lhe proteja! E tenha sempre caridade com o pobre do meu filhinho! Gravemente, um dos pequenos estendeu também a mão: – Adeus! O catraieiro chegou, agarrou um menino em cada braço e desceu a escada correndo. Assombrados, os pobrezinhos principiaram a dar gritos agudos. Já Cordulina descia também, vagarosa e trêmula, rebocada por outro catraieiro que lhe gritava: – Vamos, dona, depressa! Olhe quando o bote encosta, para pular! E ela pulou, sem jeito, empurrada. Depois Chico Bento, numa agilidade inesperada, transpôs sozinho o espaço entre a escada e o bote. Lá de cima, a moça os ficou vendo ir, novamente agarrados, sempre fitando o mar, com os mesmos olhos de ansiedade e de assombro. Iam para o desconhecido, para um barracão de emigrantes, para uma escravidão de colonos… Iam para o destino, que os chamara de tão longe, das terras secas e fulvas de Quixadá, e os trouxera entre a fome e mortes, e angústias infinitas, para os conduzir agora, por cima da água do mar, às terras longínquas onde sempre há farinha e sempre há inverno… O bote já era um pequeno ponto, uma verruga negra aderida ao navio. Conceição lentamente deu as costas, e enxugou os olhos molhados no lenço com que acenara para o mar. https://canaldoensino.com.br/blog/o-quinze-de-rachel-de-queiroz ***************************************************************** *** Quadro do programa Chico Anysio Show, do personagem Pantaleão, que é conhecido pelas mentiras que conta! *** De youtube.com Pantaleão e a onça Pantaleão Pereira Peixoto é um aposentado que está sempre a contar histórias falsas. Vive em sua cadeira de balanço, na companhia de sua esposa Tertuliana (Suely May) e de Pedro Bó (Joe Lester), um adulto com postura de criança adotado por ele.Seu Bordão:"É mentira, Terta?" Silvana Regina Silvana Regina

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