segunda-feira, 28 de março de 2022

Por que Bósforo?

Panmythica Dimensões de um mesmo mundo. ****************************** Um bom negócio e uma grave lição: provaste-me ainda uma vez que o melhor drama está no espectador e não no palco. ***
*** Representação de Ariel e Prospero, da obra A Tempestade, de Shakespeare. Pintura de William Hamilton ***
*** Panmythica Panmythica: Sílfide (Sylphid) *** *** - Pouca coisa: um furto. O senhor é acusado de ter subtraído uma chinela turca. Aparentemente não vale nada ou vale pouco a tal chinela. Mas há chinela e chinela. Tudo depende das circunstâncias. *** "Reclinou-se o moço indolentemente na otomana... Na otomana!" *** "- Um simples pretexto, continuou o velho, para trazê-lo a esta nossa casa. A chinela não foi roubada; nunca saiu das mãos da dona. João Rufino, vá buscar a chinela." *** era, porém, turca, ****************************************************************************************** Negociações entre Rússia e Ucrânia voltam a acontecer em formato presencial nesta terça-feira na Turquia Encontros após duas semanas de videoconferências ocorrem em nova fase do conflito, após Moscou indicar uma redução de seus objetivos políticos frente à dura resistência ucraniana O Globo e agências internacionais 28/03/2022 - 12:28 / Atualizado em 28/03/2022 - 12:56 Um voo especial contendo a equipe de negociadores da Rússia pousa no aeroporto Ataturk, em Istambul Foto: YORUK ISIK / REUTERS ***
*** Um voo especial contendo a equipe de negociadores da Rússia pousa no aeroporto Ataturk, em Istambul Foto: YORUK ISIK / REUTERS *** A primeira negociação presencial entre Rússia e Ucrânia em mais de duas semanas deve acontecer nesta terça-feira em Istambul, na Turquia, após encontros quase diários realizados por videoconferência. Autoridades ucranianas minimizaram as chances de um grande avanço nas negociações, que acontecem após o presidente turco, Tayyip Erdogan, conversar com o seu homólogo russo, Vladimir Putin, no domingo. As delegações chegam já nesta segunda-feira a Istambul. A Turquia se esforça para se posicionar como um aliado neutro da Ucrânia e da Rússia, e um parceiro diplomático importante de ambos. Seu esforço inclui a realização de uma reunião com os ministros das Relações Exteriores da Ucrânia e da Rússia na cidade de Antália, no Sul do país, há pouco mais de duas semanas. Thank you for watching Erdogan afirmou na quinta-feira que a Ucrânia e a Rússia estavam chegando a um consenso sobre quatro das demandas principais da Rússia, incluindo a adesão da Ucrânia à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e o status da língua russa na Ucrânia. O governo de Kiev negou haver esses avanços, e até mesmo a existência de uma lista ded quatro pontos principais. O fato de as negociações acontecerem pessoalmente dá um sinal de mudanças nos bastidores, à medida que a ofensiva da Rússia entra numa fase de estagnação. Contexto: Forças russas chegam ao seu limite e freiam operação para repensar estratégia militar Tão grave como a Queda do Muro: Sete especialistas apontam efeitos da invasão da Ucrânia no mundo Na sexta-feira, a Rússia indicou que irá repensará sua estratégia militar, e que pode limitar sua ofensiva ao Leste da Ucrânia, na região de Donbass, onde há atuação de rebeldes separatistas pró-Moscou. Kiev insiste que não fará concessões sobre a integridade de seu território. Autoridades ucranianas sugeriram recentemente que a Rússia poderia estar mais disposta a aceitar um compromisso, já que qualquer esperança que pudesse ter de impor um novo governo a Kiev perdeu força diante da forte resistência ucraniana e das pesadas perdas russas. O chefe do Conselho de Segurança russo, Nikolai, Patrushev, disse nesta segunda-feira que uma mudança de governo na Ucrânia não é o objetivo de Moscou, e afirmou que as sugestões ocidentais de que este era o objetivo da Rússia eram imprecisas, informou a Interfax. Até então, a Rússia se mantinha ambígua sobre o assunto. Em entrevista a jornalistas russos no fim de semana, o presidente ucraniano Volodymyr Zelenskiy mencionou alguma forma de "compromisso" envolvendo a região de Donbass, embora não tenha sugerido que isso significava a cessão de território. Em seus últimos comentários, ele disse que a integridade territorial continua sendo a prioridade de Kiev. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, reiterou a repórteres que Putin não planeja se encontrar com o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, neste momento da negociação. Ele também disse que as negociações até agora não conseguiram produzir nenhum progresso ou avanços substantivos. Nos campos de batalha, não há sinais de descanso para civis, especialmente na cidade portuária devastada de Mariupol, no Sudeste. Tropas russas continuam a avançar lentamente na cidade. O prefeito disse que 160 mil pessoas permanecem presas lá, e acusou a Rússia de impedir a sua saída. Situação dramática: Histórias dos que escaparam de Mariupol: 'Não sobrou nada. Tudo virou pó' Segundo a vice-primeira-ministra ucraniana, Iryna Vereshchuk, não há planos para a abertura de corredores humanitários nesta segunda-feira. Segundo ela, a decisão foi tomada devido a informes de inteligência alertando para possíveis "provocações" russas ao longo das rotas. Corredores seguros já foram criados a partir de Mariupol, Sumy e de cidades e vilarejos nos arredores da capital, Kiev, que atualmente estão cercados por forças russas. Por várias vezes, bombardeios russos impediram a fuga de civis de cidades sitiadas. Em Kharkiv, no Leste, um terço dos moradores de Kharkiv fugiu da cidade, de acordo com o prefeito de Kharkiv, Ihor Terekhov. — Mas ultimamente temos visto homens que retiraram suas famílias e voltaram — disse Terekhov. — Até algumas famílias estão voltando, porque não querem morar em outro lugar. Segundo o governador da região, Oleh Synegubov, Kharkiv foi bombardeada mais de 200 vezes em 24 horas. Synegubov disse que a Rússia usou artilharia, vários sistemas de lançamento de foguetes e morteiros para bombardear a cidade. Segundo a ministra da Economia ucraniana, Yulia Svyrydenko, a Ucrânia já perdeu US$ 564,9 bilhões com a invasão em grande escala da Rússia. A Ucrânia perdeu mais de US$ 119 bilhões em infraestrutura destruída, e o país também espera perder mais de US$ 112 bilhões em PIB, ela informou. Semanas após a Rússia invadir a Ucrânia:Qual é, afinal, o número de mortos na guerra? O Kremlin, que condena regularmente o Ocidente em termos fortes, até agora deu apenas uma resposta comedida ao apelo surpresa de Biden no fim de semana pelo fim do governo de 22 anos de Putin, talvez para evitar chamar atenção para o assunto. — Pelo amor de Deus, este homem não pode permanecer no poder — disse Biden no sábado ao final de um discurso para uma multidão em Varsóvia. Washington e a Otan dizem que a remoção de Putin não é um objetivo político dos EUA ou da aliança, e no domingo Biden posteriormente disse que não estava pedindo uma mudança de regime. Uma política oficial de mudança de regime é considerada uma meta perigosa. Esta política levaria Putin a ter um comportamento mais imprevisível e arriscado, por se ver ameaçado. Questionado nesta segunda-feira sobre o comentário de Biden, Peskov disse: — Esta é uma declaração certamente alarmante. Continuaremos acompanhando as declarações do presidente dos EUA de maneira mais atenta — disse o porta-voz do Kremlin. Anteriormente, Peskov havia dito que cabia ao povo russo escolher seu líder. O Globo, um jornal nacional: Fique por dentro da evolução do jornal mais lido do Brasil O GLOBO RECOMENDA https://oglobo.globo.com/mundo/negociacoes-entre-russia-ucrania-voltam-acontecer-em-formato-presencial-nesta-terca-feira-na-turquia-1-25451886 **************************************************** Why Bosphorus? *** "A localização estratégica do Estreito de Bósforo e o fato de ele ter sido o ponto de localização principal de grandes impérios (como o Persa, o Romano e o Bizantino) são as principais evidências de como a posição geográfica pode ser um importante fator de influência sobre as relações humanas." *** *** Why is the Bosphorus important? 97.082 visualizações8 de out. de 2018 *** TRT World 1,57 mi de inscritos The Bosphorus is much more than just a pretty picture or the lifeblood of Istanbul. It’s one of the busiest waterways in the world, connecting the Black Sea to the Mediterranean. With shifting geopolitical dynamics, will it be relevant in the years to come? ***************************** Estreito de Bósforo GEOGRAFIA Localizado em uma região extremamente estratégica, o Estreito de Bósforo possui uma incrível história geopolítica. A Ponte de Bósforo, construída na década de 1970 ***
*** A Ponte de Bósforo, construída na década de 1970 *** Por definição, estreito é um acidente geográfico que separa duas massas continentais, ligando duas massas oceânicas, através de um pequeno canal. O Estreito de Bósforo é o canal que liga o Mar de Mármara (e sua extensão, o Mar Mediterrâneo) com o Mar Negro, separando a Europa da Ásia (ver os mapas abaixo). Assim, a cidade onde ele se encontra, Istambul (maior cidade da Turquia), é a única do mundo a se localizar em dois continentes diferentes ao mesmo tempo. Localização do Estreito de Bósforo ***
*** Localização do Estreito de Bósforo *** A posição geográfica de Bósforo é reveladora de sua importância estratégica ***
*** A posição geográfica de Bósforo é reveladora de sua importância estratégica *** Por estabelecer uma ligação natural entre dois continentes, Bósforo possui uma importância geopolítica sem igual. Quando a região ao qual se encontra – a então gloriosa cidade de Constantinopla – foi tomada pelos Turcos-Otomanos em 1453, os europeus foram impedidos de se deslocarem até a Ásia Oriental em busca de matérias-primas, o que os forçou a investir nas navegações marítimas a fim de descobrirem novas rotas para a Índia. Atualmente, existem inúmeros acordos internacionais para a utilização comercial desse estreito. Desde a Antiguidade, quando a região abrigava a civilização Persa, buscou-se a criação de um ponto para ligar os dois lados de Bósforo. No entanto, apenas em 1973, essa façanha foi conseguida. Atualmente, a Ponte de Bósforo é um dos cartões-postais de Istambul em virtude de sua bela iluminação durante a noite. A origem do Estreito de Bósforo é considerada geologicamente muito recente, cerca de 5600 anos a.C. Os geólogos afirmam que, antigamente, o Mar Negro era um grande lago de água doce, sendo invadido pelas águas do Mediterrâneo, dando origem ao estreito. Essa invasão, na visão de alguns historiadores, teria inspirado a história bíblica do dilúvio e da Arca de Noé. A localização estratégica do Estreito de Bósforo e o fato de ele ter sido o ponto de localização principal de grandes impérios (como o Persa, o Romano e o Bizantino) são as principais evidências de como a posição geográfica pode ser um importante fator de influência sobre as relações humanas. Por Rodolfo Alves Pena Graduado em Geografia Gostaria de fazer a referência deste texto em um trabalho escolar ou acadêmico? Veja: PENA, Rodolfo F. Alves. "Estreito de Bósforo"; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/geografia/estreito-bosforo.htm. Acesso em 28 de março de 2022. ARGUMENTO POR ANALOGIA Quando se quer ter uma proximidade maior com o leitor, a analogia é um caminho muito bom, pois ela consegue sair do campo das ideias e apresentar algo palpável para ele visualizar, e isso funciona muito bem na argumentação. FUNCIONALISMO Veja nesta aula o que é o funcionalismo, teoria das ciências sociais que marcou o início da sociologia e influenciou diversos autores. ATUALIDADES Entenda a origem do conflito entre Rússia e Ucrânia ENEM Exame passará por mudanças para se adequar ao novo ensino médio PROUNI Selecionados devem comprovar informações até o dia 14 de março Facebook Brasil Escola Instagram Brasil Escola Twitter Brasil Escola Youtube Brasil Escola RSS Brasil Escola Quem somosAnuncie no Brasil EscolaExpedientePolítica de PrivacidadeTermos de UsoFale Conosco https://brasilescola.uol.com.br/geografia/estreito-bosforo.htm ********************************************************************** É a maior ponte suspensa do mundo A terceira ponte do Bósforo, inaugurada ontem em Istambul, insere-se numa série de grandes obras desejadas pelo presidente Recep Tayyip Erdogan para construir uma "nova Turquia", nas quais os seus detratores veem uma "mania das grandezas". ***
*** 1 / 7 MOSTRAR LEGENDA *** DN/Lusa 27 Agosto 2016 — 12:58 Facebook Twitter Partilhar TÓPICOS Istambul Turquia Mundo Com este projeto de envergadura - perto de 900 milhões de dólares (798 milhões de euros), a maior ponte suspensa do mundo com circulação rodoviária e ferroviária - Erdogan quer deixar uma nova marca na história da Turquia moderna. Relacionados Engenharia. China inaugura ponte mais alta do mundo A inauguração ocorre um mês e meio depois da tentativa fracassada de um golpe de Estado e numa altura em que a Turquia fez entrar os seus tanques no norte da Síria e continua a sofrer atentados no sudeste atribuídos a guerrilheiros curdos. *** *** Tweet Ver novos Tweets Conversa ESA @esa #Istanbul's 3rd #Bosphorus Bridge opens today! #Sentinel2 followed progress over past year http://esa.int/spaceinimages/Images/2016/08/Third_Bosphorus_Bridge_progress 9:15 AM · 26 de ago de 2016·Twitter Web Client *** A nova ponte no Bósforo (as duas anteriores são de 1973 e 1988) tem o nome do sultão Yavuz Selim, que conquistou uma grande parte do Médio Oriente nos oito anos em que dirigiu o Império Otomano no século XVI. Erdogan, no poder no país desde 2003, multiplicou as obras públicas ambiciosas nos últimos anos. Em Istambul, cuja autarquia dirigiu, foi inaugurada em julho a mesquita faraónica de Çamlica, mas a maior parte das obras visa descongestionar a cidade ligando as margens europeia e asiática da metrópole de 18 milhões de habitantes, a maior da Turquia. Recentemente o governo anunciou para 2020 o "megaprojeto" de um túnel de 6,5 quilómetros e três níveis sob o estreito do Bósforo. E como é ver a ponte do espaço? A Nasa revelou estas imagens "Desde que foi eleito, Erdogan nunca deixou de olhar para Istambul, da qual fez uma verdadeira montra política", disse Jean Marcou, investigador associado no Instituto francês de Estudos da Anatólia, à agência France Presse. As obras, que contribuem para reforçar o poder do regime, incluem linhas ferroviárias de grande velocidade e novas centrais hidroelétricas e térmicas. "Todos estes grandes projetos desenham uma novaTurquia, que Erdogan espera que o apoie", sublinhou Marcou. Ligar continentes O Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, afirmou que a Turquia continua a ligar continentes, antes de cortar a fita que marcou a inauguração da terceira ponte do Bósforo, que liga a Europa à Ásia. "Estamos na Europa e vamos chegar à Ásia por mar, pela terceira vez", disse o chefe de Estado turco, sublinhando que a Turquia "liga continentes através da ponte", situada em Istambul. Para Recep Tayyip Erdogan, a inauguração da ponte é também uma oportunidade para um breve momento de glória na Turquia, após a fracassada tentativa de golpe de Estado em julho. https://www.dn.pt/mundo/e-a-maior-ponte-suspensa-do-mundo-5358978.html **********************************************************************************
*** Rascunhos A Chinela Turca – Machado de Assis *** Este pequeno livrinho reúne três bons contos de Machado de Assis: A Chinela Turca, O Espelho e A Igreja do Diabo. O primeiro apresenta-nos um jovem enamorado que se prepara para encontrar a apaixonada num baile. Impaciente, é impossibilitado de sair de casa por um major, seu conhecido, que o escolheu para ler o romance recentemente escrito, consequência da ocupação que escolheu para se entreter após a vida militar. A impaciência dá lugar à irritação e, talvez por isso, a crítica que faz ao major é bastante negativa, quase insultuosa em modos. A partir daí assistimos a um episódio de horror por expectativa, com o jovem a ser arrastado de sua casa, acusado de um roubo por homens que afinal não o levam para a esquadra. No segundo, O Espelho, outro jovem visita uma tia, que face ao sucesso do seu sobrinho, lhe dá todos os mimos e elogios, até ao dia em que tem de se ausentar da quinta. Sem sentido de autoridade e demasiado mimado, o jovem não está preparado para manter a ordem na quinta perante os criados. O último, A Igreja do Diabo, é a mais cómica e interessante história dos três, levando-nos ao dia em que o Diabo decide fundar uma Igreja, com livro sagrado, locais de culto oficiais e seguidores. Mas logo descobre que não é da natureza humana manter-se no mesmo rumo durante muito tempo. Este pequeno e barato livro fornece bons momentos de entretenimento com três contos bem escritos e interessantes que podem ser enquadrados no género do horror, sem necessidade de apresentar cenários gore. https://osrascunhos.com/2016/01/12/a-chinela-turca-machado-de-assis/ A Chinela Turca, de Machado de Assis Fonte: ASSIS, Machado de. Obra Completa. Rio de Janeiro : Nova Aguilar 1994. v. II. Texto proveniente de: A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo Permitido o uso apenas para fins educacionais. Texto-base digitalizado por: Núcleo de Pesquisas em Informática, Literatura e Lingüística (http://www.cce.ufsc.br/~nupill/literatura/literat.html) Este material pode ser redistribuído livremente, desde que não seja alterado, e que as informações acima sejam mantidas. Para maiores informações, escreva para . Estamos em busca de patrocinadores e voluntários para nos ajudar a manter este projeto. Se você quer ajudar de alguma forma, mande um e-mail para e saiba como isso é possível. A chinela turca Vede o bacharel Duarte. Acaba de compor o mais teso e correto laço de gravata que apareceu naquele ano de 1850, e anunciam-lhe a visita do major Lopo Alves. Notai que é de noite, e passa de nove horas. Duarte estremeceu, e tinha duas razões para isso. A primeira era ser o major, em qualquer ocasião, um dos mais enfadonhos sujeitos do tempo. A segunda é que ele preparava-se justamente para ir ver, em um baile, os mais finos cabelos loiros e os mais pensativos olhos azuis que este nosso clima, tão avaro deles, produzira. Datava de uma semana aquele namoro. Seu coração deixando-se prender entre duas valsas, confiou aos olhos, que eram castanhos, uma declaração em regra, que eles pontualmente transmitiram à moça, dez minutos antes da ceia, recebendo favorável resposta logo depois do chocolate. Três dias depois, estava a caminho a primeira carta, e pelo jeito que levavam as coisas não era de admirar que, antes do fim do ano, estivessem ambos a caminho da igreja. Nestas circunstâncias, a chegada de Lopo Alves era uma verdadeira calamidade. Velho amigo da família, companheiro de seu finado pai no exército, tinha jus o major a todos os respeitos. Impossível despedi-lo ou tratá-lo com frieza. Havia felizmente uma circunstância atenuante; o major era aparentado com Cecília, a moça dos olhos azuis; em caso de necessidade, era um voto seguro. Duarte enfiou um chambre e dirigiu-se para a sala, onde Lopo Alves, com um rolo debaixo do braço e os olhos fitos no ar, parecia totalmente alheio à chegada do bacharel. - Que bom vento o trouxe a Catumbi a semelhante hora? perguntou Duarte, dando à voz uma expressão de prazer, aconselhada não menos pelo interesse que pelo bom-tom. - Não sei se o vento que me trouxe é bom ou mau, respondeu o major sorrindo por baixo do espesso bigode grisalho; sei que foi um vento rijo. Vai sair? - Vou ao Rio Comprido. - Já sei; vai à casa da viúva Meneses. Minha mulher e as pequenas já lá devem estar: eu irei mais tarde, se puder. Creio que é cedo, não? Lopo Alves tirou o relógio e viu que eram nove horas e meia. Passou a mão pelo bigode, levantou-se, deu alguns passos na sala, tornou a sentar-se e disse: - Dou-lhe uma notícia, que certamente não espera. Saiba que fiz... fiz um drama. - Um drama! exclamou o bacharel. - Que quer? Desde criança padeci destes achaques literários. O serviço militar não foi remédio que me curasse, foi um paliativo. A doença regressou com a força dos primeiros tempos. Já agora não há mais remédio senão deixá-la, e ir simplesmente ajudando a natureza. Duarte recordou-se de que efetivamente o major falava noutro tempo de alguns discursos inaugurais, duas ou três nênias e boa soma de artigos que escrevera acerca das campanhas do Rio da Prata. Havia porém muitos anos que Lopo Alves deixara em paz os generais platinos e os defuntos; nada fazia supor que a moléstia volvesse, sobretudo caracterizada por um drama. Esta circunstância explicá-la-ia o bacharel, se soubesse que Lopo Alves algumas semanas antes, assistira à representação de uma peça do gênero ultra-romântico, obra que lhe agradou muito e lhe sugeriu a idéia de afrontar as luzes do tablado. Não entrou o major nestas minuciosidades necessárias, e o bacharel ficou sem conhecer o motivo da explosão dramática do militar. Nem o soube, nem curou disso. Encareceu muito as faculdades mentais do major, manifestou calorosamente a ambição que nutria de o ver sair triunfante naquela estréia, prometeu que o recomendaria a alguns amigos que tinha no Correio Mercantil, e só estacou e empalideceu quando viu o major, trêmulo de bemaventurança, abrir o rolo que trazia consigo. - Agradeço-lhe as suas boas intenções, disse Lopo Alves, e aceito o obséquio que me promete; antes dele, porém, desejo outro. Sei que é inteligente e lido; há de me dizer francamente o que pensa deste trabalho. Não lhe peço elogios, exijo franqueza e franqueza rude. Se achar que não é bom, diga-o sem rebuço. Duarte procurou desviar aquele cálice de amargura; mas era difícil pedi-lo, e impossível alcançá-lo. Consultou melancolicamente o relógio, que marcava nove horas e cinqüenta e cinco minutos, enquanto o major folheava paternalmente as cento e oitenta folhas do manuscrito. - Isto vai depressa, disse Lopo Alves; eu sei o que são rapazes e o que são bailes. Descanse que ainda hoje dançará duas ou três valsas com ela, se a tem, ou com elas. Não acha melhor irmos para o seu gabinete? Era indiferente, para o bacharel, o lugar do suplício; acedeu ao desejo do hóspede. Este, com a liberdade que lhe davam as relações, disse ao moleque que não deixasse entrar ninguém. O algoz não queria testemunhas. A porta do gabinete fechou-se; Lopo Alves tomou lugar ao pé da mesa, tendo em frente o bacharel, que mergulhou o corpo e o desespero numa vasta poltrona de marroquim, resoluto a não dizer palavra para ir mais depressa ao termo. O drama dividia-se em sete quadros. Esta indicação produziu um calafrio no ouvinte. Nada havia de novo naquelas cento e oitenta páginas, senão a letra do autor. O mais eram os lances, os caracteres, as ficelles, e até o estilo dos mais acabados tipos do romantismo desgrenhado. Lopo Alves cuidava pôr por obra uma invenção, quando não fazia mais do que alinhavar as suas reminiscências. Noutra ocasião, a obra seria um bom passatempo. Havia logo no primeiro quadro, espécie de prólogo, uma criança roubada à família, um envenenamento, dois embuçados, a ponta de um punhal e quantidade de adjetivos não menos afiados que o punhal. No segundo quadro dava-se conta da morte de um dos embuçados, que devia ressuscitar no terceiro, para ser preso no quinto, e matar o tirano do sétimo. Além da morte aparente do embuçado, havia no segundo quadro o rapto da menina, já então moça de dezessete anos, um monólogo que parecia durar igual prazo, e o roubo de um testamento. Eram quase onze horas quando acabou a leitura deste segundo quadro. Duarte mal podia conter a cólera; era já impossível ir ao Rio Comprido. Não é fora de propósito conjeturar que, se o major expirasse naquele momento, Duarte agradecia a morte como um benefício da Providência. Os sentimentos do bacharel não faziam crer tamanha ferocidade; mas a leitura de um mau livro é capaz de produzir fenômenos ainda mais espantosos. Acresce que, enquanto aos olhos carnais do bacharel aparecia em toda a sua espessura a grenha de Lopo Alves, fugiam-lhe ao espírito os fios de ouro que ornavam a formosa cabeça de Cecília; via-a com os olhos azuis, a tez branca e rosada, o gesto delicado e gracioso, dominando todas as demais damas que deviam estar no salão da viúva Meneses. Via aquilo, e ouvia mentalmente a música, a palestra, o soar dos passos, e o ruge-ruge das sedas; enquanto a voz rouquenha e sensaborona de Lopo Alves ia desfiando os quadros e os diálogos, com a impassibilidade de uma grande convicção. Voava o tempo, e o ouvinte já não sabia a conta dos quadros. Meia-noite soara desde muito; o baile estava perdido. De repente, viu Duarte que o major enrolava outra vez o manuscrito, erguia-se, empertigava-se, cravava nele uns olhos odientos e maus, e saía arrebatadamente do gabinete. Duarte quis chamá-lo, mas o pasmo tolhera-lhe a voz e os movimentos. Quando pôde dominar-se, ouviu o bater do tacão rijo e colérico do dramaturgo na pedra da calçada. Foi à janela; nada viu nem ouviu; autor e drama tinham desaparecido. - Por que não fêz ele isso a mais tempo? disse o rapaz suspirando. O suspiro mal teve tempo de abrir as asas e sair pela janela fora, em demanda do Rio Comprido, quando o moleque do bacharel veio anunciar-lhe a visita de um homem baixo e gordo. - A esta hora? exclamou Duarte. - A esta hora, repetiu o homem baixo e gordo, entrando na sala. A esta ou a qualquer hora, pode a polícia entrar na casa do cidadão, uma vez que se trata de um delito grave. - Um delito! - Creio que me conhece... - Não tenho essa honra. - Sou empregado na polícia. - Mas que tenho eu com o senhor? de que delito se trata? - Pouca coisa: um furto. O senhor é acusado de ter subtraído uma chinela turca. Aparentemente não vale nada ou vale pouco a tal chinela. Mas há chinela e chinela. Tudo depende das circunstâncias. O homem disse isto com um riso sarcástico, e cravando no bacharel uns olhos de inquisidor. Duarte não sabia sequer da existência do objeto roubado. Concluiu que havia equívoco de nome, e não se zangou com a injúria irrogada à sua pessoa, e de algum modo à sua classe, atribuindo-se-lhe a ratonice. Isto mesmo disse ao empregado da polícia, acrescentando que não era motivo, em todo caso, para incomodá-lo a semelhante hora. - Há de perdoar-me, disse o representante da autoridade. A chinela de que se trata vale algumas dezenas de contos de réis; é ornada de finíssimos diamantes, que a tornam singularmente preciosa. Não é turca só pela forma, mas também pela origem. A dona, que é uma de nossas patrícias mais viajeiras, esteve, há cerca de três anos no Egito, onde a comprou a um judeu. A história, que este aluno de Moisés referiu acerca daquele produto da indústria muçulmana, é verdadeiramente miraculosa, e, no meu sentir, perfeitamente mentirosa. Mas não vem ao caso dizê-la. O que importa saber é que ela foi roubada e que a polícia tem denúncia contra o senhor. Neste ponto do discurso, chegara-se o homem à janela; Duarte suspeitou que fosse um doido ou um ladrão. Não teve tempo de examinar a suspeita, porque dentro de alguns segundos, viu entrar cinco homens armados, que lhe lançaram as mãos e o levaram, escada abaixo, sem embargo dos gritos que soltava e dos movimentos desesperados que fazia. Na rua havia um carro, onde o meteram à força. Já lá estava o homem baixo e gordo, e mais um sujeito alto e magro, que o receberam e fizeram sentar no fundo do carro. Ouviu-se estalar o chicote do cocheiro e o carro partiu à desfilada. - Ah! ah! disse o homem gordo. Com que então pensava que podia impunemente furtar chinelas turcas, namorar moças louras, casar talvez com elas... e rir ainda por cima do gênero humano. Ouvindo aquela alusão à dama dos seus pensamentos, Duarte teve um calafrio. Tratava-se, ao que parecia, de algum desforço de rival suplantado. Ou a alusão seria casual e estranha à aventura? Duarte perdeu-se num cipoal de conjeturas, enquanto o carro ia sempre andando a todo galope. No fim de algum tempo, arriscou uma observação. - Quaisquer que sejam os meus crimes, suponho que a polícia... - Nós não somos da polícia, interrompeu friamente o homem magro. - Ah! - Este cavalheiro e eu fazemos um par. Ele, o senhor e eu fazemos um terno. Ora, terno não é melhor que par; não é, não pode ser. Um casal é o ideal. Provavelmente não me entendeu? - Não, senhor. - Há de entender logo mais. Duarte resignou-se à espera, enfronhou-se no silêncio, derreou o corpo, e deixou correr o carro e a aventura. Obra de cinco minutos depois estacavam os cavalos. - Chegamos, disse o homem gordo. Dizendo isto, tirou um lenço da algibeira e ofereceu-o ao bacharel para que tapasse os olhos. Duarte recusou, mas o homem magro observou-lhe que era mais prudente obedecer que resistir. Não resistiu o bacharel; atou o lenço e apeou-se. Ouviu, daí a pouco, ranger uma porta; duas pessoas, - provavelmente as mesmas que o acompanharam no carro, - seguraram-lhe as mãos e o conduziram por uma infinidade de corredores e escadas. Andando, ouvia o bacharel algumas vozes desconhecidas, palavras soltas, frases truncadas. Afinal pararam; disseram-lhe que se sentasse e destapasse os olhos. Duarte obedeceu; mas ao desvendar-se, não viu ninguém mais. Era uma sala vasta, assaz iluminada, trastejada com elegância e opulência. Era talvez sobreposse a variedade dos adornos; contudo, a pessoa que os escolhera devia ter gosto apurado. Os bronzes, charões, tapetes, espelhos, - a cópia infinita de objetos que enchiam a sala, era tudo da melhor fábrica. A vista daquilo restituiu a serenidade de ânimo ao bacharel; não era provável que ali morassem ladrões. Reclinou-se o moço indolentemente na otomana... Na otomana! Esta circunstância trouxe à memória do rapaz o principio da aventura e o roubo da chinela. Alguns minutos de reflexão bastaram para ver que a tal chinela era já agora mais que problemática. Cavando mais fundo no terreno das conjeturas, pareceu-lhe achar uma explicação nova e definitiva. A chinela vinha a ser pura metáfora; tratava-se do coração de Cecília, que ele roubara, delito de que o queria punir o já imaginado rival. A isto deviam ligar-se naturalmente as palavras misteriosas do homem magro: o par é melhor que o terno; um casal é o ideal. - Há de ser isto, concluiu Duarte; mas quem será esse pretendente derrotado? Neste momento abriu-se uma porta do fundo da sala e negrejou a batina de um padre alvo e calvo. Duarte levantou-se, como por efeito de uma mola. O padre atravessou lentamente a sala, ao passar por ele deitou-lhe a bênção, e foi sair por outra porta rasgada na parede fronteira. O bacharel ficou sem movimento, a olhar para a porta, a olhar sem ver, estúpido de todos os sentidos. O inesperado daquela aparição baralhou totalmente as idéias anteriores a respeito da aventura. Não teve tempo, entretanto, de cogitar alguma nova explicação, porque a primeira porta foi de novo aberta e entrou por ela outra figura, desta vez o homem magro, que foi direito a ele e o convidou a segui-lo. Duarte não opôs resistência. Saíram por uma terceira porta, e, atravessados alguns corredores mais ou menos alumiados, foram dar a outra sala, que só o era por duas velas postas em castiçais de prata. Os castiçais estavam sobre uma mesa larga. Na cabeceira desta havia um homem velho que representava ter cinqüenta e cinco anos; era uma figura atlética, farta de cabelos na cabeça e na cara. - Conhece-me? perguntou o velho, logo que Duarte entrou na sala. - Não, senhor. - Nem é preciso. O que vamos fazer exclui absolutamente a necessidade de qualquer apresentação. Saberá em primeiro lugar que o roubo da chinela foi um simples pretexto... - Oh! decerto! interrompeu Duarte. - Um simples pretexto, continuou o velho, para trazê-lo a esta nossa casa. A chinela não foi roubada; nunca saiu das mãos da dona. João Rufino, vá buscar a chinela. O homem magro saiu, e o velho declarou ao bacharel que a famosa chinela não tinha nenhum diamante, nem fora comprada a nenhum judeu do Egito; era, porém, turca, segundo se lhe disse, e um milagre de pequenez. Duarte ouviu as explicações, e, reunindo todas as forças, perguntou resolutamente: - Mas, senhor, não me dirá de uma vez o que querem de mim e o que estou fazendo nesta casa? - Vai sabê-lo, respondeu tranqüilamente o velho. A porta abriu-se e apareceu o homem magro com a chinela na mão. Duarte, convidado a aproximar-se da luz, teve ocasião de verificar que a pequenez era realmente miraculosa. A chinela era de marroquim finíssimo; no assento do pé, estufado e forrado de seda cor azul, rutilavam duas letras bordadas a ouro. - Chinela de criança, não lhe parece? disse o velho. - Suponho que sim. - Pois supõe mal; é chinela de moça. - Será; nada tenho com isso. - Perdão! Tem muito, porque vai casar com a dona. - Casar! exclamou Duarte. - Nada menos. João Rufino, vá buscar a dona da chinela. Saiu o homem magro, e voltou logo depois. Assomando à porta, levantou o reposteiro e deu entrada a uma mulher, que caminhou para o centro da sala. Não era mulher, era uma sílfide, uma visão de poeta, uma criatura divina. Era loura; tinha os olhos azuis, como os de Cecília, extáticos, uns olhos que buscavam o céu ou pareciam viver dele. Os cabelos, deleixadamente penteados, faziam-lhe em volta da cabeça um como resplendor de santa; santa somente, não mártir, porque o sorriso que lhe desabrochava os lábios, era um sorriso de bem-aventurança, como raras vezes há de ter tido a terra. Um vestido branco, de finíssima cambraia, envolvia-lhe castamente o corpo, cujas formas aliás desenhava, pouco para os olhos, mas muito para a imaginação. Um rapaz, como o bacharel, não perde o sentimento da elegância, ainda em lances daqueles. Duarte, ao ver a moça, compôs o chambre, apalpou a gravata e fez uma cerimoniosa cortesia, a que ela correspondeu com tamanha gentileza e graça, que a aventura começou a parecer muito menos aterradora. - Meu caro doutor, esta é a noiva. A moça abaixou os olhos; Duarte respondeu que não tinha vontade de casar. - Três coisas vai o senhor fazer agora mesmo, continuou impassivelmente o velho: a primeira, é casar; a segunda, escrever o seu testamento; a terceira engolir droga do Levante... - Veneno! interrompeu Duarte. - Vulgarmente é esse o nome; eu dou-lhe outro: passaporte do céu. Duarte estava pálido e frio. Quis falar, não pôde; um gemido, sequer, não lhe saiu do peito. Rolaria ao chão, se não houvesse ali perto uma cadeira em que se deixou cair. - O senhor, continuou o velho, tem uma fortunazinha de cento e cinqüenta contos. Esta pérola será a sua herdeira universal. João Rufino, vá buscar o padre. O padre entrou, o mesmo padre calvo que abençoara o bacharel pouco antes; entrou e foi direto ao moço, engrolando sonolentamente um trecho de Neemias ou qualquer outro profeta menor; travou-lhe da mão e disse: - Levante-se! - Não! Não quero! Não me casarei! - E isto? disse da mesa o velho, apontando-lhe uma pistola. - Mas então é um assassinato? - É; a diferença está no gênero de morte: ou violenta com isto, ou suave com a droga. Escolha! Duarte suava e tremia. Quis levantar-se e não pôde. Os joelhos batiam um contra o outro. O padre chegou-se-lhe ao ouvido, e disse baixinho: - Quer fugir? - Oh! Sim! exclamou, não com os lábios, que podia ser ouvido, mas com os olhos em que pôs toda a vida que lhe restava. - Vê aquela janela? Está aberta; embaixo fica um jardim. Atire-se dali sem medo. - Oh! Padre! disse baixinho o bacharel. - Não sou padre, sou tenente do exército. Não diga nada. A janela estava apenas cerrada; via-se pela fresta uma nesga do céu, já meio claro. Duarte não hesitou, coligiu todas as forças, deu um pulo do lugar onde estava e atirou-se a Deus misericórdia por ali abaixo. Não era grande altura, a queda foi pequena; ergueu-se o moço rapidamente, mas o homem gordo, que estava no jardim, tomou-lhe o passo. - Que é isso? perguntou ele rindo. Duarte não respondeu, fechou os punhos, bateu com eles violentamente nos peitos do homem e deitou a correr pelo jardim fora. O homem não caiu; sentiu apenas um grande abalo; e, uma vez passada a impressão, seguiu no encalço do fugitivo. Começou então uma carreira vertiginosa. Duarte ia saltando cercas e muros, calcando canteiros, esbarrando árvores, que uma ou outra vez se lhe erguiam na frente. Escorria-lhe o suor em bica, alteava-se-lhe o peito, as forças iam a perder-se pouco a pouco; tinha uma das mãos feridas, a camisa salpicada do orvalho das folhas, duas vezes esteve a ponto de ser apanhado, o chambre pegara-se-lhe em uma cerca de espinhos. Enfim, cansado, ferido, ofegante, caiu nos degraus de pedra de uma casa, que havia no meio do último jardim que atravessara. Olhou para trás; não viu ninguém, o perseguidor não o acompanhara até ali. Podia vir, entretanto; Duarte ergueu-se a custo, subiu os quatro degraus que lhe faltavam, e entrou na casa, cuja porta, aberta, dava para uma sala pequena e baixa. Um homem que ali estava, lendo um número do Jornal do Comércio, pareceu não o ter visto entrar. Duarte caiu numa cadeira. Fitou os olhos no homem. Era o major Lopo Alves. O major, empunhando a folha, cujas dimensões iam-se tornando extremamente exíguas, exclamou repentinamente: - Anjo do céu, estás vingado! Fim do último quadro. Duarte olhou para ele, para a mesa, para as paredes, esfregou os olhos, respirou à larga. - Então! Que tal lhe pareceu? - Ah! excelente! Respondeu o bacharel, levantando-se. - Paixões fortes, não? - Fortíssimas. Que horas são? - Deram duas agora mesmo. Duarte acompanhou o major até à porta, respirou ainda uma vez, apalpou-se, foi até à janela. Ignora-se o que pensou durante os primeiros minutos; mas, a cabo de um quarto de hora, eis o que ele dizia consigo: - Ninfa, doce amiga, fantasia inquieta e fértil, tu me salvaste de uma ruim peça com um sonho original, substituíste-me o tédio por um pesadelo: foi um bom negócio. Um bom negócio e uma grave lição: provaste-me ainda uma vez que o melhor drama está no espectador e não no palco. FIM http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000233.pdf *********************************************************************** http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000233.pdf

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