quinta-feira, 10 de setembro de 2020

ELE ESTAVA TRISTE... 

“Ele estava triste: ele ia para a morte.” 


 “- Ah... ah!... ah!...” 


Memórias de Um Pobre Homem 


“Sou neta de Dyonelio Machado.” 


“Tens o silêncio no gesto, grande sinal de nobreza”. 


Em minha família, as histórias vão sendo contadas aos poucos. E se misturam às lembranças que tenho do meu vô. 


ELE ESTAVA TRISTE... 


DYONÉLlO MACHADO 

(1895 -1986 | Brasil) 


O gaúcho Dyonélio dividiu sua vida entre a literatura, a política (era membro do Partido Comunista Brasileiro; chegou a ser deputado, e cumpriu pena durante o Estado Novo) e a psiquiatria (foi diretor do Hospital São Pedro, de Porto Alegre). Autor de, no mínimo, dois romances marcantes da literatura moderna brasileira, Os Ratos e O Louco de Cati, ele estreou, em ficção, com um livro de contos, Um Pobre Homem, um livro que praticamente não teve distribuição, e de onde foi tirado o conto que se vai ler. Quem não ouviu falar em "pacto de amor" entre jovens amantes desesperados, como acontecia antigamente? 


A Ernani Fornari 


Ele estava triste: ele ia para a morte. 


Tinha já o ar distante, extraterreno, com o seu quê de fantasmagórico, dos que vão morrer. Lia-se-Ihe sobretudo nos olhos, de uma profundidade sombria de sarcófago, o debate entre a morte e a vida, a penetração lenta da morte, da morte, que já deixara fundas raízes nos seus olhos tristes. E o olhar apagado que derramava para os lados vinha todo cheio de morte. 


O tramway achava-se repleto. Um lugar apenas vazio, no último banco, atrás. Ocupou-o.

 

Ninguém pudera reparar no seu aspecto singular. Afora o seu companheiro de banco, ninguém mais o via, porque todos, dispondo-se disciplinarmente nos bancos orientados num mesmo sentido, tinham as costas voltadas para ele. Não era de propósito, bem sabia: apenas um fato normal, conforme a natureza das coisas e as boas regras da simetria. Mas, na vida, nessa vida que ele já quase não sentia, tão prestes estava de deixá-la, também todos lhe voltavam o dorso, como naquele carro, que se diria o seu carro funerário, pois que o conduzia, numa rajada, entre guinchos e campainhas, para a morada eterna. Seria que também esse desprezo se achava conforme a natureza das coisas? 


Perdoemos-lhe, porém, os seus pensamentos insanos: ele estava triste; ele ia para a morte. 


 À sua frente, não via mais do que cabeças, a parte posterior das cabeças, emergindo do espaldar dos bancos de palhinha, como que de outros tantos ombros rígidos e retos. Vinte e muitas cabeças, pelo menos. De velhos, de moços, de mulheres. Seria a primeira vez que ele via a cabeça humana pela sua parte traseira? 


Não é de supor-se, certamente. Mas, se o vira, noutros tempos, não prestara maior atenção. Não ia morrer, então. Não tinha a necessidade de abraçar, no olhar agonizante e sôfrego, todos os aspectos, mesmo os mais triviais, do mundo, como quem se agarra a um tesouro adorável e cruel que foge. 


 Como era feia a cabeça humana vista de costas! Um pouco de couro cabeludo, híspido e esgrouvinhado nuns, lambido, estriado ou falho noutros. E despegando-se dos seus lados, como duas alças, as orelhas...  


Havia-as de várias formas ou atitudes. As mais comuns eram as que abandonavam o crânio numa leve obliqüidade para fora, onde desenhavam uma curva graciosa e doce. Algumas, todavia, carnudas, grossas, verticais, necessariamente moles ao tato, soldavam-se longitudinalmente às têmporas, como presas, no seu centro, por um fio, tal qual botões em roupas de vestir, rodinhas maciças num carrinho de bonecas. Eram as menos numerosas. Quase sempre pertenciam a indivíduos obesos, pouco cabelo, já velhos. Havia-as também destacando-se agressivamente da cabeça, à maneira de lanças, num ângulo mais ou menos aberto, orelhas duras, cartilaginosas, hostis, prontas a espetarem qualquer coisa no ar, um dito, um inseto, uma ironia... 


 Uma que outra, o ar tranqüilo, trazia um aro de metal ou de tartaruga. O seu dono geralmente lia, abstraído do ambiente, a cabeça, sem governo, acompanhando, como um pêndulo, isocronamente, as oscilações do tram. 


 Mas havia igualmente orelhas pequeninas, inquietas, inquisitivas, dando fé a tudo quanto se passava em torno, embebidas agudamente no ar, como um estilete. 


 Todas, porém, qualquer que fosse a sua forma própria e o seu sistema particular de implantação no crânio, desenhavam a linha pilhérica de duas asas, duas alças, e o esferóide da cabeça, ladeado daquelas duas saliências grotescas, bem parecia um bule, um vaso, uma louça qualquer... 


 Ele estava triste, certamente: ele ia para a morte. Mas um pensamento jovial atravessou-lhe o crânio. É que aquelas cabeças redondas, com aquelas orelhas em alça, pareciam-lhe exatissimamente também a ele, uma leiteira, um bule de chá, uma xícara gigantesca ... 


 Fosse que a semelhança se lhe figurasse mesmo absoluta e irresistível, fosse que à aproximação da hora final o seu espírito perdia o melhor da sua estabilidade e se tornava ligeiro como o das crianças, o certo é que essa idéia não o abandonou mais até o fim da viagem. Já não podia olhar para nenhum dos passageiros sem que visse um bule ou uma chávena, no lugar onde eles deviam trazer simplesmente a cabeça. Os chapéus, na maioria de palha, pequenos, de abas retas e duras, como tampas, completavam o estranho símile, aumentando a vertigem do seu olhar moribundo. 


 Cerrava as pestanas, às vezes, como para fugir à alucinação. Os homens então transitavam, livremente, no seu espírito, trazendo com despreocupação burguesa, sobre os ombros vergados, enormes boiões reluzentes, duma louça esbranquiçada ou parda, suja de poeira e do sol, as alças recurvadas como garras. 


 Abria então os olhos, espantado! 


 À sua frente, bamboleando de um lado a outro, nas sacudidas rítmicas do tramway, as cabeças dos homens pendulavam como grandes bilhas escuras. - E continuava, incessantemente, a alucinação... 


 O fim da linha, por fim saltou. Olhou molemente para uma estradinha sinuosa e branca que subia morro acima. Era ela. Era a que devia conduzi-lo até a morte. 


Seguiu-a com passo triste. Depois de uma ou duas inflexões, o caminho ia ter a uma grande árvore, uma figueira do mato, que entristecia a paisagem clara com a sua vasta sombra muda. 


 Júlia já o esperava ali, Júlia, a sua noiva, a que devia morrer com ele, naquele fim trivial das tragédias do amor. Haviam escolhido aquele sítio pela sua esquisita melancolia. Agora, era só desfechar os dois tiros convencionados, e, zás! lá se ia toda a dor, toda a desdita num amor infeliz... 


 - Pronto? - fez a moça numa serenidade que só dão as grandes loucuras ou as grandes decisões, que não deixam também de ser outras tantas formas da loucura. 


 - Pronto... 


 - Vê como é lindo isso. .. - e o seu braço nu percorria, nostalgicamente, os morros e os vales circunjacentes. 


 Ele afundou as duas balas no tambor da arma e fechou-a, com um estalo. 


 - Reza a Deus e vem. 


 - Já estou preparada. Mas tu vais me fazer um grande favor! Eu não quero ver! Tu me darás o tiro pelas costas! 


 Júlia tomou posição a poucos passos na sua frente. Levou as mãos ao rosto, ocul-tando-o num gesto instintivo d'horror. Virou-lhe as costas e esperou, hirta, espectral, rígida, fantástica. 


 Ele estava triste, claro! pois que ele agora era a morte. Muito triste mesmo. Foi pois com imensa tristeza que apontou a arma. Visou a nuca, branca, raspada à navalha... Céus! O bule! Pior! muito pior! um outro vaso!... idêntico, com as duas alças! 


 E não se conteve! e estenceu-se! e se pôs a regougar, enquanto puxava o gatilho, um riso solução, espasmódico, áspero como um ranger: 


 - Ah... ah!... ah!...  


https://aneste.org/os-100-melhores-contos-de-crime-e-mistrio-da-literatura-univer.html?page=37 


Glossário de animação 


 Tramway - Tramway d'Île-de-France (Tramway da Ilha de França) é um sistema de tramway composto por nove linhas. Cinco foram criadas a partir do zero em vias urbanas, e duas decorrentes da modernização das linhas ferroviárias subutilizadas. 




 https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjrfPLQb71urylpLFtYpuan-7iWPXldJE3qwetoc9mkoMzmTd96Ro168f-StfhtdkpcFuvT7G0md_XlShjgyyjd5fqN6mJ1f1zuCFAeTx6TMhZFn5HkeHJJgU8jHrb8V1O-3CUlqifPReUg/s640/Foto+30.jpg 

Dois bondes da Ateliers de Construction Energie, Bélgica (da frente) estacionados em frente ao Mercado Público observando-se ao fundo a Praça XV de Novembro e o chalé - 1935 


Vejam como a incorporação dos institutos do common law é artificial no Brasil: enquanto lá os precedentes são tratados como casos, com a menção às partes nele envolvidas, como, por exemplo, London Tramways v. London County Council, Riggs v. Palmer, etc., nós, aqui, nos referimos a precedentes como números de processos julgados pelos Tribunais. Aqui o “precedente” se transforma em um conceito sem coisa.




 UM POBRE HOMEM, DE DYONELIO MACHADO




https://img.comunidades.net/mos/mosqueteirasliterarias/20150911_dyonelio_machado_620x336.jpg 


 MEU VÔ 


 Publicado há 90 anos, o livro de contos UM POBRE HOMEM, que marcou a estreia de Dyonelio Machado, está ganhando uma reedição. A neta do escritor escreveu a apresentação do volume, em texto que ZH reproduz a seguir. 


 O Livro UM POBRE HOMEM de Dyonelio Machado – Contos, editora Siglaviva, 284 páginas. 


Sou neta de Dyonelio Machado. Sei disso desde pequena, porém, só ao longo da minha vida é que fui entendendo a delicia e a dor dessa genealogia. Escritor famoso, político importante presidiário comunista, maldito, odiado, amado e sempre verdadeiro. E o melhor, antes de tudo, meu vô: o primeiro a me pegar no colo, a apreciar meus desenhos, a me oferecer um copo de vinho, a me indicar os clássicos da literatura e, mesmo hesitante, a me emprestar um livro de orientação sexual. 


 Nossa amizade surgiu da vivência, não da literatura. Contar coisas nossas beira a intimidade e talvez não interesse a muita gente, mas é isso que revela e humaniza o personagem autor de OS RATOS (1935). 


 Quero crer que sempre fui sua neta preferida, já que preferência é afinidade, empatia, algo que se sente, que não tem explicação. Comigo ele conseguia ser criança. Eu adorava as suas travessuras. Enquanto uns se entediavam com sua declamação de poemas em algum almoço de família, eu babava. E, quando tudo estava chato, nos refugiávamos, eu e ele, na cozinha e conversávamos com as empregadas. 


 Como ele gostava de plateia para narrar suas histórias, eu era a melhor companhia, e também testemunha e cúmplice de suas proezas de artesão. Lembro-me muito bem daqueles dedos longos restaurando livros antigos. “Mequinha, sabes que já fui encadernador?” Era esse meu apelido, entre nós apenas, pois nunca tive apelidos; aliás, odeio apelidos, mas desse eu gostava, e até hoje desconheço se tem algum significado. 


 Mais tarde soube que esses mesmos dedos esculpiram, lá nos anos 1930, no cárcere político peças de um jogo de xadrez em cabos de vassoura, relíquia que segue guardada em um saquinho feito com um pedaço de uniforme listrado de presidiário e que consegui resgatar recentemente com uma prima. Dedos que me ensinaram a embaralhar cartas de uma forma diferente – ele apreciava jogar truco –, técnica que somente quando tive mãos de adulta pude realmente colocar em prática. Nos fundos da casa da praia do Imbé tinha uma casinha amarelinha, uma espécie dde oficina, batizada Vila Andrea… Eu amava isso, era uma homenagem! E demorou anos até eu descobrir Palladio – Andrea di Pietro della Gondola –, na faculdade de Arquitetura, e entender o sentido de villa. Na Vila Andrea havia tudo o que precisávamos para montar uma pandorga: ferramentas, varetas e papéis de seda coloridos. Sim, ele fazia e empinava pandorgas. 


 E as ironias? Hilárias para mim. “Inglês não interessa muito, português é uma língua obscena, aprenda francês.” Obedeci. Futricando sua mesa de trabalho, que na época se chamava birô (“bureau”, em francês), descobri as fotos! Muitas fotos de fachadas e vistas de Porto Alegre, lindas, registros de longas caminhadas. Será que nasceu daí minha paixão pela arquitetura… e pelas caminhadas? 


 OS RATOS traduz essa visão cinematográfica, a vida em movimento, ao descrever imageticamente a perambulação pela floresta urbana, barulhenta, labiríntica, de céu recortado, inferno e paraíso da civilização. Meus 15 anos nos foram brindados com um poema: “Tens o silêncio no gesto, grande sinal de nobreza”. E logo veio a abertura política e a reedição de seus livros. O velho amigo então me outorgou o cargo de sua “base de massa”, uma convocação que, nessa época, eu ainda não sabia como honrar. 


 Quando defendi meu doutorado, escutei atentamente as observações da banca, mas recordando que ele contava que, em sua defesa, esbravejou para a plateia após comentários absurdos de um dos membros: “Ele não leu a tese!” Esse era Dyonelio Machado! 


 Durante minha vida fui entendendo melhor sua faceta pública e também suas histórias pessoais, aquelas que realmente impulsionam o mundo e que desvendam o homem por trás do escritor, ou melhor, entranhado no escritor. As histórias do menino solitário de Quaraí, o início do namoro com minha avó, Adalgiza, companheira de toda a vida, que nunca perdia a elegância, nem mesmo quando tinha de ouvir: “Mequinha, que bom quando vens almoçar, só assim tem comida boa, porque, tu sabes, eu sou o bicho da casa”. E ele fazia cara de bicho. E ria. 


 A Adalgiza era pianista, lia, costurava, e preparava um doce de leite e uma massa inesquecíveis. Mas vivia mesmo era para ele. E, quando o Velho – assim ela carinhosamente o chamava – se foi, organizou as cartas, os manuscritos, tudo. Terminado o trabalho, deitou-se no sofá e se foi também. 


 Em minha família, as histórias vão sendo contadas aos poucos. E se misturam às lembranças que tenho do meu vô. 


 Fonte: ZeroHora/doc/Andrea Soler Machado/Arquiteta, doutora em História, professora da UFRGS em 25/12/2017 




https://youtu.be/nZr1Op3FIkk

Podres Poderes

Caetano Veloso

https://www.cifraclub.com.br/caetano-veloso/podres-poderes/letra/

 

(lembro de Caetano: "Será que nunca faremos senão confirmar a incompetência da América católica...")

https://www.conjur.com.br/2016-out-06/senso-incomum-tese-politica-procura-teoria-direito-precedentes-iii

https://mosqueteirasliterarias.comunidades.net/um-pobre-homem-de-dyonelio-machado

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