quinta-feira, 1 de abril de 2021

YOU'RE THE MAN

O resto é história. ***
*** Obrigado, Marvin! *** 31 de Março, 2021 - 13:34 ( Brasília ) Gen Ex Etchegoyen - Forças Armadas não vão pra rua defender ninguém politicamente' ***
*** Malu Gaspar O Globo 31 Março 2021 O Exército vai se manter como sempre esteve esse tempo todo: longe de qualquer papel político." É a opinião do general Sérgio Etchegoyen, que além de ter passado 45 anos no Exército, também foi ministro do Gabinete de Segurança Institucional de Michel Temer. Do Rio Grande do Sul, onde trabalha em consultorias, Etchegoyen tem acompanhado a crise entre o comando das Forças Armadas e o governo Bolsonaro. Que, aliás, considera inadequado chamar de crise. "Não há nada mais do que uma troca de comando que é prerrogativa do presidente. Isso é o que existe, por enquanto." O Alto Comando do Exército se reuniu ontem (29MAR) e hoje (30MAR) e seus membros têm dito a interlocutores que a força não vai ceder a tentações golpistas. Como devemos entender isso? O Exército pode vir a atuar para parar o presidente? Nunca as Forças Armadas aceitaram ser tratadas de outra forma que não como instituição de Estado e pelos canais apropriados, por mais hostil que fosse o momento. Nos últimos anos, já enfrentaram, por exemplo, uma tentativa sórdida de avanço sobre as competências dos comandantes na gestão do pessoal, no mandato da presidente Dilma – que depois o próprio PT botou lá em seus documentos que lamentava não ter promovido oficiais generais que não fossem alinhados com o projeto de governo deles. E ainda assim o Exército se manteve fiel aos princípios legais. Acho que não será diferente agora. Mas a atitude do presidente de demitir o ministro da Defesa e os comandantes das forças, da forma como foi, não é uma atitude hostil? Se você considerar o aspecto pessoal, da relação com os comandantes, pode ser entendido assim. Mas do ponto de vista institucional, das Forças Armadas, não, porque o presidente tem a prerrogativa de fazer isso. É um dos poderes dele. Na cabeça do militar, vai ser analisado sempre da seguinte forma: isso é legítimo do ponto de vista legal? Goste-se ou não, é. A questão é que as razões pelas quais o presidente fez isso parecem ir além da relação pessoal. Estariam mais ligadas a coisas que o presidente queria que fossem feitas, como por exemplo acomodar o ex-ministro Pazuello ou manifestações contra decisões do STF sobre o lockdown. Para comentar isso, eu teria que imaginar que os próximos comandantes aceitariam uma proposta de ilegalidade, e nisso não acredito. A substituição pode ter a ver com o fato de o presidente estar incomodado com alguma coisa e buscar ter um relacionamento mais fácil com os chefes das forças. Mas daí a achar que vai mudar a posição das Forças Armadas em relação a seu papel institucional vai uma grande distância. Há uns dias, o presidente disse que "meu exército não vai cumprir lockdown". O general Fernando Azevedo disse a aliados que saiu porque não queria repetir o mês de maio de 2020, quando houve as manifestações por intervenção militar. Na carta de demissão, ele fez questão de registrar que defendeu as instituições de Estado. Isso não denota uma preocupação com o que pode acontecer com essas instituições? Eu não conheço as razões do general Fernando, como não conheço as razões do presidente, mas ele (o general Fernando) foi muito feliz nas palavras e na condução do ministério da Defesa. Na carta, ele deixa uma síntese da ação dele. Se botou isso, é porque foi importante para ele. Veja que ele salienta na nota o agradecimento aos comandantes pelo que fizeram na área humanitária. Ele achou isso tão importante a ponto de ser um parágrafo na nota de despedida. O senhor diz que o Exército não vai assumir um papel político. Se houver um impasse institucional, então, a quem caberá resolver? Numa situação hipotética, se houver um impasse institucional, a solução será institucional. As instituições vão ter que encontrar a forma de resolver. As Forças Armadas não têm legitimidade para isso. Nem querem, nem eu acredito que entrassem numa aventura desse tipo. Qualquer solução terá de ser imposta por um dos poderes, particularmente o Congresso e a Justiça. É o Judiciário quem tem a capacidade de tomar decisões desse tipo e o Congresso, de editar as leis. As Forças Armadas só agirão se forem convocadas por qualquer dos poderes, nos limites do artigo 142 da Constituição. E se o presidente as convocar para alguma ação golpista? Não acredito que o presidente convoque para fazer ações golpistas. Eu acho que o que aconteceu foi uma crise política que envolveu os comandantes militares e o ministro da Defesa. Não é uma crise militar no sentido de que os militares ou as forças possam tomar uma atitude. É uma crise política que chega no ministério da Defesa. O novo ministro, como vai lá com a confiança do presidente, certamente saberá resolver. O presidente fez amparado na legalidade. 'Ah, mas eu não gosto do que ele fez" Tá bem, todo cidadão pode ter sua opinião. Mas o presidente está amparado na legalidade. O senhor acha normal que uma crise política envolva o ministério da Defesa? O que isso diz sobre o momento que a gente vive? Isso gera um mal estar interno. Mas faz tão mal à nossa democracia a gente achar que em qualquer soluço político os militares possam tomar uma atitude… Não faz muito tempo que me afastei, conheço as pessoas que estão lá, existem valores perenes e um deles é o apego à normalidade democrática, à soberania popular e ao presidente da República como comandante Supremo. Nós já tivemos comandantes supremos que não eram os mais votados nas Forças Armadas e nem por isso deixaram de comandar. Não é o caso do Bolsonaro, que teve apoio das Forças Armadas. Sim, mas mesmo quem não teve esse apoio, governou sem dificuldades. Outro dia mesmo o presidente Lula disse que teve um excelente relacionamento com o Exército. As Forças Armadas vão seguir cumprindo seu dever, tocando os seus projetos, fazendo o que tem que fazer. E não serão fonte de crise e de instabilidade. Essa crise pode afetar o apoio que Bolsonaro teve na caserna ou nas tropas? Poder pode, não sei dizer em que medida. Mas não vejo como isso vá mudar o cenário geral, que é o do papel institucional e da missão a cumprir. Daqui a pouco as coisas se arrumam e as pessoas restabelecem as relações de confiança. Até a próxima crise. Eu não acho que a crise esteja nas Forças Armadas, se há crise ela pode ter acontecido nas nomeações de outros ministros. Provavelmente houve um desgaste no relacionamento e o presidente resolveu trocar. O que eu acho é que a gente tem uma visão estruturalmente equivocada. Cada vez que acontece uma coisa, a gente acha que houve uma crise militar. Não teve no governo Lula, não teve sob Dilma, não teve no governo Temer e não terá agora. As Forças Armadas não vão para a rua defender politicamente ninguém. Não há nessa crise nenhum eco de 1964? Em 1964 tinha apoio popular, apoio da imprensa, apoio da população, uma porção de coisas. Se acharem que tem gente na mesma quantidade para sair para a rua apoiar uma ruptura em nome do presidente ou a queda do presidente, tá bem. Mas não vão achar. Nem vão achar nas Forças Armadas alguém que imagine que isso seja a solução. E lamento muito que alguns na sociedade achem que isso seja possível. O Brasil é um país sofisticado institucionalmente. Eu mesmo tenho críticas a muitas coisas no funcionamento das nossas instituições. Mas elas estão funcionando e, mais do que isso, estão sendo obedecidas. Com tudo isso, os senhor acha que instituições estão funcionando? Veja, crise é o sobrenome da política. Sempre tem sido assim no Brasil. Cada vez que há um conflito a gente vive uma crise, talvez até banalizando o termo, e vamos indo assim. Nós enfrentamos tudo. Quando eu olho em volta, acho difícil imaginar um país como o nosso, que tenha tido tantas crises e mesmo assim não tenha tido um abalo institucional. Um grande patrimônio que a gente construiu, de um país que amadureceu. Isso tem que ser valorizado. A questão é que o próprio presidente sugere rupturas toda hora. Não vou comentar o presidente. Qualquer cidadão pode dizer o que quiser, o que interessa é se isso tem consequência ou não. O presidente é um homem chegado a declarações fortes. Mas ele não tomou nenhuma medida concreta que afrontasse a democracia Não foi por falta de apoio? Não sei avaliar a razão, mas a realidade é essa. Ele adota uma política com discurso forte, mas isso não se reflete nas ações dele. Ele nunca deixou de acatar as decisões do STF. Não deixou de acatar, nas vezes em que o ex-presidente da Câmara Rodrigo Maia deixou vencer uma medida provisória. Não cercou Congresso, não cercou STF. A gente tem que trabalhar com antecedentes. Quais os antecedentes? Eu nunca vi o presidente sair de um discurso forte para ações que ferissem a institucionalidade. *** *** https://www.defesanet.com.br/cm/noticia/40234/Gen-Ex-Etchegoyen---Forcas-Armadas-nao-vao-pra-rua-defender-ninguem-politicamente-/ *** *** “Crise é o sobrenome da política no Brasil”, diz general Sérgio Etchegoyen 01.04.21 08:00 “Crise é o sobrenome da política no Brasil”, diz general Sérgio Etchegoyen ***
Foto: O Antagonista Em entrevista ao Papo Antagonista, o ex-ministro do GSI Sérgio Etchegoyen minimizou as substituições dos comandantes das Forças Armadas e descartou a possibilidade de intervenção militar. Segundo ele, “crise é o sobrenome da política no Brasil”. *** *** Em destaque: Papo Antagonista *** *** https://www.oantagonista.com/videos/crise-e-o-sobrenome-da-politica-no-brasil-diz-general-sergio-etchegoyen/ *** *** METZENGERSTEIN - Conto Clássico de Terror - Edgar Allan Poe abril 25, 2019 ***
*** METZENGERSTEIN Edgar Allan Pöe (1809 – 1849) Pestia, eram vivus, — moriens tua mors[1]. Lutero O horror e a fatalidade se expandem através de todos os séculos. Para que atribuir uma data à história que vou narrar? Basta-me referir que, na época à que aludo, existia no centro da Hungria uma crença secreta, mas sólida, nas doutrinas da metempsicose[2]. Nada direi sobre essas doutrinas em si mesmas, sobre sua falsidade ou sua probabilidade. Afirmo, todavia, que boa parte de nossa incredulidade provém — como diz La Bruyèrs, que atribui toda nossa infelicidade a essa causa única — de não podermos estar sozinhos. Havia, porém, alguns pontos na superstição húngara que tendiam acentuadamente para o absurdo. Os húngaros divergiam muito essencialmente de seus chefes do Oriente. Por exemplo, acreditavam que a alma — transcrevo as expressões de um arguto e inteligente parisiense — só habita uma única vez um corpo sensível. Assim, um cavalo, um cão, mesmo um homem, não passam da aparência ilusória desses seres. As famílias Berlifitzing e Metzengerstein se haviam querelado durante séculos. Jamais se viram duas casas tão ilustres reciprocamente exasperadas por tão imortal inimizade. Esse ódio podia encontrar sua origem nas palavras de uma antiga profecia: — um grande nome cairá com uma queda terrível, quando, à imagem do cavaleiro sobre seu cavalo, a mortalidade de Metzengerstein triunfar da imortalidade de Berlifitzing. Não há dúvida que os termos tinham pouco ou nenhum sentido. Houve causas, porém, mais vulgares que provocaram — e isso sem remontar muito longe — consequências igualmente plenas de acontecimentos. Ademais, as duas casas, que eram vizinhas, tinham por muito tempo exercido uma influência rival nos negócios de um governo tumultuoso. Além disso, é raro que vizinhos tão próximos sejam amigos. E do alto de seus maciços terraplenos os habitantes do castelo Berlifitzing podiam mergulhar seus olhares nas próprias janelas do palácio Metzengerstein. Finalmente, a ostentação de um fausto mais que feudal era pouco próprio para acalmar os sentimentos irritadiços dos Berlifitzing menos antigos e menos ricos. Será, portanto, de surpreender que os termos daquela predição, embora inteiramente extravagantes, tenham tão bem criado e mantido a discórdia entre duas famílias já predispostas às querelas por todas as instigações de uma inveja hereditária? A profecia parecia implicar — se é que implicava alguma coisa — um triunfo final da casa já então mais poderosa, e, naturalmente, vivia na memória da mais fraca e menos influente, impregnando-se de amarga animosidade. Welhelm, conde de Behifitzing, embora, proviesse de elevada origem, não passava, na época desta história, de um velho caduco e enfermo, e nada possuía de notável, a não ser uma antipatia inveterada e louca contra a família de seu rival, e uma paixão tão forte pelos cavalos e pela caça que coisa alguma, nem seus incômodos físicos, nem sua avançada idade, nem o enfraquecimento de seu espírito podiam impedi-lo de participar diariamente dos perigos desses exercícios. Do outro lado, Frederick, barão de Metzengerstein, ainda não era maior. Seu pai, o ministro G..., morrera moço. Sua mãe, Sra. Maria, logo o acompanhou. Nessa época, Frederick contava dezoito anos. Numa cidade, dezoito anos não representam um longo lapso de tempo; mas numa solidão — numa tão magnifica solidão quanto aquele antigo domínio —, o pêndulo vibra com solenidade mais profunda e mais significativa. Em consequência de determinadas circunstâncias ligadas à administração seu pai, o jovem barão, logo após a morte daquele, entrou na posse de suas vastas propriedades. Raramente se havia visto um nobre da Hungria possuir semelhante patrimônio. Seus castelos eram incontáveis. O maior e mais esplêndido era o palácio Metzengerstein. A linha fronteiriça de seus senhorios jamais fora claramente traçada, mas seu parque principal abrangia uma circunferência de cinquenta milhas. O advento de uma fortuna assim incomparável para um proprietário tão jovem, e de caráter tão bem conhecido, deixava pouco lugar para conjecturas no tocante à sua provável linha de conduta. De fato, no espaço de três dias, a conduta do herdeiro fez empalidecer a fama de Herodes e ultrapassou esplendidamente as esperanças de seus mais entusiasmados admiradores. Vergonhosas orgias, perfídias flagrantes, atrocidades incríveis, depressa fizeram seus trêmulos vassalos compreenderem que coisa alguma — nem submissão mesquinha de sua parte, nem escrúpulos de consciência da parte dele — doravante os garantiria contra as garras sem remorsos do pequeno Calígula. Pela noite do quarto dia, reparou-se que havia incêndio nas estrebarias do castelo Berlifitzing, e a opinião unânime da vizinhança anexou o crime de incêndio à lista já horrorosa dos delitos e crueldade do barão. Quanto ao jovem gentil-homem, durante o tumulto provocado pelo acidente, conservava-se aparentemente imerso em meditação, no alto do palácio da família dos Metzengerstein, num imenso aposento deserto. O jogo de tapeçarias, opulento, embora desbotado, que pendia melancolicamente das paredes, representava as figuras fantásticas e majestosas de mil antepassados ilustres. Aqui, sacerdotes ricamente vestidos de arminho, dignitários pontifícios, sentavam-se familiarmente com o autócrata e o soberano, opunham seu veto aos caprichos de um rei temporal ou detinham com o fiat da onipotência papal o cetro rebelde do Grande-Inimigo, príncipe das trevas. Acolá, as sombrias e enormes figuras dos príncipes Metzengerstein — com seus musculosos corcéis tripudiando sobre os cadáveres dos inimigos caídos — abalavam os nervos mais firmes com sua vigorosa expressão; e aqui, por sua vez, voluptuosas e brancas como cisnes, as imagens das damas de tempo antigo flutuavam ao longe nos volteios de uma dança fantástica, aos acordes de uma melodia imaginária. Mas, enquanto o barão escutava ou fingia escutar a algazarra, que continuava a crescer, das estrebarias de Berlifitzing, — e talvez meditando em algum novo rasgo, algum decidido rasgo de audácia, — seus olhos se voltaram maquinalmente para a imagem de um cavalo enorme, de uma cor que não era natural, que figurava na tapeçaria como pertencente a um ancestral sarraceno da família de seu rival. O cavalo ocupava o primeiro plano da cena — imóvel qual uma estátua —, enquanto um pouco além, atrás dele, seu cavaleiro, vencido, perecia sob o punhal de um Metzengerstein. Nos lábios de Frederick surgiu uma expressão diabólica, como se ele reparasse na direção que seu olhar tomara involuntariamente. Contudo, não desviou os olhos. Muito longe disso, ele estava inteiramente incapaz de dominar a ansiedade opressiva que parecia descer sobro seus sentidos à semelhança de uma mortalha. Dificilmente conciliava suas sensações incoerentes como as dos sonhos com a certeza de estar acordado. Quanto mais ele contemplava, tanto mais absorvente se tornava o sortilégio — tanto mais impossível lhe parecia despregar os olhos da fascinação daquela tapeçaria. Como o tumulto do exterior aumentou repentinamente, ele fez por fim, um esforço, que lhe pareceu difícil, e voltou sua atenção para um surto de claridade vermelha projetado em cheio sobre as janelas do aposento pelas cavalariças em chamas. A ação, todavia, foi apenas momentânea. Seu olhar retornou maquinalmente para a parede. Com grande assombro seu, a cabeça do gigantesco corcel — coisa horrível! —, enquanto isso, mudara de posição. O pescoço do animal, primeiro como que inclinado pela compaixão para o corpo prostrado de seu senhor, estendia-se agora, rígido e em todo seu tamanho, em direção ao barão. Os olhos, havia pouco invisíveis, tinham agora uma expressão enérgica e humana, e brilhavam com um vermelho ardente e extraordinário. Os lábios esticados desse cavalo de fisionomia embravecida deixavam inteiramente à mostra seus dentes sepulcrais e repugnantes. Estupefato de terror, o jovem senhor alcançou a porta, cambaleando. Ao abri-la, um clarão vermelho projetou-se ao longe na sala, recortando nitidamente seu reflexo contra a tapeçaria, que ondulava. E, enquanto o barão hesitava um instante no limiar, estremeceu ao ver que esse reflexo tomava a posição exata e enchia precisamente o contorno do implácavel e triunfante assassino de Berlifitzing sarraceno. Para desoprimir seu ânimo abatido, o barão Frederick buscou precipitadamente o ar livre. Na porta principal do palácio, encontrou três adestradores de cavalos. Estes, com muita dificuldade e sério risco de suas vidas, dominavam os saltos convulsivos de um gigantesco cavalo cor de fogo. — De quem é esse cavalo? Onde o encontraram? — perguntou o jovem com voz estrondosa e rouca, reconhecendo imediatamente que o misterioso corcel da tapeçaria era perfeita réplica do encolerizado animal que estava em sua frente. —É de sua propriedade, senhor — retrucou um dos adestradores. — Pelo menos nenhum outro proprietário o reclamou. Nós o agarramos quando ele fugia, todo fumegante e espumando de raiva, das cavalariças incendiadas do castelo de Berlifitzing. Supondo que pertencesse ao haras de cavalos estrangeiros do velho conde, nós o trouxemos como salvado. Mas os lacaios negam-se a reconhecer qualquer direito sobre o animal, o que é estranho, visto exibir ele sinais evidentes do fogo que provam que escapou por pouco. —As letras W. v. B. também estão marcadas a ferro, muito distintamente, em sua testa — interrompeu um segundo adestrador. — Supus que fossem as iniciais de Wilhelm von Berlifitzing, mas toda a gente do castelo afirma positiva- mente que jamais viu o animal. —Extremamente singular — disse o jovem barão, com ar abstrato e parecendo inconsciente do significado de suas palavras. — É, como dizem, um cavalo notável, um cavalo prodigioso! Embora seja, como repararam com exatidão, de caráter arisco e intratável. Vamos! Que me pertença de bom grado — acrescentou após uma pausa. — Talvez um cavaleiro igual a Frederick de Metzengerstein seja capaz de domar o próprio diabo das cavalariças de Berlifitzing. — O senhor está enganado, senhor; o cavalo, como creio que dissemos, não pertence às cavalariças do conde; se assim fosse, conhecemos perfeitamente nosso dever para trazê-lo à presença de uma nobre pessoa de sua família. —É verdade! — observou o barão secamente. Nesse instante, um jovem criado de quarto chegou do palácio, todo corado e pressuroso. Sussurrou ao ouvido de seu senhor o caso da súbita desaparição de um pedaço da tapeçaria, num aposento que ele designou, entrando então em pormenores de caráter minucioso e circunstanciado. Mas como tudo isso era transmitido em voz muito baixa, nenhuma palavra transpirou capaz de satisfazer a curiosidade excitada dos adestradores. O jovem Frederick, durante a conversa, parecia dominado de emoções variadas. Contudo, depressa recuperou sua calma. Uma expressão de resoluta maldade já estava estampada em sua fisionomia quando expediu ordens peremptórias afim de que o aposento em questão fosse imediatamente condenado e a chave entregue em suas próprias mãos. —O senhor soube da morte lamentável de Berlifitzing, o velho caçador? — disse ao barão um de seus vassalos, após a partida do pajem, enquanto o enorme corcel, que o gentil-homem acabava de adotar como seu, saltava e se atirava, com fúria redobrada, através da longa avenida que se estendia do palácio às cavalariças de Metzengerstein. —Não — disse o barão, voltando-se subitamente para quem lhe falava. — Morte, estás dizendo? — É a pura verdade, senhor. E suponho que para alguém do seu nome, isso não seja uma informação muito desagradável. Um rápido sorriso perpassou pelo rosto do barão. — Como ele morreu ? —Em seus imprudentes esforços para salvar a parte predileta de seu haras de caça. Pereceu miseravelmente nas chamas. —Ver... da... de! — exclamou o barão, como que lenta e gradualmente impressionado por alguma evidência misteriosa. — Verdade — repetiu o vassalo. — Horrível! — disse o rapaz com muita calma, e voltou tranquilamente para o palácio. A partir dessa época verificou-se uma transformação marcada na conduta exterior do dissoluto jovem, barão Frederick von Metzengerstein. Na realidade, sua conduta desapontava todas as esperanças e inutilizava as manobras de mais de uma progenitora. Seus hábitos e maneiras tornavam-se cada vez mais ríspidos e deixaram, mais do que nunca, de apresentar o menor ponto de contato com os da aristocracia da região. Nunca era visto fora dos limites de seu domínio, e no vasto mundo social onde vivia absolutamente sem companheiro — a menos que o grande cavalo impetuoso, fora da natureza, cor de fogo, que ele passou a montar continuamente a partir dessa época, possuísse algum misterioso direito ao título de amigo. Entretanto, recebia periodicamente numerosos convites por parte da vizinhança. — “O barão honrará nossa festa com sua presença?”; — “O barão se reunirá conosco para uma caça de javali?” — "Metzengerstein não caça"; — “Metzengerstein não irá”, eram essas as suas arrogantes e lacônicas respostas. Esses reiterados insultos não podiam ser suportados por uma nobreza imperiosa. Tais convites se tornaram menos cordiais, menos frequentes e com o tempo cessaram inteiramente. Ouviu-se a viúva do conde Berlifitzing manifestar o desejo "de que o barão estivesse em casa quando não o desejasse estar, visto que ele despreza a companhia de seus iguais; e que estivesse a cavalo quando não o desejasse, visto preferir a companhia de um cavalo". Isto certamente não passava da explosão tola de uma desavença hereditária e provava que nossas palavras se tornam singularmente absurdas quando lhes desejamos emprestar uma forma singularmente enérgica. As pessoas caridosas, contudo, atribuíam a transformação de maneiras do jovem gentil-homem à natural tristeza de um filho prematuramente privado de seus pais — olvidando, todavia, sua despreocupada e atroz conduta durante os dias que se seguiram imediatamente a essa perda. Houve alguns que simplesmente o acusaram de fazer uma ideia exagerada de sua importância e de sua dignidade. Outros, por sua vez (e entre estes se pode citar o médico da família), falaram sem hesitação de uma melancolia mórbida e de um mal hereditário. Entre a multidão, entretanto, circulavam insinuações mais tenebrosas, de caráter mais equívoco. Na realidade, o perverso apego do barão à sua montaria recentemente adquirida — apego que parecia haurir nova força em cada novo exemplo dado pelo animal de seus ferozes e demoníacos pendores — acabou tornando-se, aos olhos de todas as criaturas sensatas, uma ternura horrível e contra a natureza. Na cintilação do meio-dia, nas horas mortas da noite, doente ou bem-disposto, na bonança ou na tempestade, o jovem Metzengerstein parecia pregado à sela do colossal cavalo, cujas intratáveis audácias tanto correspondiam a seu próprio caráter. Além disso, havia circunstâncias que, relacionadas com acontecimentos recentes, emprestavam um caráter sobrenatural monstruoso à mania do cavaleiro e às faculdades do animal. O espaço que ele ultrapassava de um salto fora cuidadosamente medido e verificou-se que excedia por uma diferença assombrosa às conjecturas mais condescendentes e mais exageradas. O barão, além disso, não se utilizava para o animal de nenhum nome particular, embora todos os cavalos de seu haras tivessem designações próprias. O cavalo em questão tinha sua estrebaria a certa distância das outras. E, quanto ao tratamento e a todo o serviço necessário, ninguém — exceto o proprietário em pessoa —, se arriscava a fazê-lo, nem mesmo a penetrar no cercado onde se erguia sua cavalariça particular. Reparou-se, também, que, embora os três palafreneiros que se haviam apoderado do corcel, quando ele fugia do incêndio de Berlifitzing, tivessem conseguido detê-lo graças a uma corrente de nó corrediço, nenhum dos três, contudo, podia afirmar com segurança que, durante a perigosa luta, ou em algum momento posterior, tivesse jamais colocado a mão no corpo do animal. Provas de particular inteligência reveladas na conduta do nobre e fogoso cavalo certamente não bastariam para provocar uma atenção absurda. Mas havia, neste caso, determinadas circunstâncias que teriam forçado os espíritos mais céticos e mais fleumáticos: assim, dizia-se que por vezes o animal fizera a multidão curiosa recuar de pavor perante o profundo e impressionante significado de sua marca — momento em que o jovem Metzengerstein empalidecia e fugia ante a súbita e perspicaz expressão de seu olhar grave e quase humano. Entre toda a criadagem do barão, não houve ninguém que duvidasse da extraordinária e fervorosa afeição que as esplêndidas qualidades de seu cavalo provocavam no jovem gentil-homem; ninguém, com exceção pelo menos de um insignificante e importuno pajenzinho, cuja ofuscante fealdade era encontrada por toda parte, e cujas opiniões tinham o mínimo de importância possível. Tinha ele a ousadia de afirmar — se, todavia, suas ideias merecem ser mencionada — que seu senhor jamais o montara sem um inexplicável e quase imperceptível arrepio e que, ao regressar de cada uma de suas longas e habituais cavalgadas, uma expressão de triunfante perversidade contorcia todos os músculos de seu rosto. Durante uma noite de tempestade, Metzengerstein, saindo de um sono pesado, desceu qual um maníaco de seu quarto e, montando celeremente o cavalo, precipitou-se aos saltos através do labirinto da floresta. Um acontecimento tão comum não podia despertar particularmente a atenção. Seu regresso, porém, foi aguardado com intensa ansiedade por todos os seus lacaios, quando, após algumas horas de ausência, os prodigiosos e magníficos edifícios do palácio Metzengerstein começaram a estalar e a tremer até os alicerces sob a ação de braseiro imenso e indomável — uma massa espessa e lívida. Como as chamas, quando avistadas pela primeira vez, já faziam imenso progresso — de molde que todos os esforços para salvar uma parte qualquer das construções teriam sido evidentemente inúteis —, toda a população da vizinhança se conservava indolentemente em volta num assombro silencioso senão apático. Mas um objeto, terrível e novo, bem depressa fixou a atenção da turba, e demonstrou a que ponto é mais intenso o interesse provocado nos sentimentos da turba pela contemplação de uma agonia humana como aquele originado dos mais pavorosos espetáculos da matéria inanimada. Na longa avenida de velhos carvalhos que principiava na floresta e morria na entrada principal do palácio Metzengerstein, um corcel, conduzindo um cavaleiro de cabeça nua e em desordem, era visto a saltar com uma impetuosidade que desafiava o próprio Demônio da Tempestade. O cavaleiro, evidentemente, não era o senhor nessa carreira desenfreada. A angústia de sua fisionomia, os esforços convulsivos de todo seu ser testemunhavam uma luta sobre-humana, mas som algum, exceto um grito único, se escapava de seus lábios dilacerados, que ele mordia de lado a lado no paroxismo de seu terror. Num instante, o choque dos cascos ressoou com ruído agudo e penetrante, mais alto que o rugir das chamas e o ganir do vento. Noutro, atravessando de um só salto a grande porta e o fosso, o corcel se precipitou sobre as escadarias oscilantes do palácio e desapareceu com seu cavaleiro no turbilhão daquele fogo caótico. A fúria da tempestade abrandou de súbito e uma calma absoluta substituiu-a majestosamente. Uma chama branca continuava a envolver o edifício como um sudário e, projetando-se ao longe na atmosfera tranquila, dardejava uma claridade de esplendor sobrenatural, ao mesmo tempo em que uma nuvem de fumaça desabava pesadamente sobre as construções, revestindo a forma nítida de um gigantesco cavalo. Tradução de autor desconhecido. Fonte: “Vamos Ler” (RJ), edição de 25 de novembro de 1943. [1] Em vida eu fui a tua peste; moto, serei a tua morte. [2] Doutrina segundo a qual a alma transmigra de um a outro corpo, independentemente da espécie do ente vivo que a recebe. *** *** Resenha Especial: Metzengerstein por Edgar Allan Poe " Pestis eram vivus - moriens tua mors ero. Vivo, sou tua peste - morto, serei tua morte. - Martinho Lutero" Por Isabelle Vitorino http://www.mundodoslivros.com/…/resenha-especial-metzengers… https://www.contosdeterror.site/2019/04/metzengerstein-conto-classico-de-terror.html *** *** Resenha Especial: Metzengerstein por Edgar Allan Poe MARCADORES: 12 MESES DE POE, ABRIL CULTURAL, CONTO, EDGAR ALLAN POE, HISTÓRIAS EXTRAORDINÁRIAS, METZENGERSTEIN, MUITO ALÉM DO PONTO, RESENHA, RESENHA ESPECIAL, TERROR ***
Título do Livro: Histórias Extraordinárias Títulos do Conto: Metzengerstein Autor: Edgar Allan Poe Editora: Abril Cultural Páginas: 430 (233 a 244) Ano: 1978 "Metzengerstein" foi o primeiro conto de Edgar Allan Poe a ser publicado em um revista e um dos mais esquecidos trabalhos do autor em compilações de sua obra. Trazendo para o seu enredo, uma rixa antiga entre duas famílias da Hungria, o leitor é conduzido entre pensamentos e atitudes obsessivas por parte dos Berlifitizing, bem como, dos Metzengerstein. De um lado temos um velho patriarca, que em meio a sua senilidade se agarra com todas as suas forças a paixão de sua vida: os cavalos. De outro, temos um jovem herdeiro cuja volúpia e egocentrismo o fazem ir além dos limites da sanidade. Nesse cenário, há uma antiga profecia que incita esse rancor por mais tempo, já que em uma primeira interpretação, se pode imaginar que a mais antiga e rica casa, os Metzengerstein, iria se sobrepor aos Berlifitizing. Esse ódio entre as famílias está tão claro, que quando o celeiro do velho patriarca Berlifitizing é incendiado, ninguém duvida que o responsável foi o jovem volúvel, mesmo que na ocasião ele estivesse estranhamente recluso em seus aposentos. O amor que o velho sentia pelos seus cavalos faz com que ele seja protagonista de uma grande tragédia, mas as coisas não param por aí, pois ao contemplar um quadro de um cavalo poderoso em seu quarto, logo o jovem Metzengerstein se depara com um ser semelhante em suas terras e que o conduz a um caminho que não há volta. Sou uma leitora apaixonada pelos escritos de Edgar Allan Poe, por isso não há nada que o autor escreveu que eu efetivamente não goste. Entretanto, meu senso crítico não me permite deixar de observar determinados detalhes que fazem um trabalho dele ser melhor desenvolvido ou não. Em "Metzengerstein" eu fui pega já nas primeiras páginas, pois com descrições lúgubres e detalhamento dos ânimos que circundavam essa sociedade que vivia dividida diante da rivalidade de duas casas, me senti lendo um romance e não um conto. Devo salientar que essa é uma característica muito forte da narrativa de Poe, já que mesmo dispondo de poucas páginas, ele consegue fazer com que o seu leitor sinta de fato o que ele quer dizer. No entanto, senti falta da continuidade desse estilo de narrativa no decorrer do conto haja vista que conforme os acontecimentos vão sendo revelados, a história decai para um ritmo mais lento e que não condiz com o que se pode ver inicialmente. Não vejo isso como uma falha do autor, mas sim como um aprimoramento de seu próprio estilo enquanto escritor. Acredito eu, que essa ainda era uma fase de ajustes com relação ao seu trabalho, já que como bem podemos analisar, as publicações posteriores trazem uma riqueza e linearidade muito maior nos textos. Uma descoberta que tive nesse conto, foi a sua abordagem da "metempsicose". Que em uma explicação bem rasa sobre o tema seria como a volta de um espírito de alguém que já partiu através de um corpo físico que não seja necessariamente o humano, tais como, vegetais, animais etc, ou seja, uma transmigração. Ele trabalhou a temática em sua obra de modo muito forte, visto que ele não só abre o texto com algumas citações sobre o assunto, como também, norteia a trajetória de vida de seus personagens até chegar ao ponto em que ele aplica a tese da metempsicose. Particularmente, não pude observar esse elemento em especial em outros contos dele, mas farei algumas releituras a fim de analisar se essa teoria está presente em outros trabalhos seus. Todavia, isso não quer dizer que não é possível enxergar também aquele elementos já conhecidos de seus leitores e que permeiam toda a sua obra, quais sejam: a perca paulatina da sanidade que culmina na mais completa loucura, a obsessão e por fim, a morte. Vale ressaltar ainda, que novamente nos deparamos com o significado que ele dá aos olhos em suas obras, pois é através do olhar que ele desenvolve um sentimento obsessivo em seu protagonista que acaba se tornando o fio condutor que o leva até um desfecho impactante – apesar de sua obviedade – para "Metzengerstein". Pestis eram vivus - moriens tua mors ero. Vivo, sou tua peste - morto, serei tua morte. - Martinho Lutero --- Isabelle Vitorino --- *** *** https://www.mundodoslivros.com/2016/02/resenha-especial-metzengerstein-por.html
*** Tu és o homem (título original Thou art the man) foi publicado em 1844, no livro Godey. O manuscrito permanece na coleção do autor na Biblioteca Pública de Nova York. A história acontece em Rattleburgo. Um proeminente e rico senhor local, Barnabas Shuttleworthy desaparece. ... Google Books Data da primeira publicação: 20 de dezembro de 2020 Autor: Edgar Allan Poe Gênero: Ficção *** *** EDGAR ALLAN POE – FICÇÃO COMPLETA – CONTOS POLICIAIS TU ÉS O HOMEM DESEMPENHAREI agora o papel de Édipo, para o enigma de Rattleburgo. Expor-vos-ei, como somente eu posso fazê-lo, o segredo do maquinismo que efetuou o milagre de Rattleburgo o autêntico, o admitido, o indisputado e indisputável milagre que pôs definitivamente fim à infidelidade entre os rattleburgueses, converteu à ortodoxia das vovós e de qualquer materialista que antes se aventurara a ser cético. Este acontecimento, que seria triste discutir num tom de inoportuna leviandade, ocorreu no verão de 18... O Sr. Barnabé Shuttleworthy, um dos mais ricos e dos mais respeitáveis cidadãos do burgo, estivera desaparecido por vários dias, em circunstâncias que despertavam suspeitas de uma má ação. O Sr. Shuttleworthy se ausentara de Rattleburgo num sábado, de manhã, bem cedo, a cavalo, com a confessada intenção de ir à cidade de N***, a cerca de quinze milhas de distância, e de lá voltar na noite do mesmo dia. Duas horas depois de sua partida, porém, seu cavalo voltou sem ele e sem os alforjes, que lhe tinham sido amarrados ao lombo, ao partir. O animal estava também ferido e coberto de lama. Estas circunstâncias suscitaram naturalmente. grande alarme entre os amigos do homem desaparecido, e quando se verificou, no domingo de manhã, que ele ainda não havia reaparecido, todo o burgo se ergueu para ir procurar seu corpo. O primeiro e mais enérgico em organizar essa busca era o amigo do peito o Sr. Shuttleworthy, um tal Sr. Carlos Goodfellow, ou como era por todos chamado, "Carlito Goodfellow", ou "Carlito Velho Goodfellow". Ora, se se trata apenas de maravilhosa coincidência, ou se e que o próprio nome tem imperceptível efeito sobre o caráter, não fui capaz de certificar-me; mas é fato questionável que nunca houve ninguém chamado Carlito que não fosse um sujeito franco, valente, honesto, afável e cordial, com uma rica e clara voz, agradável de ouvir-se, e um olhar que parece encarar sempre a gente diretamente como se dissesse: "Tenho uma consciência limpa, não tenho medo de homem nenhum e sou completamente incapaz de praticar uma ação indigna." E assim todos os alegres e descuidados artistas secundários do palco estão bem certos de ser chamados Carlos. Ora, o "Carlito Velho Goodfellow", embora estivesse em Rattleburgo, não havia mais de seis meses ou por aí assim, e embora soubesse qualquer coisa a seu respeito antes que viesse estabelecer-se na vizinhança, não tivera dificuldade alguma em travar conhecimento com todas as pessoas respeitáveis do burgo. Nenhuma delas havia que não acreditasse piamente numa sua simples palavra, a qualquer momento; quanto às mulheres, não se pode dizer o que elas não teriam feito para obsequiá-lo. E tudo isso lhe vinha do fato de ter sido batizado como Carlos e de possuir, em conseqüência, aquele rosto ingênuo, que é proverbialmente a "melhor carta de recomendação". Já disse que o Sr. Shuttleworthy era um dos mais respeitáveis e indubitavelmente, o homem mais rico de Rattleburgo e que "Carlito o Goodfellow" estava em tão íntimas relações com ele como se fosse seu próprio irmão. Os dois velhos cavalheiros eram vizinhos de casas contíguas e, embora o Sr. Shuttleworthy raramente, ou jamais visitasse 2 "Carlito Velho", nunca se soube que tivesse feito alguma refeição em sua casa; contudo, isso não impedia que os dois amigos fossem excessivamente íntimos, como justamente observei. Quanto a "Carlito Velho", nunca deixou passar um dia sem ir três ou quatro vezes ver como seu vizinho ia passando e as vezes ficava para almoçar ou para o chá, e quase sempre jantar. Coisa realmente bem difícil de averiguar seria a quantidade de vinho escorrupichada pelos dois camaradas numa reunião dessas. A bebida preferida de "Carlito Velho" era o Château Margaux e parecia confortar o coração do Sr. Shuttleworthy ver o amigo bebê-lo, como fazia, quartilho após quartilho. De modo que um dia, quando o vinho estava dentro e o juízo, como conseqüência natural, um tanto fora, disse ele a seu companheiro, dando-lhe pancadinhas nas costas: - Vou dizer-lhe o que é que você é, "Carlito Velho". Você é indubitavelmente o sujeito mais cordial que eu jamais encontrei desde de que nasci. E já que você gosta de beber vinho dessa maneira, muito me haveria de amaldiçoar se não lhe fizesse presente de uma grande caixa do Château Margaux. - Diabos me levem! – exclamou o Sr. Shuttleworthy, que tinha o triste hábito de praguejar, embora raramente passasse de: "Diabos me levem!", "Que eu me dane”, ou "Com os seiscentos diabos!". - Diabos me levem -ele - se não mandar uma ordem para a cidade esta tarde pedindo uma caixa dupla do melhor que se possa encontrar, fazer presente dela a você. E mando mesmo! Você não diz uma só palavra agora: eu mando, é o que lhe digo, e não se fala mais nisso. E não se preocupe. Chegará às nossas mãos um destes belos dias, precisamente quando menos o esperarmos. Menciono essa pequena amostra de liberalidade da parte do Sr. Shuttleworthy justamente para mostrar-vos quanta intimidade e compreensão existia entre os dois amigos. Pois bem, na manhã do domingo em questão, quando se tornou claramente patente que algo de mau havia acontecido ao Sr. Shuttleworthy, jamais vi alguém tão profundamente abalado como "Carlito Velho Goodfellow". Quando soube, a princípio, que o cavalo voltado para casa sem seu dono e sem os alforjes, todo ensangüentado por um tiro de pistola, que atravessara simplesmente o peito do pobre animal, sem matá-lo; quando ouviu tudo isso, ficou pálido como se o homem desaparecido tivesse sido seu irmão querido ou seu pai, e tremia e se agitava todo, como se tivesse com um ataque de maleita. A princípio sentia-se demasiado acabrunhado de tristeza para poder fazer qualquer coisa ou decidir qualquer plano de ação. Assim é que, durante muito tempo, tentou dissuadir os outros amigos do Sr. Shuttleworthy de provocar qualquer agitação em torno do assunto, achando melhor esperar-se, entrementes – digamos, uma semana ou duas, ou um mês, ou dois -, para ver se alguma coisa não se apresentaria ou se o Sr. Shuttleworthy não voltaria de maneira natural e explicaria as razões de ter enviado seu cavalo na frente. Suponho que tendes muitas vezes observado esta disposição para contemporizar, ou para adiar, nas pessoas que sofrem qualquer pungente sofrimento. As forças de sua parecem cair em torpor, de maneira que têm elas horror de qualquer coisa que se pareça com ação e nada acham melhor no mundo que ficar quietamente na cama e "ninar sua dor", que dizem as velhas, isto é, ruminar as contrariedades. O povo de Rattleburgo tinha, de fato, tão alta opinião da sabedoria e da discrição de "Carlito Velho" que a maior parte das pessoas se sentiu disposta a concordar com ele, e não agitar o caso, "até que alguma coisa se apresentasse", como tinha dito honesto cavalheiro. E eu acredito que, afinal, teria sido esta decisão geral, não fosse a interferência bem suspeitosa do sobrinho do Sr. Shuttleworthy, rapaz de costumes dissipados e, além disso, um tanto dotado de mau caráter. Esse sobrinho, cujo nome Pennifeather, não concordava absolutamente com aquela estória de ficar quieto", mas 3 insistiu numa imediata busca do "cadáver do homem assassinado". Era esta a expressão que ele empregava. O Sr. Goodfellow agudamente observou, no mesmo instante, que era singular, para não dizer mais . Essa observação de Carlito Velho, produziu também grande efeito sobre a multidão e alguém do grupo perguntou, muito intencionalmente, como era que o jovem Sr. Pennifeather se mostrava tão íntimo conhecedor de todas as circunstâncias relacionadas com o desaparecimento de seu rico tio, a ponto de sentir-se autorizado a afirmar, inequivocamente, que seu tio era "um homem assassinado". Nisso, ocorreram pequenas altercações e disputas entre várias pessoas do povo e especialmente entre "Carlito Velho" e o Sr. Pennyfeather, embora esta última ocorrência não fosse de fato absolutamente novidade, pois certa má-vontade se suscitara entre os dois os últimos três ou quatro meses, e as coisas tinham ido tão longe que o Sr. Pennifeather tinha realmente esmurrado o amigo do tio, por causa de um alegado excesso de liberdade que o último tomara, na casa do tio, da qual era o sobrinho morador. Nessa ocasião, conta-se que "Carlito Velho" comportou-se com exemplar moderação e caridade cristã. Levantou-se, depois de recebido o golpe , ajeitou as roupas e nenhuma tentativa fez de reação, murmurando apenas algumas palavras relativas a "tomar sumária vingança na primeira oportunidade conveniente" natural e bem justificável ebulição de cólera, que nada significava porém, e sem dúvida tão logo fora expressa, já estava esquecida. Seja como for (coisa que não diz respeito ao assunto agora em questão ), é completamente certo que o povo de Rattleburgo, principalmente em virtude da persuasão do Sr. Pennifeather, decidiu-se a dispersar-se pelas regiões adjacentes, em busca do desaparecido Sr. Shuttleworthy. Digo que chegaram esta decisão em primeiro lugar. Depois que fora completamente resolvido que se fizesse uma busca, considerou-se quase fora de questão que os pesquisadores se dispersariam, isto é, se distribuiriam em grupos, para mais cuidadoso exame de toda a região em redor. Não sei, porém, porque engenhoso raciocínio foi que "Carlito Velho", finalmente, convenceu a assembléia de que era aquele o plano mais desarrazoado do que se poderia realizar. Convenceu-os, contudo, a todos, exceto ao Sr. Pennifeather; e afinal ficou combinado que se faria uma busca cuidadosa e bem completa, por todos os habitantes em massa, dirigidos pelo próprio "Carlito Velho". Quanto a isto, não poderia haver melhor pioneiro do que "Carlito o Velho", que todos sabiam possuir olhos de lince; mas, embora ele os levasse a tudo quanto era recanto e buraco, fora da estrada e linhos que ninguém jamais suspeitara existissem na vizinhança embora a busca fosse mantida, sem cessar, dia e noite, durante quase uma semana, nenhum sinal do Sr. Shuttleworthy pôde ser descoberto. Quando digo "nenhum sinal", porém, não se deve entender que falo literalmente, porque sinais, até certo ponto, certamente havia. O pobre homem tinha chegado, como se verificou pelas ferraduras de seu cavalo (que eram características), a um lugar situado a três milhas a leste do burgo, na estrada principal que levava à cidade. Ali, o rastro desviou-se para uma vereda, através de um trecho de mata, entroncando-se a vereda, novamente para a estrada principal e atalhando assim cerca de meia milha da distância regular. Acompanhando as marcas de ferradura por aquele atalho, o grupo chegou afinal a um brejo de água estagnada, oculto pelas sarças, à direita do atalho. Do outro lado do brejo todo o vestígio do rastro desaparecera. Parecia, porém, que luta de certa natureza ali se realizara e que algum corpo, grande e 4 pesado, muito maior e mais pesado que o de um homem, tinha sido arrastado da vereda para o brejo. Este foi cuidadosamente dragado duas vezes, mas nada se encontrou. E a ponto de retirar-se, sem ter conseguido chegar a resultado algum quando a Providência sugeriu ao Sr. Goodfellow o expediente de drenar toda a água. Esse projeto foi recebido com aplausos e elevados cumprimentos se dirigiram a Carlito Velho, por sua sagacidade e ponderação. Como muitos dos habitantes tinham pás consigo, na suposição de que teriam de desenterrar um cadáver o drenamento foi fácil e rapidamente efetuado; e tão logo o fundo do brejo se tornou visível, surgiu em meio da lama restante o colete de veludo preto, que quase todos os presentes, imediatamente reconheceram como pertencente ao Sr.Pennifeather. Esse estava bastante dilacerado e manchado de sangue e muitas das pessoas que ali se achavam lembravam-se, distintamente, de que o dono o usara justamente na manhã da partida do Sr. Shuttleworthy para a cidade, ao mesmo tempo que outras estavam prontas a testemunhar, sob juramento, se preciso, que o Sr. Pennifeather não usara a peça de roupa em questão, durante o restante daquele mesmo dia; como também ninguém se podia achar que dissesse ter aquele colete na pessoa do Sr. Pennifeather em tempo algum seguida ao desaparecimento do Sr. Shuttleworthy. As coisas agora estavam tomando aspecto muito sério para o Sr. Pennifeather e foi observado, como indubitável confirmação das suspeitas levantadas contra ele, que se tornou excessivamente pálido e, quando perguntado o que tinha a dizer em seu favor, foi absolutamente incapaz de dizer uma palavra. Nisto os poucos amigos que o seu modo dissoluto de vida lhe deixara abandonaram imediatamente como um só homem e se mostraram mesmo indignados do que seus antigos e confessados inimigos, exigindo , imediata detenção. Mas, por outro lado, a magnanimidade do Goodfellow esplendeu, com o mais brilhante lustre, pelo contraste. Fez, calorosa e intensamente, eloqüente defesa do Sr. Pennifeather na qual aludiu mais de uma vez ao seu próprio e sincero perdão àquele grosseiro rapaz, "o herdeiro do digno Sr. Shuttleworthy pelo insulto que ele (o rapaz) tinha, sem dúvida no ardor da paixão achado próprio descarregar na pessoa dele (Sr. Goodfellow). Perdoava-o - dizia ele - do âmago do seu coração e quanto a mesmo (Sr. Goodfellow), longe de levar ao extremo as circunstancias suspeitas, que, sentia muito dizê-lo, se haviam realmente levantado contra o Sr. Pennifeather, ele (Sr. Goodfellow) faria o estivesse em seu poder, empregaria toda a pouca eloqüência de que era possuidor, para a suavizar, tanto quanto lhe fosse possível fazer em consciência, os piores aspectos daquela parte excessivamente espantosa do caso. O Sr. Goodfellow prosseguiu, durante uma comprida meia hora, desse jeito para muito crédito de sua cabeça e de seu coração; mas toda essa gente muito bondosa raramente se mostra bem ajuizada em suas observações; mete-se em toda espécie de disparates, contra tempos e despropósitos, na efervescência de seu zelo em servir a um amigo de modo que, muitas vezes, com a mais bondosa das intenções, causa infinitamente mais prejuízo à sua causa do que serve. Assim no caso presente, aconteceu com toda a eloqüência de Velho, pois, embora procurasse ativamente atenuar as suspeitas contudo aconteceu que, duma forma ou de outra, cada sílaba pronunciava, e cuja tendência direta, mas inconsciente, não fosse a de exaltar o orador no bom conceito de seu auditório, produziu o efeito de intensificar a suspeita já ligada ao indivíduo cuja causa ele advogava e de suscitar contra este a fúria da multidão. Um dos mais inacreditáveis erros, cometidos pelo orador, foi sua alusão ao suspeito como sendo "o herdeiro do digno cavalheiro Shuttleworthy". O povo, realmente, 5 nunca tinha pensado nisso. Lembrava-se de certas ameaças de deserdação proferidas uma ou duas vezes antes pelo tio (que não tinha parente vivo, exceto o sobrinho), e tinha por isso encarado sempre essa deserdação como questão assentada, tão simplórios eram os rattleburgueses. Mas a observação de "Carlíto Velho" levou-os imediatamente a considerar o ponto, fazendo-os ver que a possibilidade das ameaças nada mais tinha sido que uma ameaça. E logo diretamente ergueu-se a questão do cui bono?, questão que, muito mais do que o concorreu para ligar o rapaz ao terrível crime. E aqui, no de poder vir a ser malentendido, permití-me uma rápida digressão para simplesmente observar que a frase latina, excessivamente breve e simples, por mim empregada, é invariavelmente mal traduzida e mal entendida. Cui' bono?, em todas as novelas famosas e em qualquer outra parte - nas da Sra. Gore, por exemplo (a de Cecílio), mulher que cita todas as línguas, do caldaico ao chickasaw, e foi ajudada no seu aprendizado, "quando necessário por um sistemático plano do Sr. Bedford -, em todas as novelas famosas, dizia eu, das de Bulwer e Dickens às de Turnapenny Ainsworth, as duas pequenas palavras latinas cui bono? aduzidas como "com que propósito?" ou (como se fosse quo bono "com que utilidade?" Sua verdadeira significação, no entanto é "para beneficiar a quem?". Cui, a quem; bono, o benefício. É uma frase puramente legal e aplicável precisamente a casos como o que temos agora a considerar, onde a probabilidade de autor da façanha gira sobre a probabilidade do benefício em acréscimo para esse indivíduo, ou para o que resulta do cumprimento da façanha. Ora, no presente caso, a questão cui bono? Mui diretamente implicava o Sr. Pennifeather. Seu tio o havia ameaçado de deserdá-lo, depois de haver feito um testamento em seu favor. Mas a ameaça não fora realmente mantida; o testamento não fora alterado, supunha-se. Se tivesse sido alterado, o único motivo provável para o crime, por parte do suspeito, teria sido o vulgar da vingança; e mesmo este teria sido contrabalançado com a esperança de ser reintegrado nas boas graças do tio. Mas, se o testamento não estivesse alterado, enquanto a ameaça de alteração permanecesse suspensa sobre a cabeça do sobrinho, era de supor-se imediatamente, o incitamento mais forte possível para cidade; e assim concluíam bem sagazmente os dignos burgos de Rattle. O Sr. Pennifeather foi, conseqüentemente, detido na mesma hora e a multidão, depois de mais algumas buscas, voltou para casa levando-o preso. Em caminho, porém, outra circunstância ocorreu tendente a confirmar a suspeita existente. O Sr. Goodfellow, cujo o zelo o levava a ficar sempre um pouco à frente do grupo, foi correr subitamente para a frente e curvar-se, depois de poucos passos, aparentando apanhar um pequeno objeto dentre a relva. Tendo-o examinado rapidamente, observaram também que ele fazia uma espécie de semi tentativa de ocultá-lo no bolso de seu paletó; esse gesto foi percebido, como eu disse, e conseqüentemente apanhado, quando se verificou que o objeto apanhado era uma faca espanhola, que uma dúzia de pessoas imediatamente reconheceu pertencente ao Sr. Pennifeather. Além disso, suas iniciais estavam gravadas no cabo. A lâmina daquela faca estava aberta e ensangüentada. Nenhuma dúvida restava agora a respeito da culpabilidade do sobrinho e, logo depois que chegaram a Rattleburgo, foi ele conduzido à presença de um magistrado para ser interrogado. Ali as coisas tomaram, de novo, um aspecto ainda mais desfavorável. Interrogado a respeito de seus passos na manhã do desaparecimento do Sr. Shuttleworthy, teve o prisioneiro a absoluta audácia de confessar que justamente naquela manhã estivera com seu rifle de caçar veados, na imediata vizinhança de onde o colete manchado de sangue fora descoberto, graças à sagacidade do Sr. Goodfellow. Este último adiantou-se então e, com lágrimas nos olhos, pediu permissão para ser interrogado. Disse ele que um agudo senso dever para com seu Criador, e não menos para com seus companheiros, não lhe 6 permitia que permanecesse por mais tempo silêncio. Até então, o mais sincero afeto pelo rapaz (não obstante o mau tratamento que o último infligira a ele, Goodfellow) o induzido a levantar todas as hipóteses que a imaginação pudesse sugerir, a fim de tentar explicar o que parecia suspeito nas circunstâncias que falavam tão seriamente contra o Sr. Pennifeather. Mas estas circunstâncias eram agora tão totalmente convincentes, tão condenatórias, que não hesitaria por mais tempo.. . Contaria tudo. quanto sabia , embora seu coração (o do Sr. Goodfellow), com esse esforço se fizesse em pedaços. Passou então, a relatar que, na tarde do dia anterior ao da partida do Sr. Shuttleworthy para a cidade, aquele digno cavalheiro tinha referido a seu sobrinho, em sua presença (dele, Goodfellow), que o fim de sua ida à cidade no outro dia era fazer um depósito de uma soma de dinheiro, insolitamente elevada, no Banco da Lavoura e Comércio e que, nessa mesma ocasião, o dito Sr. Shuttleworthy tinha distintamente confessado ao dito sobrinho sua irrevogável decisão de rescindir o testamento originariamente feito e de deixá-lo sem um vintém. Ele (testemunha) apelava agora solenemente para o acusado, a fim de afirmar se o que ele (testemunha) acabava de relatar era ou não a verdade, em todos os seus pormenores substanciais. Para grande espanto de todos os presentes, o Sr. Pennifeather admitiu francamente que era a pura verdade. O magistrado então achou de seu dever mandar dois policiais dar busca no quarto do acusado, na casa de seu tio. Voltaram imediatamente, com a bem conhecida carteira de couro vermelha com cantos de aço, que o velho costumava usar durante anos. Os valores que continha, porém, tinham sido retirados. E o magistrado em vão tentou obrigar o prisioneiro a confessar o uso que deles, ou o lugar em que os ocultara. De fato, negou ele obstinadamente que soubesse qualquer coisa a respeito daquilo. Os policiais também descobriram entre a cama e o saco de roupas do infortunado homem uma camisa e um lenço de pescoço, ambos marcados com as iniciais de seu nome e ambos horrendamente manchados com o sangue da vítima. Nesta conjuntura, foi anunciado que o cavalo do homem assassinado acabava justamente de expirar, na estrebaria, em conseqüência do tiro que recebera. E foi proposto, pelo Sr. Goodfellow, que se fizesse imediatamente a necropsia do animal com objetivo, se possível de encontrar a bala. Foi tudo efetivamente realizado; e como a demonstrar, fora de qualquer dúvida, a culpa do acusado, o Sr. Goodfellow, depois de considerável pesquisa na cavidade torácica conseguiu localizar e retirar uma bala, de bem extraordinário tamanho, que, examinada, achou-se que se adaptava exatamente ao calibre do rifle do Sr. Pennifeather, ao passo que era bastante grande para o da arma de qualquer outra pessoa do burgo ou na vizinhança. Para tornar o caso ainda mais seguro, porém, descobriu-se que aquela bala tinha uma fenda ou sutura nos ângulos direitos, em vez da sutura habitual, e, examinada, essa sutura correspondeu precisamente a uma crista acidental ou elevação, num par de moldes que o acusado reconheceu como de sua propriedade. Com a descoberta dessa bala, o magistrado sumariamente recusou-se a ouvir qualquer outro testemunho e imediatamente ordenou o julgamento do prisioneiro, negando-se de modo resoluto a aceitar qualquer fiança para o caso, embora contra semelhante severidade Goodfellow, mui calorosamente, protestasse e se oferecesse como fiador de qualquer quantia em que fosse ela arbitrada, generosidade da parte de "Carlito Velho" estava simplesmente de acordo com todo o teor de sua amigável e cavalheiresca conduta durante todo o período de sua residência no burgo de Rattle. No presente caso, o digno homem se deixou de tal modo arrebatar excessivo ardor de sua simpatia que pareceu ter-se esquecido completamente, quando se ofereceu para fiador de seu jovem amigo de que ele próprio, Goodfellow, não possuía um simples dólar de propriedade na face da terra. 7 O resultado do inquérito pode ser prontamente previsto. O Sr. Pennifeather, entre as elevadas execrações de todo Rattleburgo levado a julgamento na próxima sessão do júri, quando a cadeia de provas circunstanciais (reforçada como foi por alguns adicionais fatos condenatórios, que a sensível retidão de consciência do Sr. Goodfellow proibia que subtraísse ao conhecimento do tribunal) foi considerada tão indestrutível e tão totalmente conclusivo que o júri, sem mesmo levantar-se das cadeiras, pronunciou imediato veredicto de Réu de assassínio em primeiro grau. Logo depois o infeliz coitado recebeu sentença de morte e foi recambiado para a cadeia regional, a fim de lá aguardar a inexorável vingança da lei. Entrementes, a nobre conduta de "Carlito Velho Goodfellow" tinha-o feito ser duplamente estimado pelos cidadãos honestos do burgo. Tornou-se dez vezes mais preferido que dantes; e, como natural resultado da hospitalidade com que era tratado, relaxou como era de esperar, por força, os hábitos extremamente parcimoniosos que sua pobreza até então o haviam forçado a observar, e mui freqüentemente proporcionava pequenas reuniões, em sua própria casa, ocasião em que a espirituosidade e a jovialidade imperavam supremamente, ensombradas um tanto, sem dúvida, pela fortuita recordação do destino fatal e melancólico que impendia a presença do sobrinho do falecido e pranteado amigo íntimo do generoso anfitrião. Um belo dia, aquele magnânimo cavalheiro ficou agradavelmente surpreendido, ao receber a seguinte carta. Senhor Carlos Goodfellow, Esq., Rattleburgo. Caro Senhor: Em conformidade com uma ordem transmitida à nossa firrna, há mais de dois meses, pelo nosso estimado correspondente Sr. Barnabé Shuttleworthy, temos a honra de despachar esta manhã, para seu endereço, uma caixa dupla de Château Margaux, marca antílope, selo roxo. A caixa numerada é marcada como se indica à margem. Somos de V. Senhoria os mais obedientes servos,. Hoggs, Frogs, Bogs & Co. Cidade de..., 21 de junho de 18... P.S. - A caixa chegará ai', pelo trem de ferro, um dia após o recebimento desta carta. Nossos respeitos ao Sr. Shutdeworthy. H., F., B. & Co. Chat. Mar. A. N.0 1, 6 doc. bot. (½ grossa). O fato é que, desde a morte do Sr. Shuttleworthy, perdera o Sr. Goodfellow a esperança de jamais receber o prometido Château Margaux; por isso, encarou aquilo agora como uma espécie de dom da Providência em seu favor. Ficou altamente deleitado e sem dúvida, e, na exuberância de sua alegria, convidou numerosos amigos para um petit souper no dia seguinte, com o fim de abrir o presente do bom velho Shuttleworthy. Não que dissesse coisa a respeito do "bom velho Shuttleworthy", quando fez os convites. O fato é que ele pensou muito e concluiu em nada dizer absolutamente. Não fez menção a ninguém - se bem me recordo - de haver recebido um presente de Château Margaux. Convidou simplesmente os amigos a ir ajudá-lo a beber um pouco de vinho de excelente e notável qualidade e rico sabor que mandara buscar uns dois meses atrás, e que iria chegar no dia seguinte. Tenho muitas vezes indagado, de mim mesmo, por que foi que chegou à conclusão de nada dizer a respeito do recebimento daquele vinho do seu velho amigo, mas nunca pude 8 precisamente compreender a razão de seu silêncio, embora tivesse uma razão excelente e bem magnânima, sem dúvida. Chegou afinal o dia seguinte, e com ele apareceu em casa do Sr. Goodfellow uma numerosa e altamente respeitável companhia. De fato, metade do burgo ali se achava - eu mesmo me encontrava no número dos presentes - mas, para grande vexame do anfitrião o Château Margaux não havia chegado até o último instante e quando já tinham feito todos os convidados ampla justiça à suntuosa ceia proporcionada por "Carlito Velho". Chegou afinal, uma caixa monstruosamente grande, e, como toda a companhia estivesse de excessivo bom-humor, decidiu-se, nemine contradicente, que seria colocada sobre a mesa e seu conteúdo retirado imediatamente. Dito e feito. Dei uma ajuda também e num instante tínhamos sobre a mesa, no meio de todas as garrafas e copos, não poucos dos quais se quebraram na confusão. "Carlito Velho", que lindamente embriagado e de rosto excessivamente vermelho, tomou então uma cadeira, com um ar de fingida dignidade, à cabeceira da mesa e bateu com furor sobre ela com uma garrafa, convidando a companhia a manter a ordem "durante a cerimônia do desenterro do tesouro". Depois de algumas vociferações, o silêncio foi afinal restaurado, e como acontece muitas vezes em casos semelhantes, seguiu-se profundo e admirável silêncio. Sendo então solicitado a abrir a tampa cumpri a tarefa, sem dúvida, "com infinito prazer". Inseri um formão e dando- lhe umas leves marteladas, a tampa da caixa subitamente fora, e, no mesmo instante, saltou, em posição de quem está sentado, encarando diretamente o anfitrião, o corpo ensangüentado e quase podre do assassinado Sr. Shuttlewothy. Contemplou em cheio, durante poucos segundos, fixa e tristemente, com seus olhos mortos e baços, o rosto do Sr. Goodfellow; mas clara e marcadamente, pronunciou as palavras: "Tú és o homem!", e depois, caindo sobre um lado do peito, como se totalmente satisfeito, esticou os membros, tremendo, sobre a mesa. A cena que se seguiu está além de qualquer descrição. A carreira para as portas e janelas foi terrível, e muitos dos homens robustos que se achavam na sala perderam por completo os sentidos, tomados de pânico horror. Mas depois da primeira e selvagem explosão de tumultuoso terror, todos os olhos se fixaram Sr. Goodfellow. Se mil anos viver, jamais poderei esquecer a agonia mais do que mortal que se estampava naquele seu rosto lívido, até então rubicundo de triunfo e de vinho. Durante muitos minutos, conservou-se ele sentado, rígido, como uma estátua de mármore. Seus olhos pareciam, na intensa vacuidade do olhar, ter-se voltado para dentro, absorvendo-se na contemplação de sua própria alma, miserável e assassina. Afinal sua expressão pareceu reacender-se, subitamente, para o mundo exterior quando, num salto ligeiro, pulou da cadeira e, caindo, pesadamente, com a cabeça e os ombros sobre a mesa, em contacto com o cadáver, esboçou, rapidamente e veementemente, uma pormenorizada confissão do horrível crime pelo qual estava preso o Sr. Pennifeather, e condenado à morte. O que ele contou foi, em substância, o seguinte: acompanhou sua vítima até a vizinhança do brejo; ali atirou no seu cavalo, uma pistola; matou o cavaleiro com a coronha da arma; apossou-se de sua carteira e, supondo morto o cavalo, arrastou-o com esforço até as sarças junto do brejo. Em seu próprio animal, colocou o cadáver do Sr. Shuttleworthy e assim o levou até um esconderijo seguro e bem distante, através das matas. O colete, a faca, a carteira e a bala foram colocados por ele próprio nos lugares em que foram encontrados, com o fito vingar-se de do Sr. Pennifeather. Tinha também tramado a descoberta do lenço e da camisa manchados. 9 *** *** https://iedamagri.files.wordpress.com/2014/07/edgar-allan-poe-obra-completa.pdf *** ***
*** "The Conqueror Worm" (em português O Verme Vencedor) é um poema de Edgar Allan Poe sobre o inevitável que é a morte do homem. Foi publicado em 1843, e novamente, após revisão, em 1845. *** "The Conqueror Worm" is a poem by Edgar Allan Poe about human mortality and the inevitability of death. "The Conqueror Worm" (em português O Verme Vencedor) é um poema de Edgar Allan Poe sobre o inevitável que é a morte do homem. *** The Conqueror Worm BY EDGAR ALLAN POE Lo! ’t is a gala night Within the lonesome latter years! An angel throng, bewinged, bedight In veils, and drowned in tears, Sit in a theatre, to see A play of hopes and fears, While the orchestra breathes fitfully The music of the spheres. Mimes, in the form of God on high, Mutter and mumble low, And hither and thither fly— Mere puppets they, who come and go At bidding of vast formless things That shift the scenery to and fro, Flapping from out their Condor wings Invisible Wo! That motley drama—oh, be sure It shall not be forgot! With its Phantom chased for evermore By a crowd that seize it not, Through a circle that ever returneth in To the self-same spot, And much of Madness, and more of Sin, And Horror the soul of the plot. But see, amid the mimic rout, A crawling shape intrude! A blood-red thing that writhes from out The scenic solitude! It writhes!—it writhes!—with mortal pangs The mimes become its food, And seraphs sob at vermin fangs In human gore imbued. Out—out are the lights—out all! And, over each quivering form, The curtain, a funeral pall, Comes down with the rush of a storm, While the angels, all pallid and wan, Uprising, unveiling, affirm That the play is the tragedy, “Man,” And its hero, the Conqueror Worm. Source: The Complete Poems and Stories of Edgar Allan Poe (1946) *** *** https://www.poetryfoundation.org/poems/48633/the-conqueror-worm *** *** O Verme Vencedor - Edgar Allan Poe R. de OliveiraMarço 18, 2018 O Verme Vencedor é um poema de Edgar Allan Poe publicado pela primeira vez na Graham's Maganize e depois foi incorporado, por vontade do próprio Poe, no conto "Ligeia", em 1845, no Broadway Journal. ***
*** "Ligeia" (1845), por Harry Clarke Na história desse conto, o narrador recita o poema para a sua esposa, Ligeia, quando ela está definhando em seu leito de morte. Inclusive, Poe explica no conto que a própria Ligeia teria escrito o poema antes de adoecer e que foi desejo dela ouvi-lo novamente, antes de partir. De qualquer forma, "The Conqueror Worm" (ou "O Verme Vencedor" ou por vezes "O Verme Conquistador") trata basicamente sobre a inevitabilidade da morte, da finitude do homem. (O que me faz pensar: que tipo de pessoa, definhando em uma cama, quer ouvir um poema com essa temática?) Obviamente, vale mais a pena ler no original, principalmente por causa das rimas e da musicalidade. Mas, se você não quer se aventurar no inglês "arcaico" e mais lírico(?), aí está duas traduções do poema: 1ª Tradução "O Verme Vencedor" "Vede! é noite de gala Nesses anos últimos e solitários! Uma multidão de anjos, alados, trajados Em véus, e afogados em lágrimas Sentam-se em um teatro, para assistir A uma peça de esperanças e medos, Enquanto a orquestra sussurra vacilante A música das esferas. Mímicos, à feição do Deus altíssimo, Murmuram e falam baixo, E voam daqui para lá - Meras marionetes que vêm e vão Ao comando de vastas criaturas informes Que mudam o cenário de lá para cá, Espalhando com o bater de suas asas de Condor Invisível Desgraça! Esse drama variegado! oh, estai certo Não poderá ser esquecido! Com seu Espectro sempre perseguido, Por uma multidão que nunca o alcança, Em um círculo que sempre regressa Ao lugar onde começou, E grande dose de Loucura e mais ainda de Pecado E de Horror é a alma da intriga. Mas, olhai, em meio à turba de mímicos, Uma forma rastejante se insinua! Uma criatura vermelho-sangue que se contorcendo Surge em sua cênica solitude! Ela se contorce! - Ela se contorce! - com mortais espasmos Os mímicos tornam-se seu alimento, E os serafins soluçam ante as presas do bicho Tingidas de sangue humano. Apagam-se - apagam-se as luzes - apagam-se todas! E sobre cada forma que ali estremece A cortina, mortalha fúnebre, Desce com o ímpeto de uma tempestade, E os anjos, todos eles pálidos e sem forças, Erguendo-se, desvelando-se, afirmam Que a peça é a tragédia 'Homem' E seu herói, o Verme Vencedor." 2ª Tradução O Verme Vencedor Edgar Allan Poe A noite é uma noite de gala, elegante, Quando, nos últimos anos da humana vida Uma legião de anjos, naquele instante, Banhada em lágrimas e ricamente vestida, Vem a um teatro para testemunhar, Um roteiro de esperanças e de esperas, Enquanto a orquestra fica a suspirar, A música profunda das celestiais esferas. Mímicos passando-se por deuses, ao alto da estrutura, Das galerias inferiores, resmungos e murmúrios, De bonecos que vão e vem, sentindo auguras, Indo e vindo, e voltando, sob os espúrios, Comandos de coisas vastas e informes, Que o cenário trocam, mudam de local. E, batendo asas de condor, enormes, Uma invisível aflição espalha o seu mal. Esse drama tão heterogêneo, isto é certo, Estará sempre na lembrança, Com seu fantasma, perseguido de perto, Por uma multidão que não o alcança Em um círculo que sempre fechado, Que torna ao mesmo inicial ponto, E muito de loucura, e mais de pecado, È de horror o enredo deste conto. Então, por entre a turba, entre a gentalha, Penetrou uma estranha criatura, Uma coisa vermelho-sangue que se contorce, se espalha, Na solitária cena, cena impura! Contorce-se, contorce-se, em agonia mortal, E os mímicos são por ele devorados, E serafins choram, soluçam vendo o imundo animal, Que jaz embebido no sangue humano coagulado. Apagadas estão as luzes, todas elas apagadas, E a cada tremor, cada agitação, A cortina, uma funérea fazenda amortalhada, Vem abaixo com a violência de um furacão, Enquanto os anjos, pálidos e lívidos – coisa insana! Elevando-se e tirando seus véus, afirmam, com terror, Que a peça é a tragédia humana, E o seu herói, o verme vencedor. --------------------------------------------------------------------------------- Há no meio desse caminho, contudo, como diria Carlos Drummond, uma pedra, aliás, muito pior que isso, há um verme, do tipo vencedor, que faz calar cantos de sereias, o lamento da poesia, a ardência da paixão, a vontade representada pela vida. Como vencer o verme que habita dentro do próprio homem, à espreita de que a morte vença a vida? Alienando-se, antes da batalha, nas drogas que libertam a mente, mesmo pelo aprisionamento do corpo, dentre elas o ópio, cujo uso era legal na época em que o conto Ligéia foi escrito? O poema faz uma encenação dramática do domínio do corpo humano pelos vermes. Ambos se valem de rimas e ritmo para acentuar a dramaticidade de seu tema. O poema de Poe cria uma atmosfera a partir de um teatro imaginário. Há um chamamento ao leitor: Lo! This is the gala night – algo muito importante será encenado, e merece a máxima atenção. Os espectadores são seres celestiais, vestidos de forma etérea, mas já com os olhos marejados – sinal que sua compaixão já foi despertada, por saberem de antemão o desfecho do drama. Na verdade, o leitor será um espectador privilegiado, pois assistirá à encenação, mas não é de fato parte da plateia, é como se estivesse nos bastidores. Com isso, cria-se um afastamento que somente fará acentuar na mente do leitor o impacto final do drama-poema. Os atores apresentam essa enorme contradição: embora feitos à semelhança divina, não têm controle sobre seus próprios atos, já que se comportam como títeres. Estão à mercê de seres informes, que com imensas asas (condor wings) espalham males invisíveis sobre eles. A terceira estrofe informa o movimento de eterno retorno de um ciclo que envolve Loucura, Pecado e Terror – é a vida humana vista sob a ótica da visão gótica do mundo. As duas últimas estrofes encenam o drama final: uma nova personagem assoma ao palco, disforme, sangrenta, horrível e implacável, derrubando os atores um a um: não são os atores vampirizados nem os anjos pálidos os heróis do drama que se chama “Homem” – é o verme que vence. Percebemos que, de forma poética, o poema encena o drama da morte como uma fase do ciclo da vida em que há uma transformação dinâmica, ainda que macabra, mas que é geradora de uma forma diferente de existência. O desaparecimento do homem é a vitória do verme, da mesma forma que, fazer poesia em torno do macabro revela múltiplas possibilidades do pensar poético. Fontes: Original Edgar Allan Poe - Contos de Imaginação e Mistério (2012). Tordesilhas. Tradução: Cássio de Arantes Leite. O Bigode do Poe Varal de Poemas O Divã de Virginia - Sobre o conto Ligéia Forum Now 3ª Tradução do poema. About Deize Mara Tags: LivrosResenhasUniverso Hellboy *** *** http://comitivahiperborea.blogspot.com/2018/03/analise-de-o-verme-vencedor-de.html *** ***
*** *** *** https://musicosmos.com.br/disco-perdido-de-marvin-gaye-e-lembrete-de-sua-genialidade/ *** *** Marvin Gaye — You’re The Man Pedro Pinhel Pedro Pinhel Follow Mar 29, 2019 · 2 min read Erroneamente tratado como um “álbum perdido” pela gloriosa mídia especializada, o vigoroso “You’re The Man”, que acaba de ser oficialmente disponibilizado, é na verdade um disco que Marvin Gaye nunca fez questão de lançar. Quarenta e sete anos após sua criação, as razões da infame engavetada são diversas: insegurança (que disco poderia suceder o fundamental “What’s Going On”, de 1971?); dúvidas em relação ao teor do discurso social contido no projeto (questão agravada pelo baixo ibope do single You’re The Man, Pts I & II, únicas músicas do projeto oficialmente lançadas à época, que foram mal nas paradas e deixaram Marvin com a pulga atrás da orelha — além disso, apenas “Curtis”, hino de estreia solo do mestre Curtis Mayfield, e o próprio “What’s Going On”, além de um ainda anônimo Gil Scott-Heron, ousavam tocar em determinados assuntos no início da década de 70); direitos autorais (ao contrário da maioria de seus LPs, em que Marvin sempre deteve 100% dos direitos das faixas, esse não era o caso de “You’re The Man”, e isso representava um grave problema para o artista e para sua gravadora, a Motown); e, finalmente, a trilha sonora de “Trouble Man” (que, à época, parecia um trabalho mais sedutor para o soulman, em função da badalação das trilhas de blaxploitation, que viviam seu auge). Além disso, o embrião do celebrado “Let’s Get It On”, que seria lançado no próximo ano, já sinalizava o caminho a ser trilhado do ponto de vista comercial. A música soul seria eternizada pela sequência composta por “What’s Going On” e “Let’s Get It On”, e a grandiosidade do fato em si fez com que executivos de várias gerações da Motown sequer lembrassem do ouro escondido lá no fundo do baú. O fato é que, apesar de longo (formato que nos faz pensar que ele jamais teria sido lançado assim, de forma bruta, lá em 1971–72), “You’re The Man” é Marvin em seu auge, com o gogó d’ouro característico, acompanhado de arranjos impecáveis, dignos da verdadeira orquestra de músicos de estúdio que o cercavam durante as sessões em questão. O resto é história. *** *** Lançado em compacto, o single de You’re The Man, Pts. I & II, que vossa excelência pode conferir aí em cima, é talvez a melhor amostra deste apanhado de sessões de gravação dignas do legado do artista. E por falar em legado, antes tarde do que nunca: ao ser tratado como um álbum inédito, com direção de arte e material originais, lançado com a pompa e a circunstância necessárias, “You’re The Man” passa a ser um adequado tributo, ainda que bastante tardio, a um verdadeiro bastião do gênero. Obrigado, Marvin! *** *** https://originalpinheirosstyle.com.br/marvin-gaye-youre-the-man-5d5f04681eb0 *** ***
*** You're the Man (tradução) Marvin Gaye Letra: *** Você é o homem Talkin ', falando com as pessoas Tryin 'para levá-los a percorrer o seu caminho Contando mentiras, não se preocupe Que não será desencaminhado Então cego, unsignified Seus adversários sempre mentindo Pense sobre os erros que você faz Eu acredito que a América está em jogo Sabe, Busin ', Busin' é a questão Se você tem um plano de aposta Se você tem um plano Se você tem um plano mestre Tem que votar em si Hey hey, tem que votar em si Você é o homem Não quero ouvir mais mentiras Sobre como você planejou um compromisso Queremos que o nosso valor do dólar aumentou Emprego a subir tributação da nação É causo 'de tudo, tudo isso a inflação não nos dão nenhum sinal de V Vire-se e roubar as pessoas cegas Economia é a questão Você tem um plano de aposta? Porque se você tem um plano mestre Tem que votar em si Você é o homem (8 vezes, mais de scat singing) Você não entende? Há miséria no país (uma versão desaparece durante este; leia mais para uma versão mais longa) As pessoas marchando em Washington melhor ouvir o que eles têm a dizer Porque as tabelas só pode se voltar contra você, irmão Definir em torno do dia da eleição Política e hipócritas é transformar todos nós em lunáticos Você pode pegar as armas dos nossos filhos? direito todos os erros desta administração tem feito? Paz e liberdade é o problema Você tem um plano de aposta? Se você já tem um plano Se você tem um plano mestre Tem que votar em si Hey hey, tem que votar em si 'Porque você é o homem (repetição e desvanece) Tem que votar em si You're the Man Talkin', talkin' to the people Tryin' to get them to go your way Tellin' lies, not to worry That we won't be led astray So blind, unsignified Your opponents always lying Think about the mistakes you make I believe America's at stake You know, busin', busin' is the issue If you have a plan wager If you have a plan If you've got a master plan Got to vote for you Hey hey, got to vote for you You're the man We don't wanna hear no more lies About how you planned a compromise We want our dollar value increased Employment to rise The nation's taxation Is causin' all, all this inflation Don't give us no V sign Turn around and rob the people blind Economics is the issue Do you have a plan wager? 'Cause if you've got a master plan Got to vote for you You're the man (8 times, over scat singing): Don't you understand? There's misery in the land (One version fades out during this; read further for a longer version) People marching on Washington Better hear what they have to say 'Cause the tables just might turn against you, brother Set around Election Day Politics and hypocrites Is turning us all into lunatics Can you take the guns from our sons? Right all the wrongs this administration has done? Peace and freedom is the issue Do you have a plan wager? If you've got a plan If you've got a master plan Got to vote for you Hey hey, got to vote for you 'Cause you're the man (repeat and fade): Got to vote for you *** *** https://www.vagalume.com.br/marvin-gaye/youre-the-man-traducao.html *** ***

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