quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

30. O SINALEIRO








- Olá! Você aí embaixo!




Halloa! Below there!. 




The Signalman (Charles Dickens)










“Um General na Biblioteca. Foi assim que Ítalo Calvino nomeou seu conto acerca da aventura de Fedina, militar de alta patente escalado para uma árdua missão em meio a um enorme acervo de objetos considerados perigosos: os livros.” A INVENÇÃO DA IMAGEM AUTORAL DE CHICO XAVIER: ANDRÉ VICTOR CAVALCANTI SEAL DA CUNHA








CHARLES DICKENS (1812-1870 | Inglaterra)


"Cada época sepulta uns tantos autores. E a nossa enterrou Dickens." Foi o que escreveu Nelson Rodrigues numa crônica de 1968, lamentando o esquecimento do romancista de Oliver Twist, David Copperfield, o escritor inglês mais lido no mundo, com a exceção talvez de Sir Walter Scott - aliás, outro esquecido. O Sinaleiro pertence a uma zona nebulosa, ou intermediária, entre o conto de terror, ou sobrenatural, e o conto policial, que mal se iniciava na sua época. Aliás, é possível que Dickens tenha começado a se interessar pelo romance policial pela influência de seu amigo Wilkie Collins (vide conto seu nesta antologia). Tanto que, ao morrer, deixou sua primeira tentativa no gênero inacabada, O Mistério de Edwin Drood. (E a própria vida, talvez confirmando o autor, se encarregou de dar um ar sobrenatural ao futuro deste romance, que teve várias tentativas de finalização via psicografia (!): inclusive por parte de um operário inculto e espírita que teria recebido o "espírito "do próprio Dickens.)



PARTE I
- Olá! Você aí embaixo!
Quando ouviu a voz que o chamava, estava de pé junto à porta da guarita com sua bandeirola enrolada na mão. Parecia impossível, dada a natureza do terreno, que houvesse alguma dúvida quanto à origem da voz que o chamava, mas ao invés de olhar para cima, onde eu estava no alto do corte íngreme do barranco quase sobre sua cabeça, o homem olhou estrada abaixo pelos trilhos. Havia naquilo algo de inusitado que me chamou a atenção, embora não conseguisse, mesmo querendo, determinar o que era. Mas sei que alguma coisa havia, pois me chamou a atenção, apesar de sua figura pouco visível e sombreada, lá embaixo no fundo do escavado, e da minha posição sobre ele, tão a pique no brilho forte do sol poente, que fui obrigado a fazer uma sombra sobre os olhos com a mão para conseguir vê-lo.
- Olá! Você aí embaixo!
Afinal, deixou de olhar para os trilhos, virou-se e, levantando os olhos, viu minha figura no alto sobre ele.
- Existe um caminho que eu possa descer para falar com você?
Olhou-me sem responder, e eu o olhei de volta, sem pressioná-lo com uma imediata repetição da pergunta. Naquele momento, senti uma vaga vibração no ar e na terra, que logo se transformou numa pulsação violenta, e senti um deslocamento de ar sob meus pés, que me fez dar um passo atrás, quase com medo que tivesse força de me sugar. Quando a fumaça, que subira do trem expresso, se dissipava sobre minha cabeça e desaparecia no horizonte, olhei para baixo outra vez e vi o homem enrolando de novo a bandei-rinha que acenara à passagem do trem.
Repeti minha pergunta. Depois de uma pausa, durante a qual parecia me examinar com atenção, fez um gesto com a bandeira enrolada mostrando um ponto no alto do barranco a uns duzentos ou trezentos metros de mim. Gritei para ele: "Tudo bem!"; e fui para o ponto indicado, onde, olhando de perto, encontrei a picada que descia em ziguezague.
A descida do barranco era muito íngreme, quase em precipício. Era um corte lamacento na pedra que se tornava cada vez mais molhado à medida que descia. Isto fez o percurso longo o bastante para que eu tivesse tempo de pensar no ar de relutância que o homem tivera ao apontar o caminho.
Quando já descera o bastante para tornar a vê-lo, notei que estava parado entre os trilhos, ali por onde o trem passara minutos atrás, numa posição de espera para me ver aparecer. Estava com a mão esquerda no queixo e o cotovelo apoiado no braço direito cruzado no peito. Sua atitude era de tal atenção e expectativa que me fez parar por um momento, pensativo com a cena.
Retomei minha descida até o nível dos trilhos e, me aproximando dele, percebi que era um homem magro e moreno com uma barba escura e sobrancelhas cerradas. Seu posto era no lugar mais deprimente e solitário que eu já vira. De cada lado, uma parede de pedra úmida e limosa eliminava a possibilidade de qualquer vista a não ser uma faixa estreita de céu acima; numa direção se via apenas a prolongação tortuosa deste grande calabouço, a perspectiva mais curta no outro sentido terminava numa mortiça luz vermelha e no escuro arco de entrada de um túnel negro, em cuja massiva arquitetura havia um ar bárbaro, de tristeza inóspita. Era tão pouco o sol que entrava ali, que o lugar cheirava a terra úmida e a coisa morta; e o vento frio, canalizado entre as paredes, provocou em mim um arrepio gélido e a sensação de haver abandonado o mundo real.
Não se moveu até que eu chegasse tão próximo que poderia tocá-lo com a mão. Sem tirar, nem mesmo então, seus olhos dos meus, deu um passo atrás e levantou o braço.
Aquele era um posto solitário para ocupar (eu disse), chamara minha atenção quando olhara lá de cima. Calculara que seria raro que o visitassem. E minha visita seria uma raridade não de todo mal vinda, eu esperava. Em mim, que ele visse apenas um homem que passara toda a vida limitado em seus movimentos e que, livre afinal, tinha seu interesse despertado para a novidade destes grandes trabalhos. Foi este o teor do que disse, mas não estou seguro dos termos que usei, porque além de minha dificuldade em iniciar uma conversação, havia alguma coisa no homem que me intimidava.
Lançou um estranho olhar na direção da luz vermelha diante da entrada do túnel e a examinou como se faltasse alguma coisa ali, depois olhou para mim.
Aquela luz era uma de suas responsabilidades? Não era assim?
- O senhor já não sabia que era? - respondeu em voz baixa.
Um pensamento monstruoso me veio à mente, enquanto examinava os olhos fixos naquele rosto saturnal, aquele era um espírito e não um homem. Desde então, várias vezes especulei se não seria um doente mental.
Foi minha vez de dar um passo atrás, mas enquanto o fazia, detectei em seus olhos um medo latente de mim. Isto fez com que desaparecessem meus receios.
- O senhor me olha - eu disse, forçando um sorriso - como se tivesse medo de mim.
- Estava na dúvida - respondeu-me - se já o vi antes.
- Onde?

Apontou para a luz vermelha que olhara antes.
- Ali? - perguntei.
Intensamente atento a meus movimentos (sem um som), ele respondeu:
- Sim.

- Meu bom homem, o que eu estaria fazendo ali? Seja como for, posso assegurar-lhe que nunca estive ali. Pode estar certo disto.
- Acho que não - respondeu. - Estou certo que não.
Seus modos se aliviaram, assim como os meus. Respondia às minhas perguntas com mais facilidade e com palavras bem escolhidas. Tinha muito trabalho ali? Sim, quer dizer, tinha muita responsabilidade; mas precisão e atenção eram tudo que isto exigia. Em matéria de trabalho mesmo, trabalho com as mãos, não havia quase nenhum. A respeito daquelas horas, longas e solitárias, que pareciam me impressionar tanto, tudo que podia dizer era que a rotina de sua vida se amoldara a elas, e acabara se acostumando. Aproveitara o tempo para aprender uma outra língua, se é que podia dizer que a aprendera, já que apenas a lia, tendo formado suas próprias idéias de como se pronunciavam as palavras. Estudara frações e decimais, tentara também um pouco de álgebra, mas, desde garoto, nunca fora bom com números. Era sempre necessário que ficasse ali, naquela corrente de ar úmido. Não podia nas horas livres sair um pouco de entre aquelas paredes e subir lá em cima para pegar um pouco de sol? Bem, isto dependia da época e das circunstâncias. Em certas ocasiões, havia menos tráfego na linha do que em outras, assim como em certas horas do dia ou da noite. Quando o tempo estava bom, às vezes, escolhia a ocasião para subir um pouco acima das sombras, mas como tinha de estar sempre atento à chamada da campainha elétrica, e nestas horas com redobrada atenção, o alívio não chegava a ser aquele que eu imaginava.
Levou-me até a sua guarita, onde havia um fogo, uma mesa para um livro oficial onde devia fazer certas entradas, um aparelho telegráfico, com seu mostrador e agulhas, e a pequena campainha elétrica de que falara. Quando pedi que me perdoasse notar que ele era um homem instruído e talvez (sem nenhuma ofensa implícita) mais instruído do que seria de se esperar de alguém com seu cargo, observou que casos assim de aparente incongruência não eram raros em grandes corporações, que ouvira dizer que era assim nas fábricas, na polícia, mesmo, naquilo que era para muitos um último e desesperado recurso, no exército; e que sabia ser assim também entre o pessoal de qualquer grande ferrovia. Fora quando jovem (Será que eu acreditaria? Era difícil para ele mesmo acreditar nisto, sentado naquela cabana.) estudante de filosofia e assistira às aulas, mas fora disperso, desperdiçara sua oportunidade, e caíra para não mais se levantar. Não tinha queixas, fizera sua própria cama, e agora se deitava nela. Era muito tarde para fazer outra.
Tudo isto que resumi aqui, ele me disse com seu jeito quieto, com os olhos escuros e graves divididos entre mim e o fogo. Vez ou outra usava a palavra "Senhor", especialmente enquanto falava de sua juventude, como para fazer-me entender que não pretendia ser mais do que aquilo que era. Várias vezes foi interrompido pela pequena campainha elétrica, e teve de ler mensagens e enviar respostas. Por uma vez teve que sair da guarita para acenar com a bandeira para um trem que passava e dizer alguma coisa ao maquinista. No cumprimento de seus deveres, observei que era muito atento e preciso, interrompendo seu discurso no meio de uma palavra e só voltando a falar depois de terminar o que tinha a fazer.
Em uma palavra, diria que este era o mais responsável e seguro dos homens para a função que exercia, não fosse pela circunstância de que duas vezes, enquanto falava comigo, empalideceu de repente olhando para a campainha que não tocara, abrindo a porta da cabana (fechada por causa da umidade) para olhar na direção da luz vermelha junto à entrada do túnel. Nas duas ocasiões, voltou para o fogo com aquele ar inexplicável que eu notara sem ser capaz de definir quando o vira de longe.
Quando me levantei para sair, disse a ele:
- O senhor quase me deixa com a impressão de haver encontrado um homem satisfeito da vida - confesso que disse isto para fazê-lo falar mais.
- Acredito que já fui - respondeu, naquela mesma voz baixa que usara no início -, mas estou confuso, senhor, estou confuso.
Engoliria as palavras se pudesse. Já as dissera, porém, e eu fui rápido em pegá-las.
- Com quê? Qual é seu problema?
- Não é fácil explicar. É muito difícil mesmo falar no assunto. Se o senhor me fizer outra visita, num outro dia, tentarei contar.
- Mas é claro que pretendo fazer outra visita. Quando poderei vir?
- Largo cedo, de manhã, e estarei de volta ao trabalho às dez da noite, amanhã.
- Virei às onze.
Ele me agradeceu e me acompanhou na saída.
- Vou iluminar-lhe o caminho com minha lâmpada - disse na sua voz baixa - até a ladeira no barranco. Quando encontrar o caminho não precisa gritar avisando. Quando chegar lá em cima não precisa gritar se despedindo.
Seus modos faziam que eu sentisse o lugar ainda mais frio, mas disse apenas:
- Tudo bem.
- E quando vier amanhã à noite, não precisa me chamar gritando. Deixe que lhe faça uma última pergunta. Por que gritou para mim: "Olá! Você aí embaixo!" esta noite?
- Sabe Deus por quê! - disse. - Gritei alguma coisa para chamar sua atenção.
- Não foi alguma coisa, senhor. Foram estas exatas palavras. Eu as conheço bem.
- Admitindo que foram estas as palavras que usei, eu as disse provavelmente porque o vi aqui embaixo.
- Por nenhuma outra razão?
- Que outra razão poderia haver?
- O senhor não tem a impressão que lhe foram ditadas de alguma forma sobrenatural?
- Não.
Desejou-me boa noite e iluminou o caminho com sua lâmpada.

Caminhei pelos trilhos com a sensação desagradável de um trem vindo por trás de mim, até encontrar a ladeira. Foi mais fácil subir do que descer, e voltei ao meu hotel sem qualquer aventura.


PARTE II

Pontual ao meu encontro, na noite seguinte, comecei a descer a ladeira enquanto nos relógios ao longe soavam as onze horas. Ele me esperava no fim da íngreme descida com sua lanterna.
- Não chamei por você, como pediu - disse, quando nos aproximamos. - Posso falar agora?
- Claro, senhor. Boa noite - disse, estendendo a mão.
- Boa noite, senhor - disse eu, e apertei-lhe a mão.
Caminhamos lado a lado até a sua guarita, entramos, fechamos a porta e nos sentamos junto ao fogo.
- Tomei uma decisão - começou quase num sussurro, quando nos sentamos - e o senhor não terá de perguntar outra vez o que é que me perturba. Ontem à noite eu o confundi com outra pessoa e isto me incomoda.
- Este engano?
- Não, o que me perturba é esta outra pessoa com quem o confundi.
- Quem é ela?
- Não sei.
- Parece comigo?
- Não sei, nunca vi seu rosto. Tem o braço esquerdo cobrindo o rosto enquanto acena com o direito. Acena com força. Assim.
Meus olhos viram o movimento de seu braço e era o movimento de alguém gesticulando com veemência: "Pelo amor de Deus, saia do caminho."
- Numa noite de lua - disse o homem - estava sentado aqui quando ouvi uma voz gritar: "Olá! Você aí embaixo!" Levantei-me, olhei pela porta e vi esta pessoa de pé junto à luz vermelha, perto do túnel, gesticulando como lhe mostrei. Sua voz parecia rouca de gritar e dizia: "Cuidado! Cuidado!" E de novo: "Olá! Você aí embaixo! Cuidado! Cuidado!" Peguei minha lanterna, coloquei-a em vermelho e corri para a figura, gritando: "Qual é o problema? Que foi que aconteceu? Onde?" Continuou parado ali, junto à escuridão do túnel. Cheguei tão perto dele que estranhei que continuasse com o braço cobrindo os olhos. Corri direto para ele, e tinha a mão estendida para puxar sua manga, quando ele desapareceu.
- Para dentro do túnel - disse eu.
- Não. Corri para dentro do túnel, quinhentos metros. Parei e levantei a lâmpada acima de minha cabeça, e vi os números que marcavam a distância, e vi a umidade descendo pelas paredes e pingando do arco. Corri de volta ainda mais rápido do que quando entrara (porque sentia um pavor mortal naquele lugar), e procurei por toda parte, com minha própria lanterna vermelha, junto à outra luz vermelha. Subi depois pela escada de ferro até a galeria acima da luz, e corri até aqui para telegrafar para ambas as direções: "Foi dado um alarme. Qual é o problema?" A resposta veio dos dois lados: "Tudo bem."
Resistindo ao toque de um dedo gelado que lentamente me corria a espinha, mostrei a ele como esta figura deveria ser apenas uma ilusão de ótica, pois se sabia que muitos casos semelhantes eram originados por enfermidades dos delicados nervos que comandam as funções dos olhos, havendo mesmo pessoas que chegaram a ter consciência do mal que as afetava, comprovado por experiências a que elas próprias se submetiam.
- Quanto ao grito imaginário - disse eu -, enquanto falamos baixo, ouça o vento tocando harpa nos fios do telégrafo, dentro deste vale artificial.
Estava tudo muito bem, respondeu, depois de ouvirmos o vento em silêncio por algum tempo, embora eu achasse que sabia alguma coisa sobre o ruido do vento nos fios depois de passar, com freqüência, longas noites de inverno ali, sozinho e acordado. Mas gostaria de lembrar que não terminara ainda.
Pedi que me perdoasse. Lentamente continuou sua narrativa, tocando meu braço.
- Seis horas depois da "aparição", aconteceu o famoso acidente nesta linha, e dez horas depois, os mortos e feridos estavam sendo trazidos para o lugar exato onde a figura estivera.
Senti um desagradável arrepio passar por minha pele, mas esforcei-me o melhor que pude para lutar contra ele. Não se podia negar - eu respondi - que se tratava de uma extraordinária coincidência, quase feita de encomenda para impressioná-lo. Mas era um fato inegável que coincidências extraordinárias aconteciam continuamente, e isto devia ser levado em consideração, quando lidamos com casos assim. Embora deva admitir (porque percebi que ele se preparava para levantar este argumento contra minha linha de raciocinio) que pessoas de bom senso não costumam acreditar muito em coincidências.
Outra vez pediu licença para dizer que não havia terminado.
Outra vez me desculpei por interrompê-lo.
- Isto - disse ele, outra vez colocando a mão sobre meu braço, e olhando por sobre o ombro com seus olhos fundos - foi no ano passado. Passados seis ou sete meses, já me havia recuperado da surpresa e do choque, quando uma manhã, ao nascer do sol, olhando da porta na direção daquela luz vermelha, vi outra vez o espectro - disse isto com os olhos fixos em mim.
- Ele gritou?
- Não. Estava em silêncio.
- Acenava com o braço?
- Não, encostava-se no mastro da lâmpada, com as duas mãos sobre o rosto.
Assim.
Outra vez acompanhei a imitação que fazia. Era a postura de alguém chorando a morte de um ente querido. Já vi postura assim em imagens de pedra sobre sepulturas.
- Você foi até onde ele estava.
- Eu entrei e me sentei, em parte para organizar meus pensamentos, em parte porque a visão me deixara tonto. Quando voltei à porta, a luz do dia estava alta sobre mim e o fantasma desaparecera.
- E não aconteceu mais nada?
Tocou-me no braço com o indicador, duas ou três vezes, enquanto com a cabeça acenava que sim.
- Naquele mesmo dia, quando um trem saía do túnel, reparei, através da janela de um dos vagões, uma confusão de cabeças e de mãos, e alguma coisa acenava. Vi isto ainda em tempo de sinalizar para o maquinista: "Pare!" Ele desligou o vapor e freou violentamente, mas o trem arrastou-se por uns cento e cinqüenta metros ou mais. Corri atrás dele, e, enquanto corria, ouvi gritos e choros horríveis. Uma linda jovem morrera em um dos compartimentos. Trouxeram-na para cá e a colocaram deitada neste chão entre nós.
Num gesto involuntário, afastei a cadeira enquanto olhava as tábuas do chão que ele apontava, como para si mesmo.
- É verdade, senhor. É verdade. Aconteceu exatamente como estou lhe contando. Não consegui pensar no que dizer, em qualquer sentido, e senti minha boca muito seca. A música do vento nos fios do telégrafo acompanhava a história, como um longo gemido de lamento.
- Agora - ele continuou - preste atenção nisto e julgue o senhor mesmo se tenho ou não razões para sentir-me assim perturbado. Há uma semana, o espectro voltou; e desde então, volta e meia aparece ali.
- Na luz?
- Na luz de perigo.
- Que é que ele faz?
- Parece repetir ainda com mais veemência (se isto fosse possível) a gesticulação com o braço de "Pelo amor de Deus, saia do caminho".
- Não tenho mais paz de espírito - continuou. - Ele me chama por minutos a fio: "Você aí embaixo! Cuidado! Cuidado!" Fica ali acenando para mim. Faz soar minha campainha elétrica.
- Ele tocou a campainha, ontem à noite, quando eu estava aqui, e você foi até à porta?
- Duas vezes.
- Bem, veja - disse eu - como sua imaginação pode enganá-lo. Eu tinha os olhos na campainha, e meus ouvidos estavam atentos a ela, e, tão certo quanto o fato de estar vivo, sei que a campainha não tocou naquelas vezes. Nem em nenhuma outra hora, exceto quando a estação chamou numa comunicação normal e sem nada de sobrenatural.
- Nunca cometi um engano assim - disse, sacudindo a cabeça. - Nunca confundi o toque do espectro na campainha com o toque humano. O toque do fantasma produz uma estranha vibração na campainha que não é provocada por nenhuma outra coisa, e nem eu disse que podia ser visto por olhos humanos. Não me espanta que o senhor não o tenha ouvido. Mas eu ouvi.
- E o espectro estava lá quando você olhou?
- Sim, estava lá.
- Nas duas vezes?
- Nas duas vezes - repetiu com firmeza.
- Você viria comigo até a porta, para ver se está lá?
Mordeu seu lábio inferior, como se não quisesse ir, mas levantou-se e veio. Abri a porta e fiquei ali no degrau com ele a meu lado. Viam-se as duas paredes de pedra úmida. Viam-se as estrelas por sobre elas.
- Você o vê? - perguntei, observando com atenção seu rosto. Seus olhos estavam arregalados e assustados, mas não muito mais, talvez, que meus próprios olhos deviam estar quando olharam naquela direção.
- Não - respondeu. - Não está ali.
- Também não vejo nada - concordei.
Entramos de novo e retomamos nossos assentos. Foi enquanto pensava na melhor maneira de ampliar esta vantagem (se podemos chamar assim), considerando que não poderia haver dúvidas entre nós quanto aos fatos, que me senti na mais fraca das posições.
- Agora - disse ele - o senhor pode entender bem que a questão que me perturba mais profundamente é a de entender o que o espectro quer dizer.
Disse-lhe que não estava seguro de entender o que queria dizer com isto.
- O que ele estará querendo avisar? - disse, ruminando, com os olhos perdidos no fogo, e apenas às vezes os voltando para mim. - Qual é o perigo? Qual é o perigo? Algum perigo paira sobre a linha, e em algum lugar alguma terrível calamidade vai acontecer. Não há como duvidar depois do que já aconteceu. É a terceira vez. Mas é cruel a dúvida que me assombra e persegue. Que é que eu posso fazer?
Tirou o lenço e limpou o suor da testa quente.
- Se telegrafar um aviso de perigo, para qualquer lado, não poderia justificá-lo -continuou, enxugando as palmas de suas mãos no lenço. - Só criaria problemas, e não seria de ajuda a ninguém. Pensariam que enlouqueci. Imagine como seria: Mensagem: "Perigo! Cuidado!" Resposta: "Que Perigo? Onde?" Mensagem: "Não sei. Mas, pelo amor de Deus, tomem cuidado!" Eu seria despedido. Que mais poderiam fazer?
Seu sofrimento mental fazia pena. Era uma tortura para alguém de consciência como aquele homem, oprimido pelo peso insuportável de uma responsabilidade absurda que envolvia a vida e a morte.
- Quando estive pela primeira sob a luz de perigo - continuou, tirando seu cabelo negro da testa e passando a mão na têmpora num desespero febril - por que não me avisou onde aconteceria o acidente? Por que não me disse como evitá-lo, se podia ser evitado? Quando, na segunda vez, escondeu seu rosto, por que não me contou: "Ela vai morrer, faça com que fique em casa?" Se veio, nas duas ocasiões, apenas para me provar que seus avisos eram verdadeiros e me preparar para o terceiro, por que não me explica agora o que vai acontecer? E depois, Deus do céu, sou apenas um pobre sinaleiro perdido neste posto solitário! Por que não ir até alguém em posição de ser acreditado, e com poder para agir?
Vendo-o neste estado, entendi que tanto para o bem do pobre homem, quanto para a segurança pública, o que tinha a fazer naquele momento era acalmar sua mente. Assim, deixando de lado qualquer questão entre nós, quanto à realidade ou não de tudo aquilo, tentei mostrar-lhe que quem quer que seja atento às suas responsabilidades não pode ter culpa; que ele era consciente das suas, ainda que fosse impossível entender as atormentadoras aparições. Neste sentido, tive melhores resultados do que antes na tentativa de convencê-lo a abandonar suas convicções. Acalmou-se, as tarefas ocasionais de seu trabalho começaram a exigir mais de sua atenção, e eu o deixei às duas da manhã. Ofereci-me para ficar com ele por toda a noite, mas ele não quis aceitar.
Que por mais de uma vez voltei-me para olhar aquela luz vermelha enquanto subia a ladeira, que aquela luz não me agradava, e que na certa eu dormiria mal se tivesse que viver junto dela, são coisas que não vejo motivos para negar. Da mesma forma, não posso negar que a coincidência dos dois acidentes e da jovem morta não me agradava.
Mas o que mais ocupava meus pensamentos era a indagação de como deveria agir, depois daquela revelação. Confirmara com meus olhos que aquele homem era inteligente, vigilante, esforçado e preciso; mas por quanto tempo continuaria assim, com os nervos naquele estado? Embora numa posição subalterna, seu cargo era de extrema responsabilidade; será que eu mesmo seria capaz de apostar minha vida na probabilidade de que ele continuaria a exercê-lo com a precisão necessária?
Ao mesmo tempo não conseguia me livrar da idéia de que havia algo de traiçoeiro e desleal em levar a seus superiores na companhia o que ele me confidenciara, sem antes falar com ele mesmo e propor-lhe uma solução de meio-termo. Resolvi, assim, sugerir (mantendo enquanto isto em segredo o que me contara) que fôssemos juntos consultar o melhor médico que houvesse na região, para ouvir sua opinião. Uma mudança no seu horário de trabalho aconteceria na noite seguinte, e ele deixaria o serviço uma hora ou duas depois do amanhecer, para voltar só depois de o sol se pôr. Tinha marcado com ele de voltar a visitá-lo em função deste novo horário.
O anoitecer do dia seguinte foi lindo, e comecei minha caminhada cedo para aproveitá-lo ao máximo. O sol não caíra ainda totalmente, quando atravessei o prado perto do corte da linha. Alongaria meu passeio em uma hora, disse a mim mesmo, meia hora para ir e meia hora para voltar, e estaria ali pontual ao encontro na guarita do sinaleiro.
Antes de prosseguir a caminhada, cheguei junto à borda e mecanicamente olhei para baixo do ponto onde o vira pela primeira vez. Não posso descrever o terror de que fui tomado, quando vi, próxima à entrada do túnel, a aparição de um homem, com a manga do braço esquerdo cobrindo os olhos e acenando com energia o direito.
O inominável horror que me oprimia passou em um momento, porque, num instante, notei que esta aparição era na verdade um homem, e que havia um pequeno grupo de outros homens, não muito distante, para quem ele parecia estar ensaiando aquela gesticulação. A luz de perigo ainda não fora acesa. Contra seu poste havia uma pequena cabana baixa, completamente nova para mim, feita de suportes de madeira e lona. Não parecia maior que uma cama.
Com uma forte sensação de que algo estava errado, com um misto de medo e recriminação, imaginando que algum acidente fatal resultara de haver deixado aquele homem ali, sem ninguém para supervisionar e corrigir o que fizesse, desci a ladeira o mais rápido que pude.
- Que foi que aconteceu? - perguntei aos homens.
- Um sinaleiro foi morto esta manhã, senhor.
- Não o homem daquela guarita?
- Sim, senhor.
- Não o homem que conheci?
- O senhor o reconhecerá, se o conheceu - disse o homem que falava pelos outros, solene, descobrindo a cabeça e levantando uma ponta da lona. - Seu rosto está bastante decomposto.
- Como aconteceu? Oh! Como aconteceu? - perguntei, virando-me para um e para outro, enquanto a lona se fechava outra vez.
- Foi atropelado por uma locomotiva, senhor. Ninguém na Inglaterra conhecia seu trabalho melhor do que ele. Mas de algum jeito ele estava junto aos trilhos. Era dia claro. Atingira a lanterna e tinha a lâmpada na mão. Quando a locomotiva saiu do túnel, ele estava de costas para ela. Aquele homem era o maquinista e estava mostrando como aconteceu. Mostre a este senhor, Tom.
O homem, vestido com uma roupa escura e grosseira, voltou para o lugar onde estava antes, na entrada do túnel.
- No fim da curva, dentro do túnel, eu o vi de longe como por uma luneta. Não havia tempo para diminuir a velocidade, e sabia que ele era um homem cuidadoso. Como ele parecia não ouvir o apito, quando já estávamos quase sobre ele, eu o deixei de tocar e gritei o mais alto que pude.
- Gritou o quê?
- Disse: "Você aí embaixo! Cuidado! Cuidado! Pelo amor de Deus, saia do caminho!" Eu estava mudo.
- Ah! Foi uma coisa horrível, senhor! Não parei de gritar com ele. Coloquei um braço diante dos olhos para não ver e com o outro acenei para ele até o final.
Sem prolongar a narrativa para lidar com uma de suas curiosas circunstâncias mais do que com qualquer outra, me permito apenas, ao terminá-Ia, notar que as coincidências no aviso do maquinista incluíam não apenas as palavras que assombravam o desafortunado sinaleiro como ele as repetiu para mim, mas também a expressão que apenas em minha mente eu associara àquele gesto de braço acenando que ele imitara.
Tradução de Octávio Marcondes
Os 100 Melhores Contos de Crime e Mistério da Literatura Universal






The Signalman (Charles Dickens)

Publicado em 25 de abril de 2011por Clarisse

Halloa! Below there!. Estas são as primeiras palavras deste conto de Dickens, e elas permeiam toda a narrativa a seguir. The Signalman é a história de um sinaleiro, um funcionário de uma ferrovia, encarregado de avisar os trens de perigos e passar outros recados através de um sistema telegráfico. A primeira frase é gritada do alto de um promontório pelo narrador do conto. Este, libertado de uma vida entre muros, garante possuir uma curiosidade nova sobre os “grandes trabalhos”.
A primeira reação do sinaleiro não é das melhores. Ele avista o narrador como uma assombração, e leva algum tempo esboçar uma reação amistosa. Os dois personagens passam então a conversar. Sobre o trabalho de sinaleiro, suas responsabilidades, sua educação. O sinaleiro então lhe conta sua história e confessa estar se sentindo atordoado. No dia seguinte este confessa ao narrador seus medos. Fala-lhe sobre a aparição que lhe dá sinais de perigo os quais não consegue decifrar corretamente, e que parecem vir sempre antes de grandes tragédias. É uma história arrepiante e para lá de ambígua.
Dickens é especialista em ambientar suas narrativas, e consegue instigar no leitor, em pouquíssimas palavras, o sentimento de solidão e morte que emana da estação do sinaleiro. Desde o primeiro momento o leitor é levado a duvidar de cada palavra da narrativa. Dada a reação do sinaleiro, seus medos, o espectro que o assombra (fisicamente parecido com o narrador), cada detalhe pode ser interpretado de várias maneiras.
Sem saber em que confiar, o leitor é levado ao assombro pela história do funcionário, inquirido pelo narrador, que procura sempre racionalizar quaisquer indícios sobrenaturais, usando os argumentos bastante conhecidos dos céticos: É uma alucinação passageira, foi o vento, é pelo fato de ficar sozinho à noite. Mas o sinaleiro parece um homem razoável, cioso de suas responsabilidades, são. Sua angústia vem menos do fantasma e mais pelo fato de não poder evitar o mal causado. Sem querer, o narrador acaba por se sentir também receoso da aparição, a ponto de perder o sono.
É difícil descrever minha reação ao ler o conto, o sentimento de frio na espinha, a sensação de solidão passada pela história do sinaleiro, a aparente falta de motivo do narrador estar lá e passar tanto tempo com ele. Mil teorias passaram pela minha cabeça, e cada uma foi revista e negada para ser substituída por outra. O final é um gigante ponto de interrogação, algo sempre interessante quando tratamos de histórias fantásticas. Dickens delegou ao leitor a explicação dos acontecimentos, ou se eles de fato ocorreram, ou quem estava vivo ou morto no final desta história.
É daqueles contos que nos acompanham muito tempo depois de lidos, nos faz buscar um motivo, uma explicação razoável – científica ou sobrenatural – para o acontecimento. Uma bela história de fantasmas











The Signalman - Charles Dickens BBC GHOST STORY FOR CHRISTMAS 1976


Classic BBC adaptation of The Signalman by Charles Dickens. Starring Denholm Elliott. 1976.






Dr. Guido Palomba - PÂNICO - 29/01/2020 - AO VIVO











Referências


https://ichef.bbci.co.uk/images/ic/640x360/p01gmbf0.jpg
http://aneste.org/os-100-melhores-contos-de-crime-e-mistrio-da-literatura-univer.html?page=27
https://construindovictoria.wordpress.com/2011/04/25/the-signalman-charles-dickens/
https://youtu.be/XL_4VHxdXng
https://www.youtube.com/watch?v=XL_4VHxdXng
https://youtu.be/AXNuV-SH_yU
https://www.youtube.com/watch?v=AXNuV-SH_yU

Nenhum comentário:

Postar um comentário