terça-feira, 18 de dezembro de 2018

A NECESSIDADE DA ARTE


ERNEST FISCHER

Lendo essas linhas espero estar um pouquinho mais junto de ti quando lembrares de mim.


A Função da Arte

“A POESIA É INDISPENSÁVEL. Se eu ao menos soubesse para quê...” Com esse encantador e paradoxal epigrama, Jean Cocteau resumiu ao mesmo tempo a necessidade da arte e o seu discutível papel no atual mundo burguês.

Arte e Capitalismo

A alienação

Bertolt Brecht salienta vivamente esse ponto na sua “Canção do Mercador” de Die Massnahme:

Como saber o que é o arroz?
O que é o arroz, que eu não conheço?
Não tenho idéia do que seja
Nem mesmo sei de alguém que o saiba.
Do arroz? Do arroz só sei o preço.

Não só o ser humano vai-se tornando cada vez mais obliterado pela unilateralidade da sua atividade – por sua existência feita detalhe – como também as relações sociais e as condições circundantes vão-se tornando cada vez mais difíceis de serem compreendidas. Roberto Musil escreveu em O Homem sem Qualidades:

O conviver dos homens tornou-os tão grosseiros e espessos e suas relações tornaram-se tão complicadas que ôlho algum consegue devassar área alguma; e todo homem, fora do círculo estreitíssimo de sua atividade imediata, torna-se dependente dos outros, qual uma criança. Jamais a mentalidade da corja foi tão limitada como hoje, quando ela tudo dirige.

O homem, que se tornou homem pelo trabalho, que superou os limites da animalidade transformando o natural em artificial, o homem, que se tornou um mágico, o criador da realidade social, será sempre o mágico supremo, será sempre o Prometeu trazendo o fogo do céu para a terra, será sempre Orfeu enfeitiçando a natureza com a sua música. Enquanto a própria humanidade não morrer, a arte não morrerá.


Caviar
Zeca Pagodinho



Você sabe o que é caviar?
Nunca vi, nem comi
Eu só ouço falar
Você sabe o que é caviar?
Nunca vi, nem comi
Eu só ouço falar

Caviar é comida de rico
Curioso fico, só sei que se come
Na mesa de poucos, fartura adoidado
Mas se olhar pro lado depara com a fome

Sou mais ovo frito, farofa e torresmo
Pois na minha casa é o que mais se consome
Por isso se alguém vier me perguntar
O que é caviar, só conheço de nome

Você sabe o que é caviar?
Nunca vi, nem comi
Eu só ouço falar
Mas você sabe o que é caviar?
Nunca vi, nem comi
Eu só ouço falar

Geralmente quem come esse prato
Tem bala na agulha, não é qualquer um
Quem sou eu pra tirar essa chinfra
Se vivo na vala pescando muçum

Mesmo assim não reclamo da vida
Apesar de sofrida consigo levar
Um dia eu acerto numa loteria
E dessa iguaria até posso provar

Você sabe o que é caviar?
Nunca vi, nem comi
Eu só ouço falar
Mas você sabe o que é caviar?
Nunca vi, nem comi
Eu só ouço falar
Composição: Barbeirinho Do Jacarezinho / Marcos Diniz



Detalhes
Roberto Carlos







Não adianta nem tentar me esquecer
Durante muito tempo em sua vida
Eu vou viver

Detalhes tão pequenos de nós dois
São coisas muito grandes pra esquecer
E a toda hora vão estar presentes
Você vai ver
        
Se um outro cabeludo aparecer na sua rua
E isto lhe trouxer saudades minhas
A culpa é sua

O ronco barulhento do seu carro
A velha calça desbotada ou coisa assim
Imediatamente você vai lembrar de mim

Eu sei que um outro deve estar falando ao seu ouvido
Palavras de amor como eu falei, mas eu duvido!
Duvido que ele tenha tanto amor
E até os erros do meu português ruim
E nessa hora você vai lembrar de mim

A noite envolvida no silêncio
Do seu quarto
Antes de dormir você procura
O meu retrato
Mas da moldura não sou eu quem lhe sorri
Mas você vê o meu sorriso mesmo assim
E tudo isso vai fazer você lembrar de mim

Se alguém tocar seu corpo como eu
Não diga nada
Não vá dizer meu nome sem querer
À pessoa errada

Pensando ter amor nesse momento
Desesperada você tenta até o fim
E até nesse momento você vai
Lembrar de mim

Eu sei que esses detalhes vão sumir
Na longa estrada
Do tempo que transforma todo amor
Em quase nada

Mas "quase" também é mais um detalhe
Um grande amor não vai morrer assim
Por isso, de vez em quando você vai
Vai lembrar de mim

Não adianta nem tentar me esquecer
Durante muito tempo em sua vida
Eu vou viver
Não, não adianta nem tentar
Me esquecer
Composição: Erasmo Carlos / Roberto Carlos



Disseram Que Eu Voltei Americanizada
Carmen Miranda



Me disseram que eu voltei americanizada
Com o burro do dinheiro
Que estou muito rica
Que não suporto mais o breque do pandeiro
E fico arrepiada ouvindo uma cuíca

Disseram que com as mãos
Estou preocupada
E corre por aí
Que eu sei certo zum zum
Que já não tenho molho, ritmo, nem nada
E dos balangandans já "nem" existe mais nenhum

Mas pra cima de mim, pra que tanto veneno
Eu posso lá ficar americanizada
Eu que nasci com o samba e vivo no sereno
Topando a noite inteira a velha batucada

Nas rodas de malandro minhas preferidas
Eu digo mesmo eu te amo, e nunca "I love you"
Enquanto houver Brasil
Na hora da comidas
Eu sou do camarão ensopadinho com chuchu
Composição: Vicente Paiva



As religiões podem melhorar nossa vida porque ajudam a carregar o fardo da mortalidade. Mas os seres humanos, pelo menos foi meu aprendizado de vida, continuam frágeis e limitados como sempre foram.
Por isso, com o olhar de hoje, vejo como charlatanismo a proposta de Che Guevara de criar um novo homem. Na verdade, somos e seremos muito menos importantes do que julgamos ser. Creio que morreria de tédio num mundo perfeito. Por isso, dispenso a crença na vida eterna e procuro me ajeitar com minha condição de simples mortal.


fernando gabeira:
GURUS, CHARLATÕES E CURANDEIROS
17.12.2018 EM BLOG
Volto de Goiás, onde revisitei o centro de João de Deus, em Abadiânia, e o sítio de Sri Prem Baba, em Alto Paraíso. Duas cidadelas espirituais, atingidas em níveis diferentes por um dos tradicionais adversários do espírito: a carne.
Na década dos 80, visitei o ashram de Rajneesh em Poona, na Índia. Faz anos, portanto, que me interesso pelo tema. Não tenho uma opinião formada, como os autores Joel Kramer e Diana Alstad, que escreveram o livro “The Guru Papers”, cujo subtítulo é: “máscaras de um poder autoritário”.
Eles afirmam que a relação entre guru e discípulos é uma espécie de deslocamento das estruturas sociais autoritárias para o âmbito das relações pessoais. Há algo, no entanto, que minha experiência individual leva a uma concordância com eles: religiões milenares não conseguiram alterar a fragilidade da natureza humana.
Mas isso não é uma grande novidade. O avanço da ciência e da tecnologia também não significou necessariamente um avanço ético.
Kramer e Alstad tratam mais de gurus de origem oriental. No capítulo em que descrevem seu poder sexual sobre os discípulos, destacam duas condições que o favorecem: o celibato e a promiscuidade, no fundo uma ausência de vínculos que deixa o discípulo mais vulnerável.
Alguns gurus de origem oriental vêm de sociedades mais rígidas. No Ocidente, tentam aplicar algumas de suas técnicas e rituais sob o argumento da liberação de impulsos reprimidos.
Em muitos casos, a relação com a discípula é vista como uma espécie de uma graça que a distingue dos outros. Mas há também a tentação de formar haréns com as escolhidas.
No caso de Sri Prem Baba, esses elementos não estão presentes. Mesmo porque, apesar de formado na Índia, ele é brasileiro, oriundo de uma sociedade mais liberal.
Ainda assim, ao me referir de passagem ao caso que teve com uma discípula, afirmei que era relativamente consensual. Isso porque o poder do guru é muito grande. Ao seguir um guru, somos convidados a nos render. Como lembram os autores, paixão significa abandono, deixar rolar: render-se, de uma certa forma, é um caminho para a paixão.
O caso de João de Deus é diferente. Ele é famoso por curar. Quando o entrevistei, percebi alguns traços do rude garimpeiro e uma certa ignorância sobre as forças ou entidades que lhe comunicavam o poder de curar.
Muito possivelmente, a relação entre um paciente e o curandeiro não tem as características de rendição emocional entre guru e discípulo.
Ora é uma necessidade de sobrevivência, ora a superação de um doença que impossibilita a vida plena, ou mesmo uma tentativa de contornar a condenação à morte pela medicina tradicional.
Ironicamente, no caminho para Abadiânia, soube que na cidade próxima, Alexânia, um padre foi condenado por abuso sexual. O mesmo aconteceu em Anápolis, onde João de Deus mora.
O mais irônico ainda é constatar que a concentração de poder nas mãos do guru ou do curandeiro os deixa espetacularmente fragilizados diante da vida.
No mundo político, as delações premiadas são validadas por provas. No universo espiritual, entretanto, basta a palavra do outro para desfechar uma onda de condenação. E isso vale inclusive para os campos onde o poder masculino se impõe: basta ver a comoção que o movimento feminista provocou no universo das artes nos EUA.
As religiões podem melhorar nossa vida porque ajudam a carregar o fardo da mortalidade. Mas os seres humanos, pelo menos foi meu aprendizado de vida, continuam frágeis e limitados como sempre foram.
Por isso, com o olhar de hoje, vejo como charlatanismo a proposta de Che Guevara de criar um novo homem. Na verdade, somos e seremos muito menos importantes do que julgamos ser. Creio que morreria de tédio num mundo perfeito. Por isso, dispenso a crença na vida eterna e procuro me ajeitar com minha condição de simples mortal.
O roteiro da minha viagem era o cinturão espiritual em torno de Brasília, uma espécie de contraponto à permissividade do universo político, onde a carne não chega ser um adversário considerável, no máximo uma distração na longa ordem do dia.
Artigo publicado no Jornal O Globo em 17/12/2018



Referências

FISCHER, E. A necessidade da arte. 6. ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1977. 
https://youtu.be/4rkr4kTo9nY
https://www.letras.mus.br/zeca-pagodinho/78414/
https://youtu.be/SRvbS7pP7F4
https://www.letras.mus.br/roberto-carlos/6971/
https://youtu.be/e4WZVQAh_Hw
https://www.letras.mus.br/carmen-miranda/185585/
http://gabeira.com.br/gurus-charlatoes-e-curandeiros/

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