terça-feira, 12 de maio de 2026

MESMAS LETRAS EM OUTRAS PALAVRAS: ANAGRAMA

Pedacinhos do Céu João Nogueira - Além do Espelho Vinícius Werner Shtorache 24 de set. de 2012 João Nogueira no programa Ensaio da TV Cultura (1992). Quando eu olho o meu olho além do espelho Tem alguém que me olha e não sou eu Vive dentro do meu olho vermelho É o olhar de meu pai que já morreu O meu olho parece um aparelho De quem sempre me olhou e protegeu Assim como meu olho dá conselho Quando eu olho no olhar de um filho meu A vida é mesmo uma missão A morte uma ilusão Só sabe quem viveu Pois quando o espelho é bom Ninguém jamais morreu Sempre que um filho meu me dá um beijo Sei que o amor de meu pai não se perdeu Só de ver seu olhar sei seu desejo Assim como meu pai sabia o meu Mas meu pai foi-se embora no cortejo E eu no espelho chorei porque doeu Só que olhando meu filho agora eu vejo Ele é o espelho do espelho que sou eu A vida é mesmo uma missão A morte uma ilusão Só sabe quem viveu Pois quando o espelho é bom Ninguém jamais morreu Toda imagem no espelho refletida Tem mil faces que o tempo ali prendeu Todos têm qualquer coisa repetida Um pedaço de quem nos concebeu A missão de meu pai já foi cumprida Vou cumprir a missão que Deus me deu Se meu pai foi o espelho em minha vida Quero ser pro meu filho espelho seu A vida é sempre uma missão A morte uma ilusão Só sabe quem viveu Pois quando o espelho é bom Ninguém jamais morreu E o meu medo maior é o espelho se quebrar E o meu medo maior é o espelho se quebrar E o meu medo maior é o espelho se quebrar E o meu medo maior é o espelho se quebrar
"Sei que me amas com grande fervor Há em teus lábios mil frases de amor Entretanto, eu preciso ouvir a voz da razão Para saber se direi sim ou não"
Waldir Azevedo
não é preciso mudar as letras do sistema — basta reorganizá-las para que tudo pareça novo.
Otto e o óbvio Ruy Castro Nelson Rodrigues gostava de contar esta história. Otto Lara Resende, morador da Gávea, ia todos os dias pelo Aterro do Flamengo para o jornal em que trabalhava, no centro da cidade. Um dia, ao passar pelo Morro da Viúva, olhou casualmente à direita e viu um corpo estranho na enseada: uma pedra gigante com uma casinha no cocuruto. Era o Pão de Açúcar. Embora morasse no Rio desde 1945 e todos os empregos que tivera o obrigassem a passar em frente a ele, Otto nunca se dera conta de sua existência. Atônito, meteu o pé no freio. Os pneus faiscaram e obrigaram os motoristas atrás dele a fazer o mesmo. Para espanto de todos, Otto saiu do carro e começou a zanzar entre eles, apontando mudo, de boca aberta, para o Pão de Açúcar. Assustadas, as pessoas também desceram, para acudi-lo. Asmático, veio-lhe a falta de ar e ele puxou a bombinha. Uma senhora, abanando-o, dizia: "Calma, meu senhor, calma!". E, sempre apontando para o Pão de Açúcar, só então Otto balbuciou: "Ontem não estava ali! Ontem!". E Nelson completou: "Foi um momento para a eternidade —o grande confronto entre Otto Lara Resende e o óbvio ululante". Foi a primeira vez que Nelson usou a expressão "óbvio ululante", para dizer que o óbvio ulula à nossa frente, implorando para ser percebido. Mas não o vemos. "Só os profetas enxergam o óbvio", concluiu Nelson. Por isso, Otto nunca enxergara o Pão de Açúcar —ele era o óbvio ululante. Tudo o que aconteceu durante Bolsonaro e só agora está vindo à tona do pântano era óbvio desde o começo. Bolsonaro não dedicou um único dia de seu suposto governo a governar. A educação, a saúde, a segurança, nem mesmo a economia, nunca lhe disseram nada. A partir do primeiro dia, empenhou-se em sua recondução ao poder em 2022, precavendo-se de que, se isso não acontecesse pelas urnas, viria na forma de um golpe. Uma consulta aos arquivos mostrará que, com as mesmas palavras, isso foi dito várias vezes neste espaço naqueles quatro anos. Nenhuma vantagem —era o óbvio. E tão óbvio que o próprio Bolsonaro o ladrava nos palanques, caçambas e motociatas, na certeza de que ninguém o enxergaria. Folha de São Paulo, 04/12/2024
terça-feira, 12 de maio de 2026 A ilusão do caso Vorcaro, por Fernando Gabeira
O Globo Ele não entende a colaboração premiada como fim de carreira. Faz planos. Para começar, não entregará todo o dinheiro que amealhou Não sou dessas pessoas que o tempo inteiro dizem: "Vai acabar em pizza, vai acabar em pizza." Mas confesso que estou um pouco cético sobre a delação de Daniel Vorcaro, o homem que iluminaria toda a escuridão da República. Vorcaro não entende a delação como fim de carreira. Faz planos. Para começar, não entregará todo o dinheiro que amealhou. Precisa de recursos para recomeçar adiante. Há muita coisa que não poderá esconder, pois o conjunto de mensagens no celular revela seu movimento financeiro. Mas aquilo que não está a descoberto, ele deve considerar um fundo de sobrevivência para a nova etapa, pois certamente não conta com um longo período de prisão. Outro ponto vulnerável na delação de Vorcaro são os próprios advogados. Ele é apenas um caso fortuito, e provavelmente muito lucrativo, para os advogados. Mas nada se compara à relação estratégica e permanente que precisam manter com o STF. Quando se trata de apontar as armas para a Corte, faltará pólvora ou, no mínimo, ela estará molhada. Detesto a expressão “acochambrar”. Para coisas feias, palavras feias. Na semana passada, um ministro do TSE, aliado de Alexandre de Moraes, Floriano Marques, encontrou-se com o advogado de Vorcaro num hotel de Brasília. O encontro se deu um dia depois da apresentação da proposta de delação. O ministro admite que conversou superficialmente sobre a delação e comentou: — Puxa vida, que coisa! Ninguém pode provar que a conversa não foi superficial. Marques foi indicado por Lula, por sugestão de Moraes. São colegas na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Por uma tentativa de conhecer a delação premiada do tenente-coronel Mauro Cid, o general Braga Netto foi para o espaço. O advogado de Vorcaro sabe disso. Por coincidência, Braga Netto também é seu cliente. O ministro e o advogado são amigos. Quem não é amigo, conhecido, camarada? “Meu caro, que prazer, vamos tomar algo para combater essa secura de Brasília.” A Polícia Federal trabalha firme e com competência. Mas será difícil romper esse cipoal de relações e favores. No caso do senador Ciro Nogueira, houve indícios, casa, mesada, cartão e um ato de ofício: a emenda apresentada por Ciro, subindo de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a garantia de ressarcimento aos credores de um banco quebrado. Vorcaro saudou essa emenda nas conversas com a namorada. Possivelmente, outros amigos de Vorcaro na política terão dado bandeira e cairão também. Mas o núcleo mais duro, que envolve ministros do Supremo, talvez não seja tocado. Quem quer brigar com o Supremo? A qualquer momento, nosso destino pode estar nas mãos deles. Se julgam e condenam, apelar para quem? Você fica com a corda no pescoço, com a espada na cabeça e com uma parte da esquerda jurando que você é de extrema direita. No entanto será preciso reclamar. O caso Master não pode dar em pizza. Haja farinha, molho de tomate e orégano para cobrir 8 milhões de quilômetros quadrados. Mas é preciso não ter grandes ilusões. O Brasil não é fácil.
Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende e Hélio Pellegrino (imagem: Acervo pessoal) "Onde entra o conceito de anagrama sobre pizzas e outras guloseimas que podem aparecer num suposto acordo de colaboração premiada de Vorcaro? Segundo o artigo de Fernando Gabeira, mineiro como o 'banqueiro' que sabe o valor de cada tostão em terras de banqueiros e bancos quebrados ou arrombados." O conceito de anagrama, aqui, deixa de ser um jogo de letras e passa a ser uma metáfora política sobre a recombinação dos mesmos elementos para obter resultados diferentes (ou disfarçados). Ao "conglobar" o anagrama de VORCARO com o texto de Gabeira sobre as guloseimas da corrupção, chegamos aos seguintes pontos: 1. O Anagrama da Impunidade: "Acabar em Pizza"No texto, Gabeira cita o clichê "vai acabar em pizza". Se pegarmos as letras de VORCARO, encontramos a essência do que ele descreve sobre o banqueiro: ROCA/ROÇAR: Vorcaro "roça" o poder. O texto menciona o encontro em hotéis de Brasília, o "cipoal de relações" e a proximidade com ministros. É o movimento de chegar perto sem se queimar totalmente. CORO: A delação premiada, para Gabeira, corre o risco de ser apenas um "coro" ensaiado. O banqueiro, os advogados e os ministros cantam a mesma música para que o "núcleo duro" não seja tocado. CARRO / CORRA: O texto diz que Vorcaro "faz planos" e não entregará todo o dinheiro. Ele quer o "carro" (os recursos) para "correr" (recomeçar) adiante. O anagrama vira estratégia de fuga financeira. 2. O Valor do "Tostão" no Banco Quebrado (Master)Você mencionou a mineiridade e o valor de cada tostão. Gabeira destaca que Vorcaro não é um delator comum: ele é um calculista. O Anagrama "CORAVA": Antigamente, "corar" algo era dar cor ou vergonha. Gabeira sugere que, nesse "acordo", ninguém cora de vergonha. O aumento da garantia de ressarcimento de R\( 250 mil para R\) 1 milhão (a emenda de Ciro Nogueira) é o "tostão" multiplicado que Vorcaro comemora com a namorada. Guloseimas e Pizzas: A "pizza" no Brasil é o anagrama político perfeito: você pega os ingredientes (provas, mensagens de celular, dinheiro amealhado), fatia tudo, distribui entre os amigos (STF, advogados, políticos) e, no final, a forma continua a mesma, mas o conteúdo foi digerido pelo sistema. 3. A "Ilusão" Anagramática Gabeira joga com a ideia de que a delação de Vorcaro "iluminaria a escuridão". Se rearranjarmos as letras de VORCARO, podemos formar "CORVORA" (uma corruptela de corvo). O corvo, citado no texto como ave que ronda bancos quebrados e carniça política, é quem melhor entende o valor do que sobra. O banqueiro mineiro sabe que, em Brasília, para não "acabar em pizza", ele precisa oferecer uma "guloseima" maior (a cabeça de alguém), mas Gabeira duvida que ele entregue o "chef" da cozinha.Conclusão:O anagrama de VORCARO aplicado ao texto revela que ele não quer apenas "limpar o nome", mas sim rearranjar as mesmas peças (o dinheiro escondido, as influências no STF e as amizades em hotéis) para que, no final, o resultado da conta (o valor do tostão) continue favorecendo o banqueiro, enquanto o país fica com a conta da "farinha, molho de tomate e orégano".Você acredita que o "fundo de sobrevivência" que Gabeira menciona é o verdadeiro "anagrama financeiro" que a Polícia Federal não conseguirá decifrar?
terça-feira, 12 de maio de 2026 Ao convidar Bolsonaro e Collor, Nunes Marques acirra conflitos no STF, por Luiz Carlos Azedo Correio Braziliense A decisão de Nunes Marques também fortaleceu o discurso da oposição no Congresso, especialmente do PL, partido de Bolsonaro, que retomou o projeto de anistia A posse do ministro Kassio Nunes Marques na presidência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), prevista para hoje, está sendo marcada pelo convite protocolar a todos os ex-presidentes da República, inclusive Jair Bolsonaro e Fernando Collor de Mello, o que produziu um efeito político oposto ao discurso de pacificação que o próprio magistrado pretende imprimir à sua gestão. Ao chamar para a cerimônia dois ex-presidentes condenados pela Justiça — o primeiro por tentativa de golpe de Estado; o segundo na Operação Lava-Jato —, Nunes Marques também acirrou as tensões internas no Supremo Tribunal Federal (STF). Além de aprofundar o desconforto entre ministros da Corte, Nunes Marques jogou mais lenha na fogueira da oposição bolsonarista, que voltou a articular uma anistia ampla aos envolvidos nos ataques de 8 de janeiro de 2023. O gesto do novo presidente do TSE foi interpretado por integrantes do Supremo como um cavalo de pau na atuação da Corte durante as eleições. Embora o convite tenha sido tratado oficialmente como mera tradição republicana, extensiva a todos os ex-presidentes da República no período democrático, a presença simbólica de Bolsonaro na posse de seu indicado seria um constrangimento aos demais integrantes da Corte. O ex-presidente cumpre prisão domiciliar após condenação superior a 27 anos de prisão pelos crimes relacionados à tentativa de ruptura institucional. O constrangimento se ampliria porque Bolsonaro, caso decidisse comparecer à cerimônia, dependeria de autorização do ministro Alexandre de Moraes, relator das ações penais relacionadas ao golpe. Moraes e Bolsonaro nunca se bicaram. A escalada de confronto entre ambos foi o epicentro do choque entre forças golpistas, liderada pelo então presidente da República, e a resistência democrática, ancorada nas instituições da República, sobretudo o STF e o TSE. Moraes presidia o TSE nas eleições de 2022, nas quais o ex-presidente foi derrotado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Agora, a posse de novo presidente do TSE pode ser palco de mais um capítulo da longa escalada de confrontos entre ambos. A decisão de Nunes Marques também fortaleceu o discurso da oposição no Congresso, especialmente do PL, partido de Bolsonaro. O líder da legenda na Câmara, deputado Sóstenes Cavalcante (RJ), retomou imediatamente a mobilização em torno de uma Proposta de Emenda Constitucional que prevê anistia geral aos condenados pelos atos golpistas do 8 de Janeiro. Moraes é acusado pela oposição de “invasão de competências” e “afronta à democracia”, ao suspender a aplicação da nova lei de dosimetria das penas, que reduziria drasticamente a pena de prisão de Bolsonaro. A PEC apresentada pelo PL possui alcance amplo. O texto prevê anistia para condenados por crimes de dano qualificado, deterioração de patrimônio público, associação criminosa armada, tentativa de abolição do Estado Democrático de Direito e golpe de Estado. Na prática, a proposta abre caminho para beneficiar não apenas participantes diretos das invasões às sedes dos Três Poderes, mas também Jair Bolsonaro, apontado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) e condenado pelo STF como líder político da articulação golpista. Deslegitimação A movimentação recoloca o Congresso em rota de colisão com o Supremo. Nos bastidores do STF, ministros enxergam na nova ofensiva parlamentar uma tentativa de deslegitimar as decisões da Corte e transformar condenados por crimes contra a democracia em vítimas políticas. São recorrentes as críticas ao protagonismo judicial de Moraes, sobretudo entre setores conservadores e bolsonaristas. Indicado ao STF por Bolsonaro em 2020, Nunes Marques construiu na Corte um perfil discreto, tecnicamente conservador e frequentemente alinhado a posições defendidas pelo ex-presidente. Natural de Teresina, com trajetória na advocacia, no Tribunal Regional Eleitoral do Piauí (TRE-PI) e, posteriormente, no TRF-1, Nunes Marques foi a primeira indicação de Bolsonaro ao Supremo, onde cultivou uma imagem de magistrado avesso a confrontos públicos. No STF, porém, suas decisões o aproximaram da ala mais crítica ao ativismo judicial. O ministro votou em favor de interpretação mais restritiva sobre responsabilização de plataformas digitais, defendeu maior proteção à liberdade de expressão e assumiu relatorias sensíveis em temas econômicos e eleitorais. Sua eleição para o comando do TSE, ao lado do ministro André Mendonça, também indicado por Bolsonaro, consolidou a percepção de que a Justiça Eleitoral terá neste ciclo uma condução menos identificada com a linha adotada nos últimos anos por Moraes e pela ministra Cármen Lúcia. Embora Nunes Marques tenha perfil “sereno e técnico”, o gesto protocolar de convidar Bolsonaro e Collor foi considerado dentro do STF como um recado político em favor da “normalização” institucional dos condenados pela Justiça por tentativa de golpe de estado. No caso de Collor, que cumpre prisão domiciliar, representa mais um revés para Lava-Jato, operação que dividiu profundamente o Supremo ao longo da última década. O histórico de confrontos entre Bolsonaro e Moraes mostra como a decisão de Nunes Marques parece até uma provocação. O embate começou em 2020, quando o ministro do STF suspendeu a nomeação do delegado Alexandre Ramagem para a direção-geral da Polícia Federal, sob argumento de desvio de finalidade e proximidade excessiva com a família Bolsonaro. A decisão foi vista pelo então presidente como interferência direta do Judiciário em seu governo.
A Biblioteca Central da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e os estúdios da Faculdade de Comunicação (Facom/UFJF) estão entre os cenários de gravações do documentário “12 Dias”, que reconstitui o sequestro da Rua das Margaridas, ocorrido em agosto de 1990 no bairro Novo Horizonte, em Juiz de Fora. O episódio do sequestro é considerado um dos mais longos da história de Minas Gerais e permanece vivo na memória da população de Juiz de Fora.
Juiz de Fora vai ganhar um documentário que revisita um dos episódios mais marcantes da sua história recente.
O movimento tático da defesa de Jair Bolsonaro ao protocolar um pedido de revisão criminal em maio de 2026 visa, primordialmente, retirar o caso das mãos da Primeira Turma do STF (liderada por Alexandre de Moraes) e levá-lo para a Segunda Turma ou ao Plenário.Aqui estão os pontos-chave dessa "partida de xadrez" jurídica:O Próximo Lance (Relatoria): A chave do xadrez foi entregue ao ministro Kassio Nunes Marques, sorteado em 11 de maio de 2026 como relator da revisão criminal. Por ser um ministro indicado por Bolsonaro e integrante da Segunda Turma, sua atuação é vista pela defesa como um terreno mais favorável.A Estratégia do "Erro Judiciário": Os advogados alegam que a condenação a 27 anos e 3 meses foi baseada em erro, questionando a competência da Primeira Turma para julgar um ex-presidente e pedindo a anulação da delação de Mauro Cid.O Tempo e o "Carcereiro": Enquanto o ex-presidente cumpre prisão domiciliar humanitária por questões de saúde (desde março de 2026), o tempo corre em meio a movimentações políticas, como a promulgação da Lei da Dosimetria pelo Congresso, que poderia reduzir sua pena para 20 anos.O Risco do "W.O.": No contexto jurídico, um "W.O." (vitória por falta de comparência ou omissão) seria análogo a uma nulidade processual absoluta ou a um erro procedimental que invalidasse todo o julgamento anterior sem análise do mérito. Embora nebuloso, é o que a defesa busca ao apontar que o trânsito em julgado foi "prematuro".A decisão de Nunes Marques sobre admitir ou não as novas provas e o envio do caso para o revisor na Segunda Turma determinarão se o "encarcerado" conseguirá reverter o jogo.
erça-feira, 12 de maio de 2026 Autonomia ou Dependência? Por André Lara Resende Um Cético Esperançoso As políticas de juros dos bancos centrais estão no cerne dos mercados financeiros. Movem preços de todos os ativos, provocam ganhos e perdas, transferem riqueza, estimulam ou desestimulam a economia. Não surpreende que estejam submetidas a todo tipo de pressões políticas. Depois de dois anos de duras críticas à política de juros do Banco Central, Lula indicou Gabriel Galípolo para a sua diretoria em 2023. Houve quem achasse que poderia haver uma inflexão na política do BC. No entanto, nada mudou. Nas primeiras reuniões do comitê de política monetária, o Copom, a decisão foi sempre por manter ou até mesmo elevar os juros. Galípolo era apenas uma voz entre os nove diretores membros do comitê — nada poderia fazer para rever a política em curso, alegaram os que contavam com ele para reduzir os juros. Alçado à presidência do BC no início de 2025, esperava-se que Galípolo tivesse autoridade para finalmente dar início a uma queda consistente até uma taxa compatível com as internacionais. Mais uma vez, não foi o que ocorreu. Ao contrário, com Galípolo na presidência, o BC continuou a elevar os juros. A taxa real de juros é da ordem de 10% ao ano, insustentável quando a economia cresce a menos de um terço disso. Lula, e também Haddad no Ministério da Fazenda, não deixaram de demonstrar discordância em relação aos juros excessivos, mas nunca fizeram críticas abertas a Galípolo na presidência do BC. Nos Estados Unidos, Kevin Warsh, indicado por Trump, deve presidir o Fed a partir da segunda metade de maio. Paira sobre ele a dúvida de que mantenha independência de política monetária. Trump tem atacado de forma recorrente o Banco Central americano e seu atual presidente insistindo que os juros deveriam ser mais baixos. Duramente criticado e processado sob alegação de aprovar gastos excessivos na reforma da sede do Fed, Powell se manteve inflexível na defesa da autonomia para conduzir a política de juros. Numa quebra da tradição, Powell não pretende deixar a diretoria do Fed após ser substituído por Warsh na presidência. Insiste em continuar até que o processo contra ele seja concluído, pois seu mandato como diretor vai até janeiro de 2028. Warsh tem sólida formação em economia e direito, foi dos mais jovens diretores do Fed na primeira década deste século, sob o comando de Ben Bernanke. Não lhe faltam credenciais. Também não pode ser acusado de ser “dovish” — condescendente com políticas excessivamente expansionistas —; ao contrário, sempre foi considerado “hawkish”, linha dura, na condução da política monetária. Na crise de 2008, quando o Fed inovou ao introduzir a expansão direta do crédito por meio do Quantitative Easing (QE), Warsh foi contra o seu prolongamento além da crise. Anos depois, já fora do Fed, criticou duramente a segunda rodada do QE durante a epidemia de Covid. O problema é que agora, apesar de negar ter recebido qualquer instrução para baixar os juros, Warsh, ao menos explicitamente, recusa-se a discordar do presidente. Não respondeu à pergunta da senadora Elizabeth Warren sobre se Trump havia realmente perdido a eleição de 2020. Saiu pela tangente e recusou-se a confirmar a efetiva derrota do ex-presidente. Apesar disso, por razões semelhantes às de Galípolo, Warsh dificilmente promoverá uma guinada na política do BC americano. O mais provável, como sugere a relativa tranquilidade dos mercados, é que o Fed se mantenha fiel a uma condução técnica da política monetária. Aqui e lá, no Brasil e nos EUA, assim como em toda parte, parece haver um consenso de que não há alternativa. Por mais fortes que sejam as pressões, um banco central que se afaste dos preceitos técnicos estabelecidos corre o risco de provocar uma crise financeira e um surto inflacionário de consequências imprevisíveis. Há um consenso institucional de que não existe alternativa para a condução da política de juros. Este consenso político, contudo, coexiste com uma profunda perplexidade sobre as bases conceituais da política monetária. A teoria estabelecida na segunda metade do século passado, segundo a qual uma restrição monetária elevava o juro, desestimulava a demanda, provocava recessão e desemprego, moderando a alta dos salários e dos preços, foi silenciosamente aposentada. Sem pretender retomar o tema — já o tratei de forma exaustiva em meus livros Juros, Moeda e Ortodoxia (2017) e Consenso e Contrassenso (2020), publicados pela Companhia das Letras —, me restrinjo a listar dois fatos incontroversos. Primeiro: os bancos centrais não controlam a moeda, mas sim a taxa básica de juros. Segundo: a relação inversa entre recessão, desemprego e inflação, expressa pela Curva de Phillips, desapareceu. Sem o seu tradicional canal de transmissão — da redução da demanda para o desemprego e a capacidade ociosa, e destas para os preços —, a política monetária perdeu seu substrato conceitual. Ainda hoje, todo trabalho acadêmico parte de um modelo matemático com relação inversa entre capacidade utilizada e inflação para, depois de muita álgebra, chegar a uma equação simples que relaciona essencialmente a inflação às expectativas de inflação. O resumo da ópera é que, após extensa formulação matemática, a teoria dominante conclui que o que provoca inflação são as próprias expectativas de inflação. Algumas perguntas básicas se impõem. De quem são essas expectativas e como são formadas? No Brasil, assume-se que sejam as do mercado financeiro, coletadas e divulgadas semanalmente pela Pesquisa Focus do Banco Central. Por que apenas as expectativas do mercado financeiro, se os preços que compõem o índice de inflação não são por ele fixados? Supostamente, o mercado, onisciente, reflete as expectativas da sociedade. Quanto ao processo de formação dessas expectativas, a teoria é vaga. Já foram retroativas, baseadas na inflação observada; depois passaram a ser prospectivas, racionais, baseadas no que prevê o próprio modelo conceitual. Após a refutação lógica e empírica das inúmeras hipóteses sobre o que determina o nível de preços, restou apenas a relativamente nova Teoria Fiscal do Nível de Preços, TFNP, uma complexa formulação matemática que associa a inflação à trajetória futura do déficit fiscal. Por depender de inúmeras variáveis inobserváveis, a TFNP não pode ser empiricamente refutada. Chega-se assim ao resumo da base técnica da política monetária hoje: a inflação depende das expectativas do mercado financeiro, que por sua vez dependem do modelo conceitual, que postula, sem comprovação empírica possível, serem função da trajetória futura das contas públicas. Ainda assim, o protocolo para a condução da política de juros — baseado na heurística da Regra de Taylor — manda subir os juros sempre que sobem as expectativas de inflação do mercado financeiro. O fato de que a alta dos juros agrave a trajetória das contas públicas, o que segundo o próprio modelo deveria aumentar as expectativas de inflação, não parece incomodar os defensores da condução técnica. É apenas mais uma das inúmeras contradições da macroeconomia contemporânea. A conclusão é inescapável: não há nada de técnico, muito menos de científico, na base das políticas dos bancos centrais. Pelo contrário, na falta de embasamento lógico e empírico, adota-se um protocolo heurístico. Basta um pouco de reflexão para concluir que estamos muito mais para crenças dogmáticas do que para técnicas científicas. Parte superior do formulário Parte inferior do formulário Voltemos a Galípolo. Quem o conhece não tem como acusá-lo de despreparo. Tem formação acadêmica de qualidade, conhece a fundo a teoria econômica e monetária neoclássica. Ao contrário de muitos outros indicados para a diretoria do Banco Central, tem experiência prática de mercados financeiros. Além da competência técnica, domina a crítica ilustrada à teoria econômica dominante e transita com familiaridade pela teoria do conhecimento. Sei que Galípolo compartilha da convicção de que a taxa de juros fixada pelo Banco Central é um grave equívoco. Só a força do consenso institucional em relação à inexistência de alternativa pode explicar a sua conversão à ortodoxia. Segundo a teoria neoclássica, a taxa de juros não é determinada pelo BC, mas pela oferta de fundos emprestáveis, ou seja, pela poupança. Como a taxa de poupança no Brasil é baixa e o déficit público é alto, o resultado seria uma alta taxa de juros estrutural. Tenho feito críticas recorrentes a essa noção — disponíveis no meu Substack, em “Dívida Pública, Riqueza Privada” — e não pretendo repeti-las aqui. Uma outra vertente teórica, com apelo tanto para a ortodoxia quanto para alguns de seus críticos, sustenta que a taxa de juros de uma economia periférica é determinada pelos fluxos de capitais financeiros. A taxa de equilíbrio seria função dos juros nos EUA — ainda hoje a economia da moeda de referência internacional — mais o prêmio de risco do país. O capital financeiro se deslocaria para “arbitrar” qualquer desvio em relação a essa taxa, composta pelos juros americanos, somados ao prêmio de risco e à expectativa de desvalorização cambial. O tema tem longa tradição na literatura técnica sobre economias financeiramente integradas. A versão contemporânea pode ser resumida assim: o câmbio é importante determinante da inflação; logo, para controlar a inflação é preciso controlar o câmbio; e para controlar o câmbio é preciso abrir mão do controle dos juros. O BC ditaria efetivamente a taxa de juros, mas, para não perder o controle cambial e inflacionário, não poderia fugir da taxa determinada pelo fluxo de capitais de curto prazo. Anunciaria, portanto, apenas a taxa exigida pelo mercado. O Banco Central só teria autonomia para implementar o que exige o mercado. Não é o BC que pauta o mercado, mas o mercado quem pauta o Banco Central. Este é o raciocínio que sou obrigado a ouvir e contestar de forma recorrente. A redução da taxa de juros provocaria fuga de capitais e forte desvalorização cambial. A inflação sairia de controle, as expectativas seriam “desancoradas”, o que reforçaria o surto inflacionário numa espiral incontrolável. Para recuperar a credibilidade, o BC seria forçado a reverter a redução e elevar a taxa a níveis ainda mais altos, sob risco de mergulhar o país no caos. Não concordo, e explico por quê. É fato que o diferencial de juros é um importante fator na atração de capitais especulativos de curto prazo, que influenciam a taxa de câmbio. Ocorre que a taxa de juros brasileira é muito superior à necessária para equilibrar o câmbio num patamar competitivo. Um país com superávit comercial sustentado há mais de duas décadas, autossuficiente em energia, exportador de petróleo e com quase 20% do PIB em reservas internacionais não precisa de uma taxa de juros mais de três vezes superior às internacionais para evitar uma corrida cambial. A redução dos juros, se implementada não como ato de voluntarismo político, mas de forma inteligente e fundamentada, deixaria claro que todos têm a ganhar. Os capitais de curto prazo continuariam atraídos por um diferencial ainda muito positivo. Uma eventual desvalorização cambial inicial seria rapidamente revertida pela melhora das perspectivas de crescimento e do custo da dívida pública. Ninguém pode argumentar contra o fato de que a redução da taxa de juros estimularia o investimento, a produtividade e o crescimento — reduzindo ao mesmo tempo o numerador e aumentando o denominador da relação dívida/PIB, o principal indicador de risco de crédito do país. Galípolo conhece os equívocos conceituais do consenso dominante. Jovem, com uma carreira profissional pela frente, fez uma opção em relação a suas alianças.Trata-se de um exemplo prático da analogia das ideias com as roupas, que tratei em “A Teimosa Persistência das Crenças”. Assim como as roupas, as ideias podem ter dupla função: a prática e a simbólica. Quando as circunstâncias não impõem sua função prática, adota-se a simbólica — aquela que nos identifica com um determinado grupo. Galípolo optou por privilegiar a função simbólica das crenças e estabelecer as alianças que lhe parecem mais convenientes. Assim fazemos quase todos e quase sempre, na maioria das vezes de forma inconsciente. Existe sim alternativa para rever os juros absurdos impostos pelo Banco Central, mas é preciso quebrar a barreira ideológica que, sob pretensa fundamentação técnica, transformou a política de juros num poderoso canal de transferência de renda e riqueza. Enquanto isso não ocorrer, pouco importa que os bancos centrais sejam presididos por pessoas competentes como Galípolo e Kevin Warsh. Os dogmas institucionalizados garantem que o protocolo continuará a ser cumprido.
Entender o poder é o primeiro passo para não cair nas armadilhas dele. 🏛️⚖️ No dia a dia, é fácil confundir força com autoridade — e segredo com “estratégia”. Bobbio insistia num ponto simples: em democracia, o poder precisa ser visível, explicável e passível de contestação. Do Banquete, das Crenças e do Governo Invisível das Coisas À maneira de um convívio entre antigos e modernos I. Do motivo deste banquete Assim como outrora Dante Alighieri ofereceu, em seu Convivio, alimento aos que, privados do latim dos doutos, careciam do pão do entendimento, também aqui se propõe um banquete — não de iguarias sensíveis, mas de reflexões sobre o poder, o saber e a verdade. Pois convém saber que nem todo alimento nutre igualmente, e que muitas vezes aquilo que se oferece como substância é apenas forma, e aquilo que se apresenta como verdade é já interpretação servida à mesa. E, sendo assim, não é despropositado investigar quem cozinha, quem serve e quem consome — e sob quais regras invisíveis se organiza o convívio. II. De como o saber se faz pão e se distribui com medida Digo que o saber humano não chega aos homens em estado puro, mas sempre acompanhado de mediação, assim como o pão acompanha os pratos mais sólidos para torná-los assimiláveis. E esta mediação não é inocente. Pois quem traduz o saber: escolhe suas palavras, determina suas formas, e, não raro, limita seu alcance. Assim, o que se apresenta como universal pode ser, em verdade, particular — e o que se anuncia como necessário pode ser apenas costume reiterado. Nisso concordaria Antonio Gramsci, ao sustentar que o domínio mais eficaz não é o que se impõe pela força, mas o que se infiltra no entendimento, fazendo com que os homens aceitem como natural aquilo que lhes foi ensinado a não questionar. III. Do consenso que se faz natureza Há entre os modernos uma arte refinada, pela qual certas opiniões deixam de parecer opiniões e passam a ser tomadas como evidências. E isso ocorre não porque sejam demonstradas, mas porque são repetidas sob o nome de ciência, técnica ou prudência. Neste ponto, muito instrutivo é o testemunho de André Lara Resende, o qual, com espírito simultaneamente cético e esperançoso, observa que a política dos juros — tida como fundamento técnico — repousa sobre bases frágeis, quando não contraditórias. Pois se diz: que a inflação depende de expectativas, que as expectativas dependem de modelos, e que os modelos não podem ser plenamente verificados. Logo, o edifício ergue-se não sobre certeza, mas sobre aceitação. E, ainda assim, permanece firme — não pela solidez de seus fundamentos, mas pela força do consenso que o sustenta. IV. Do poder que se reorganiza sem se alterar Não se deve, contudo, supor que tal ordem se mantenha imóvel. Ao contrário, ela se move — mas move-se como o anagrama, que rearranja letras sem alterar o conjunto. Assim se compreende o que descreve Fernando Gabeira, ao tratar de episódios em que a revelação prometida se converte em redistribuição calculada. Pois não se desfaz o sistema: apenas se reordenam suas partes, redistribuem-se responsabilidades, e se preserva o essencial sob nova aparência. E, desse modo, aquilo que parecia ruptura revela-se continuidade sob outra forma. V. Do teatro das instituições Também não escapa à observação que o poder não atua apenas nos conteúdos, mas nas formas e nos gestos. Como bem indica Luiz Carlos Azedo, há ocasiões em que convites, presenças e símbolos falam mais do que decisões explícitas. E assim se constrói um teatro em que: a aparência de normalidade encobre a tensão, o gesto protocolar dissimula a intenção, e o espetáculo sustenta a ordem. Pois o poder, quando maduro, já não necessita afirmar-se — basta-lhe parecer natural. VI. Das ideias como vestes Convém ainda considerar uma observação sutil: as ideias não servem apenas para compreender o mundo, mas também para situar os homens dentro dele. Como as vestes: têm função prática, mas também simbólica; protegem, mas também identificam. E assim ocorre que homens instruídos, conhecedores das fragilidades de certas doutrinas, ainda assim as adotam — não por ignorância, mas por pertencimento. Este é o ponto mais delicado do convívio: não se trata de erro, mas de adesão. VII. Conclusão: do banquete que se fecha sobre si Chegamos, portanto, a uma conclusão que não é leve. O banquete do saber, do poder e da verdade: não é livre, não é neutro, e não é plenamente acessível. Ele se organiza segundo regras que: distribuem o que pode ser dito, delimitam o que pode ser pensado, e orientam o que pode ser feito. E, ainda assim, apresenta-se como aberto. Se Dante Alighieri estivesse entre nós, talvez dissesse que muitos se alimentam sem saber de que se nutrem. E Antonio Gramsci acrescentaria que o mais poderoso dos domínios é aquele que dispensa vigilância, porque já foi interiorizado. Resta, então, ao conviva atento — cético, mas não desesperado — reconhecer que: não é necessário destruir o banquete para compreendê-lo, mas é indispensável perceber que os pratos, o pão e a ordem do serviço nunca são inocentes. Se quiser,
Juros, moeda e ortodoxia - Teorias monetárias e controvérsias políticas Capa comum – 26 junho 2017 Edição Português por André Lara Resende (Autor) Neste conjunto de ensaios, André Lara Resende reflete sobre as origens e o desenvolvimento da teoria monetária e suas implicações no contexto brasileiro. Juros, inflação e política fiscal recebem do autor um enfoque inovador, ancorado nas melhores investigações da atualidade, que põem em questão algumas convicções estabelecidas. Da teoria à história, os ensaios discutem as políticas comumente receitadas para a inflação crônica, a recessão e o desemprego. Antes de buscar a polêmica fácil ou propor uma “nova heterodoxia”, este livro pretende estimular o debate ao abrir uma janela de oportunidade para a reflexão sobre políticas públicas da mais alta relevância. Livro II — Da Moeda, dos Juros e das Crenças que Regem o Valor No qual se trata da natureza da riqueza, do governo invisível dos preços e das razões pelas quais os homens obedecem ao que não compreendem inteiramente I. Do lugar da moeda no convívio humano Convém, antes de tudo, estabelecer que a moeda, embora pareça coisa simples — instrumento de troca e medida de valor —, é, na verdade, uma das mais sutis construções do engenho humano. Pois ela não possui valor em si, mas o recebe: da confiança dos homens, da autoridade das instituições, e do costume reiterado. E assim, sendo fundada não na matéria, mas na crença, a moeda pertence mais ao domínio do entendimento do que ao das coisas sensíveis. II. De como o preço do tempo se tornou soberano Entre todos os preços que regem o convívio econômico, nenhum se mostra tão elevado quanto o preço do tempo — isto é, o juro. Pois o juro: decide o valor do presente em relação ao futuro, regula o investimento e o consumo, e distribui ganhos e perdas entre os homens. E, no entanto, aquilo que tanto governa raramente é plenamente compreendido. Diz-se que sua determinação é técnica, fruto de cálculos refinados e leis necessárias. Mas, como observa André Lara Resende, essa aparência de rigor encobre incertezas profundas. III. Da fragilidade dos fundamentos tidos por firmes A doutrina corrente afirma que: elevar juros reduz a demanda, reduzindo a demanda, contêm-se os preços, e, assim, se governa a inflação. Mas tal cadeia, outrora aceita como evidente, já não se sustenta com a mesma firmeza. Pois: a relação entre desemprego e inflação se enfraqueceu, os canais de transmissão tornaram-se obscuros, e as próprias teorias foram ajustadas para acomodar suas falhas. Chega-se, então, a uma formulação curiosa: a inflação depende das expectativas e as expectativas dependem daquilo que se acredita que ocorrerá Assim, o edifício teórico repousa sobre si mesmo, como arco sustentado por sua própria curvatura. IV. Das expectativas como governo invisível Pergunta-se, com razão: de quem são essas expectativas? Responde-se: do mercado. E quem é o mercado? Um conjunto de agentes cuja visão se toma por representação do todo. E assim se estabelece uma ordem em que: poucos formam expectativas, muitos se submetem a elas, e todos são afetados por suas consequências. Aqui se revela, mais uma vez, o ensinamento de Antonio Gramsci: 👉 o poder mais eficaz não impõe — orienta 👉 não ordena — induz 👉 não se mostra — naturaliza-se O que se chama “expectativa” pode, portanto, ser também hegemonia em estado numérico. V. Da autonomia que se converte em dependência Afirma-se que os bancos centrais são autônomos. E, de fato, o são em relação aos governos eleitos. Mas não o são necessariamente em relação ao sistema de crenças que os orienta. Pois, como argumenta André Lara Resende: a política de juros segue protocolos, os protocolos seguem modelos, e os modelos seguem pressupostos não demonstráveis. Logo, a autonomia formal pode coexistir com dependência substancial. Não se obedece a um governante visível, mas a uma ordem conceitual invisível. VI. Do capital errante e da disciplina dos fluxos Há ainda aqueles que sustentam que os juros não podem divergir dos padrões internacionais, sob pena de fuga de capitais e desordem cambial. E assim se constrói um argumento de necessidade: os fluxos financeiros exigem conformidade, a conformidade exige juros elevados, e os juros elevados se tornam inevitáveis. Mas tal necessidade pode ser menos absoluta do que se afirma. Pois, como observa o mesmo autor: países com fundamentos sólidos não precisam submeter-se integralmente a tais pressões, e a crença na inevitabilidade pode ser maior que a própria limitação. Aqui o anagrama retorna: não se altera o sistema — apenas se reorganiza a justificativa. VII. Do juro como instrumento de redistribuição Convém não esquecer que o juro não apenas regula a economia — ele também redistribui riqueza. E o faz de modo silencioso: transferindo renda de devedores para credores, elevando o custo da dívida pública, e condicionando o crescimento. Assim, o que se apresenta como técnica revela-se também política. Mas, por ser mediado por linguagem especializada e fórmulas abstratas, escapa ao escrutínio comum. E, desse modo, permanece no banquete como prato servido aos poucos — mas de grande efeito. VIII. Das crenças que vestem a razão Retomemos, por fim, a analogia das ideias como vestes. Quando a função prática enfraquece, prevalece a simbólica: adota-se a doutrina que identifica, preserva-se o discurso que integra, e evita-se a ruptura que exclui. Assim se compreende por que: mesmo conhecendo as fragilidades do sistema, muitos de seus guardiões permanecem fiéis a ele. Não por erro, mas por posição. IX. Conclusão: do círculo que se fecha Diante do exposto, pode-se dizer que a ordem monetária contemporânea se assemelha a um círculo: as teorias sustentam as expectativas, as expectativas sustentam as políticas, e as políticas reforçam as teorias. E, assim, o sistema se mantém — não por prova definitiva, mas por coerência interna. Se Dante Alighieri estivesse à mesa, talvez dissesse que este é um banquete em que o pão da explicação se tornou mais relevante que o alimento que deveria sustentar. E o conviva prudente, inspirado pelo ceticismo esperançoso de André Lara Resende, reconheceria que: não é suficiente aceitar o prato servido, nem basta recusar o alimento, mas é necessário compreender a cozinha — suas regras, seus limites e suas crenças. Só então será possível saber se o que se chama de necessidade é, de fato, inevitável — ou apenas mais um arranjo entre muitos possíveis. Se quiser, S09E40: Otto Lara Resende ou Bonitinha, mas ordinária, de Nelson Rodrigues Livrada! Resenha de uma das peças de teatro, com todo tipo de maluquice, que saia da cabeça do Nelson Rodrigues. Mônica Salmaso | O velho Francisco | Show "Noites de Gala, Samba na Rua" ao vivo Biscoito Fino 3 de ago. de 2015 #BiscoitoFino #MonicaSalmaso #NoitesDeGalaSambaNaRua Vídeo oficial da faixa "O velho Francisco" parte do show "Noites de Gala, Samba na Rua" de Mônica Salmaso. O velho Francisco Monica Salmaso Já gozei de boa vida Tinha até meu bangalô Cobertor, comida Roupa lavada Vida veio e me levou Fui eu mesmo alforriado Pela mão do Imperador Tive terra, arado Cavalo e brida Vida veio e me levou Hoje é dia de visita Vem aí meu grande amor Ela vem toda de brinco, vem Todo domingo Tem cheiro de flor Quem me vê, vê nem bagaço Do que viu quem me enfrentou Campeão do mundo Em queda de braço Vida veio e me levou Li jornal, bula e prefácio Que aprendi sem professor Freqüentei palácio Sem fazer feio Vida veio e me levou Hoje é dia de visita Vem aí meu grande amor Ela vem toda de brinco, vem Todo domingo Tem cheiro de flor Eu gerei dezoito filhas Me tornei navegador Vice-rei das ilhas Da Caraíba Vida veio e me levou Fechei negócio da China Desbravei o interior Possuí mina De prata, jazida Vida veio e me levou Hoje é dia de visita Vem aí meu grande amor Hoje não deram almoço, né? Acho que o moço até Nem me lavou Acho que fui deputado Acho que tudo acabou Quase que Já não me lembro de nada Vida veio e me levou Composição: Chico Buarque. O VELHO FRANCISCO Intérprete: Mônica Salmaso Autoria: Chico Buarque DVD, ao vivo, gravado em março de 2008 no teatro Fecap em São Paulo, registra o show homônimo, que já passou pelas principais capitais do país. Ao lado do quinteto Pau Brasil, formado por Nelson Ayres (piano), Paulo Bellinati (violão e cavaquinho), Teco Cardoso (sax e flautas), Ricardo Mosca (bateria) e Rodolfo Stroeter (baixo), Mônica Salmaso contempla diversas fases do autor Chico Buarque. Compre o DVD em https://www.biscoitofino.com.br/dvd/d... #BiscoitoFino #MonicaSalmaso #NoitesDeGalaSambaNaRua Chico Buarque - "O velho Francisco" (Clipe Oficial) Biscoito Fino 4 de nov. de 2011 Cinco anos após sua ultima turnê, Chico Buarque ensaia para o show de lançamento do seu novo Cd "Chico" Música "O velho francisco "

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