sábado, 16 de maio de 2026

A CRÔNICA DO DOMINGO (edição para o Largo do Machado)

— Deixa por… — Que malandro. (Entre o dito e o pensado, ficou a verdade — como sempre, do lado mais esperto.) O resto — como já se escreveu em melhor estilo — pertence à literatura. Se quiser, A Severa (1931) Filme completo Mundo em Português 27 de mai. de 2019 A Severa (1930) é um filme de José Leitão de Barros, o primeiro filme sonoro produzido em Portugal e realizado por um português. Baseia-se na obra com o mesmo nome do dramaturgo Júlio Dantas. Estreou no Teatro São Luíz, Lisboa, em 18 de Junho de 1931 e foi um enorme sucesso; esteve mais de 6 meses em cartaz, tendo sido visto por cerca de 200 mil espectadores. Info: https://pt.wikipedia.org/wiki/A_Sever...)
sábado, 16 de maio de 2026 A gargalhada de Flávio eleva a mentira a um novo patamar de cinismo, por Thaís Oyama O Globo A mentira não triunfa só quando convence, mas quando as pessoas já não se dão ao trabalho de separá-la da verdade A gargalhada que Flávio Bolsonaro deu diante da pergunta do repórter do site Intercept Brasil é daquelas cenas destinadas aos anais da política — evidentemente, não por engrandecê-la. — Mentira. De onde você tirou isso? — disse o senador quando confrontado pelo jornalista com a informação de que o filme sobre Jair Bolsonaro havia sido financiado por Daniel Vorcaro. Nas imagens, à disposição na internet, Flávio lança uma rápida olhada para as câmeras simulando incredulidade, então solta a risada de ator canastrão. — Pelo amor de Deus — desdenha, virando as costas. Quando, pouco mais tarde, teve de divulgar uma gravação desmentindo a si próprio, e à sua gargalhada, não se viu em seu rosto sinal de rubor nem se ouviu em sua fala menção à negativa de momentos antes: — O que aconteceu foi um filho procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai — disse, agora consternado e cândido. A negativa de Flávio, e sua gargalhada cenográfica, levaram a mentira a um novo patamar de cinismo —mas isso parece importar cada vez menos no Brasil. Na reunião de emergência com sua equipe de campanha após o episódio, o pré-candidato à Presidência pelo PL jurou que nada mais aparecerá contra ele — no que, obviamente, ninguém acreditou. Os R$ 61 milhões que recebeu de Vorcaro, segundo Flávio para financiar a cinebiografia de Jair Bolsonaro, nunca chegaram à empresa responsável pelo longa, a Go Up, dizem os responsáveis. E o fato de ao menos parte desse dinheiro ter ido parar num fundo nos Estados Unidos, gerido pelo advogado de seu irmão, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, tampouco ajuda a dirimir as suspeitas de que Flávio fingiu pedir dinheiro para fazer um filme sobre o pai, e Vorcaro fingiu acreditar que o desembolso era para isso mesmo. Diante de tantos e escrachados descalabros, a candidatura de Flávio ainda não caiu. Integrantes da campanha dizem que a ideia é reavaliá-la na hipótese de um “evento catastrófico”, como se refere um deles à possibilidade de novas e graves revelações. Por via das dúvidas, Michelle Bolsonaro vem sendo testada em monitoramentos internos do PL como vice da senadora Tereza Cristina (PP) e aparecerá em pelo menos uma pesquisa pública na semana que vem como alternativa a Flávio. O plano B do PL, ainda que costurado com outros partidos, depende das duas opiniões que de fato contam: a de Jair Bolsonaro e a de Valdemar Costa Neto. Sobre o primeiro, um político próximo diz que Jair não tem “condições nem psicológicas” de, preso, suportar a ideia de ver a mulher candidata — ao menos como titular da chapa. Valdemar se guia por um critério único e bem menos sentimental: vale o candidato, ou candidata, capaz de levar mais deputados ao partido (cem cadeiras na Câmara, sua meta, equivalem a R$ 1 bilhão em fundo partidário). Ele trabalhará para substituir Flávio apenas se a hipótese do “evento catastrófico” tornar o filho de Jair um elemento radioativo em vez de puxador de bancada. Na mesma linha, especialistas em pesquisas de opinião avaliam que, nada mais acontecendo por ora, os próximos levantamentos não mostrarão uma queda de Flávio capaz de sepultar sua candidatura. Uma parcela do voto antipetista pode migrar para os pré-candidatos Romeu Zema, Ronaldo Caiado ou Renan Santos, mas, no curto prazo, os bolsonaristas tendem a engolir o que Flávio disser, e os indecisos continuarão preocupados mais com as contas por vencer que com corrupções e lorotas de políticos. É prova de que a mentira não triunfa só quando convence, mas quando as pessoas já não se dão ao trabalho de separá-la da verdade. A gargalhada de Flávio Bolsonaro mostra que ele sabe disso. As críticas ao encontro exclusivamente @BBCNewsBrasil
Diziam os malditos da rádio corredor — essa diplomacia sem farda, que governa sem assinar — que o Salão Oval fora preparado não para um encontro, mas para um pequeno experimento moral. Não se espante o leitor: a política, desde muito, prefere o teatro à verdade; e, quando pode, dispensa até o ensaio. O plano de Donald Trump, homem de fortuna sonora e imaginação prática, era simples — e, por isso mesmo, eficaz: ocultar Nicolás Maduro atrás de cortinas respeitáveis e fazê-lo surgir, como lembrança inoportuna, diante de Luiz Inácio Lula da Silva. Esperava-se o constrangimento — esse incidente que não figura nos tratados, mas decide muitas simpatias. Entrei no recinto na qualidade de Ministro Plenipotenciário, levando comigo as credenciais e uma ideia fixa: a de que os impérios variam de endereço, mas a vaidade dos homens permanece sedentária. O anfitrião sorria com a serenidade dos que nunca foram contrariados pela realidade. Havia nele algo de Quincas Borba — não o filósofo, que duvidava, mas o herdeiro, que gastava. Fez-se o sinal. A cortina moveu-se. Surgiu Nicolás Maduro — não como conspirador, mas como ator que entra em cena antes do aplauso estar combinado. O ar, até então protocolar, tornou-se curioso. Os circunstantes compuseram seus rostos: uns para o triunfo, outros para a prudência. Foi então que interveio o acaso — esse funcionário sem cargo que costuma decidir mais que os ministros. Luiz Inácio Lula da Silva, em vez de aceitar o papel que lhe destinavam, preferiu outro — o que não estava escrito. Mediu a situação com o canto do olho, gesto breve, mas suficiente, e, como quem reconhece uma peça mal armada, recusou-se a representá-la. Abriu os braços. Aproximou-se de Nicolás Maduro e abraçou-o com naturalidade — esse escândalo em certas salas. A armadilha, concebida para produzir efeito, dissolveu-se no contato humano, que é menos elegante, porém mais eficaz. Voltou-se então para Donald Trump, cujo sorriso principiava a refletir: — Escondeu o homem no armário? A frase, como se vê, não era diplomática; mas tinha a vantagem de ser compreensível. Não houve resposta imediata. Convém notar que o silêncio, nesses casos, não significa ausência de pensamento — apenas excesso dele. Sentaram-se. Ou, mais exatamente, foram sentados pela circunstância, que às vezes é a única autoridade respeitada. O brasileiro, com uma mão em cada interlocutor, reduziu a cena à sua forma elementar — uma conversa. Nada mais perigoso. — O mundo já tem problemas bastantes — disse ele — para ainda cultivar intrigas de corredor. Era uma frase simples. O leitor desconfiará dela. Donald Trump calou-se; Nicolás Maduro assentiu. Cada qual, ao que parece, encontrou naquele instante um papel mais confortável. E assim, por uma dessas inversões que depois se chamam habilidade, a armadilha converteu-se em conversa — o que, em certos meios, é quase uma subversão. Recolhi minhas notas com o cuidado de quem sabe que o excesso de clareza pode comprometer um relatório. Escrevi apenas: “Cumpriram-se as formalidades. Houve entendimento. Assegurei-lhes a nossa amizade.” O leitor, se chegou até aqui, talvez espere uma conclusão. Não lha darei completa; seria indiscreto. Direi apenas isto: os impérios armam ciladas; os homens, às vezes, desfazem-nas. O resto — como já se escreveu em melhor estilo — pertence à literatura. Se quiser,

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