terça-feira, 5 de maio de 2026

A esperança — essa, sim — não estava fora.

Estava no ato de continuar.
As lições do governo Allende, as eleições abertas e a solidão do poder Publicado em 05/05/2026 - 11:28 Luiz Carlos Azedo Brasília, Comunicação, Congresso, Eleições, Governo, Guerra, Justiça, Memória, Partidos, Política, Política, Trabalho Com a derrota da indicação de Jorge Messias ao STF, na semana passada, de uma só vez, o presidente Lula perdeu a blindagem que tinha no Senado e, também, no Supremo Adeus, senhor presidente, de Carlos Matus Romo, é uma obra singular no campo da reflexão sobre governo e poder na América Latina. Mais do que um manual de gestão, é um diálogo dramático entre um presidente fictício e seu assessor, no crepúsculo de um governo. Matus nasceu no Chile em 1931. Formou-se, em 1955, na Escola de Economia da Universidade do Chile. Fora assessor do ministro da Fazenda e ministro da Economia do governo de Salvador Allende, de 1971 a 1973, antes de se tornar o maior estudioso latino-americano sobre planejamento de governo e governabilidade. Após o sangrento golpe do general Augusto Pinochet, no Chile, em 11 de setembro de 1973, Matus passou dois anos preso nos campos de concentração de Isla Dawson e Ritoque. Durante esse período, com base na experiência do governo Allende, desenvolveu suas teorias e conceitos sobre planejamento estratégico e gestão pública. Libertado em 1975, partiu para o exílio na Venezuela e buscou responder à seguinte pergunta: “Por que um governo com tanta popularidade e com tão boas intenções caiu de forma tão fragorosa, diante de um golpe militar?” Matus faleceu em 21 de dezembro de 1998, em Caracas. Sonhava regressar ao Chile. Suas cinzas foram espalhadas em sua casa em Isla Negra, diante do mesmo mar sobre o qual o poeta Pablo Neruda teceu seus poemas e passou seus últimos dias. O Líder sem estado-maior e Estratégias políticas: chimpanzé, Maquiavel e Gandhi são outras obras do economista chileno conhecidas no Brasil. Há um paralelo entre Adeus, senhor presidente e a situação do governo de Luiz Inácio Lula da Silva. A obra de Matus é um balanço tardio do poder, feito quando já não há mais espaço para ilusões. O presidente fictício descobre, no fim do mandato, que governar não é executar um programa, mas administrar conflitos, limitações e, sobretudo, a perda progressiva de controle sobre a própria agenda. É mais ou menos o que acontece com o presidente Lula. Na disputa eleitoral na qual busca a reeleição, já não é o líder absoluto, mobilizador, capaz de representar grandes esperanças, dono da expectativa de poder. É um governante em apuros, pressionado por contingências que não controla, como a crise do mercado de petróleo, provocada pela guerra do Irã, e uma correlação de forças adversa no Congresso e na sociedade, que agora o obrigam a operar no “modo sobrevivência”. Leia também: Flávio Bolsonaro tem 44% e Lula 43% no 2º turno, diz Real Time Big Data Governabilidade depende da articulação política e da capacidade administrativa, dizia Matus. Quando essa integração falha, o governante passa a ser refém de estruturas que não controla e da avaliação negativa do governo. No caso de Lula, a rejeição inédita de um indicado ao Supremo Tribunal Federal, fato sem precedentes desde o século XIX, sinaliza exatamente isto: o presidente perdeu capacidade de coordenação sobre a engrenagem central do sistema político. Sem respostas Na linguagem de Matus, a agenda governamental está sendo capturada por outros atores. É o caso da segurança pública e das terras raras, por exemplo. É o que também pode acontecer com outras bandeiras do governo, como o fim da escala 6 x 1. O presidente fictício de Matus percebeu tarde demais que sua ação foi condicionada por forças que subestimou. É a situação de Lula, principalmente no Congresso. O Senado, sob liderança de Davi Alcolumbre, afirmou-se como poder autônomo e impõe limites claros ao Executivo. Com a derrota da indicação de Jorge Messias ao STF, na semana passada, de uma só vez, o presidente Lula perdeu a blindagem que tinha no Senado e, também, no Supremo Tribunal Federal (STF), devido ao envolvimento de alguns magistrados na disputa. O fato novo não é mais a dinâmica das sucessivas pesquisas eleitorais, mas a mudança de correlação de forças no “poder instalado”, a perda de capacidade de coordenação sobre uma engrenagem central do sistema político, com a entrada em cena de um Corte cuja dinâmica interna cada vez mais se entrelaça com interesses políticos. Leia mais: Gilmar Mendes cita crise de confiança e defende reforma no judiciário Há também o componente da solidão do poder. Em Adeus, senhor presidente, o governante se vê isolado no momento decisivo, cercado por assessores, mas sem um verdadeiro “estado-maior” capaz de formular e executar estratégias consistentes. É prisioneiro de uma “jaula de cristal”, na qual só escuta quem está dentro dela, enquanto os que estão fora observam o que acontece na sua cozinha, como a “paparicação” dos puxa-sacos e a redução do círculo decisório. No Palácio do Planalto, hoje, o fenômeno se repete: quanto mais a crise avança, mais o poder se concentra e, ao mesmo tempo, mais vulnerável se torna. O governo precisa responder a perguntas incômodas sobre o que deixou de fazer e o que não deu certo. Quais compromissos foram preservados ou abandonados? Esse balanço começa a ser antecipado pela conjuntura eleitoral. O elevado endividamento das famílias, a pressão inflacionária recente e a dificuldade de transformar políticas públicas em percepção positiva indicam que os resultados concretos não produziram o retorno político esperado. E as pesquisas mostram um país fragmentado, com forte tendência ao posicionamento “independente” dos candidatos nos principais estados, que tangenciam o empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro no plano nacional. A polarização persiste, mas perdeu capacidade de organizar plenamente o sistema político. É como se o eleitorado tivesse abandonado as ilusões simplificadoras em relação aos dois líderes da disputa. Nesse sentido, as eleições são um “jogo aberto”, que não segue necessariamente as regras previsíveis do confronto clássico governo e oposição. Há um terreno muito pantanoso a ser atravessado. Nas entrelinhas: todas as colunas no Blog do Azedo Compartilhe: Clique para compartilhar no Facebook(abre em nova janela)Clique para compartilhar no Twitter(abre em nova janela)Compartilhe no Google+(abre em nova janela)Clique para compartilhar no Pinterest(abre em nova janela) #Alcolumbre, #Allende, #Bolsonaro, #Messias, #Senado, Lula
www.dw.com 1970: Allende é eleito presidente do Chile O restante dos resultados pode não ser o que você procura. Conferir mais mesmo assim Instagram O 11 de setembro da América Latina marca o início de mais uma ditadura na região. Há 52 anos, Salvador Allende era destituído e morto pelas forças golpistas. A ditadura comandada pelo O 11 de setembro da América Latina marca o início de mais uma ditadura na região. Há 52 anos, Salvador Allende era destituído e morto pelas forças golpistas. A ditadura comandada pelo As imagens podem estar sujeitas a direitos autorais. Saiba mais www.dw.com HistóriaChile 1970: Allende é eleito presidente do Chile Mirjiam Gehrke Publicado 04/09/2016Publicado 4 de setembro de 2016Última atualização 04/09/2020Última atualização 4 de setembro de 2020 No dia 4 de setembro de 1970, Salvador Allende foi eleito presidente do Chile. Pela primeira vez na América Latina, um político socialista chegava ao poder de forma democrática. "Em termos de síntese curta , densa e quase sentenciosa : No Chile de 1973, sob Salvador Allende , confrontaram-se dois paradigmas: um que buscava realizar transformações sociais pela via constitucional, democrática e pacífica; outro que, por distintas razões, passou a considerar a ordem jurídica insuficiente ou dispensável, admitindo sua ruptura em nome da ordem, da segurança ou de um projeto de poder. Daí decorre que a estabilidade institucional não se rompe apenas por força material, mas pela prévia corrosão simbólica da Constituição — quando adversários são convertidos em inimigos e o conflito político deixa de ser mediado pelas regras comuns. Conclusão: onde a Constituição é limite compartilhado, há política; onde se torna descartável, instala-se a exceção.
🌀 O LABIRINTO DAS IDEIAS (Som • Imagem • Texto em Transe) Imagem (composição pictórica): 📍 /mnt/data/a_dense_surreal_collage_illustration_scene_overal.png 🎧 PROPOSTA SONORA (trilha integrada ao texto) A trilha deve entrar em pontos específicos, como se fosse respiração do labirinto Referência estética: anos 1960–70 (eco do Cinema Novo) Tons: experimental, político, tenso, mas com lampejos de esperança Mini conto (com trilha sugerida) [🎵 ENTRADA 1 — som ambiente + violão dissonante, estilo Caetano Veloso em fase tropicalista | volume baixo] Dizem que o labirinto começou a ser construído há 62 anos, embora ninguém consiga provar onde está sua primeira pedra. Alguns afirmam que nasceu com uma câmera erguida contra o sol; outros, que surgiu de uma frase — uma dessas frases que sobrevivem aos homens. Desde então, ele cresce, não em largura, mas em repetições. [🎵 ENTRADA 2 — percussão leve e tensão crescente, evocando Gilberto Gil | ritmo irregular] Entrei por uma folha de papel. Não era um portal evidente — apenas um manuscrito inclinado, palavras apressadas, nomes próprios como ecos: José Genoino, Jair Messias Bolsonaro. Cada nome abria um corredor. Cada corredor conduzia a outro nome, a outra acusação, a outra memória. Compreendi cedo que ali não se buscava a verdade, mas a permanência do enigma. [🎵 ENTRADA 3 — som de projetor antigo + ruído analógico | transição para silêncio denso] No centro — ou naquilo que o labirinto fingia ser o centro — havia uma lâmpada suspensa. Sob ela, uma câmera imóvel e um celular aceso. Lembrei-me do antigo axioma do Cinema Novo: uma ideia na cabeça e uma câmera na mão. Mas ali a ordem se invertera — a ideia já não nascia; ela circulava. Talvez sempre tivesse circulado. [🎵 ENTRADA 4 — cordas tensas + atmosfera dramática, referência indireta a Terra em Transe | crescendo lento] Caminhei mais. As paredes eram feitas de páginas C2 e C3, dobradas como mapas de um país impossível. Nelas, Ruy Guerra ainda filmava, aos 94 anos, um Brasil que insistia em não terminar. Seus personagens — um político, outro empresário — repetiam gestos antigos, como se encenassem um pacto que jamais fora escrito, mas sempre cumprido. Pensei em Lima Duarte e Daniel Filho não como homens, mas como arquétipos condenados à representação. [🎵 ENTRADA 5 — ruídos urbanos + rádio fragmentado (vozes políticas sobrepostas) | sensação de caos] Em um dos corredores, encontrei um hospital que funcionava. Em outro, uma lei vetada. Mais adiante, uma decisão aguardava julgamento no Supremo Tribunal Federal. Cada fato parecia uma saída — mas, ao atravessá-lo, eu retornava ao mesmo ponto. Foi então que compreendi: o labirinto não aprisiona pelo erro, mas pela verossimilhança. [🎵 ENTRADA 6 — silêncio quase total + uma única nota grave sustentada] Lembrei-me de Getúlio Vargas — ou talvez de sua voz: “eu não sou mais eu… o eu ideia fica livre com vocês.” Ali, enfim, entendi o mecanismo. Os corpos eram apenas passagens. As ideias, essas sim, eram as verdadeiras paredes. [🎵 ENTRADA 7 — repetição rítmica minimalista (ciclo), evocando esforço contínuo | pulsação constante] Continuei, já sem esperança de sair. E, paradoxalmente, foi nesse abandono que algo mudou. Percebi que o labirinto não exigia uma saída — exigia um movimento. Como Sísifo empurrando sua pedra, o sentido não estava no fim, mas na repetição consciente. [🎵 ENTRADA 8 — retorno melódico suave, quase esperançoso, com acorde aberto] Ao longe — ou talvez dentro de mim — ouvi um eco de Terra em Transe. O transe não cessara. O país, como o labirinto, persistia em seu estado de suspensão: nem ruína completa, nem redenção plena. [🎵 FINAL — dissolução sonora: ruído + acorde maior sutil | esperança ambígua] Antes de desaparecer entre as páginas, toquei a superfície de uma delas. Estava quente, como se ainda estivesse sendo escrita. E compreendi, enfim, que aquilo que chamávamos de “podres poderes” não era o centro do labirinto, mas apenas mais um de seus caminhos. A esperança — essa, sim — não estava fora. Estava no ato de continuar.
“Um ministro, desses que o presidente ainda ouve, teria dito: ‘Seu maior adversário é o povo.’ Ao que o presidente — talvez por lucidez, talvez por ironia — poderia responder: ‘Não. Meu maior adversário sou eu mesmo.’ Porque, no fim, só resta ouvir o cidadão. Todo poder emana do povo — mas só o cidadão vota.”
🕊️ EPÍLOGO — O ADVERSÁRIO (Diálogo final entre o Presidente e seu Assessor) Assessor: Senhor Presidente, permito-me insistir numa hipótese incômoda: dizem que vosso maior adversário é o povo. Asesor: Señor Presidente, permítame insistir en una hipótesis incómoda: dicen que su mayor adversario es el pueblo. Presidente (após silêncio): Não. Essa é a forma mais fácil de errar. Presidente: No. Esa es la forma más fácil de equivocarse. Presidente: O povo não é adversário. É condição. Presidente: El pueblo no es adversario. Es condición. Presidente: Se há um adversário real, ele não está fora. Está na distância entre o que penso governar e o que de fato consigo governar. Presidente: Si hay un adversario real, no está afuera. Está en la distancia entre lo que creo gobernar y lo que realmente puedo gobernar. Assessor: Então o adversário…? Asesor: Entonces el adversario…? Presidente: Sou eu. Ou melhor: minha incapacidade de transformar intenção em direção. Presidente: Soy yo. O mejor dicho: mi incapacidad de transformar intención en dirección. (Pausa longa) Presidente: No fim, tudo se reduz a uma escuta. Presidente: Al final, todo se reduce a una escucha. Presidente: Mas não qualquer escuta — não a dos corredores, não a dos ministros, não a dos ecos. Presidente: Pero no cualquier escucha — no la de los pasillos, no la de los ministros, no la de los ecos. Presidente: A escuta do cidadão. Presidente: La escucha del ciudadano. Assessor (quase em sussurro): E o povo? Asesor: ¿Y el pueblo? Presidente: O povo é princípio. O cidadão é decisão. Presidente: El pueblo es principio. El ciudadano es decisión. Presidente: Dizem que todo poder emana do povo. Presidente: Dicen que todo poder emana del pueblo. Presidente: Mas esquecem — ou fingem esquecer — que só o cidadão vota. Presidente: Pero olvidan — o fingen olvidar — que solo el ciudadano vota. (Silêncio final — o poder já não responde) 🔎 Observação de estilo (breve) Autocrítica do governante → núcleo matusiano Centralidade da “capacidade de governo” → não intenção, mas execução Deslocamento do conflito externo para interno → o verdadeiro adversário Distinção conceitual (povo vs cidadão) → fechamento filosófico Se quiser

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