Inspirados já nos ensinamentos de Sófocles, aqui, procurar-se-á a conexão, pelo conhecimento, entre o velho e o novo, com seus conflitos. As pistas perseguidas, de modos específicos, continuarão a ser aquelas pavimentadas pelo grego do período clássico (séculos VI e V a.C).
sábado, 9 de maio de 2026
EXPLICAÇÃO: Eu bem que mostrei a ela, o tempo passou na janela e só Carolina não viu.
"Aqui ao menos a gente sabe que tudo é uma canalha só,
lê o seu jornal, mete a língua no governo,
queixa-se da vida (a vida está tão cara)
e no fim dá certo.
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Se meu verso não deu certo, foi seu ouvido que entortou.
Eu não disse ao senhor que não sou senão poeta?"
RETRATOS
Sociólogos e Sociólogas brasileiras
O “Paco” Mineiro: da calçada ao mercado financeiro, a persistência da ilusão como método
Em Minas Gerais, o chamado “golpe do paco” — também conhecido como “conto do paco” ou, em sentido mais amplo, como “conto do vigário” — é uma dessas engrenagens clássicas da fraude que atravessam gerações sem perder sua eficácia. Não pela sofisticação, mas justamente pelo contrário: sua força reside na simplicidade quase teatral com que mobiliza a psicologia humana.
O paco, na origem, é apenas isso: um maço de papéis sem valor, cuidadosamente montado para parecer dinheiro verdadeiro. Uma nota autêntica à vista, um volume convincente nas mãos, e está pronta a encenação. O golpe se desenrola como uma pequena peça urbana — um objeto “perdido”, um estranho honesto, uma recompensa generosa — até que, no momento decisivo, a vítima é levada a trocar algo real por uma promessa ilusória. Quando percebe, já não há palco, nem atores — apenas o prejuízo.
Esse mecanismo, embora rudimentar, revela um princípio duradouro: a fraude não depende apenas do engano, mas da disposição da vítima em acreditar na vantagem.
A reinvenção do engano: quando o “paco” deixa de ser papel
O que chama atenção no cenário contemporâneo é que essa lógica não desapareceu — ela se sofisticou. O paco deixou de ser um maço de papel para assumir formas mais abstratas, porém igualmente enganosas.
Em ambientes financeiros complexos, a mesma estrutura pode ser observada sob novas roupagens: ativos sem lastro, operações opacas, estruturas jurídicas que “embalam” riscos como se fossem oportunidades. O papel picado é substituído por contratos; o elástico que prende o maço dá lugar a auditorias, relatórios e aparente conformidade técnica.
A essência, contudo, permanece intacta: algo que parece sólido por fora, mas que, examinado de perto, revela-se vazio.
A engenharia da aparência: onde entram a lavagem e o caixa paralelo
Se no golpe de rua a encenação precisa durar poucos minutos, nas versões sofisticadas ela exige sustentação prolongada. É nesse ponto que entram mecanismos como a lavagem de dinheiro e o caixa dois.
A lavagem atua como o “invólucro” moderno do paco: reorganiza fluxos financeiros, atravessa empresas e fundos, dilui origens e recompõe narrativas até que o ilícito adquira aparência de legitimidade. Já o caixa paralelo opera como infraestrutura invisível, permitindo que recursos circulem fora dos registros formais, alimentando relações, influências e garantias informais.
Não se trata mais de desaparecer com uma bolsa, mas de sustentar uma ficção econômica por tempo suficiente para que ela produza efeitos reais — e, sobretudo, lucros concretos.
Permanências e deslocamentos
A comparação entre o paco tradicional e suas versões contemporâneas revela menos uma ruptura do que uma continuidade adaptativa. Mudam os instrumentos, ampliam-se os valores, sofisticam-se os meios — mas o núcleo permanece:
a criação de uma vantagem aparente
a construção de confiança circunstancial
a troca entre o real e o ilusório
No plano da rua, o prejuízo é imediato e individual. No plano institucional, ele pode ser difuso, tardio e coletivo — atingindo investidores, fundos e, por extensão, a própria economia.
Conclusão: a anatomia da ilusão
O “paco”, em qualquer de suas formas, é antes de tudo uma pedagogia do engano. Ele expõe, com clareza quase didática, como a aparência de valor pode ser construída, sustentada e, por fim, desmontada.
Talvez por isso sobreviva ao tempo: porque não depende apenas de técnica, mas de algo mais profundo — a permanente tensão entre desconfiança e desejo de ganho. Entre o cálculo e a crença.
No fim, seja na calçada ou no mercado financeiro, o gesto fundamental é o mesmo: alguém entrega algo concreto em troca de uma promessa bem encenada. E é nesse instante — breve, decisivo — que o paco cumpre sua função essencial: transformar ilusão em prejuízo, e aparência em realidade invertida.
sexta-feira, 8 de maio de 2026
O que o Senado votou foram os limites de seu poder, por José de Souza Martins*
Valor Econômico
Não era o destino de Jorge Messias que estava em julgamento, e sim o STF e o presidente da República
Entretido no trabalho, eu estava apenas ouvindo de longe a transmissão do resultado da votação do nome do indicado pelo presidente da República para o STF, Jorge Messias. Tive a impressão de que já ouvira aquela voz dizendo mais ou menos a mesma coisa, muitos anos antes. Aos poucos a conexão se fez.
Era a voz do senador Auro Soares de Moura Andrade, um criador de gado na região de Andradina (SP), presidente do Senado Federal. Advogado formado pela USP.
Numa moda de viola de Tião Carreiro, “Rei do gado”, era exaltado pela suposta humildade de boiadeiro e pelas virtudes de caráter daí decorrentes. A moda de viola virou tema de disputa com outra moda, de Teddy Vieira, “Rei do café”, em alusão a outro fazendeiro famoso e milionário, de Ribeirão Preto. Presidia o Senado, portanto, um personagem da saga do latifúndio, herói de modas de viola.
Moura Andrade, na tarde de 25 de agosto de 1961, recebeu uma inesperada carta, um bilhetinho, como eram chamados, do presidente da República, Jânio da Silva Quadros, havia sete meses no poder. Alegava pressões que lhe dificultavam governar. Renunciava, pois, ao mandato.
Com notável rapidez, Andrade deu encaminhamento ao pedido de Jânio, convocou o Congresso e pôs o documento em votação. Em menos de uma hora a renúncia estava aceita.
A voz enfática, clara e prepotente que eu imaginava estar ouvindo, vinda lá do passado, dissera: “Declaro vaga a Presidência da República”. Ausente o vice, na China em viagem oficial, convocava para assumi-la o presidente da Câmara dos Deputados, Ranieri Mazzilli. Começava o longo tormento da cassação de Goulart e do golpe de 1º de abril de 1964. A anomalia de origem que de vários modos afeta nossas instituições políticas até hoje.
Alcolumbre, originário de um estado distante dos centros de decisão, presidente atual do Senado, anunciou a derrota do indicado pelo presidente da República para o STF com a mesma enfática euforia e imponência de seu antecessor de pouco mais de meio século, em relação à renúncia do então presidente.
O episódio de agora expressa e documenta o que de fato é uma crise institucional grave, em que Jorge Messias foi indevidamente usado e sacrificado pela República inescrupulosa, independentemente das ideologias e partidos em confronto. Não era o seu destino que estava em julgamento, e sim o STF e o presidente da República.
Não se tratou apenas da rejeição do indicado. Na reunião prévia para que a comissão do Senado decidisse se acataria ou não o nome para que o plenário o votasse, o nome foi aprovado. Sabendo todos que seria rejeitado. O próprio Alcolumbre viabilizou a abertura da armadilha para que nela caísse o governo e não necessariamente o candidato.
A mídia daria no dia seguinte um panorama da movimentação de Alcolumbre para barrar o nome do indicado na votação decisiva. É quase impossível não ter percebido que tudo foi tramado para fazer da votação uma impugnação do presidente da República, um impeachment brando. A sessão do Senado de vários modos pode ter sido uma tentativa de continuar o golpe de 8 de janeiro de 2023. A trama parece maior do que se pensa.
O senador Randolfe Rodrigues sugeriu, em entrevista, que os impasses institucionais são viabilizados pela pulverização no governo Bolsonaro, abúlico e omisso. Entregou o poder ao ministro da Economia. Deixou o restante ao Congresso Nacional, que se fragmentou em disputas de fatias com o Executivo. Múltiplas trocas de votos, de favores e de recursos para alimentar as bases provinciais da representação política. Um retrocesso na estrutura das instituições políticas. Um debilitamento grave da democracia em favor de uma multiplicidade de focos de poder pessoal e local. O poder central declina.
Não poucos dos que têm opinado sobre essa crise indicam seus efeitos colaterais e mesmo o rebote sobre seus autores. Que existirão independentemente das más intenções que envenenam o sistema político brasileiro. Parece que tudo decorre de que há muita gente alarmada com as investigações sobre o caso do Banco Master. Os que não terão como dormir em paz depois do que significa politicamente a rejeição da indicação para o STF. Como não teriam como dormir em paz se o indicado tivesse sido aprovado.
O que o Senado votou foram os limites de seu poder e os indícios de sua própria vulnerabilidade. Porque as irregularidades praticadas no poder acabam escapando pelo meio dos dedos dos que as praticam. O “Você sabe com quem está falando?” como afirmação de autoridade e intimidação dá certo durante certo tempo, mas não todo o tempo. O poderoso acaba acordando um dia para a realidade das instituições, e com o meirinho a bater à porta de sua casa: “Tem gente?”.
*José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar, da Universidade de Cambridge e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador Emérito do CNPq. Membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de Escravidão, em Genebra (1996-2007. Entre outros livros, é autor de “Desavessos” (Editora Com Arte).
Juristas divergem sobre poder do Senado em indicações ao STF
Jovem Pan News
2 de mai. de 2026 #JovemPan #JornalJovemPan
A rejeição do nome de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal reacendeu o debate sobre o papel do Senado nas indicações à Corte. Juristas divergem sobre os limites e a atuação da Casa Alta no processo de aprovação de ministros, levantando discussões jurídicas e políticas sobre possíveis mudanças no modelo atual.
O Senado, o rito e o limite: quando a forma revela a crise
Há momentos em que o ritual institucional deixa de ser apenas procedimento e se transforma em linguagem. Não se trata mais do conteúdo imediato da decisão, mas do que ela revela sobre a estrutura do poder. A rejeição de um nome ao Supremo Tribunal Federal, nesse sentido, ultrapassa o destino individual do indicado e passa a operar como um signo — um gesto carregado de implicações que vão além do episódio.
A evocação histórica não é casual. Quando a memória política remete à declaração de vacância da Presidência em 1961, não se está apenas reconstruindo um fato, mas iluminando uma lógica recorrente: a de decisões formalmente legítimas que, no entanto, deslocam o eixo do poder e produzem efeitos que se prolongam muito além de seu instante.
Naquele momento, a voz que proclamava a vacância não apenas descrevia uma ausência — ela inaugurava uma sequência. O rito cumprido com rapidez exemplar abriu caminho para uma instabilidade cuja reverberação atravessaria anos e instituições. A forma, ali, não era neutra.
A encenação do previsível
No episódio contemporâneo, o que se observa é um fenômeno semelhante sob outra gramática. A tramitação que antecede a rejeição — aprovação prévia em comissão, articulações conhecidas, desfecho antecipado — sugere não um erro de cálculo, mas uma coreografia deliberada.
A institucionalidade, nesse caso, não falha; ela funciona precisamente como instrumento. O rito é preservado, mas orientado. O resultado não surpreende, apenas se consuma.
É nesse ponto que a análise se desloca: não se trata de avaliar a adequação do nome indicado, mas de compreender o uso político do processo. A votação, mais do que decidir sobre uma pessoa, parece ter operado como um mecanismo de delimitação de forças — um gesto dirigido ao Executivo e, por extensão, ao próprio Supremo.
Fragmentação e deslocamento do poder
O pano de fundo dessa dinâmica é um processo mais amplo de redistribuição do poder político. A fragmentação do sistema, intensificada nos últimos anos, produziu um deslocamento significativo: o centro decisório tornou-se difuso.
O Executivo, esvaziado em determinadas funções de coordenação, passa a negociar em múltiplas frentes. O Legislativo, por sua vez, deixa de atuar apenas como instância deliberativa e assume funções de arbitragem e imposição. O resultado é uma multiplicidade de centros de poder que operam simultaneamente — muitas vezes sem convergência, frequentemente em tensão.
Nesse ambiente, decisões institucionais deixam de ser apenas técnicas e passam a ser, cada vez mais, instrumentos de afirmação de autonomia e, por vezes, de confronto.
O subtexto das investigações
Há ainda um elemento subterrâneo que atravessa o episódio: o contexto das investigações em curso. Em momentos de exposição potencial, o sistema político tende a reagir de forma preventiva ou defensiva.
A rejeição de um nome ao Supremo, nesse cenário, pode ser interpretada também como movimento tático — não necessariamente linear, mas inserido em uma rede de interesses, receios e antecipações. A política, nesses casos, opera menos pela clareza dos objetivos declarados e mais pela opacidade dos efeitos pretendidos.
O resultado é um ambiente em que decisões institucionais carregam múltiplas camadas de significado, muitas delas não explicitadas, mas perceptíveis na convergência dos movimentos.
O voto como espelho
Dizer que o Senado votou os limites de seu poder é reconhecer que, ao exercer sua prerrogativa, ele também se expôs. Toda afirmação de força institucional traz consigo um risco correspondente: o de revelar fragilidades.
O poder que se afirma de forma enfática é, muitas vezes, o mesmo que se vê obrigado a testar seus próprios contornos. Ao impor uma derrota ao Executivo, o Senado delimita sua capacidade de interferência — mas também evidencia a necessidade constante de sustentá-la.
Há, portanto, um efeito reflexivo: a decisão que atinge o outro retorna, em alguma medida, sobre quem a produz.
Conclusão: entre o gesto e suas consequências
A política institucional raramente se esgota no ato que a torna visível. O gesto — seja uma declaração de vacância, seja a rejeição de uma indicação — é apenas o ponto de partida de um processo mais amplo, cujas consequências se desdobram no tempo.
O que se observa, nesse episódio, é menos uma ruptura isolada do que a continuidade de uma dinâmica: a de instituições que operam sob tensão, em um equilíbrio instável entre prerrogativa e excesso, entre autonomia e disputa.
No limite, permanece a advertência implícita: o poder que se exerce sem medida acaba por revelar, ele próprio, os contornos de sua limitação. E, como na imagem final evocada, há sempre o momento em que a formalidade cede lugar à realidade — quando o rito já não protege, e a porta, enfim, é batida.
Rei do Gado
Tião Carreiro e Pardinho
Num bar de Ribeirão Preto
Eu vi com meus olhos esta passagem
Quando champanha corria a rodo
No alto meio da grã-finagem
Nisto chegou um peão
Trazendo na testa o pó da viagem
Pro garçom ele pediu uma pinga
Que era pra rebater a friagem
Levantou um almofadinha e falou pro dono
Eu tenho má-fé
Quando um caboclo que não se enxerga
Num lugar deste vem pôr os pés
Senhor que é o proprietário
Deve barrar a entrada de qualquer
E principalmente nessa ocasião
Que está presente o Rei do Café
Foi uma salva de palma
Gritaram viva pro fazendeiro
Quem tem bilhões de pés de cafés
Por este rico chão brasileiro
Sua safra é uma potência
Em nosso mercado e no estrangeiro
Portanto vejam que este ambiente
Não é pra qualquer tipo rampeiro
Com um modo bem cortês
Responde o peão pra rapaziada
Essa riqueza não me assusta
Topo em aposta qualquer parada
Cada pé desse café
Eu amarro um boi da minha invernada
E pra encerrar o assunto eu garanto
Que ainda me sobra uma boiada
Foi um silêncio profundo
O peão deixou o povo mais pasmado
Pagando a pinga com mil cruzeiro
Disse ao garçom pra guardar o trocado
Quem quiser meu endereço
Que não se faça de arrogado
É só chegar lá em Andradina
E perguntar pelo Rei do Gado
Composição: Teddy Vieira.
O duelo na viola: quando o poder desafina — e se revela
Se, no plano institucional, o que se viu foi um jogo de força travado sob a liturgia do cargo, no plano simbólico — como bem sugere a memória evocada — talvez tudo já estivesse dito há muito tempo, na cadência de uma viola.
Ali, no encontro entre o Rei do Gado e o Rei do Café, não se trata apenas de bravata rural ou folclore musical. O que se encena é uma disputa de legitimidades: riqueza contra origem, poder contra experiência, aparência contra substância. E, sobretudo, o eterno esforço de cada um em afirmar sua grandeza diante do outro.
O fazendeiro do café, cercado de aplausos e cifras, representa o poder instituído — reconhecido, celebrado, protegido pelo ambiente que o legitima. Já o peão, que entra com o pó da estrada e pede apenas uma pinga, traz consigo algo mais difícil de medir: a autoridade que não depende de anúncio.
Quando responde, não nega a riqueza alheia — apenas a relativiza. E o faz com uma frase que desmonta a encenação: para cada pé de café, ele amarra um boi. Traduzindo: para cada símbolo de poder, há um lastro que o sustenta — ou deveria sustentar.
A réplica: o limite da arrogância
Na resposta do Rei do Café, o tom muda. Já não há aplauso fácil, mas um chamado à medida. Ele recusa o papel de mero espectador da própria exaltação e introduz um elemento ausente na primeira cena: a consciência de limite.
Ser rei, lembra ele, exige mais do que poder — exige educação. E educação, aqui, não é formalidade, mas contenção. É saber que a autoridade que se impõe sem freio acaba por se esvaziar.
O duelo, então, deixa de ser confronto e se aproxima de uma lição: ambos dependem da mesma terra, do mesmo chão que sustenta café e boi. A disputa, levada ao extremo, não produz grandeza — produz desgaste.
Entre Brasília e Ribeirão: a mesma lógica, outra escala
Transposta para o cenário institucional, a metáfora é inevitável. O que se vê nos embates contemporâneos entre poderes não está distante dessa lógica sertaneja: atores que, cercados por suas próprias plateias, amplificam gestos, elevam o tom e testam os limites uns dos outros.
Há sempre aplausos — internos, estratégicos, momentâneos. Há sempre a tentação da demonstração pública de força. E há, quase sempre, o risco de esquecer que o poder, quando excessivamente afirmado, começa a revelar sua própria fragilidade.
Como no bar de Ribeirão Preto, o ambiente pode parecer controlado — até que alguém de fora da encenação introduz uma variável inesperada: a realidade.
Conclusão: a sabedoria que desafina a prepotência
No fim, o que a viola ensina — com ironia mansa e precisão quase cirúrgica — é que nenhuma autoridade se sustenta apenas no grito ou no aplauso. O poder que precisa se afirmar a todo instante talvez já esteja, em alguma medida, sendo contestado.
Entre o boi e o café, entre o voto e o veto, entre o rito e a manobra, permanece a mesma advertência, dita sem pressa, como quem conhece o tempo das coisas:
quem aposta alto demais no próprio poder corre o risco de descobrir, tarde demais, que estava jogando sozinho.
E, quando a música para, não é o aplauso que fica — é o silêncio.
Rei do Café
Zé Carreiro e Carreirinho
Para o senhor rei do gado aqui vai minha resposta
O que eu penso a seu respeito eu não digo pelas costas
O senhor saiu do bar sem ouvir minha proposta
Saiba que este seu criado não tem medo de aposta
Quem já escorregou na vida em qualquer galho se encosta
O que disse o almofadinha por mim não foi endossado
Se eu quisesse lhe ofender não ia lhe mandar recado
Quem mexe com marimbondo deve esperar o resultado
Creio que o senhor se esquece meu amigo rei do gado
Que um rei para ser rei precisa ser muito educado
É coisa que eu acho feio um rico fazer cartaz
Não me acanho em lhe dizer que eu já fui peão em Goiás
Já montei em burro xucro até de cara pra trás
Se eu tirar minha camisa no peito mostro os sinais
De guampas de boi cuiabano foi na zona dos pantanais
Quando eu vejo um cafezal e um poeirão de uma boiada
Me orgulho ser imigrante nessa terra abençoada
Também já tomei cachaça tirando boi de arribada
Se a balança do Brasil por café for ameaçada
Eu corto meus cafezais, transformo tudo em invernada
Deixe de apostar amigo, não queira dar um passo errado
Vamos lutar ombro a ombro por este solo abençoado
Apesar de eu ser estrangeiro nele eu quero ser enterrado
Onde brota o ouro verde, nosso café afamado
Que da glórias pro Brasil além de fronteira pro outro lado
Composição: Carreirinho, Teddy Vieira.
Viola de bolso: Mais uma vez encordoada Capa dura – 27 fevereiro 2023
por Carlos Drummond de Andrade (Autor)
Viola de bolso , reunião de poemas de Carlos Drummond de Andrade lançada nos anos 1950, chega a sua terceira edição, com 25 poemas inéditos nas edições anteriores.
Uma das joias que marcam o retorno do poeta Carlos Drummond de Andrade ao catálogo da Editora José Olympio é sem dúvida a nova edição de Viola de bolso . Lançado originalmente em 1952, pelo Ministério da Educação e Saúde, o livro teve segunda edição pela Livraria José Olympio Editora, em 1955, com adição de 56 novos poemas, totalizando 91. Esta terceira edição, de 2022, reúne os poemas da segunda – acrescidos de marcas de revisão feitas à mão por Drummond em seu exemplar – e inclui novas peças, 25 poemas inéditos nas edições anteriores, recentemente encontradas pelos netos do poeta.
Esses poemas, que haviam sido organizados pelo próprio autor em uma pasta intitulada “Viola de bolso (nova)”, aparecem também em versão fac-similar. Tanto para estudiosos de Drummond quanto para leitores de poesia, é possível observar as mudanças feitas em certos poemas de uma edição para a outra. Mudanças que mostram a preocupação do poeta com seus escritos e que provam como uma criação literária é um processo contínuo, que nunca se dá por acabado.
Além de a nova edição apresentar um projeto gráfico caprichado, em capa dura, será uma experiência muito proveitosa ler os escritos que Drummond reúne em Viola de bolso. O livro é uma espécie de inventário sentimental do poeta em homenagem a lugares, afetos, pensamentos e, em sua maioria, a pessoas próximas; amigos, artistas e personalidades importantes – dentre estes, o próprio José Olympio –, que conquistaram o coração do grande escritor itabirano. As dedicatórias compõem uma constelação que evidencia a rara destreza de Drummond para construir belas peças poéticas amarradas à própria vida.
Entre o Paco, o Poder e a Viola: anatomia da ilusão no Brasil contemporâneo
Sexta-feira, 9 de maio de 2026
I. O “paco” mineiro: a pedagogia do engano
Em Minas Gerais, o chamado golpe do paco — também conhecido como conto do paco ou, em sentido mais amplo, conto do vigário — atravessa o tempo como uma forma quase didática de fraude. Sua permanência não se explica pela sofisticação, mas pela eficácia de um mecanismo simples: transformar aparência em valor.
O paco é um maço de papéis sem valor que simula dinheiro verdadeiro. Uma nota autêntica exposta, um volume convincente, e está montado o cenário. O golpe segue um roteiro conhecido:
um objeto “perdido” surge no caminho da vítima
um terceiro encena honestidade
uma recompensa é prometida
uma garantia é exigida
o real é trocado pelo ilusório
Quando a encenação termina, resta apenas o prejuízo.
O que está em jogo não é apenas o engano, mas algo mais profundo: a disposição humana de acreditar na vantagem.
II. Da calçada ao mercado: o “paco” como método
Se a versão tradicional do golpe se resolve em minutos, sua lógica, no entanto, não se limita à rua. Ela reaparece, com novas roupagens, em ambientes muito mais complexos.
No plano financeiro, o paco deixa de ser papel e passa a assumir a forma de:
ativos sem lastro
estruturas jurídicas opacas
operações revestidas de aparente legitimidade
O princípio permanece: algo que parece sólido por fora, mas que, examinado com rigor, revela-se vazio.
Nesse contexto, mecanismos como lavagem de dinheiro e caixa dois funcionam como o novo invólucro do engano. Sustentam a aparência, prolongam a encenação e permitem que a ilusão produza efeitos concretos antes de se dissipar.
A diferença central está na escala: o que antes atingia indivíduos passa a impactar instituições, fundos e, em última instância, o próprio sistema econômico.
III. O rito e o poder: quando a forma revela a crise
No plano político, a lógica da aparência também se manifesta — não mais como fraude direta, mas como disputa institucional.
A rejeição de uma indicação ao Supremo Tribunal Federal não é apenas um ato administrativo. É um gesto carregado de significado. Como observou o sociólogo José de Souza Martins, não estava em julgamento apenas um nome, mas o próprio equilíbrio entre os poderes.
A evocação histórica de Auro Soares de Moura Andrade, ao declarar vaga a Presidência em 1961 após a renúncia de Jânio Quadros, não é mero recurso retórico. Ela aponta para uma constante da vida política brasileira: decisões formalmente legítimas que produzem efeitos desproporcionais e duradouros.
No episódio atual, a coreografia institucional sugere cálculo:
aprovação prévia
rejeição anunciada
articulação conhecida
O rito foi preservado. O resultado, conduzido.
Não se trata apenas de decisão — mas de demonstração.
IV. Fragmentação e encenação
O pano de fundo é um sistema político fragmentado, no qual o poder deixou de ter um centro claro. Executivo e Legislativo operam em tensão constante, muitas vezes mais preocupados em delimitar espaços do que em construir convergência.
Nesse ambiente:
o gesto pesa mais que o conteúdo
a afirmação de força substitui a coordenação
o conflito se torna método
E, como no golpe do paco, a aparência pode, por algum tempo, sustentar a realidade.
V. A viola como síntese: poder, limite e ironia
Muito antes das análises políticas, a cultura popular já havia captado essa lógica. No duelo entre o Rei do Gado e o Rei do Café, eternizado por Tião Carreiro e Pardinho e Zé Carreiro e Carreirinho, encena-se algo mais do que uma disputa rural: trata-se de uma reflexão sobre poder e medida.
🎵 Rei do Gado — Tião Carreiro & Pardinho
Num bar de Ribeirão Preto
Eu vi com meus olhos esta passagem
Quando champanha corria a rodo
No alto meio da grã-finagem
(...)
Cada pé desse café
Eu amarro um boi da minha invernada
E pra encerrar o assunto eu garanto
Que ainda me sobra uma boiada
🎵 Rei do Café — Zé Carreiro & Carreirinho
Para o senhor rei do gado aqui vai minha resposta
O que eu penso a seu respeito eu não digo pelas costas
(...)
Creio que o senhor se esquece meu amigo rei do gado
Que um rei para ser rei precisa ser muito educado
VI. Conclusão: o poder, como o paco, depende de quem acredita
Do golpe de rua ao mercado financeiro, do rito institucional ao duelo na viola, o que se observa é a persistência de uma mesma estrutura: a construção de uma aparência capaz de sustentar, ainda que provisoriamente, uma realidade.
O paco ensina que o valor pode ser simulado.
A política mostra que o poder também pode.
Mas há um limite.
Como na resposta do Rei do Café, chega o momento em que a medida se impõe à exibição. Em que o poder precisa mais do que aplauso — precisa de lastro.
E é nesse ponto que a ironia popular alcança a análise mais sofisticada:
nem todo maço é dinheiro,
nem todo poder é sólido —
e, cedo ou tarde, alguém abre o pacote.
Carolina
Quarteto em CY
Composição: Chico Buarque de Holanda.
quinta-feira, 7 de maio de 2026
O tempo passou e Lula não viu, por Paulo Celso Pereira*
O Globo
Não existe mais o Congresso com que ele lidou em seus primeiros mandatos, quando a Presidência tinha poder imperial
Lula testou a água por três vezes. Na primeira, emplacou seu advogado pessoal Cristiano Zanin, que liderou com sucesso a campanha para desmonte da Lava-Jato. Depois, veio Flávio Dino, seu ministro da Justiça e por 15 anos um dos maiores expoentes do PCdoB. Na terceira vez, optou por Jorge Messias, um discreto procurador da Fazenda que se tornou conhecido nacionalmente pela confiança que Lula e a ex-presidente Dilma Rousseff depositavam nele, a ponto de torná-lo emissário da carta que garantia a nomeação do líder petista como ministro no auge da Lava-Jato. O Senado, de inclinação oposicionista, não aprovou o terceiro companheiro.
A soberba é a véspera do erro, diz o ditado, e só ela explica o fato de Lula ter ignorado avisos de aliados e as enormes diferenças que separavam essa escolha das anteriores. Messias tem trajetória jurídica menos reluzente que Zanin e Dino, mas semelhante à de Dias Toffoli ao ser indicado à Suprema Corte. Sozinha, não seria impeditivo para sua aprovação, não fossem dois fatos que o presidente menospreza desde o início do terceiro mandato: tanto a sociedade brasileira quanto os três Poderes mudaram radicalmente desde 2010, quando ele desceu a rampa apoiado por 83% dos brasileiros.
Não existe mais o Congresso com que Lula lidou em seus primeiros mandatos, quando a Presidência tinha poder imperial, e os parlamentares faziam fila na porta de um subsecretário para implorar a liberação de tostões para seus redutos. O Congresso se apoderou do orçamento público, sem partilhar responsabilidade na gestão, e os parlamentares hoje têm autonomia para dizer “não” ao Planalto, seja para atender a outros acordos pouco republicanos, seja para representar legitimamente um eleitorado que pendulou à direita.
Quando indicou Zanin e Dino, Lula ainda vivia a trégua tradicionalmente oferecida ao vencedor no primeiro ano de mandato. No comando do Senado, estava o moderado Rodrigo Pacheco. Ao escolher o nome para a vaga aberta por Luís Roberto Barroso, Lula teria de dialogar com o voraz Davi Alcolumbre e garantir o apoio de ao menos parte de uma bancada de senadores que vota fazendo stories para o eleitor que vai às urnas em outubro.
Lula demorou 42 dias para escolher o nome de seu indicado e optou por alguém sem qualquer outro padrinho. Quando o presidente do Senado anunciou que faria uma tramitação célere para a indicação, dando pouco tempo para Messias se articular, Lula manobrou e decidiu adiar o envio da mensagem já anunciada. Alcolumbre estrilou, mas ficou publicamente derrotado naquela batalha. Só não esqueceu.
A lentidão presidencial fez o tema ficar quatro meses em banho-maria, lançando a análise da indicação para o período pré-eleitoral num país dividido, com o caso Master assombrando Brasília e num Senado em que a oposição parte de 30 votos. Bastou Alcolumbre se movimentar sem alarde, até participando risonho de eventos no Planalto, para garantir a primeira rejeição de um nome indicado ao STF em 132 anos.
A visão histórica sobre o que representa a derrota, no entanto, será definida pelo que pode significar para o futuro do país. Nos próximos dias ou semanas, Lula deverá exercer sua prerrogativa de indicar outro nome ao STF. Seja adotando uma estratégia de enfrentamento, seja optando pela conciliação, não terá desculpas para deixar de se engajar intensamente nas negociações, algo que não fez durante a busca de Messias por votos.
Caso perca essa indicação, Lula transformará a eleição de outubro num vale-tudo ainda maior do que já se anuncia. Os eleitores não escolherão “apenas” quem comandará o país pelos próximos quatro anos, mas também se liberdades individuais e políticas públicas estabelecidas há décadas poderão ser revertidas por uma nova maioria construída pelas quatro vagas que serão abertas até o fim de 2030 no Supremo.
A possibilidade de desmonte do Estado brasileiro como conhecemos poderá se tornar a plataforma preferencial de aventureiros. E a sobrevivência deste, a tábua de salvação de quem já não tem grandes novidades a oferecer.
*Paulo Celso Pereira é editor executivo do GLOBO
Explicação
Meu verso é minha consolação.
Meu verso é minha cachaça. Todo mundo tem sua, cachaça.
Para beber, copo de cristal, canequinha de folha-de-flandres,
folha de taioba, pouco importa: tudo serve.
Para louvar a Deus como para aliviar o peito,
queixar o desprezo da morena, cantar minha vida e trabalhos
é que faço meu verso. E meu verso me agrada.
Meu verso me agrada sempre...
Ele às vezes tem o ar sem-vergonha de quem vai dar uma cambalhota
mas não é para o público, é para mim mesmo essa cambalhota.
Eu bem me entendo.
Não sou alegre. Sou até muito triste.
A culpa é da sombra das bananeiras de meu pais, esta sombra mole, preguiçosa.
Há dias em que ando na rua de olhos baixos
para que ninguém desconfie, ninguém perceba
que passei a noite inteira chorando.
Estou no cinema vendo fita de Hoot Gibson,
de repente ouço a voz de uma viola...
saio desanimado.
Ah, ser filho de fazendeiro!
A beira do São Francisco, do Paraíba ou de qualquer córrcgo vagabundo,
é sempre a mesma sen-si-bi-li-da-de.
E a gente viajando na pátria sente saudades da pátria.
Aquela casa de nove andares comerciais
é muito interessante.
A casa colonial da fazenda também era...
No elevador penso na roça,
na roça penso no elevador.
Quem me fez assim foi minha gente e minha terra
e eu gosto bem de ter nascido com essa tara.
Para mim, de todas as burrices a maior é suspirar pela Europa.
A Europa é uma cidade muito velha onde só fazem caso de dinheiro
e tem umas atrizes de pernas adjetivas que passam a perna na gente.
O francês, o italiano, o judeu falam uma língua de farrapos.
Aqui ao menos a gente sabe que tudo é uma canalha só,
lê o seu jornal, mete a língua no governo,
queixa-se da vida (a vida está tão cara)
e no fim dá certo.
Se meu verso não deu certo, foi seu ouvido que entortou.
Eu não disse ao senhor que não sou senão poeta?
De Alguma poesia (1930)
Carlos Drummond de Andrade
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