Inspirados já nos ensinamentos de Sófocles, aqui, procurar-se-á a conexão, pelo conhecimento, entre o velho e o novo, com seus conflitos. As pistas perseguidas, de modos específicos, continuarão a ser aquelas pavimentadas pelo grego do período clássico (séculos VI e V a.C).
domingo, 24 de maio de 2026
A Grande Arte
"Eu vou vivendo
Vou vivendo com você por viver
E assim eu vou andando até ver"
'É, cantando aquele pagode gostoso do Alcides'
#tbt❤️ A GRANDE ARTE, filme de Walter Salles Jr. #petercoyote #izaeirado #waltersallesjr #waltersalles #videofilmes @videofilmes_produtora
1 – Sou da imprensa anterior ao copy desk. (...) Na redação não havia nada da aridez atual e pelo contrário: – era uma cova de delícias. O sujeito ganhava mal ou simplesmente não ganhava. Para comer, dependia de uma vale utópico de cinco ou dez mil-réis.
2 – Mas tinha a compensação da glória. Quem redigia um atropelamento julgava-se um estilista. E a própria vaidade o remunerava. Cada qual era um pavão enfático. Escrevia na véspera e no dia seguinte via-se impresso, sem o retoque de uma vírgula. Havia uma volúpia autoral inenarrável. E nenhum estilo era profanado por uma emenda, jamais. (RODRIGUES, 2007, p. 138)
_________________________
21 Fischer (2009, p. 66)
O REACIONARISMO DE NELSON RODRIGUES A PARTIR DE SEUS TEXTOS MÊMORE-CONFESSIONAIS
Política e cultura, segundo uma opção democrática, constitucionalista, reformista, plural.
A difícil arte da frente ampla - Mais uma vez, e por toda parte, a esquerda pós-comunista, uma mancha ainda indecisa de tendências díspares, depara-se com o enigma da ampla coalizão democrática
7:00 AM · 24 de mai de 2026
https://estadao.com.br/opiniao/luiz-sergio-henriques/a-dificil-arte-da-frente-ampla/
📸Nelson Almeida/AFP
domingo, 24 de maio de 2026
A difícil arte da frente ampla, por Luiz Sérgio Henriques
O Estado de S. Paulo
Mais uma vez, e por toda parte, a esquerda pós-comunista, uma mancha ainda indecisa de tendências díspares, depara-se com o enigma da ampla coalizão democrática
Um mergulho no imaginário das esquerdas, em plena modernidade, permite identificar a questão recorrente de alianças e frentes. Com quais aliados contar para reformar o capitalismo, segundo os socialistas, ou para derrubá-lo, segundo os comunistas? A relação entre esses dois irmãos-inimigos atravessou boa parte do século passado, apontando o caminho seja de derrotas fragorosas, seja de momentos de resistência e avanço.
O feroz antagonismo entre os irmãos assumiu tons retóricos contundentes. Por um lado, os comunistas eram acusados de ser adeptos de soluções violentas, inviáveis no Ocidente político; os socialistas, por seu turno, não passariam de traidores da revolução, quando não de fraudulenta ala “social” do fascismo.
Esse confronto, que facilitaria a ascensão do fascismo e do nazismo, só teria um primeiro remédio com as frentes populares dos anos 30. É que, além de unificar os dois ramos do movimento operário, elas se abriram a outras tradições incontornáveis, como o catolicismo político, o socialismo liberal e o republicanismo. Quanto mais amplas, maior o potencial democrático, prefigurando as forças aliadas vitoriosas na guerra que se seguiria.
Situações desse tipo não se limitavam a uma parte do mundo. Sob outras formas, mostravam-se também num Brasil em processo de modernização. Os anos 30, entre nós, viram o confronto entre integralistas e comunistas – sob o olhar implacável de Vargas. Inserida no amplo guarda-chuva da Aliança Nacional Libertadora, a esquerda comunista contribuiria para “o maior movimento popular do País, o mais charmoso e encantador”, segundo Ruy Castro, cuidadoso biógrafo da vida cotidiana de um Brasil em mutação (Trincheira tropical, Companhia das Letras). Encerrada em si mesma, tomando a nuvem por Juno, aquela esquerda se perderia numa aventura militarista nascida para fracassar.
Três décadas depois, a modernização inconclusa ganharia impulso com uma segunda ditadura, não casualmente chamada de “o Estado Novo da União Democrática Nacional (UDN)”. Liberais e democratas,
até alguns que apoiaram o regime no momento inicial, coerentemente se afastaram, fiéis ao seu compromisso doutrinário.
Entre os opositores mais declarados, duramente perseguidos, se renovaria a estratégia de frente – o imaginário dos anos 30 era, efetivamente, duro de morrer. E os comunistas do Partido Comunista Brasileiro
(PCB), talvez marcados a ferro e fogo pela memória do putsch de 1935, logo formularam a ideia de uma frente ampla, pacífica e democrática. O regime haveria de ser derrotado pela política, não pelas miragens da guerrilha urbana ou da guerra popular prolongada.
A formulação era exata, como foi comprovado pela tortuosa marcha dos fatos, mas a força que a apresentara vivia um declínio irreversível. Havia sabedoria na “moderação na adversidade”, bem como na convicção de que buscar o centro político não implicava fazer a política de um centro sem alma. A ação prática era a mais adequada, mas tinha como limite a visão de mundo própria de quem nascera sob o signo da revolução dos sovietes e dele não se libertara. Ficou, no entanto, uma semente frágil – a ideia de que a democracia “burguesa” devia perder de vez o adjetivo desabonador e, ao contrário, afirmarse como “valor universal” ou “permanente”.
Quase quatro décadas à frente, a estrutura do mundo – e do nosso país – tomou rumos inesperados, eis que a História costuma ser dama inconstante. Vivemos agora no coração da pós-modernidade ou da hipermodernidade. Discussão conceitual à parte, o fato é que entre os especialistas, com raras exceções, generalizou-se o tema da “recessão democrática” e da corrosão interna de algumas das mais tradicionais sociedades abertas.
No nosso canto do mapa, é certo que, em 2018, o Brasil “dobrou à direita”, para usar a expressão de Jairo Nicolau, e ainda hoje se vê às voltas não com uma direita democrática – fundamental para a normal alternância de forças no poder –, mas com outra que se convencionou chamar de “iliberal” ou “antiliberal”.
Essa qualificação revela que o alvo bem nítido dos distintos autoritarismos contemporâneos são os variados mecanismos propriamente liberais que limitam a concentração autocrática do mando. A soberania popular, toscamente invocada (“só o povo é supremo”), encarna-se contraditoriamente na figura do líder com permissão para atropelar todas as regras (“eu autorizo”), inclusive procedimentos eleitorais. O demos, aqui, é massa de indivíduos controlados pelo alto – uma circunstância que faz lembrar os acontecimentos de um século atrás.
Mais uma vez, e por toda parte, a esquerda pós-comunista, uma mancha ainda indecisa de tendências díspares, depara-se com o enigma da ampla coalizão democrática. Para decifrá-lo, deve ter a ambição de assimilar criticamente os pontos fortes do liberalismo. Fincar pé nas próprias verdades e fechar-se ao debate/embate com essa e outras correntes significa comportar-se como alma bela. Mais do que isso, significa desistir da reconstrução de um horizonte comum, composto de luta e conciliação, afirmação de interesses particulares e preocupação com a casa de todos.
*Tradutor e ensaísta, coeditor das ‘Obras’ de Gramsci no Brasil
Nem monstros, nem idiotas: um debate sobre a geopolítica atual
Brazil Journal
21 de mai. de 2026
Publicado em: 16/04/2025
“É a primeira vez que vejo um jornalista ocidental realmente tentando entender e não pinçando frases para nos tratar como monstros ou como idiotas.” A frase dita por um ex-agente do serviço secreto paquistanês a Lourival Sant’Anna é uma das lembranças do jornalista que, indo a campo, se tornou um especialista em geopolítica.
Em 36 anos de profissão, Lourival realizou coberturas em 80 países - muitos em guerra. Um de seus livros é Minha guerra contra o medo: o que o risco de morte ensina sobre a vida. “É impossível analisar um país sem ter estado lá e feito contato com as pessoas.”
Neste episódio, ele fala sobre a política externa de Donald Trump - “baseada no improviso” e guiada por uma visão de mundo “transacional, mercantil” - e sobre a guerra na Faixa de Gaza, criticando a atuação da imprensa brasileira.
“Parece um jogo de eu sou contra ou sou a favor. Zero ou um.” Para Lourival, a imprensa israelense “é muito mais aberta e profunda”. “É mais fácil criticar Israel sendo um israelense dentro de Israel do que no Brasil.”
Disponível também no Spotify.
Assista no Brazil Journal: https://braziljournal.com/play/nem-mo...
A Grande Arte - a estreia do Walter Salles!
https://www.google.com/search?gs_ssp=eJzj4tTP1TcwrazKLjBg9OJNVEgvSsxLSVVILCpJBQBqcghY&q=a+grande+arte&rlz=1C1VDKB_pt-PTBR1068BR1068&oq=A+GRANDE+ARTE&gs_lcrp=EgZjaHJvbWUqBwgAEC4YgAQyBwgAEC4YgAQyDAgBEEUYORjjAhiABDIHCAIQLhiABDIHCAMQLhiABDIHCAQQLhiABDIHCAUQABiABDIHCAYQABiABDIHCAcQABiABDIHCAgQABiABDIHCAkQABiABNIBCDQxMTFqMGo3qAIIsAIB8QVLuI1pDgqRCvEFS7iNaQ4KkQo&sourceid=chrome&ie=UTF-8#fpstate=ive&vld=cid:5ac00489,vid:tntlectwCX8,st:0
Velha Guarda da Portela - Você Não é Tal Mulher / Para O Bem Do Nosso Bem
Você Não É a Tal Mulher - Para o Bem do Nosso Bem
Velha Guarda da Portela
Como que é, compadre Casquinha
Vamos lembrar da Nossa Velha Guarda da Portela?
Vamos sim, Monarco, vamos lembrar da nossa história
Uma longa história
É, cantando aquele pagode gostoso do Alcides
Você não é a tal mulher
Você não é não, ah meu bem
A dona do meu coração
Vou vivendo com você
Vou vivendo com você por viver
E assim eu vou andando até ver
Eu vou vivendo
Vou vivendo com você por viver
E assim eu vou andando até ver
Você não é
Você não é não, ah meu bem
A dona do meu coração
Eu vou vivendo
Vou vivendo com você por viver
E assim eu vou andando até ver
Vou vivendo com você por viver
E assim eu vou andando até ver
Agora vamos lembrar de um professor
O nosso cantor Alvaiade
Mestre Alvaiade
Então você puxa aquele samba dele
Eu não direi o que se passou entre nós
Eu não direi para o bem do nosso bem
Eu não direi o que se passou entre nós a ninguém
Eu não direi o que se passou entre nós
Eu não direi para o bem do nosso bem
Eu não direi o que se passou entre nós a ninguém
Eu não direi o que se passou entre nós a ninguém
Vou-me embora em silêncio
Chega de me aborrecer
Quando o gênio não combina
Na vida não há prazer
Mas o teu segredo
Não vou contar a ninguém
Teu amor me meteu medo
E pior arranjar outro alguém
Eu não direi o que se passou entre nós
Eu não direi para o bem do nosso bem
Eu não direi o que se passou entre nós a ninguém
Eu não direi o que se passou entre nós a ninguém
Não fique triste
Isso é normal
Quantos casais separados
Isso é muito natural
Vou-me embora vou-me embora
Por este mundo sem fim
Nosso gênio não combina
Não posso viver assim
Eu não direi o que se passou entre nós
Eu não direi para o bem do nosso bem
Eu não direi o que se passou entre nós a ninguém
Eu não direi o que se passou entre nós
Eu não direi para o bem do nosso bem
Eu não direi o que se passou entre nós a ninguém
(Rapaziada, era assim que nos domingos de manhã
La na Porteliha a gente fazia aquele pagode
Uma garrafinha de cana, garrafa de cerva
Algumas garrafas de caca, cabrito frito
E a gente tomando tomando cana e cantando esse pagode
Cantinho, que saudade, que saudade!)
Eu não direi o que se passou entre nós
Eu não direi para o bem do nosso bem
Eu não direi o que se passou entre nós a ninguém
Eu não direi o que se passou entre nós
Eu não direi para o bem do nosso bem
Eu não direi o que se passou entre nós a ninguém
Eu não direi o que se passou entre nós
Eu não direi para o bem do nosso bem
Eu não direi o que se passou entre nós a ninguém
Eu não direi o que se passou entre nós
Eu não direi para o bem do nosso bem
Eu não direi o que se passou entre nós a ninguém
Composição: Alvaiade, Alcides, Malandro Histório.
📰 EDIÇÃO DE DOMINGO • EDIÇÃO EXTRAORDINÁRIA
ÚLTIMA HORA — O JORNAL DA RESISTÊNCIA DEMOCRÁTICA
📍 Rio de Janeiro, 24 de maio de 2026
DA FREI CANECA AO ENIGMA DE 2026
O fio condutor que une Graciliano Ramos e Luiz Sérgio Henriques
Por um Redator de Copydesk da Velha Guarda
Especial para o Última Hora
RIO —
As luzes da redação do Última Hora, renascido das cinzas da História como uma fênix teimosa, iluminam o chão de terra e cimento que pisamos. Fazer a revisão do texto — o copydesk, como se dizia nos tempos em que Graciliano Ramos trabalhava nas redações — é o ofício do último dos moicanos nas lutas democráticas, no apagar das luzes que antecedeu o ano de 1964.
O próprio desaparecimento de Graça, ocorrido antes desse desfecho, poupou-o de padecer na escuridão ao lado de seus velhos camaradas.
Mas a linha do tempo não se rompe; ela se enovela.
Ao aproximarmos Graciliano Ramos do ensaio contemporâneo de Luiz Sérgio Henriques, percebemos um fio condutor que entrelaça duas histórias numa resultante em movimento. O diagnóstico cáustico do Velho Graça sobre as celas do cárcere varguista ecoa, com inquietante nitidez, no enigma enfrentado pela esquerda neste domingo de 2026.
I. A SENTENÇA DO VELHO GRAÇA
Nas memórias do cárcere dos anos 1930, Graciliano Ramos não dourava a pílula. Sua prosa seca registrou o DNA do impasse político nacional:
“As esquerdas não se unem senão na Frei Caneca. As direitas se achegam, resabiadas. Nem na Ilha Grande a extrema-direita se priva de uma extremidade da ilha: isola-se, e só entre os seus.”
A ironia do Velho Graça expunha a fratura crônica dos “irmãos-inimigos”. Na prisão, sob o peso do Estado Novo, comunistas e socialistas dividiam o mesmo teto, mas divergiam nas teses.
Enquanto isso, as forças conservadoras operavam pelo pragmatismo do poder, ainda que marcadas por desconfianças mútuas. Já a extrema-direita preferia o isolamento purista ao convívio com a pluralidade.
II. O DIAGNÓSTICO DE 2026: A FRENTE AMPLA COMO ARTE DO POSSÍVEL
Quase um século depois, o historiador e ensaísta Luiz Sérgio Henriques, escrevendo nas páginas do Estado de S. Paulo, retoma esse mesmo fio.
Ele recorda que o antagonismo feroz do século passado facilitou a ascensão do nazi-fascismo — erro histórico que só encontrou resposta nas Frentes Populares dos anos 1930.
No Brasil, após a trágica aventura militarista de 1935 — quando a esquerda “tomou a nuvem por Juno” —, o PCB pós-64 passou a formular a ideia de uma frente ampla e pacífica. O regime militar deveria ser derrotado pela política, não pelas miragens da guerrilha.
Ali germinava uma ideia decisiva: a democracia precisava abandonar o adjetivo “burguesa” para afirmar-se como valor universal.
Hoje, no coração da hipermodernidade, o Brasil enfrenta novamente uma espécie de “recessão democrática”. Desde que o país “dobrou à direita” em 2018, consolidou-se uma força iliberal que contesta as regras do jogo e manipula o clamor popular para concentrar o poder.
III. A RESULTANTE EM MOVIMENTO: O ENIGMA A DECIFRAR
É nesse ponto que a crônica de Graciliano e a análise de Henriques se fundem.
A esquerda atual, descrita como “uma mancha ainda indecisa de tendências díspares”, enfrenta o mesmo enigma da coalizão democrática que assombrava os pavilhões da Frei Caneca.
Para não sucumbir ao isolamento ironizado por Graciliano, a esquerda pós-comunista precisa assimilar os pontos fortes do liberalismo político.
Fincar-se em dogmas e fechar-se ao centro significa agir como “alma bela” — uma pureza estéril que, no fim, abre caminho para a autocracia.
EPÍLOGO
As luzes de 1964 se apagaram para Graciliano.
As de 2026, porém, permanecem acesas em nossa mesa de redação.
O desafio continua o mesmo:
construir um horizonte comum, onde luta e conciliação coexistam — e onde a afirmação dos interesses particulares não destrua a casa de todos.
Se quiser
EDIÇÃO DE DOMINGO • EDIÇÃO EXTRAORDINÁRIAÚLTIMA HORA — O JORNAL DA RESISTÊNCIA DEMOCRÁTICARio de Janeiro, 24 de maio de 2026DA FREI CANECA AO ENIGMA DE 2026: O FIO CONDUTOR QUE UNE GRACILIANO RAMOS E LUIZ SÉRGIO HENRIQUESPor um Redator de Copydesk da Velha GuardaEspecial para o Última HoraRIO — As luzes da redação do Última Hora, renascido das cinzas da História como fênix teimosa, clareiam o chão de terra e cimento que pisamos. Fazer a revisão do texto — o copydesk, como se soia dizer nos tempos em que Graciliano Ramos trabalhava nas redações — é o papel do último dos moicanos nas lutas democráticas, no apagar das luzes que antecedeu o ano de 1964. O próprio desaparecimento de Graça, ocorrido antes desse desfecho, poupou-o de padecer na escuridão ao lado de seus velhos camaradas.Mas a linha do tempo não se rompe; ela se enovela. Ao convolar Graciliano Ramos com o ensaio contemporâneo de Luiz Sérgio Henriques, vemo-nos emaranhados em um fio condutor que liga duas histórias numa resultante em movimento. O diagnóstico cáustico do Velho Graça sobre as celas do cárcere varguista ecoa, com assustadora nitidez, no enigma que a esquerda pós-comunista enfrenta neste domingo de 2026.I. A Sentença do Velho GraçaNas memórias do cárcere dos anos 1930, Graciliano Ramos não dourava a pílula. Sua prosa seca registrou o DNA do impasse político nacional:"As esquerdas não se unem senão na Frei Caneca. As direitas se achegam, resabiadas. Nem na Ilha Grande a extrema-direta se priva de uma extremidade da ilha: isola-se, e só entre os seus."A ironia do Velho Graça expunha a fratura crônica dos "irmãos-inimigos". Na prisão, sob o peso do Estado Novo, comunistas e socialistas dividiam o mesmo teto, mas divergiam nas teses. Enquanto isso, as forças conservadoras operavam pelo pragmatismo do poder, embora guardando desconfianças mútuas. A extrema-direita, por sua vez, preferia o isolamento purista da ponta da ilha ao convívio com a pluralidade.II. O Diagnóstico de 2026: A Frente Ampla como Arte do PossívelQuase um século depois, o historiador e ensaísta Luiz Sérgio Henriques, escrevendo nas páginas do Estado de S. Paulo, puxa o mesmo fio da meada. Ele nos lembra de que o feroz antagonismo do século passado facilitou a ascensão do nazi-fascismo, um erro que só encontrou remédio nas Frentes Populares dos anos 1930.No Brasil, após a trágica aventura militarista de 1935 — quando a esquerda "tomou a nuvem por Juno" —, o PCB pós-64 tentou formular a ideia de uma frente ampla e pacífica. O regime militar deveria ser derrotado pela política, não pelas miragens da guerrilha. Ali nascia a semente frágil de que a democracia deveria perder o adjetivo "burguesa" para afirmar-se como valor universal.Hoje, no coração da hipermodernidade, o Brasil enfrenta novamente uma "recessão democrática". Desde que o país "dobrou à direita" em 2018, deparamo-nos com uma força iliberal que contesta as regras do jogo e manipula o clamor popular para concentrar o mando.III. A Resultante em Movimento: O Enigma a DecifrarÉ aqui que a crônica de Graciliano e a análise de Henriques se fundem no fechamento desta edição. A esquerda atual, descrita por Henriques como "uma mancha ainda indecisa de tendências díspares", enfrenta o mesmíssimo enigma da coalizão democrática que assombrava os pavilhões da Frei Caneca.Para não ser tragada pelo isolamento que Graciliano ironizava, a esquerda pós-comunista precisa assimilar os pontos fortes do liberalismo político. Fincar pé em dogmas e fechar-se ao centro significa agir como "alma bela" — uma pureza inútil que abre as portas para a autocracia.As luzes de 1964 se apagaram para Graciliano, mas as de 2026 continuam acesas na nossa mesa de redação. O desafio permanece o mesmo: construir um horizonte comum, composto de luta e conciliação, onde a afirmação dos interesses particulares não destrua a casa de todos.
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