quarta-feira, 6 de maio de 2026

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades – Luís de Camões

"Eu na verdade indiretamente Sou culpado da tua infelicidade Mas se eu for condenado A tua consciencia sera meu advogado" Errei Erramos Ataulfo Alves
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, muda-se o ser, muda-se a confiança; todo o Mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades. Continuamente vemos novidades, diferentes em tudo da esperança; do mal ficam as mágoas na lembrança, e do bem (se algum houve), as saudades. O tempo cobre o chão de verde manto, que já coberto foi de neve fria, e, enfim, converte em choro o doce canto. E, afora este mudar-se cada dia, outra mudança faz de mor espanto, que não se muda já como soía. Nota biográfica Luís Vaz de Camões nasceu em Lisboa, Portugal, em 1524. Foi uma das maiores figuras da literatura lusófona e um dos grandes poetas da tradição ocidental. A sua obra magna, Os Lusíadas, é considerada a epopeia portuguesa por excelência. Camões foi louvado por diversos luminares não-lusófonos da cultura ocidental. Mônica Bergamo: Lula deve pedir fim da investigação americana sobre Pix Rádio BandNews FM "Tem um leitor aqui perguntando: 'pra que tantos dedos para elogiar o Lula?' Primeiro que não foi um elogio, foi uma constatação. Constatação de um talento que ele tem, assim como o Ciro o chamou de encantador de serpentes, né. É... e, de fato, eu não gosto de elogiar político não, porque já tem gente muito bem paga para fazer isso. O meu trabalho é outro."
quarta-feira, 6 de maio de 2026 Lula e o fantasma das Laranjeiras, por Marcelo Godoy O Estado de S. Paulo O último dos espíritos que rondam Brasília aparece a Lula nas noites insones do Alvorada Em 30 de outubro de 1897 o Jornal do Brasil noticiou em sua primeira página: “Às primeiras badaladas da meia-noite, descia a Ladeira do Ascurra nas Laranjeiras, no Rio, em direção ao Largo do Machado, um vulto de mulher, ora decapitado, ora ostentando uma cabeça povoada de cabelos negros”. Milhares acorreram nos dias seguintes à ladeira para tentar flagrar a assombração. A história do fantasma que apavorou a capital federal meses antes do atentado contra o presidente Prudente de Morais está no livro 1897, A República polarizada e o atentado contra Prudente de Morais, do professor Ely Carneiro de Paiva, da Unicamp. Ela marcou o último ano do primeiro governo civil da República. Na noite de quinta-feira, dia 30 de abril, milhares de pessoas se aglomeraram na Praça Charles Miller, no Pacaembu, no centro de São Paulo. Chegaram pouco a pouco em suas motocicletas e com seus baús e mochilas. Um deles explicou à coluna. Estava lá para “assar uma carne”, “conversar”, “confraternizar”. Entregadores, sem outro vínculo que não o de seu trabalho – de forma que alguns desavisados chamariam de “espontânea” –, inundaram a praça com seu destino comum, suas vidas, esperanças e inseguranças. Todos invisíveis ao governo e às centrais sindicais. Ali passeava um fantasma. Não o da mulher sem cabeça, mas o de uma esquerda que não soube conversar com esse mundo, como mostrou a repórter Cristiane Barbieri em sua série sobre a nova realidade do trabalho. De fato, na noite de quinta-feira, não havia um único dirigente da CUT ou do PT na Praça Charles Miller. O fantasma da falta de conexão com o novo mundo do trabalho não é o único a apavorar Lula e o PT neste 2026. A ele se junta o fantasma das relações civis e militares. Se a oficialidade se descolou, em sua maioria, do bolsonarismo em 2023, tampouco passou a nutrir simpatias pelo petismo, mesmo após os ataques da extrema direita ao Exército, que se manteve na legalidade e não embarcou no Plano Punhal Verde e Amarelo. Uma terceira assombração resolveu reaparecer em Brasília. E à luz do dia. Ela não se mostrava assim desde o governo de Floriano Peixoto, o marechal que antecedera Prudente de Morais. Trata-se da crise do mundo político com aquele habitado, hoje, por dez magistrados. Há muita gente se preparando para assistir a um novo espetáculo, que até bem pouco só existia no mundo sobrenatural. O desfile de decapitados de 2027 não descerá a Ladeira do Ascurra – dizem esses áugures –, mas ocorrerá no STF. Por fim, o último dos fantasmas que rondam Brasília é o que aparece a Lula nas noites insones do Alvorada. Ele tem as vestes do Bolsonaro Acorrentado e sobe a rampa do Planalto.
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Entre 1989 e 2026: repetição ou metamorfose? Uma leitura da política brasileira à luz de Camões Por uma ciência política de divulgação A eleição presidencial de 1989 ocupa um lugar singular na história brasileira. Primeira após a ditadura militar, reuniu 22 candidatos e simbolizou um país em reconstrução institucional, marcado pela fragmentação partidária e pela busca de identidade democrática. Nomes como Ulysses Guimarães, Leonel Brizola e Luiz Inácio Lula da Silva representavam projetos distintos de país, enquanto Fernando Collor de Mello emergia como o “novo”, um outsider que capitalizou o desgaste das elites tradicionais. Passadas quase quatro décadas, a eleição de 2026 se desenha em um cenário profundamente diferente — mas não totalmente desconectado. A questão que se impõe é: estamos diante de uma repetição histórica ou de uma transformação estrutural com aparência de continuidade? Da fragmentação à polarização Se 1989 foi marcado pela dispersão — 22 candidaturas, múltiplos projetos e baixa coordenação partidária —, o Brasil contemporâneo caminha na direção oposta: a polarização. Nas eleições recentes, o número de candidaturas diminuiu significativamente, e o sistema político passou a se organizar em torno de dois grandes polos. Nesse contexto, a possível presença de Luiz Inácio Lula da Silva como figura central em 2026 não representa apenas continuidade pessoal, mas a consolidação de um eixo político que estrutura o debate nacional há pelo menos duas décadas. Por outro lado, nomes como Ronaldo Caiado ilustram a reorganização do campo oposicionista, que já não se ancora nas mesmas siglas ou lideranças de 1989, mas mantém a lógica de contraposição. Partidos: permanência nominal, mutação substantiva Um dos aspectos mais intrigantes da comparação entre 1989 e 2026 é a sobrevivência das siglas. O Partido dos Trabalhadores (PT), por exemplo, permanece como protagonista. No entanto, sua posição no sistema político mudou: de força emergente em 1989 a eixo estruturante do debate político contemporâneo. Outras siglas desapareceram, se fundiram ou perderam relevância. Isso revela uma característica central do sistema partidário brasileiro: alta volatilidade institucional combinada com continuidade simbólica. A ideia de um “terceiro partido” com papel semelhante ao do antigo PRN — legenda de Collor — também ressurge ciclicamente. Contudo, diferentemente de 1989, esse espaço tem encontrado dificuldade em se consolidar de forma duradoura, sendo frequentemente absorvido pela dinâmica polarizada. O mito da repetição histórica Há uma tentação recorrente, no jornalismo e na análise política, de interpretar o presente como espelho do passado. A presença de nomes conhecidos, a permanência de siglas e a reedição de antagonismos sugerem uma espécie de déjà vu institucional. No entanto, essa leitura ignora transformações profundas: O papel das redes sociais na formação da opinião pública A profissionalização das campanhas A judicialização da política A mudança no perfil do eleitorado Assim, ainda que Luiz Inácio Lula da Silva possa disputar novamente sob a mesma sigla, o contexto em que isso ocorre é radicalmente distinto daquele de 1989. Camões e a política: mudança como regra É nesse ponto que a leitura do poema de Luís de Camões se torna mais do que um recurso literário — ela se transforma em chave analítica: “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, muda-se o ser, muda-se a confiança; todo o Mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades.” A política brasileira exemplifica com precisão essa dinâmica. O que parece repetição é, na verdade, reconfiguração. As mesmas palavras — democracia, povo, mudança — ganham novos significados conforme o contexto histórico. Conclusão: entre a memória e a transformação A eleição de 2026 não será uma nova versão de 1989, ainda que dialogue com ela. O Brasil de hoje é menos fragmentado, mais polarizado e institucionalmente mais complexo. Se em 1989 a novidade era um outsider como Fernando Collor de Mello, em 2026 a novidade pode residir justamente na dificuldade de emergência de um novo polo fora da lógica dominante. No fim, como sugere Camões, não é apenas o tempo que muda — muda a própria forma de mudar. E talvez seja esse o verdadeiro “imbróglio”: reconhecer que a política brasileira não se repete, mas também nunca rompe completamente com o seu passado. O Partido Invisível: rejeição, simetria e o eco de 1989 na eleição de 2026 Por uma leitura de ciência política aplicada ao jornalismo A eleição presidencial de 1989 marcou a retomada democrática no Brasil com uma característica central: a fragmentação. Foram 22 candidatos, múltiplos projetos e um eleitorado ainda em processo de reorganização após duas décadas de regime militar. Nesse cenário, um elemento inesperado emergiu: a vitória de Fernando Collor de Mello, então filiado ao Partido da Reconstrução Nacional (PRN), uma legenda pequena que capturou um sentimento difuso de insatisfação nacional. Quase quarenta anos depois, a eleição de 2026 se apresenta sob outra lógica. Menos fragmentada, mais polarizada e estruturada em torno de poucos polos de poder, ela sugere uma transformação profunda no funcionamento da democracia brasileira. No entanto, sob essa mudança aparente, pode-se identificar uma permanência mais sutil — não de partidos ou nomes, mas de funções políticas. Do partido formal ao “partido invisível” Em 1989, o PRN era uma legenda concreta, institucional, ainda que pouco expressiva. Hoje, ele pode ser reinterpretado como algo diferente: não mais um partido formal, mas uma função política difusa, que atravessa siglas e candidaturas. Esse “novo PRN” — que aqui se pode chamar, por ironia ou precisão analítica, de “Partido da Rejeição Nacional” — não se define por um programa, mas por um afeto: a rejeição. Trata-se de um fenômeno conhecido na ciência política como voto negativo, no qual o eleitor não escolhe propriamente um projeto, mas se posiciona contra outro. Nesse sentido, a política deixa de ser apenas disputa de propostas e passa a ser também disputa de rejeições. A simetria dos polos A dinâmica eleitoral contemporânea no Brasil tem se estruturado em torno de um eixo central, frequentemente associado ao Partido dos Trabalhadores (PT) e à figura de Luiz Inácio Lula da Silva. Esse polo organiza não apenas apoios, mas também resistências. É nesse ponto que o “Partido da Rejeição Nacional” ganha forma: ele surge como imagem invertida desse polo dominante. Sua identidade não é autônoma, mas relacional — define-se pela oposição. Diferentemente de 1989, quando o “novo” se apresentava como promessa de reconstrução, o que se observa agora — ao menos como tendência — é a emergência de um “novo” que se estrutura como negação. Renovação que se torna rejeição A transformação semântica proposta — de “Reconstrução” para “Rejeição” — não é apenas retórica. Ela aponta para uma mudança na própria natureza da política: antes, a mobilização se dava pela esperança de mudança agora, pela recusa da continuidade (ou do adversário) Esse deslocamento não elimina a política, mas altera seu eixo. O debate deixa de girar exclusivamente em torno de projetos de futuro e passa a ser fortemente influenciado por avaliações negativas do presente ou do outro. Camões e a lógica da mudança A leitura desse processo encontra eco no poema de Luís de Camões, especialmente quando afirma: “todo o Mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades.” Na política brasileira, essa ideia se materializa de forma evidente. As estruturas permanecem, mas seus significados se transformam. As siglas sobrevivem, mas já não representam o mesmo. E até mesmo a ideia de “novo” se reinventa — ora como construção, ora como rejeição. Mais adiante, o poeta aprofunda: “outra mudança faz de mor espanto, que não se muda já como soía.” Aqui está o ponto central: não apenas mudam os atores e as circunstâncias — muda a própria forma de mudança. A política deixa de operar segundo padrões previsíveis e passa a incorporar dinâmicas mais voláteis, emocionais e reativas. O limite da simetria Embora a ideia de uma oposição perfeitamente simétrica seja analiticamente elegante, a realidade política impõe limites. O Brasil continua sendo marcado por: diversidade regional fragmentação partidária no Legislativo surgimento recorrente de novos atores Isso significa que o “Partido da Rejeição Nacional” dificilmente se consolidará como uma força única e estável. Ele tende a se manifestar de forma dispersa, adaptando-se às circunstâncias e às lideranças disponíveis. Conclusão: o passado como linguagem do presente A eleição de 2026 não será uma repetição de 1989. No entanto, ela pode ser compreendida a partir de uma gramática semelhante, na qual sentimentos coletivos encontram expressão em candidaturas específicas. Se em 1989 o PRN foi o veículo de um outsider que prometia reconstrução, em 2026 o que se observa — ao menos como hipótese interpretativa — é a emergência de um “partido invisível”, movido pela rejeição e estruturado em torno da oposição a um polo dominante. No fim, a política brasileira confirma a intuição de Camões: não há repetição pura, mas transformação contínua. E, talvez, o maior desafio analítico seja justamente este: reconhecer que, por trás dos mesmos nomes e siglas, operam sempre novas qualidades de mudança.
Vale a pena guardar O Partido Invisível (Parte II): o agronegócio e a base material da rejeição Se, na primeira parte, identificamos a emergência de um “Partido da Rejeição Nacional” como função simbólica da política brasileira, é necessário agora observar sua base material. Afinal, rejeições não surgem no vazio: elas se organizam sobre estruturas sociais concretas. Entre essas estruturas, nenhuma é tão decisiva — e ao mesmo tempo tão heterogênea — quanto o agronegócio. Um quarto do país que trabalha Hoje, o agronegócio brasileiro reúne aproximadamente 28 milhões de trabalhadores, o que corresponde a cerca de um em cada quatro ocupados no país. Trata-se do maior contingente setorial quando considerado em sua forma ampliada, que inclui: produção agropecuária agroindústria cadeias de insumos logística e comercialização No entanto, esse número esconde uma divisão fundamental. O chamado núcleo primário — o trabalho diretamente no campo — concentra cerca de 8 milhões de pessoas, com rendimento médio mensal próximo de R$ 2.300, significativamente abaixo da média nacional. Dualidade estrutural: modernidade e precariedade O agronegócio brasileiro é frequentemente descrito como moderno, tecnológico e competitivo. E isso é verdade — em parte. Na camada superior do setor, encontram-se: grandes produtores altamente mecanizados cadeias exportadoras eficientes profissionais qualificados com rendimentos elevados Mas, na base, predomina outra realidade: alta informalidade trabalho sazonal baixa renda vulnerabilidade econômica Essa dualidade cria um fenômeno típico de economias desiguais: 👉 um mesmo setor abriga tanto o topo quanto a base da pirâmide social Da condição econômica ao comportamento político É nesse ponto que o agronegócio se conecta diretamente ao argumento da Parte I. A heterogeneidade do setor produz respostas políticas distintas: segmentos mais capitalizados tendem a se alinhar com agendas de mercado, estabilidade e previsibilidade segmentos mais vulneráveis são mais sensíveis a variações de renda, custo de vida e políticas públicas No entanto, ambos podem convergir em um elemento comum: 👉 a rejeição rejeição a políticas percebidas como ameaças econômicas rejeição a atores políticos associados à instabilidade rejeição ao “outro polo” da disputa Assim, o agronegócio não forma um bloco político homogêneo, mas contribui decisivamente para alimentar o que chamamos de “Partido Invisível”. Simetria imperfeita: produção e reação Na dinâmica descrita anteriormente — um polo dominante e um polo opositor — o agronegócio atua como campo de disputa, não como ator único. Parte dele pode se alinhar ao eixo representado pelo Luiz Inácio Lula da Silva e pelo Partido dos Trabalhadores, especialmente em regiões onde políticas públicas têm impacto direto. Outra parte, porém, se organiza como força de contenção — não necessariamente por identidade ideológica, mas por cálculo econômico e percepção de risco. É nesse deslocamento que a rejeição ganha densidade social. Camões revisitado: a mudança na base Se, na dimensão simbólica, Luís de Camões nos ajuda a compreender a mutação dos significados, na dimensão material ele nos lembra que a mudança é contínua, mas desigual: “O tempo cobre o chão de verde manto, que já coberto foi de neve fria…” A metáfora é precisa: o mesmo solo — aqui entendido como o agronegócio — assume formas distintas ao longo do tempo, mas não perde sua centralidade. Conclusão: o invisível tem base concreta O “Partido da Rejeição Nacional” não é apenas uma construção discursiva. Ele se ancora em experiências reais de milhões de trabalhadores que: vivem oscilações econômicas enfrentam insegurança de renda percebem a política como risco ou ameaça O agronegócio, nesse contexto, funciona como um dos principais terrenos onde essa percepção se forma e se difunde. Se em 1989 um partido pequeno canalizou a insatisfação nacional, em 2026 essa insatisfação tende a ser mais difusa — menos institucional, mais espalhada —, mas não menos poderosa. No fim, a política brasileira continua confirmando a intuição camoniana: não apenas mudam os nomes e as formas, mas também as raízes sociais da mudança. E é nelas — mais do que nas siglas — que reside o verdadeiro sentido do jogo político. quarta-feira, 6 de maio de 2026 Poesia | Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, de Luís de Camões

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