domingo, 10 de maio de 2026

Dinheiro, direito e política, por Pedro S. Malan

Mães, feliz dia!
'Todo governo responsável deve tentar manter a inflação sob controle', diz Malan na CasaFolha 'Em janeiro de 1961, em seu pronunciamento de despedida da Presidência dos EUA, Dwight Eisenhower utilizou publicamente pela primeira vez a expressão “Complexo Industrial Militar”.' 'Nos dias atuais, a expressão mais apropriada talvez fosse “complexo digital-industrial-militar”, dado o peso crescente das grandes empresas de tecnologia e o inexorável uso da inteligência artificial na indústria de armamentos.'
📰 EDIÇÃO EXTRAORDINÁRIA OPINIÃO & MOVIMENTO Maio de 2026 — Em memória de Raimundo Rodrigues Pereira EDITORIAL A frase que atravessa décadas — “há dois tipos de jornalistas: os que gostam de informação e os que gostam de dinheiro” — permanece como uma dessas sentenças que sobrevivem menos pela autoria do que pela utilidade. Atribuída, negada, nunca plenamente assumida, ela carrega o peso de um tempo em que a fronteira entre notícia e interesse era, deliberadamente, embaralhada. Mais do que um julgamento moral sobre a imprensa, a frase revela um método. Não se trata apenas de classificar jornalistas, mas de estabelecer uma lógica de poder: a informação como mercadoria, o acesso como moeda, a influência como instrumento. Nesse terreno, o jornalismo deixa de ser mediação pública e passa a operar como engrenagem de projetos políticos. A trajetória do personagem a quem se atribui a sentença ajuda a compreender seu alcance. Médico de formação, mas forjado politicamente no interior do regime militar, ele ascende como operador de comunicação antes mesmo de se consolidar como figura institucional. Ocupa ministério estratégico, governa um dos estados mais importantes do país, transita entre Câmara e Senado com desenvoltura — sempre orbitando o núcleo duro do poder. Não se trata de um percurso qualquer. É o itinerário de quem entendeu cedo que controlar a narrativa é tão decisivo quanto controlar a máquina administrativa. Dossiês, vazamentos, versões plantadas — práticas que hoje se digitalizaram — já compunham, em versão analógica, um repertório sofisticado de intervenção no debate público. As célebres “pastinhas” não eram apenas arquivos: eram instrumentos. As controvérsias que marcaram essa carreira não são desvios, mas parte do mesmo sistema. A acusação de manipulação de votações, a pecha de “pianista”, os episódios de constrangimento público — tudo isso aponta para uma concepção de política em que os meios raramente são questionados, desde que os fins sejam preservados. É nesse ponto que o contraste se impõe. De um lado, a prática que transforma informação em ativo negociável. De outro, uma tradição de jornalismo que, mesmo sob censura, perseguição e escassez, insistiu em tratar a informação como bem público. A morte recente de um dos representantes mais íntegros dessa tradição recoloca o problema em termos históricos. Pertencente à geração que enfrentou a ditadura não apenas com palavras, mas com estruturas alternativas de imprensa, ele ajudou a construir espaços onde a notícia não se submetia ao cálculo imediato do poder. Não por ingenuidade, mas por convicção. É difícil imaginar que alguém com essa trajetória aceitasse com naturalidade a lógica implícita na frase. Não por desconhecer suas engrenagens — ao contrário, conhecia-as profundamente —, mas porque sabia o preço que se paga quando o jornalismo abdica de sua função crítica. Diante de fontes poderosas, especialmente aquelas cujo capital político se construiu também pela manipulação da informação, a desconfiança não era um gesto de estilo, mas uma exigência ética. Talvez, no fim, a frase esteja incompleta. Não há apenas dois tipos de jornalistas. Há também aqueles que compreendem o jogo e, ainda assim, escolhem não jogá-lo. São esses que, em tempos de confusão deliberada entre interesse e verdade, mantêm de pé a ideia — cada vez mais rara, mas ainda indispensável — de que informar não é negociar, é esclarecer. REPORTAGEM ESPECIAL Poder, informação e controle: o método de Antônio Carlos Magalhães A longa trajetória de Antônio Carlos Magalhães — o ACM — confunde-se com a própria história política recente do Brasil. Nascido em Salvador em 1927, médico de formação, construiu sua carreira a partir da União Democrática Nacional (UDN), consolidando-se como uma das figuras mais influentes da Bahia e do país. Durante o regime instaurado após o Golpe de 1964, ACM tornou-se um operador central. Nomeado prefeito de Salvador e posteriormente governador da Bahia, atuou em estreita articulação com o poder militar. Sua ascensão prosseguiu no período democrático, quando ocupou o Ministério das Comunicações e se firmou como liderança no Congresso Nacional. No Senado, onde exerceu a presidência entre 1997 e 2001, consolidou um estilo político marcado pela centralização e pelo controle rigoroso de aliados e adversários. A expressão “carlismo” passou a designar não apenas um grupo político, mas um modo de operar — baseado na lealdade, na força e no domínio da informação. Seus críticos apontam que esse domínio frequentemente se apoiava em mecanismos de influência sobre a imprensa, incluindo vazamentos seletivos e produção de dossiês. Seus apoiadores, por outro lado, destacam sua capacidade de articulação e o papel desempenhado na modernização da infraestrutura baiana. ACM faleceu em 2007, ainda no exercício do mandato de senador, deixando um legado simultaneamente reconhecido e contestado. PERFIL Raimundo Rodrigues Pereira: jornalismo como resistência Nascido em Exu (PE), em 1940, Raimundo Rodrigues Pereira pertence a uma geração marcada pelo confronto direto com a ditadura. Estudante do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), foi expulso em 1964 por razões ideológicas e preso no contexto do novo regime. Após a prisão, retomou os estudos na Universidade de São Paulo, formando-se em Física, mas foi no jornalismo que encontrou seu campo de atuação. Iniciou na imprensa técnica e alcançou veículos de grande circulação, até assumir, em 1972, a direção do semanário Opinião. Em 1975, liderou a criação do jornal Movimento, um dos mais importantes veículos da chamada imprensa alternativa. Publicado sob censura e constante pressão, o jornal tornou-se espaço de crítica política e reflexão intelectual, resistindo até 1981. Raimundo nunca se filiou formalmente a partidos políticos, mas sua atuação foi decisiva na construção de um jornalismo independente, comprometido com a informação como bem público — em contraste com práticas de instrumentalização da notícia. Faleceu em 2 de maio de 2026, aos 85 anos, deixando uma trajetória marcada pela coerência e pela resistência. NOTAS DA REDAÇÃO 🗂️ As “pastinhas” antes do digital Antes da informatização dos arquivos, a organização de informações políticas passava por métodos físicos. No caso de figuras centrais do poder, relatos recorrentes mencionam a existência de dossiês organizados manualmente — instrumentos de pressão e negociação política. 🎙️ Jornalismo sob pressão Durante a ditadura, veículos como Opinião e Movimento enfrentaram: censura prévia apreensão de edições atentados contra bancas processos judiciais Ainda assim, mantiveram circulação e influência no debate público. ⚖️ Ética e poder A tensão entre jornalismo e poder político permanece atual. A distinção entre informar e influenciar continua sendo um dos principais desafios da prática jornalística. ANEXOS HISTÓRICOS 📌 Anexo I — Trajetória de Antônio Carlos Magalhães Resumo biográfico com destaques: Nascimento: 1927, Salvador (BA) Formação: Medicina Carreira política: UDN (anos 1950) Prefeito de Salvador (1967) Governador da Bahia (1971 e 1979) Ministro das Comunicações Senador e presidente do Congresso Perfil: liderança centralizadora forte articulação política Falecimento: 2007 📌 Anexo II — Trajetória de Raimundo Rodrigues Pereira Nascimento: 1940, Exu (PE) Formação: ITA (interrompido) Física pela USP Perseguição política: prisão em 1964 detenção no DEOPS e Base Aérea Atuação jornalística: direção do Opinião (1972) fundação do Movimento (1975) Legado: imprensa alternativa resistência à ditadura Falecimento: 2026 FECHO DA EDIÇÃO Entre a frase que divide jornalistas e a prática que os define, esta edição extraordinária propõe um registro: há momentos históricos em que informar não é apenas relatar — é resistir. E é nessa linha tênue, entre o poder e a palavra, que se inscrevem tanto os personagens quanto os conflitos aqui revisitados.
sábado, 9 de maio de 2026 O parlamentarismo inconcluso, por Marcus Pestana Em 1988, coroamos o processo de redemocratização do país. Foi uma transição peculiar: negociada, pacífica, original e longa. A travessia percorrida iniciou-se com a Lei da Anistia, passou pela vitória de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral, culminando com as eleições diretas para presidente da República. Mas o ápice, dos dez longos anos de transição, foi a promulgação do novo texto constitucional, apelidado por Ulysses Guimarães de “Constituição Cidadã”. O texto consolidou direitos democráticos individuais e coletivos, organizou os poderes da República, ampliou direitos sociais. Um traço inequívoco da nova Constituição é seu espírito parlamentarista. Foi previsto e realizado, em abril de 1993, o plebiscito para que a população escolhesse a forma e o sistema de governo. A República derrotou a Monarquia. O presidencialismo deu uma goleada no parlamentarismo, reafirmando a cultura política dominante no Brasil. Sobreviveu uma contradição: um sistema presidencialista coabitando com um texto constitucional de índole parlamentarista. Passou a ser essencial para a governabilidade o presidente da República formar maioria parlamentar. Collor já havia sido afastado por falta de apoio congressual diante da explosão de denúncias de corrupção. Itamar Franco assumiu com grande solidariedade multipartidária, já que o Congresso Nacional se sentia responsável pela derrubada do primeiro presidente eleito pós redemocratização e guardava grande receio de retrocessos. FHC, eleito em 1994 e 1998, governou dentro da lógica do “presidencialismo da coalizão”, basicamente apoiado por três partidos políticos (PSDB, PMDB e PFL). Cuidamos mal do sistema eleitoral e das regras que regem a vida partidária. Inventamos um método de escolha da representação único no mundo. Uma jabuticaba de baixa qualidade: o voto nominal proporcional, sem ancoragem territorial ou programática. O mandato é partidário, o cálculo das vagas tem lógica coletiva, mas o voto é nominal, pessoal. Não houve barreiras à excessiva pulverização da representação. A fidelidade partidária é baixa. O conteúdo ideológico é ralo. A democracia interna nos partidos é frágil. As emendas parlamentares e o financiamento público deram autonomia aos deputados e senadores. Resultado: em 2022, elegemos um presidente de esquerda e um Congresso predominantemente conservador. Consequência: na penúltima semana, o presidente colheu duas graves derrotas, deixando interrogações no ar. Após a corrosão do “presidencialismo de coalizão”, houve diversas tentativas para contornar a desconexão entre Executivo e representação parlamentar: cooptação, confrontação, rendição. Chegamos ao “estado da arte” atual, um parlamentarismo inconcluso: um Congresso com grande poder político decisório, sem a reponsabilidade proporcional sobre a governabilidade e a boa governança. Independente de direita, esquerda ou centro, como predomina o pragmatismo individualista, qualquer presidente terá enorme dificuldade de formar maioria estável e sólida. Vale revalorizar a escolha feita no governo Temer, que a partir do diagnóstico correto da contradição central do nosso sistema político, levou o Congresso para dentro do governo, numa experiência prática semipresidencialista, responsabilizando-o pelas escolhas a serem feitas e suas consequências.
O texto de Marcus Pestana oferece uma lente crítica para analisar a relação entre a Prefeita Margarida Salomão e o Vice-Prefeito Marcelo Detoni em Juiz de Fora. A tese central do autor é que vivemos um "parlamentarismo inconcluso", onde o Executivo precisa ceder poder real ao Legislativo e a parceiros políticos para garantir estabilidade.Abaixo, os pontos de conexão entre o artigo e a realidade política local de Juiz de Fora: 1. A Necessidade da Coalizão Pestana argumenta que o presidencialismo brasileiro exige a formação de maiorias estáveis. Aplicação Local: Margarida Salomão (PT), vinda de um campo de esquerda, escolheu Marcelo Detoni (PSB), um empresário com perfil moderado e trânsito no setor produtivo. Objetivo: Essa aliança replica a lógica do "presidencialismo de coalizão" no nível municipal, visando evitar a paralisia do governo perante uma Câmara Municipal plural e pragmática. 2. O Vice como Articulador (Semipresidencialismo Prático) O autor menciona a experiência do governo Temer de "levar o Congresso para dentro do governo". Aplicação Local: Detoni não ocupa apenas um cargo figurativo. Ele atua como o braço de articulação política. Função: Ao delegar ao vice a interlocução com vereadores e setores econômicos, a prefeita aplica o conceito de "responsabilização compartilhada" citado no texto, tentando mitigar o "pragmatismo individualista" dos parlamentares locais. 3. A Contradição do Sistema Eleitoral Pestana critica a "jabuticaba" do voto proporcional sem ancoragem programática, que gera fragmentação. Conexão: Em Juiz de Fora, a fragmentação da Câmara exige que a parceria entre Prefeita e Vice seja o sustentáculo da governabilidade. Sem a figura mediadora de um vice bem aceito por diferentes espectros (como é o caso de Detoni), a prefeita teria a "enorme dificuldade de formar maioria estável" mencionada por Pestana. 4. Gestão de Crises e Derrotas O texto aponta que o Executivo tem sofrido derrotas graves quando há desconexão com a representação parlamentar. O papel do Vice: Em Juiz de Fora, a função política de Detoni é justamente evitar essas "interrogações no ar". Ele atua para que o projeto do Executivo não seja barrado pela falta de "responsabilidade proporcional" do Legislativo sobre a boa governança. 📌 Resumo da Análise:Para Pestana, o sistema atual é disfuncional sem uma cooperação profunda. No caso de Juiz de Fora, a parceria Margarida-Detoni é a tentativa prática de resolver a "contradição central" do sistema político brasileiro: unir a legitimidade do voto majoritário (Prefeita) com a necessidade de pacificação e negociação constante com o poder decisório dos representantes locais (papel do Vice).
"Senoide de Juiz de Fora do mirante: no meio do caminho havia os trilhos e, às suas margens, a sede da Prefeitura." Abaixo, o fragmento transfigurado pelo estilo memorialista de Pedro Nava, fundindo o detalhe topográfico à vertigem do tempo: Daquela escarpa de vento e névoa — o mirante onde a cidade se entrega como um corpo em decúbito — a vista não apenas alcança; ela padece a geografia. Juiz de Fora desenhava-se ali sob a geometria de uma senoide obsessiva, uma ondulação de telhados e ladeiras que subiam e desciam no ritmo de uma respiração asmática de província. No centro dessa sístole e diástole urbana, o vulto de ferro: os trilhos. Havia, sim, no meio do caminho, essa cicatriz metálica, o rastro frio da Central do Brasil cortando a carne da terra com a indiferença de um destino grego. E plantada ali, na beira desse abismo horizontal onde o trem range sua liturgia de fumaça, erguia-se a Sede da Prefeitura. Monumento de burocracia e pedra, vigiando as margens do trilho como se o poder político buscasse, no aço das locomotivas, a mesma rigidez cega do tempo que passa, apita e não retorna. Era o encontro do efêmero ferroviário com a solidez fingida do Paço, ambos banhados pela luz melancólica de uma Minas que se sonha industrial enquanto se perde em lembranças. domingo, 10 de maio de 2026 Dinheiro, direito e política, por Pedro S. Malan O Estado de S. Paulo Toda sociedade produz hierarquias, desigualdades e conflitos de razão e interesse. Mas democracias dignas deste nome procuram combater excessos A oligarquia dos Poderes e a crise da democracia é o título do livro de Joaquim Falcão, prestes a ser publicado. Foi Falcão quem me presenteou, anos atrás, com How Democratic is the American Constitution?, livro de Robert Dahl, um dos mais influentes cientistas políticos norte-americanos no século 20, falecido em 2014. Nessa obra, Dahl formula uma pergunta que considera tão relevante quanto assustadora: “Será que os Poderes constitucionais dos Estados, do governo federal e dos três ramos principais deste último são apropriados para as nossas necessidades e valores democráticos de hoje?” Dahl lembra que direitos implicam deveres e também oportunidades: o que significaria liberdade de expressão se não houvesse oportunidade de se manifestar livremente? E acrescenta um quarto elemento: os recursos para o exercício de direitos e oportunidades (e deveres), cujo caráter indispensável o autor ilustra ao auxílio de cenário ficcional. Trata-se de uma reunião com alto número de participantes e que deve alcançar importante decisão. O moderador anuncia que, para assegurar a todos a liberdade de expressão, o uso da palavra estaria limitado a dois minutos. Até aí tudo parece razoável. Deixa de sê-lo quando acrescenta: “Depois que todos que quiserem falar tiverem exercido esse direito, cada minuto adicional será leiloado para quem der o lance mais alto”. A grita dos cidadãos reunidos seria imediata e contundente. Mas prossegue Dahl: “No entanto, essa foi a decisão da Corte Suprema dos EUA no famoso caso Buckley versus Valeo (1976).” A Corte decidiu que a garantia de liberdade de expressão da Primeira Emenda da Constituição dos EUA restava violada pela legislação eleitoral por força da imposição de limites de gastos a candidatos ou seus simpatizantes. Gastar dinheiro para difundir mensagens políticas constitui, no entendimento da Corte, forma de expressão protegida pela Constituição. Tendo reconhecido a complexidade da discussão, Dahl conclui que “existem falhas profundas numa constituição se a mais alta corte judiciária do país pode interpretá-la de modo a impor barreira intransponível à obtenção de grau satisfatório de igualdade política entre seus cidadãos”. Passadas duas décadas dessa pertinente reflexão, o aumento expressivo da concentração de riqueza observado desde então tornou ainda mais relevante e oportuna a preocupação com o poder do dinheiro nas eleições. Em particular, por meio dos chamados super PACs (“political action committees”), que não podem doar diretamente a campanhas, mas podem gastar sem limites em propaganda política (nas redes sociais, internet, televisão) e que constituem o veículo por excelência de apoio financeiro de megadoadores. Em janeiro de 1961, em seu pronunciamento de despedida da Presidência dos EUA, Dwight Eisenhower utilizou publicamente pela primeira vez a expressão “Complexo Industrial Militar”. No discurso, alertou para o crescente poder da aliança entre as Forças Armadas, a indústria de armamentos e interesses políticos associados. A expressão teve enorme repercussão à época porque Eisenhower havia sido presidente por dois mandatos e comandante supremo das forças aliadas na Europa. Não lhe faltavam, portanto, credenciais para alertar contra o risco de pressão pela agudização de conflitos, levando a um estado permanente de mobilização para a guerra. Nos dias atuais, a expressão mais apropriada talvez fosse “complexo digital-industrial-militar”, dado o peso crescente das grandes empresas de tecnologia e o inexorável uso da inteligência artificial na indústria de armamentos. A propósito, Trump encaminhou ao Congresso norte-americano pedido de aumento do orçamento de Defesa para US$ 1,5 trilhão no ano fiscal que começa em 1.º de setembro deste ano. O orçamento para o ano fiscal 2025/2026 já havia sido 20% maior do que o do ano anterior. Estamos no quarto ano da guerra na Ucrânia. Estamos também no terceiro mês da guerra no Oriente Médio, e sem perspectiva de solução duradoura à vista. Exatos cem anos atrás, Whitehead escreveu: “It is the business of the future to be dangerous.” A continuação dessa frase é igualmente importante: “And it is among the merits of science to equip the future for its duties” (e está dentre os méritos da ciência o de equipar o futuro para suas tarefas). A tecnologia pode prestar enormes serviços para o progresso da humanidade nas áreas de saúde, educação, energia, clima e meio ambiente, mas também, infelizmente, para a violência e o conflito. E, se é verdade que a guerra, a violência e o conflito têm um longo passado, também é verdade que parecem ter um longo futuro. Toda sociedade produz hierarquias, desigualdades e conflitos de razão e interesse. Mas democracias dignas deste nome procuram combater excessos de velhas e novas formas de desigualdades, conter inclinações autoritárias e lidar com conflitos sem recurso à violência ou apelos a pretensos “salvadores da pátria”. A exemplo da obra de Dahl, o livro de Falcão também faz perguntas assustadoras que têm relevância e importância, e avalia como estamos nesse processo no Brasil de hoje. Mães, feliz dia! •
domingo, 10 de maio de 2026 O conto noir, o detetive durão, os negócios da política e o caso Master, por Luiz Carlos Azedo Correio Braziliense O avanço das apurações do caso Master produzirá reações políticas cada vez mais intensas. Ciro Nogueira não é um parlamentar periférico. É um dos líderes mais influentes do Centrão “Pelas ruas vis deve passar um homem que não seja ele próprio vil, que não esteja maculado nem tenha medo. O detetive, nessa espécie de história, deve ser esse homem. Ele é o herói; ele é tudo. Deve ser um homem completo, um homem comum e, contudo, um homem incomum. Deve ser, para usar uma frase já bastante gasta, um homem de honra — por instinto, inevitavelmente, sem pensar nisso, e certamente sem dizê-lo. Deve ser o melhor homem de seu mundo e suficientemente bom para qualquer mundo.” Essa passagem do ensaio literário A simples arte de matar (“The Simple Art of Murder”), de Raymond Chandler (LPM), é a melhor definição do herói noir dos romances policiais norte-americanos. O homem solitário, moralmente íntegro, mas mergulhado num mundo corrompido, no qual a fronteira entre crime e legalidade se tornou nebulosa. O herói atravessa uma sociedade decadente sem ilusões sobre justiça ou pureza como um Ulysses da sarjeta. Essa é a ética noir. O herói não é um vencedor clássico nem um justiceiro absoluto. Ele vive cercado por corrupção, violência, políticos venais, policiais vendidos e milionários decadentes, mas preserva um código moral próprio. Sua integridade nasce da escolha pessoal e não das instituições. Sabe que não salvará o mundo. Sua função é apenas resistir à degradação sem se tornar parte dela. O ensaio de Chandler foi um manifesto literário e moral e, ao mesmo tempo, a defesa do romance noir norte-americano como forma moderna de representação da sociedade urbana, corrupta e violenta do século XX. Expulsos de Hollywood pelo macartismo, antogos roteiristas, seus criadores transformaram o romance policial em literatura de crítica social. Chandler considerava os enigmas dos autores policiais clássicos distantes da experiência real da violência. “O assassinato, que na realidade é uma tragédia, tornou-se uma espécie de jogo de salão”. O crime não é um quebra-cabeça abstrato. Em sua visão, a literatura policial precisava reencontrar o mundo concreto: ruas sujas, corrupção policial, chantagem, medo, desigualdade e decadência moral. O assassinato não podia ser apenas um truque lógico; deveria revelar a própria estrutura da sociedade moderna. Em vez de lordes envenenados em mansões, surgem gângsteres, políticos corruptos, policiais vendidos, empresários inescrupulosos e mulheres fatais. O crime deixa de ser exceção e passa a integrar o funcionamento cotidiano da ordem social. Vira uma patologia, na definição clássica do antropólogo e sociólogo Émile Durkheim. O detetive não é um herói triunfante, mas a consciência moral solitária num universo decadente. A literatura noir fez a crítica cultural da sociedade americana do pós-guerra. A expansão do capitalismo urbano, a corrupção institucional e a mercantilização das relações humanas criaram um ambiente em que a violência foi banalizada. O novo patamar As histórias ocorrem nas zonas cinzentas entre legalidade e crime, porque as instituições formais já não são plenamente confiáveis. Chandler mostra que o verdadeiro mistério não está apenas em descobrir quem matou, mas em compreender por que uma sociedade produz continuamente violência, cinismo e corrupção. Seu ensaio permanece como uma das reflexões mais sofisticadas já escritas sobre crime, literatura e modernidade. Com todos os seus ingredientes, o caso Master dispensa a ficção de um romance policial noir. Banqueiros, executivos, políticos, magistrados, o cadáver de um suicida numa cela da PF. Uma história na qual a corrupção, mais do que naturalizada, é institucionalizada. A nova ação da Polícia Federal, o que há de mais competente e íntegro no sistema de segurança, foi autorizada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça. Seu foco são as relações entre o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e o banqueiro Daniel Vorcaro, o dono do banco Master, cujas revelações elevaram as investigações a um novo patamar. Ao alcançar Nogueira, um dos principais articuladores do Centrão e figura estratégica da oposição ao governo Lula, a Polícia Federal ingressa numa zona sensível, na qual qualquer passo em falso pode comprometer não apenas o destino do inquérito, mas também a credibilidade das instituições encarregadas de conduzi-lo. A proximidade entre Ciro Nogueira e o banqueiro Daniel Vorcaro já era conhecida nos bastidores de Brasília. Há outros políticos e magistrados no vasto círculo de amizade e, digamos, relações institucionais do banqueiro. Pagamentos mensais, aquisição de participação societária com deságio expressivo, custeio de viagens internacionais e suposta elaboração de emenda constitucional pelo próprio banco são indícios de atividades criminosas, mas quem acompanha os bastidores da política sabe que esse modus operandi da “política como negócios” predomina no Congresso e contaminou o Judiciário. Quem quiser que atire a primeira pedra. O que espanta mais é a escala. O avanço das apurações produzirá reações políticas cada vez mais intensas. Ciro Nogueira não é um parlamentar periférico. Trata-se de um dos líderes mais influentes do Centrão, ex-ministro da Casa Civil do governo Bolsonaro, presidente nacional do PP e peça-chave na articulação do conservadorismo brasileiro. Qualquer movimento contra ele terá repercussões no Congresso, nas alianças eleitorais de 2026 e nas relações entre a PF e o Supremo Tribunal Federal (STF). Circunscrever o caso ao escândalo financeiro é a receita pronta para o inquérito virar uma pizza napolitana. Restará a literatura policial para um dia recontar essa história ao estilo noir. Aqui vai um resumo claro e direto do texto:
🧠 Ideia central O artigo usa o conceito do romance noir — especialmente o ensaio The Simple Art of Murder de Raymond Chandler — como metáfora para analisar o chamado “caso Master” na política brasileira. 🕵️‍♂️ A metáfora do noir O noir retrata um mundo corrupto, violento e moralmente ambíguo. O herói é um detetive solitário, com um código moral próprio, que não consegue mudar o sistema — apenas resistir a ele. Para Chandler, o crime não é exceção, mas parte da estrutura da sociedade moderna (ideia próxima à visão de Émile Durkheim sobre o crime como fenômeno social). 👉 O autor sugere que essa lógica se aplica ao cenário político atual. 🏛️ O “caso Master” Envolve investigações da Polícia Federal autorizadas pelo ministro André Mendonça. Apura relações entre: Ciro Nogueira (senador influente do Centrão) Daniel Vorcaro (ligado ao banco Master) Há suspeitas como: pagamentos mensais vantagens financeiras relações políticas e empresariais próximas ⚖️ Interpretação do autor O texto argumenta que: A política brasileira funciona, em parte, como um sistema onde negócios e poder se misturam. A corrupção não aparece como exceção, mas como algo estrutural e disseminado. O caso pode gerar forte impacto político, pois envolve um líder importante do Congresso. 🔥 Risco institucional Investigações envolvendo figuras centrais como Ciro Nogueira podem: afetar alianças políticas influenciar eleições futuras tensionar relações entre instituições (PF, STF, Congresso) Há o risco de o caso: ser reduzido a um escândalo financeiro ou acabar sem consequências (“virar pizza”) 🎭 Conclusão do texto O autor sugere que a realidade política brasileira se aproxima de um romance noir: cheia de zonas cinzentas com corrupção disseminada e sem heróis claros 👉 Se a verdade não for totalmente esclarecida, talvez reste apenas a literatura para contar essa história no futuro. Se quiser, COMO EXPLICAR A BAIXA APROVAÇÃO DO GOVERNO LULA III? | Análise de Breno e Tom Altman Opera Mundi Transmitido ao vivo em 3 de mai. de 2026 #GovernoLula #OpiniãoPolítica #AprovaçãoGoverno COMO EXPLICAR A BAIXA APROVAÇÃO DO GOVERNO LULA III? | Análise de Breno e Tom Altman 00:00:00 - Abertura 00:02:50 - Devemos levar as pesquisas de opinião a sério 00:05:38 - A Culpa dos números ruins não é do povo 00:07:35 - Hipóteses para a desconexão entre os números da economia e a popularidade do governo 00:11:00 - O espírito anti-sistema dificulta o gradualismo do Gov. Lula III 00:15:01 - O método do gradualismo e o exemplo do 6x1 00:16:35 - Outros métodos possíveis para um governo com minoria no parlamento 00:18:35 - Não há percepção de desenvolvimento e de futuro 00:22:10 - O arcabouço fiscal e a taxa de juros 00:28:06 - Lula III esperava que o capital privado levasse ao desenvolvimento 00:29:54 - Os episódios econômicos que mancharam a imagem do Lula III 00:31:35 - O governo não tem projeto de desenvolvimento estrutural 00:35:55 - O lado negativo dos números positivos da economia 00:40:50 - A esquerda virou sistema? 00:49:10 - A fragilidade da frente ampla 00:51:40 - A comunicação do governo pode mobilizar a opinião pública? 00:55:20 - O governo consegue virar à esquerda? 01:02:02 - O Centrão sequestoru Lula 01:06:15 - É possível um congresso à esquerda em 2026 01:08:30 - A juventude não aprova o gradualismo de Lula 01:12:00 - Celebrar as conquistas não basta, é preciso avanços 01:16:14 - O desemprego da juventude e os avanços da direita 01:19:20 - A esquerda precida voltar a falar em socialismo 01:26:34 - Perguntas do público 01:58:15 - Encerramento Se a economia vai bem, por que a popularidade do governo Lula III não acompanha? Essa é a pergunta que está no ar — e que muita gente evita encarar de frente. Afinal, os números parecem contar uma história positiva: crescimento econômico, inflação sob controle, real valorizado frente ao dólar, desemprego em queda histórica e salários avançando acima dos preços. O Brasil, inclusive, voltou a sair do mapa da fome. E tem mais: isenção de imposto de renda para quem ganha até cinco mil reais, programas sociais retomados, iniciativas como o Pé-de-Meia ganhando corpo. No papel, o cenário é positivo. Mas, então, por que o sentimento popular parece caminhar na direção oposta? Por que, mesmo com indicadores favoráveis, o descontentamento é grande e as pesquisas mostram mais reprovação do que aprovação? Estamos diante de uma má política de comunicação? A ideologia e a religião passaram a pesar mais que o bolso? As fake news dominam o jogo? Fatos pontuais distorcem a percepção geral? Ou será que os números escondem uma realidade mais complexa, que não cabe nas planilhas? Neste episódio do “Análise com Breno Altman”, apresentado por Tom Altman, vamos tentar entender esse enigma.

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