quarta-feira, 22 de julho de 2026

Duas Estéticas, O Mesmo Sol

Luiz Carlos Barreto provou ter luz própria ao revolucionar o Cinema Novo através de uma ousada subversão técnica: o uso exclusivo da luz natural. Atuando como diretor de fotografia para dois diretores de estéticas opostas, ele demonstrou uma impressionante capacidade de adaptação, moldando o sol a favor de cada narrativa. Originais do Samba -Tenha Fé - Mussum ENSAIO ORIGINAIS DO SAMBA TV CULTURA Trecho do Filme "Vidas Secas", de Nelson Pereira dos Santos Luiz Carlos Barreto, conhecido como Barretão, foi o aclamado diretor de fotografia do clássico Vidas Secas, lançado em 1963 (e não em 1960). Ele ajudou a definir a estética crua e documental do Cinema Novo, usando luz natural intensa e sem filtros para transmitir o calor e a aridez do sertão. A fotografia do filme tornou-se uma lenda no cinema nacional e internacional. Suas principais características incluem: Ausência de luz artificial: A gravação foi feita inteiramente com a luz do sol, entrando pelas portas e janelas das locações. Sem filtros: Barretão dispensou filtros de lente para diminuir a intensidade do contraste, permitindo que a luz natural chapada e ofuscante do sertão nordestino dominasse a tela. Estética Neorrealista: O uso de câmera na mão e cenários reais ajudou a traduzir visualmente a miséria, a seca e a luta por sobrevivência da família de Fabiano e da cadela Baleia. A obra marcou a estreia de Barretão como diretor de fotografia, consolidando sua trajetória que o tornaria um dos maiores produtores da história do audiovisual brasileiro. Glauber Rocha- Terra em Transe (1967)- [Multi Subs] Clássicos da Sétima Arte 22 de nov. de 2015 Gênero: Drama. País: Brasil. Estrelas: Jardel Filho, Paulo Autran, José Lewgoy. Direção: Glauber Rocha. Sinopse: Terra em Transe é um espetáculo poético, sobre o transe político pelo qual passavam os países da América Latina. Considerado o mais importante e polêmico filme de Glauber Rocha e um dos percursores do Cinema Novo e do movimento tropicalista, Terra em Transe tornou-se um clássico do cinema moderno, tendo conquistado, entre outros, o Prêmio da Crítica Internacional no Festival de Cannes de 1967. Legendas em Espanhol, Francês, Inglês e Português. html

Espaço Amplo

Direito Penal da Democracia?

Por Justo S. Justino

A democracia contemporânea opera a partir de um sistema complexo de mediações institucionais. O conflito político, longe de ser extirpado, deve ser absorvido e transformado por meio de mecanismos normativos e deliberativos. Contudo, quando tais mediações se fragilizam no tecido social, observa-se uma alarmante tendência de deslocamento desses dissensos para as esferas mais rígidas de controle social. Dentre elas, o Direito Penal desponta não mais como último recurso, mas como ator principal.

No Brasil recente, essa dinâmica assume contornos expressivos e preocupantes. A vertiginosa ruptura entre dois senadores de um mesmo estado nordestino, originalmente eleitos sob a mesma chapa majoritária e coalizão partidária, é paradigmática. Evidencia a dissolução da solidariedade intrapolítica e a ascensão de uma lógica de antagonismo absoluto. O episódio, marcado por acusações mútuas de instrumentalização e "vingança" na condução de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) contra o crime organizado, revela a mutação da política em uma arena de deslegitimação estritamente simbólica e pessoal.

Simultaneamente a essa degradação paroquial das relações partidárias, o ordenamento jurídico brasileiro passou por uma inflexão estrutural relevante. A promulgação da Lei nº 14.197/2021 revogou a entulhada Lei de Segurança Nacional, inserindo no Código Penal novos dispositivos voltados especificamente à tutela do Estado Democrático de Direito. Tipificaram-se as condutas de abolição violenta da ordem democrática e de golpe de Estado. Tal movimento representa uma atualização legislativa, mas também uma perigosa reconfiguração do papel do Direito Penal na órbita pública.

Sob a perspectiva do garantismo clássico, formulado pelo jurista Luigi Ferrajoli, a intenção punitiva deve limitar-se à proteção de bens jurídicos fundamentais, balizada pela estrita legalidade. Nesse sentido, proteger a democracia das garras do autoritarismo violento pareceria um avanço civilizatório incontestável. Entretanto, a expansão penal sobre a atividade política demanda cautela extrema. Conforme a advertência clássica de Michel Foucault, o Direito Penal constitui uma refinada tecnologia de poder. Possui a capacidade imanente de produzir efeitos disciplinares que transcendem a letra da lei.

Na ausência de cultura institucional, o Direito Penal deixa de ser um escudo protetor e passa a operar como arma de destruição do adversário

Essa expansão flerta perigosamente com o fenômeno da judicialização da política. Como aponta a teoria da ação comunicativa de Jürgen Habermas, a transferência de decisões essencialmente políticas para o âmbito estrito do Judiciário esvazia a esfera pública deliberativa. Substitui-se o embate de ideias e projetos por provimentos tecnocráticos e sentenças condenatórias. No varejo da disputa pelo poder, a utilização de categorias criminais no discurso político funciona apenas como blindagem ou aniquilação reputacional. É o uso instrumental daquilo que Pierre Bourdieu conceituou como capital simbólico.

O caso da bancada sergipana ilustra perfeitamente a convergência entre a fragmentação partidária e a expansão da lógica punitiva. A desavença sobre os rumos de investigações parlamentares expõe o esgotamento dos pactos e a prevalência de vendetas individuais travestidas de legalidade. A atuação comunicacional dos agentes públicos, eivada de discursos de diferença identitária e alfinetadas indiretas nas redes sociais, soterrou o debate programático. Quando a política abdica de sua função mediadora, ela se aproxima do confronto policial permanente.

A incorporação da defesa democrática ao Código Penal pressupõe, para sua eficácia virtuosa, um ecossistema político comprometido com a própria institucionalidade. Caso contrário, a tipificação criminal servirá apenas como vocabulário de ódio e ferramenta de perseguição de maiorias ocasionais. A democracia não se sustenta de forma exclusiva ou duradoura por meio de normas proibitivas ou ameaças de cárcere. Sua preservação exige, fundamentalmente, práticas éticas responsáveis, cultura institucional sólida e um compromisso inegociável com o diálogo plural. Tratar a política habitual como caso de polícia, ainda que sob o manto de boas intenções, é o primeiro passo para asfixiar a racionalidade democrática.


Use o código com cuidado. O fantasma da fraude eleitoral está de volta | Meio-Dia em Brasília - 22/07/2026 O Antagonista Transmissão ao vivo realizada há 3 horas Meio-Dia em Brasília | 2026 O programa Meio-Dia em Brasília desta quarta-feira, 22, aborda a fala do pré-candidato Flávio Bolsonaro durante reunião com embaixadores na qual ele fez alertas sobre eventuais fraudes eleitorais no país. Além disso, o jornal também aborda o périplo bolsonarista em busca de um vice para o filho do ex-presidente da República e aborda o mais novo embate entre Michelle Bolsonaro e seus enteados. Assista:
quarta-feira, 22 de julho de 2026 O fantasma de Cristiano e a sombra de futuro dos líderes de oposição, por Luiz Carlos Azedo Correio Braziliense Está em curso uma operação de cristianização do candidato do PL, Flávio Bolsonaro, que até agora se mantém como principal candidato de oposição O mineiro Cristiano Machado (1893-1953) era advogado e diplomata quando se aventurou na política na disputa presidencial. Ex-prefeito de Belo Horizonte antes da Revolução de 1930, nas eleições de 1950 seu nome saiu da cartola dos caciques do PSD para enfrentar o candidato da UDN, Eduardo Gomes. Durante a campanha, porém, perdeu o apoio em seu próprio partido e de aliados para a candidatura de Getúlio Vargas. Essa traição recebeu um nome hoje consagrado na política brasileira: “cristianização”. Foi uma espécie de conto da carochinha. Em 15 de maio de 1950, reunidos na casa de Cirilo Júnior (presidente do partido), os caciques do PSD indicaram Cristiano à Presidência. O político mineiro ficou de procurar Getúlio Vargas (PTB) e Ademar de Barros (PSP), oferecendo a vice-presidência na chapa. O general Góis Monteiro transmitiria essa escolha ao presidente Eurico Gaspar Dutra. Vargas não fez objeção. Entretanto, a ala getulista do PSD do Rio Grande do Sul recusou-se a aceitar a candidatura de Cristiano. Membros do PSP comunicaram que também não apoiariam o nome de Cristiano, já que a candidatura de Vargas seria apoiada por Ademar. Mesmo assim, o nome de Cristiano Machado foi aclamado no dia 9 de junho. A convenção do partido não contou com a presença da maioria dos representantes gaúchos. Vargas venceu as eleições de 3 de outubro de 1950 com 3.849.040 votos, grande parte de redutos do PSD. Seus caciques promoveram um processo de esvaziamento eleitoral que ficou conhecido no jargão político como “cristianização”. Com 1.697.193 votos, Cristiano ficou atrás de Eduardo Gomes, que teve apoio de 2.342.384 de eleitores. Está em curso uma operação de cristianização do candidato do PL, Flávio Bolsonaro, que até agora se mantém como principal candidato de oposição, graças à força do bolsonarismo nas redes sociais. No mundo político e empresarial, entretanto, Flávio está sendo abandonado; em determinados segmentos evangélicos, também. A tese é de que não será capaz de vencer Lula no segundo turno, e um candidato conservador mais experiente e moderado teria o perfil ideal para derrotar o atual preesidente da República. Quem pretende vestir esse figurino é o ex-governador Ronaldo Caiado (PSD), que também corre risco de “cristianização”, mas ganhou novo fôlego. A escolha do ex-prefeito de São Paulo Gilberto Kassab, presidente do PSD, para vice reanimou sua candidatura, que busca o apoio do Centrão. Remanescente das eleições de 1989, como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Caiado saiu do governo de Goiás com grande aprovação e sempre teve muito trânsito entre lideranças do agronegócio e da área médica mais conservadora. Caiado agora disputa o apoio do União Brasil e do Progressistas, de Ciro Nogueira e Arthur Lira, que sempre foram contra a candidatura de Flávio, por achar que não seria páreo para Lula. Com apoio de Kassab, também costeia o alambrado do Progressistas, partido do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, aliado natural de Flávio Bolsonaro, mas que até agora não indicou a vice do candidato do PL. Egoístas e altruístas Para o neodarwinista Richard Dawkins, autor de Deus, um delírio, somos uma “máquina de sobrevivência” de um gene cujo objetivo é a autorreplicação, isto é, a perpetuação da espécie. No livro O gene egoísta ( Companhia das Letras), ao analisar a reprodução sexuada dos animais, Dawkins buscou uma explicação para a convivência entre o egoísmo dos genes e o altruísmo das espécies: uma espécie de “cluster” biológico garantiria a sobrevivência e replicação de ambos. O cuco é uma das espécies mais egoístas: procria, mas não educa os filhos; põe os ovos no ninho de outras aves, aproveitando sua ausência. Quando o danado do cuco nasce, joga os demais ovos para fora do ninho, matando os filhotes legítimos para ser criado no lugar deles. Quando cresce, bate asas e vai embora. A analogia serve para muitos políticos. Como no beisebol, na política é muito comum o sujeito achar que o bom rapaz terminará por último. O ardil, a dissimulação, a esperteza e a falta de escrúpulos parecem ser a regra do jogo. Mas a política também exige altruísmo, ou seja, a cooperação com os demais integrantes da espécie para não entrar em extinção. É aí que os bons rapazes podem virar o jogo e acabar em primeiro. E a “sombra de futuro”? O conceito é dos militares britânicos, refere-se à estratégia de sobrevivência dos soldados ingleses, franceses e alemães no final da Primeira Guerra Mundial, quando eles começaram a cooperar tacitamente no front, em alguns casos abertamente. Esperavam os políticos e generais acabarem com a guerra. Como eram jovens, tinham uma expectativa de vida civil muito maior do que a deles. Até que ponto Tarcísio e Michelle Bolsonaro querem que Flávio ganhe as eleições? São potenciais candidatos em 1930. Caiado e Kassab estão se movimentando em busca dessa resposta.
Entrevista com Eduardo Giannetti | Warren Política | Episódio 26 Warren Investimentos 22 de jul. de 2026 Warren Política O Brasil ainda pode voltar a crescer de forma sustentável? Neste episódio do Warren Política, Felipe Salto recebe o economista, sociólogo, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras Eduardo Giannetti para uma conversa sobre os desafios econômicos e políticos do Brasil. Uma conversa que combina economia, filosofia, política e história para entender os caminhos que o país pode seguir nos próximos anos. Entre os temas abordados: 00:00-04:53 | Introdução 04:53-10:28 | Fim da hiperglobalização 10:28-14:03 | Os desafios da economia brasileira 14:03-17:32 | Ajuste fiscal 17:32-23:36 | Gastos públicos e previdência 23:36-26:28 | Juros no Brasil 26:28-32:48 | Polarização política 32:48-34:09 | A realidade fiscal 34:09-35:25 | Complexo de vira-lata 35:25-39:25 | Lula, Bolsonaro e liderança 39:25-42:29 | Reforma política 42:29-46:30 | Inteligência artificial e mercados 46:30-48:33 | Indicações de leitura
quarta-feira, 22 de julho de 2026 O sincericídio de Gabrielli, por Vera Rosa O Estado de S. Paulo Coordenador do programa de Lula, ex-presidente da Petrobras cita controle de capitais e é enquadrado A disputa pelos rumos de um eventual quarto mandato do presidente Lula tem provocado atritos na cúpula da campanha petista. As principais divergências estão na seara econômica e há mal-estar no PT e na Fazenda com declarações de José Sérgio Gabrielli, ex-presidente da Petrobras e coordenador do programa de governo de Lula. Na sexta-feira, por exemplo, Gabrielli se reuniu com representantes do mercado financeiro, em São Paulo, e defendeu o controle de capitais, além do aumento do salário mínimo para estimular a saída dos beneficiários do Bolsa Família. Nada que o PT não pregasse antes, mas que, numa campanha agressiva como a atual, se tornou um “sincericídio”. Não é só: serviu para deixar a Faria Lima – mesmo aquele pedaço que rejeita a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) – com a pulga cada vez mais atrás da orelha. Antes desse encontro, Gabrielli já havia destacado, em entrevistas, temas incômodos para a Fazenda, como a necessidade de mudanças no arcabouço fiscal para ampliar investimentos e gastos sociais. Fernando Haddad, candidato do PT ao governo de São Paulo e ex-ministro da Fazenda, não gostou dessa abordagem. Dario Durigan, atual titular da pasta, também não. Durigan, aliás, terá várias reuniões com o mercado nos próximos dias. De qualquer forma, após o ruído com a Faria Lima, o Palácio do Planalto enquadrou o expresidente da Petrobras. Procurado, ele não quis se manifestar. “Nós não precisamos de uma nova Carta ao Povo Brasileiro”, disse à coluna o advogado Marco Aurélio de Carvalho, coordenador da campanha de Lula em São Paulo, numa referência ao documento lançado pelo então candidato do PT, em 2002, para garantir que não era um bichopapão e acalmar o mercado. Questionado sobre a queda de braço nas fileiras do PT, Marco Aurélio afirmou que Lula não tem porta-voz e só ele fala sobre o seu programa. “Mas nós não daremos um cavalo de pau na economia nem faremos nada pirotécnico”, observou o advogado, que também coordena o grupo Prerrogativas. O embate na cúpula do PT sobre a condução da economia não é de hoje. No primeiro mandato de Lula ficaram famosas as alfinetadas entre José Dirceu, então ministro da Casa Civil, e Antônio Palocci, à época titular da Fazenda. Em 2023, com Gleisi Hoffmann à frente do PT, o partido batizou o arcabouço de “austericídio fiscal”. Nos bastidores, o coro que faz mais barulho no PT ainda assina embaixo dessa avaliação. Mas o Planalto editou a medida provisória do silêncio e nada disso aparecerá na plataforma de Lula. Se o presidente for reeleito, aí, sim, a briga terá novos capítulos. Todos com desfecho imprevisível. Modinha Para Gabriela Gal Costa Gabrielli, iê, meus camarada! Modinha Para Gabriela · Gal Costa Divina, Maravilhosa ℗ 1975 Universal Music Ltda Quando eu vim para esse mundo Eu não atinava em nada Hoje eu sou Gabriela Gabriela, iê, meus camarada! Eu nasci assim, eu cresci assim E sou mesmo assim, vou ser sempre assim Gabriela, sempre Gabriela! Quem me batizou, quem me nomeou Pouco me importou, é assim que eu sou Gabriela, sempre Gabriela! Quando eu vim para esse mundo Eu não atinava em nada Hoje eu sou Gabriela Gabriela, iê, meus camarada! Eu nasci assim, eu cresci assim E sou mesmo assim, vou ser sempre assim Gabriela, sempre Gabriela! Quem me batizou, quem me nomeou Pouco me importou, é assim que eu sou Gabriela, sempre Gabriela! Eu sou sempre igual não desejo o mal Amo o natural, etc e tal Gabriela, sempre Gabriela! Eu nasci assim, eu cresci assim E sou mesmo assim, vou ser sempre assim Gabriela, sempre Gabriela! Quem me batizou, quem me nomeou Pouco me importou, é assim que eu sou Gabriela, sempre Gabriela! Eu sou sempre igual não desejo o mal Amo o natural, etc e tal Gabriela, sempre Gabriela! Composição: Dorival Caymmi.
Duas Estéticas, O Mesmo Sol Vidas Secas (1963) — Direção de Nelson Pereira dos Santos: A estética: Minimalista, crua, documental e de forte teor neorrealista.A luz de Barreto: Para traduzir a miséria e a opressão da seca, Barretão aboliu refletores e filtros de lente. Ele capturou a luz estourada, chapada e ofuscante do sertão, fazendo com que o próprio sol se tornasse o antagonista implacável que castiga a família de retirantes. Terra em Transe (1967) — Direção de Glauber Rocha: A estética: Barroca, operística, caótica, alegórica e expressionista. A luz de Barreto: Na fictícia e delirante Eldorado, a luz natural ganhou contornos completamente diferentes. Barretão explorou o alto contraste, sombras dramáticas e reflexos agressivos da luz do dia para acentuar o transe político, a loucura e a opulência dos palácios, casando perfeitamente com a câmera frenética de Glauber. Em ambos os clássicos, Barretão não apenas iluminou as cenas; ele provou que a luz natural podia ser crua ou dramática, dependendo de como o fotógrafo se adaptava a ela, consolidando-se como o verdadeiro farol estético do movimento.

terça-feira, 21 de julho de 2026

Sobre as engrenagens do mundo

terça-feira, 21 de julho de 2026 As surpresas do inesperado, por Merval Pereira O Globo O ex-presidente Tancredo Neves dizia que Presidência é destino. A História do Brasil está repleta de exemplos da verdade dessa afirmação. O Merval está batendo nesta tecla… 👇 "... pau que dá em Lulinha dá em zero um!" '...longe de serem inesperados, são temidos, e retiram dele o que resta de confiável em sua candidatura.'
Eu E A Brisa Márcia - Tema html

Correspondência do Além: O Olhar de Machado sobre as Engrenagens do Mundo

Por Machado de Assis (direto do conforto de seu novo lar, entre as nuvens)

Do meu atual ponto de vista — esta confortável poltrona moldada em cumulus-nimbos, onde a boa Carolina me serve um refresco sem as amarguras do mundo dos vivos —, miro o emaranhado de notícias humanas com o meu costumado monóculo da ironia. As coisas na Terra, de fato, mudam de roupagem para continuarem exatamente as mesmas. O espetáculo da vaidade e do poder segue o seu roteiro imutável.

Sobre os Donos do Poder e suas Redomas

  • A metamorfose mexicana: O PRI, velho conhecido das massas que nasceu sob o manto da revolução de 1930, agora ensaia trocar de nome. Uma tentativa clássica de mudar a casca para que a polpa não pareça tão apodrecida pelo tempo.
  • O absolutismo de Manágua: Daniel Ortega despacha da sua Casa dos Povos e decreta o fim das eleições. Que inveja não teria o nosso velho Imperador de tamanha ousadia institucional? Ao abolir o voto para "proteger o poder", o governante nicaraguense elimina o incômodo teatro das urnas e assume, de vez, a comédia humana em sua força bruta.
  • O Palácio de Brasília: Por sua vez, Luiz Inácio despacha do moderno Palácio do Planalto. Curioso notar como os homens públicos adoram batizar suas sedes com nomes que evocam a totalidade — "Planalto", "Povos" —, quando, na verdade, governam apenas para as suas próprias facções.

O Teatro da Democracia e o Tempo

O jovem rebelde de 1986: Assisti, pelos fios da memória, ao vídeo em que o jovem operário questionava a nossa redemocratização no programa Roda Viva. Ao fumar na TV e peitar o jornalista, ele denunciava uma "democracia maquiada". A ironia suprema — que só o tempo e a posteridade conseguem lapidar — é que o mesmo crítico de outrora hoje habita o topo desse mesmo sistema, validando as urnas que agora contam com assustadores 158 milhões de eleitores. É a engrenagem engolindo o operário e devolvendo um estadista.

A Minha Própria Parábola

A atualidade de Itaguaí: Fiquei lisonjeado ao ver a menção ao meu caro Dr. Simão Bacamarte. O bom Alienista, com sua rigorosa ciência na Casa Verde, internava os cidadãos de Itaguaí por desvios de conduta mínimos. Olhando para os vossos líderes atuais — uns que proíbem votos, outros que mudam de nome para fugir do passado —, percebo que a ciência de Bacamarte nunca foi tão necessária. A verdade é que a linha entre o hospício e o palácio de governo sempre foi uma mera convenção geográfica.

Esboço Político Metamorfose da Casa Verde

Fig. 1 - Esboço conceitual do próprio punho etéreo, sintetizando as estruturas de imobilidade.

🎵 Paródia: Pra Trás, Itaguaí!

(Métrica baseada na melodia original de "Pra Frente Brasil"Ouça a melodia original aqui)

158 milhões de eleitores, salve a eleição!
Todos num só rumo, quanta ilusão!
De ano em ano, o teatro se refaz,
O povo vota crente de que anda para trás!

De repente, o jovem que gritava lá na mesa,
Hoje veste a faixa com solene realeza!
Mudam-se os nomes, muda o PRI de casca e cor,
Mas o hospício é o mesmo, governado pelo amor!

Braço dado com a loucura,
Simão Bacamarte vai guiar!
Neste palácio de fofura,
Quem é que ele vai internar?

Não tem mais voto lá na terra de Ortega,
Mas aqui a engrenagem roda solta e nunca nega!
Cento e cinquenta e oito milhões a caminhar...
Salva-se a urna, quem vai se salvar?

Todos juntos vamos, para a Casa Verde entrar!
Salve a eleição!

Se me permitem a ancoragem dos meus instrumentos: o mundo continua uma vasta lixeira, onde os homens disputam as coroas de lata. Carolina me chama; o dever celestial me convoca a contemplar o infinito, que é bem mais limpo que a política dos vivos.

Use o código com cuidado. PARTIDO NO PODER PODE MUDAR DE NOME: PRI DOIS PARTIDOS DISPUTAM O ESPÓLIO MEXICANO NASCIDO EM 1930 E BATIZADO EM 1946 NA OPOSIÇÃO INSEPULTO DESDE 2000 O atual presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, é filiado ao partido político de esquerda Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN). Ele despacha a partir da Casa dos Povos (conhecida oficialmente em espanhol como Casa de los Pueblos), que funciona como a sede e palácio de governo da presidência, localizada na capital, Manágua. Partido Político: Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) Sede de Governo: Casa dos Povos (Casa de los Pueblos) O presidente Luiz Inácio Lula da Silva é filiado ao Partido dos Trabalhadores (PT) e despacha do Palácio do Planalto, localizado na Praça dos Três Poderes, em Brasília. Partido Político: Partido dos Trabalhadores (PT) Sede de Governo: Palácio do Planalto Não há próximas eleições marcadas na Nicarágua, pois o atual governante, Daniel Ortega, anunciou oficialmente o fim definitivo dos processos eleitorais no país. Em pronunciamento público, Ortega declarou que o regime não realizará novas eleições para evitar que grupos de oposição tenham qualquer chance de assumir o poder. O vídeo viral que circula no X (antigo Twitter) mostra o jovem Luiz Inácio Lula da Silva acendendo e tragando um cigarro durante uma entrevista ao programa Roda Viva, em 1986, na qual ele afirma que as eleições no Brasil não eram genuinamente democráticas, mas sim uma "democracia mascarada e maquiada". A declaração incomodou o jornalista Boris Casoy, que compunha a bancada de entrevistadores, gerando um embate direto entre os dois. A Fala de Lula Lula questionou a legitimidade do sistema eleitoral da época afirmando que:O processo eleitoral era desigual.Havia disparidade extrema nos recursos financeiros de campanha.O tempo de televisão e a condução dos debates favoreciam apenas os candidatos da elite.Não existia igualdade de condições para os partidos competirem de forma justa. A Contestação de Boris Casoy Incomodado com a tese de que o voto popular estaria inserido em uma farsa institucional, Boris Casoy interveio de forma incisiva, contra-argumentando que:O Brasil estava em pleno processo de consolidação democrática e que as instituições precisavam ser aperfeiçoadas por dentro.Reduzir as eleições daquela forma significava contestar a eficácia e a validade do próprio voto do cidadão e das instituições democráticas recém-conquistadas. A Réplica de Lula Ao responder o jornalista, Lula manteve sua postura e replicou enfatizando a distinção entre a teoria das leis e a realidade prática do país:Argumentou que a mera existência de uma constituição e do direito formal ao voto não garantia uma democracia real.Ressaltou que a democracia institucional coexistia com uma profunda e violenta desigualdade econômica, na qual os cidadãos disputavam o poder em patamares totalmente distantes.Concluiu reafirmando que, para o Brasil viver uma democracia de fato, era mandatório estender os direitos para o campo econômico e social, equalizando as oportunidades de competição política.O registro histórico atrai a atenção dos internautas no X tanto pela estética da época — que permitia aos entrevistados fumar livremente no estúdio de televisão — quanto pela atualidade do debate ideológico sobre os limites da democracia representativa.
Eleitora votando na eleição suplementar de Roraima. Foto: Antonio Augusto/Secom/TSE Mais de 158 milhões de eleitores estão aptos a votar nas Eleições 2026 Crescimento foi de quase de 2,3 milhões de pessoas (1,46%) em comparação com o pleito de 2022 20/07/2026 12:51 - Atualizado em 20/07/2026 13:39 A especialidade médica do Alienista é a Psiquiatria (chamada na época de "médico psiquiatra" ou estudioso da "patologia mental") e ele despachava da Casa Verde, o manicômio fundado por ele na vila de Itaguaí. O protagonista da famosa obra de Machado de Assis se chama Dr. Simão Bacamarte. Detalhes sobre o Personagem e a Obra Especialidade: Dedicou-se inteiramente ao estudo da loucura, sendo um pioneiro da ciência mental no Brasil fictício do livro. Local de Trabalho: A Casa Verde era o casarão onde ele isolava e internava todos os cidadãos que considerava mentalmente instáveis. Confusão no Enunciado: O nome "Ortega" mencionado no final da sua pergunta parece ser um resquício da pergunta anterior sobre Daniel Ortega, não fazendo parte do universo machadiano. Coisas do Mundo, Minha Nega Paulinho da Viola Hoje eu vim minha nega Como venho quando posso Na boca as mesmas palavras No peito o mesmo remorso Nas mãos a mesma viola Onde eu gravei o teu nome Nas mãos a mesma viola Onde eu gravei o teu nome Venho do samba há tempo, nega Venho parando por aí Primeiro achei Zé Fuleiro Que me falou de doença Que a sorte nunca lhe chega Que está sem amor e sem dinheiro Perguntou se não dispunha De algum que pudesse dar Puxei então da viola Cantei um samba pra ele Foi um samba sincopado Que zombou de seu azar Hoje eu vim, minha nega Andar contigo no espaço Tentar fazer em teus braços Um samba puro de amor Sem melodia ou palavra Pra não perder o valor Sem melodia ou palavra Pra não perder o valor Depois encontrei Seu Bento, nega Que bebeu a noite inteira Estirou-se na calçada Sem ter vontade qualquer Esqueceu do compromisso Que assumiu com a mulher Não chegar de madrugada E não beber mais cachaça Ela fez até promessa Pagou e se arrependeu Cantei um samba pra ele Que sorriu e adormeceu Hoje eu vim, minha nega Querendo aquele sorriso Que tu entregas pro céu Quando eu te aperto em meus braços Guarda bem minha viola Meu amor e meu cansaço Guarda bem minha viola Meu amor e meu cansaço Por fim achei um corpo, nega Iluminado ao redor Disseram que foi bobagem Um queria ser melhor Não foi amor nem dinheiro A causa da discussão Foi apenas um pandeiro Que depois ficou no chão Não tirei minha viola Parei, olhei, vim-me embora Ninguém compreenderia Um samba naquela hora Hoje eu vim, minha nega Sem saber nada da vida Querendo aprender contigo A forma de se viver As coisas estão no mundo Só que eu preciso aprender As coisas estão no mundo Só que eu preciso aprender As coisas estão no mundo Só que eu preciso aprender As coisas estão no mundo Só que eu preciso aprender Composição: Paulinho da Viola. WW ESPECIAL - A OLIGARQUIA DOS TRÊS PODERES - 19/07/2026 CNN Brasil Transmitido ao vivo em 19 de jul. de 2026 WW — Programas na íntegra Assista ao WW Especial deste domingo, 19 de julho de 2026. #CNNBrasil Participa deste episódio Joaquim Falcão, advogado e membro da ABL (Academia Brasileira de Letras).
terça-feira, 21 de julho de 2026 O mal-estar da República, por Carlos Andreazza O Estado de S. Paulo Está na praça – sob a categoria tem de ler – o livro-ensaio A Oligarquia dos Poderes, de Joaquim Falcão, um dos intérpretes deste Brasil em que a concertação dissimula o conluio. Parece que Flávio Dino já o leu. Deveria lê-lo – não lhe deixa de ser uma biografia indireta – Gilmar Mendes. Não o lerá Alexandre de Moraes. São 254 páginas de diagramação arejada, fonte generosa para com os de vista cansada e texto papo reto sobre “a crise da democracia”, esse mal-estar social derivado da percepção difusa de que a elite delegada a nos representar terá corrompido a própria existência, um fim em si mesmo, alargado e aprofundo o fosso que a separa do povo. “O mal-estar provoca certo desprezo da sociedade pelo Estado. A maioria popular sente.” O autor trata da violação do contrato social, produto do estabelecimento de um sistema trancado em que os donos da República protegeriam uns aos outros. O Poder instrumentalizado, fachada à constituição autoritária de apropriadores, para além da locupletação simples conforme consagrada neste país. Parece que Flávio Dino já o leu. Em sua tese sobre a perversão das emendas parlamentares, o nosso novo caçador de marajás, aquele que não tolera “penduricalhos” para além do extravasamento do teto constitucional que o tribunal constitucional permitira, escreveu sobre a “oligarquia parlamentar” que controla o orçamento secreto, instrumento – obscuro e autoritário – por meio do qual os detentores do Poder subordinam a prerrogativa parlamentar ao aumento dos próprios poderes. O Poder como fachada; e a prerrogativa parlamentar a serviço da manutenção do poder. Há um fundo eleitoral paralelo. Deveria lê-lo Gilmar Mendes, o garantidor do sistema, aquele que codificou-normalizou os trânsitos – os relacionamentos e as negociações – entre autoridades estatais de que a sociedade desconfia. O decano é quem fecha o estreito de ormuz brasiliense. “Mal-estar além de social: ético. Diante do comportamento de alguns líderes dos três Poderes. Denúncias de corrupção visíveis e não explicadas. Não julgadas nem punidas. Não raramente desmentidas tecnicamente.” Não o lerá – por falta de tempo – Alexandre de Moraes, tomado que está pela aplicação do Direito Xandônico e pela escritura do código que já substitui a Constituição, por meio do qual, sempre em defesa da democracia, vige a censura prévia entre nós. “E se os Poderes Estatais, em nome da democracia, pretenderem ser, eles próprios, oligárquicos?” Sob o 8 de janeiro permanente, à espreita sempre o golpe, Xandão – salvador do estado democrático de direito – não precisa explicar as relações com Vorcaro e o que o sujeito (que lhe contratara a esposa) queria que o ministro do Supremo, aquele que suspendera o X no Brasil, bloqueasse no dia em que seria preso. Se criticar, Bolsonaro volta. • Manhattan Connection 19/07/2026 | com Alvaro Schocair
terça-feira, 21 de julho de 2026 Pequeno glossário gramsciano, por Alvaro Bianchi e Daniela Mussi* Revista Cult Bloco histórico O conceito, inspirado na obra de Georges Sorel (1847-1922), foi utilizado por Gramsci para repensar as relações entre estrutura-superestrutura em uma chave anti-economicista. Expressa a unidade entre estrutura e superestrutura, natureza e espírito. No bloco histórico, as forças materiais são o conteúdo e as ideologias, as formas. Mas essa distinção entre forma e conteúdo é apenas didática, uma vez que na realidade histórica as forças materiais não seriam concebidas sem suas formas e as ideologias não teriam eficácia sem essas forças materiais. O conceito de bloco histórico não designa uma aliança de classes ou partidos políticos. Cultura Tema persistente nos escritos de Antonio Gramsci, cultura adquiria sentido amplo e uma série de desdobramentos em seu pensamento. Nos artigos de juventude, a cultura aparecia associada à atividade intelectual necessária para o fortalecimento “interior” do ambiente socialista, capaz de superar tanto as reduções neopositivistas do marxismo como o neoidealismo que avançava sobre as ideias de Karl Marx, revisando-as e incorporando-as em um paradigma liberal. Nos cadernos redigidos da prisão encontramos essa concepção ampliada e complexificada, resultado do interesse e contato de Gramsci com a experiência soviética desde 1917, além dos demais desdobramentos da crise aberta com a I Guerra Mundial na Europa, especialmente na Itália sob o fascismo. A cultura passava a ser pensada, ainda, como reforma intelectual e moral, ou seja, como o coração de uma estratégia de organização política. Também era investigada como parte de uma nova historiografia que reconhecia na formação do Estado moderno a unidade contraditória entre as formas da vida e atividade de governados e governantes. Estado Nos Cadernos do cárcere o conceito de Estado aparecia de duas maneiras. Primeiro, em um sentido mais usual na linguagem política corrente, o Estado designava a sociedade política, o conjunto dos aparelhos governativos e coercitivos que permitem realizar as funções de domínio. Em sua segunda acepção, o termo adquiria maior complexidade e passava a designar o conjunto de instituições da sociedade civil e da sociedade política, unificando, desse modo, as funções de direção (hegemonia), próprias da sociedade civil, e de dominação, características da sociedade política. Nesta última acepção o conceito de Estado assume, segundo Gramsci, uma dimensão orgânica e mais ampla, integral. Esta maneira de conceber o Estado é, frequentemente, é sintetizada na fórmula de “Estado ampliado”, embora a expressão não apareça nos Cadernos do cárcere e seja da lavra de Christine Buci-Glucksmann . Filosofia da práxis Trata-se de uma expressão emprestada por Gramsci do filósofo italiano Antonio Labriola (1843-1904), mais precisamente do livro Discorrendo di socialismo e di filosofia (1898) onde aparece a ideia de que “a filosofia da práxis é a medula do materialismo histórico”. Nos Cadernos do cárcere, Gramsci usou essa expressão em substituição a termos como “marxismo” e “materialismo histórico”, o que levou muitos intérpretes a considerá-la uma estratégia de escrita para evitar a censura fascista e outros tantos a supor o abandono das ideias de Marx. Esta segunda hipótese não se sustenta e a primeira, embora possua alguma consistência, não dá conta do fato que Gramsci absorveu a fórmula de Labriola em uma agenda de pesquisa da relação estabelecida por Marx com as tradições filosóficas dominantes em seu tempo, particularmente com a filosofia hegeliana. Gramsci valorizava o fato de Labriola ter sido o primeiro intelectual a identificar a “dignidade filosófica” do marxismo e considerá-lo como uma “cultura superior” em relação àquelas tradições. Partindo dessa premissa, o pensamento gramsciano avançou na elaboração de hipóteses de trabalho para estudo da circulação da filosofia da práxis depois da morte de seu criador, identificando dois caminhos principais: o de popularização das ideias de Marx por correntes simpáticas ao seu pensamento (o “marxismo oficial” em sentido restrito), o qual tendeu a subsumir o marxismo na filosofia materialista; e o de absorção das ideias de Marx por correntes intelectuais rivais ao seu pensamento (dentre as quais o neoidealismo era a mais importante). Em relação a esses dois “revisionismos”, por fim, a filosofia da práxis gramsciana era, antes de mais nada, a retomada de uma agenda de trabalho intelectual que apontava para a reunificação entre alta cultura e cultura popular, entre Renascimento e Reforma. Hegemonia O conceito, usual no léxico político do movimento socialista russo desde o início do século 20, era utilizado para designar o papel dirigente do proletariado em uma aliança de classes. Nos Cadernos, Gramsci fez um uso original do conceito no âmbito de sua nova teoria do Estado integral e o utilizou, em primeiro lugar, para estudar o papel do partido moderado na unificação italiana. Afirmou que os moderados haviam exercido uma atividade hegemônica antes de chegar ao poder, ou seja, que haviam sido capazes de dirigir política e culturalmente os grupos sociais aliados. A hegemonia, entretanto, só se realizaria plenamente quando os grupos políticos dirigentes pudessem mobilizar o aparelho estatal e implementar um programa pedagógico que lhes permitissem concentrar as forças intelectuais da nação e afirmar por meio delas uma nova concepção de mundo. Gramsci ora afirmou que hegemonia é igual à direção política e à organização do consenso exercida no âmbito da sociedade civil; ora que a hegemonia se caracteriza por uma combinação de coerção e consenso, ou seja, de dominação e direção, às quais em uma situação “normal”, própria das democracias representativas, se encontrariam em uma relação equilibrada. Intelectuais No pensamento de Gramsci, o conceito de intelectual foi ampliado ao longo do tempo em relação ao sentido habitual (como atividade profissional, formalmente estabelecida, no mundo das letras) e intimamente associado ao desenvolvimento dos conceitos de Estado integral e de hegemonia. Seria especialmente na sociedade civil que os intelectuais operariam e sua principal função seria a de organização e conexão desta com a sociedade política. Objeto de reflexão central nos escritos antes e depois da prisão, os intelectuais sempre estiveram no centro do pensamento de Gramsci. Antes da prisão, apareciam em seus artigos jornalísticos como tema e ponto de partida para a crítica das correntes político-culturais italianas e europeias. Contudo, com o ensaio Alcuni temi della questione meridionale, redigido nos primeiros meses de 1926, pouco antes da prisão, os intelectuais passaram à condição de objeto consciente de investigação. Gramsci desenvolveu a hipótese interpretativa de que na Itália a hegemonia burguesa Setentrional se realizara depois da unificação nacional por meio da formação de um “bloco intelectual” responsável pela coesão do “bloco agrário” apesar da desagregação social da região Meridional nesse processo. Grandes intelectuais meridionais, como o filósofo Benedetto Croce (1866-1952), eram os expoentes desse bloco, formado ainda por intelectuais pequeno-burgueses que passaram a compor o pessoal estatal depois do Risorgimento. Já nos Cadernos do cárcere, a pesquisa sobre os intelectuais foi expandida e diversificada, dando lugar a uma história transnacional das correntes intelectuais na modernidade. Nesse novo momento, o estudo dos intelectuais foi inserido em um plano de estudos sobre as vicissitudes da expansão da experiência de formação dos Estados modernos, os efeitos desagregadores e as tendências de integração global contidas neste processo, bem como sobre as crises resultantes dos choques culturais, políticos e sociais resultantes dessa experiência. Revolução passiva A expressão apareceu originalmente na obra de Vincenzo Cuoco (1770-1823) em sua obra sobre a revolução napolitana de 1799, na qual o povo não teria tomado parte e teria permanecido passivo. Gramsci utilizou o conceito para explicar o Risorgimento, o processo de formação do Estado nacional italiano no século 19, como uma “revolução sem revolução”, a qual, diferentemente da Revolução Francesa, teria ocorrido por meio de mudanças graduais e sem uma ruptura revolucionária. A seguir, expandiu o uso do conceito, primeiro para explicar o processo de formação dos Estados nacionais europeus por meio de uma série de reformas ou de guerras nacionais que teriam ocorrido sem uma fase jacobina; depois para analisar o americanismo e o fascismo, como processos de transformações moleculares nos quais o Estado assumiu a função dirigente. Nas revoluções passivas as transformações políticas e sociais se caracterizariam por processos de conservação e inovação, preservando as antigas relações sociais, ao mesmo tempo que estas eram atualizadas, permitindo seu desenvolvimento sob novas formas. Senso comum Era para Gramsci “a concepção de vida e moral mais difusa” de uma pessoa ou grupo social, ou seja, uma “visão de mundo” de caráter incoerente e fragmentado. Em Gramsci o senso comum não era concebido de maneira imóvel ou rígida, mas sempre como resultado de processos históricos que produzem a fixação temporária de opiniões filosóficas, noções científicas, culturais, econômicas etc. Por esse motivo, com o tempo toda “concepção de vida” seria deslocada por novas concepções com as quais passa a conviver como “sedimentação” de concepções passadas. A expressão “senso comum” acompanhou a pesquisa de Gramsci nos Cadernos do cárcere desde o início. Aqui, encontramos a ideia, análoga à reflexão a respeito dos intelectuais, de que todo estrato social possui o seu senso comum e, portanto, que em uma sociedade muitos sensos comuns convivem entre si. Assim, o conceito de senso comum seria difuso e não se aplicaria apenas a um grupo social, movimento analítico que permitiu a Gramsci realizar uma completa renovação do conceito de ideologia e de sua relação com a política. Assim como a ideologia, o senso comum corresponderia ao momento de reprodução e circulação de uma determinada concepção de mundo e indicaria o funcionamento normal da hegemonia de um grupo dominante. Contudo, apesar de existir nas mais diversas e contraditórias formas, por meio de “tortuosidades” e fragilidades de tipo lógico ou, ainda, como visão de mundo atrasada, o senso comum nada mais seria do que a forma popular das filosofias dominantes passadas. A percepção de uma visão de mundo como “senso comum”, portanto, seria um dado histórico relevante que indicaria não apenas a passagem de uma filosofia para o campo do folclore, mas a presença de outro elemento ativo nos processos de conformação das visões de mundo populares: o bom senso. Sociedade civil Nos Cadernos, Gramsci iniciou sua reflexão sobre a sociedade civil distinguindo o sentido que comumente era encontrado nos escritos dos intelectuais católicos, como sinônimo de Estado, em confronto com a Igreja e a família, do sentido que atribuía a Hegel, e com o qual concordava, no qual a sociedade civil era o conteúdo ético do Estado. Enquanto a sociedade política seria o lugar da violência e da coerção, na sociedade civil ocorreria a organização do consenso por meio dos aparelhos privados de hegemonia política e cultural, tais como partidos, sindicatos, igrejas, escolas, universidades, revistas, jornais, etc. A sociedade civil não era, para Gramsci, um lugar no qual apenas a autonomia dos sujeitos e projetos emancipatórios teriam lugar, nem uma esfera contraposta ao Estado e ao mercado, como em certas leituras contemporâneas. Nos Cadernos, a sociedade civil era um espaço do conflito entre forças hegemônicas antagonistas. Nas sociedades modernas e de capitalismo avançado, esse espaço do conflito seria decisivo, uma vez que o conjunto de aparelhos privados constituiriam um sistema “trincheiras e fortificações” que tornariam o ataque direto aos centros de poder, a guerra de movimento, ou inviável, ou ineficaz. Subalternos As expressões “grupos subalternos” ou “grupos sociais subalternos” apareceram sempre no plural nos Cadernos. Gramsci não utilizou essas expressões como sinônimo de classe operária ou de proletariado. Elas assumiram um sentido mais amplo, abarcando um conjunto de grupos sociais heterogêneos os quais teriam em comum uma posição de subordinação política na sociedade. A história desses grupos, segundo Gramsci, seria marcada pela fragmentação e por episódios de rebelião espontânea. A cultura dominante tenderia a marginalizar e impedir a unificação desses grupos, reafirmando constantemente a subordinação destes. Para superar essa condição subalterna, ou seja, para pôr um fim à subordinação, seria necessário imprimir a essa atividade espontânea uma direção consciente, capaz de afirmar e conquistar a autonomia desses grupos, o que só ocorreria mediante um longo e complexo processo que teria seu início no âmbito da sociedade civil. *Alvaro Bianchi, professor da Unicamp, e Daniela Mussi, professora da UFRJ

segunda-feira, 20 de julho de 2026

"Choros nº 10 - Rasga o Coração"

Minutos Osesp | "Choros nº 10 - Rasga o Coração", de Heitor Villa-Lobos Osesp — Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo 20 de jun. de 2016 A Osesp produz periodicamente o Minuto Osesp, uma breve narrativa sobre alguma obra que a Orquestra interpreta na Sala São Paulo, ilustrada por trechos musicais. Essa é mais uma iniciativa da Fundação Osesp para colocar a música clássica perto de você. Escute a narrativa sobre os "Choros nº 10 - Rasga o Coração", de Heitor Villa-Lobos, obra apresentada nos dias 23, 24 e 25 de junho de 2016. Roteiro: Leandro Oliveira Narração: Mônica Waldvogel Rasga Coração (Trailer) - Teatro Oficina por favor... (Camargo Moço volta) Quem é aquele rapaz? Camargo Moço — ... Quem? Manguari — ... O meu filho, Luís Carlos, que é ele? Por que é que eu entendo ele cada vez menos? O que é que ele faz esse conflito de gerações ficar assim? Camargo Moço — ... Não saco muito conflito de gerações, sabe? Pra mim, o importante não é o conflito de gerações, é a luta que cada geração trava dentro de si mesmo... eu sou da geração de seu filho, pô, mas sou outra pessoa... tem umas gerações que acham que a política é a atividade mais nobre, a suprema, a exclusiva invenção do ser humano... Tem outras gerações que pensam que a política é a coisa mais sórdida que o homem faz... quero que a minha seja como a primeira... Manguari — ... Mas a sua geração fica cada vez mais apolítica... você é minoria... qual é a minha culpa nisso? Minha geração é política... Camargo Moço — Bom, aí eu não sei, seu Custódio, não sei... Sabe? O Colégio Castro Cott mandou cortar o cabelo e faz cumprir a ordem a ferro e fogo em Laranjeiras porque lá em Laranjeiras vão construir um colégio do estado... então, ele quer chamar atenção pro Colégio Castro Cott de Laranjeiras, para todos os pais moralistas de todos os bairros, é uma maneira de atrair freguesia. Ninguém sabe disso lá no colégio, os seiscentos alunos, ninguém sabia, ninguém sabe do problema educacional do país... acho que, vai ver, esse foi o erro de vocês... vocês descobriram uma verdade luminosa, a luta de classes, e pronto, pensam que ela basta para explicar tudo... a tarefa nossa não é esperar que uma verdade aconteça, nossa tarefa é descobrir novas verdades, todos os dias... acho que vocês perderam a arma principal: a dúvida. Acho que é isso que o filho do senhor quer... duvidar de tudo... e isso é muito bom... acorda... arrepia as pessoas. (Longo silêncio) Manguari — ... a dúvida, menino? ... a nossa principal arma, a dúvida?... (Novo silêncio)... nunca tinha pensado nisso... (Silêncio. Manguari imerso em si mesmo) Camargo Moço — Bom... agora vou puxar mesmo... boa noite, seu Custódio... Manguari — ... Hein? Boa noite, menino, boa noite, garoto... (Camargo sai. Manguari parado, pensando, queimando) ... dê notícias, Camargo Moço... dê notícias... (Manguari fica absolutamente imobilizado, pensando. A luz do presente abre, aos poucos sobre Luca e Milena)
Iara (Rasga o Coração) Vicente Celestino Se tu queres ver a imensidão do céu e mar Refletindo a prismatização da luz solar Rasga o coração, vem te debruçar Sobre a vastidão do meu penar Rasga-o, que hás de ver Lá dentro a dor a soluçar Sob o peso de uma cruz De lágrimas chorar Anjos a cantar preces divinais Deus a ritmar seus pobres ais Sorve todo o olor que anda a recender Pelas espinhosas florações do meu sofrer Vê se podes ler nas suas pulsações As brancas ilusões e o que ele diz no seu gemer E que não pode a tia dizer nas palpitações Ouve-o brandamente, docemente a palpitar Casto e purpural num treno vesperal Mais puro que uma cândida vestal Hás de ouvir um hino Só de flores a cantar Sobre um mar de pétalas De dores ondular Doido a te chamar, anjo tutelar Na ânsia de te ver ou de morrer Anjo do perdão! Flor vem me abrir Este coração na primavera desta dor Ao reflorir mago sorrir nos rubros lábios teus Verás minha paixão sorrindo a Deus Palma lá do Empíreo Que alentou Jesus na cruz Lírio do martírio Coração, hóstia de luz Ai crepuscular, túmulo estelar Rubra via-sacra do penar Composição: Catulo da Paixão Cearense, Anacleto Medeiros.
Mural na cidade de Guernica com uma reprodução da obra original Autor Pablo Picasso Data 1937 Técnica pintura a óleo Dimensões 350 × 776 Localização Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofia, Madrid Joan Manuel Serrat - Para La Libertad (Concierto (Actuación TVE))
lys.ilumina 1 sem Ontem tivemos a honra de fazer parte da semana de celebrações dos 60 anos do @grupo.divulgacao , montando e operando a luz do espetáculo #labarraca Agradecemos o carinho e a confiança do grupo e de seu fundador e diretor, @joseluizribeiror Agradecemos a parceira e a habilidade do querido Renato, que realizou a montagem conosco. E agradecemos a sorte de trabalhar com gente tão incrível, que tanto admiramos. VIVA O GRUPO DIVULGAÇÃO E TODOS OS SEUS INTEGRANTES AO LONGO DESSES 60 ANOS!

⚽ Espanha 2026: Entre a Glória Real e o Desafio do Inédito

Em 19 de julho de 2026, a Espanha conquistou a Copa do Mundo ao derrotar a Argentina por 1 a 0 na prorrogação, consolidando seu segundo título mundial após a conquista histórica de 2010.

O triunfo, embora grandioso, inaugura um novo e mais complexo desafio: não o de vencer, mas o de continuar vencendo.


📊 Linha do Tempo e a Regra da Continuidade

No futebol, há uma distinção rigorosa frequentemente ignorada:

  • Bicampeonato simples: dois títulos em qualquer período
  • Bicampeonato consecutivo (restrito): títulos em sequência

Historicamente, apenas duas seleções conseguiram o feito consecutivo:

  • Itália: 1934–1938
  • Brasil: 1958–1962

Com isso, a Espanha ocupa atualmente a seguinte posição:

  • 🏆 2010 — primeiro título
  • 🏆 2026 — segundo título

Conclusão técnica: ainda não há bicampeonato consecutivo.

Para atingir esse marco, a Espanha precisa vencer a Copa do Mundo de 2030.

E mais:

Um eventual título em 2034 criaria o primeiro tricampeonato consecutivo da história do futebol mundial.


🎯 O Verdadeiro Problema: O Pós-Título

O maior risco após 2026 não é a derrota — é a soberba estrutural.

No auge da conquista, emerge a frase clássica:

“Já ganhamos tudo.”

É nesse ponto que entra o contraponto essencial do técnico Luis de la Fuente:

“Precisamos vencer o próximo jogo.”

Essa tensão define o futuro da seleção.


🎨 O Campo Expandido: Futebol, Arte e Existência

O que está em jogo não é apenas desempenho esportivo, mas uma estrutura psicológica profunda — amplamente explorada pela arte e pela literatura.


1. 📖 A Pedra no Caminho — Carlos Drummond de Andrade

A famosa “pedra” simboliza o obstáculo inevitável. No contexto da Espanha pós-2026, essa pedra não é o adversário.

É interna.

  • Excesso de confiança
  • Memória paralisante da vitória
  • Perda da fome competitiva

O “retrato na parede” deixa de ser celebração e passa a ser armadilha.


2. 🎨 Guernica — Pablo Picasso

A obra representa o colapso de estruturas aparentemente sólidas.

No paralelo com o futebol:

  • O touro: símbolo da arrogância que ignora o caos
  • Os corpos fragmentados: ruptura súbita de sistemas dominantes
  • A espada quebrada com flor: o recomeço nasce da destruição

A lição é clara:

toda hegemonia carrega em si o risco do próprio colapso.


3. 🎵 Para la Libertad — Joan Manuel Serrat

A canção, baseada no poema de Miguel Hernández, oferece o modelo mental necessário para sustentar o alto nível competitivo:

"Porque soy como el árbol talado, que retoño: y aún tengo la vida"

No futebol:

  • Cada ciclo é uma poda
  • Cada título exige renascimento
  • Nenhuma vitória é permanente

E o princípio fundamental:

"Para la libertad, sangro, lucho, pervivo"

A glória exige esforço contínuo — nunca herança.


📊 Síntese Estrutural

Elemento Símbolo Significado
Soberba O touro (Guernica) Ilusão de invulnerabilidade
Pragmatismo Flor na espada quebrada Recomeço disciplinado
Obstáculo Pedra (Drummond) Desafio inevitável interno
Resiliência Árvore (Serrat) Capacidade de renascer

🎬 Conclusão: O Desafio Começa Agora

A Espanha não entra no ciclo 2026–2030 como campeã absoluta.

Ela entra como:

  • Alvo global
  • Referência técnica
  • Experimento psicológico

O caminho até 2034 não depende apenas de talento.

Depende de evitar o ciclo clássico:

  • Vitória → Soberba → Queda

E substituí-lo por:

  • Vitória → Consciência → Trabalho → Evolução

Se conseguir, a Espanha não apenas vencerá novamente.

Ela redefinirá o conceito de continuidade no futebol mundial.


▶️ Referência cultural (resiliência espanhola)

Joan Manuel Serrat – Para la Libertad (ao vivo)

Espanha frustra torcida e só empata com Cabo Verde em estreia da Copa Sim, o feito é real: Cabo Verde foi a única seleção a não ser derrotada pela Espanha, campeã da Copa do Mundo. Na estreia da competição, os Tubarões Azuis seguraram um empate por 0x0, tornando-se a única equipe que os espanhóis não conseguiram vencer nem vazar em todo o torneio. A Exclusividade do Feito de Cabo Verde A campanha espanhola no torneio foi praticamente irretocável, com o time vencendo todas as outras partidas que disputou e sofrendo apenas um gol ao longo de todo o campeonato. Por terem resistido à máquina espanhola logo no primeiro jogo, os cabo-verdianos ganharam os holofotes e o respeito internacional.

domingo, 19 de julho de 2026

A grande final, por Tostão

html

A Dança entre o Direito, a Semântica e a Retórica: Uma Análise do Caso INSS

A análise integrada do fragmento jornalístico revela o intrincado jogo de forças entre a técnica processual, a semântica discursiva e a estratégia retórica que frequentemente molda as grandes investigações no cenário nacional.

1. A Subversão do Rito e a Busca pela Cúpula Institucional

O primeiro e mais flagrante desalinho do texto em relação à realidade jurídica reside na tentativa da defesa de agendar uma audiência com o Diretor-Geral da Polícia Federal para "solicitar o arquivamento do caso". Sob a ótica do Direito Processual Penal brasileiro, tal movimento configura uma anormalidade metodológica e uma heresia sistêmica.

O Inquérito Policial (IP) é um procedimento administrativo, inquisitório e pré-processual, cuja condução é de presidência exclusiva e discricionária do Delegado de Polícia responsável pelo caso (o chamado "juiz natural" da fase investigativa). Nem mesmo o Diretor-Geral da corporação possui o poder legal de avocar os autos, interferir no mérito do relatório ou determinar o arquivamento de qualquer investigação.

Mais grave ainda: o arquivamento de um inquérito é ato complexo cuja titularidade da ação penal pertence unicamente ao Ministério Público (Art. 129, I, da CF/88), dependendo, por fim, da homologação do Poder Judiciário. Ao buscar a cúpula administrativa da Polícia Federal para postular o encerramento das apurações, o causídico abandona deliberada e conscientemente os canais republicanos e o devido processo legal. A praxe jurídica imporia a apresentação do constituído e de suas razões diretamente à autoridade que preside as investigações, visando o esclarecimento dos fatos de forma técnica e nos autos.

2. O Esvaziamento Semântico e o Truncamento Político

No campo filológico e gramatical, o discurso reportado opera uma visível neutralização dos termos técnicos do direito, substituindo-os por vocábulos de conveniência política e apelo popular. A expressão jurídica "extinção da punibilidade", "ausência de justa causa" ou "atipicidade da conduta" é deliberadamente transmutada na fórmula coloquial e minimizadora "encerrar esse assunto o quanto antes".

Este truncamento linguístico serve a um propósito claro: retirar o debate da esfera dogmática do Direito Penal e deslocá-lo para a arena da conveniência pública. O uso do substantivo "malfeito", em detrimento de termos precisos como "crime", "tipo penal" ou "infração legal", atua como um eufemismo que dilui a gravidade técnico-jurídica do indiciamento de 48 pessoas no "caso INSS".

Há também uma sutil mas importante distinção terminológica a ser resguardada: embora o questionamento levante o espectro do Inquérito Policial Militar (IPM) — rito que guarda rigorosíssima cadeia de comando e formalidades próprias do direito castrense —, o caso em tela trata de um IP comum na esfera federal. Todavia, a tentativa de fustigar a cadeia de comando da PF mimetiza, de forma transversa, a lógica hierárquica e autoritária, tentando obter por meio de uma instância superior o que deveria ser conquistado por meio do contraditório técnico perante o delegado condutor.

3. A Retórica da Antecipação e a Assimetria Discursiva

Por fim, a análise do discurso expõe a clássica estratégia retórica da blindagem por antecipação. Ao asseverar de forma peremptória que "no caso de Fábio, acho que vão arquivar em breve", a defesa utiliza-se de um argumento de autoridade invertido, tentando criar no imaginário social um estado de inevitabilidade quanto à inocência de seu cliente.

O emprego do advérbio de exclusão absoluta "absolutamente" conectado ao termo "nenhum malfeito" funciona como uma barreira retórica que visa bloquear preventivamente qualquer valoração factual posterior. O causídico opera aqui o que a teoria da argumentação chama de falácia da cortina de fumaça: desvia-se o foco das 48 pessoas indiciadas e dos indícios materiais que fundamentaram a conclusão do primeiro relatório da PF para focar na suposta "certeza" de um arquivamento futuro.

Manifesta-se, com isso, uma evidente assimetria discursiva: o mesmo operador do direito que, inoportunamente, exige o apego mais estrito, dogmático e formal às garantias constitucionais e aos ritos processuais, adota nesta circunstância uma via marcadamente extraprocessual, informal e de pressão institucional. A retórica, portanto, substitui a verdade jurídica objetiva — que só se consolidaria após a análise ministerial do relatório policial — por uma narrativa de conveniência que tenta esvaziar a legitimidade do indiciamento antes mesmo que ele se transforme em denúncia formal.

Use o código com cuidado. html

A Dança entre o Direito, a Semântica e a Retórica: Uma Análise do Caso INSS

A análise integrada do fragmento jornalístico revela o intrincado jogo de forças entre a técnica processual, a semântica discursiva e a estratégia retórica que frequentemente molda as grandes investigações no cenário nacional.

Análise Conceitual do Caso INSS

Infográfico: A sobreposição dos argumentos técnicos, semânticos e retóricos sobre o fato jornalístico.

1. A Subversão do Rito e a Busca pela Cúpula Institucional

O primeiro e mais flagrante desalinho do texto em relação à realidade jurídica reside na tentativa da defesa de agendar uma audiência com o Diretor-Geral da Polícia Federal para "solicitar o arquivamento do caso". Sob a ótica do Direito Processual Penal brasileiro, tal movimento configura uma anormalidade metodológica e uma heresia sistêmica.

O Inquérito Policial (IP) é um procedimento administrativo, inquisitório e pré-processual, cuja condução é de presidência exclusiva e discricionária do Delegado de Polícia responsável pelo caso (o chamado "juiz natural" da fase investigativa). Nem mesmo o Diretor-Geral da corporação possui o poder legal de avocar os autos, interferir no mérito do relatório ou determinar o arquivamento de qualquer investigação.

Mais grave ainda: o arquivamento de um inquérito é ato complexo cuja titularidade da ação penal pertence unicamente ao Ministério Público (Art. 129, I, da CF/88), dependendo, por fim, da homologação do Poder Judiciário. Ao buscar a cúpula administrativa da Polícia Federal para postular o encerramento das apurações, o causídico abandona deliberada e conscientemente os canais republicanos e o devido processo legal. A praxe jurídica imporia a apresentação do constituído e de suas razões diretamente à autoridade que preside as investigações, visando o esclarecimento dos fatos de forma técnica e nos autos.

2. O Esvaziamento Semântico e o Truncamento Político

No campo filológico e gramatical, o discurso reportado opera uma visível neutralização dos termos técnicos do direito, substituindo-os por vocábulos de conveniência política e apelo popular. A expressão jurídica "extinção da punibilidade", "ausência de justa causa" ou "atipicidade da conduta" é deliberadamente transmutada na fórmula coloquial e minimizadora "encerrar esse assunto o quanto antes".

Este truncamento linguístico serve a um propósito claro: retirar o debate da esfera dogmática do Direito Penal e deslocá-lo para a arena da conveniência pública. O uso do substantivo "malfeito", em detrimento de termos precisos como "crime", "tipo penal" ou "infração legal", atua como um eufemismo que dilui a gravidade técnico-jurídica do indiciamento de 48 pessoas no "caso INSS".

Há também uma sutil mas importante distinção terminológica a ser resguardada: embora o questionamento levante o espectro do Inquérito Policial Militar (IPM) — rito que guarda rigorosíssima cadeia de comando e formalidades próprias do direito castrense —, o caso em tela trata de um IP comum na esfera federal. Todavia, a tentativa de fustigar a cadeia de comando da PF mimetiza, de forma transversa, a lógica hierárquica e autoritária, tentando obter por meio de uma instância superior o que deveria ser conquistado por meio do contraditório técnico perante o delegado condutor.

3. A Retórica da Antecipação e a Assimetria Discursiva

Por fim, a análise do discurso expõe a clássica estratégia retórica da blindagem por antecipação. Ao asseverar de forma peremptória que "no caso de Fábio, acho que vão arquivar em breve", a defesa utiliza-se de um argumento de autoridade invertido, tentando criar no imaginário social um estado de inevitabilidade quanto à inocência de seu cliente.

O emprego do advérbio de exclusão absoluta "absolutamente" conectado ao termo "nenhum malfeito" funciona como uma barreira retórica que visa bloquear preventivamente qualquer valoração factual posterior. O causídico opera aqui o que a teoria da argumentação chama de falácia da cortina de fumaça: desvia-se o foco das 48 pessoas indiciadas e dos indícios materiais que fundamentaram a conclusão do primeiro relatório da PF para focar na suposta "certeza" de um arquivamento futuro.

Manifesta-se, com isso, uma evidente assimetria discursiva: o mesmo operador do direito que, inoportunamente, exige o apego mais estrito, dogmático e formal às garantias constitucionais e aos ritos processuais, adota nesta circunstância uma via marcadamente extraprocessual, informal e de pressão institucional. A retórica, portanto, substitui a verdade jurídica objetiva — que só se consolidaria após a análise ministerial do relatório policial — por uma narrativa de conveniência que tenta esvaziar a legitimidade do indiciamento antes mesmo que ele se transforme em denúncia formal.


O Brasil entre soberania, democracia e seus velhos problemas sociais

Por Luiz Carlos Azedo | Correio Braziliense

Quem quiser que se iluda, estamos diante de um novo ciclo político de longa duração, no qual os velhos problemas do país já não podem ser enfrentados da mesma forma, num contexto de crise da democracia ocidental, revolução tecnológica e desestruturação dos pactos diplomáticos pós Segunda Guerra Mundial. É nesse contexto que o Brasil chega às eleições de 2026, com uma combinação complexa de problemas sociais e econômicos, de radicalização política e de mudança da ordem internacional.

Ninguém pode desconsiderar que o nosso subdesenvolvimento, para usar uma expressão clássica, decorre da baixa produtividade, da desigualdade de oportunidades, da precariedade da educação básica, da expansão do crime organizado, dos deficits de saneamento e de habitação, do alto custo do capital e da fragilidade fiscal. Esse é o diagnóstico que alimenta o debate e divide opiniões por parte de quem busca soluções para o país em bases democráticas.

Ocorre que, agora, o Brasil enfrenta uma ameaça externa inédita desde a redemocratização, na medida em que o governo norte-americano de Donald Trump transformou tarifas comerciais e pressões diplomáticas em instrumentos de interferência política, numa tentativa de favorecer seus aliados ideológicos e influenciar as escolhas dos brasileiros. Não se trata, portanto, apenas de decidir quem governará o país, mas de definir como o Brasil defenderá sua democracia, sua economia e ocupará seu lugar numa ordem mundial em transformação.

Os Estados Unidos continuam sendo um parceiro histórico fundamental, mas sua política externa passa por uma mudança de paradigma. O movimento Maga (Make America Great Again) rompeu com aspectos importantes da tradição liberal que orientou Washington no pós-guerra. Em lugar da defesa das instituições multilaterais, da previsibilidade das alianças e da abertura comercial, a Casa Branca opera uma diplomacia transacional, nacionalista e protecionista na qual pontificam o histrionismo de Trump e os interesses da plutocracia que hoje domina a política norte-americana.

Tarifas, sanções e ameaças são utilizadas como instrumentos de pressão até mesmo contra países aliados estratégicos da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Agora, a aproximação entre o movimento Maga e o clã Bolsonaro trouxe um elemento perigoso à disputa brasileira: a tentativa de vincular interesses econômicos e estratégicos dos Estados Unidos no Brasil ao resultado de nossa eleição. A resposta não pode ser o velho antiamericanismo, mas exige a firme defesa da soberania.

Uma boa relação com os Estados Unidos não significa obediência, sobretudo quando interesses eleitorais e comerciais de uma corrente estrangeira se confundem com os de um grupo político brasileiro. Sem embargo das críticas, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva não tem outra opção a não ser negociar com firmeza, recorrer às instituições multilaterais, proteger os setores atingidos e, simultaneamente, preservar os canais de cooperação. Nossa política externa é de Estado, baseada nos interesses permanentes do Brasil.

Direitos e deveres

Ao contrário de outros momentos de tensão com os Estados Unidos, como aquele que resultou no golpe militar de 1964, o Brasil tem relações comerciais muito mais diversificadas. Nosso comércio com os Estados Unidos representa apenas 2% do Produto Interno Bruto (PIB), porém, é o principal destino de nossos produtos industrializados. E também não podemos cair na dependência de nosso maior parceiro comercial, a China, cuja capacidade industrial excedente pressiona os produtores de outros países. O Brasil deve ampliar acordos com União Europeia, Índia, Japão, Canadá, México, África, Sudeste Asiático e Oriente Médio, sem abandonar Washington nem Pequim. Ou seja, trata-se de construir novas alternativas e buscar ainda maior integração com a economia mundial.

Use o código com cuidado.Nada disso, porém, no plano interno, eliminará a insatisfação social e resolverá os problemas objetivos da população. A retaliação de Trump pode fortalecer momentaneamente uma narrativa nacionalista, mas o custo de vida, a insegurança, os juros, a qualidade dos serviços públicos e a esperança continuarão orientando o voto. A eleição não será decidida apenas com denúncias do autoritarismo adversário. É preciso demonstrar capacidade de entrega: segurança, educação, saúde, habitação, mobilidade urbana, crescimento, inclusão social e instituições que funcionem.Com a Constituição de 1988, o Sistema Único de Saúde (SUS), a universalização da educação fundamental, o salário mínimo valorizado, a transferência de renda, as ações afirmativas e a ampliação do acesso à universidade transformaram a sociedade brasileira. Não podemos brigar com os fatos. Os resultados insuficientes dessas políticas não são a prova de que a inclusão social fracassou. Nem devemos tratar quatro décadas de redemocratização como tempo perdido, apesar da descontinuidade administrativa e das recidivas oligárquica e do patrimonialista. O desafio não é abandonar os fundamentos da Constituição de 1988, mas atualizar os meios pelos quais se pretende alcançar igualdade, liberdade e dignidade.Entretanto, o Brasil realmente precisa reconciliar direitos coletivos com responsabilidade individual. A emancipação e a inclusão social devem oferecer condições para que cada cidadão desenvolva suas potencialidades e, ao mesmo tempo, responda por suas escolhas. O problema é que o mau exemplo vem de cima, devido à captura de instituições e políticas públicas por interesses privados, empresariais ou mesmo individuais. Vem daí, na verdade, a maior ameaça às nossas democracia e soberania. Basta ver as pesquisas sobre aprovação das principais instituições do país.
domingo, 19 de julho de 2026 O mais importante sobre o novo tarifaço não é a tarifa, por Matias Spektor* O Globo O objetivo não pode ser apenas exportar mais, mas usar a integração comercial para elevar a produtividade da economia O erro mais comum na discussão sobre as novas tarifas americanas contra o Brasil é tratá-las como mais um episódio da turbulenta relação entre Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva. Essa dimensão existe. Mas ela esconde a transformação mais importante. Os Estados Unidos passaram a reorganizar sua política comercial em torno do poder nacional. O comércio tornou-se instrumento de competição estratégica — controles de exportação de tecnologia sensível, exigências de conteúdo local para subsídios industriais, triagem de investimentos por segurança nacional. Quando a Suprema Corte anulou parte das tarifas de 2025, o governo Trump reconstruiu sua política tarifária sobre bases jurídicas mais sólidas. As novas tarifas contra o Brasil são parte dessa estratégia mais ampla. O Brasil não é o alvo principal. O verdadeiro alvo é a arquitetura da globalização das últimas três décadas. A competição entre Estados Unidos e China reorganiza os incentivos de todos os demais países. A Europa fortalece sua política industrial. A China acelera sua autonomia tecnológica. Economias de todos os portes reduzem dependências arriscadas e diversificam relações comerciais. O comércio internacional deixa de ser espaço de ganhos mútuos e volta a ser terreno de competição entre Estados. É aí que reside a vulnerabilidade brasileira. Nosso modelo de inserção internacional foi construído para um mundo com regras claras, onde era possível ampliar o comércio com a China e preservar boas relações com Washington sem grandes escolhas estratégicas. Esse mundo está desaparecendo. A crescente concentração das exportações brasileiras no mercado chinês cria dois riscos distintos. O primeiro é Washington cobrar politicamente a proximidade com Pequim. O segundo é essa concentração dar a Pequim influência sobre escolhas brasileiras. O mesmo vale para a dependência brasileira de sistemas financeiros e tecnológicos ancorados nos Estados Unidos. Dependências comerciais deixam de ser apenas oportunidades econômicas: tornam-se moeda de barganha. Por isso, o debate brasileiro não deveria se limitar à escolha entre retaliar ou negociar com Washington. Essas são questões táticas. A questão estratégica é outra: transformar o comércio exterior do Brasil em instrumento de fortalecimento das capacidades nacionais. O objetivo não pode ser apenas exportar mais, mas usar a integração comercial para elevar a produtividade da economia, incorporar tecnologia, qualificar trabalhadores e acelerar uma transição lucrativa para uma economia de baixo carbono. O agronegócio compreendeu essa lógica: investiu em pesquisa, adotou tecnologia em escala e diversificou mercados. Grande parte do restante da economia, não. O verdadeiro significado das tarifas de Trump não está no aumento da alíquota, mas no fato de que anunciam um mundo em que o comércio cumpre papel novo. A pergunta que interessa ao Brasil não é como reagir, mas como construir uma política comercial capaz de transformar a inserção internacional do país em desenvolvimento, resiliência e poder nacional. Isso significa condicionar apoio público e compras governamentais a metas de conteúdo tecnológico; usar acordos comerciais para atrair investimento em elos de cadeias produtivas ausentes no país; e tratar a transição ecológica não como custo a compensar, mas como vantagem econômica a explorar. * Matias Spektor é professor da Escola de Relações Internacionais da Fundação Getulio Vargas, em São Paulo
domingo, 19 de julho de 2026 A grande final, por Tostão Folha de S. Paulo Seleção argentina joga com lucidez e troca passes com precisão, superando adversários Espanha pode colocar Argentina na roda com posse de bola e passes em círculo Contra a Inglaterra, a Argentina foi novamente um time alucinado, sem perder a lucidez, a capacidade de trocar passes, de fazer as escolhas certas, de superar as dificuldades e de ultrapassar os limites. O futebol é muito mais que um jogo de talentos individuais e de planejamento tático. É um jogo de emoções, teatro da vida. Messi é um supercraque ao lado de excelentes jogadores. Todos se entendem pelo olhar e pela consciência coletiva. Além de genial, Messi é uma pessoa simples, discreta, com muita seriedade profissional e sem os trejeitos e idiotices das celebridades e dos fictícios personagens. A Argentina, que gosta também de ficar com a bola e trocar passes, vai tentar competir com a Espanha na posse de bola ou vai pressionar, marcar individualmente Rodri, o maestro da orquestra espanhola? A Espanha troca passes em círculo com os meio-campistas, os laterais e os atacantes recuando para receber a bola, até surgir o momento de acelerar, geralmente com Lamine Yamal, para chegar ao gol. Eles vão colocar os argentinos na roda? As duas seleções podem jogar ainda melhor. A Espanha ainda não teve o máximo de Lamine Yamal e a Argentina pode jogar bem na maior parte da partida. Os melhores momentos dessa maneira de jogar ficando com a bola do futebol espanhol foram no Barcelona, dirigido por Guardiola, que tinha um quarteto formado por Busquets, Xavi, Iniesta e Messi, o maior ídolo dos espanhóis. A foto do jovem Messi, no inicio de sua carreira no Barcelona, dando banho no bebê Lamine Yamal é sensacional. Os dois treinadores, Luís de la Fuente (65 anos) e Lionel Scaloni (48), merecem ser mais valorizados, seja qual for o resultado na final. Anos atrás, eram desconhecidos. De La Fuente foi treinador durante muito tempo das categorias de base da Espanha, comandando vários jogadores que hoje estão na seleção principal. Isso ajuda no seu trabalho. De La Fuente bebeu na fonte de Guardiola no Barcelona e de treinadores espanhóis que dirigiram a seleção e que adotavam a mesma filosofia de jogo atual, como Luis Aragonés e Vicente Del Bosque, campeão mundial em 2010. Todos estes treinadores, principalmente Guardiola, se inspiraram no holandês Cruyff, treinador e jogador do Barcelona. Cruyff ensinava que a melhor maneira de atacar e de defender era ficar com a bola. Cruyff aprendeu com Rinus Michels, treinador da seleção holandesa de 1974. A vida é um aprendizado diário. Só os ignorantes sabem tudo. O jovem Scaloni foi aluno de De La Fuente em um curso de treinador na Espanha. Scaloni era auxiliar da seleção argentina, se tornou técnico interino e "foi indo", como se diz em Minas Gerais, até ser campeão do mundo, agora com chances de ser bi. Além das qualidades individuais, coletivas, físicas e estratégicas, um jogo de futebol, especialmente uma final de uma Copa do Mundo, se decide na emoção, no transbordamento da alma. Para conviver com a ansiedade de uma final, os atletas costumam criar rituais e superstições. Pensam ainda que as repetições os aproximam das vitórias. É a onipotência do pensamento. Participar de uma final de uma Copa do Mundo é inesquecível, emocionante. No dia da final do Mundial de 1970, acordamos cedo para tomar café juntos. Havia um grande silêncio, todos tensos. De repente, Dario, o Dadá Maravilha, meu reserva, se levantou, olhou para Zagallo e disse com seriedade que sonhara marcar três gols e que garantia fazer o mesmo na partida. Todos deram gargalhadas e houve uma grande descontração.
O texto de Tostão analisa a final entre Argentina e Espanha, destacando o alto nível técnico e emocional das duas seleções. A Argentina é elogiada pela lucidez, precisão nos passes e força coletiva liderada por Lionel Messi, enquanto a Espanha se caracteriza pela posse de bola envolvente e jogo em círculo, com destaque para Rodri e Lamine Yamal. O autor discute possíveis estratégias do confronto — se a Argentina vai competir na posse ou pressionar — e ressalta que ambas ainda podem render mais. Ele também relembra a influência histórica do estilo espanhol, desde Johan Cruyff até Pep Guardiola, além de valorizar os técnicos Luis de la Fuente e Lionel Scaloni. Por fim, Tostão enfatiza que uma final de Copa do Mundo vai além da técnica: é decidida pela emoção, pela tensão e pelos aspectos psicológicos, ilustrando com uma lembrança descontraída da final de 1970.