quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

O QUE SERÁ — À FLOR DA PELE DO PODER

Caricatura, canção e mal-estar institucional Imagens
Imagem 1 — STJ Caricatura de ministro do Superior Tribunal de Justiça. A figura surge isolada, sob uma nuvem carregada, como quem atravessa um inferno astral silencioso. O rosto não expressa culpa nem defesa, mas pressão — um estado febril em que a crise não encontra repouso nem tradução jurídica imediata.
Imagem 2 — STF Caricatura espelhada de Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, sentados lado a lado. Os dois ministros aparecem em vigilância mútua, mais atentos ao peso do poder que compartilham do que ao diálogo explícito. São apontados como resistentes à implantação de um código de conduta, e a imagem traduz essa tensão não em palavras, mas em gestos contidos, sobrancelhas cerradas e silêncio institucional. Legenda comum: Imagem criada • Moraes e Toffoli em caricatura A canção “O Que Será (À Flor da Pele)” — Chico Buarque com participação eterna de Milton Nascimento A canção opera no território do indizível. Não explica, não acusa, não absolve. Nomeia apenas o estado: aquilo que nasce por dentro, sobe ao rosto, perturba o sono e escapa a qualquer tentativa de controle moral, político ou institucional. É o mal-estar que não aceita remédio nem governo. Na voz de Milton Nascimento, esse sentimento ganha dimensão universal. Sua interpretação transforma a canção em experiência corporal e histórica ao mesmo tempo. Não por acaso, ainda nos anos 1980, um aluno peruano, em um cursinho na Avenida Oxford, em Londres, respondeu sem hesitar à provocação do professor: Milton era, para ele, o maior cantor do mundo. Não como idolatria, mas como reconhecimento intuitivo de uma voz que ultrapassa fronteiras, estilos e épocas. Diálogo entre imagem e música As caricaturas e a canção se encontram no mesmo ponto de tensão: o instante em que a forma já não contém o conteúdo. No ministro do STJ, o inferno é solitário — um embate entre biografia, cargo e exposição pública. Nos ministros do STF, o inferno é compartilhado e estrutural — nasce da fricção entre poder e limite, entre permanência e regra, entre autonomia e controle. Assim como na canção, não se trata de um conflito que possa ser resolvido por mandamentos, ritos ou fórmulas técnicas. O que emerge é um estado — algo que aperta o peito, trai o olhar e se manifesta no corpo antes de se tornar discurso. A caricatura, como a música, não sentencia. Ela suspende. Congela o momento em que o poder se revela humano, vulnerável e tensionado, à flor da pele. Referências 🎵 Ouça a canção no YouTube: https://youtu.be/lkRe-6evscY 📝 Letra da música (fonte externa): https://www.letras.mus.br/chico-buarque/1217237/ Fecho Entre o traço e a voz, entre o jornal e a canção, constrói-se um campo sensível onde o poder deixa de ser abstração e passa a ser experiência. As caricaturas fixam o instante; a música o atravessa no tempo. É nesse intervalo — onde não há repouso, nem disfarce possível — que a arte atua: revelando aquilo que não tem medida, não tem descanso e não aceita silêncio. S

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Artigo: Zeitgeist, o espírito do tempo

Pai contra Mãe de Machado de Assis no YouTube (que está no domínio público ou publicado livremente pelos criadores): Áudiobook PAI CONTRA MÃE de Machado de Assis por Miriam Bevilacqua Não há, em “Pai contra Mãe”, uma “réplica” literal ou direta no sentido de um embate entre magistrados e cidadãos comuns. Ainda assim, o conto de Machado de Assis explora uma dinâmica de poder que pode ser interpretada como o conflito entre aqueles que detêm ou executam a lei e aqueles que sofrem suas consequências. A narrativa evidencia como as instituições jurídicas da escravidão legitimavam a desumanização. O protagonista, Cândido Neves, atua como um agente executor dessa ordem social ao capturar escravizados fugidos, um ofício visto como “nobre” justamente por se alinhar à legalidade vigente. O conflito central do conto, sugerido pelo título, dá-se entre Cândido (o pai) e Arminda (a mãe): ele a captura para obter a recompensa que lhe permitirá evitar o abandono do próprio filho na roda dos enjeitados. Trata-se, portanto, de um choque entre misérias, em que indivíduos igualmente marginalizados são colocados em oposição. Machado desloca o foco dos grandes senhores ou magistrados — figuras quase ausentes — para mostrar como a estrutura legal força os pobres a oprimirem outros pobres como estratégia de sobrevivência. Assim, a obra questiona a noção de justiça de uma lei que sustentava a escravidão, revelando que a magistratura e o sistema jurídico da época garantiam a manutenção da propriedade humana, mesmo à custa da violência e da negação da dignidade. S quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026 A questão moral, por Marcelo Godoy
Quando a crise afeta políticos de todos os lados e magistrados, o que precisa mudar não são as pessoas O Estado de S. Paulo Era 28 de outubro de 1980 quando o general Raffaele Giudice chegou preso ao cárcere de Casale Monferrato. Ex-comandante da Guardia di Finanza, a polícia fazendária italiana, ele era um dos acusados da “rapina do século”, o escândalo de corrupção e fraude petrolífera que, segundo os cálculos do procurador Domenico Labozzetta, movimentara o equivalente a ¤ 1,2 bilhão. A quantidade de políticos, empresários e a ligação deles com magistrados fizeram com que o jurista Stefano Rodotà escrevesse: “Quando o fenômeno se alarga até envolver os chefes da Finança, de grandes escritórios de advocacia, os serviços secretos, políticos de primeiro plano e seus colaboradores, é indispensável não se deter nas pessoas e olhar, em vez disso, para o sistema que tornou possível seus empreendimentos criminosos.” É a isto que o Brasil está assistindo no escândalo do Banco Master. Quando um empresa criminosa conta com uma bancada no Congresso que busca mudar leis para anular investigações é porque a ousadia não se detém diante da luz do dia. A reportagem do Estadão que mostrou essa bancada deve servir de guia ao eleitor para punir todo político que teve o nome envolvido nas manobras que buscavam esconder a rapina do século, que ameaça pôr o petrolão no chinelo. Este não é um escândalo de esquerda ou de direita. Ele é de todos, mas, principalmente, da turma que usa a direita e a esquerda como biombo para se apossar de recursos públicos, seja qual for o presidente. É aqui que renasce a Questão Moral, tão bem definida por Rodotà. E é nesse contexto que o Instituto Ética e Democracia lançou o manifesto Fortalecer o diálogo para aprofundar a democracia. O documento diz o óbvio nessas horas: não pode haver democracia sem boas instituições, cidadãos politicamente educados e diálogo. “A crise da democracia não será superada pela substituição de uma narrativa fechada por outra. Seu enfrentamento necessita de conhecimento qualificado, debates propositivos e uma sociedade civil atuante.” Nossa democracia – diz o documento – está ameaçada por forças autoritárias, pela degradação do debate público e pela substituição da razão por narrativas emocionais. “A política se converteu em espetáculo permanente de antagonismos.” O acerto de contas com um sistema político que surgiu dos escombros da Lava Jato e se valeu da ascensão das redes sociais para estabelecer seu reino de ostentação, desvios e golpes não deve converter o conflito em ódio e a divergência em desumanização do outro, ainda que, como disse Rodotà, seja preciso não lhe dar trégua nessa luta, caso contrário o País verá “surgir outros dez mil escândalos”. A história lhe deu razão.
Quaest: Aprovação do governo Lula cai numericamente pelo 2º mês seguido, a 45% Queda numérica, no entanto, ficou dentro da margem de erro, de dois pontos percentuais Paulo Barros 11/02/2026 14h01 • Atualizado 16 minutos atrás A aprovação do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) oscilou numericamente para baixo pelo segundo mês consecutivo, mostra nova rodada da pesquisa Genial/Quaest divulgada nesta quarta-feira (11). Segundo o levantamento, 45% dos entrevistados afirmam aprovar a gestão do petista, ante 47% em janeiro e 48% em dezembro. Já os que dizem desaprovar são os mesmos 49% do mês passado. Em dezembro eram 50%. Outros 6% não souberam ou não quiseram opinar. Apesar disso, a variação no último mês ficou dentro da margem de erro da pesquisa, de dois pontos percentuais.
(Fonte: Pesquisa Genial/Quaest) O levantamento também avaliou a percepção geral sobre a administração federal. Para 39% dos entrevistados, o governo Lula é considerado negativo, mesmo número do mês anterior. Já a avaliação positiva oscilou um ponto percentual para cima, a 33%. O instituto também voltou a questionar o eleitor sobre o medo da permanência de Lula por mais um mandato, e da volta da família Bolsonaro ao poder. O percentual que teme mais Lula oscilou um ponto para cima, a 41%, enquanto os que têm maior receio dos Bolsonaro recuou também dentro da margem de erro, de 46% para 44%. O levantamento ouviu 2.004 pessoas em entrevistas presenciais realizadas entre os dias 5 e 9 de fevereiro. A margem de erro é de dois pontos percentuais, com nível de confiança de 95%. A pesquisa está registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-00249/2026. Tópicos relacionados Política aprovação Eleições 2026 Hard News Luiz Inácio Lula da Silva Pesquisa Quaest Paulo Barros Jornalista, editor de Hard News no InfoMoney. Escreve principalmente sobre economia e investimentos, além de internacional (correspondente baseado em Lisboa) Conto "Mariana" | Análise Literária - Brasil Escola
O PATRIOTISMO COMO REFÚGIO RETÓRICO E A SIMPLICIDADE COMO VIRTUDE DEMOCRÁTICA 1. Introdução — A crítica necessária “O patriotismo é o último refúgio dos canalhas”, escreveu Samuel Johnson no século XVIII. A frase, frequentemente mal interpretada, não constitui um ataque ao amor genuíno à pátria, mas uma advertência filosófica contra o uso do patriotismo como substituto moral e intelectual quando faltam argumentos, responsabilidade ética e compromisso institucional. Essa advertência revela-se particularmente atual no debate sobre a sociedade norte-americana no período pós-presidencial recente. O contexto analisado insere-se em uma discussão mais ampla sobre se tal governo representou uma ruptura definitiva da ordem democrática ou, antes, um desvio histórico passível de correção. A hipótese central aqui adotada é a segunda: crises políticas intensas tendem a gerar ruído, mas não anulam, necessariamente, estruturas democráticas consolidadas. 2. O patriotismo quando a bandeira substitui o argumento Em contextos de crise, o discurso patriótico tende a ser instrumentalizado. A complexidade dos problemas sociais, econômicos e institucionais é reduzida a slogans, símbolos e apelos emocionais. O que deveria ser objeto de análise transforma-se em objeto de devoção. Nesse cenário, o patriotismo deixa de operar como valor cívico e passa a funcionar como escudo retórico: quem questiona é acusado de traição; quem simplifica excessivamente é celebrado. A crítica racional é silenciada em nome de uma unidade artificial, construída mais sobre emoção do que sobre deliberação. É precisamente esse mecanismo que permite compreender por que períodos de intensa polarização produzem narrativas grandiosas, inimigos abstratos e discursos heroicos — todos sinais de uma carência de soluções concretas. 3. A simplicidade como virtude do pensamento político Contra esse ruído, impõe-se uma distinção fundamental: simplicidade não é simplismo. Ao contrário, a simplicidade representa a depuração do pensamento. A navalha de Ockham já advertia que explicações excessivamente complexas frequentemente ocultam confusão, não profundidade. A verdadeira sofisticação intelectual consiste em identificar o essencial, nomear o problema com precisão e resistir à inflação retórica que encobre a realidade. Discursos inflamados raramente são profundos; na maioria das vezes, são compensatórios. Onde há reflexão, há nuance; onde há propaganda, há grito. Essa ética da clareza é central para compreender análises que rejeitam leituras apocalípticas sobre a democracia norte-americana e insistem em uma abordagem histórica e institucional. 4. A restauração democrática como hipótese histórica É nesse ponto que se insere o artigo de opinião “A post-Trump restoration is still possible”, assinado por Gideon Rachman e publicado em fevereiro de 2026 em um veículo de referência internacional. O autor propõe uma leitura de longo prazo da política norte-americana, argumentando que, apesar dos danos causados à confiança institucional e ao debate público, a restauração democrática permanece possível. A fundamentação desse argumento apoia-se na ideia de que democracias consolidadas dispõem de mecanismos institucionais, culturais e sociais capazes de absorver choques sem colapsar. Eleições subsequentes, atuação do Judiciário, imprensa livre e engajamento da sociedade civil operam como instrumentos de correção de rumos. Ao afirmar que a restauração “ainda é possível”, o autor evita determinismos e reconhece que a memória histórica tende a reinterpretar períodos de instabilidade como exceções, e não como mudanças permanentes de trajetória. 5. Conclusão — A ética da clareza e os limites do ruído Conclui-se que tanto a crítica ao patriotismo instrumentalizado quanto a análise institucional do pós-Trump convergem para um mesmo ponto: o excesso de ruído político é sintoma de fragilidade argumentativa, não de força democrática. A democracia não se sustenta por slogans, mas por instituições, procedimentos e pensamento crítico. A restauração, portanto, não é automática nem simples, mas permanece viável justamente porque democracias maduras não dependem de líderes providenciais, e sim de estruturas capazes de corrigir seus próprios desvios. No fim, a simplicidade é, ironicamente, o último grau da sofisticação. Ela exige coragem: a coragem de pensar sem slogans, de discordar sem ódio e de amar uma pátria sem transformá-la em dogma. Entre o ruído patriótico e o silêncio reflexivo, é neste último que o pensamento amadurece e a ética democrática se sustenta. Breve perfil do autor — Gideon Rachman Gideon Rachman é jornalista e analista político britânico, amplamente reconhecido por sua atuação nas áreas de política internacional e geopolítica. Colunista de opinião em um dos mais influentes jornais econômicos e políticos do mundo, destaca-se por análises históricas, comparativas e institucionais sobre democracia, poder global e relações internacionais. Sua formação combina jornalismo, história e ciência política, resultando em textos marcados pela moderação argumentativa, pelo rigor analítico e pela rejeição de posições extremadas. Rachman é considerado uma referência contemporânea no debate sobre o futuro das democracias liberais.
terça-feira, 10 de fevereiro de 2026 Jogo de máscaras. Por Merval Pereira O Globo Lula mantém negociações políticas com partidos do Centrão, e Flávio não se distancia dos radicais bolsonaristas O chamado à guerra feito por Lula para a militância do PT no fim de semana reflete a redução do espaço político de sua candidatura, enquanto o candidato da direita, Flávio Bolsonaro, procura vender uma imagem de moderação que lhe amplie o eleitorado para além do radicalismo bolsonarista. Os dois sofrem alta rejeição justamente pelo receio de que representem o extremismo político que encarnam. O presidente Lula, ainda visto como comunista por boa parte do eleitorado oposicionista, e os Bolsonaro, que custarão a se livrar da pecha de golpista que levou o patriarca à cadeia. Assim como Lula, ao lado da retórica raivosa, mantém negociações políticas com partidos do Centrão, também Flávio não se distancia dos radicais bolsonaristas. Se o candidato fosse o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, não precisaria vender a imagem de moderado, pois foi ela que o inviabilizou como opção da extrema direita bolsonarista, por não confiar em sua fidelidade. Por isso mesmo, a mudança de perfil de Flávio é mais difícil de colar no eleitor moderado de centro que a agressividade do petismo eleitoral de Lula. A prática de governo lulista mostra há muito tempo que a tendência à esquerda de sua política externa não passa de efeito colateral da sua vivência com a esquerda internacional, sem significar que esteja empenhado em implantar um governo autoritário no país. Ao contrário de Bolsonaro, que já pôs em prática uma tentativa de golpe de Estado que levaria o país ao retrocesso de uma ditadura cívico-militar. Lula tem o espírito de negociação do líder sindical e uma flexibilidade ideológica que lhe permite governar com ministros e um vice-presidente que não comungam com suas ideias esquerdistas, mesmo que, no caso de Alckmin, cantem juntos a Internacional Socialista. O critério de nomeação para o Supremo diz muito sobre a flexibilidade ideológica de Lula. Nomeou dois comunistas: Eros Grau e Flávio Dino. Mas indicou também um jurista católico de direita, Carlos Alberto Direito. Na fase atual, em que a confiança vale mais que os méritos jurídicos, escolheu seu advogado pessoal e tenta aprovar o advogado-geral da União, o evangélico Jorge Messias. O que é um obstáculo sério para Lula, e não menor para Flávio, é a corrupção. O ambiente do país no momento é de indignação apartidária com a corrupção institucionalizada. Isso leva o governo incumbente de roldão nas suas negociações atípicas com o Congresso e com o Supremo Tribunal Federal (STF). Quando Lula diz, em seu discurso raivoso para o PT, que “a política apodreceu”, o tom não é de autocrítica, mas deveria ser. Tirar a si próprio, e o PT, de crises de corrupção como mensalão e petrolão, e tentar se distanciar do escândalo do Master, quando ele próprio se deixou usar num esquema de conflito de interesses ao receber o presidente do banco, Daniel Vorcaro, levado pelo ex-ministro Guido Mantega, colocado no conselho do banco a seu pedido, não é plausível. Com o agravante de que Gabriel Galípolo, já indicado por Lula para presidir o BC, esteve presente à reunião sobre uma crise financeira com que teria de lidar. Receber o banqueiro envolvido em denúncias, ao lado do futuro presidente do BC, é uma indicação de proteção presidencial que, se não foi concretizada, como alega Lula, não tem menor importância. O ambiente crítico neste momento não significa, porém, que o bolsonarismo possa tirar proveito completo para melhorar sua posição competitiva. A instabilidade que a família Bolsonaro trouxe ao país com a tentativa de golpe, a defesa posterior da taxação de Trump e o envolvimento de seus integrantes em acusações de corrupção moral e material, não os deixa livres de ataques nesse mesmo flanco. Correio Braziliense postado em 29/07/2022 06:00
(crédito: Caio Gomez) OTÁVIO RÊGO BARROS - General de Divisão da Reserva, ex-chefe do Centro de Comunicação Social do Exército O conceito de Zeitgeist — espírito do tempo — teve origem na intelectualidade alemã. Basicamente se revela quando os atos e omissões da sociedade se ajustam às vagas da opinião que se forma em um determinado momento. As pessoas refletem sobre os acontecimentos anteriores e, quando esses acontecimentos parecem lhes dizer respeito, muitas vezes tentam, consciente ou inconscientemente, projetar e ajustar seu comportamento de modo a atingir ou a evitar um resultado comparável. Em face das disputas eleitorais, estamos refletindo um espírito do tempo que não está encaixado com a realidade nacional e internacional. Naturalmente, a sociedade brasileira passará por solavancos poderosos — choro e ranger de dentes — até a finalização da corrida eleitoral. Os interesses pessoais e grupais já demonstram essa linha de agressividade. Os candidatos mais próximos a tomarem assento no Planalto estão usando uma polaridade exacerbada, que se estabeleceu por ausência de terceiros, para manter o caldeirão de emoções em fervura elevada. Todavia, acreditar que existam condições de golpes armados ou institucionais à semelhança daqueles desencadeados em meados do século passado é observar o cenário com antolhos. Quando um país é parte de uma comunidade ideológica internacional onde a democracia é quase incontestada na sua essência, sendo usada inclusive como muleta a partidos autoritários para chegada ao poder, as chances de esse país subverter os princípios que ela defende são menores. Quando se somam à influência ideológica, as necessidades econômicas, tecnológicas, militares, migratórias, psicossociais, ambientais etc., amalgamadas em interesses geopolíticos históricos de países hegemônicos, praticamente elas desaparecem. Voltando ao Brasil. Discursos de campanha são inspiradoras de seguidores e tentativas de mudança de opinião a indecisos e até a adversários. Podem não ter substância, serem chulos, despreocupados com a realidade do país e até instigarem violência. Podem ser desconcertantes perante outros países, alvo de escárnio interno e não oferecerem soluções a desafios prementes. Mas eles só se transformarão em instrumentos de conturbação social se a sociedade aceitar ser empurrada para o precipício da confrontação. Se as Instituições demonstrarem flacidez em suas respostas corretivas. Se organizações que lidam com a segurança e defesa em nome do Estado abdicarem de seus papéis de ferramenta da estabilidade e legalidade constitucionais. A sociedade, ainda que dividida, não parece querer marchar como gado para o corredor do abate. As instituições, ainda que sofrendo ataques diários, não parecem querer a briga de rua inconsequente. As forças de segurança e defesa, ainda que pressionadas, não parecem querer trilhar um caminho de aventuras como no passado. A imprensa também se faz vigilante, a academia se faz vigilante, o PIB se faz vigilante, a Igreja se faz vigilante, muitos estão vigilantes. A opção de governos militares (temor que se revela em comentários diários em diversos círculos de opinião), perseguida por muitos países no último século, contribuiu para uma profunda revalorização da democracia não apenas como um instrumento tático de poder, mas como um valor espiritual em si. As Forças Armadas brasileiras, seus comandantes e seus quadros acompanharam institucionalmente esse movimento. A guerra fria, como justificativa para agrupamentos de países em torno das duas potências, ficou pelo caminho. Trinta anos após o "fim da história", o que se vê são movimentos mais amplos de reacomodação dos interesses geopolíticos com base em reafirmação de preeminências pretéritas. Estados Unidos, China, União Europeia e Rússia, os hegemônicos, seguidos por potências com interesses regionais como o Japão, a Índia, a Austrália, o Irã, a África do Sul e o próprio Brasil se ajustam ao novo ritmo. O espírito do tempo não parece estar alinhado com fricções que levem a derrubadas ou tomadas de poder semelhantes àquele período bipolar. O comunismo era uma experiência nova que na opinião de muitos mostrava-se altamente promissora. Faliu.O fascismo, com suas manifestações nacionalistas, chegou a ser elogiado pelos Estados Unidos. Faliu. Alguém pode afirmar que um fascismo com cores modernas está se assumindo como contraponto à democracia. Talvez. Mas qual o Zeitgeist para que ele se torne verdadeiramente ameaçador? Dificilmente as lideranças dos países "donos do mundo" gastarão energia para intervir no quintal de outro bloco. Mas certamente estarão dispostas a arcar com o ônus dessa ação se lhes for tentado tirar o espaço de proteção geográfico vital ao seu povo e a seus aliados mais próximos. Portanto, a Sociedade (lato sensu) atenta não será levada ao cadafalso. E as lideranças que buscam a instabilidade em benefício de um projeto patrimonialista, muita atenção. Cada um no seu quadrado. Paz e bem. Saiba Mais Opinião Visão do Correio: Forças Armadas e o respeito à democracia Opinião Artigo: Negro, sim Opinião Artigo: O Peru celebra a vizinhança bicentenária com o Brasil Opinião Artigo: 2022 e 2023. O que teremospela frente Notícias pelo celular Receba direto no celular as notícias mais recentes publicadas pelo Correio Braziliense. É de graça. Clique aqui e participe da comunidade do Correio, uma das inovações lançadas pelo WhatsApp. Dê a sua opinião O Correio tem um espaço na edição impressa para publicar a opinião dos leitores. As mensagens devem ter, no máximo, 10 linhas e incluir nome, endereço e telefone para o e-mail sredat.df@dabr.com.br. Inscreva-se Tags artigo eleições espírito do tempo opinião planalto Zeitgeist
eu, robô Você sabe como reconhecer uma imagem criada por inteligência artificial? Preste atenção às simetrias dos rostos e corpos, possíveis manchas, borrões e detalhes incomuns da imagem 1.abr.2023 - 13:03 São Paulo (SP) Mariana Lemos Moraes e Toffoli estão fazendo 'contorcionismo verbal' para não responder o que está em jogo Rádio CBN 5 de fev. de 2026 Malu Gaspar - Conversa de Bastidor Malu Gaspar repercute os discursos dos ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), nesta quarta-feira (4). 'Por que esses ministros estão fazendo todo esse contorcionismo verbal, desviando o curso da discussão? Porque eles não querem responder o que está de fato em jogo' Visão geral criada por IA O "espírito do tempo" (do alemão Zeitgeist) refere-se ao conjunto de ideias, normas, valores e tendências culturais e intelectuais que caracterizam um determinado período histórico. Ele representa a vibração coletiva, o clima psicológico e as convicções dominantes que moldam o comportamento, a moda, a arte e as crenças de uma época. Principais Aspectos do Zeitgeist: Definição: É a "atmosfera" predominante que influencia como as pessoas veem o mundo e vivem suas vidas em uma era específica, conforme explicado no Universo Retrô. Origem: O termo foi introduzido por pensadores alemães como Johann Gottfried von Herder e explorado por Hegel, destacando a conexão entre a cultura e a arte de cada época. Aplicações: Muito utilizado no marketing, na psicologia e nas artes, ajuda a entender comportamentos coletivos, como a transição da posse para o acesso (economia de compartilhamento) ou o foco atual em saúde mental e inteligência artificial. Marcas e Sociedade: Marcas que compreendem o Zeitgeist e se alinham às mudanças sociais têm maior sucesso, conectando-se com os anseios do público. Dinâmica: Embora represente uma época, o Zeitgeist é mutável, evoluindo à medida que a sociedade se transforma. Entender o espírito do tempo é, portanto, compreender os sinais e as tendências que definem o presente. O termo "espírito do tempo" é a tradução do alemão Zeitgeist, que descreve o clima intelectual e cultural predominante em uma determinada época. O Zeitgeist refere-se ao conjunto de ideias, valores, crenças, atitudes e tendências que caracterizam um período histórico específico e moldam o pensamento e o comportamento das pessoas que vivem nele. Conceito e Significado Origem e Uso: O termo foi popularizado pelo filósofo alemão Georg Hegel, que argumentava que cada forma de arte expressa o Zeitgeist de sua época. Embora Hegel seja frequentemente associado à sua criação, o termo já era utilizado no século XVIII por escritores românticos como Johann Gottfried von Herder. Natureza Abrangente: O Zeitgeist não se limita a uma única área; ele permeia diversos aspectos da sociedade, como moda, música, literatura, filmes, tecnologia, movimentos sociais e até mesmo estratégias de negócios. Influência e Identificação: Identificar o espírito do tempo envolve observar padrões culturais específicos. As marcas e indivíduos que compreendem e se alinham ao Zeitgeist conseguem se manter relevantes e estabelecer conexões mais duradouras com o público. Exemplos na Cultura e História Arte e Arquitetura: Ao longo do século XX, a arte e a arquitetura foram vistas como transmissoras do "espírito da época", refletindo os valores e as inovações tecnológicas de cada período. Moda: A moda é considerada uma materialização visível do Zeitgeist em vestuário e movimentos estéticos, capturando as atitudes e humores de uma era. Psicologia: Na psicologia, o termo é usado para descrever o "clima psicológico" de uma geração, o conjunto de normas sociais e tendências culturais que influenciam a mentalidade coletiva. Em resumo, o Zeitgeist é a essência cultural e intelectual que define uma era, uma força coletiva invisível que direciona a sociedade em determinado momento. Senador Alessandro na BandNews TV: requerimento de convocação da esposa de Moraes - 5/2/2026 Senador Alessandro Vieira 9 de fev. de 2026 Nesta entrevista, o senador Alessandro Vieira, relator da CPI do Crime Organizado, explica os motivos que o fizeram protocolar requerimentos solicitando a convocação da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, além do levantamento dos registros telefônicos, bancários e fiscais da advogada. Alessandro também comenta sobre a necessidade de postura ética por parte dos membros do STF e rebate declarações do ministro Dias Toffoli. Por fim, ele explana sobre a criação de um Grupo de Trabalho no Senado para auxiliar nas investigações referentes ao Banco Master. Alessandro é um dos integrantes do GT.
Meu mounjaro, minha vida | Meio-Dia em Brasília - 10/02/2026 terça-feira, 10 de fevereiro de 2026 Oposição flerta com o abismo. Por Dora Kramer Folha de S. Paulo Se não abrir o olho e ficar esperta, direita pode acabar perdendo uma eleição praticamente ganha em São Paulo Lula canta vitória na retórica, mas trabalha consciente de que há dificuldades a superar na batalha eleitoral Se a direita não ficar esperta, se insistir em confrontar o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), pode acabar perdendo uma eleição praticamente ganha em São Paulo. Esse flerte com o abismo geralmente assola quem sobe no salto antes do tempo. É dessa altura traiçoeira que o PL e Jair & filhos parecem enxergar a cena eleitoral em alguns territórios que consideram dominados. Em Santa Catarina, o partido rifa a candidatura ao Senado da deputada Caroline de Toni —ultradireitista, bolsonarista de todos os costados disponíveis— para apostar num Carlos Bolsonaro importado do Rio de Janeiro e, com isso, produzir um racha na direita local. Em São Paulo, há ameaças de lançamentos de nomes ao governo do estado para competir com Tarcísio no mesmo campo. A briga entra pela indicação de candidatos a vice e ao Senado mais identificados com o bolsonarismo, contrariando a lógica da aliança de políticos da centro-direita para ampliar o escopo de atração do eleitorado. Enquanto a oposição desorganiza o próprio terreiro, o presidente Luiz Inácio da Silva (PT) mostra que não está para brincadeiras. Entra em campo pintado para a guerra. E com a vantagem de reconhecer as desvantagens. No palanque, Lula canta vitória na retórica, mas na prática atua com consciência das dificuldades. Soou claríssima a convocatória pública para Geraldo Alckmin (PSB) e Fernando Haddad (PT) cumprirem "papel importante" em São Paulo. Está ainda obscura, mas evidentemente em curso, qual a jogada que o presidente fará para compor a chapa à reeleição. O impacto da aliança com Alckmin em 2022 passou. Precisará de outro lance igualmente impactante para afastar os oponentes da direita dos calcanhares. Na boca de cena desenha-se a cooptação do MDB. No bastidor, no entanto, é que se rabisca o roteiro dos próximos capítulos. Neles, não é prudente descartar o papel de protagonista engajado que venha a desempenhar Gilberto Kassab com um capital de três pretendentes à Presidência no PSD. O Antagonista Transmissão iniciada há 29 minutos Meio-Dia em Brasília | 2026 Meio-Dia em Brasília traz as principais notícias e análises da política nacional direto de Brasília. Com apresentação de José Inácio Pilar e Wilson Lima, o programa aborda os temas mais quentes do cenário político e econômico do Brasil. Com um olhar atento sobre política, notícias e economia, mantém o público bem informado.
terça-feira, 10 de fevereiro de 2026 O fim da escala 6 por 1, a “economia do afeto” e a reeleição de Lula. Por Luiz Carlos Azedo Correio Braziliense Governo e partidos da base do presidente Lula já disseram ser favoráveis a uma redução da jornada de trabalho, mas dificilmente a jornada de 4 x 3 será aprovada O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), anunciou, ontem, o envio da Proposta de Emenda da Constituição (PEC) que põe fim à escala 6 x 1 para a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). Admitida a constitucionalidade, será formada uma comissão especial para ouvir economistas, empregados e patrões para se chegar a uma mudança “com equilíbrio e responsabilidade”. “O mundo avançou, principalmente na área tecnológica, e o Brasil não pode ficar para trás”, disse Motta, que aglutinou os projetos da deputada Erika Hilton (PSol-SP), que acaba com a escala 6 x 1, e um texto apresentado pelo deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), sobre o mesmo assunto. A redução da jornada de trabalho é música aos ouvidos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que aposta na “economia do afeto” — a essencia do lulismo, na feliz expressão do historiador Alberto Aggio– para se reeleger. Lula já se beneficia dos programas de transferência de renda, como Bolsa Família e Vale Gás, e dos aumentos de salário real, da queda da taxa de emprego e da isenção do pagamento de Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil. O fim da jornada de 6 x 1 possibilitará a mobilização dos trabalhadores via sindicatos, depois do fracasso do governo ao discutir propostas de regulamentação do trabalho por aplicativos, que enfrentou forte rejeição dos interessados. De certa forma, essa redução será associada à ampliação da possibilidade de trabalho via aplicativos e, também, de empreendedorismo, com o aumento das horas vagas. No Brasil, a questão do trabalho tem um sentido especial. Muitas vezes foi tratada como caso de polícia. A escravidão, com sua violência estrutural, impregnou a estrutura social de tal forma que as relações de trabalho se mantiveram como conflito, mesmo depois da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), a grande herança da Era Vargas. Daí decorre o desrespeito, os assédios sexual e moral, a redução dos direitos sociais, o trabalho sem carteira assinada e as jornadas excessivas sem pagamento das respectivas horas extras, as diferenças salariais entre homens e mulheres e em relação aos negros e pardos. Não passamos pela construção de uma “ética do trabalho”. Max Weber, em A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo (Companhia das Letras), destaca o trabalho árduo, racional e disciplinado como “vocação”, impulsionado pela ética calvinista, que transformou o acúmulo de riqueza fruto do trabalho em sinal de salvação. Aqui, trabalho árduo, racional e disciplinado veio acompanhado dos grilhões e, depois, acompanhado, na maioria das vezes, de uma péssima remuneração. O trabalho intelectual é tão desvalorizado quanto o manual. A categoria dos professores, cujo trabalho é considerado “vocação”, é um bom exemplo. Como o “chão de fábrica” como locus do trabalho produtivo é cada vez mais minoritário, o fim da jornada 6 x 1 beneficiará diretamente os trabalhadores desses e de outros setores que ainda são obrigados a marcar o relógio de ponto. Tendência mundial A iniciativa nasceu do Movimento Vida Além do Trabalho (VAT), que ganhou força nas redes e somou 1,5 milhão de assinaturas em um abaixo-assinado que pede à Câmara dos Deputados a revisão da escala 6 x 1. A proposta de Erika Hilton prevê estabelecer que a jornada de trabalho normal não poderá ser superior a oito horas diárias; não poderá ultrapassar 36 horas semanais; e será de quatro dias por semana. Segundo o texto, as mudanças entrariam em vigor depois de 360 dias da eventual promulgação da PEC. De acordo com a legislação vigente, a jornada-padrão é de oito horas diárias, somando 44 horas semanais, e um dia de folga por semana, preferencialmente aos domingos. Se o trabalhador ultrapassar essa jornada, a CLT garante que receba adicional de 50% sobre a hora extra (e 100% em domingos e feriados, se aplicável). Nada impede uma empresa no Brasil que encurte a jornada de trabalho para apenas quatro dias por semana. Mas uma mudança geral exigiria emenda constitucional aprovada pelo Congresso, onde a correlação de forças é desfavorável à mudança dessa ordem. O governo e partidos da base de Lula já disseram ser favoráveis a uma redução, mas dificilmente a jornada de 4 x 3 será aprovada. O mais provável é que se aprove a jornada 5 x 2, que já ocorre em muitos setores — ou 4,5 x 3,5 se houver um avanço maior. A gradativa redução da jornada de trabalho nasceu nos Estados Unidos. Em meados do século XIX, trabalhar mais de 70 horas por semana era comum. Eram jornadas de 12 horas, seis dias por semana. Em 1926, a Ford Motor Company, sob a liderança de Henry Ford, instituiu uma semana de trabalho de oito horas por dia e cinco dias por semana. Hoje, o Brasil ocupa a 29ª posição no ranking global (OCDE) de carga horária, com uma jornada padrão de oito horas diárias e 44 horas semanais. Entre os países com as menores jornadas de trabalho estão a Alemanha, com uma carga média de 26,3 horas semanais; a Dinamarca, 27,3 horas; a Noruega, 27,5 horas; a França, 30 horas; e a Itália, com média de 35,6 horas semanais. Jornadas reduzidas resultam em melhor saúde mental, maior qualidade de vida e maior eficiência no ambiente de trabalho.
Trabalho, tempo e política: a escala 6x1 entre afeto, economia e exaustão Introdução O debate sobre o fim da escala de trabalho 6x1 no Brasil ultrapassa a esfera técnica da legislação trabalhista. Ele revela uma disputa mais profunda sobre o sentido do trabalho, o controle do tempo e o papel do Estado na mediação entre capital e sociedade. A Proposta de Emenda à Constituição que propõe a redução da jornada emerge, simultaneamente, como resposta a demandas legítimas por qualidade de vida e como instrumento político inserido na lógica da “economia do afeto” associada ao lulismo. Para compreendê-la plenamente, é necessário articular três planos: a estratégia política contemporânea, a racionalidade econômica institucionalista e a dimensão histórica e quase antropológica do trabalho exaustivo, magistralmente retratada por Émile Zola em Germinal. Tese: a redução da jornada como avanço civilizatório e recomposição do humano A defesa do fim da escala 6x1 se sustenta, прежде de tudo, em um argumento civilizatório. Jornadas excessivas não produzem apenas cansaço físico, mas corroem o tempo social necessário à vida familiar, ao estudo, ao descanso e à participação cívica. O trabalhador submetido a seis dias consecutivos de trabalho não dispõe de tempo suficiente para recompor-se subjetivamente. Nesse sentido, a redução da jornada aparece como: política de saúde mental, mecanismo de valorização do trabalho humano, e tentativa de corrigir uma herança histórica marcada pela escravidão e pela naturalização da exploração. O argumento encontra respaldo em experiências internacionais e em evidências de que jornadas mais curtas tendem a elevar a produtividade, reduzir afastamentos por adoecimento e melhorar o clima organizacional. No Brasil, onde a ética do trabalho nunca se desvinculou plenamente da coerção e da baixa remuneração, a medida simbolizaria uma ruptura com a lógica segundo a qual o valor do trabalhador se mede pelo tempo de submissão ao relógio. Contra-tese: o risco econômico e a abstração legal O contraponto institucionalista, representado por analistas como José Pastore, alerta para os limites dessa abordagem quando transposta de forma uniforme para um mercado de trabalho profundamente desigual. O Brasil não dispõe de um tecido produtivo homogêneo capaz de absorver, sem impactos, uma redução drástica e compulsória da jornada. Do ponto de vista econômico: pequenas e médias empresas, sobretudo no setor de serviços, dependem da escala 6x1 para sobreviver; o aumento de custos pode gerar informalização, rotatividade ou redução de postos de trabalho; a rigidez legal pode proteger quem já está protegido e excluir os mais vulneráveis. Além disso, há um risco político subjacente: a transformação da política trabalhista em instrumento de mobilização afetiva, mais voltado à construção de lealdade eleitoral do que à reorganização estrutural das relações de produção. Nesse cenário, o tempo “liberado” pode não se converter em autonomia, mas em novas formas de precarização, como o trabalho por aplicativos ou o empreendedorismo forçado. Síntese crítica: Zola e o trabalho como destino É nesse ponto que a leitura de Germinal oferece uma chave interpretativa decisiva. Zola não descreve apenas a pobreza dos mineiros, mas a forma como o trabalho totaliza a existência humana. O meio — a mina — molda corpos, hábitos e expectativas, reduzindo o indivíduo à sua função produtiva. A escala 6x1, embora distante das jornadas brutais do século XIX, reproduz um princípio semelhante: o trabalho ocupa quase todo o tempo vital, deixando ao descanso apenas a função de restaurar a força de trabalho. O determinismo naturalista de Zola, hoje, não se manifesta pela fome, mas pelo esgotamento crônico, pelo burnout e pela dissolução da fronteira entre vida e trabalho. Assim, a redução da jornada só se tornará emancipatória se romper com essa lógica totalizante — e não se limitar a redistribuir o tempo de exaustão. Conclusão O debate sobre o fim da escala 6x1 não pode ser reduzido a uma disputa entre progresso social e viabilidade econômica. Ele revela uma tensão estrutural entre três projetos: o político, que busca reconstruir laços afetivos entre Estado e trabalhador; o econômico, que exige flexibilidade e sustentabilidade; e o humano, que reivindica tempo para existir para além do trabalho. Sem uma transformação mais profunda da organização produtiva e das formas de inserção no mercado, a redução da jornada corre o risco de ser apenas um gesto simbólico — potente eleitoralmente, mas limitado socialmente. O desafio brasileiro não é apenas trabalhar menos, mas redefinir o lugar do trabalho na vida, para que ele deixe de ser destino e volte a ser meio. Nesse sentido, a pergunta que permanece não é quantos dias se trabalha por semana, mas quem controla o tempo e para quê.
O beijo da Natália, por Alfredo Maciel da Silveira É de um grande quadro brasileiro, Sergio Augusto de Moraes, ex-membro do Comitê Central do PCB, frase que sempre repito, e com a qual aqui encerro: __ “Que falta faz o Partidão!”

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

PRAXIS

Há vinte anos: Império do Divino "Lá em Vila Isabel, quem é bacharel Não tem medo de bamba São Paulo dá café, Minas dá leite E a Vila Isabel dá samba"
João Cardoso, campeão de samba 1954 Em ritmo de Carnaval, conheça o mago das sandálias que calça musas há 40 anos | LIVE CNN CNN Brasil 6 de fev. de 2026 #CNNBrasil Em ritmo de Carnaval, conheça a história do mago das sandálias, o homem que veste os pés das musas e rainhas dos desfiles do Rio de Janeiro há 40 anos. Suas criações são feitas de forma artesanal. Conheça a trajetória do sapateiro. #CNNBrasil MEMÓRIA DO SAMBA DE JUIZ DE FORA (237) - Homenagem ao Samba, de João Cardoso Márcio Gomes Batuqueiro Choro e Samba Estreou em 17 de nov. de 2024 JUIZ DE FORA João Cardoso nasceu em Juiz de Fora no dia 30 de janeiro de 1910 e atuou intensamente como compositor e alegorista em escolas de samba de Juiz de Fora, como a Unidos do Mariano, Turunas do Riachuelo e Feliz Lembrança. Foi vencedor de um concurso promovido em 1954 pelo programa "Em Primeira Audição", da Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Cardoso faleceu em 24 de outubro de 1957. No vídeo, Roger Resende (voz e cavaquinho), Armando Junior (violão sete cordas) e Márcio Gomes (pandeiro) interpretam Homenagem ao Samba, de autoria de João Cardoso. "Lá em Minas das Geraes, quem é compositor Não tem medo de bamba São Paulo dá café, Minas deleite E a Vila Isabel dá samba" MEMÓRIA DO SAMBA DE JUIZ DE FORA (344) Felicidade num Barraco, samba de João Cardoso e Roger Resende Márcio Gomes Batuqueiro Choro e Samba Estreou em 3 de fev. de 2026 "João Cardoso nasceu em Juiz de Fora no dia 30 de janeiro de 1910 e atuou intensamente como compositor e alegorista em escolas de samba de Juiz de Fora, como a Unidos do Mariano, Turunas do Riachuelo e Feliz Lembrança; foi vencedor de um concurso promovido em 1954 pelo programa "Em Primeira Audição", da Rádio Nacional do Rio de Janeiro; foi líder comunitário atuante e é nome de rua no bairro Centenário; faleceu em 24 de outubro de 1957. Cardoso compôs, em 1954, o samba intitulado Felicidade num Barraco, sendo que tínhamos a letra completa, mas a melodia apenas da primeira parte. Sendo assim, Roger Resende botou melodia nos versos da segunda parte e a música é aqui apresentada por ele, cantando e tocando violão." Práxis, Instituições e Cinismo Político
Entre o interrogatório de Bolsonaro, a crise das cortes e a distância entre discurso e prática Abertura (lead editorial) O interrogatório do ex-presidente Jair Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal, os debates sobre impeachment e autocontenção judicial, e a recorrente contradição entre discurso político e prática concreta revelam um mesmo fenômeno estrutural: a erosão da confiança institucional e o avanço do cinismo cívico. Em diferentes registros — jurídico, histórico e conceitual —, o Brasil e outras democracias enfrentam o desafio de preservar a legitimidade das instituições quando a práxis política se distancia da responsabilidade pública. 1. STF interroga Jair Bolsonaro por tentativa de golpe Brasília — O ex-presidente da República Jair Bolsonaro foi interrogado na tarde desta terça-feira (10) no Supremo Tribunal Federal (STF). Réu na Ação Penal (AP) 2668, que apura a tentativa de golpe de Estado entre 2022 e 2023, Bolsonaro foi o sexto dos oito integrantes do chamado Núcleo 1 a prestar depoimento. O interrogatório foi conduzido pelo relator do processo, ministro Alexandre de Moraes, com participação do ministro Luiz Fux e do procurador-geral da República, Paulo Gonet, responsável pela acusação. O ex-presidente esteve acompanhado de seus advogados, Celso Vilardi e Paulo Cunha Bueno. 🔗 Veja a íntegra do interrogatório (Link para o STF / vídeo incorporado) 2. Análise — Impeachment e renúncia de juízes Por Marcus André Melo Folha de S. Paulo Quando a corrupção alcança as instituições contramajoritárias, a solução via eleições deixa de ser opção. As menções a impeachments e renúncias de juízes de supremas cortes têm se multiplicado — e não sem razão. Embora incomuns, esses episódios revelam padrões de degradação institucional associados a comportamentos desviantes no topo do sistema político. Dois casos contrastantes, na Argentina e no Chile, ilustram tanto a espiral de deterioração quanto a possibilidade de respostas institucionais virtuosas. Argentina: a espiral populista Na Argentina, intervenções no Judiciário têm longa tradição. No ciclo democrático iniciado em 1983, o episódio mais marcante ocorreu no governo Carlos Menem (1989–1999), que ampliou o número de ministros da Suprema Corte para garantir maioria política. A captura institucional desencadeou uma sequência de reações: sob Néstor e Cristina Kirchner, vieram escrachos, denúncias e destituições, aprofundando a instabilidade. O resultado foi uma espiral autodestrutiva, marcada por perseguições políticas e reformas extremadas. Chile: autocorreção institucional No Chile, em contraste, episódios de corrupção judicial levaram a respostas rápidas e internas. Juízes foram destituídos pela própria corte antes da conclusão de processos parlamentares, preservando a legitimidade institucional. O desenho institucional explica parte da diferença: enquanto países como Chile, Alemanha e Canadá permitem destituições internas, Brasil, Estados Unidos e Argentina dependem exclusivamente do impeachment parlamentar. O alerta para o Brasil A situação brasileira é grave. Quando a autocontenção se revela ilusória, sobram escracho, anomia social e cinismo cívico — uma corrosão silenciosa da democracia. 3. Conceito-chave — O que é práxis? A palavra práxis tem origem no grego antigo πρᾶξις (prâxis), significando ação, atividade ou conduta. Deriva do verbo prássein, “fazer” ou “agir”. Da filosofia clássica ao pensamento crítico Aristóteles distinguiu: theoria (pensamento), poiesis (produção), praxis (ação ética e política). No marxismo e em Paulo Freire, práxis passa a significar a unidade dialética entre teoria e prática, orientada à transformação da realidade. Práxis × Praxe Práxis: ação refletida, consciente, transformadora. Praxe: costume, rotina, repetição acrítica. “Certos práticos, sem alcançar a acrópole da práxis, retornam ao chão de fábrica com práticas meramente praxeístas.” 4. Discurso e contradição política A distância entre discurso e prática reaparece de forma recorrente na política contemporânea. “Na teoria do palanque, diz que não aceita burguês. Na prática, esconde reunião com banqueiro envolvido em escândalo.” (Vídeo publicado em rede social, fevereiro de 2026) A contradição não é apenas moral, mas estrutural: discursos de pureza política convivem com práticas opacas, corroendo a confiança pública. 5. Práxis operária e anti-intelectualismo “Se eu fosse científico não seria operário, ia ser intelectual.” — frase atribuída a discurso político recente A afirmação sintetiza um paradoxo central: a recusa da reflexão como se ela fosse antagônica à experiência do trabalho. O resultado é uma práxis empobrecida, que rejeita a ciência enquanto depende dela, e deslegitima o pensamento crítico em nome de uma autenticidade retórica. 6. Panorama internacional Eleições em Aragão (Espanha) O Partido Popular (PP) venceu, mas perdeu força; o Vox dobrou seus assentos; e o PSOE sofreu queda expressiva, tornando necessárias alianças para a formação de governo. O resultado reforça a fragmentação política e a dificuldade de governabilidade em democracias europeias. Conclusão Do STF às cortes estrangeiras, do conceito de práxis às contradições do palanque, emerge um mesmo dilema: sem coerência entre discurso, prática e instituições, a política degenera em cinismo. A defesa da democracia exige não apenas eleições, mas responsabilidade institucional, reflexão crítica e ação consciente. 📌 O
O ex-presidente da República Jair Bolsonaro foi interrogado na tarde desta terça-feira (10), no Supremo Tribunal Federal (STF). Réu na Ação Penal (AP) 2668, que apura a tentativa de golpe de Estado entre 2022 e 2023, Bolsonaro foi o sexto dos oito integrantes do chamado Núcleo 1 a ser ouvido. Ele respondeu às perguntas do relator do processo, ministro Alexandre de Moraes, do ministro Luiz Fux e do procurador-geral da República, Paulo Gonet, responsável pela acusação. Durante o interrogatório, o ex-presidente estava acompanhado dos advogados Celso Vilardi e Paulo Cunha Bueno. Assista à íntegra do interrogatório: Veja a íntegra do interrogatório do ex-presidente da República Jair Bolsonaro na AP 2668 Ele respondeu às perguntas do relator do processo, ministro Alexandre de Moraes, do ministro Luiz Fux e do procurador-geral da República, Paulo Gonet 10/06/2025 19:23 - Atualizado há 8 meses atrás
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026 Impeachment e renúncia de juízes. Por Marcus André Melo Folha de S. Paulo Quando a corrupção alcança as instituições contramajoritárias, a solução via eleições deixa de ser opção Quando a autocontenção é mera retórica, sobram escracho, anomia e o cinismo cívico As menções a impeachments e renúncias de juízes de supremas cortes dispararam —e com razão. Tais eventos são incomuns, mas dois casos contrastantes, na Argentina e no Chile, revelam como se forma uma espiral de degradação institucional associada a comportamentos desviantes no topo do sistema. Ao mesmo tempo, oferecem um contrafactual: a possibilidade de uma resposta institucional virtuosa. Líderes populistas tendem a atacar ou manipular instituições autônomas da República, como cortes superiores e bancos centrais. A Argentina possui longa tradição de intervenções no Judiciário, mas, no ciclo democrático iniciado em 1983, a primeira manifestação relevante ocorreu no governo Carlos Menem (1989-1999). Menem justificou sua intervenção candidamente: "Por que eu vou ser o único presidente da Argentina a não ter a sua própria corte?" Em seguida, aumentou o número de ministros de cinco para nove, o que lhe permitiu nomear quatro novos magistrados, dentre parceiros e copartidários desqualificados. A reputação da corte entrou em parafuso. Quando outro peronista, Néstor Kirchner, chegou ao poder, acusou o tribunal de estar acovardado e politicamente capturado e decidiu destituir os nomeados por Menem. No Senado, o assalto institucional foi liderado por Cristina Kirchner. Paralelamente, a militância peronista organizou numerosos escrachos, inclusive diante das residências dos juízes. As pressões políticas e denúncias de corrupção levaram à renúncia de dois magistrados e à abertura de processos de impeachment contra outros dois. Um deles também renunciou; o outro, Moliné O'Connor, resistiu e acabou impedido. O episódio argentino ilustra como a degradação institucional iniciada por Menem produziu uma contrarreação populista sob os Kirchners, gerando uma espiral autodestrutiva marcada por escrachos violentos, perseguições e reformas extremadas. A pergunta inevitável é: O que garante que dinâmica semelhante não possa ocorrer no Brasil? No Chile, há dois casos instrutivos: um juiz foi impedido por fornecer informação privilegiada à filha em um litígio imobiliário sob sua relatoria, e uma juíza foi destituída pela própria corte por tráfico de influência na instituição e conluio com um advogado. O Congresso deflagrou um processo de impeachment, mas a corte, percebendo a ameaça à sua reputação e integridade institucional, destituiu a magistrada antes mesmo da conclusão do processo, que acabou resultando apenas na sanção adicional de proibição de exercício de funções públicas. O desenho institucional facilitou essa resposta: no Chile, na Alemanha e no Canadá, juízes das supremas cortes podem ser destituídos tanto pelo Parlamento quanto pela própria corte. Na Itália, França e Espanha, o controle é predominantemente interno. No Brasil, nos Estados Unidos e na Argentina, a destituição ocorre exclusivamente via impeachment. A nossa situação é gravíssima. Ao fim e ao cabo, o que irá importar é a força da reação social à espiral de degradação institucional. Quando a corrupção alcança as instituições contramajoritárias, a solução via eleições deixa de ser opção, como mostrei aqui. Quando a autocontenção é ilusória, sobram escracho, a anomia social e o cinismo cívico avassalador. A palavra práxis tem origem no grego antigo πρᾶξις (prâxis), que significa literalmente "ação", "atividade", "prática" ou "conduta". Deriva do radical do verbo grego prássein ou práttein, que se traduz como "fazer", "atuar" ou "negociar". Evolução e Contextos Filosofia Antiga: Aristóteles consagrou o termo para designar ações que têm um fim em si mesmas (como ver ou julgar), diferenciando-as da poiesis (produção de algo externo) e da theoria (pensamento puro). Uso Moderno: Na filosofia marxista e na pedagogia de Paulo Freire, o termo evoluiu para representar a união dialética entre teoria e prática, onde a reflexão informa a ação transformadora sobre a realidade. Diferença entre Práxis e Praxe: Embora compartilhem a mesma raiz, em português "praxe" refere-se habitualmente a costumes e rotinas, enquanto "práxis" mantém uma conotação mais filosófica ou técnica. Você gostaria de explorar como a práxis é aplicada especificamente na educação ou na política? “Certos práticos sem alcançar a acrópole da práxis de praxe retornam ao chão de fábrica com sua práxis ‘praxeistas’.” A palavra práxis tem origem no grego antigo prâxis (πρᾶξις), significando "ação", "atividade", "prática" ou "execução". Deriva do verbo prássein (πράσσειν), que significa "fazer", "agir" ou "praticar". Na filosofia, refere-se à união dialética entre teoria e ação prática, indo além da simples execução. Origens e Significados: Raiz Grega: Originada em πρᾶξις (praxis), refere-se ao ato de realizar algo, muitas vezes associado à ação de pessoas livres. Aristóteles: O filósofo distinguia três atividades básicas: theoria (pensamento), poiesis (criação) e praxis (ação/prática). Na sua filosofia, a práxis refere-se a atividades éticas, políticas e econômicas, muitas vezes vistas como "boa práxis" (eupraxia). Evolução e Uso: Filosofia: A prática aliada à reflexão teórica. Marxismo: Ação concreta que visa a transformação social e o "fazer" consciente. Uso Geral: Significa o modo de proceder, a prática habitual ou a aplicação de uma teoria. Distinções: Práxis vs. Praxe: Ambos vêm da mesma raiz, mas práxis (com acento e pronúncia em "i") refere-se à ação/filosofia, enquanto praxe (pronúncia como 'lixo') refere-se ao costume, hábito ou rotina (ex: praxe acadêmica). Praxia: Termo relacionado, usado frequentemente na medicina para indicar a coordenação Na teoria do palanque, diz que não aceita burguês. Na prática, esconde reunião com banqueiro envolvido em um master escândalo. 0:12 / 2:18 11:16 AM · 8 de fev de 2026 · 22,2 mil Visualizações
Líder sindical e intelectuais em debate 👆”Se eu fosse cientifico não seria operário, ia ser intelectual.” Praxis sincericídica para companheiros! Acatado com sorrisos poderosos ainda mas com o bafo de operários no cangote. "Cacete, além de bom operário eu tinha que ser científico, pÔ?"
A conexão entre trabalho e teoria
Política e fé no altar Política e fé no altar: entre o discurso utilitário e a dificuldade de conquistar corações.
Eleições em Aragão: o PP vence com perda de força, o Vox duplica seus assentos e o PSOE sofre forte queda, precisando de alianças para governar.
Escada do mérito versus escada da política " A composição do STF e a rarefação da magistratura de carreira: uma análise à luz da seletividade discursiva A análise da atual composição do Supremo Tribunal Federal, quando submetida a um critério estritamente técnico de formação e trajetória funcional , revela um dado institucional relevante: a quase completa ausência de magistrados de carreira em exercício contínuo no interior da Corte. Adota-se, para fins analíticos, um critério deliberadamente restritivo , qual seja: (i) ingresso na magistratura mediante concurso público; (ii) desenvolvimento da carreira exclusivamente no âmbito do Poder Judiciário; e (iii) ascensão aos tribunais superiores sem interrupções decorrentes de exercício de cargos políticos ou de natureza eminentemente política , bem como sem ingresso por mecanismos de representação classista, como o Quinto Constitucional. À luz desse parâmetro, Luiz Fux apresenta-se como o único ministro atualmente em exercício que satisfaz integralmente tais requisitos . Ingressou na magistratura estadual por concurso público em 1983, percorreu regularmente as instâncias do Judiciário, alcançando o Tribunal de Justiça, posteriormente o Superior Tribunal de Justiça e, por fim, o Supremo Tribunal Federal, sem ruptura funcional ou transição para a política institucional . Diversamente, Flávio Dino , embora tenha sido juiz federal concursado e exercido a magistratura por período significativo, exonerou-se do cargo em 2006 , optando por trajetória política que incluiu mandatos eletivos e cargos de cúpula no Poder Executivo. Assim, quando de sua nomeação ao STF, já não se encontrava vinculado à magistratura nem representava, institucionalmente, o corpo judicial de carreira. No caso de Kassio Nunes Marques , a distinção é ainda mais nítida: sua entrada na magistratura de segundo grau ocorreu por meio do Quinto Constitucional , destinado à advocacia, o que o afasta, desde a origem, da condição de juiz de carreira nos termos ora definidos. Cumpre registrar que a aposentadoria recente de Rosa Weber e Ricardo Lewandowski , ambos magistrados de formação clássica e trajetória contínua no Judiciário, acentuou sobremaneira o esvaziamento da identidade judicial tradicional da Corte , consolidando um perfil majoritariamente composto por ministros oriundos da advocacia, do Ministério Público ou com passagens relevantes pela política. Nesse cenário, a chamada seletividade dos ataques discursivos e institucionais dirigidos por Dias Toffoli contra magistrados não se apresenta como fenômeno contingente ou aleatório. Ao contrário, revela-se cirurgicamente orientada , compreensível apenas quando contextualizada na atual configuração do Supremo, no qual a magistratura de carreira encontra-se praticamente sem representação efetiva . Sob esse prisma, pode-se afirmar que, no plano simbólico e funcional, o STF dispõe hoje de um único ministro que encarna, de modo pleno, a tradição da magistratura de carreira — circunstância que ilumina, com maior clareza, tanto a dinâmica interna da Corte quanto os contornos dos conflitos institucionais recentes. S Império Serrano 2006 Letra e Samba Leo Fernandes 12 de jul. de 2016 G.R.E.S. Império Serrano - Carnaval 2006 Colocação: 8° lugar do Grupo Especial Enredo: "O Império do Divino" Autores do Samba: Arlindo Cruz, Maurição, Carlos Sena, Aluízio Machado e Elmo Caetano Intérprete: Nêgo O Império desfilou como tema as festas religiosas brasileiras. A escola da Serrinha veio de uma má colocação no ano anterior e conseguiu se superar, ficando com o oitavo lugar num desfile onde não faltou garra dos imperianos. Feitiço da Vila Noel Rosa Quem nasce lá na Vila Nem sequer vacila Ao abraçar o samba Que faz dançar os galhos do arvoredo E faz a Lua nascer mais cedo Lá em Vila Isabel, quem é bacharel Não tem medo de bamba São Paulo dá café, Minas dá leite E a Vila Isabel dá samba A vila tem um feitiço Sem farofa, sem vela e sem vintém Que nos faz bem Tendo nome de princesa Transformou o samba num feitiço decente Que prende a gente O Sol da Vila é triste Samba não assiste Porque a gente implora Sol, pelo amor de Deus, não vem agora Que as morenas vão logo embora Eu sei por onde passo Sei tudo o que faço Paixão não me aniquila Mas, tenho que dizer, modéstia à parte Meus senhores, eu sou da Vila! A vila tem um feitiço Sem farofa, sem vela e sem vintém Que nos faz bem Tendo nome de princesa Transformou o samba num feitiço decente Que prende a gente Composição: Noel Rosa / Vadico.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

O racismo como método. Por Lourival Sant’Anna

"A tranquilidade faz com que as palavras não excedam a justa medida." Candidato de esquerda, Seguro vence eleições em Portugal | AGORA CNN CNN Brasil #CNNBrasil O socialista António José Seguro foi eleito o novo presidente de Portugal após o segundo turno das eleições realizado neste domingo (8), vencendo André Ventura, candidato do partido de direita Chega. #CNNBrasil "Ao meu ver, Seguro fez uma campanha correta. Ele é da ala mais moderada do PS. Em Portugal, o candidato a presidente da República não é lançado por partidos, mas por iniciativa individual. Seguro se colocou, desde o primeiro turno, não como um candidato da centro-esquerda, mas como o candidato da democracia portuguesa. Foi fácil atrair o eleitorado tradicional da centro-direita, o PSD, bem como a apoio de seus líderes mais importantes, como o ex-presidente Cavaco Silva. PS e PSD disputam o poder em Portugal, mas estão unidos na defesa da democracia e da integração do país na UE. Em alguns momentos cruciais, quando a extrema-esquerda ameaçava tomar o poder em 1975, logo após a Revolução dos Cravos, o PSD apoiou o socialista Mário Soares, que conduziu Portugal a um modelo democrático parlamentar ocidental. Ao que parece, o debate foi intenso. De todo modo, é preocupante que a extrema-direita, com teses estapafúrdias, ainda consiga sensibilizar 1/3 dos eleitores portugueses."
Capa do Jornal de Notícias: imigração em destaque — imigrantes geram cerca de 3 mil milhões de euros de lucro para a Segurança Social; debate sobre o ICE e a política de Trump; cheias e barragens sob vigilância; e principais notas de política, justiça, cultura e desporto.
Reportagem do Jornal de Notícias: a Segurança Social registou um saldo positivo superior a 3 mil milhões de euros graças às contribuições de imigrantes — mais de 4,1 mil milhões em descontos face a 811 milhões em prestações, com forte peso de trabalhadores do Brasil, Índia e Angola e impacto relevante em setores como agricultura, serviços e construção.
"Atingido por tempestades, Portugal vai às urnas e deve rejeitar ultradireita Segundo turno da eleição presidencial acontece neste domingo (8); centroesquerda tem ampla vantagem Pesquisa aponta que socialista António Seguro tem 56% dos votos, e André Ventura, do Chega, 25% 7.fev.2026 às 23h00 EDIÇÃO IMPRESSA (https://www1.folha.uol.com.br/fsp/fac-simile/2026/02/08/) LISBOA João Gabriel de Lima (https://www1.folha.uol.com.br/autores/joao-gabriel-de-lima.shtml) Kristin, Ingrid, Leonardo, Marta. Os nomes mais repetidos em Portugal (https://www1.folha.uol.com.br/folha-topicos/portugal/) nos dias que antecederam o segundo turno das eleições presidenciais, que acontecem neste domingo (8), não foram os dos candidatos António José Seguro e André Ventura (https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2025/09/lider-da-ultradireita-comete-gafe-ao-criticar-presidente-e-vira-piada-emportugal.shtml), mas das tempestades que castigaram o país (https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/02/agricultores-relatam-danos-catastroficos-com-chegada-da-tempestade-martaa-espanha-e-portugal.shtml) e levaram vários municípios a decretar estado de calamidade pública. (https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/02/chuvas-causam-inundacao-do-rio-douro-em-portugal-epeninsula-iberica-teme-chegada-de-nova-tempestade.shtml) Ventura, o candidato do Chega (https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/01/ultradireitista-lideravotacao-de-portugueses-no-brasil-ele-enfrentara-socialista-no-2o-turno.shtml)–partido que representa a ultradireita em Portugal– pediu ao atual presidente, Marcelo Rebelo de Sousa, o adiamento do pleito em função das chuvas. Recebeu um "não" como resposta. Alguns municípios castigados por enchentes, como Alcácer do Sal, próximo a Setúbal, decidiram postergar a votação para o domingo seguinte, 15 de fevereiro. Outros pretendem seguir o mesmo caminho.
O candidato de ultradireita do partido Chega, André Ventura - Pedro Nunes -6.fev.26/Reuters O adiamento em algumas poucas cidades, no entanto, não impede que o pleito ocorra nem que os votos sejam apurados no resto do país, com a declaração de um vencedor, especialmente se a margem for alta. A julgar pelas pesquisas de intenção de voto, é bem provável que isso aconteça –em favor de António José Seguro. Em levantamento feito nesta semana pela Universidade Católica de Lisboa, o socialista liderava as intenções de voto com 56% contra 25% do ultradireitista. Em votos válidos, 67% a 33%. De cada três portugueses decididos a endossar algum candidato, dois pretendiam votar em Seguro. Um dado relevante da pesquisa é a escolaridade dos entrevistados. Cerca de 70% dos que preferiram Seguro têm curso superior completo, contra 12% de Ventura. "A ultradireita vem crescendo entre a população mais humilde, que se sente desatendida pelo Estado", diz André Santos Pereira, professor de comunicação política na faculdade ISCTE (Instituto Universitário de Lisboa) e diretor-associado da consultoria Political Intelligence.
Atingido por tempestades, Portugal vai às urnas e deve rejeitar ultradireita | Jornal de Brasília Criador: PATRICIA DE MELO MOREIRA | Crédito: AFP Os números confirmam o que é narrado no livro "Por dentro do Chega", bestseller do jornalista Miguel Carvalho sobre a ultradireita portuguesa –a obra, lançada no ano passado, está na oitava edição. "Eu tenho relatos de freguesias [bairros] ao norte de Portugal, um local tradicionalmente operário, que chegaram a dar três mandatos ao Partido Comunista e agora votam majoritariamente no Chega", diz Carvalho à Folha. O livro mapeia a trajetória do Chega desde antes de sua fundação, em 2019, e rastreia, na gestação da sigla, uma influência decisiva do bolsonarismo brasileiro. "Uma das fundadoras do Chega, Lucinda Ribeiro, foi a principal responsável pela difusão do partido nas redes sociais. Ela mantinha contato com setores bolsonaristas que lhe ensinaram técnicas no sentido de propagar mais a mensagem", afirma Carvalho. Logo após o primeiro turno das eleições deste ano, em janeiro, Eduardo Bolsonaro postou nas redes sociais uma foto em que aparece ao lado do presidente do Chega e de Santiago Abascal, líder do Vox, da ultradireita da Espanha (https://www1.folha.uol.com.br/folha-topicos/espanha/). O apoio retribui um vídeo postado por Ventura na campanha brasileira de 2022, em que o líder do Chega endossava Jair Bolsonaro (https://www1.folha.uol.com.br/folha-topicos/jair-bolsonaro/) (PL) contra Lula (https://www1.folha.uol.com.br/folha-topicos/lula/) (PT). A relação entre Ventura e Bolsonaro, no entanto, é marcada por idas e vindas. Quando quer atrair um eleitorado moderado, o líder do Chega tenta se afastar do ex-presidente brasileiro. Na campanha presidencial de 2021, quando também foi candidato, Ventura disse: "Não aprecio muito o estilo do presidente Bolsonaro, embora lhe reconheça algum valor político, mas eu não gostaria de ver esse estilo acontecer em Portugal." O episódio é narrado no livro de Miguel Carvalho. Para Santos Pereira, do ISCTE, a admiração de Ventura por Bolsonaro vem de uma aspiração antiga do presidente do Chega: liderar a direita em Portugal a partir da ultradireita. "É algo que muitos tentaram e poucos conseguiram. Os principais casos são Jair Bolsonaro no Brasil e Giorgia Meloni na Itália", afirma. Na noite de 18 de janeiro, após a divulgação dos resultados do primeiro turno, Ventura conclamou os eleitores de outros candidatos de direita a votarem nele. A estratégia não funcionou. Vários políticos da direita tradicional, entre eles o ex-premiê Aníbal Cavaco Silva, preferiram declarar apoio a Seguro, um socialista moderado. lá fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo "Não é impossível, no entanto, que Ventura saia dessa eleição com algum ganho", diz Santos Pereira. "Se ele atingir os 33% que aparecem nas pesquisas, poderá dizer que teve mais votos que o primeiro-ministro Luís Montenegro (https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2025/05/com-marqueteiro-brasileiro-luis-montenegro-deve-ser-reeleito-em-portugalaponta-boca-de-urna.shtml), que contabilizou 31,2% nas eleições parlamentares. E reivindicará novamente a primazia no campo das direitas". O premiê Montenegro lidera a Aliança Democrática, de centro-direita. No sistema político português é o primeiro-ministro quem governa. O presidente exerce uma espécie de poder moderador, que não é pequeno –pode vetar leis ou dissolver o parlamento em casos de impasse político. sua assinatura pode valer ainda mais" Beija-me Cyro Monteiro De 1944 a 1945, não estou bem certo, mas estou quase certo. Cyro Monteiro E é uma das músicas que Vinicius de Moraes e Carlos Jobim, quando me encontram, querem que eu cante para eles. Rugas Cyro Monteiro VERSÃO PARA IMPRESSO P (Jornal diário – padrão Estado de S. Paulo) O fim da ficção internacional A ordem baseada em regras ruiu. Em seu lugar, emerge um mundo mais duro, transacional e instável — que impõe novos desafios a países como o Brasil
Legenda: Nos trilhos de Nova Iguaçu Crédito: Walbergg Rugas Nelson Cavaquinho de desgosto Se eu for pensar muito na vida Morro cedo, amor. Meu peito é forte, Nele tenho acumulado tanta dor. As rugas fizeram residência no meu rosto Não choro pra ninguém Me ver sofrer de desgosto. Eu que sempre soube Esconder a minha mágoa. Nunca ninguém me viu Com os olhos rasos d'água. Finjo-me alegre Pro meu pranto ninguém ver. Feliz aquele que sabe sofrer. Composição: Nelson Cavaquinho / Augusto Garcez / Ary Monteiro. Recordar é viver Eu ontem, sonhei com você Recordar é viver Eu ontem sonhei com você Eu sonhei Meu grande amor Que você foi embora E nunca mais voltou, meu amor RECORDAR E VIVER bernarda letras LUIZ BARBOSA, O SAMBA DE BREQUE RECORDAR É VIVER Luiz Barbosa Nos trilhos de Nova Iguaçu, o sol se impõe no horizonte e divide a paisagem entre luz e sombra. A fotografia foi feita numa tarde comum, no retorno do centro da cidade, mas carrega uma simbologia que transcende o instante: de um lado, a margem iluminada; do outro, a que permanece na penumbra. Entre ambas, os trilhos — linha de passagem, espera e destino. A cena urbana dialoga com a tradição lírica do samba de Nelson Cavaquinho, marcada por um pessimismo atravessado de esperança. O compositor, que certamente viu muitas alvoradas nascerem à beira de trilhos semelhantes, intuiu que a luz não elimina o sofrimento, mas insiste em retornar — não como promessa ingênua, mas como afirmação ética diante da dureza do mundo. Nova Iguaçu (RJ). Juízo Final Nelson Cavaquinho O Sol há de brilhar mais uma vez A luz há de chegar aos corações Do mal será queimada a semente O amor será eterno novamente É o juízo final A história do bem e do mal Quero ter olhos pra ver A maldade desaparecer O Sol há de brilhar mais uma vez A luz há de chegar aos corações Do mal será queimada a semente O amor será eterno novamente É o juízo final A história do bem e do mal Quero ter olhos pra ver A maldade desaparecer O Sol há de brilhar mais uma vez A luz há de chegar aos corações Do mal será queimada a semente O amor será eterno novamente O amor será eterno novamente Composição: Nelson Cavaquinho / Élcio Soares.
A chamada ordem internacional baseada em regras, embora imperfeita e assimétrica, funcionou por décadas como uma ficção útil. Sustentou instituições multilaterais, garantiu previsibilidade e permitiu a oferta de bens públicos globais. Esse arranjo, porém, se esgotou. O avanço tecnológico e a concentração de poder político e informacional aproximam o presente das distopias antecipadas por Orwell e Huxley, em que controle e propaganda substituem a coerção clássica. Nesse contexto, a nova estratégia de segurança dos Estados Unidos reafirma a “paz por meio da força”, redefinindo alianças, responsabilidades e zonas de influência. Com o colapso dessa ficção funcional, potências médias como o Brasil precisam se adaptar a um mundo mais incerto. Diplomacia flexível, alianças de geometria variável e o fortalecimento da resiliência e da produtividade internas tornam-se centrais. Nostalgia não é estratégia.
Paz por meio da força? Por Pedro S. Malan O Estado de S. Paulo Potências médias, como Canadá e Brasil, terão de encontrar caminhos neste mundo novo com prioridade por uma economia doméstica de maior resiliência e produtividade A edição mais recente da revista Foreign Affairs traz um importante artigo de um brasileiro, Matias Spektor, que merece ser lido com atenção. Seu título e subtítulo falam por si: The World Will Come to Miss Western Hypocrisy: An Overtly Transactional Order Spells Trouble for Everyone. O tema é especialmente relevante para o Brasil. Na primeira metade do século passado, três obras de ficção imperdíveis procuraram vislumbrar o futuro décadas à frente e mostraram-se premonitórias sobre o desenvolvimento tecnológico e suas consequências políticas e sociais. A peça teatral R.U.R, Rossum’s Universal Robots (1920), de Karel Capek, na qual certamente Aldous Huxley se inspirou para escrever seu Admirável Mundo Novo (1932); e 1984, de George Orwell (1949). São clássicos que guardam enorme interesse em tempos de inteligência artificial, robotização e conglomerados privados gigantes que conhecem o que compramos e compartilhamos. Além de governos que se propõem a controlar o que é postado por seus cidadãos, nos quais aplicam técnicas de reconhecimento facial antecipadas pelo Big Brother de Orwell. Na distopia orwelliana, o Ministério da Paz era responsável pela guerra; ao Ministério do Amor cabia manter a lei e a ordem. O Ministério da Pujança era responsável por questões econômicas e o Ministério da Verdade era responsável por notícias, entretenimento, educação e belas artes. Seus nomes em novilíngua eram, respectivamente, MiniPaz, MiniAmor, MiniPuja e MiniVer. O personagem central do livro trabalhava no MiniVer, cujo lema, escavado na parede, era “ignorância é força”. Em carta enviada a Orwell em outubro de 1949, em que agradecia o envio de seu 1984, Huxley reputou o livro “profundamente importante”, mas observa sobre o futuro que, em vez de uma bota oprimindo um rosto humano, as oligarquias dominantes encontrariam meios mais eficientes de satisfazer impulsos por poder, meios dos quais tratou em seus escritos. Em seu Admirável Mundo Novo Revisitado (1958), fez um fundamental exame do problema da liberdade numa era de técnicas avançadas de propaganda, já então à disposição de autocratas para manipular e controlar a população por meio da alteração de seus padrões de pensamento e comportamento. Antecipava em algumas décadas Os Engenheiros do Caos, o importante livro de Giuliano Da Empoli. O governo Trump publicou sua relevante National Security Strategy em novembro de 2025 e, no mês passado, um importante documento que define sua Estratégia Nacional de Defesa e tem como subtítulo “Restaurando a paz por meio da força”. O texto afirma que os EUA haviam desperdiçado sua vantagem militar ao se apegar a “abstrações do tipo castelo nas nuvens”, como a “ordem internacional baseada em regras”. O documento deixa claro que os EUA “must and will” conferir prioridade à defesa de sua homeland e do “Corolário Trump” às doutrinas Monroe (a América para os americanos) e Theodore Roosevelt ( Talk softly and carry a big stick). A Donroe Doctrine seria algo como talk loudly and carry a bigger stick. As principais “linhas de esforço” seriam a defesa da terra natal – e da presença hegemônica no hemisfério ocidental – e a contenção da China. Em seguida, vêm o aumento do burden-sharing com aliados e parceiros e a supercharging da “base industrial de defesa” dos EUA. O documento reitera o direito dos EUA de acessar “áreas-chave”, como o Canal do Panamá e a Groenlândia. Os europeus têm razão em estar preocupados. O documento afirma que os parceiros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) têm capacidade econômica que ultrapassa em muito a da Rússia e cobra o acordado: 3,5% do Produto Interno Bruto (PIB) em dispêndio militar e mais 1,5% em gastos ligados à segurança. Os aliados da Otan deveriam assumir a principal responsabilidade pela defesa da Europa – com o apoio crítico, “porém mais limitado, dos EUA”. Na visão dos Departamentos de Estado e da Guerra, “o presidente Trump está liderando o país para uma nova idade do ouro com a sua visão de paz duradoura por meio da força”. O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, fez importante contraponto em seu discurso em Davos. Referiu-se a uma nova e dura realidade geopolítica em que grandes potências não estão mais submetidas a restrições que, bem ou mal, existiram nas décadas do pós-guerra. Foi realista ao afirmar que sabíamos que a “international rules-based order” era parcialmente falsa, que os mais fortes se eximiriam dessas regras quando isso lhes fosse conveniente e que as regras seriam aplicadas de maneira assimétrica. Ficção que, segundo Carney, era útil: a hegemonia americana, em particular, ajudou a prover bens públicos, linhas marítimas abertas, um sistema financeiro relativamente estável, segurança coletiva e apoio a sistemas de resolução de controvérsias. Essa “ordem” acabou e não voltará. Nostalgia não é estratégia política. Potências médias, como Canadá e Brasil, terão de encontrar caminhos neste mundo novo, caminhos que passam por geometrias variáveis na área externa e pela busca, agora premente e com prioridade, por uma economia doméstica de maior resiliência e produtividade.
domingo, 8 de fevereiro de 2026 O racismo como método. Por Lourival Sant’Anna O Estado de S. Paulo O método consiste em induzir o adversário a uma reação agressiva, para depois retratá-lo como violento O vídeo retratando Michelle e Barack Obama como macacos, compartilhado e depois removido por Donald Trump em sua rede social, não é um ato impensado. É uma arma de guerra psicológica testada, validada e aprimorada. Chamado de “isca e contragolpe”, o método consiste em induzir o adversário à reação agressiva, para então retratá-lo como violento. O autor apaga aquilo que provocou a reação do oponente, deixa visível apenas essa reação, e reposiciona a si mesmo como vítima da violência do outro. A mensagem inicial não visa convencer pelo conteúdo, mas criar um gatilho emocional. Os vestígios da causa da reação desaparecem, graças à engenharia dos algoritmos das redes sociais. Preso em bolhas cognitivas, o público-alvo, no caso a maioria branca, esquece a provocação inicial. A técnica é empregada regularmente pelo time Trump. No dia 22, Nekima Armstrong, negra de 49 anos, foi presa ao protestar em uma igreja cujo pastor é agente do ICE, em Minnesota, onde a polícia anti-imigração matou dois cidadãos americanos à queima-roupa. Armstrong foi fotografada ao ser presa. Estava calma, com olhar determinado, embora algemada e acorrentada pela cintura e pelos pés – “o mais próximo que me senti da escravidão”, disse. Em imagem alterada pela Casa Branca, ela parece desesperada e agressiva, chorando e com a pele escurecida. “É só um meme”, defendeu o governo. Armstrong, mãe de quatro filhos, contou que a manipulação de sua imagem a abalou porque ela se sente responsável por levar adiante o legado de seus antepassados, que mantiveram a dignidade mesmo tendo sido trazidos como escravos da África. Uma sensibilidade que se perde na convulsão das narrativas. Em setembro, Trump compartilhou vídeos gerados por IA que mostravam o líder democrata na Câmara, Hakeem Jeffries, que é negro, com sombrero e bigode mexicanos, ao som de mariachi. A sugestão era que Jeffries está do lado dos imigrantes. Em 2015, Trump lançou-se candidato espalhando que Obama não tinha nascido nos EUA e era muçulmano. Trump ironizou a mistura racial de negra e indiana de sua adversária Kamala Harris. Em 2019, ele tuitou sobre quatro deputadas não brancas, três das quais nascidas nos EUA: “Por que elas não voltam para os lugares de onde vieram?” Durante protestos em 2020 contra a violência policial, Trump tuitou “quando os saques começam, os tiros começam”, frase de um chefe de polícia, em 1967, que remete à repressão de protestos de comunidades negras. Os exemplos são abundantes.
VERSÃO DIGITAL (Site / App / Edição multimídia) O fim da ficção internacional Entre a luz e a sombra, o mundo que emerge exige realismo, resiliência e escolhas difíceis 📷 [FOTO – HERO IMAGE / TOPO DA PÁGINA] Legenda: Nos trilhos de Nova Iguaçu Crédito: Luiz Barbosa RECORDAR É VIVER Luiz Barbosa Nos trilhos de Nova Iguaçu, o sol nasce como linha divisória entre claridade e sombra. A imagem foi captada numa tarde de retorno do centro da cidade, mas evoca mais do que um instante urbano: sugere travessia, persistência e espera. A fotografia dialoga com o samba de Nelson Cavaquinho, cuja obra combina dor, lucidez e esperança contida. Como nas alvoradas que o compositor testemunhou ao longo da vida, a luz não apaga a dureza do mundo — mas insiste em reaparecer. ▶️ VÍDEO | Recordar é Viver — Luiz Barbosa 📎 Link sugerido: (inserir URL do vídeo oficial ou canal do autor) Crédito: Luiz Barbosa Descrição: Reflexão audiovisual sobre memória, cidade e travessia. ▶️ VÍDEO | “Juízo Final” — Nelson Cavaquinho & Élcio Soares 📎 Vídeo com interpretação e letra disponível em: https://www.letras.mus.br/nelson-cavaquinho/juizo-final/ Composição: Nelson Cavaquinho e Élcio Soares Observação editorial: Letra disponível por link externo, conforme direitos autorais. A ordem internacional baseada em regras, ainda que imperfeita, funcionou como uma ficção útil ao longo do pós-guerra. Sua dissolução expõe um mundo mais transacional, no qual o poder volta a se impor sobre normas. Entre trilhos, sombras e luz, o desafio que se impõe a países como o Brasil é claro: compreender a transição, fortalecer a base interna e agir com realismo. O sol pode não eliminar a noite — mas segue nascendo. S