sábado, 7 de novembro de 2026

A Longa Estrada da Fé: O Manto de Guadalupe Une Fronteiras na Missa do Papa

Uma Crônica de Devoção, Fronteiras e Manto Sagrado
Miriam Solís - La Guadalupana (Letra/Lyrics) html
A Longa Estrada da Fé
Uma Crônica de Devoção, Fronteiras e Manto Sagrado

"Tão longe e, no coração, tão pertinho! O que são as doze horas de estrada para quem carrega uma vida de preces na bagagem? Da devota gaúcha cruzando a fronteira à caravana que desafia o cansaço: neste domingo, 8 de novembro de 2026, todos os caminhos da fé deixam a rodoviária de Porto Alegre e convergem para a histórica cidade de Florida, no Uruguai. Sob a proteção de Nossa Senhora de Guadalupe — a quem o Papa Leão XIV consagrou solenemente seu pontificado e dedicou um Ano Jubilar —, é hora de assistir à missa papal e, sob o olhar da Virgem Maria, renovar a fé."

O motor do ônibus que deixa a plataforma da Rodoviária de Porto Alegre carrega mais do que passageiros; transporta a expectativa silenciosa de quem caminha ao encontro do vigário de Cristo. Para a devota gaúcha, o lenço no pescoço e o terço entre os dedos são as únicas armaduras necessárias para enfrentar a madrugada que se estende além do pampa.

Diziam que seriam poucas horas, uma estimativa otimista de quem mede a distância apenas pelo mapa e esquece as curvas da estrada e os trâmites da fronteira. Mas a verdade é que o tempo ganha outra dimensão quando o destino é o altar. Cada quilômetro rodado em direção ao Uruguai aproxima o Rio Grande de um momento histórico.

Essa longa travessia ecoa o próprio espírito missionário do Papa Leão XIV. Desde os primeiros passos de seu ministério — quando usou a casula de São João Paulo II —, o Pontífice escolheu caminhar sob o manto estrelado da Virgem de Guadalupe. Foi aos pés da Padroeira da América Latina que ele entregou suas chaves e abriu o Ano Jubilar Guadalupano. Agora, em solo uruguaio, ele reapresenta essa mesma Mãe mestiça como o modelo perfeito de união entre os povos.

†

Na manhã deste domingo, a praça em frente à Catedral Basílica de Florida se transforma em um santuário a céu aberto. Sob a bênção da Virgem dos Trinta e Três, a padroeira daquela terra vizinha, o Papa Leão XIV eleva a hóstia sagrada. Naquele instante exato, o cansaço da longa viagem desaparece, diluído no canto litúrgico e na certeza de que nenhuma distância é grande demais para quem busca o abraço da Igreja e o aconchego do manto de Maria.

O Cântico do Continente: La Guadalupana

Nenhuma canção traduz melhor a comunhão da América Latina com a sua Mãe e o Sumo Pontífice do que o hino tradicional "La Guadalupana". Executado no ritmo folclórico de uma ranchera lenta, ele narra as aparições de 1531 ao índio São Juan Diego. É a melodia que embala as liturgias do Papa Leão XIV e une as vozes de milhões de devotos além das fronteiras.

Letra Original (Espanhol) Tradução (Português)
"Desde el cielo una hermosa mañana, la Guadalupana bajó al Tepeyac." "Desde o céu, numa linda manhã, a Guadalupana desceu ao Tepeyac."
"En la tilma entre rosas pintadas, su imagen amada se dignó dejar." "No manto, entre rosas pintadas, sua imagem amada se dignou deixar."
"Desde entonces para el latino, ser guadalupano es algo essencial." "Desde então, para o povo latino, ser guadalupano é algo essencial."
▶ ASSISTIR NO YOUTUBE (MÚSICA E LETRA)
Clique para ouvir a melodia oficial e acompanhar a letra completa na plataforma.

Florida, Uruguai — 8 de novembro de 2026.

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Devota Gaúcha e Nossa Senhora de Guadalupe html

A Longa Estrada da Fé: O Manto de Guadalupe Une Fronteiras na Missa do Papa

Uma Crônica de Devoção, Fronteiras e Manto Sagrado

"Tão longe e, no coração, tão pertinho! O que são as doze horas de estrada para quem carrega uma vida de preces na bagagem? Da devota gaúcha cruzando a fronteira à caravana que desafia o cansaço: neste domingo, 8 de novembro de 2026, todos os caminhos da fé deixam a rodoviária de Porto Alegre e convergem para a histórica cidade de Florida, no Uruguai. Sob a proteção de Nossa Senhora de Guadalupe — a quem o Papa Leão XIV consagrou solenemente seu pontificado e dedicou um Ano Jubilar —, é hora de assistir à missa papal e, sob o olhar da Virgem Maria, renovar a fé."

Devota Gaúcha e Nossa Senhora de Guadalupe

Reflexo de devoção: Sob o manto estrelado de Nossa Senhora de Guadalupe, a oração silenciosa da devota gaúcha se funde à herança viva da Padroeira da América Latina e ao olhar pastoral da Igreja.

O motor do ônibus que deixa a plataforma da Rodoviária de Porto Alegre carrega mais do que passageiros; transporta a expectativa silenciosa de quem caminha ao encontro do vigário de Cristo. Para a devota gaúcha, o lenço no pescoço e o terço entre os dedos são as únicas armaduras necessárias para enfrentar a madrugada que se estende além do pampa.

Diziam que seriam poucas horas, uma estimativa otimista de quem mede a distância apenas pelo mapa e esquece as curvas da estrada e os trâmites da fronteira. Mas a verdade é que o tempo ganha outra dimensão quando o destino é o altar. Cada quilômetro rodado em direção ao Uruguai aproxima o Rio Grande de um momento histórico.

Essa longa travessia ecoa o próprio espírito missionário do Papa Leão XIV. Desde os primeiros passos de seu ministério — quando usou a casula de São João Paulo II —, o Pontífice escolheu caminhar sob o manto estrelado da Virgem de Guadalupe. Foi aos pés da Padroeira da América Latina que ele entregou suas chaves e abriu o Ano Jubilar Guadalupano. Agora, em solo uruguaio, ele reapresenta essa mesma Mãe mestiça como o modelo perfeito de união entre os povos.

†

Na manhã deste domingo, a praça em frente à Catedral Basílica de Florida se transforma em um santuário a céu aberto. Sob a bênção da Virgem dos Trinta e Três, a padroeira daquela terra vizinha, o Papa Leão XIV eleva a hóstia sagrada. Naquele instante exato, o cansaço da longa viagem desaparece, diluído nelas cantorias litúrgicas e na certeza de que nenhuma distância é grande demais para quem busca o abraço da Igreja e o aconchego do manto de Maria.

O Cântico do Continente: La Guadalupana

Nenhuma canção traduz melhor a comunhão da América Latina com a sua Mãe e o Sumo Pontífice do que o hino tradicional "La Guadalupana". Executado no ritmo folclórico de uma ranchera lenta, ele narra as aparições de 1531 ao índio São Juan Diego. É a melodia que embala as liturgias do Papa Leão XIV e une as vozes de milhões de devotos além das fronteiras.

Letra Original (Espanhol) Tradução (Português)
"Desde el cielo una hermosa mañana, la Guadalupana bajó al Tepeyac." "Desde o céu, numa linda manhã, a Guadalupana desceu ao Tepeyac."
"En la tilma entre rosas pintadas, su imagen amada se dignó dejar." "No manto, entre rosas pintadas, sua imagem amada se dignou deixar."
"Desde entonces para el latino, ser guadalupano es algo esencial." "Desde então, para o povo latino, ser guadalupano é algo essencial."
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Florida, Uruguai — 8 de novembro de 2026.

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Dar-se-á àquele que tem - Saibamos aprendizar

Pensemos nisso.
"Afirma Pereira é um romance existencial decidamente otimista." Antonio Tabucchi
"Tudo funciona maravilhosamente nesta HQ!" Le Monde Maria Bethania & Paulinho Da Viola 1972 Oslo Norway Zvonimir Bucevic "Se, à falta de cuidado, deixou fenecessem as sementes destinadas a produzir nesse campo, é a seu pai que lhe cabe acusar por nada produzirem elas? Não e não." “Coração Vulgar” - Maria Bethânia & Paulinho da Viola (English subtitles) Coração Vulgar Maria Bethânia Deixa desilusão pra quem não sabe amar E quem não sabe amar há de sofrer Porque não poderá compreender Que o amor que morre é uma ilusão E uma ilusão deve morrer O amor que morre é uma ilusão E uma ilusão deve morrer Um verdadeiro amor nunca fenece E pouca gente ainda o conhece Meu bem, se o teu amor morreu É porque ninguém o entendeu [Maria Bethânia diz: Lindo!] Deixa o teu coração viver em paz O teu pecado é querer amar demais Morre... [Maria Bethânia diz: É lindo, né, Pierre? Não existe! "Fenece" é a palavra mais bonita que te(m) no mundo] Composição: Paulinho da Viola Paulinho da Viola | Pelos vinte (P. Viola e Sérgio Natureza) | Álbum 'Paulinho da Viola - 1978' Cristovão Bastos 16 de nov. de 2019 Paulinho da Viola | Pelos vinte (Paulinho da Viola e Sérgio Natureza) | Álbum 'Paulinho da Viola - 1978' | Selo EMI (LP 1978 / CD 1996) Paulinho da Viola - voz, violão Cristovão Bastos - piano Dininho - baixo elétrico Dazinho - caixeta Hércules Pereira - bateria Arranjo: coletivo Produção: Mariozinho Rocha e Fernando Faro Selo: EMI Formato/ano: (LP 1978 / CD 1996) A passagem "dar-se-á àquele que tem" encontra-se no capítulo XVIII ("Muitos os chamados e poucos os escolhidos", itens 13 a 15) da obra O Evangelho segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, baseando-se originalmente em versículos do Evangelho de Mateus (13:12) e de Marcos (4:24-25). Dar-se-á àquele que tem-O Evangelho Segundo o Espiritismo-Cap. XVIII - Itens 14 e 15 - ENL 17/08/23 Canal CEIC Transmitido ao vivo em 17 de ago. de 2023 Evangelho no Lar Online "Um momento de reflexão e oração para harmonizar nosso lar."" Esse é o EVANGELHO NO LAR ONLINE do Centro Espírita Ildefonso Correia! 🙌🏡🙏" Esperamos você e sua família para nos unirmos em pensamento. Todo dia às 21:50h no CanalCEIC no YouTube e Facebook." Interpretando O Livro dos Espíritos - Questões 392 a 399 - Esquecimento do Passado TV CEFA 22 de abr. de 2022 #doutrinaespirita #espiritismo #estudodolivrodosespirítos No estudo de hoje, Antônio Carlos Navarro nos explica as questões de 392 a 399 - Esquecimento do Passado, de O Livro dos Espíritos. As Questões 392 a 399 do capítulo "Retorno à vida corporal" em O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, explicam a necessidade do esquecimento do passado no processo reencarnatório. O véu do esquecimento é descrito como uma proteção necessária para que o homem seja mais senhor de si e não fique ofuscado pelas lembranças de vidas anteriores, utilizando as tendências instintivas e a voz da consciência como guias de aprendizado moral. Você pode ler o conteúdo completo destas questões diretamente na KardecPedia ou consultar a obra em formato digital no Espiritismo.net.
Carl Jung em sua obra O Livro Vermelho (Liber Novus), escrito entre 1913 e 1930 e publicado apenas em 2009: Conheça o bom da vida. Nâo meça esforços para navegar no oceano de felicidade que há dentro de você. Segredo - João Gilberto 92 — Segredo —  Gravada por Dalva de Oliveira e Nelson Gonçalves, esta canção de Herivelto Martins também se presta ao canto manso de João.

sexta-feira, 6 de novembro de 2026

CARREIRINHAS SUCUPIRANAS

Uma Trilogia Satírica de Esquetes por Avant-Première em Londres 1976-1982 Partido Alto - Leon Hirszman Sinal Fechado Paulinho da Viola Sinal Fechado · Paulinho Da Viola Meus Momentos: Paulinho Da Viola ℗ 1969 EMI Records Brasil Ltda
A crise política e financeira no Paraguai — marcada pela queda do Ueno Bank e pelo anúncio de renúncia do presidente Santiago Peña — colocou em xeque a imagem do país vizinho como um "paraíso fiscal ou liberal" infalível para investidores e empresas brasileiras. Oásis fiscal paraguaio era uma miragem que atraiu empresas brasileiras, por Luiz Carlos Azedo Correio Braziliense Os baixíssimos impostos melhoravam os resultados das empresas, porém já não garantem que o dinheiro destinado à folha de pagamento estará disponível na manhã seguinte A crise do Ueno Bank e a derrocada de Santiago Peña desfizeram uma ilusão vendida a empresários brasileiros de que bastaria atravessar a fronteira para encontrar impostos baixos, energia barata e segurança permanente para investir. Peña apresentou sua renúncia nesta quinta-feira, enquanto avançava na Câmara a acusação para seu impeachment. O desmoronamento de seu governo já expõe a fragilidade do paraíso anunciado. A miragem não estava na existência de vantagens competitivas paraguaias. Estava na promessa de que elas dispensariam instituições sólidas, fiscalização independente e proteção efetiva da poupança. Os baixíssimos impostos melhoravam os resultados das empresas, porém já não garantem que o dinheiro destinado à folha de pagamento estará disponível na manhã seguinte. Quando o aplicativo do banco já não funciona e os depósitos são bloqueados, o oásis da simplicidade tributária vira uma miragem sem encantamento. CONTINUAR LEITURA
No artigo "Esquerda precisa rever ideias sobre segurança pública", o filósofo e professor da USP Pablo Ortellado argumenta que a visão progressista tradicional sobre o crime gera desconexão com a realidade da classe trabalhadora. Ele defende que a esquerda deve formular uma política de segurança pública empática com o cidadão comum, enfatizando o combate ao crime e a proteção do patrimônio de quem trabalha. Leia o artigo completo em O Globo. Para uma nova esquerda III, por Pablo Ortellado O Globo Concepção simpática ao crime permanece difusa na cultura política Concluo hoje a série de colunas sobre os desafios da esquerda. Na série, argumento que a missão atual da esquerda é dupla: precisa oferecer respostas alternativas aos problemas colocados pelo populismo radical de direita, mas sem se deixar confundir com ele. Em outras palavras, tem de enfrentar as questões levantadas pelo conservadorismo moral, pelas novas formas de trabalho e pelo populismo penal, oferecendo uma abordagem alternativa que seja distintivamente progressista. A nova conjuntura, porém, pode levá-la a adiar mais uma vez a tarefa de se reinventar, apostando que a vitória nas eleições presidenciais abre o horizonte de vitórias eleitorais sucessivas, até que o populismo de direita morra de cansaço e desapareça por si só. CONTINUAR LEITURA
A insurreição silenciosa, por José de Souza Martins Valor Econômico O milhão de jovens na avenida Paulista mostrou a cara de um novo sujeito político: os que recusam a iniquidade de nascer para o abandono de uma sociedade cada vez mais rica e de alguns Até os últimos minutos da apuração dos resultados eleitorais do pleito presidencial de 25 de outubro, havia sérias dúvidas quanto a qual dos candidatos seria o eleito para a Presidência da República. As dúvidas tinham fundamento na comprovada eficácia aos recursos ilícitos criados e movimentados nas últimas décadas para impedir a alternância democrática de governo. A disputa não era e nem tem sido entre esquerda e direita. Nem tem sido uma manifestação da luta de classes. É inútil invocar esses chavões da história do último século para explicá-la. Aqui há cientistas sociais que propõem essa compreensão da realidade política. Esses marcos estão referidos a uma concepção de temporalidade histórica de um agora de horas e minutos próprios do imediato da sociedade de consumo e não próprios do processo histórico e político. Os de uma sociedade que teve sua concepção de destino usurpada pelos beneficiários das urgências da reprodução ampliada do capital. As de um capital rentista, anticapitalista. Uma riqueza de mera reprodução do subdesenvolvimento econômico e social. CONTINUAR LEITURA
Na coluna "Efeito Trump ao contrário", a jornalista Eliane Cantanhêde analisa a perda de força política do presidente americano Donald Trump e como isso passa a puxar para baixo os líderes da "nova direita" que ele havia impulsionado na América do Sul. Efeito Trump ao contrário, por Eliane Cantanhêde O Estado de S. Paulo ‘Nova direita’ da América do Sul sofre com crises, queda de popularidade e derrota de Trump As voltas que o mundo dá... O trono do imperador Donald Trump começa a ruir e já há sinais de que, assim como puxou para cima a tal “nova direita” na América do Sul, passe a puxar para baixo a partir de agora. Aliás, como está acontecendo neste momento no Paraguai e foi previsto aqui na coluna em maio. O Brasil foi o líder da resistência à invasão americana na região e consolidou espetacularmente essa posição com a eleição de Lula e a derrota de Flávio Bolsonaro, comemoradas por governos, entidades e cidadãos ao redor do mundo, inclusive nos EUA, como vitória da democracia e da soberania. CONTINUAR LEITURA html

CARREIRINHAS SUCUPIRANAS

Uma Trilogia Satírica de Esquetes por Avant-Première em Londres

Cartaz Oficial - Carreirinhas Sucupiranas

Cartaz oficial da estreia vitoriana no West End londrino.

O ano é 1899. A névoa de Londres testemunha o choque tectônico de eras, impérios e retóricas. Esmerilando o estilo e armando o mecanismo na terra batida de Sucupira, apresentamos o libreto completo da trilogia satírica que uniu a erudição barroca do Conselheiro Rui Barbosa ao pragmatismo pedagógico das carreirinhas coloniais.


🔫 CARREIRINHA NÚMERO UM: O Debu do Topetudo na Profecia do Conselheiro

Cenário: Salão Oval da Casa Branca, alta madrugada. O Líder do Topete Fulvo caminha de um lado para o outro gesticulando. Sobre a mesa, um pergaminho diplomático de 1899. O fantasma holográfico de Rui Barbosa observa com os pés imersos em sua bacia de gelo.

O LÍDER DO TOPETE FULVO: Isto aqui é fake news! Uma fraude total produzida pelo Deep State latu-sensu do século dezenove! Quem é esse tal de Barbosa? Nunca ouvi falar. Dizem que era o "Águia de Haia". Grande coisa. Eu conheço as melhores águias, as águias americanas, que são muito maiores e mais vitoriosas que as águias da Holanda. E ele diz aqui... vejam só... ele diz que o meu povo, as minhas belas indústrias do Rust Belt, seriam inundadas por um pozinho da China? Mentira! Nossos operários são fantásticos. O fentanil é terrível, é um desastre, mas nós vamos construir um muro químico! Um muro enorme e os laboratórios subterrâneos vão pagar por ele!

RUI BARBOSA: Cale-se, tribuno de quermesse e mercador de ilusões televisivas! Vossa bonomia mercantilista e vossa prosódia eivada de barbarismos não são capazes de obliterar o peso inexorável da realidade fatídica! Não há muro, por mais monumental e hiperbólico que vossa vaidade conceba, capaz de deter a osmose silenciosa do veneno sintético. O que assistis hoje em vossas metrópoles opulentas não é um acidente aduaneiro; é o epílogo trágico da vossa própria soberba imperialista! Vós, que herdastes o cetro de Salisbury, colheis agora o lodo que vossos antecessores semearam nas margens do Rio das Pérolas!

O LÍDER DO TOPETE FULVO: Olha aqui, homenzinho do bigode de morsa, você fala muito difícil. Ninguém entende o que você diz. É por isso que você perdeu as eleições no seu país, sabiam disso? Eu ganhei, e ganhei por muito, uma vitória tremenda, a maior da história! Você fala em "osmose", eu falo em tarifas! Nós vamos taxar a papoula, vamos taxar os laboratórios, vamos taxar o passado! Se a China nos manda o torpor, nós mandamos o maior contra-ataque comercial que o mundo já viu. É muito simples, é o deal.

RUI BARBOSA: Simplismo atroz de uma mente colonizada pelo cifrão! Julgais que a vingança histórica se resolve em balancetes alfandegários? O ópio que outrora decompôs o brio da dinastia Qing transmudou-se, pela alquimia dos tempos modernos, no fentanil que hoje anestesia o vigor de vossas massas laboriosas. Enquanto vos jactais de vossas maiorias parlamentares e de vossa retórica ruidosa de palanque, o dragão asiático — com a paciência milenar que vos falta — observa, de forma quase hilária, a decadência espasmódica de vossa república. Vossos súditos jazem nas calçadas, capturados pelo espectro químico, enquanto vós tuitais impropérios contra a realidade!

O LÍDER DO TOPETE FULVO: Sabe de uma coisa? Você é um cara muito negativo. Um loser do passado. A América está ótima, vai ser maior do que nunca. Esse fentanil aí... nós vamos resolver com duas ligações telefônicas. Duas ligações. Eu ligo para o presidente de lá e digo: "Parou com o pozinho". E ele para. Porque ele me respeita. Ponto final.

RUI BARBOSA: Oh, paciência histórica! Diante de tamanha cegueira deliberada e de tamanha penúria dialética, limito-me apenas a ordenar que tragam a minha bacia com a água da bica mais fria! Pois o calor dessa insolência trumpista exige que eu deposite nela meus pés descalços e desarmados, a fim de emitir nervosamente um sinal para o meu cérebro central para que eu não desfaleça diante de tanta nulidade! Ponto!


🔫 CARREIRINHA NÚMERO DOIS: A Gramática da Papoula e o Tratado dos Espertos

Cenário: Alfândega Real de Lisboa, 1808. Dom João VI mastiga uma coxa de frango com os dedos engordurados. Lord Strangford, enviado britânico, ostenta farda impecável e um sorriso de agiota geopolítico.

LORD STRANGFORD: Vossa Alteza Real deve compreender a excelsitude jurídica deste arranjo. A Grã-Bretanha, em sua infinita magnanimidade e movida pelo puro espírito cristão, cedeu sua orgulhosa armada para escoltar vossos navios e vossa ilustre corte até este éden tropical. Em contrapartida, estas pequenas taxas alfandegárias de 15% para os produtos ingleses — enquanto vossos próprios súditos pagam 16% — não passam de uma justa e cristã compensação pelo frete marítimo. É o livre mercado operando em sua pureza bíblica.

DOM JOÃO VI: Ora, Strangford, tu falas muito bonito, mas o fato é que eu saí de Lisboa fugindo de Napoleão e cheguei aqui devendo até os dentes à vossa Majestade! Abrir os portos aos vossos panos de algodão e às vossas bugigangas de ferro significa que o Rio de Janeiro vai virar um armazém de Londres! E as nossas poucas manufaturas? Vão todas para o beleléu! Isso não é comércio, homem, isso é um assalto de casaca!

LORD STRANGFORD: Alteza, por favor, evitemos termos vulgares. Nós não assaltamos; nós "franqueamos os canais da civilização". O mesmo método, aliás, estamos a aplicar com grande sucesso no Oriente. A China insistia em manter seus portos fechados ao mundo, numa demonstração de soberba medieval. Pois bem, resolvemos o impasse mercantil introduzindo nas províncias de Cantão um produto agrícola de altíssima circulação: o ópio. Os mandarins reclamam, dizem que o povo está a definhar nos fumódromos, mas nós explicamos que a livre circulação da papoula é um imperativo do direito internacional! O vício é apenas um efeito colateral da modernização.

DOM JOÃO VI: Valha-me Deus, Strangford! Vós viciais os chineses para roubar-lhes a prata e chamais a isso de "direito internacional"? Se Carlota Joaquina descobre esse negócio de ópio, ela me dropa uma substância dessas na sopa para me deixar dopado o dia inteiro e governar o Brasil sozinha! É uma gramática muito esperta essa vossa, onde o contrabando vira tratado e a dependência vira progresso!

Use o código com cuidado. LORD STRANGFORD: É a gramática dos espertos, Alteza. Quem dita as regras escreve o dicionário. Vós nos entregais o monopólio do vosso comércio em troca de proteção contra os franceses; os chineses nos entregam o seu chá e a sua prata em troca do torpor que os impede de reagir. No grande teatro do mundo, há os que operam os navios e os que consomem a carga. Vossa Alteza escolheu o lado mais seguro... o lado que assina o papel. 🔫 CARREIRINHA NÚMERO TRÊS: O Exílio da Bacia de Gelo na Névoa de Londres Cenário: Um gabinete gélido em Londres, outono de 1894. Rui Barbosa digita furiosamente em uma Remington. Mrs. Higgins, a governanta inglesa, segura uma bandeja com uma xícara fumegante. MRS. HIGGINS: Mr. Barbosa, por favor! Esta já é a terceira vez que o senhor manda a criadagem esvaziar o bule de chá preto de Ceilão. O clima de Londres está a zero grau e o senhor insiste em exigir que tragam água da bica mais fria do pátio para encher essa bacia de metal! A cozinha está em polvorosa. Tome o chá, homem! Vai pegar uma pneumonia! RUI BARBOSA: Silêncio, senhora das conveniências domésticas e guardiã do torpor britânico! Julgais, em vossa augusta e simplória ignorância das ciências fisiológicas, que permitirei que o meu intelecto — este farol da resistência republicana — seja submetido às propriedades estimulantes, espúrias e artificiais dessa vossa infusão de ervas coloniais? O chá que me ofereceis com atenção quase criminosa não passa de um primo bem-vestido daquela mesma papoula nefausta com que vossos lordes anestesiaram o brio do Celeste Império! Não transigirei com a química! MRS. HIGGINS: É apenas chá, sir! Chá com leite! O próprio Primeiro-Ministro bebe! RUI BARBOSA: Pois que beba Salisbury e que se afogue em sua própria indolência imperial! Minhas vigílias literárias e jurídicas contra o marechal de ferro não dependem de alcaloides exóticos! Exijo, sim, e ordeno com a autoridade da razão, que a água de meus pés seja aquela captada no âmago mais profundo das tubulações de ferro desta metrópole, onde o frio é genuíno, cortante e mecânico! É através deste choque térmico periférico que meus pés descalços, desarmados e desprovidos de qualquer artifício têxtil, emitem nervosamente um sinal bioelétrico indelével para o cérebro central, escorraçando o sono sem corromper a alma! Ponto! MRS. HIGGINS: Pois bem! Fique aí com os seus pés congelados e sua máquina de escrever barulhenta. Se o senhor amanhecer petrificado como uma estátua de gelo do Museu de Cera de Madame Tussauds, não diga que eu não avisei. Os brasileiros são todos loucos... RUI BARBOSA: Uh!... Exce-celso!... Ide, Mrs. Higgins, ide cuidar de vossas obrigações culinárias e deixai que o gelo de Londres esmerile a pureza do meu verbo! Enquanto Floriano Peixoto julga que o exílio amordaçou o Águia de Haia, eu permaneço alerta, com o cérebro central eletrificado pela bica vitoriana, pronto para fulminar as nulidades que assaltaram a minha pátria! Publicado direto do porto de desembarque virtual. Ponto. O código já está pronto para o **Blogger**. Se você quiser expandir a experiência do blog, posso gerar o **código HTML para a seção de comentários fictícios da imprensa britânica** comentando o espetáculo ou criar os **botões personalizados de compartilhamento** no estilo Belle Époque. Como quer prosseguir?

quinta-feira, 5 de novembro de 2026

Tem Muita Ginga, Tem Muita Gente que Paga pra Ver

Luciano Pavarotti sings "Nessun dorma" from Turandot (The Three Tenors in Concert 1994)
🇵🇾 JOAJU HA TETÃRAYHU União e Amor à Pátria. A força de um povo está na união, no patriotismo e no amor à sua terra. Pelo Paraguai, pela nossa gente e pelo nosso futuro! 🇵🇾
Presidente do Paraguai, Santiago Peña, renuncia após crise bancária; Câmara decide seguir com impeachment Presidente paraguaio é alvo de processo de impeachment por crise bancária após banco virtual fechar e deixar milhares de clientes sem seu dinheiro. Peña havia assumido em 2023 e governaria até 2028. Por Redação g1 05/11/2026 13h18 Atualizado há 2 horas PARAGUAI EM CRISE: O SONHO DOS BRASILEIROS ACABOU? | Papo Antagonista - 05/11/2026 O Antagonista
O colunista Luiz Carlos Azedo analisa como o resultado das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos reflete a frustração material da população e o desgaste da agenda anti-imigração direcionada por Donald Trump contra as comunidades hispânicas. A articulação de forças moderadas e progressistas garantiu vitórias estratégicas para os democratas no Congresso, consolidando um revés político ao trumpismo e ao movimento MAGA. Para conferir a análise completa, leia no Correio Braziliense.
quinta-feira, 5 de novembro de 2026 O sonho americano, a perseguição aos hispânicos e a derrota de Trump, por Luiz Carlos Azedo Correio Braziliense A frustração material se combinou com a hostilidade dirigida às comunidades hispânicas, que catalisou o sentimento de que Trump é uma ameaça à democracia Publicado em 1909, “Martin Eden”, de Jack London (1876-1916), conta a história de um jovem marinheiro autodidata que luta para se tornar escritor. Inspirado na trajetória do autor, o romance acompanha a conquista do reconhecimento e a desilusão com uma sociedade que mede o valor dos indivíduos pelo dinheiro e pelo prestígio. Também retrata o “sonho americano” na ótica dos trabalhadores que ajudaram a construir os Estados Unidos. London escreveu o livro durante sua viagem pelo Pacífico a bordo do Snark, quando já era conhecido por “O chamado da selva”, “O lobo do mar” e “Caninos brancos”. Seu alcance ultrapassa a autobiografia. Mostra a correlações entre trabalho, nacionalidade e posição social, as contradições de um país que sempre precisou dos braços de estrangeiros enquanto estabelecia a hierarquias entre eles. Essa história é bem contada em “Nós, o povo”, de Leo Huberman (1903-1968), uma interpretação da formação dos Estados Unidos pelo trabalho e pelas disputas em torno da riqueza. A imagem do país como um grande ímã de povos traduz a realidade de que sua expansão econômica foi inseparável da chegada de milhões de pessoas de diferentes nacionalidades, religiões, profissões, culturas e condições sociais. “Gente branca, preta, amarela, de pele escura; católicos, protestantes, huguenotes, quakers, batistas, metodistas, unitarianos, judeus; espanhóis, ingleses, alemães, franceses, noruegueses, suecos, dinamarqueses, chineses, japoneses, holandeses, boêmios, italianos, austríacos, eslavos, poloneses, romenos, russos – e a lista está apenas começando; fazendeiros, mineiros, aventureiros, soldados, marinheiros, ricos, pobres, mendigos, ladrões, sapateiros, alfaiates, atores, músicos, ministros religiosos, engenheiros, escritores, cantores, cavadores de valas, industriais, açougueiros, padeiros e fabricantes de velas”, destaca Huberman. Todos abriram caminhos, ergueram cidades e transformaram costumes. A diversidade da vida norte-americana resulta desse processo, cujo êxito decorre da tradução da identidade étnica pelo sonho de uma vida melhor. É um erro, porém, desconsiderar seus conflitos. A imigração voluntária não se confunde com o tráfico de africanos escravizados, assim como a expansão territorial não apaga a expropriação dos povos indígenas. Na verdade, a hostilidade aos estrangeiros e as restrições raciais à entrada e à cidadania também fazem parte da trajetória dos Estados Unidos e suas elites, ingredientes incorporados por Trump à sua política. O estrangeiro sempre foi necessário à economia e, simultaneamente, apresentado como ameaça ao emprego, à segurança e à identidade nacional. Efeito catalisador Trump fez da imigração um instrumento de mobilização eleitoral contra o outro. Fechar as fronteiras passou a funcionar como resposta para inseguranças que nascem do custo de vida, das transformações no trabalho e da perda de perspectivas de ascensão social. A perseguição a imigrantes, porém, atingiu famílias e comunidades muito além daqueles sujeitos à deportação. Foi uma agressão ao que existe de mais profundo e antropológico no imaginário da formação do povo norte-americano. As eleições de 3 de novembro expuseram os limites dessa estratégia. Os democratas reconquistaram o Senado e a Câmara, avançando sobre territórios republicanos. James Talarico venceu no Texas; Roy Cooper conquistou a vaga da Carolina do Norte; Sherrod Brown recuperou espaço em Ohio. Kansas também mudou de lado. Inflação, denúncias de corrupção, a guerra com o Irã e a brutalidade do governo contra os hispânicos produziram uma rejeição que atravessou fronteiras sociais e partidárias. Rompeu-se a confiança nas grandes promessas feitas por Trump. O afastamento de eleitores hispânicos em redutos históricos de Trump integra esse quadro. Muitos nasceram nos Estados Unidos, em famílias estabelecidas há gerações; somente os cidadãos naturalizados podem votar nas eleições federais. Não existe um voto latino automático. Como em toda eleição, renda, religião, segurança e expectativas econômicas pesam nas escolhas. Mas acontece que a frustração material se combinou com a hostilidade dirigida às comunidades hispânicas, que catalisou o sentimento de que Trump representa uma ameaça à democracia. Prometeu prosperidade, entregou conflitos e insegurança. Surgiram novos líderes democratas. Talarico simboliza a possibilidade de disputar um estado há décadas identificado com os republicanos. Jon Ossoff, na Geórgia, ampliou sua força. Em Michigan, Jocelyn Benson emergiu na disputa pelo governo, enquanto o progressista Abdul El-Sayed avançou para o Senado. A onda azul favoreceu diferentes correntes, entre as quais a socialista, mas os democratas moderados demonstraram maior capacidade de ampliar alianças. O desafio democrata é transformar a rejeição a Trump numa maioria duradoura. O novo Congresso poderá conter iniciativas e investigar abusos, mas Trump permanece na Casa Branca. E o trumpismo conserva suas raízes, ancorado no movimento MAGA (Make America Great Again) e no “supremacismo branco” de anglo-saxões e nórdicos.
O dia em que Moraes Moreira chegou, ficou e partiu antes que a vacina nos livrasse da malchegada Covid-19

GOVERNADOR, O SENHOR PRECISA DOS VOTOS DA CIDADANIA OU DAS BÊNÇÃOS DE LULA?

Entre a legitimidade popular e a distribuição partidária do poder, uma reflexão sobre democracia, representatividade e projeto político.

A entrevista concedida pelo governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues, ao jornal O Globo, suscita uma questão que vai muito além da sucessão presidencial ou da disputa por espaços dentro do Partido dos Trabalhadores. Ela toca no fundamento da democracia representativa: a quem deve servir a política? À cidadania, que confere legitimidade pelo voto, ou às estruturas partidárias, que frequentemente confundem projeto de poder com projeto de país?

Ao afirmar que o sucessor de Luiz Inácio Lula da Silva não precisa necessariamente ser filiado ao PT, Jerônimo demonstra reconhecer que a continuidade de um projeto político pode ultrapassar os limites de uma legenda. Cita, inclusive, o vice-presidente Geraldo Alckmin como exemplo de liderança que, embora não pertença ao partido, desempenha papel relevante na atual composição política do governo.

É uma afirmação razoável. Afinal, em uma democracia plural, a capacidade de governar não deveria estar condicionada à filiação partidária, mas à legitimidade política, à competência administrativa e à identificação com um projeto capaz de atender aos interesses nacionais.

O PARADOXO DA REPRESENTATIVIDADE

Entretanto, há uma contradição interessante na entrevista. Ao defender a ampliação do campo político para a escolha do futuro sucessor de Lula, o governador também reivindica maior participação do Nordeste nas decisões do PT e na composição do próximo governo.

Argumenta que os quatro governadores petistas são nordestinos, que a região possui expressiva representação parlamentar e que a Bahia ofereceu milhões de votos à candidatura presidencial. Reconhece, corretamente, que a contribuição nordestina não deve ser reduzida a uma simples conta matemática de votos e ministérios. Mas insiste na necessidade de reconhecimento político e de maior presença regional nos espaços decisórios.

A reivindicação é legítima quando representa a necessidade de incorporar as demandas históricas e sociais do Nordeste à agenda nacional. Torna-se questionável, porém, quando a representatividade regional se confunde com a ampliação da influência de grupos partidários.

Afinal, representar o povo nordestino não é necessariamente a mesma coisa que representar os interesses do PT nordestino. A distinção é essencial.

O PARTIDO É INSTRUMENTO, NÃO PROPRIETÁRIO DO PODER

Em uma democracia representativa, os partidos são instrumentos de organização da vontade política. Os governos exercem mandatos temporários, submetidos à Constituição e ao controle da sociedade. E o cidadão, por meio do voto, permanece como titular da soberania popular.

Lula pode ter influência na escolha de seu sucessor. O PT pode discutir seus rumos, renovar suas lideranças e defender a continuidade de seu projeto. As forças regionais também podem reivindicar participação. Tudo isso pertence à dinâmica legítima da política.

Mas nenhuma dessas instâncias pode se sobrepor à vontade soberana do eleitor. A sucessão presidencial não é uma herança familiar, uma propriedade partidária ou uma concessão pessoal do atual ocupante do Palácio do Planalto.

As bênçãos de Lula podem ajudar a construir uma candidatura. A estrutura partidária pode oferecer sustentação política. As alianças podem ampliar sua viabilidade eleitoral. Mas a legitimidade democrática somente se completa nas urnas.

A CIDADANIA ACIMA DAS CONVENIÊNCIAS PARTIDÁRIAS

É justamente nesse ponto que a entrevista merece uma reflexão mais profunda. Quando um governante reivindica maior participação de seu grupo político nas decisões nacionais, deve esclarecer se está defendendo a ampliação da representação popular ou simplesmente a redistribuição de influência dentro da máquina partidária.

Não são necessariamente a mesma coisa.

O Nordeste precisa, sem dúvida, de maior atenção nas políticas públicas, nos investimentos em infraestrutura, na ciência, na educação e no desenvolvimento econômico. Precisa participar efetivamente da formulação das estratégias nacionais. Mas essa participação deve ser orientada pelas necessidades de sua população, e não apenas pelo peso eleitoral de suas lideranças.

O mesmo princípio vale para qualquer região do país. O Brasil não pode ser governado como uma federação de interesses partidários, na qual cada grupo reivindica sua parcela de cargos e influência proporcional à contribuição eleitoral que ofereceu.

A PERGUNTA QUE FICA AO GOVERNADOR

Governador, com todo o respeito: o senhor pretende governar em nome dos milhões de cidadãos que lhe confiaram o voto ou administrar sua parcela de influência na estrutura de poder do presidente Lula?

O senhor está preocupado em ampliar a representação do povo nordestino nos espaços de poder ou em ampliar a representação do PT nordestino nesses mesmos espaços?

São questões que merecem respostas claras, porque a política não pode se limitar à disputa por cargos, ministérios, posições estratégicas e reconhecimento das lideranças partidárias.

O verdadeiro reconhecimento político de uma região acontece quando sua população deixa de ser lembrada apenas nos períodos eleitorais e passa a ser contemplada, permanentemente, pelas decisões de governo.

DEMOCRACIA NÃO SE FAZ POR BÊNÇÃOS

A democracia representativa exige partidos fortes, lideranças legítimas e governos capazes de construir consensos. Mas exige, acima de tudo, que os representantes não se esqueçam de quem lhes delegou o poder.

O partido é instrumento. O governo é mandato. O cidadão é soberano.

As bênçãos do presidente podem ajudar a escolher um sucessor. As articulações partidárias podem viabilizar uma candidatura. A força regional pode influenciar os rumos de um projeto nacional.

Mas nenhuma dessas prerrogativas substitui a vontade popular.

Governador, a pergunta permanece: para exercer o poder, o senhor precisa dos votos da cidadania ou das bênçãos de seu presidente?

Em uma democracia digna desse nome, a resposta deveria ser inequívoca.

Santa Fé — Moraes Moreira, Fausto Nilo & Mano Brown no tempo

Uma fotografia, uma canção, uma imagem que aparece na ferrugem e as possibilidades da imaginação

Antes de tudo, a canção: Santa Fé

A escuta é o primeiro convite desta viagem. A canção Santa Fé, de Moraes Moreira e Fausto Nilo, abre um caminho para as imagens, lembranças e interpretações que atravessam este ensaio.

Composição: Moraes Moreira e Fausto Nilo.

♪ LER A LETRA DE SANTA FÉ

O vídeo é incorporado do canal oficial de Moraes Moreira no YouTube. A letra pode ser consultada no site Vagalume.

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1. Uma fotografia e uma descoberta

Tudo começa com uma fotografia. Nela, uma superfície metálica, marcada pelo tempo, apresenta camadas de tinta azul, verde-clara e branca, descascadas e interrompidas por manchas de ferrugem. A matéria parece guardar uma história silenciosa: a ação do clima, a passagem dos anos, o desgaste e a transformação.

Mas há algo que ultrapassa o registro de uma superfície deteriorada. Em determinada mancha de ferrugem, aparece uma forma que lembra um rosto de perfil. A imagem não foi necessariamente desenhada, planejada ou produzida por alguém. Ela parece ter surgido do encontro entre a corrosão, as cores, as irregularidades da matéria e o olhar de quem observa.

Fotografia original de superfície com tinta azul descascada e ferrugem
A fotografia original: o tempo transforma a superfície e o olhar encontra uma figura.

É nesse instante que a fotografia deixa de ser apenas uma fotografia. O olhar reconhece uma possibilidade de figura humana e começa a construir relações. A mancha passa a sugerir um personagem, uma presença, uma memória.

2. Pareidolia: quando o olhar encontra imagens

Existe um fenômeno conhecido como pareidolia: a tendência humana de reconhecer formas familiares em estímulos visuais indefinidos. Vemos rostos nas nuvens, animais nas pedras, figuras nas sombras e desenhos em superfícies manchadas.

Não significa que a figura esteja objetivamente ali, como estaria um retrato pintado. Significa que o cérebro e a imaginação participam da construção daquilo que vemos. A superfície oferece formas, contornos e contrastes; o observador completa a imagem.

Na fotografia, a mancha de ferrugem sugere um perfil que pode remeter visualmente a Mano Brown. Essa associação é uma leitura subjetiva, uma aproximação criada pelo olhar. Não se trata de afirmar que a fotografia contém um retrato real do artista, mas de explorar o que acontece quando uma imagem casual desperta uma referência cultural e afetiva.

3. A ferrugem e o tempo

A ferrugem é uma marca física do tempo. Ela aparece quando o metal reage com o ambiente e se transforma. A tinta perde aderência, a superfície se abre, as camadas se revelam. Aquilo que antes parecia uniforme passa a apresentar diferenças, acidentes e texturas.

Há uma espécie de memória material nessa transformação. A ferrugem registra uma história que não foi escrita em palavras. Cada descascamento revela uma camada anterior, como se o presente deixasse à mostra vestígios do passado.

A fotografia congela esse processo por um instante. O tempo que continua agindo sobre o objeto fica suspenso na imagem. E, ao mesmo tempo, o olhar de quem a contempla põe esse instante novamente em movimento.

O tempo modifica a matéria. O olhar modifica o sentido daquilo que a matéria apresenta.

4. Santa Fé: a canção como campo de interpretação

É nesse cenário que entra Santa Fé, composição de Moraes Moreira e Fausto Nilo. A canção oferece uma dimensão poética para a experiência visual. Sua escuta permite que a fotografia seja percebida não apenas como um objeto, mas como parte de uma reflexão sobre vida, passagem, memória e imaginação.

A música e a fotografia não precisam contar a mesma história. O encontro entre elas pode acontecer justamente porque cada uma conserva sua linguagem. A canção se desenvolve no tempo sonoro; a fotografia fixa um instante visual. Uma convoca a outra, e dessa aproximação nasce uma terceira experiência: aquela que o observador constrói.

A composição de Moraes Moreira e Fausto Nilo torna-se, assim, uma espécie de trilha para a contemplação da imagem. Não como explicação definitiva da fotografia, mas como uma chave poética possível.

5. Mano Brown: a presença de uma referência cultural

A associação visual com Mano Brown acrescenta outra camada à leitura. Sua imagem pública e sua trajetória na cultura brasileira, especialmente na história do rap, fazem com que a lembrança de seu perfil carregue significados que vão além da aparência física.

Mano Brown representa, para muitos ouvintes, uma voz ligada à experiência urbana, à observação crítica da sociedade e à expressão de realidades que durante muito tempo tiveram pouco espaço nos meios de comunicação tradicionais.

Quando a ferrugem parece sugerir seu perfil, a fotografia aproxima universos diferentes: a canção de Moraes Moreira e Fausto Nilo, a cultura do rap, a materialidade de uma parede envelhecida e a imaginação de quem observa.

Não é uma colaboração musical entre esses artistas, nem uma afirmação de que suas obras tenham sido concebidas em diálogo. É uma aproximação interpretativa, construída a partir da imagem e de suas ressonâncias culturais.

6. A inteligência artificial entra na conversa

A partir da fotografia original, surge uma nova possibilidade: pedir à inteligência artificial que desenvolva visualmente aquilo que o olhar humano percebeu como sugestão.

A IA pode trabalhar com a textura da ferrugem, os contornos sugeridos pela mancha, a tinta descascada e a atmosfera da fotografia. Pode propor uma composição mais definida, uma interpretação artística ou uma imagem simbólica que aproxime a percepção inicial de uma representação visual.

Mas é importante distinguir as coisas: a fotografia original registra uma superfície real; a imagem produzida por IA é uma interpretação construída a partir de instruções e referências. Uma não substitui a outra.

A inteligência artificial não descobre necessariamente um rosto que estivesse escondido na ferrugem. Ela participa de um processo criativo, reorganizando elementos visuais e oferecendo uma possibilidade entre muitas.

Interpretação artística inspirada na fotografia da ferrugem
Interpretação visual criada com auxílio de inteligência artificial, inspirada na fotografia original. Não é um retrato documental.

7. Do real ao ideal: o movimento da imaginação

O ponto de partida é real: uma superfície metálica, tinta descascada, ferrugem e uma fotografia. A partir daí, o olhar identifica uma semelhança, estabelece uma associação e cria uma hipótese visual.

O que era apenas uma mancha passa a ser percebido como figura. A figura lembra alguém. Essa lembrança conduz a uma referência cultural. A referência se aproxima de uma canção. A canção transforma a maneira de perceber a fotografia.

A imagem gerada por inteligência artificial pode ampliar esse percurso, mas não encerra o processo. O resultado continua aberto à interpretação.

É nesse movimento que se estabelece a relação entre o real e o ideal. O real oferece a matéria; o ideal surge como possibilidade imaginada. Entre os dois estão o tempo, a experiência humana, a memória e a capacidade de atribuir significados.

8. Uma possível sequência audiovisual

A experiência também pode ser organizada como um pequeno percurso audiovisual. Primeiro, a fotografia original aparece em silêncio, permitindo que o observador examine a superfície e descubra a mancha. Em seguida, entra a canção Santa Fé, criando uma atmosfera de escuta.

Depois, a imagem pode receber um movimento lento de aproximação, destacando a ferrugem e a forma que lembra um perfil. A interpretação visual criada com IA pode surgir em seguida, não como substituição da fotografia, mas como desdobramento da percepção.

Por fim, as duas imagens podem aparecer lado a lado: a fotografia real e sua interpretação artística. O contraste evidencia o caminho entre aquilo que existe e aquilo que imaginamos.

9. A música, a imagem e o tempo

Moraes Moreira, Fausto Nilo e Mano Brown pertencem a trajetórias artísticas distintas. A aproximação proposta aqui não pretende apagar essas diferenças. Ao contrário: é justamente o encontro entre linguagens e universos diferentes que torna a experiência interessante.

A música tem duração. Uma fotografia guarda um instante. A ferrugem revela a passagem do tempo. A imaginação cria relações entre elementos que talvez nunca tivessem sido colocados juntos.

A tecnologia acrescenta uma nova ferramenta a esse processo. Ela pode ajudar a visualizar uma ideia, mas a pergunta inicial, a escolha das referências e o sentido atribuído ao resultado continuam ligados à experiência humana.

10. O que vemos — e o que fazemos aparecer

Talvez a questão mais interessante não seja descobrir se existe realmente um rosto na ferrugem. A questão é entender por que o olhar encontrou ali uma figura e o que essa figura despertou.

A fotografia não precisa provar nada. A semelhança não precisa ser perfeita. A interpretação não precisa ser única. O valor da experiência está justamente na passagem de uma percepção espontânea para uma reflexão sobre arte, cultura, memória e tecnologia.

A superfície envelhecida oferece o acaso. O olhar encontra uma possibilidade. A música amplia a sensibilidade. A inteligência artificial propõe outra forma de representação. E o tempo atravessa tudo isso.

Talvez a arte comece exatamente nesse intervalo: entre aquilo que o mundo apresenta e aquilo que somos capazes de imaginar.

Considerações finais

Santa Fé — Moraes Moreira, Fausto Nilo & Mano Brown no tempo é uma experiência de aproximação entre linguagens. Parte de uma fotografia casual, passa pela pareidolia, encontra uma referência no universo do rap, dialoga com uma canção e experimenta as possibilidades da inteligência artificial.

Não se trata de afirmar que todos esses elementos nasceram juntos, mas de mostrar como podem se encontrar no olhar de quem observa. A ferrugem é real. A fotografia é real. A associação com um rosto é uma interpretação. A imagem produzida por IA é uma criação derivada. E a canção permanece como obra musical, aberta às experiências de cada ouvinte.

No fim, talvez a imagem mais importante não seja a que está na parede, nem a que a inteligência artificial consegue produzir. Talvez seja aquela que se forma dentro de nós quando música, memória, tempo e imaginação se encontram.

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Referências e créditos

Canção: “Santa Fé” — Moraes Moreira e Fausto Nilo.

Vídeo: Moraes Moreira — Santa Fé (Áudio Oficial) .

Letra: Santa Fé — Vagalume .

Artista: Moraes Moreira — Letras .

Fotografia original: imagem autoral que deu origem à reflexão.

Imagem interpretativa: criação com auxílio de inteligência artificial, inspirada na fotografia original. Não representa um retrato documental ou oficial de Mano Brown.

Ensaio autoral. As aproximações entre os artistas e as linguagens aqui apresentadas são interpretações propostas pelo autor.

quarta-feira, 4 de novembro de 2026

"Agora, estou sabendo que você é professor!"

Dia nacional das favelas Paralamas do Sucesso - Alagados "Agora, estou sabendo que você é professor!" Orfeu Negro (1959) Antigo e Bom "Orfeu negro", também conhecido por "Orfeu do Carnaval", é uma co-produção ítalo-franco-brasileira dirigida por Marcel Camus (França, 1912 - 1982) que adapta ao cinema a peça teatral "Orfeu da Conceição", de Vinícius de Moraes. Sendo o argumento uma releitura modernizada do mito de Orfeu e Eurídice, ambientada na época do Carnaval do Rio de Janeiro. O filme foi premiado, em 1959, com a palma de ouro no festival de cinema de Cannes e com o Óscar para o melhor filme estrangeiro em 1960 (em representação da França). Foi o primeiro e, até à data, o único, filme em língua portuguesa a ganhar um óscar. Parte da produção musical do filme ficou a cargo do conhecido compositor brasileiro Tom Jobim. Cena de Orfeu Negro Filme brasileiro de 1959





Professor de Deus
























- É, estou dando aula no Colégio Professor Oswaldo Veloso, em Santa Luzia. “Ele teria respondido há quase 60 anos, se tivesse ouvido hoje, na Avenida Rio Branco, o mesmo comentário feito por uma pessoa a outra, na própria Juiz de Fora.” AGORA, ESTOU SABENDO QUE VOCÊ É PROFESSOR! Entre Orfeu, a Avenida Rio Branco e as encruzilhadas da democracia brasileira Juiz de Fora, quarta-feira, 4 de novembro de 2026 “Agora, estou sabendo que você é professor!” — É, estou dando aula no Colégio Professor Oswaldo Veloso, em Santa Luzia. Teria respondido praticamente da mesma maneira há quase sessenta anos, se tivesse ouvido o mesmo comentário, dito por alguém a outro alguém, na Avenida Rio Branco, na mesma Juiz de Fora. Há coisas que o tempo modifica, outras que apenas desloca de lugar. A cidade muda de fisionomia, as ruas ganham novos nomes, os edifícios desaparecem, as pessoas envelhecem ou partem. Entretanto, certas conversas permanecem suspensas na memória, como se aguardassem a ocasião de serem retomadas. A lembrança do magistério, por exemplo, não se esgota na sala de aula, tampouco na identificação funcional de quem ensina. É uma maneira de olhar o mundo, de interrogar o presente e de tentar compreender o que acontece à nossa volta. Talvez seja por isso que a velha Juiz de Fora reapareça nesta conversa, acompanhada de seus personagens, suas ruas, seus poetas e suas pequenas histórias. E, para começar, nada melhor que uma viagem de volta no tempo pela música e pelo cinema. ORFEU NEGRO: UMA CIDADE, UM MITO E UMA MEMÓRIA O reencontro com Orfeu Negro, também conhecido como Orfeu do Carnaval, filme de Marcel Camus, de 1959, oferece uma espécie de chave para essa viagem. A obra, uma coprodução ítalo-franco-brasileira, inspirada na peça Orfeu da Conceição, de Vinícius de Moraes, transportou o mito grego de Orfeu e Eurídice para o ambiente do Carnaval carioca. Premiado com a Palma de Ouro em Cannes, em 1959, e com o Oscar de melhor filme estrangeiro em 1960, representando a França, tornou-se uma das produções cinematográficas brasileiras de maior repercussão internacional. A música, com a participação de Tom Jobim, ajudou a fixar no imaginário internacional uma determinada imagem do Brasil. Mas há algo mais nessa lembrança: Orfeu é aquele que desce ao mundo dos mortos para tentar recuperar Eurídice. É também, simbolicamente, aquele que procura trazer de volta aquilo que o tempo levou. A memória, em escala mais modesta e sem pretensões mitológicas, faz algo parecido. Volta às origens, procura personagens, recupera vozes e tenta encontrar, no passado, elementos que ajudem a compreender o presente. É nesse espírito que volto a Juiz de Fora. Na Rua Benjamin Constant, o Museu de Arte Murilo Mendes guarda a presença de um dos grandes nomes do modernismo brasileiro, nascido na cidade. Murilo Mendes, que veio ao mundo na antiga Rua Direita, pertence àquela linhagem de escritores para quem a memória, a imaginação e a experiência histórica não se separam. E há também Belmiro Braga, poeta e professor, cuja participação na formação de Murilo Mendes integra a memória cultural juiz-forana. A imagem do professor ad hoc, daquele que inicia outro na aventura da leitura e da descoberta, aproxima duas gerações e duas experiências da cidade. Entre a antiga Rua Direita, hoje Avenida Barão do Rio Branco, e as ruas que compõem a geografia afetiva do Alto dos Passos, a cidade oferece uma cartografia de lembranças. Nela, os nomes das vias públicas são também referências a uma história literária e intelectual que não deveria ser esquecida. É nesse cruzamento entre memória, educação e vida pública que a conversa sobre o Brasil de hoje ganha sentido.
museuraphaelarcuri 63 sem ✨ Alto dos Passos: ontem e hoje ✨ Entre ruas arborizadas e construções que testemunharam o passar das décadas, o Alto dos Passos é um bairro que mudou muito, mas ainda guarda marcas de sua história. No início, era uma região mais afastada do centro, ocupada por chácaras e casas espaçosas. Com o tempo, ganhou movimento, comércio e novos edifícios, sem perder alguns casarões que resistem como guardiões da memória. O cruzamento Avenida Barão do Rio Branco com a Rua Belmiro Braga fica localizado em Juiz de Fora (MG), próximo ao Trevo do Bom Pastor e à Rua Dom Silvério. QUATRO ARTIGOS, UMA MESMA ENCRUZILHADA A leitura de quatro textos publicados nesta quarta-feira, 4 de novembro de 2026, em veículos da chamada imprensa profissional, oferece uma oportunidade de reflexão que ultrapassa a conjuntura eleitoral. São artigos e uma entrevista assinados por profissionais reconhecidos em seus respectivos campos: Wilson Gomes, Luiz Carlos Azedo, Marcelo Godoy e Sérgio Abranches. Embora partam de objetos diferentes, todos convergem para uma questão: como transformar a vitória eleitoral em capacidade de governar, renovar as instituições e responder às mudanças profundas da sociedade brasileira? Não se trata de uma coincidência temática. Os quatro trabalhos parecem compor, involuntariamente, diferentes capítulos de uma mesma investigação sobre a democracia contemporânea. 1. WILSON GOMES: DA CIRCULAÇÃO DIGITAL À COORDENAÇÃO POLÍTICA Em O que houve de inovador no canal de WhatsApp do Exército do Lula?, publicado na Folha de S.Paulo, Wilson Gomes examina a experiência de mobilização digital organizada por André Janones. Sua interpretação distingue dois momentos da transformação da comunicação política brasileira. Em 2018, o bolsonarismo teria inovado na logística da circulação de mensagens, articulando grupos de WhatsApp, canais, influenciadores e produtores de conteúdo. Nos anos seguintes, essa experiência se transformou numa ecologia permanente de comunicação política. Em 2026, a experiência do chamado Exército do Lula teria apresentado outra inovação: a logística da coordenação. O diferencial não estaria na descoberta de uma nova tecnologia, mas na capacidade de converter indivíduos dispersos em participantes de uma ação coletiva organizada. Havia instruções, missões, objetivos, prazos e metas. Não era necessário que todos compartilhassem integralmente o repertório ideológico da esquerda. Bastava aceitar uma tarefa e participar de uma mobilização com finalidade eleitoral determinada. A contribuição analítica de Wilson Gomes está em distinguir três dimensões: Circulação: fazer uma mensagem chegar a muitas pessoas. Coordenação: fazer muitas pessoas agirem em determinada direção. Continuidade: manter uma estrutura de participação para além de uma emergência eleitoral. O autor, entretanto, deixa uma questão em aberto: será possível transformar uma mobilização de três semanas numa organização política permanente? Aqui aparece uma distinção fundamental: mobilização não é necessariamente organização política duradoura. Uma multidão pode executar tarefas com eficiência sem desenvolver autonomia, capacidade deliberativa e participação nas decisões. A experiência digital abre possibilidades, mas não resolve automaticamente o problema da formação política. 2. LUIZ CARLOS AZEDO: O CONGRESSO, O CENTRÃO E O MINISTRO DA FAZENDA Em Comando do Congresso e ministro da Fazenda definirão novo governo, publicado no Correio Braziliense, Luiz Carlos Azedo desloca a discussão para a governabilidade. Sua preocupação é compreender em que condições políticas e econômicas Lula poderá conduzir um quarto mandato. O autor destaca a importância das relações com Hugo Motta, na Câmara, e Davi Alcolumbre, no Senado, assim como as negociações com o Centrão para a composição da maioria parlamentar. A aproximação, entretanto, não representa necessariamente uma adesão programática ao projeto presidencial. Trata-se de uma convergência circunstancial entre forças que possuem bases eleitorais, interesses e prioridades diferentes. O problema é encontrar o equilíbrio entre a necessidade de construir maioria e a preservação da autonomia programática do Executivo. A discussão alcança também a distribuição de ministérios, as indicações para tribunais superiores e a relação entre os Poderes. Mas é a escolha do ministro da Fazenda que recebe atenção especial. Azedo identifica três exigências fundamentais: enfrentar a trajetória da dívida pública, melhorar a qualidade do gasto e compatibilizar as prioridades governamentais com os recursos disponíveis. O desafio é evitar dois extremos: ignorar as restrições fiscais ou transferir indiscriminadamente aos beneficiários das políticas sociais o custo do ajuste. A questão, portanto, não é simplesmente conquistar apoio parlamentar ou confiança dos mercados. É construir uma política econômica compatível com os compromissos eleitorais e com a capacidade financeira do Estado. O artigo nos leva a uma pergunta: como construir governabilidade sem permitir que a negociação parlamentar substitua o próprio programa de governo? 3. MARCELO GODOY: O PERIGO DE SE TORNAR PROFESSOR DE DEUS Em Professor de Deus, publicado em O Estado de S. Paulo, Marcelo Godoy recupera uma antiga provocação de Lula dirigida a Ciro Gomes, em 2021. A expressão serve de metáfora para uma advertência: a vitória eleitoral não pode produzir autossuficiência política. O presidente precisará ouvir diferentes correntes, reconhecer a diversidade das forças que contribuíram para sua vitória e compreender que governar exige mais do que a capacidade de mobilizar apoiadores. Godoy utiliza uma passagem de Ernst Jünger, veterano da Primeira Guerra Mundial, para ilustrar o efeito psicológico da vitória e da mobilização coletiva. Quando tudo parece perdido, a existência de uma direção comum pode produzir uma energia extraordinária. Foi essa imagem que o articulista associou à mobilização digital conduzida por Janones durante a campanha. Entretanto, a vitória encerra uma etapa e inaugura outra. Na campanha, o adversário e o objetivo podem ser claramente identificados. No governo, aparecem divergências sobre economia, segurança, orçamento, reformas e distribuição de responsabilidades. O artigo recupera ainda a defesa de José Dirceu de um pacto político nacional que permita enfrentar reformas tributárias, financeiras, políticas e do Judiciário. A referência decisiva, porém, é Max Weber. Em A política como vocação, Weber apresenta a tensão entre ética da convicção e ética da responsabilidade. O político precisa ter princípios, mas também responder pelas consequências previsíveis de suas decisões. A imagem das grossas vigas de madeira que precisam ser atravessadas representa a persistência necessária à ação política. Godoy conclui com uma advertência que serve de contraponto à euforia da vitória: governar exige determinação, mas também humildade. O presidente não pode imaginar que sua vontade, por mais legítima que seja eleitoralmente, substitui a negociação democrática. 4. SÉRGIO ABRANCHES: A CRISE DO MODELO E A REINVENÇÃO DA DEMOCRACIA Na entrevista concedida a Samuel Lima, publicada em O Globo sob o título Direita tem a chance de se desvencilhar do bolsonarismo e ir para a via democrática, Sérgio Abranches amplia consideravelmente o horizonte da discussão. Autor do conceito de presidencialismo de coalizão, formulado em artigo de 1988, Abranches examina as transformações do sistema político brasileiro. Seu diagnóstico é que o modelo tradicional de articulação entre Executivo e Legislativo está em crise. Os partidos perderam parte de sua capacidade de funcionar como intermediários sólidos entre o presidente e o Congresso. Ao mesmo tempo, a expansão das emendas parlamentares aumentou a autonomia dos parlamentares na destinação de recursos orçamentários. O presidente, assim, encontra mais dificuldades para coordenar a coalizão e executar uma agenda progressista. A entrevista também aborda a possibilidade de reorganização da direita brasileira, com o afastamento de setores democráticos do bolsonarismo. Mas a reflexão mais profunda aparece quando Abranches deixa a conjuntura parlamentar e passa a discutir as transformações econômicas e sociais. A sociedade do trabalho está mudando. A automação, a informalidade, a precarização e as novas formas de atividade econômica desafiam os mecanismos tradicionais de proteção social. O precariado e os trabalhadores da economia digital expressam necessidades que os instrumentos convencionais do Estado nem sempre conseguem atender. Há uma contradição: as formas de produzir riqueza se transformam rapidamente, enquanto os mecanismos de tributação, distribuição de renda e proteção social permanecem ancorados em estruturas anteriores. Abranches chega, então, à questão mais inquietante: a democracia terá de se reinventar diante da sociedade digital. O futuro poderá caminhar para democracias digitais ou para ditaduras digitais. Não é uma previsão inevitável, mas um alerta sobre a necessidade de renovar as instituições antes que a transformação tecnológica ultrapasse a capacidade de resposta da política. DA SALA DE AULA À DEMOCRACIA: O QUE OS QUATRO TEXTOS NOS ENSINAM? Lidos em conjunto, os quatro trabalhos oferecem uma espécie de roteiro para compreender os desafios brasileiros. Wilson Gomes examina a transformação da mobilização política. Luiz Carlos Azedo discute as condições de governabilidade. Marcelo Godoy interroga a qualidade da liderança presidencial. Sérgio Abranches investiga a crise das instituições e as transformações estruturais da sociedade. Há uma sequência bastante expressiva: A sociedade modifica suas formas de comunicação e mobilização. Essas mudanças alteram a relação entre cidadãos, partidos e representantes. O Congresso amplia seus instrumentos de poder e negociação. O Executivo precisa encontrar novas formas de construir consensos. As instituições precisam responder às transformações do trabalho, da economia e da tecnologia. A questão já não é simplesmente saber quem venceu a eleição ou quem ocupará os principais cargos do governo. É compreender se o país dispõe de instrumentos políticos, econômicos e institucionais capazes de responder às novas exigências da sociedade. A mobilização digital, por si só, não produz consciência política permanente. A maioria parlamentar, isoladamente, não garante governabilidade programática. A liderança presidencial não substitui o diálogo. E a responsabilidade fiscal não pode ser dissociada da responsabilidade social. O desafio é articular essas dimensões. A CIDADE, A MEMÓRIA E O TEMPO Volto, então, à Avenida Rio Branco. A frase que abre esta crônica — “Agora, estou sabendo que você é professor!” — parece simples, mas contém uma pequena história de reconhecimento, memória e identidade. A resposta, quase sessenta anos atrás ou hoje, não muda muito: dar aula é também continuar aprendendo. Talvez seja essa a razão de reunir, nesta mesma reflexão, o cinema de Marcel Camus, a música de Tom Jobim, a poesia de Vinícius de Moraes, a memória de Murilo Mendes, a presença de Belmiro Braga e quatro análises contemporâneas sobre a política brasileira. A cidade não é apenas o cenário das lembranças. É também o lugar de onde se observa o mundo. Juiz de Fora tem uma história intelectual que merece ser revisitada. A antiga Rua Direita, transformada na Avenida Barão do Rio Branco, o Museu de Arte Murilo Mendes na Benjamin Constant, as referências a Belmiro Braga e os caminhos do Alto dos Passos compõem uma geografia que ultrapassa a localização dos endereços. São referências de uma cidade que produziu professores, escritores, poetas, jornalistas e cidadãos que ajudaram a construir sua identidade. E é justamente a educação que permite estabelecer a ligação entre essas gerações. O professor não entrega respostas definitivas. Ajuda a formular perguntas, confrontar argumentos, reconhecer contradições e compreender que a realidade não cabe numa única explicação. Nesse sentido, a leitura crítica da imprensa profissional continua sendo uma forma de exercício da cidadania. Não se trata de concordar integralmente com os articulistas, mas de reconhecer a importância do debate público qualificado, da pluralidade de interpretações e da responsabilidade intelectual. EPÍLOGO: NÃO BASTA RECRIAR O MUNDO Orfeu desceu ao mundo subterrâneo para recuperar Eurídice, mas não conseguiu vencer as condições impostas à sua missão. A história nos lembra que nem toda vontade, por mais intensa que seja, consegue alterar o curso dos acontecimentos. A política, por sua vez, não pode prescindir da esperança, mas precisa reconhecer os limites, as contradições e as responsabilidades que acompanham qualquer projeto de transformação. O Brasil que emerge da eleição de 2026 enfrenta uma tarefa que vai muito além da composição de um ministério ou da formação de uma maioria parlamentar. Precisa renovar sua democracia, reconstruir mecanismos de representação, enfrentar as desigualdades, adaptar a proteção social às novas relações de trabalho e encontrar formas legítimas de participação na sociedade digital. Não basta mobilizar milhões de pessoas. É preciso incorporá-las à vida pública. Não basta reunir votos no Congresso. É preciso construir compromissos em torno de um projeto nacional. Não basta ter convicções. É necessário assumir a responsabilidade pelas consequências das decisões. E não basta imaginar um mundo novo. É preciso reunir as condições políticas, econômicas, sociais e institucionais para construí-lo. Talvez seja essa a melhor lição que um professor pode retirar da leitura desses quatro trabalhos e da memória de sua própria cidade: ensinar e aprender são exercícios permanentes de humildade diante da complexidade do mundo. Afinal, ninguém é professor de Deus. E a democracia, assim como a educação, não se faz de uma vez por todas. Faz-se todos os dias, com participação, conhecimento, divergência, diálogo e responsabilidade. É, estou dando aula. E continuo aprendendo. REFERÊNCIAS — IMPRENSA PROFISSIONAL GOMES, Wilson. O que houve de inovador no canal de WhatsApp do Exército do Lula? Folha de S.Paulo, 4 nov. 2026. AZEDO, Luiz Carlos. Comando do Congresso e ministro da Fazenda definirão novo governo. Correio Braziliense, 4 nov. 2026. GODOY, Marcelo. Professor de Deus. O Estado de S. Paulo, 4 nov. 2026. ABRANCHES, Sérgio. Direita tem a chance de se desvencilhar do bolsonarismo e ir para a via democrática. Entrevista a Samuel Lima. O Globo, 4 nov. 2026. REFERÊNCIAS CULTURAIS Orfeu Negro (1959), direção de Marcel Camus. Orfeu da Conceição, de Vinícius de Moraes. Trilha musical associada ao filme, com participação de Tom Jobim. A política como vocação, de Max Weber. Tempestades de Aço, de Ernst Jünger. Poesia e memória literária de Murilo Mendes e Belmiro Braga. Lili Marleen — The German Love Song Heard on Both Sides of WWII | Marlene Dietrich Tribute