sábado, 9 de maio de 2026

EXPLICAÇÃO: Eu bem que mostrei a ela, o tempo passou na janela e só Carolina não viu.

"Aqui ao menos a gente sabe que tudo é uma canalha só, lê o seu jornal, mete a língua no governo, queixa-se da vida (a vida está tão cara) e no fim dá certo. The Hard Hombre - Hoot Gibson - full length complete Western Movie BEST COPY Se meu verso não deu certo, foi seu ouvido que entortou. Eu não disse ao senhor que não sou senão poeta?"
RETRATOS Sociólogos e Sociólogas brasileiras O “Paco” Mineiro: da calçada ao mercado financeiro, a persistência da ilusão como método Em Minas Gerais, o chamado “golpe do paco” — também conhecido como “conto do paco” ou, em sentido mais amplo, como “conto do vigário” — é uma dessas engrenagens clássicas da fraude que atravessam gerações sem perder sua eficácia. Não pela sofisticação, mas justamente pelo contrário: sua força reside na simplicidade quase teatral com que mobiliza a psicologia humana. O paco, na origem, é apenas isso: um maço de papéis sem valor, cuidadosamente montado para parecer dinheiro verdadeiro. Uma nota autêntica à vista, um volume convincente nas mãos, e está pronta a encenação. O golpe se desenrola como uma pequena peça urbana — um objeto “perdido”, um estranho honesto, uma recompensa generosa — até que, no momento decisivo, a vítima é levada a trocar algo real por uma promessa ilusória. Quando percebe, já não há palco, nem atores — apenas o prejuízo. Esse mecanismo, embora rudimentar, revela um princípio duradouro: a fraude não depende apenas do engano, mas da disposição da vítima em acreditar na vantagem. A reinvenção do engano: quando o “paco” deixa de ser papel O que chama atenção no cenário contemporâneo é que essa lógica não desapareceu — ela se sofisticou. O paco deixou de ser um maço de papel para assumir formas mais abstratas, porém igualmente enganosas. Em ambientes financeiros complexos, a mesma estrutura pode ser observada sob novas roupagens: ativos sem lastro, operações opacas, estruturas jurídicas que “embalam” riscos como se fossem oportunidades. O papel picado é substituído por contratos; o elástico que prende o maço dá lugar a auditorias, relatórios e aparente conformidade técnica. A essência, contudo, permanece intacta: algo que parece sólido por fora, mas que, examinado de perto, revela-se vazio. A engenharia da aparência: onde entram a lavagem e o caixa paralelo Se no golpe de rua a encenação precisa durar poucos minutos, nas versões sofisticadas ela exige sustentação prolongada. É nesse ponto que entram mecanismos como a lavagem de dinheiro e o caixa dois. A lavagem atua como o “invólucro” moderno do paco: reorganiza fluxos financeiros, atravessa empresas e fundos, dilui origens e recompõe narrativas até que o ilícito adquira aparência de legitimidade. Já o caixa paralelo opera como infraestrutura invisível, permitindo que recursos circulem fora dos registros formais, alimentando relações, influências e garantias informais. Não se trata mais de desaparecer com uma bolsa, mas de sustentar uma ficção econômica por tempo suficiente para que ela produza efeitos reais — e, sobretudo, lucros concretos. Permanências e deslocamentos A comparação entre o paco tradicional e suas versões contemporâneas revela menos uma ruptura do que uma continuidade adaptativa. Mudam os instrumentos, ampliam-se os valores, sofisticam-se os meios — mas o núcleo permanece: a criação de uma vantagem aparente a construção de confiança circunstancial a troca entre o real e o ilusório No plano da rua, o prejuízo é imediato e individual. No plano institucional, ele pode ser difuso, tardio e coletivo — atingindo investidores, fundos e, por extensão, a própria economia. Conclusão: a anatomia da ilusão O “paco”, em qualquer de suas formas, é antes de tudo uma pedagogia do engano. Ele expõe, com clareza quase didática, como a aparência de valor pode ser construída, sustentada e, por fim, desmontada. Talvez por isso sobreviva ao tempo: porque não depende apenas de técnica, mas de algo mais profundo — a permanente tensão entre desconfiança e desejo de ganho. Entre o cálculo e a crença. No fim, seja na calçada ou no mercado financeiro, o gesto fundamental é o mesmo: alguém entrega algo concreto em troca de uma promessa bem encenada. E é nesse instante — breve, decisivo — que o paco cumpre sua função essencial: transformar ilusão em prejuízo, e aparência em realidade invertida.
sexta-feira, 8 de maio de 2026 O que o Senado votou foram os limites de seu poder, por José de Souza Martins* Valor Econômico Não era o destino de Jorge Messias que estava em julgamento, e sim o STF e o presidente da República Entretido no trabalho, eu estava apenas ouvindo de longe a transmissão do resultado da votação do nome do indicado pelo presidente da República para o STF, Jorge Messias. Tive a impressão de que já ouvira aquela voz dizendo mais ou menos a mesma coisa, muitos anos antes. Aos poucos a conexão se fez. Era a voz do senador Auro Soares de Moura Andrade, um criador de gado na região de Andradina (SP), presidente do Senado Federal. Advogado formado pela USP. Numa moda de viola de Tião Carreiro, “Rei do gado”, era exaltado pela suposta humildade de boiadeiro e pelas virtudes de caráter daí decorrentes. A moda de viola virou tema de disputa com outra moda, de Teddy Vieira, “Rei do café”, em alusão a outro fazendeiro famoso e milionário, de Ribeirão Preto. Presidia o Senado, portanto, um personagem da saga do latifúndio, herói de modas de viola. Moura Andrade, na tarde de 25 de agosto de 1961, recebeu uma inesperada carta, um bilhetinho, como eram chamados, do presidente da República, Jânio da Silva Quadros, havia sete meses no poder. Alegava pressões que lhe dificultavam governar. Renunciava, pois, ao mandato. Com notável rapidez, Andrade deu encaminhamento ao pedido de Jânio, convocou o Congresso e pôs o documento em votação. Em menos de uma hora a renúncia estava aceita. A voz enfática, clara e prepotente que eu imaginava estar ouvindo, vinda lá do passado, dissera: “Declaro vaga a Presidência da República”. Ausente o vice, na China em viagem oficial, convocava para assumi-la o presidente da Câmara dos Deputados, Ranieri Mazzilli. Começava o longo tormento da cassação de Goulart e do golpe de 1º de abril de 1964. A anomalia de origem que de vários modos afeta nossas instituições políticas até hoje. Alcolumbre, originário de um estado distante dos centros de decisão, presidente atual do Senado, anunciou a derrota do indicado pelo presidente da República para o STF com a mesma enfática euforia e imponência de seu antecessor de pouco mais de meio século, em relação à renúncia do então presidente. O episódio de agora expressa e documenta o que de fato é uma crise institucional grave, em que Jorge Messias foi indevidamente usado e sacrificado pela República inescrupulosa, independentemente das ideologias e partidos em confronto. Não era o seu destino que estava em julgamento, e sim o STF e o presidente da República. Não se tratou apenas da rejeição do indicado. Na reunião prévia para que a comissão do Senado decidisse se acataria ou não o nome para que o plenário o votasse, o nome foi aprovado. Sabendo todos que seria rejeitado. O próprio Alcolumbre viabilizou a abertura da armadilha para que nela caísse o governo e não necessariamente o candidato. A mídia daria no dia seguinte um panorama da movimentação de Alcolumbre para barrar o nome do indicado na votação decisiva. É quase impossível não ter percebido que tudo foi tramado para fazer da votação uma impugnação do presidente da República, um impeachment brando. A sessão do Senado de vários modos pode ter sido uma tentativa de continuar o golpe de 8 de janeiro de 2023. A trama parece maior do que se pensa. O senador Randolfe Rodrigues sugeriu, em entrevista, que os impasses institucionais são viabilizados pela pulverização no governo Bolsonaro, abúlico e omisso. Entregou o poder ao ministro da Economia. Deixou o restante ao Congresso Nacional, que se fragmentou em disputas de fatias com o Executivo. Múltiplas trocas de votos, de favores e de recursos para alimentar as bases provinciais da representação política. Um retrocesso na estrutura das instituições políticas. Um debilitamento grave da democracia em favor de uma multiplicidade de focos de poder pessoal e local. O poder central declina. Não poucos dos que têm opinado sobre essa crise indicam seus efeitos colaterais e mesmo o rebote sobre seus autores. Que existirão independentemente das más intenções que envenenam o sistema político brasileiro. Parece que tudo decorre de que há muita gente alarmada com as investigações sobre o caso do Banco Master. Os que não terão como dormir em paz depois do que significa politicamente a rejeição da indicação para o STF. Como não teriam como dormir em paz se o indicado tivesse sido aprovado. O que o Senado votou foram os limites de seu poder e os indícios de sua própria vulnerabilidade. Porque as irregularidades praticadas no poder acabam escapando pelo meio dos dedos dos que as praticam. O “Você sabe com quem está falando?” como afirmação de autoridade e intimidação dá certo durante certo tempo, mas não todo o tempo. O poderoso acaba acordando um dia para a realidade das instituições, e com o meirinho a bater à porta de sua casa: “Tem gente?”. *José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar, da Universidade de Cambridge e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador Emérito do CNPq. Membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de Escravidão, em Genebra (1996-2007. Entre outros livros, é autor de “Desavessos” (Editora Com Arte). Juristas divergem sobre poder do Senado em indicações ao STF Jovem Pan News 2 de mai. de 2026 #JovemPan #JornalJovemPan A rejeição do nome de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal reacendeu o debate sobre o papel do Senado nas indicações à Corte. Juristas divergem sobre os limites e a atuação da Casa Alta no processo de aprovação de ministros, levantando discussões jurídicas e políticas sobre possíveis mudanças no modelo atual. O Senado, o rito e o limite: quando a forma revela a crise Há momentos em que o ritual institucional deixa de ser apenas procedimento e se transforma em linguagem. Não se trata mais do conteúdo imediato da decisão, mas do que ela revela sobre a estrutura do poder. A rejeição de um nome ao Supremo Tribunal Federal, nesse sentido, ultrapassa o destino individual do indicado e passa a operar como um signo — um gesto carregado de implicações que vão além do episódio. A evocação histórica não é casual. Quando a memória política remete à declaração de vacância da Presidência em 1961, não se está apenas reconstruindo um fato, mas iluminando uma lógica recorrente: a de decisões formalmente legítimas que, no entanto, deslocam o eixo do poder e produzem efeitos que se prolongam muito além de seu instante. Naquele momento, a voz que proclamava a vacância não apenas descrevia uma ausência — ela inaugurava uma sequência. O rito cumprido com rapidez exemplar abriu caminho para uma instabilidade cuja reverberação atravessaria anos e instituições. A forma, ali, não era neutra. A encenação do previsível No episódio contemporâneo, o que se observa é um fenômeno semelhante sob outra gramática. A tramitação que antecede a rejeição — aprovação prévia em comissão, articulações conhecidas, desfecho antecipado — sugere não um erro de cálculo, mas uma coreografia deliberada. A institucionalidade, nesse caso, não falha; ela funciona precisamente como instrumento. O rito é preservado, mas orientado. O resultado não surpreende, apenas se consuma. É nesse ponto que a análise se desloca: não se trata de avaliar a adequação do nome indicado, mas de compreender o uso político do processo. A votação, mais do que decidir sobre uma pessoa, parece ter operado como um mecanismo de delimitação de forças — um gesto dirigido ao Executivo e, por extensão, ao próprio Supremo. Fragmentação e deslocamento do poder O pano de fundo dessa dinâmica é um processo mais amplo de redistribuição do poder político. A fragmentação do sistema, intensificada nos últimos anos, produziu um deslocamento significativo: o centro decisório tornou-se difuso. O Executivo, esvaziado em determinadas funções de coordenação, passa a negociar em múltiplas frentes. O Legislativo, por sua vez, deixa de atuar apenas como instância deliberativa e assume funções de arbitragem e imposição. O resultado é uma multiplicidade de centros de poder que operam simultaneamente — muitas vezes sem convergência, frequentemente em tensão. Nesse ambiente, decisões institucionais deixam de ser apenas técnicas e passam a ser, cada vez mais, instrumentos de afirmação de autonomia e, por vezes, de confronto. O subtexto das investigações Há ainda um elemento subterrâneo que atravessa o episódio: o contexto das investigações em curso. Em momentos de exposição potencial, o sistema político tende a reagir de forma preventiva ou defensiva. A rejeição de um nome ao Supremo, nesse cenário, pode ser interpretada também como movimento tático — não necessariamente linear, mas inserido em uma rede de interesses, receios e antecipações. A política, nesses casos, opera menos pela clareza dos objetivos declarados e mais pela opacidade dos efeitos pretendidos. O resultado é um ambiente em que decisões institucionais carregam múltiplas camadas de significado, muitas delas não explicitadas, mas perceptíveis na convergência dos movimentos. O voto como espelho Dizer que o Senado votou os limites de seu poder é reconhecer que, ao exercer sua prerrogativa, ele também se expôs. Toda afirmação de força institucional traz consigo um risco correspondente: o de revelar fragilidades. O poder que se afirma de forma enfática é, muitas vezes, o mesmo que se vê obrigado a testar seus próprios contornos. Ao impor uma derrota ao Executivo, o Senado delimita sua capacidade de interferência — mas também evidencia a necessidade constante de sustentá-la. Há, portanto, um efeito reflexivo: a decisão que atinge o outro retorna, em alguma medida, sobre quem a produz. Conclusão: entre o gesto e suas consequências A política institucional raramente se esgota no ato que a torna visível. O gesto — seja uma declaração de vacância, seja a rejeição de uma indicação — é apenas o ponto de partida de um processo mais amplo, cujas consequências se desdobram no tempo. O que se observa, nesse episódio, é menos uma ruptura isolada do que a continuidade de uma dinâmica: a de instituições que operam sob tensão, em um equilíbrio instável entre prerrogativa e excesso, entre autonomia e disputa. No limite, permanece a advertência implícita: o poder que se exerce sem medida acaba por revelar, ele próprio, os contornos de sua limitação. E, como na imagem final evocada, há sempre o momento em que a formalidade cede lugar à realidade — quando o rito já não protege, e a porta, enfim, é batida. Rei do Gado Tião Carreiro e Pardinho Num bar de Ribeirão Preto Eu vi com meus olhos esta passagem Quando champanha corria a rodo No alto meio da grã-finagem Nisto chegou um peão Trazendo na testa o pó da viagem Pro garçom ele pediu uma pinga Que era pra rebater a friagem Levantou um almofadinha e falou pro dono Eu tenho má-fé Quando um caboclo que não se enxerga Num lugar deste vem pôr os pés Senhor que é o proprietário Deve barrar a entrada de qualquer E principalmente nessa ocasião Que está presente o Rei do Café Foi uma salva de palma Gritaram viva pro fazendeiro Quem tem bilhões de pés de cafés Por este rico chão brasileiro Sua safra é uma potência Em nosso mercado e no estrangeiro Portanto vejam que este ambiente Não é pra qualquer tipo rampeiro Com um modo bem cortês Responde o peão pra rapaziada Essa riqueza não me assusta Topo em aposta qualquer parada Cada pé desse café Eu amarro um boi da minha invernada E pra encerrar o assunto eu garanto Que ainda me sobra uma boiada Foi um silêncio profundo O peão deixou o povo mais pasmado Pagando a pinga com mil cruzeiro Disse ao garçom pra guardar o trocado Quem quiser meu endereço Que não se faça de arrogado É só chegar lá em Andradina E perguntar pelo Rei do Gado Composição: Teddy Vieira. O duelo na viola: quando o poder desafina — e se revela Se, no plano institucional, o que se viu foi um jogo de força travado sob a liturgia do cargo, no plano simbólico — como bem sugere a memória evocada — talvez tudo já estivesse dito há muito tempo, na cadência de uma viola. Ali, no encontro entre o Rei do Gado e o Rei do Café, não se trata apenas de bravata rural ou folclore musical. O que se encena é uma disputa de legitimidades: riqueza contra origem, poder contra experiência, aparência contra substância. E, sobretudo, o eterno esforço de cada um em afirmar sua grandeza diante do outro. O fazendeiro do café, cercado de aplausos e cifras, representa o poder instituído — reconhecido, celebrado, protegido pelo ambiente que o legitima. Já o peão, que entra com o pó da estrada e pede apenas uma pinga, traz consigo algo mais difícil de medir: a autoridade que não depende de anúncio. Quando responde, não nega a riqueza alheia — apenas a relativiza. E o faz com uma frase que desmonta a encenação: para cada pé de café, ele amarra um boi. Traduzindo: para cada símbolo de poder, há um lastro que o sustenta — ou deveria sustentar. A réplica: o limite da arrogância Na resposta do Rei do Café, o tom muda. Já não há aplauso fácil, mas um chamado à medida. Ele recusa o papel de mero espectador da própria exaltação e introduz um elemento ausente na primeira cena: a consciência de limite. Ser rei, lembra ele, exige mais do que poder — exige educação. E educação, aqui, não é formalidade, mas contenção. É saber que a autoridade que se impõe sem freio acaba por se esvaziar. O duelo, então, deixa de ser confronto e se aproxima de uma lição: ambos dependem da mesma terra, do mesmo chão que sustenta café e boi. A disputa, levada ao extremo, não produz grandeza — produz desgaste. Entre Brasília e Ribeirão: a mesma lógica, outra escala Transposta para o cenário institucional, a metáfora é inevitável. O que se vê nos embates contemporâneos entre poderes não está distante dessa lógica sertaneja: atores que, cercados por suas próprias plateias, amplificam gestos, elevam o tom e testam os limites uns dos outros. Há sempre aplausos — internos, estratégicos, momentâneos. Há sempre a tentação da demonstração pública de força. E há, quase sempre, o risco de esquecer que o poder, quando excessivamente afirmado, começa a revelar sua própria fragilidade. Como no bar de Ribeirão Preto, o ambiente pode parecer controlado — até que alguém de fora da encenação introduz uma variável inesperada: a realidade. Conclusão: a sabedoria que desafina a prepotência No fim, o que a viola ensina — com ironia mansa e precisão quase cirúrgica — é que nenhuma autoridade se sustenta apenas no grito ou no aplauso. O poder que precisa se afirmar a todo instante talvez já esteja, em alguma medida, sendo contestado. Entre o boi e o café, entre o voto e o veto, entre o rito e a manobra, permanece a mesma advertência, dita sem pressa, como quem conhece o tempo das coisas: quem aposta alto demais no próprio poder corre o risco de descobrir, tarde demais, que estava jogando sozinho. E, quando a música para, não é o aplauso que fica — é o silêncio. Rei do Café Zé Carreiro e Carreirinho Para o senhor rei do gado aqui vai minha resposta O que eu penso a seu respeito eu não digo pelas costas O senhor saiu do bar sem ouvir minha proposta Saiba que este seu criado não tem medo de aposta Quem já escorregou na vida em qualquer galho se encosta O que disse o almofadinha por mim não foi endossado Se eu quisesse lhe ofender não ia lhe mandar recado Quem mexe com marimbondo deve esperar o resultado Creio que o senhor se esquece meu amigo rei do gado Que um rei para ser rei precisa ser muito educado É coisa que eu acho feio um rico fazer cartaz Não me acanho em lhe dizer que eu já fui peão em Goiás Já montei em burro xucro até de cara pra trás Se eu tirar minha camisa no peito mostro os sinais De guampas de boi cuiabano foi na zona dos pantanais Quando eu vejo um cafezal e um poeirão de uma boiada Me orgulho ser imigrante nessa terra abençoada Também já tomei cachaça tirando boi de arribada Se a balança do Brasil por café for ameaçada Eu corto meus cafezais, transformo tudo em invernada Deixe de apostar amigo, não queira dar um passo errado Vamos lutar ombro a ombro por este solo abençoado Apesar de eu ser estrangeiro nele eu quero ser enterrado Onde brota o ouro verde, nosso café afamado Que da glórias pro Brasil além de fronteira pro outro lado Composição: Carreirinho, Teddy Vieira.
Viola de bolso: Mais uma vez encordoada Capa dura – 27 fevereiro 2023 por Carlos Drummond de Andrade (Autor) Viola de bolso , reunião de poemas de Carlos Drummond de Andrade lançada nos anos 1950, chega a sua terceira edição, com 25 poemas inéditos nas edições anteriores. Uma das joias que marcam o retorno do poeta Carlos Drummond de Andrade ao catálogo da Editora José Olympio é sem dúvida a nova edição de Viola de bolso . Lançado originalmente em 1952, pelo Ministério da Educação e Saúde, o livro teve segunda edição pela Livraria José Olympio Editora, em 1955, com adição de 56 novos poemas, totalizando 91. Esta terceira edição, de 2022, reúne os poemas da segunda – acrescidos de marcas de revisão feitas à mão por Drummond em seu exemplar – e inclui novas peças, 25 poemas inéditos nas edições anteriores, recentemente encontradas pelos netos do poeta. Esses poemas, que haviam sido organizados pelo próprio autor em uma pasta intitulada “Viola de bolso (nova)”, aparecem também em versão fac-similar. Tanto para estudiosos de Drummond quanto para leitores de poesia, é possível observar as mudanças feitas em certos poemas de uma edição para a outra. Mudanças que mostram a preocupação do poeta com seus escritos e que provam como uma criação literária é um processo contínuo, que nunca se dá por acabado. Além de a nova edição apresentar um projeto gráfico caprichado, em capa dura, será uma experiência muito proveitosa ler os escritos que Drummond reúne em Viola de bolso. O livro é uma espécie de inventário sentimental do poeta em homenagem a lugares, afetos, pensamentos e, em sua maioria, a pessoas próximas; amigos, artistas e personalidades importantes – dentre estes, o próprio José Olympio –, que conquistaram o coração do grande escritor itabirano. As dedicatórias compõem uma constelação que evidencia a rara destreza de Drummond para construir belas peças poéticas amarradas à própria vida.
Entre o Paco, o Poder e a Viola: anatomia da ilusão no Brasil contemporâneo Sexta-feira, 9 de maio de 2026 I. O “paco” mineiro: a pedagogia do engano Em Minas Gerais, o chamado golpe do paco — também conhecido como conto do paco ou, em sentido mais amplo, conto do vigário — atravessa o tempo como uma forma quase didática de fraude. Sua permanência não se explica pela sofisticação, mas pela eficácia de um mecanismo simples: transformar aparência em valor. O paco é um maço de papéis sem valor que simula dinheiro verdadeiro. Uma nota autêntica exposta, um volume convincente, e está montado o cenário. O golpe segue um roteiro conhecido: um objeto “perdido” surge no caminho da vítima um terceiro encena honestidade uma recompensa é prometida uma garantia é exigida o real é trocado pelo ilusório Quando a encenação termina, resta apenas o prejuízo. O que está em jogo não é apenas o engano, mas algo mais profundo: a disposição humana de acreditar na vantagem. II. Da calçada ao mercado: o “paco” como método Se a versão tradicional do golpe se resolve em minutos, sua lógica, no entanto, não se limita à rua. Ela reaparece, com novas roupagens, em ambientes muito mais complexos. No plano financeiro, o paco deixa de ser papel e passa a assumir a forma de: ativos sem lastro estruturas jurídicas opacas operações revestidas de aparente legitimidade O princípio permanece: algo que parece sólido por fora, mas que, examinado com rigor, revela-se vazio. Nesse contexto, mecanismos como lavagem de dinheiro e caixa dois funcionam como o novo invólucro do engano. Sustentam a aparência, prolongam a encenação e permitem que a ilusão produza efeitos concretos antes de se dissipar. A diferença central está na escala: o que antes atingia indivíduos passa a impactar instituições, fundos e, em última instância, o próprio sistema econômico. III. O rito e o poder: quando a forma revela a crise No plano político, a lógica da aparência também se manifesta — não mais como fraude direta, mas como disputa institucional. A rejeição de uma indicação ao Supremo Tribunal Federal não é apenas um ato administrativo. É um gesto carregado de significado. Como observou o sociólogo José de Souza Martins, não estava em julgamento apenas um nome, mas o próprio equilíbrio entre os poderes. A evocação histórica de Auro Soares de Moura Andrade, ao declarar vaga a Presidência em 1961 após a renúncia de Jânio Quadros, não é mero recurso retórico. Ela aponta para uma constante da vida política brasileira: decisões formalmente legítimas que produzem efeitos desproporcionais e duradouros. No episódio atual, a coreografia institucional sugere cálculo: aprovação prévia rejeição anunciada articulação conhecida O rito foi preservado. O resultado, conduzido. Não se trata apenas de decisão — mas de demonstração. IV. Fragmentação e encenação O pano de fundo é um sistema político fragmentado, no qual o poder deixou de ter um centro claro. Executivo e Legislativo operam em tensão constante, muitas vezes mais preocupados em delimitar espaços do que em construir convergência. Nesse ambiente: o gesto pesa mais que o conteúdo a afirmação de força substitui a coordenação o conflito se torna método E, como no golpe do paco, a aparência pode, por algum tempo, sustentar a realidade. V. A viola como síntese: poder, limite e ironia Muito antes das análises políticas, a cultura popular já havia captado essa lógica. No duelo entre o Rei do Gado e o Rei do Café, eternizado por Tião Carreiro e Pardinho e Zé Carreiro e Carreirinho, encena-se algo mais do que uma disputa rural: trata-se de uma reflexão sobre poder e medida. 🎵 Rei do Gado — Tião Carreiro & Pardinho Num bar de Ribeirão Preto Eu vi com meus olhos esta passagem Quando champanha corria a rodo No alto meio da grã-finagem (...) Cada pé desse café Eu amarro um boi da minha invernada E pra encerrar o assunto eu garanto Que ainda me sobra uma boiada 🎵 Rei do Café — Zé Carreiro & Carreirinho Para o senhor rei do gado aqui vai minha resposta O que eu penso a seu respeito eu não digo pelas costas (...) Creio que o senhor se esquece meu amigo rei do gado Que um rei para ser rei precisa ser muito educado VI. Conclusão: o poder, como o paco, depende de quem acredita Do golpe de rua ao mercado financeiro, do rito institucional ao duelo na viola, o que se observa é a persistência de uma mesma estrutura: a construção de uma aparência capaz de sustentar, ainda que provisoriamente, uma realidade. O paco ensina que o valor pode ser simulado. A política mostra que o poder também pode. Mas há um limite. Como na resposta do Rei do Café, chega o momento em que a medida se impõe à exibição. Em que o poder precisa mais do que aplauso — precisa de lastro. E é nesse ponto que a ironia popular alcança a análise mais sofisticada: nem todo maço é dinheiro, nem todo poder é sólido — e, cedo ou tarde, alguém abre o pacote. Carolina Quarteto em CY Composição: Chico Buarque de Holanda. quinta-feira, 7 de maio de 2026 O tempo passou e Lula não viu, por Paulo Celso Pereira* O Globo Não existe mais o Congresso com que ele lidou em seus primeiros mandatos, quando a Presidência tinha poder imperial Lula testou a água por três vezes. Na primeira, emplacou seu advogado pessoal Cristiano Zanin, que liderou com sucesso a campanha para desmonte da Lava-Jato. Depois, veio Flávio Dino, seu ministro da Justiça e por 15 anos um dos maiores expoentes do PCdoB. Na terceira vez, optou por Jorge Messias, um discreto procurador da Fazenda que se tornou conhecido nacionalmente pela confiança que Lula e a ex-presidente Dilma Rousseff depositavam nele, a ponto de torná-lo emissário da carta que garantia a nomeação do líder petista como ministro no auge da Lava-Jato. O Senado, de inclinação oposicionista, não aprovou o terceiro companheiro. A soberba é a véspera do erro, diz o ditado, e só ela explica o fato de Lula ter ignorado avisos de aliados e as enormes diferenças que separavam essa escolha das anteriores. Messias tem trajetória jurídica menos reluzente que Zanin e Dino, mas semelhante à de Dias Toffoli ao ser indicado à Suprema Corte. Sozinha, não seria impeditivo para sua aprovação, não fossem dois fatos que o presidente menospreza desde o início do terceiro mandato: tanto a sociedade brasileira quanto os três Poderes mudaram radicalmente desde 2010, quando ele desceu a rampa apoiado por 83% dos brasileiros. Não existe mais o Congresso com que Lula lidou em seus primeiros mandatos, quando a Presidência tinha poder imperial, e os parlamentares faziam fila na porta de um subsecretário para implorar a liberação de tostões para seus redutos. O Congresso se apoderou do orçamento público, sem partilhar responsabilidade na gestão, e os parlamentares hoje têm autonomia para dizer “não” ao Planalto, seja para atender a outros acordos pouco republicanos, seja para representar legitimamente um eleitorado que pendulou à direita. Quando indicou Zanin e Dino, Lula ainda vivia a trégua tradicionalmente oferecida ao vencedor no primeiro ano de mandato. No comando do Senado, estava o moderado Rodrigo Pacheco. Ao escolher o nome para a vaga aberta por Luís Roberto Barroso, Lula teria de dialogar com o voraz Davi Alcolumbre e garantir o apoio de ao menos parte de uma bancada de senadores que vota fazendo stories para o eleitor que vai às urnas em outubro. Lula demorou 42 dias para escolher o nome de seu indicado e optou por alguém sem qualquer outro padrinho. Quando o presidente do Senado anunciou que faria uma tramitação célere para a indicação, dando pouco tempo para Messias se articular, Lula manobrou e decidiu adiar o envio da mensagem já anunciada. Alcolumbre estrilou, mas ficou publicamente derrotado naquela batalha. Só não esqueceu. A lentidão presidencial fez o tema ficar quatro meses em banho-maria, lançando a análise da indicação para o período pré-eleitoral num país dividido, com o caso Master assombrando Brasília e num Senado em que a oposição parte de 30 votos. Bastou Alcolumbre se movimentar sem alarde, até participando risonho de eventos no Planalto, para garantir a primeira rejeição de um nome indicado ao STF em 132 anos. A visão histórica sobre o que representa a derrota, no entanto, será definida pelo que pode significar para o futuro do país. Nos próximos dias ou semanas, Lula deverá exercer sua prerrogativa de indicar outro nome ao STF. Seja adotando uma estratégia de enfrentamento, seja optando pela conciliação, não terá desculpas para deixar de se engajar intensamente nas negociações, algo que não fez durante a busca de Messias por votos. Caso perca essa indicação, Lula transformará a eleição de outubro num vale-tudo ainda maior do que já se anuncia. Os eleitores não escolherão “apenas” quem comandará o país pelos próximos quatro anos, mas também se liberdades individuais e políticas públicas estabelecidas há décadas poderão ser revertidas por uma nova maioria construída pelas quatro vagas que serão abertas até o fim de 2030 no Supremo. A possibilidade de desmonte do Estado brasileiro como conhecemos poderá se tornar a plataforma preferencial de aventureiros. E a sobrevivência deste, a tábua de salvação de quem já não tem grandes novidades a oferecer. *Paulo Celso Pereira é editor executivo do GLOBO Explicação Meu verso é minha consolação. Meu verso é minha cachaça. Todo mundo tem sua, cachaça. Para beber, copo de cristal, canequinha de folha-de-flandres, folha de taioba, pouco importa: tudo serve. Para louvar a Deus como para aliviar o peito, queixar o desprezo da morena, cantar minha vida e trabalhos é que faço meu verso. E meu verso me agrada. Meu verso me agrada sempre... Ele às vezes tem o ar sem-vergonha de quem vai dar uma cambalhota mas não é para o público, é para mim mesmo essa cambalhota. Eu bem me entendo. Não sou alegre. Sou até muito triste. A culpa é da sombra das bananeiras de meu pais, esta sombra mole, preguiçosa. Há dias em que ando na rua de olhos baixos para que ninguém desconfie, ninguém perceba que passei a noite inteira chorando. Estou no cinema vendo fita de Hoot Gibson, de repente ouço a voz de uma viola... saio desanimado. Ah, ser filho de fazendeiro! A beira do São Francisco, do Paraíba ou de qualquer córrcgo vagabundo, é sempre a mesma sen-si-bi-li-da-de. E a gente viajando na pátria sente saudades da pátria. Aquela casa de nove andares comerciais é muito interessante. A casa colonial da fazenda também era... No elevador penso na roça, na roça penso no elevador. Quem me fez assim foi minha gente e minha terra e eu gosto bem de ter nascido com essa tara. Para mim, de todas as burrices a maior é suspirar pela Europa. A Europa é uma cidade muito velha onde só fazem caso de dinheiro e tem umas atrizes de pernas adjetivas que passam a perna na gente. O francês, o italiano, o judeu falam uma língua de farrapos. Aqui ao menos a gente sabe que tudo é uma canalha só, lê o seu jornal, mete a língua no governo, queixa-se da vida (a vida está tão cara) e no fim dá certo. Se meu verso não deu certo, foi seu ouvido que entortou. Eu não disse ao senhor que não sou senão poeta? De Alguma poesia (1930) Carlos Drummond de Andrade

O evangelho e a mulher

Black Orpheus - Samba de Orfeu guardi Taken from the film "Black Orpheus (Orfeu Negro)" (1959) directed by Marcel Camus “Assim devem os maridos amar a suas próprias mulheres, como a seus próprios corpos. Quem ama a sua mulher, ama-se a si mesmo.” — Paulo. (EFÉSIOS, 5.28)
Arquétipos Anima e Animus 1 Muita vez, o apóstolo dos gentios tem sido acusado de excessiva severidade para com o elemento feminino. 2 Em alguns trechos das cartas que dirigiu às igrejas, Paulo propôs medidas austeras que, de certo modo, chocaram inúmeros aprendizes. 3 Poucos discípulos repararam, na energia das palavras dele, a mobilização dos recursos do Cristo, para que se fortalecesse a defesa da mulher e dos patrimônios de elevação que lhe dizem respeito. 4 Com Jesus, começou o legítimo feminismo. Não aquele que enche as mãos de suas expositoras com estandartes coloridos das ideologias políticas do mundo, mas que lhes traça nos corações diretrizes superiores e santificantes. 5 Nos ambientes mais rigoristas em matéria de fé religiosa, quais o do Judaísmo, antes do Mestre, a mulher não passava de mercadoria condenada ao cativeiro. Vultos eminentes, quais Davi e Salomão, não conseguiram fugir aos abusos de sua época nesse particular. 6 O Evangelho, porém, inaugura nova era para as esperanças femininas. Nele vemos a consagração da Mãe Santíssima, a sublime conversão de Madalena a dedicação das irmãs de Lázaro, o espírito abnegado das senhoras de Jerusalém que acompanham o Senhor até o instante extremo. 7 Desde Jesus, observamos crescente respeito na Terra pela missão feminil. Paulo de Tarso foi o consolidador desse movimento regenerativo. 8 Apesar da energia áspera que lhe assinala as palavras, procurava levantar a mulher da condição de aviltada, confiando-a ao homem, na qualidade de mãe, irmã, esposa ou filha, associada aos seus destinos e, como criatura de Deus, igual a ele. Emmanuel Texto extraído da 1ª edição desse livro. Pão Nosso #093 - O Evangelho e a mulher NEPE Paulo de Tarso | Evangelho e Espiritismo Transmitido ao vivo em 28 de mar. de 2023 Série de estudos, com Artur Valadares, da obra "Pão Nosso", de Emmanuel/Chico Xavier. 93 O evangelho e a mulher
Depois da morte Capa comum – Agenda, 1 outubro 2018 por Léon Denis (Autor) As horas correm. Lá embaixo, a cidade já se levantou, preguiçosa. O jovem continua a leitura página-a-página. As lições caem-lhe no Espírito ávido com naturalidade. Sem os atropelos da dúvida. A segunda parte do livro arranca-lhe incontidas lágrimas de emoção. Jamais sentira em autor algum a alta significação do Amor e da Sabedoria de Deus. “Jamais vi alguém cantar as glórias da Criação com tamanha profundidade e beleza.” Estas palavras de Eurípedes numerosas vezes repetidas, expres- sam-lhe o grande respeito votado à obra de Léon Denis. Na Literatura Religiosa, que folheava frequentemente, nunca, até então, encontrara um cérebro que exprimisse a magnificência da Obra Divina, com o brilho e a profundidade desse autor. Com a força suave e bela da Poesia, o filósofo estrutura novo e racional sentido para os atributos de Deus. Quando desceu o morro verdejante, Eurípedes revivia os primeiros arrebatamentos, que a literatura espírita lhe proporcionava e que se repetiriam, no futuro, pelas mãos fraternas de “tio Sinhô”. NOTA – Depoimentos de: José Rezende da Cunha e Edalides M. Rezende – S. Carlos, SP; Viúva Jovino Gonçalves de Araújo – Santa Maria, MG; Ranulfo G. Cunha – Santa Maria, MG; e Amália Ferreira de Mello (arquivo pessoal), desencarnada em Sacramento, MG. Eurípedes – o Homem e a Missão 77
O Evangelho segundo o Espiritismo > Capítulo XVI — Não se pode servir a Deus e a Mamon > Parábola dos talentos > 6 6. O Senhor age como um homem que, tendo de fazer longa viagem fora do seu país, chamou seus servidores e lhes entregou seus bens. – Depois de dar cinco talentos a um, dois a outro e um a outro, a cada um segundo a sua capacidade, partiu imediatamente. – Então, o que recebeu cinco talentos foi-se, negociou com aquele dinheiro e ganhou cinco outros. – O que recebera dois ganhou, do mesmo modo, outros tantos. Mas o que apenas recebera um cavou um buraco na terra e aí escondeu o dinheiro de seu amo. – Passado longo tempo, o amo daqueles servidores voltou e os chamou a contas. – Veio o que recebera cinco talentos e lhe apresentou outros cinco, dizendo: Senhor, entregaste-me cinco talentos; aqui estão, além desses, mais cinco que ganhei. – Respondeu-lhe o amo: Servidor bom e fiel; pois que foste fiel em pouca coisa, confiar-te-ei muitas outras; compartilha da alegria do teu senhor. – O que recebera dois talentos apresentou-se a seu turno e lhe disse: Senhor, entregaste-me dois talentos; aqui estão, além desses, dois outros que ganhei. – O amo lhe respondeu: Bom e fiel servidor; pois que foste fiel em pouca coisa, confiar-te-ei muitas outras; compartilha da alegria do teu senhor. – Veio em seguida o que recebeu apenas um talento e disse: Senhor, sei que és homem severo, que ceifas onde não semeaste e colhes de onde nada puseste; – por isso, como te temia, escondi o teu talento na terra; aqui o tens: restituo o que te pertence. – O homem, porém, lhe respondeu: Servidor mau e preguiçoso; se sabias que ceifo onde não semeei e que colho onde nada pus – devias pôr o meu dinheiro nas mãos dos banqueiros, a fim de que, regressando, eu retirasse com juros o que me pertence. – Tirem-lhe, pois, o talento que está com ele e dêem-no ao que tem dez talentos; – porquanto, dar-se-á a todos os que já têm e esses ficarão cumulados de bens; quanto àquele que nada tem, tirar-se-lhe-á mesmo o que pareça ter; e seja esse servidor inútil lançado nas trevas exteriores, onde haverá prantos e ranger de dentes. (S. MATEUS, 25:14 a 30.)
Selecione os pensamentos. Quando você seleciona o que pensa, a vida também seleciona para você o que há de melhor.
583-a. Se um filho se torna homem de bem, a despeito da negligência ou dos maus exemplos de seus pais, tiram estes alguns proveito disto? "Deus é justo." LIVRO II - CAPÍTULO X p. 340
De acordo com o pensamento teológico, pode-se dizer que a suprema divindade, ou seja, Deus, ao ver sua criatura predisposta a receber seu benefício, infunde nela tanto mais intensamente quanto mais estiver disposta a recebê-lo. Como esses dons provêm de inefável caridade e como a divina caridade seja próprio do Espírito Santo, esses benefícios são chamados dons do Espírito Santo. Segundo a distinção que deles faz o profeta Isaías, são sete: sabedoria, entendimento, conselho, fortaleza, ciência, piedade e temor de Deus. Oh! Belos grãos e boa e admirável semente! Oh! Admirável e benigno semeador que não beneficia senão a natureza humana que lhe prepara a terra a semear! Felizes daqueles que cultivam essa semente como convém! Deve-se saber que o primeiro e mais nobre broto que germina dessa semente, para tornar-se frutífero, necessita do apetite da alma, que em 193 Coleção Grandes Obras do Pensamento Universal grego é designado “hormen”. Se esse não for bem cultivado e mantido reto pelos bons costumes, de pouco vale a semente e seria melhor não ser terreno semeado. Por isso é que santo Agostinho, bem como Aristóteles no segundo livro da Ética, insistem que o homem deva empenhar-se em fazer o bem e refrear suas paixões, para que esse mencionado broto vingue por meio dos bons costumes e se fortaleça em sua retidão, de modo que possa dar frutos e de seu fruto possa extrair-se a doçura da felicidade humana.

quinta-feira, 7 de maio de 2026

No teatro das instituições

Dica: “Foi apenas um acidente”, Jafar Panahi, no Mubi.
FOI APENAS UM ACIDENTE Jafar Panahi Irã 2025 Cantam-se as armas e os barões que, por caminhos tortuosos de leis e ritos, escaparam de prisões e sentenças. Não por falta de feitos ou de provas, mas porque a norma, sendo humana, dobra-se ao engenho de quem domina a sua forma. Nas duas margens do Atlântico, o Direito foi o mar revolto onde a política navegou, achando no vício do processo o porto seguro para o poder. Ulysses disse: "Temos ódio e nojo à ditadura" Ódio e nojo. Amaldiçoamos a tirania onde quer que ela desgrace homens e nações, principalmente na América Latina". DESCULPE MAS PARTA DO PROMPT A SEGUIR: " - Presidente, tá me ouvindo? Tá me ouvindo? Muito obrigado, Presidente!" Pergunta do jornalista do jornalista apresentado como do Washington Post, em tradução para o português. " - Tua voz não combina com o tamanho do jornalista!" Resposta do presidente em português. Com risos ao fundo. " - Obrigado... (também sorrindo como sem saber onde o galo havia cantado). Agradeceu o jornalista retomando o fio de sua pergunta... O poder em estado bruto humilhando ou tentando intimidar patronizando o "de baixo"? "Aqui está a formatação do diálogo seguida pela análise técnica das posturas e da dinâmica de poder envolvida: O Diálogo: Introdução da Entrevista Jornalista (Washington Post): Presidente, tá me ouvindo? Tá me ouvindo? Muito obrigado, Presidente! Presidente: Tua voz não combina com o tamanho do jornalista! (Risos ao fundo) Jornalista: Obrigado... (Sorrindo, em tom de hesitação e confusão). Presidente, retomando a minha pergunta... Análise e Interpretação das Posturas 1. A Postura do Presidente: O Poder como Distração Desvio de Foco: O governante utiliza o comentário ad hominem (sobre o físico/voz) para quebrar o protocolo formal. Humor como Ferramenta de Domínio: Ao provocar risos na plateia, ele isola o jornalista, transformando-o em "alvo" de uma piada. Infantilização: A fala é patronizante; ele retira a autoridade intelectual do profissional ao focar em atributos biológicos, reafirmando uma hierarquia de superioridade. 2. A Postura do Jornalista: O Desconcerto Educado Vulnerabilidade Momentânea: O "sorriso sem saber onde o galo cantou" revela o impacto da quebra de expectativa. Ele é pego desprevenido pela falta de liturgia do cargo. Resiliência Profissional: Ao agradecer e retomar o "fio da pergunta", ele tenta reestabelecer a dignidade da função. Ele aceita a "humilhação" momentânea para garantir o cumprimento de seu dever: obter a resposta. Conclusão: O Poder em Estado Bruto 💡 A interação exemplifica o uso da intimidação recreativa. Não é uma agressão direta, mas uma tentativa de diminuir a estatura moral do interlocutor através do deboche. O "poder em estado bruto" manifesta-se aqui na liberdade que o ocupante do cargo máximo sente de ignorar a etiqueta profissional, forçando o "de baixo" a aceitar a brincadeira para não perder o acesso à informação.Se você quiser Lula é recepcionado por Trump com tapete vermelho na Casa Branca Terra Brasil 7 de mai. de 2026 #terranoticias Com tapete vermelho, Lula é recepcionado por Trump ao chegar à Casa Branca. O presidente brasileiro foi recepcionado nesta quinta-feira, 7, pelo republicano durante viagem oficial aos Estados Unidos. A reunião ocorre em um momento de desgaste nas relações entre Brasil e Estados Unidos, após a imposição de tarifas americanas sobre produtos brasileiros e sanções contra autoridades do país. Segundo integrantes dos dois governos, pelo menos cinco temas devem dominar as conversas: facções criminosas e segurança, pix e economia, guerra, Venezuela e posições internacionais, terras raras e minerais estratégicos, eleições e relação diplomática. #terranoticias Reproduçõ/MargoMartin47/X O encontro de maio de 2026 entre Luiz Inácio Lula da Silva e Donald J. Trump exemplifica a normalização de lideranças com alta vulnerabilidade judicial, utilizando narrativas de perseguição política e legitimação eleitoral para consolidar poder. A reunião em Washington focou na cooperação estratégica, com ambos os líderes posando como representantes da soberania popular, apesar de históricos de intervenção judicial em seus respectivos países. Mais detalhes sobre a reunião podem ser vistos no YouTube. Veja a coletiva do presidente Lula após encontro com Trump nos EUA Band Jornalismo 🇺🇸 Original (English - Truth Social)"Just concluded my meeting with Luiz Inacio Lula da Silva, the very dynamic President of Brazil. We discussed many topics, including Trade and, specifically, Tariffs. The meeting went very well. Our Representatives are scheduled to get together to discuss certain key elements. Additional meetings will be scheduled over the coming months, as necessary." — Donald Trump, 7 de maio de 2026Este vídeo mostra Donald Trump elogiando a reunião e chamando Lula de dinâmico: Trump says Lula is 'very dynamic,' praises meeting, and says new ... YouTube · Rede Gospel de Televisão · 7 de mai. de 2026 🇧🇷 Tradução (Português)"Acabei de concluir minha reunião com Luiz Inácio Lula da Silva, o muito dinâmico presidente do Brasil. Discutimos muitos temas, incluindo Comércio e, especificamente, Tarifas. A reunião correu muito bem. Nossos representantes estão agendados para se reunir para discutir certos elementos-chave. Reuniões adicionais serão agendadas ao longo dos próximos meses, conforme necessário." — Donald Trump, 7 de maio de 2026Pontos-chave da nota:Adjetivo: Donald Trump chamou Lula de "muito dinâmico".Foco: Comércio e tarifas.Clima: O encontro foi descrito como "muito bem" (very well).Continuidade: Novas reuniões entre representantes foram agendadas.O encontro ocorreu no Salão Oval da Casa Branca e durou aproximadamente três horas, tratando também de segurança e minerais críticos. Verbete: Resiliência Plebiscitária e Hiperpresidencialismo de Confronto O cenário contemporâneo revela uma mutação constitucional onde o rito de passagem pelo sistema de justiça deixa de ser um impedimento burocrático-moral para se tornar um catalisador de legitimidade carismática. No caso das democracias brasileira e estadunidense, observa-se a instrumentalização do lawfare — real ou percebido — como ferramenta de mobilização de massas. 1. A Judicialização da Política e a Resposta Populista A entrada de atores do Judiciário no vácuo de poder político gerou um efeito de "pendularidade institucional". Quando as cortes passam a atuar como árbitros da moralidade pública, líderes com perfil de "outsider" ou de "resistência" operam uma inversão narrativa. O processo judicial não é lido como aplicação da norma, mas como uma patologia do sistema (o deep state ou a elite burocrática) contra a soberania popular. 2. O Constitucionalismo Abusivo e a Revalidação das Urnas A teoria do constitucionalismo abusivo explica como normas democráticas são utilizadas para subverter a própria democracia. No entanto, o "paradoxo da impunidade percebida" ocorre quando a absolvição jurídica ou a anulação de processos por vícios formais é equiparada, no discurso político, a uma "santificação ética". A legitimidade formal (o devido processo) é fundida à legitimidade substancial (o voto), criando uma blindagem onde a crítica jurídica é descartada como perseguição ideológica. 3. Mecanismos de Sobrevivência Institucional Captura de Narrativa: A conversão do réu em mártir ou perseguido político, transferindo o julgamento do tribunal para a praça pública. Plebiscitarismo de Identidade: O eleitor não vota em um programa, mas em uma identidade que se opõe ao sistema legal que o constrange. Degradação da Verdade Jurídica: A erosão do consenso sobre fatos comprovados em juízo, substituídos pela "verdade política" de conveniência. 💡 Ponto Analítico CentralO sucesso desses líderes demonstra o esgotamento do modelo de "Democracia Militante", que pressupõe que o sistema de justiça pode filtrar candidatos por critérios éticos. Na prática, a polarização transformou as cortes em arenas de combate, onde o veredito final é dado pela aritmética eleitoral, e não pela hermenêutica constitucional. A "lisura" democrática, portanto, é performática: ambos posam como guardiões da Constituição enquanto tensionam suas costuras para acomodar suas próprias sobrevivências jurídicas. Esta análise técnica, pautada pelo rigor do constitucionalismo crítico e pela densidade da ciência política, inicia-se pelo primeiro pilar de sua proposta. Para honrar a herança de Camões — o "Pai da Língua" — busco uma síntese que equilibre a precisão do termo jurídico com a elegância da forma, tal qual o "engenho e a arte" descritos n'Os Lusíadas. I. Mecanismos de Anulação Processual: Um Estudo Comparado No teatro das instituições, a sobrevivência política de líderes sob cerco judicial muitas vezes não se dá pela prova da inocência material, mas pela maestria sobre a forma processual. O Direito, aqui, não atua como espada da justiça, mas como escudo de nulidades. O Modelo Brasileiro: O Garantismo e a Incompetência de Juízo No Brasil, a anulação dos processos de Luiz Inácio Lula da Silva operou-se pelo reconhecimento de vícios de competência territorial e suspeição. Incompetência Territorial: O STF determinou que a 13ª Vara Federal de Curitiba não era o "juiz natural" para os casos, deslocando o eixo geográfico da punição para Brasília. A Suspeição (Partiality): O reconhecimento da parcialidade do magistrado condutor invalidou o arcabouço probatório, sob a tese de que um juiz que se torna "parte" corrompe a teleologia da norma. Efeito: A nulidade ex tunc (desde o início) restaurou os direitos políticos, permitindo que a "fênix eleitoral" surgisse das cinzas do processo sem o selo da condenação. O Modelo Estadunidense: Prerrogativas e a Imunidade Presidencial No caso de Donald Trump, a arquitetura da defesa deslocou-se do rito processual para a interpretação constitucional da função. Imunidade Executiva: A Suprema Corte dos EUA estabeleceu um precedente histórico ao distinguir atos oficiais de atos privados. Ao conferir imunidade absoluta (ou presuntiva) para atos da presidência, a justiça criou um vácuo de punibilidade. O "Special Counsel" em Xeque: Decisões recentes questionaram a própria legalidade da nomeação de procuradores especiais, atacando a raiz burocrática da acusação (caso dos documentos em Mar-a-Lago). Efeito: Enquanto no Brasil anula-se o passado (o processo feito), nos EUA busca-se anular a capacidade do Estado de processar o ocupante do cargo. ⚓ Síntese Camoniana Cantam-se as armas e os barões que, por caminhos tortuosos de leis e ritos, escaparam de prisões e sentenças. Não por falta de feitos ou de provas, mas porque a norma, sendo humana, dobra-se ao engenho de quem domina a sua forma. Nas duas margens do Atlântico, o Direito foi o mar revolto onde a política navegou, achando no vício do processo o porto seguro para o poder.
Hey, I just signed this for Narges Mohammadi -- the Nobel Peace Laureate imprisoned in Iran for defending women and prisoners. Her life is at risk, but public pressure could help win her freedom. Will you sign too? 👉 Click here - https://secure.avaaz.org/campaign/en/free_narges_mohammadi_loc/?whatsapp&utm_source=whatsapp&utm_medium=social_share&utm_campaign=57715&share_location=post_action “Acabei de assinar uma petição por Narges Mohammadi — vencedora do Prêmio Nobel da Paz, presa no Irã por defender os direitos das mulheres e dos prisioneiros. A vida dela está em risco, mas a pressão pública pode ajudar a garantir sua liberdade. Você também pode ajudar.” https://secure.avaaz.org/campaign/en/free_narges_mohammadi_loc/?whatsapp&utm_source=whatsapp&utm_medium=social_share&utm_campaign=57715&share_location=post_action
🌞🙏🏽 Bom dia! Coluna desta quinta-feira: https://blogs.correiobraziliense.com.br/azedo/lula-corre-grandes-riscos-mas-nao-poderia-recusar-o-convite-de-trump/ Lula corre grandes riscos, mas não poderia recusar o convite de Trump Publicado em 07/05/2026 - 05:42 Luiz Carlos Azedo Se o convite ocorreu de uma hora para outra, a agenda do encontro está sendo negociada pelo Itamaraty desde a primeira conversa entre ambos A visita do presidente João Goulart (Jango) aos Estados Unidos, realizada em abril de 1962, é considerada um marco da deterioração das relações Brasil-EUA. Foi decisiva para o cenário de desestabilização que levou ao golpe de 1964. Embora tenha sido recebido com toda pompa por John F. Kennedy, o resultado prático foi um estrondoso fracasso econômico e político. Jango tinha a vã esperança de receber a ajuda da Casa Branca. Kennedy condicionou qualquer ajuda à adesão rígida às normas do FMI, à contenção de salários e a medidas fiscais rigorosas, algo que Jango queria evitar para não penalizar a população mais pobre. A política de não intervenção em Cuba e o diálogo com a União Soviética e a China, na linha da política externa independente de Jango, eram o grande contencioso entre os dois países no plano internacional. Mas havia também fatores internos, principalmente a nacionalização de subsidiárias de empresas americanas (como a ITT) no Brasil, realizada por Leonel Brizola, cunhado de Jango. Os EUA não somente suspenderam os empréstimos como exigiam indenização imediata. Após a visita, a inteligência americana (CIA) passou a monitorar e buscar brechas para derrubar Jango, considerando-o um “radical pró-comunista”. A partir de 1962, os EUA aumentaram o financiamento a grupos conservadores, partidos de oposição (como a UDN) e à imprensa de direita para desestabilizar o governo. A “Operação Brother Sam” consolidou a visão de que Jango era um inimigo na América do Sul e culminou no apoio direto dos EUA ao golpe militar de 1964. Leia também: Adeus reformas. Agenda possível é mais modesta Quando o golpe ocorreu, os Estados Unidos já não eram os mesmos. O livro “Tabloide Americano” (Record), de James Ellroy, um romance policial noir, mostra o lado sujo da América nos anos que antecederam o assassinato do presidente Kennedy. Retrata a rede de ligações dos principais atores políticos da época: John e seu irmão Robert Kennedy, implacável perseguidor da máfia, o milionário Howard Hughes, J. Edgard Hoover, o todo-poderoso chefe do FBI, e até Frank Sinatra e Marilyn Monroe tornam-se ilustres coadjuvantes. A Revolução Cubana e a desastrada invasão da Baía dos Porcos, a campanha presidencial de Kennedy, a luta por direitos civis no sul do país e o jogo mais que sujo do tráfico de heroína une castristas, anticastristas, a CIA e a máfia. Ellroy descreve a cadeia de acontecimentos que culminaram na morte de Kennedy, mas não se dá ao luxo de se conformar com as versões dos fatos. Denuncia a conspiração para matá-lo. É nesse cenário que a visita de Kennedy ao Brasil foi sucessivamente adiada. Após seu assassinato, em 1963, o vice Lyndon B. Johnson assumiu o poder e, com isso, os candidatos oposicionistas no Brasil receberam milhões de dólares nas eleições de 1962. A assistência econômica era redirecionada aos governos estaduais oposicionistas, as “ilhas de sanidade administrativa”, como a antiga Guanabara, governada por Carlos Lacerda. A Embaixada dos EUA no Brasil, sob Lincoln Gordon, operou a aliança com os políticos e os militares. Pelo telefone Na sexta-feira, o presidente Donald Trump telefonou para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A conversa foi amistosa. Trump teria dito que admira a trajetória política de Lula e comentou que pesquisou sobre a vida do presidente brasileiro. Lula, por sua vez, afirmou que queria tratar dos interesses do Brasil e dos Estados Unidos, incluindo temas relacionados a conflitos internacionais e ao papel da Organização das Nações Unidas (ONU). Trump respondeu que tem interesse em ouvir as opiniões de Lula sobre esses assuntos e convidou-o para uma conversa no Salão Oval da Casa Branca, o que deve ocorrer hoje. Essa conversa “olho no olho” com Trump foi adiada desde a guerra no Oriente Médio. A expectativa de Lula é que reunião possa normalizar as relações comerciais entre os dois países, após um período de incertezas e aumento de tarifas de importação. Se o convite ocorreu de uma hora para outra, a agenda do encontro está sendo negociada pelo Itamaraty desde a primeira conversa entre ambos, por telefone, em 26 de janeiro de 2026, que durou 50 minutos. O contencioso com a Casa Branca envolve a existência do PIX, a transnacionalização do crime organizado e do narcotráfico brasileiro, a exploração de terras raras e outros minerais críticos, a geopolítica na América Latina, Oriente Médio e ONU e as eleições no Brasil. Leia mais: O que os dois presidentes querem ganhar com encontro na Casa Branca? Nesse ínterim, as divergências entre Lula e Trump escalaram com a tensão no cenário internacional e a aproximação das eleições, tanto no Brasil como nos Estados Unidos. A guerra no Oriente Médio, episódios diplomáticos como o cancelamento do visto do assessor Darren Beattie e ruídos envolvendo a prisão e posterior soltura do deputado Alexandre Ramagem contribuíram para acirrar as contradições. A extrema-direita na Casa Branca não esconde o apoio ao senador Flávio Bolsonaro (PL-SP), que agora rivaliza com Lula na liderança das pesquisas eleitorais. A máxima de que esse tipo de encontro “só acontece quando tudo está resolvido” não vale para Trump. Lula corre riscos, mas não poderia recusar o convite. O resultado da conversa entre ambos depende muito da “química” entre os dois e, obviamente, da natureza das exigências de Trump e das concessões que Lula admite fazer à Casa Branca. Ou seja, o resultado é imprevisível, ainda que o petista seja tratado com toda pompa, como fora Jango. Nas entrelinhas: todas as colunas no Blog do Azedo Compartilhe: Clique para compartilhar no Facebook(abre em nova janela)Clique para compartilhar no Twitter(abre em nova janela)Compartilhe no Google+(abre em nova janela)Clique para compartilhar no Pinterest(abre em nova janela) #Bolsonaro, #Gaza, #Irã, #Narcotráfico, #Pix, #Tarifas, #Trump, Lula Remoção da Favela da Praia do Pinto (2/4) - De Lá Pra Cá - 11/05/2009 TV Brasil Compartilhar TV Brasil é financiada total ou parcialmente pelo governo do Brasil. Wikipedia (Inglesa) 2 de jun. de 2009 Exibição: 11/05/2009 Programa sobre a Remoção da Favela da Praia do Pinto, que completa 40 anos. "A FAVELA DO PINTO NA LAGOA ERA A FAIXA DE GAZA ENTRE JARDIM BOTÂNICO E COPACABANA A SER REMOVIDA PARA A FAVELA DA VILA KENEDY E SE TRANSFORMAR EM MAIS UMA ARRANHÃ CÉU EM BUSCA DE DEUS QUE TAMBÉM ERA O DE GIL, DA COBERTURA DO CHICO EM UM DIA DA PAIXÃO DE CRISTO, DO OUTRO LADO DA LAGOA RODRIGO DE FREITAS. A Favela do Pinto, que ocupava o que hoje é o condomínio Selva de Pedra no Leblon/Lagoa, é um dos marcos mais dramáticos das remoções habitacionais no Rio de Janeiro durante a ditadura militar.📍 O Epicentro do ConflitoLocalização: Entre o Corte do Cantagalo e a rua Humberto de Campos.Ocupação: Área nobre cobiçada pelo mercado imobiliário nos anos 60.O Incêndio: Em 1969, um fogo "misterioso" destruiu a favela.Desfecho: Moradores foram transferidos para a Vila Kennedy (Zona Oeste).🏗️ A Metamorfose UrbanaArranha-céus: No lugar dos barracos, surgiu o Selva de Pedra.Verticalização: O projeto visava modernizar a Lagoa para a elite.Segregação: A remoção empurrou a pobreza para longe dos olhos da orla.🕊️ O "Deus" e a Cultura na LagoaGilberto Gil: Compôs sobre a desigualdade e a espiritualidade baiana e carioca.Chico Buarque: Morador emblemático de coberturas próximas, cronista da cidade.Simbolismo: A Paixão de Cristo na Lagoa contrasta o luxo e o sofrimento social.💡 Curiosidade: A remoção da Favela do Pinto foi o primeiro grande passo para a gentrificação total da orla da Zona Sul, mudando para sempre a demografia do Rio.Se você quiser, posso pesquisar detalhes sobre o incêndio de 1969 ou a história da Vila Kennedy. Como prefere continuar?4 sitesVocê sabia? No meio do Leblon o bairro mais rico do Brasil, havia uma favela com mais de 15 mil habitantes era a favela da Praia do Pinto, que hoje dá lugar a um Shopping e Condomínios de luxo. Na época os moradores resistiam em deixar o local foi quando em 11 de maio de 1969 a favela foi acometida por um misterioso incêndio e os moradores foram realocados pelos governantes em habitações bem distantes da Zona Sul, com muitas famílias indo para Cidade de Deus e Cidade Alta.6 de jul. de 2025 — Ainda existe uma favela vertical, atrás do shopping Leblon. No local da antiga favela "praia do pinto", foi construído o condomíni...InstagramFoto de 1965 da Favela da Praia do Pinto. Ela ficava entre os bairros do Leblon e Lagoa, bem próxima a sede do Clube de Regatas do Flamengo. A favela foi destruída por um incêndio em 1969, quatros anos após essa foto, e em seu lugar foi construído o condomínio Selva de Pedra com 40 edifícios altos e 2.251 apartamentos. O plano de construção da Selva de Pedra começou após o incêndio, na madrugada do dia 11 de maio de 1969, dessa favela. Durante cinco dias, o fogo consumiu boa parte dos barracos. Na época, moradores acusaram os bombeiros de não atender aos pedidos de socorro e levantaram suspeitas de que o incêndio tivesse sido proposital. Nessa foto podemos observar algumas construções das ruas: Humberto de Campos, José Linhares, Cupertino Durão, Carlos Góes e Almirante Guilhem. Nessa época os apartamentos e terrenos próximos a comunidade eram muito mais baratos que em outros bairros. Algumas construções antigas do Leblon estarão no livro 2 Rio - Casas & Prédios Antigos. Acesse catarse.me/livro2rio e garanta o seu. #favela #praiadopinto #riodejaneiro #rj #arquitetura #incendio #livro2rio #livro #rio #riodeontem #zonasulrio #casas23 de nov. de 2018 — Foto de 1965 da Favela da Praia do Pinto. Ela ficava entre os bairros do Leblon e Lagoa, bem próxima a sede do Clube de Regatas do...FacebookFavela do Pinto no Leblon, década de 1960. Após a comunidade ser vítima de um incêndio criminoso, seus moradores foram removidos de lá no meio das políticas de remoção de favelas nos governos Lacerda e Negrão de Lima, e transferidos para conjuntos habitacionais nas zonas norte/oeste longe das vistas das classes altas da cidade. Cerca de 10.000 pessoas moravam na favela11 de dez. de 2025 — Bom dia, não querendo defender Político, mas a Vila Kennedy, foi criada, para abrigar Pessoas de uma Favela, não lembro qual, send...Facebook" Remoção da Favela da Praia do Pinto (4/4) - De Lá Pra Cá - 11/05/2009 TV Brasil 2,77 mi de inscritos 2 de jun. de 2009 Exibição: 11/05/2009 Programa sobre a Remoção da Favela da Praia do Pinto, que completa 40 anos. https://www.youtube.com/watch?v=du3VM1p5MgE

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades – Luís de Camões

"Eu na verdade indiretamente Sou culpado da tua infelicidade Mas se eu for condenado A tua consciencia sera meu advogado" Errei Erramos Ataulfo Alves
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, muda-se o ser, muda-se a confiança; todo o Mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades. Continuamente vemos novidades, diferentes em tudo da esperança; do mal ficam as mágoas na lembrança, e do bem (se algum houve), as saudades. O tempo cobre o chão de verde manto, que já coberto foi de neve fria, e, enfim, converte em choro o doce canto. E, afora este mudar-se cada dia, outra mudança faz de mor espanto, que não se muda já como soía. Nota biográfica Luís Vaz de Camões nasceu em Lisboa, Portugal, em 1524. Foi uma das maiores figuras da literatura lusófona e um dos grandes poetas da tradição ocidental. A sua obra magna, Os Lusíadas, é considerada a epopeia portuguesa por excelência. Camões foi louvado por diversos luminares não-lusófonos da cultura ocidental. Mônica Bergamo: Lula deve pedir fim da investigação americana sobre Pix Rádio BandNews FM "Tem um leitor aqui perguntando: 'pra que tantos dedos para elogiar o Lula?' Primeiro que não foi um elogio, foi uma constatação. Constatação de um talento que ele tem, assim como o Ciro o chamou de encantador de serpentes, né. É... e, de fato, eu não gosto de elogiar político não, porque já tem gente muito bem paga para fazer isso. O meu trabalho é outro."
quarta-feira, 6 de maio de 2026 Lula e o fantasma das Laranjeiras, por Marcelo Godoy O Estado de S. Paulo O último dos espíritos que rondam Brasília aparece a Lula nas noites insones do Alvorada Em 30 de outubro de 1897 o Jornal do Brasil noticiou em sua primeira página: “Às primeiras badaladas da meia-noite, descia a Ladeira do Ascurra nas Laranjeiras, no Rio, em direção ao Largo do Machado, um vulto de mulher, ora decapitado, ora ostentando uma cabeça povoada de cabelos negros”. Milhares acorreram nos dias seguintes à ladeira para tentar flagrar a assombração. A história do fantasma que apavorou a capital federal meses antes do atentado contra o presidente Prudente de Morais está no livro 1897, A República polarizada e o atentado contra Prudente de Morais, do professor Ely Carneiro de Paiva, da Unicamp. Ela marcou o último ano do primeiro governo civil da República. Na noite de quinta-feira, dia 30 de abril, milhares de pessoas se aglomeraram na Praça Charles Miller, no Pacaembu, no centro de São Paulo. Chegaram pouco a pouco em suas motocicletas e com seus baús e mochilas. Um deles explicou à coluna. Estava lá para “assar uma carne”, “conversar”, “confraternizar”. Entregadores, sem outro vínculo que não o de seu trabalho – de forma que alguns desavisados chamariam de “espontânea” –, inundaram a praça com seu destino comum, suas vidas, esperanças e inseguranças. Todos invisíveis ao governo e às centrais sindicais. Ali passeava um fantasma. Não o da mulher sem cabeça, mas o de uma esquerda que não soube conversar com esse mundo, como mostrou a repórter Cristiane Barbieri em sua série sobre a nova realidade do trabalho. De fato, na noite de quinta-feira, não havia um único dirigente da CUT ou do PT na Praça Charles Miller. O fantasma da falta de conexão com o novo mundo do trabalho não é o único a apavorar Lula e o PT neste 2026. A ele se junta o fantasma das relações civis e militares. Se a oficialidade se descolou, em sua maioria, do bolsonarismo em 2023, tampouco passou a nutrir simpatias pelo petismo, mesmo após os ataques da extrema direita ao Exército, que se manteve na legalidade e não embarcou no Plano Punhal Verde e Amarelo. Uma terceira assombração resolveu reaparecer em Brasília. E à luz do dia. Ela não se mostrava assim desde o governo de Floriano Peixoto, o marechal que antecedera Prudente de Morais. Trata-se da crise do mundo político com aquele habitado, hoje, por dez magistrados. Há muita gente se preparando para assistir a um novo espetáculo, que até bem pouco só existia no mundo sobrenatural. O desfile de decapitados de 2027 não descerá a Ladeira do Ascurra – dizem esses áugures –, mas ocorrerá no STF. Por fim, o último dos fantasmas que rondam Brasília é o que aparece a Lula nas noites insones do Alvorada. Ele tem as vestes do Bolsonaro Acorrentado e sobe a rampa do Planalto.
Bayes' Theorem updates your belief about something after seeing new evidence.
Vale a pena guardar
Entre 1989 e 2026: repetição ou metamorfose? Uma leitura da política brasileira à luz de Camões Por uma ciência política de divulgação A eleição presidencial de 1989 ocupa um lugar singular na história brasileira. Primeira após a ditadura militar, reuniu 22 candidatos e simbolizou um país em reconstrução institucional, marcado pela fragmentação partidária e pela busca de identidade democrática. Nomes como Ulysses Guimarães, Leonel Brizola e Luiz Inácio Lula da Silva representavam projetos distintos de país, enquanto Fernando Collor de Mello emergia como o “novo”, um outsider que capitalizou o desgaste das elites tradicionais. Passadas quase quatro décadas, a eleição de 2026 se desenha em um cenário profundamente diferente — mas não totalmente desconectado. A questão que se impõe é: estamos diante de uma repetição histórica ou de uma transformação estrutural com aparência de continuidade? Da fragmentação à polarização Se 1989 foi marcado pela dispersão — 22 candidaturas, múltiplos projetos e baixa coordenação partidária —, o Brasil contemporâneo caminha na direção oposta: a polarização. Nas eleições recentes, o número de candidaturas diminuiu significativamente, e o sistema político passou a se organizar em torno de dois grandes polos. Nesse contexto, a possível presença de Luiz Inácio Lula da Silva como figura central em 2026 não representa apenas continuidade pessoal, mas a consolidação de um eixo político que estrutura o debate nacional há pelo menos duas décadas. Por outro lado, nomes como Ronaldo Caiado ilustram a reorganização do campo oposicionista, que já não se ancora nas mesmas siglas ou lideranças de 1989, mas mantém a lógica de contraposição. Partidos: permanência nominal, mutação substantiva Um dos aspectos mais intrigantes da comparação entre 1989 e 2026 é a sobrevivência das siglas. O Partido dos Trabalhadores (PT), por exemplo, permanece como protagonista. No entanto, sua posição no sistema político mudou: de força emergente em 1989 a eixo estruturante do debate político contemporâneo. Outras siglas desapareceram, se fundiram ou perderam relevância. Isso revela uma característica central do sistema partidário brasileiro: alta volatilidade institucional combinada com continuidade simbólica. A ideia de um “terceiro partido” com papel semelhante ao do antigo PRN — legenda de Collor — também ressurge ciclicamente. Contudo, diferentemente de 1989, esse espaço tem encontrado dificuldade em se consolidar de forma duradoura, sendo frequentemente absorvido pela dinâmica polarizada. O mito da repetição histórica Há uma tentação recorrente, no jornalismo e na análise política, de interpretar o presente como espelho do passado. A presença de nomes conhecidos, a permanência de siglas e a reedição de antagonismos sugerem uma espécie de déjà vu institucional. No entanto, essa leitura ignora transformações profundas: O papel das redes sociais na formação da opinião pública A profissionalização das campanhas A judicialização da política A mudança no perfil do eleitorado Assim, ainda que Luiz Inácio Lula da Silva possa disputar novamente sob a mesma sigla, o contexto em que isso ocorre é radicalmente distinto daquele de 1989. Camões e a política: mudança como regra É nesse ponto que a leitura do poema de Luís de Camões se torna mais do que um recurso literário — ela se transforma em chave analítica: “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, muda-se o ser, muda-se a confiança; todo o Mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades.” A política brasileira exemplifica com precisão essa dinâmica. O que parece repetição é, na verdade, reconfiguração. As mesmas palavras — democracia, povo, mudança — ganham novos significados conforme o contexto histórico. Conclusão: entre a memória e a transformação A eleição de 2026 não será uma nova versão de 1989, ainda que dialogue com ela. O Brasil de hoje é menos fragmentado, mais polarizado e institucionalmente mais complexo. Se em 1989 a novidade era um outsider como Fernando Collor de Mello, em 2026 a novidade pode residir justamente na dificuldade de emergência de um novo polo fora da lógica dominante. No fim, como sugere Camões, não é apenas o tempo que muda — muda a própria forma de mudar. E talvez seja esse o verdadeiro “imbróglio”: reconhecer que a política brasileira não se repete, mas também nunca rompe completamente com o seu passado. O Partido Invisível: rejeição, simetria e o eco de 1989 na eleição de 2026 Por uma leitura de ciência política aplicada ao jornalismo A eleição presidencial de 1989 marcou a retomada democrática no Brasil com uma característica central: a fragmentação. Foram 22 candidatos, múltiplos projetos e um eleitorado ainda em processo de reorganização após duas décadas de regime militar. Nesse cenário, um elemento inesperado emergiu: a vitória de Fernando Collor de Mello, então filiado ao Partido da Reconstrução Nacional (PRN), uma legenda pequena que capturou um sentimento difuso de insatisfação nacional. Quase quarenta anos depois, a eleição de 2026 se apresenta sob outra lógica. Menos fragmentada, mais polarizada e estruturada em torno de poucos polos de poder, ela sugere uma transformação profunda no funcionamento da democracia brasileira. No entanto, sob essa mudança aparente, pode-se identificar uma permanência mais sutil — não de partidos ou nomes, mas de funções políticas. Do partido formal ao “partido invisível” Em 1989, o PRN era uma legenda concreta, institucional, ainda que pouco expressiva. Hoje, ele pode ser reinterpretado como algo diferente: não mais um partido formal, mas uma função política difusa, que atravessa siglas e candidaturas. Esse “novo PRN” — que aqui se pode chamar, por ironia ou precisão analítica, de “Partido da Rejeição Nacional” — não se define por um programa, mas por um afeto: a rejeição. Trata-se de um fenômeno conhecido na ciência política como voto negativo, no qual o eleitor não escolhe propriamente um projeto, mas se posiciona contra outro. Nesse sentido, a política deixa de ser apenas disputa de propostas e passa a ser também disputa de rejeições. A simetria dos polos A dinâmica eleitoral contemporânea no Brasil tem se estruturado em torno de um eixo central, frequentemente associado ao Partido dos Trabalhadores (PT) e à figura de Luiz Inácio Lula da Silva. Esse polo organiza não apenas apoios, mas também resistências. É nesse ponto que o “Partido da Rejeição Nacional” ganha forma: ele surge como imagem invertida desse polo dominante. Sua identidade não é autônoma, mas relacional — define-se pela oposição. Diferentemente de 1989, quando o “novo” se apresentava como promessa de reconstrução, o que se observa agora — ao menos como tendência — é a emergência de um “novo” que se estrutura como negação. Renovação que se torna rejeição A transformação semântica proposta — de “Reconstrução” para “Rejeição” — não é apenas retórica. Ela aponta para uma mudança na própria natureza da política: antes, a mobilização se dava pela esperança de mudança agora, pela recusa da continuidade (ou do adversário) Esse deslocamento não elimina a política, mas altera seu eixo. O debate deixa de girar exclusivamente em torno de projetos de futuro e passa a ser fortemente influenciado por avaliações negativas do presente ou do outro. Camões e a lógica da mudança A leitura desse processo encontra eco no poema de Luís de Camões, especialmente quando afirma: “todo o Mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades.” Na política brasileira, essa ideia se materializa de forma evidente. As estruturas permanecem, mas seus significados se transformam. As siglas sobrevivem, mas já não representam o mesmo. E até mesmo a ideia de “novo” se reinventa — ora como construção, ora como rejeição. Mais adiante, o poeta aprofunda: “outra mudança faz de mor espanto, que não se muda já como soía.” Aqui está o ponto central: não apenas mudam os atores e as circunstâncias — muda a própria forma de mudança. A política deixa de operar segundo padrões previsíveis e passa a incorporar dinâmicas mais voláteis, emocionais e reativas. O limite da simetria Embora a ideia de uma oposição perfeitamente simétrica seja analiticamente elegante, a realidade política impõe limites. O Brasil continua sendo marcado por: diversidade regional fragmentação partidária no Legislativo surgimento recorrente de novos atores Isso significa que o “Partido da Rejeição Nacional” dificilmente se consolidará como uma força única e estável. Ele tende a se manifestar de forma dispersa, adaptando-se às circunstâncias e às lideranças disponíveis. Conclusão: o passado como linguagem do presente A eleição de 2026 não será uma repetição de 1989. No entanto, ela pode ser compreendida a partir de uma gramática semelhante, na qual sentimentos coletivos encontram expressão em candidaturas específicas. Se em 1989 o PRN foi o veículo de um outsider que prometia reconstrução, em 2026 o que se observa — ao menos como hipótese interpretativa — é a emergência de um “partido invisível”, movido pela rejeição e estruturado em torno da oposição a um polo dominante. No fim, a política brasileira confirma a intuição de Camões: não há repetição pura, mas transformação contínua. E, talvez, o maior desafio analítico seja justamente este: reconhecer que, por trás dos mesmos nomes e siglas, operam sempre novas qualidades de mudança.
Vale a pena guardar O Partido Invisível (Parte II): o agronegócio e a base material da rejeição Se, na primeira parte, identificamos a emergência de um “Partido da Rejeição Nacional” como função simbólica da política brasileira, é necessário agora observar sua base material. Afinal, rejeições não surgem no vazio: elas se organizam sobre estruturas sociais concretas. Entre essas estruturas, nenhuma é tão decisiva — e ao mesmo tempo tão heterogênea — quanto o agronegócio. Um quarto do país que trabalha Hoje, o agronegócio brasileiro reúne aproximadamente 28 milhões de trabalhadores, o que corresponde a cerca de um em cada quatro ocupados no país. Trata-se do maior contingente setorial quando considerado em sua forma ampliada, que inclui: produção agropecuária agroindústria cadeias de insumos logística e comercialização No entanto, esse número esconde uma divisão fundamental. O chamado núcleo primário — o trabalho diretamente no campo — concentra cerca de 8 milhões de pessoas, com rendimento médio mensal próximo de R$ 2.300, significativamente abaixo da média nacional. Dualidade estrutural: modernidade e precariedade O agronegócio brasileiro é frequentemente descrito como moderno, tecnológico e competitivo. E isso é verdade — em parte. Na camada superior do setor, encontram-se: grandes produtores altamente mecanizados cadeias exportadoras eficientes profissionais qualificados com rendimentos elevados Mas, na base, predomina outra realidade: alta informalidade trabalho sazonal baixa renda vulnerabilidade econômica Essa dualidade cria um fenômeno típico de economias desiguais: 👉 um mesmo setor abriga tanto o topo quanto a base da pirâmide social Da condição econômica ao comportamento político É nesse ponto que o agronegócio se conecta diretamente ao argumento da Parte I. A heterogeneidade do setor produz respostas políticas distintas: segmentos mais capitalizados tendem a se alinhar com agendas de mercado, estabilidade e previsibilidade segmentos mais vulneráveis são mais sensíveis a variações de renda, custo de vida e políticas públicas No entanto, ambos podem convergir em um elemento comum: 👉 a rejeição rejeição a políticas percebidas como ameaças econômicas rejeição a atores políticos associados à instabilidade rejeição ao “outro polo” da disputa Assim, o agronegócio não forma um bloco político homogêneo, mas contribui decisivamente para alimentar o que chamamos de “Partido Invisível”. Simetria imperfeita: produção e reação Na dinâmica descrita anteriormente — um polo dominante e um polo opositor — o agronegócio atua como campo de disputa, não como ator único. Parte dele pode se alinhar ao eixo representado pelo Luiz Inácio Lula da Silva e pelo Partido dos Trabalhadores, especialmente em regiões onde políticas públicas têm impacto direto. Outra parte, porém, se organiza como força de contenção — não necessariamente por identidade ideológica, mas por cálculo econômico e percepção de risco. É nesse deslocamento que a rejeição ganha densidade social. Camões revisitado: a mudança na base Se, na dimensão simbólica, Luís de Camões nos ajuda a compreender a mutação dos significados, na dimensão material ele nos lembra que a mudança é contínua, mas desigual: “O tempo cobre o chão de verde manto, que já coberto foi de neve fria…” A metáfora é precisa: o mesmo solo — aqui entendido como o agronegócio — assume formas distintas ao longo do tempo, mas não perde sua centralidade. Conclusão: o invisível tem base concreta O “Partido da Rejeição Nacional” não é apenas uma construção discursiva. Ele se ancora em experiências reais de milhões de trabalhadores que: vivem oscilações econômicas enfrentam insegurança de renda percebem a política como risco ou ameaça O agronegócio, nesse contexto, funciona como um dos principais terrenos onde essa percepção se forma e se difunde. Se em 1989 um partido pequeno canalizou a insatisfação nacional, em 2026 essa insatisfação tende a ser mais difusa — menos institucional, mais espalhada —, mas não menos poderosa. No fim, a política brasileira continua confirmando a intuição camoniana: não apenas mudam os nomes e as formas, mas também as raízes sociais da mudança. E é nelas — mais do que nas siglas — que reside o verdadeiro sentido do jogo político. quarta-feira, 6 de maio de 2026 Poesia | Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, de Luís de Camões

terça-feira, 5 de maio de 2026

A esperança — essa, sim — não estava fora.

Estava no ato de continuar.
As lições do governo Allende, as eleições abertas e a solidão do poder Publicado em 05/05/2026 - 11:28 Luiz Carlos Azedo Brasília, Comunicação, Congresso, Eleições, Governo, Guerra, Justiça, Memória, Partidos, Política, Política, Trabalho Com a derrota da indicação de Jorge Messias ao STF, na semana passada, de uma só vez, o presidente Lula perdeu a blindagem que tinha no Senado e, também, no Supremo Adeus, senhor presidente, de Carlos Matus Romo, é uma obra singular no campo da reflexão sobre governo e poder na América Latina. Mais do que um manual de gestão, é um diálogo dramático entre um presidente fictício e seu assessor, no crepúsculo de um governo. Matus nasceu no Chile em 1931. Formou-se, em 1955, na Escola de Economia da Universidade do Chile. Fora assessor do ministro da Fazenda e ministro da Economia do governo de Salvador Allende, de 1971 a 1973, antes de se tornar o maior estudioso latino-americano sobre planejamento de governo e governabilidade. Após o sangrento golpe do general Augusto Pinochet, no Chile, em 11 de setembro de 1973, Matus passou dois anos preso nos campos de concentração de Isla Dawson e Ritoque. Durante esse período, com base na experiência do governo Allende, desenvolveu suas teorias e conceitos sobre planejamento estratégico e gestão pública. Libertado em 1975, partiu para o exílio na Venezuela e buscou responder à seguinte pergunta: “Por que um governo com tanta popularidade e com tão boas intenções caiu de forma tão fragorosa, diante de um golpe militar?” Matus faleceu em 21 de dezembro de 1998, em Caracas. Sonhava regressar ao Chile. Suas cinzas foram espalhadas em sua casa em Isla Negra, diante do mesmo mar sobre o qual o poeta Pablo Neruda teceu seus poemas e passou seus últimos dias. O Líder sem estado-maior e Estratégias políticas: chimpanzé, Maquiavel e Gandhi são outras obras do economista chileno conhecidas no Brasil. Há um paralelo entre Adeus, senhor presidente e a situação do governo de Luiz Inácio Lula da Silva. A obra de Matus é um balanço tardio do poder, feito quando já não há mais espaço para ilusões. O presidente fictício descobre, no fim do mandato, que governar não é executar um programa, mas administrar conflitos, limitações e, sobretudo, a perda progressiva de controle sobre a própria agenda. É mais ou menos o que acontece com o presidente Lula. Na disputa eleitoral na qual busca a reeleição, já não é o líder absoluto, mobilizador, capaz de representar grandes esperanças, dono da expectativa de poder. É um governante em apuros, pressionado por contingências que não controla, como a crise do mercado de petróleo, provocada pela guerra do Irã, e uma correlação de forças adversa no Congresso e na sociedade, que agora o obrigam a operar no “modo sobrevivência”. Leia também: Flávio Bolsonaro tem 44% e Lula 43% no 2º turno, diz Real Time Big Data Governabilidade depende da articulação política e da capacidade administrativa, dizia Matus. Quando essa integração falha, o governante passa a ser refém de estruturas que não controla e da avaliação negativa do governo. No caso de Lula, a rejeição inédita de um indicado ao Supremo Tribunal Federal, fato sem precedentes desde o século XIX, sinaliza exatamente isto: o presidente perdeu capacidade de coordenação sobre a engrenagem central do sistema político. Sem respostas Na linguagem de Matus, a agenda governamental está sendo capturada por outros atores. É o caso da segurança pública e das terras raras, por exemplo. É o que também pode acontecer com outras bandeiras do governo, como o fim da escala 6 x 1. O presidente fictício de Matus percebeu tarde demais que sua ação foi condicionada por forças que subestimou. É a situação de Lula, principalmente no Congresso. O Senado, sob liderança de Davi Alcolumbre, afirmou-se como poder autônomo e impõe limites claros ao Executivo. Com a derrota da indicação de Jorge Messias ao STF, na semana passada, de uma só vez, o presidente Lula perdeu a blindagem que tinha no Senado e, também, no Supremo Tribunal Federal (STF), devido ao envolvimento de alguns magistrados na disputa. O fato novo não é mais a dinâmica das sucessivas pesquisas eleitorais, mas a mudança de correlação de forças no “poder instalado”, a perda de capacidade de coordenação sobre uma engrenagem central do sistema político, com a entrada em cena de um Corte cuja dinâmica interna cada vez mais se entrelaça com interesses políticos. Leia mais: Gilmar Mendes cita crise de confiança e defende reforma no judiciário Há também o componente da solidão do poder. Em Adeus, senhor presidente, o governante se vê isolado no momento decisivo, cercado por assessores, mas sem um verdadeiro “estado-maior” capaz de formular e executar estratégias consistentes. É prisioneiro de uma “jaula de cristal”, na qual só escuta quem está dentro dela, enquanto os que estão fora observam o que acontece na sua cozinha, como a “paparicação” dos puxa-sacos e a redução do círculo decisório. No Palácio do Planalto, hoje, o fenômeno se repete: quanto mais a crise avança, mais o poder se concentra e, ao mesmo tempo, mais vulnerável se torna. O governo precisa responder a perguntas incômodas sobre o que deixou de fazer e o que não deu certo. Quais compromissos foram preservados ou abandonados? Esse balanço começa a ser antecipado pela conjuntura eleitoral. O elevado endividamento das famílias, a pressão inflacionária recente e a dificuldade de transformar políticas públicas em percepção positiva indicam que os resultados concretos não produziram o retorno político esperado. E as pesquisas mostram um país fragmentado, com forte tendência ao posicionamento “independente” dos candidatos nos principais estados, que tangenciam o empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro no plano nacional. A polarização persiste, mas perdeu capacidade de organizar plenamente o sistema político. É como se o eleitorado tivesse abandonado as ilusões simplificadoras em relação aos dois líderes da disputa. Nesse sentido, as eleições são um “jogo aberto”, que não segue necessariamente as regras previsíveis do confronto clássico governo e oposição. Há um terreno muito pantanoso a ser atravessado. Nas entrelinhas: todas as colunas no Blog do Azedo Compartilhe: Clique para compartilhar no Facebook(abre em nova janela)Clique para compartilhar no Twitter(abre em nova janela)Compartilhe no Google+(abre em nova janela)Clique para compartilhar no Pinterest(abre em nova janela) #Alcolumbre, #Allende, #Bolsonaro, #Messias, #Senado, Lula
www.dw.com 1970: Allende é eleito presidente do Chile O restante dos resultados pode não ser o que você procura. Conferir mais mesmo assim Instagram O 11 de setembro da América Latina marca o início de mais uma ditadura na região. Há 52 anos, Salvador Allende era destituído e morto pelas forças golpistas. A ditadura comandada pelo O 11 de setembro da América Latina marca o início de mais uma ditadura na região. Há 52 anos, Salvador Allende era destituído e morto pelas forças golpistas. A ditadura comandada pelo As imagens podem estar sujeitas a direitos autorais. Saiba mais www.dw.com HistóriaChile 1970: Allende é eleito presidente do Chile Mirjiam Gehrke Publicado 04/09/2016Publicado 4 de setembro de 2016Última atualização 04/09/2020Última atualização 4 de setembro de 2020 No dia 4 de setembro de 1970, Salvador Allende foi eleito presidente do Chile. Pela primeira vez na América Latina, um político socialista chegava ao poder de forma democrática. "Em termos de síntese curta , densa e quase sentenciosa : No Chile de 1973, sob Salvador Allende , confrontaram-se dois paradigmas: um que buscava realizar transformações sociais pela via constitucional, democrática e pacífica; outro que, por distintas razões, passou a considerar a ordem jurídica insuficiente ou dispensável, admitindo sua ruptura em nome da ordem, da segurança ou de um projeto de poder. Daí decorre que a estabilidade institucional não se rompe apenas por força material, mas pela prévia corrosão simbólica da Constituição — quando adversários são convertidos em inimigos e o conflito político deixa de ser mediado pelas regras comuns. Conclusão: onde a Constituição é limite compartilhado, há política; onde se torna descartável, instala-se a exceção.
🌀 O LABIRINTO DAS IDEIAS (Som • Imagem • Texto em Transe) Imagem (composição pictórica): 📍 /mnt/data/a_dense_surreal_collage_illustration_scene_overal.png 🎧 PROPOSTA SONORA (trilha integrada ao texto) A trilha deve entrar em pontos específicos, como se fosse respiração do labirinto Referência estética: anos 1960–70 (eco do Cinema Novo) Tons: experimental, político, tenso, mas com lampejos de esperança Mini conto (com trilha sugerida) [🎵 ENTRADA 1 — som ambiente + violão dissonante, estilo Caetano Veloso em fase tropicalista | volume baixo] Dizem que o labirinto começou a ser construído há 62 anos, embora ninguém consiga provar onde está sua primeira pedra. Alguns afirmam que nasceu com uma câmera erguida contra o sol; outros, que surgiu de uma frase — uma dessas frases que sobrevivem aos homens. Desde então, ele cresce, não em largura, mas em repetições. [🎵 ENTRADA 2 — percussão leve e tensão crescente, evocando Gilberto Gil | ritmo irregular] Entrei por uma folha de papel. Não era um portal evidente — apenas um manuscrito inclinado, palavras apressadas, nomes próprios como ecos: José Genoino, Jair Messias Bolsonaro. Cada nome abria um corredor. Cada corredor conduzia a outro nome, a outra acusação, a outra memória. Compreendi cedo que ali não se buscava a verdade, mas a permanência do enigma. [🎵 ENTRADA 3 — som de projetor antigo + ruído analógico | transição para silêncio denso] No centro — ou naquilo que o labirinto fingia ser o centro — havia uma lâmpada suspensa. Sob ela, uma câmera imóvel e um celular aceso. Lembrei-me do antigo axioma do Cinema Novo: uma ideia na cabeça e uma câmera na mão. Mas ali a ordem se invertera — a ideia já não nascia; ela circulava. Talvez sempre tivesse circulado. [🎵 ENTRADA 4 — cordas tensas + atmosfera dramática, referência indireta a Terra em Transe | crescendo lento] Caminhei mais. As paredes eram feitas de páginas C2 e C3, dobradas como mapas de um país impossível. Nelas, Ruy Guerra ainda filmava, aos 94 anos, um Brasil que insistia em não terminar. Seus personagens — um político, outro empresário — repetiam gestos antigos, como se encenassem um pacto que jamais fora escrito, mas sempre cumprido. Pensei em Lima Duarte e Daniel Filho não como homens, mas como arquétipos condenados à representação. [🎵 ENTRADA 5 — ruídos urbanos + rádio fragmentado (vozes políticas sobrepostas) | sensação de caos] Em um dos corredores, encontrei um hospital que funcionava. Em outro, uma lei vetada. Mais adiante, uma decisão aguardava julgamento no Supremo Tribunal Federal. Cada fato parecia uma saída — mas, ao atravessá-lo, eu retornava ao mesmo ponto. Foi então que compreendi: o labirinto não aprisiona pelo erro, mas pela verossimilhança. [🎵 ENTRADA 6 — silêncio quase total + uma única nota grave sustentada] Lembrei-me de Getúlio Vargas — ou talvez de sua voz: “eu não sou mais eu… o eu ideia fica livre com vocês.” Ali, enfim, entendi o mecanismo. Os corpos eram apenas passagens. As ideias, essas sim, eram as verdadeiras paredes. [🎵 ENTRADA 7 — repetição rítmica minimalista (ciclo), evocando esforço contínuo | pulsação constante] Continuei, já sem esperança de sair. E, paradoxalmente, foi nesse abandono que algo mudou. Percebi que o labirinto não exigia uma saída — exigia um movimento. Como Sísifo empurrando sua pedra, o sentido não estava no fim, mas na repetição consciente. [🎵 ENTRADA 8 — retorno melódico suave, quase esperançoso, com acorde aberto] Ao longe — ou talvez dentro de mim — ouvi um eco de Terra em Transe. O transe não cessara. O país, como o labirinto, persistia em seu estado de suspensão: nem ruína completa, nem redenção plena. [🎵 FINAL — dissolução sonora: ruído + acorde maior sutil | esperança ambígua] Antes de desaparecer entre as páginas, toquei a superfície de uma delas. Estava quente, como se ainda estivesse sendo escrita. E compreendi, enfim, que aquilo que chamávamos de “podres poderes” não era o centro do labirinto, mas apenas mais um de seus caminhos. A esperança — essa, sim — não estava fora. Estava no ato de continuar.
“Um ministro, desses que o presidente ainda ouve, teria dito: ‘Seu maior adversário é o povo.’ Ao que o presidente — talvez por lucidez, talvez por ironia — poderia responder: ‘Não. Meu maior adversário sou eu mesmo.’ Porque, no fim, só resta ouvir o cidadão. Todo poder emana do povo — mas só o cidadão vota.”
🕊️ EPÍLOGO — O ADVERSÁRIO (Diálogo final entre o Presidente e seu Assessor) Assessor: Senhor Presidente, permito-me insistir numa hipótese incômoda: dizem que vosso maior adversário é o povo. Asesor: Señor Presidente, permítame insistir en una hipótesis incómoda: dicen que su mayor adversario es el pueblo. Presidente (após silêncio): Não. Essa é a forma mais fácil de errar. Presidente: No. Esa es la forma más fácil de equivocarse. Presidente: O povo não é adversário. É condição. Presidente: El pueblo no es adversario. Es condición. Presidente: Se há um adversário real, ele não está fora. Está na distância entre o que penso governar e o que de fato consigo governar. Presidente: Si hay un adversario real, no está afuera. Está en la distancia entre lo que creo gobernar y lo que realmente puedo gobernar. Assessor: Então o adversário…? Asesor: Entonces el adversario…? Presidente: Sou eu. Ou melhor: minha incapacidade de transformar intenção em direção. Presidente: Soy yo. O mejor dicho: mi incapacidad de transformar intención en dirección. (Pausa longa) Presidente: No fim, tudo se reduz a uma escuta. Presidente: Al final, todo se reduce a una escucha. Presidente: Mas não qualquer escuta — não a dos corredores, não a dos ministros, não a dos ecos. Presidente: Pero no cualquier escucha — no la de los pasillos, no la de los ministros, no la de los ecos. Presidente: A escuta do cidadão. Presidente: La escucha del ciudadano. Assessor (quase em sussurro): E o povo? Asesor: ¿Y el pueblo? Presidente: O povo é princípio. O cidadão é decisão. Presidente: El pueblo es principio. El ciudadano es decisión. Presidente: Dizem que todo poder emana do povo. Presidente: Dicen que todo poder emana del pueblo. Presidente: Mas esquecem — ou fingem esquecer — que só o cidadão vota. Presidente: Pero olvidan — o fingen olvidar — que solo el ciudadano vota. (Silêncio final — o poder já não responde) 🔎 Observação de estilo (breve) Autocrítica do governante → núcleo matusiano Centralidade da “capacidade de governo” → não intenção, mas execução Deslocamento do conflito externo para interno → o verdadeiro adversário Distinção conceitual (povo vs cidadão) → fechamento filosófico Se quiser