Inspirados já nos ensinamentos de Sófocles, aqui, procurar-se-á a conexão, pelo conhecimento, entre o velho e o novo, com seus conflitos.
As pistas perseguidas, de modos específicos, continuarão a ser aquelas pavimentadas pelo grego do período clássico (séculos VI e V a.C).
Os Descaminhos da Linha: Infraestrutura e a Poética do Abandono
A superação do secular atraso logístico brasileiro exige maturidade federativa e contratos sólidos, blindando os projetos de Estado contra o palanque efêmero dos governos de ocasião.
Ponta de AreiaMilton Nascimento
Ponta de areia
Ponto final
Da Bahia-Minas
Estrada natural
Que ligava Minas
Ao porto, ao mar
Caminho de ferro
Mandaram arrancar
Velho maquinista
Com seu boné
Lembra o povo alegre
Que vinha cortejar
Maria Fumaça
Não canta mais
Para moças, flores
Janelas e quintais
Na praça vazia
Um grito, um ai
Casas esquecidas
Viúvas nos portais
Maria Fumaça
Não canta mais
Para moças, flores
Janelas e quintais
Na praça vazia
Um grito, um ai
Casas esquecidas
Viúvas nos portais
Composição: Milton Nascimento, Fernando Brant.
Entre ferrugem e silêncio, os trilhos narram um país que interrompeu seus próprios caminhos — não por falta de projeto, mas por ausência de continuidade.
Por Teodoro da Silva-Mello
A história do progresso brasileiro pode ser lida, sem rasuras, pela geografia de seus caminhos. Das picadas indígenas que Mem de Sá converteu no primeiro ensaio de ligação entre o planalto de Piratininga e o Atlântico, passando pelas artérias de ferro que os barões do café estenderam sob o influxo do capital vitoriano, a fixação de nossas fronteiras econômicas sempre dependeu da ousadia da engenharia e do peso do Estado. Todavia, a crônica nacional sobre o deslocamento de cargas e pessoas guarda uma dualidade persistente: oscila entre o pragmatismo cego do asfalto e a melancolia dos trilhos arrancados.
Há meio século, a desativação da mítica Estrada de Ferro Bahia-Minas — imortalizada na sensibilidade musical de Milton Nascimento e Fernando Brant — sepultou mais do que dormentes e bitolas. Deixou atrás de si um rastro de cidades-fantasmas e isolamento, onde viúvas nos portais e velhos maquinistas de boné passaram a testemunhar o êxodo de uma juventude forçada a migrar para os grandes centros urbanos. A “Maria Fumaça que não canta mais” tornou-se a metáfora de um país que, no auge do rodoviarismo desenvolvimentista da era Juscelino Kubitschek, decidiu sabotar a própria integração ferroviária em nome de uma modernidade motorizada.
Esse trauma histórico projeta suas sombras até as primeiras décadas do século XXI. O ciclo de governos do Partido dos Trabalhadores, estendido em cinco mandatos presidenciais, buscou responder ao gargalo logístico por meio do gigantismo dos Programas de Aceleração do Crescimento (PAC). Contudo, a aferição rigorosa das entregas revela o quão tortuoso é o trâmite que separa o plano da realidade no Brasil. Grandes artérias concebidas para a intermodalidade — como a Ferrovia Norte-Sul ou a Transnordestina — cruzaram gestões de sinais trocados e arrastaram-se por décadas até verem seus trechos operacionais concluídos.
No Brasil, projetos atravessam governos, mas raramente chegam inteiros ao destino — dissolvidos entre promessas, revisões e reinaugurações.
Quando se isola o critério estrito de obras idealizadas, iniciadas e totalmente entregues sob o mesmo espectro político, o saldo se desloca para intervenções metropolitanas específicas, como a Linha 1 do Metrô de Salvador, e soluções pontuais como o Aeroporto de Natal.
O século XXI impõe uma nova gramática que o partidarismo tacanho é incapaz de decifrar. A infraestrutura moderna não comporta mais o messianismo governamental e exige, em contrapartida, uma convergência institucional madura. O exemplo contemporâneo mais nítido dessa transição repousa na engenharia política que viabilizou o projeto do Túnel Imerso Santos–Guarujá. Estruturado sob o modelo de Parceria Público-Privada (PPP), com aportes equânimes entre a União e o Estado de São Paulo, o projeto uniu o pragmatismo técnico ao imperativo de coordenação federativa.
Essa convivência institucional madura sinaliza uma mudança de postura. A superação do atraso logístico brasileiro não se faz com disputas paroquiais de paternidade de obras, mas com contratos sólidos, segurança jurídica e atração de capital privado.
Enquanto analistas se ocupam em traçar os destinos políticos de Brasília, a economia real exige que trilhos e estradas sejam assentados sem sobressaltos ideológicos. O Brasil não pode mais se dar ao luxo de assistir ao espetáculo de caminhos interrompidos pela metade. Para que o cidadão comum não termine à espera, na plataforma vazia, de um progresso que partiu para nunca mais voltar, é imperativo tratar a logística nacional como política de Estado.
O governo federal lançou este mês o programa Move Brasil Entregadores e Motoapp.
Por ele, a CEF vai financiar a compra de motos e bicicletas elétricas com juros baixos.
Podem participar entregadores de aplicativos com cadastro ativo há 6 meses e um mínimo de 100 entregas/corridas realizadas.
Logo se vê que o governo quer fingir que está criando empregos que vão colocar mais jovens em risco iminente de vida.
Governos estaduais e prefeituras não foram convidados a integrar o programa. São eles que fiscalizam o trânsito.
No programa, nenhuma menção à educação ou ao treinamento de motoboys, uma "profissão" suicida.
Na verdade, o programa vai estimular o pega-pra-capar em que se transformaram as ruas das grandes cidades brasileiras.
Motoboys ganham por entrega. Então correm como alucinados para fazer muitas delas a cada dia e faturar o jantar.
Muitos faturam uma internação hospitalar. Em muitos casos, a morte. São 475 jovens pobres mortos em São Paulo por ano.
Transformaram o trânsito num caos. É imprudente reclamar do motoboy que levou o seu retrovisor ou arranhou o seu carro.
O Código Nacional de Trânsito é federal. Nele está dito que só ambulâncias, bombeiros e polícia podem furar sinal vermelho.
Pois os motoboys furam sinal em todas as ruas, todo o tempo.
As bicicletas motorizadas são pilotadas, quase sempre, por menores que trafegam pela calçada e pela contramão.
O pedestre que está condicionado a olhar a mão de trânsito para atravessar uma rua, é atropelado por esses jovens despreparados.
Ou seja, o programa não cria nenhum cuidado oficial para a educação, o treinamento e a fiscalização da pilotagem alucinada.
Pensaram em financiar motos e bicicletas para "criar" empregos e, com isso, ganhar votos para a eleição de outubro.
Ninguém pensou que as ruas brasileiras estão virando uma baderna perigosa.
Educação? Dá muito trabalho e demora para aplicar. Civilidade? Que se dane a civilidade nacional.
Carlos Marchi
Tudo certo, menos dizer que um cidadão comum e o presidente da República recebem o mesmo tratamento. Exagero ou mentira pura e simples?
"Enquanto o Banco Central atua para controlar a inflação e atrair capital para financiar a dívida pública — inflada pelas ações do chamado 'Banco Central Paralelo' do governo —, o trabalhador vê seu salário perder poder de compra. É esse o 'Governo para Todos'?"
A urna eletrônica como a grande avenida da democracia
Se Roberto DaMatta pudesse vestir sua fantasia de cidadão-antropólogo para decifrar as eleições de 2026 no Brasil, ele não veria o pleito apenas como uma contagem mecânica de votos. Ele enxergaria um imenso drama ritualístico dividido em dois atos sagrados.
No primeiro turno, o Brasil vive o seu momento Carnaval. É a explosão da fragmentação, o desfile exuberante da diversidade, em que todas as alas da sociedade — representadas por uma infinidade de partidos, cores e discursos — tomam as ruas. Ricos e pobres dividem o mesmo tempo de tela e a mesma fila na seção eleitoral. É o instante em que a rígida estrutura social brasileira se finge horizontal. O cidadão comum, frequentemente invisibilizado pelo clássico “Você sabe com quem está falando?”, transforma-se no herói soberano do enredo nacional. O voto pulverizado reflete a malandragem de um povo que tenta negociar em múltiplas frentes, testando os limites da ordem e da subversão na busca por uma promessa de futuro.
O segundo turno, contudo, opera uma metamorfose drástica no ritual. A folia festiva do primeiro ato é bruscamente suspensa, dando lugar ao rigor e à solenidade de uma procissão quaresmal. O espaço para o meio-termo, para o jeitinho e para a multiplicidade desaparece. A sociedade é forçada a se dividir em uma dualidade quase religiosa, um espelho maniqueísta entre o “Bem” e o “Mal”, o “Nós” e o “Eles”.
A avenida colorida transforma-se em um corredor estreito de purificação e escolha moral definitiva. Ao reduzir as opções a apenas dois caminhos, o segundo turno expõe a ferida aberta do dilema brasileiro: a nossa crônica incapacidade de conciliar visões de mundo divergentes sem que um lado tente anular a existência do outro.
Em 2026, a apoteose dessa procissão não celebra apenas a vitória de um candidato, mas escancara o drama de uma nação que caminha na corda bamba entre o desejo de igualdade universal da urna e o peso sufocante de suas hierarquias cotidianas.
Entre o Carnaval e a Procissão, a democracia brasileira percorre sua grande avenida: da pluralidade festiva do primeiro turno à escolha moral do segundo. No centro, a urna eletrônica — palco onde a igualdade do voto confronta as hierarquias do cotidiano.
quarta-feira, 29 de julho de 2026
Entrevista | O intérprete do ‘jeitinho brasileiro’ chega, produtivo, aos 90, por Roberta JansenO Estado de S. PauloO antropólogo diz que para entender um povo é necessário conhecer os seus ritos e seus mitosO carnaval como ritual que mistura ricos e pobres, suspendendo regras e diferenças, é tema de estudos e de um de seus livros
Entender o Brasil por intermédio de algumas de suas manifestações culturais populares mais arraigadas, como o carnaval, o jogo do bicho e o futebol, foi o desafio que Roberto DaMatta se impôs desde o início de sua carreira, nos idos dos anos 1960. Um dos mais importantes antropólogos do País, colunista do Estadão desde 2001, DaMatta completa 90 anos nesta quarta-feira, 29.
O renomado intelectual revolucionou as ciências sociais do País ao transformar o cotidiano nacional, os festejos religiosos e mesmo os paradoxos culturais em objetos de estudo. DaMatta estudou o carnaval, o futebol e as procissões religiosas não como diversão, mas como rituais que revelam a estrutura da sociedade brasileira.
Foi um dos principais responsáveis por analisar cientificamente e popularizar o termo “jeitinho brasileiro” em seus livros das décadas de 1970 e 1980 (como Carnavais, Malandros e Heróis), consolidando o “jeitinho” como uma estratégia legítima de sobrevivência social, que se equilibra entre o favor e a malandragem.
Uma das principais ideias desenvolvidas na obra de DaMatta é a dialética entre “casa” e “rua”. O antropólogo divide o universo social brasileiro entre a casa (o espaço privado, do afeto, do parentesco, no qual as leis não entram) e a rua (o espaço público, do trabalho, das leis impessoais, do desamparo). Em boa parte de sua obra, DaMatta explora a ideia de que o brasileiro tenta a todo custo transformar a rua em casa, usando laços de amizade e redes de favor, para fugir da frieza das leis. “Como fez (o banqueiro Daniel) Vorcaro”, afirmou em entrevista ao Estadão por ocasião de seu aniversário.
“Você sabe com quem está falando?” A frase clássica do brasileiro virou objeto de estudo de DaMatta, que a apresenta como um rito de exclusão autoritário. Segundo o antropólogo, ela serve para lembrar ao outro que, no Brasil, as relações e os privilégios pessoais valem mais do que as leis universais que deveriam valer para todos os cidadãos.
Formado em história pela Universidade Federal Fluminense (UFF), DaMatta fez uma especialização em antropologia social no Museu Nacional da UFRJ. Depois, cursou mestrado e doutorado na Universidade Harvard, nos Estados Unidos. Seus estudos sempre foram voltados para o País. Entre suas obras mais importantes, estão Um Mundo Dividido: A Estrutura Social dos Índios Apinayé; Carnavais, Malandros e Heróis; Águias, Burros e Borboletas: Um Ensaio Antropológico Sobre o Jogo do Bicho; A Bola Corre Mais Que os Homens: Duas Copas; além do ensaio Você Sabe com Quem Está Falando?
Em sua obra, DaMatta mostrou especial interesse pelas peculiaridades brasileiras. Entre elas, a hierarquização da sociedade, disfarçada de proximidade; o carnaval como ritual que mistura ricos e pobres, suspendendo regras e diferenças; a dicotomia entre o coletivo, simbolizado na rua, e o privado, sintetizado no lar; o fascínio pela esperteza da malandragem. Segundo DaMatta, para entender um povo é necessário conhecer os seus ritos e seus mitos.
Em Carnavais, Malandros e Heróis, escreveu que pretendia abordar “esse povo nas suas esperanças e perplexidades, pois sempre me impressionou a conjunção de um povo tão achatado junto a um sistema de relações pessoais tão preocupado com personalidades e sentimentos; uma multidão tão sem rosto e sem voz, junto a uma elite tão rouca de gritar por suas prerrogativas e direitos; uma intelectualidade tão preocupada com o coração do Brasil e, no entanto, tão voltada para o último livro francês; uma criadagem que passa tão despercebida e patrões tão egocêntricos (...)”. Ele diz que o povo brasileiro o intriga “na sua generosidade, sabedoria e, sobretudo, esperança”.
Ao voltar ao Brasil depois do mestrado e doutorado nos Estados Unidos, o antropólogo trabalhou no Museu Nacional até 1986, quando aceitou um convite da Universidade de Notre Dame, em Indiana, nos EUA, para lecionar. Ele só voltou ao País em meados dos anos 2000, quando começou a dar aulas na PUC-RJ. Agora, diz, encerrou sua carreira acadêmica e pensa seriamente em começar a escrever ficção.
Abaixo, leia a entrevista com Roberto DaMatta.
O senhor acompanhou a Copa do Mundo? Os brasileiros deixaram um pouco de lado a divisão política que vem caracterizando o País nos últimos anos para torcer pela seleção?
O Brasil, que é o tempo todo criticado, na Copa vira objeto de afeto, uma solidariedade absolutamente impressionante. A partir da classificação, o time brasileiro se apresenta como uma unidade brasileira na qual, inevitavelmente, o Brasil inteiro projeta os nossos afetos, a língua que falamos, a maneira como somos. O futebol brasileiro sempre se caracterizou pelo drible, pela malandragem, pelos negros, pelos pobres, pelos artistas da pelota.
Artistas de um esporte que chegou com os colonizadores; e justamente os mais pomposos, os mais distantes, os ingleses, aqueles que não se misturavam. Além disso, é um esporte em que não sabemos qual será o resultado; estamos entregues ao destino. Pode haver preferências, mas não sabemos o resultado; certezas absolutas não funcionam.
O segundo ponto é que no futebol temos a experiência da igualdade absoluta. Não tem jeitinho, compadrio, corrupção. E todos nós conhecemos as regras do jogo. O que é bem diferente da nossa burocracia aristocrática, tão difícil de administrar, em que sempre existe uma regra
“Uma democracia exige imparcialidade. Como fazer isso dentro de uma sociedade familística? Se você virar governador, não vai dar um emprego ao seu amigo de infância que está desempregado? Ao primo que está passando necessidade? Ao irmão que tem um emprego sazonal, arriscado? As obrigações do parentesco corroem a imparcialidade da administração pública do Brasil há séculos”
“Em ‘Carnavais, Malandros e Heróis’, queria abordar o povo brasileiro, essa multidão tão sem rosto e sem voz, junto a uma elite tão rouca de gritar por suas prerrogativas e seus direitos” que desconhecemos.
O sr. está chegando aos 90 anos. Como se sente?
Cheguei a uma idade em que não há nada completamente ruim, nem completamente bom; é tudo mais ou menos. Mas, olha, o que queria fazer eu fiz. Fui um dos primeiros a fazer doutorado em Antropologia em Harvard, consegui sobreviver à minha timidez, morei nos Estados Unidos, fui contratado por uma universidade americana. Consegui olhar para a sociedade brasileira com um olhar diferenciado, que é fundamental para a antropologia social, enxergar o que acontece com uma certa distância.
Sobre o envelhecimento, até os 50 anos ninguém morre, né? Ninguém acha que vai morrer. Só depois os problemas começam a aparecer, tive um enfarte, tive de colocar um stent. Mas o mais chato foi o AVC (há três anos), quando tive certeza de que iria morrer, acabei ficando com o lado esquerdo paralisado (a fisioterapia o tem ajudado bastante e já está praticamente recuperado), tomo uma batelada de remédio. O maior sofrimento é nos conformarmos com a ideia de que somos finitos. E enxergar esse contraste maravilhoso entre a nossa consciência da finitude e as artes, o cinema, a pintura, o teatro, os romances. O criador é finito – e ter consciência disso é o ponto central da nossa existência –, mas há um outro lado que se perpetua. O que está perpetuando é finito, mas o que é perpetuado é infinito.
Como a figura do banqueiro Daniel Vorcaro – que, aparentemente, conseguiu comprar praticamente toda a República, à esquerda e à direita – pode ser analisada do ponto de vista da antropologia?
O universo doméstico e o universo público têm muitas oposições; o que fazemos em casa, não podemos fazer na rua; e o que fazemos na rua, não podemos fazer com nossos parentes. Vorcaro entendeu isso intuitivamente. Como explica muito bem o antropólogo Marcel Mauss, quando recebemos um presente, nos sentimos obrigados a devolver com outro presente. É assim que o sistema público funciona. Você não vai deixar de dar um emprego para o seu cunhado que está precisando, fazer um favor para um amigo. As oposições ideológicas e de classe existem, mas são rompidas pelas relações pessoais; é aí que entra em jogo a corrupção. Vorcaro deu dinheiro para todo mundo, da direita e da esquerda, porque ele sabia que a gente não esquece o tratamento afetuoso, o presente, a gentileza, a simpatia.
O sr. falou há pouco em consciência humana. Há todo um debate acadêmico a respeito da inteligência artificial. Acredita que um dia a IA poderá ter consciência?
Nós temos uma coisa que ninguém tem, a consciência, um dos maiores mistérios do mundo. (O filósofo Friedrich) Nietzsche dizia que quem inventou a alma foi o corpo, como uma forma de poder lidar com a consciência. Sabemos que funcionamos com base na eletricidade. Nosso cérebro funciona por impulsos elétricos. Os literatos, com suas imaginações fantásticas, como Isaac Asimov, criam robôs com consciência. Será que conseguiremos criar uma máquina que tenha consciência de si própria e do mundo? Olha, acho que isso não vai acontecer por uma razão trivial. Nossa consciência é agasalhada por uma máquina chamada corpo humano. E são as experiências com esse corpo, essas várias consciências, esses vários tipos de memória, que fazem a nossa consciência.
Como o sr. vê essa disputa entre as políticas identitárias e o radicalismo da extrema direita?
Acho que melhoramos e pioramos ao mesmo tempo. Existe uma questão moral, filosófica, sociológica muito importante que é o fato de convivermos todos os dias com coisas positivas e negativas. Os avanços criam outras dificuldades. É curioso, mas os extremos que levam ao progresso também são motivo de resistência e atraso. Os limites são puxados para cima e para baixo, à direita e à esquerda. Sempre que pensamos em progredir, em crescer, pensamos no lado positivo. Mas devemos pensar também no lado negativo desse crescimento.
Todo movimento provoca alguma reação, mas sou absolutamente contrário à desonestidade e à violência. Uma democracia exige imparcialidade. Como fazer isso dentro de uma sociedade familística? Se você virar governador, não vai dar um emprego ao seu amigo de infância que está desempregado? Ao primo que está passando necessidade? Ao irmão que tem um emprego sazonal, arriscado? As obrigações do parentesco corroem a imparcialidade da administração pública do Brasil há séculos.
Indígenas ou índios?
Índios, claro. Essa discussão é muito boboca. Índio é apenas um nome. Todo mundo sabe que eles foram chamados de índios porque os navegadores acharam que estavam chegando às Índias.
Como o senhor vê a ascensão dos evangélicos no Brasil nas últimas décadas?
O que caracteriza o protestantismo em geral, seguindo aqui, mais ou menos, Max Weber em A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, é o individualismo, a ideia de se desvencilhar das relações pessoais, da dependência que caracteriza a sociedade moderna, em que o todo é mais importante do que a parte.
As igrejas evangélicas entenderam e abraçaram as dinâmicas do capitalismo e do mercado moderno de forma muito melhor que a Igreja Católica, oferecendo uma justificativa espiritual e moral para a ascensão social. Mas é uma transição dramática, que envolve rupturas, abala pilares da sociedade. Há um conjunto de impulsos, tendências, eventos e fatos que rompem com tradições do Brasil de forma muito acelerada e podem passar essa impressão errada de fim do mundo.
Mas esse movimento pode estar por trás da nova onda conservadora?
Do ponto de vista da ética, somos reacionários, seguimos um sistema ético do século 19. O evangelismo surpreende porque não tem uma igreja, são templos, grupos, uma multiplicidade maior de vozes, que acabou aparecendo com mais nitidez na direita ou na centro-direita, com tendência a radicalismos e posições extremadas. Mas o evangelismo pode ser libertador no sentido de que permite a emergência e a elaboração de certos problemas humanos e sociais muito importantes. É libertador no sentido de que nos tira de uma situação em que há uma religião dominante; precisamos ter visões alternativas, críticas. Mas tudo depende das lideranças. No caso do Brasil, eu não entraria na igreja do bispo (Edir) Macedo.
CENÁRIOS DE 1º TURNOA pesquisa também realizou 1 cenário de 1º turno.
Intenção de voto espontânea para presidenteVocê já escolheu em quem vai votar? (Se sim) Em quem?Intenção de voto estimulada para presidente (1º turno)Em quem você votaria se o primeiro turno fosse disputado entre os seguintes candidatos:
https://static.poder360.com.br/uploads/2026/07/quaest-mg-28jul2026.pdf
Pesquisa Genial/Quaest entrevistou 1.482 pessoas de 22 a 26 de julho...
PODER360
28.jul.2026 (terça-feira) - 8h52
Levantamento da Genial/Quaest, divulgado nesta 3ª feira (28.jul.2026), mostra que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) empata tecnicamente com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e com o ex-governador Romeu Zema (Novo), em diferentes cenários para uma eventual disputa de 2º turno em Minas Gerais.
No cenário entre o presidente e o ex-governador de Minas Gerais, Zema soma 39% das intenções de voto e fica numericamente à frente de Lula, que tem 37%. Contra o filho de Jair Bolsonaro (PL), o petista tem 38%, ante 35% de Flávio. A margem de erro é de 3 pontos percentuais, para mais ou para menos.
REJEIÇÃO
A Quaest também levantou o cenário de rejeição. Eis os resultados:
AVALIAÇÃO
O levantamento também mediu como os eleitores avaliam o desempenho do presidente Lula. Eis os resultados:
A engrenagem nacional em curto-circuito: quando os vagões de cauda juram que guiam a viagem, a massa descobre que está empurrando uma máquina sem carcaça.
🚂 APERTE O PLAY PARA DAR A PARTIDA NA COMPOSIÇÃO:
"Primeira Linha" (1930) - Benedicto Lacerda e Grupo Gente do Morro (Comp. Heitor dos Prazeres)
No balanço das bitolas, a fumaça da locomotiva redesenha o céu da Central. Quem dita a marcha? É a máquina que arrasta a massa ou a massa que empurra a máquina? Entre a goela seca da nossa gente e o cheiro do churrasquinho de gato que tomou o lugar da prometida picanha, a fumaça da Maria — datilógrafa fiel deste pasquim — registra no ritmo dos pistões. Olhamos para o horizonte como quem olha para o balcão daquela velha churrascaria de Ipanema onde Tom Jobim costumava dedilhar notas flutuantes no colarinho do chope.
Use o código com cuidado.
A História com Odisseu
Odisseu e CalipsoO cativeiro: Calipso apaixonou-se por Odisseu (Ulisses) quando ele naufragou em sua ilha. Ela o deteve por sete anos, prometendo-lhe a imortalidade se ele ficasse com ela.
A libertação: Odisseu chorava todos os dias sentindo saudades de sua esposa Penélope e de sua casa em Ítaca. A deusa Atena pediu a Zeus que interviesse, e o deus enviou Hermes para ordenar que Calipso libertasse o herói.
A partida: A contragosto, Calipso ajudou Odisseu a construir uma jangada, forneceu provisões e enviou ventos favoráveis para que ele pudesse continuar sua viagem de retorno.
Aliado a Rubio, Milei e Netanyahu, Flávio dobra aposta na crise externa
Publicado em 28/07/2026 - 07:57 Luiz Carlos Azedo
Argentina, Brasília, China, Comunicação, Eleições, EUA, Governo, Israel, Itamaraty, Justiça, Partidos, Política, Política, Trump
Senador aposta que o colapso da política externa poderá ser atribuído a Lula e convertido em votos para a oposição, ao provocar crise econômica
Flávio Bolsonaro transformou a convenção que oficializou sua candidatura à Presidência numa tribuna para líderes estrangeiros atacarem o governo brasileiro e o Supremo Tribunal Federal (STF). Dobrou uma aposta de alto risco na crise externa. O candidato do PL se apresenta como representante nacional de uma onda conservadora internacional, mas fomenta a deterioração das relações diplomáticas e comerciais do Brasil com Estados Unidos, Argentina e Israel.
A operação pode até mobilizar o eleitorado bolsonarista mais radical, porém ameaça interesses econômicos do país e expõe Flávio à acusação de colocar a estratégia eleitoral de sua família acima do interesse nacional. Convidado de honra da convenção do PL, em São Paulo, o presidente argentino Javier Milei chamou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva de “ladrão” e “presidiário” e dirigiu ao ministro Alexandre de Moraes uma ofensa incompatível com o cargo que ocupa: “lixo careca”.
Foi um discurso truculento, realizado num evento partidário brasileiro. Por isso, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, classificou a manifestação como interferência nos assuntos internos do Brasil e uma agressão ao Executivo, ao Judiciário, ao Congresso e ao povo brasileiro. Lula tentou tirar por menos: “Eu? Quem é esse cara?”, mas a reação de alguns ministros foi no mesmo diapasão. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, abandonou o estilo diplomático e chamou Milei de “palhaço”.
Leia também: Lula evita escalada com Milei após ataques contra governo brasileiro
Essa escalada verbal não interessa aos dois países. Brasil e Argentina construíram, desde o governo José Sarney, uma parceria que permitiu superar a antiga rivalidade estratégica, criar o Mercosul e integrar cadeias produtivas fundamentais, principalmente na indústria automobilística. A Argentina é o terceiro maior destino das exportações brasileiras. Pelos dados apresentados, comprou US$ 9,12 bilhões em produtos do Brasil, atrás apenas da China, com US$ 47,68 bilhões, e dos Estados Unidos, com US$ 20,02 bilhões.
A pauta destinada à China é concentrada em commodities, sobretudo soja, petróleo e minério de ferro. Estados Unidos e Argentina absorvem uma parcela proporcionalmente maior de bens industrializados, de maior valor agregado e com capacidade de gerar empregos qualificados no Brasil. Automóveis, autopeças, máquinas, equipamentos elétricos, produtos químicos, aeronaves, combustíveis processados e outros manufaturados ocupam espaço relevante nas vendas aos mercados norte-americano e argentino. A retração das exportações pode reduzir a produção industrial, interromper cadeias de fornecedores, adiar investimentos, afetar a arrecadação e eliminar empregos
Eixo de alianças
A presença de Milei na convenção não foi um acaso, reflete o eixo das alianças internacionais de Flávio Bolsonaro, ao lado da mensagem de Benjamin Netanyahu exibida no evento e da atuação do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio. As relações entre Brasil e Israel chegaram ao nível mais baixo desde 1949. Os dois países deixaram suas representações sob encarregados de negócios, sem embaixadores. Ao gravar uma mensagem para a convenção do PL, o primeiro-ministro israelense ingressou diretamente no ambiente eleitoral brasileiro e reforçou a identificação do bolsonarismo com seu governo.
Leia mais: Itamaraty vê agravamento inédito da crise entre Brasil e Argentina
Forma-se uma conexão internacional de extrema direita: Milei representa o ultraliberalismo econômico e a guerra cultural contra a esquerda; Netanyahu é um senhor da guerra marcado pela prolongada ofensiva militar em Gaza; e Rubio executa uma política externa voltada para conter a expansão chinesa e alinhar governos da América do Sul às prioridades de Washington.
Com os Estados Unidos, o problema é economicamente mais grave. A imposição de tarifas pelo governo Donald Trump já interferiu na eleição brasileira e atingiu setores exportadores. Rubio tornou-se um dos principais formuladores dessa pressão, associando medidas diplomáticas, comerciais e políticas a críticas ao Supremo e aos processos contra Jair Bolsonaro.
Flávio procura transformar essa ofensiva numa prova de que Lula isolou o país. O efeito pode ser aumentar as tensões com dois dos três maiores compradores dos produtos brasileiros, ampliar a insegurança dos empresários e criar dificuldades para os setores industriais. Uma ruptura mais profunda elevaria custos, pressionaria preços e prejudicaria a renda e o emprego.
Vale a pena ler de novo:
Quando a distopia americana de Trump vai além do gênero literário
Lula pode jogar parado porque o maior adversário de Flávio é ele mesmo
Nas entrelinhas: todas as colunas no Blog do Azedo
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BOLETIM DA PLATAFORMA
O Tabloide da Planície e Central do Brasil
Diretor-Geral: Zé do Trem | Datilografia e Inspiração: A Musa da Maria Fumaça
Ano LXXVI – Edição das Seis da Matina – Sob o Nevoeiro do Progresso
📰 A MANCHETE DA CAPA
O RABO COMANDA O CACHORRO OU O CACHORRO COMANDA O RABO?
No balanço das bitolas, a fumaça da locomotiva redesenha o céu da Central. Quem dita a marcha? É a máquina que arrasta a massa ou a massa que empurra a máquina? Entre a goela seca da nossa gente e o cheiro do churrasquinho de gato que tomou o lugar da prometida picanha, a fumaça da Maria — datilógrafa fiel deste pasquim — datilografa no ritmo dos pistões. Olhamos para o horizonte como quem olha para o balcão daquela velha churrascaria de Ipanema onde Tom Jobim costumava dedilhar notas flutuantes no colarinho do chope.
🌐 CADERNO DE GEOPOLÍTICA: DA PLANÍCIE AO MUNDO
As declarações do presidente argentino Javier Milei contra Lula geraram forte crise diplomática e a convocação do embaixador brasileiro, mas o governo adota cautela e descarta declarar Milei persona non grata. Sobre os EUA, embora o Brasil repudie o "tarifaço" comercial imposto pelo governo Trump, o setor produtivo e o alto escalão evitam uma retaliação direta via Lei de Reciprocidade para não agravar o cerco econômico, preferindo negociações e o contencioso na OMC.
🌍 COLUNA DO CORRESPONDENTE INTERNACIONALISTA
O "Três em Um" de Lula em 2026: Milei, Bolsonaro e Netanyahu Apertados no Gabinete de Trump
Em 1989, Fernando Collor de Mello subiu ao palanque para acusar pateticamente que o operário guardava na sala um moderno aparelho de som "Três em Um". Naquele mesmo ano, apontou o dedo para as nossas indústrias, chamando as carroças nacionais (da Villares et tal) de lixo tecnológico. Passaram-se quase quarenta anos. A grande ironia da conjuntura eleitoral é que Lula encontrou o seu próprio "Três em Um" retórico: elegeu Donald Trump como o seu adversário universal, fundindo Javier Milei, Jair Bolsonaro e Benjamin Netanyahu dentro de uma única carcaça americana para não ter que explicar os desvios da nossa própria plataforma.
📜 O ÚLTIMO DESVIO: ULYSSES À DERIVA
A verdade nua é que nem Lula e nem Bolsonaro carregam em suas bagagens a têmpera ou a estatura de Ulysses Guimarães. Se há alguém que caminhou nos mesmos trilhos de Ulysses, esse alguém foi Fernando Henrique Cardoso. FHC foi com o "Velho de Guerra" quase até o fim da linha. Mas o ano de 1989 foi o pátio de manobras onde a ambição individual descarrilou a gratidão. Deixaram Ulysses Guimarães à deriva, isolado na plataforma, vendo as naus e as modernas embarcações do marketing político zarparem em direção ao poder. O resto é história e mito.
Gravura II: O Naufrágio da Nova República e os desvios no fundo do mar de Angra. Traço do Boletim.
🎨 VAGÃO INAUGURAL: A HOMENAGEM A HEITOR DOS PRAZERES
Para abrir as alas da nossa composição nas paredes dos caixotes de ferro da Central, a nossa rotativa rodou o traço imorredouro do mestre do samba. O orvalho vem caindo e a malandragem pede passagem na gare!
Gravura I: O samba toma conta dos trilhos da Central. Estilo Heitor dos Prazeres.
📻 A CAIXA DE SOM: "VELHA ROUPA COLORIDA" E AS LÁGRIMAS NA GARE
O Zé do Trem assumiu as carrapetas da estação e soltou a agulha no peito de Sobral. Quando Belchior começou a berrar que o passado é uma roupa que não nos serve mais, os cabras cearenses pararam com as malas na mão. O choro correu solto e a nossa datilógrafa Maria teve que correr com o pano de estopa para secar o pranto que inundou a plataforma.
🎵 AGORA TOCANDO NA VITROLA DO ZÉ:
Belchior - Velha Roupa Colorida (Ao Vivo)
📌 FUNDAMENTAÇÃO E FONTES JORNALÍSTICAS
Agência Estado / UOL: Registro oficial sobre a crise diplomática e a convocação do embaixador brasileiro na Argentina após os ataques de Milei.
Folha de S.Paulo (Painel): Análise de bastidores do Itamaraty sobre a adoção de cautela e a rejeição à declaração de persona non grata.
BBC News Brasil & Correio Braziliense: Dados econômicos e técnicos sobre o "tarifaço" comercial de Donald Trump e a abstenção de retaliação imediata pelo governo brasileiro.
(Fim da Transmissão da Boneca – Rodar as Rotativas antes que o dia clareie de vez)
Use o código com cuidado.
Pierrô ApaixonadoHeitor dos Prazeres
Pierrô Apaixonado
Heitor dos Prazere
Composição: Noel Rosa-Heitor dos Prazeres
Um pierrô apaixonado
Que vivia só cantando
Por causa de uma colombina
Acabou chorando, acabou chorando
A colombina entrou num butiquim
Bebeu, bebeu, saiu assim, assim
Dizendo: pierrô cacete
Vai tomar sorvete com o arlequim
Um grande amor tem sempre um triste fim
Com o pierrô aconteceu assim
Levando esse grande chute
Foi tomar vermute com amendoim
Conflito InteriorMartinho da Vila
Eu não sei mais o que fazer
Pra você não ir embora
O nosso amor não acabou
Mas há uma agonia
É um conflito interior
Comum na nossa geração
Dá uma vontade de sumir
Romper o laço umbilical
Mas destransar eu sei
É tão difícil amor
Se ainda existe
Uma atração carnala
E agora já nem sei
Se é bom você ficar
Se eu constatei
Vontades de voar
Composição: Joao de Aquino, Martinho da Vila.
A charge mostra Brizola chegando ao aeroporto sob ataques agressivos, enquanto Mafalda comenta com ironia a hipocrisia política, cercada por “gatos esfomeados” como metáfora.
O presidente da Argentina, Javier Milei, limitou-se a referir-se ao presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, como “ladrão”. Não avançou para qualificações mais agressivas, como a expressão “ratón”, já utilizada em episódios anteriores da política brasileira.
Há precedentes de embates retóricos mais ásperos, como aqueles dirigidos a Leonel Brizola por setores militantes durante seu retorno do exílio. À época, circularam acusações baseadas em supostas confidências atribuídas ao então presidente de Cuba, sem comprovação documental.
O episódio remete ainda ao entrelaçamento de trajetórias políticas e ideológicas na região, incluindo a proximidade entre Frei Betto — posteriormente assessor de Lula — e movimentos católicos de base no ABC paulista, berço da atuação sindical que projetou o atual presidente brasileiro.
“Cambalache” — Enrique Santos Discépolo
“Que el mundo fue y será una porquería, ya lo sé…”CambalacheEnrique Santos Discépolo
Cambalache
Cambalache
Que o mundo foi e sempre será uma porcaria, já sei
Que el mundo fue y será una porquería, ya lo sé
No quinhentos e seis e no dois mil também
En el quinientos seis y en el dos mil también
Que sempre teve ladrões, maquiavélicos e enganadores
Que siempre ha habido chorros, maquiavélicos y estafadores
Felizes e amargurados, valores e falsidades
Contentos y amargados, valores y dubles
Mas que o século vinte é um espetáculo
Pero que el siglo veinte es un despliegue
De maldade descarada, já não dá pra negar
De maldad insolente, ya no hay quien lo niegue
Vivemos atolados em um merengue
Vivimos revolcados en un merengue
E no mesmo lamaçal todos se sujando
Y en un mismo lodo todos manoseados
Hoje parece que é a mesma coisa ser honesto ou traidor
Hoy resulta que es lo mismo ser derecho que traidor
Ignorante, sábio, ladrão, generoso, enganador
Ignorante, sabio, chorro, generoso, estafador
Tudo é igual, nada é melhor
Todo es igual, nada es mejor
A mesma coisa um burro que um grande professor
Lo mismo un burro que un gran profesor
Não há reprovados, nem hierarquia
No hay aplazados, ni escalafón
Os imorais nos igualaram
Los inmorales nos han igualado
Se um vive na impostura
Si uno vive en la impostura
E outro rouba por ambição
Y otro roba en su ambición
Não faz diferença se é padre
Da lo mismo que si es cura
Torcedor, rei de paus
Colchonero, rey de bastos
Sem vergonha ou clandestino
Caradura o polizón
Que falta de respeito
Que falta de respeto
Que atropelo à razão
Que atropello a la razón
Qualquer um é um senhor
Cualquiera es un señor
Qualquer um é um ladrão
Cualquiera es un ladrón
Misturados com Stavisky
Mezclados con Stavisky
Vão Don Bosco e a Mignón
Van Don Bosco y la Mignón
Carnera e Napoleão
Carnera y Napoleón
Don Chicho e San Martín
Don Chicho y San martín
Igual na vitrine desrespeitosa
Igual que en la vidriera irrespetuosa
Dos cambalaches
De los cambalaches
A vida se misturou
Se ha mezclado la vida
E ferida por uma espada sem remaches
Y herida por un sable sin remaches
Vê a Bíblia chorar junto a um aquecedor
Ves llorar la Biblia junto a un calefón
Século vinte, cambalache, problemático e febril
Siglo veinte, cambalache, problemático y febril
Quem não chora, não mama, e quem não rouba é um otário
El que no llora, no mama, y el que no afana es un gil
Vai, não para, vai que vai
Dale no más, dale que va
Que lá no forno a gente vai se encontrar
Que allá en el horno se vamos a encontrar
Não pense mais, sente-se ao lado
No pienses más, siéntate a un lado
Que a ninguém importa se você nasceu honesto
Que a nadie importa si naciste honrado
Que é a mesma coisa quem trabalha
Que es lo mismo el que labura
Dia e noite como um boi
Noche y día como un buey
Que quem vive dos outros
Que el que vive de los otros
Que quem mata ou quem cura
Que el que mata o el que cura
Ou está fora da lei
O esta fuera de la ley
Vivemos atolados em um merengue
Vivimos revolcaos en un merengue
E no mesmo lamaçal todos se sujando
Y en un mismo lodo todos manoseados
Composição: Enrique Santos Discépolo. Essa informação está errada? Nos avise.
Enviada por Camila.
Retórica, memória política e os limites do debate público
O presidente da Argentina, Javier Milei, limitou-se recentemente a referir-se ao presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, como “ladrão”. A escolha do termo, ainda que contundente, manteve-se dentro de um padrão retórico que, embora agressivo, não alcança níveis mais extremos já observados em outros momentos da política latino-americana.
A história política brasileira oferece exemplos de embates muito mais ásperos. Durante o retorno de Leonel Brizola do exílio, não foram raras as manifestações de setores militantes que recorreram a qualificações pejorativas baseadas em alegações frágeis ou não comprovadas. À época, circularam acusações atribuídas a supostas confidências do então presidente de Cuba, sem que houvesse documentação que lhes conferisse credibilidade. O episódio ilustra como a retórica política pode, em determinados contextos, ultrapassar os limites do debate público responsável.
Esse tipo de linguagem não surge no vácuo. Ele se insere em um tecido histórico marcado por relações ideológicas, trajetórias pessoais e redes de influência que atravessam fronteiras nacionais. A proximidade entre figuras como Frei Betto — posteriormente assessor de Lula — e os movimentos católicos de base no ABC paulista ajuda a compreender a formação política de lideranças que emergiram do sindicalismo e alcançaram o poder institucional.
Ainda assim, reconhecer o contexto histórico não implica legitimar o uso de acusações sem comprovação como instrumento de disputa política. Ao contrário, reforça a necessidade de distinguir entre crítica fundamentada e retórica inflamatória. Democracias maduras dependem de um debate público que privilegie fatos verificáveis, argumentos consistentes e respeito institucional.
Ao se observar o episódio recente à luz dessa trajetória, percebe-se que, embora a linguagem empregada por Milei seja criticável, ela se insere em uma tradição mais ampla de tensionamentos retóricos na política regional. O desafio contemporâneo permanece o mesmo de outrora: elevar o nível do debate público, evitando que ele se degrade em acusações vazias ou narrativas desprovidas de lastro factual.
Em última instância, o que está em jogo não é apenas a relação entre líderes ou países, mas a qualidade do discurso político que sustenta as instituições democráticas.
Manhattan Connection 26/07/2026
domingo, 26 de julho de 2026
A América contra si mesma, por Luiz Sérgio HenriquesO Estado de S. PauloO grande país demite-se em cena aberta da sua história e declina da sua parte de responsabilidade pelo destino do mundo
A comemoração dos 250 anos da Declaração de Independência dos Estados Unidos da América, evento revolucionário com repercussões globais em sua época, transcorre numa atmosfera pesada por conta de Trump e do trumpismo. Fácil constatar que há luzes e sombras por toda parte, no passado e no presente. Por isso, mesmo que aos tropeços, damo-nos conta da complexidade daquela sociedade e do seu percurso, bem como da sua relevância para a sorte geral das liberdades. Esta percepção, naturalmente, vai muito além das palavras de ordem que herdamos, calcificadas, do conflito particular que findou em 1989.
Para os que se colocam à esquerda, a hora é boa para revisitar os próprios clássicos e reavaliar o experimento norte-americano. Nada melhor do que partir de Karl Marx, quando menos por ser o autor da primeira visão histórico-sistemática da modernidade capitalista.
Há quem afirme que as relações entre Europa e América, o velho e o novo mundo, não foram aspecto secundário das cogitações do founding father do comunismo. No século 18, a independência das 13 colônias rebeldes seria o sinal para o movimento revolucionário da classe média europeia. No século seguinte, a guerra civil americana, com a vitória dos yankees, significaria não só a derrota do Sul escravista, mas também um impulso para o amadurecimento do movimento operário europeu em busca de uma nova ordem. Os incrédulos talvez duvidem, mas esta associação de ideias, forte e inesperada, está num lugar de honra, o prefácio da primeira edição de O Capital.
Também pode surpreender, pouco tempo antes, a ilustrada troca de mensagens entre Marx e o presidente Lincoln, reconduzido ao cargo nos meses finais da guerra civil. O primeiro saúda a reeleição em nome da Associação Internacional dos Trabalhadores – a temida Internacional, que fazia tremer tronos e potestades –, o segundo responde por meio do seu embaixador em Londres. Firula diplomática, dirão alguns. Signo expressivo, acreditamos, de que a política moderna é o resultado da convergência de forças e tradições das mais diferentes orientações, que convém tentar compreender na relação de umas com as outras, sem estigmatizar nenhuma.
Décadas depois, já inteiramente constituída a arena política do século 20, um pensador como Antonio Gramsci recusa-se a encerrar a questão americana na categoria do “imperialismo”. Para ele, há nesta parte do mundo uma possibilidade de mudança que não podia nascer na velha Europa. A demografia racionalizada, a ausência de classes parasitárias e as inovações na produção – referência explícita ao fordismo – marcam uma nova forma de produção e de vida social. O capitalismo uma vez mais se reinventa e faz sua específica “revolução passiva”, cujos resultados o “antagonista” – a classe operária – tem a obrigação de levar seriamente em conta, em vez de propor um mítico combate definitivo entre classes concebidas como blocos de granito.
Estes pontos de vista alternativos ajudam a entender o que se seguiria – tanto o dinamismo interno de uma sociedade inovadora quanto sua capacidade expansiva global. Quando o segundo pós-guerra trouxe a Organização das Nações Unidas (ONU) e todo um inédito sistema de organizações multilaterais, a presença norte-americana seria mais marcante do que a do desafiante soviético. A Declaração Universal dos Direitos Humanos, longe de ser um documento americano ou ocidental, se tornaria um marco civilizatório, uma espécie de “dever ser” acima das partes e apesar de desrespeitos flagrantes – frequentemente, aliás, por parte dos Estados Unidos. O fato fundamental é que regimes autoritários, como os do socialismo real, tiveram dificuldades insuperáveis para cumprir a agenda plural de direitos e liberdades gravada naquela declaração. Também por isso, e não só pelo relativo atraso econômico, trilharam o caminho da subalternidade e da autodissolução.
Este quadro sumário explica a razão pela qual os fenômenos de degradação em curso na sociedade e na política norte-americana são especialmente graves. A face interna do problema é o fim que se pretende dar ao sonho americano, tal como representado pelo compromisso rooseveltiano há quase cem anos. Uma combinação perversa de darwinismo social e poder central autoritário, com forças contrapostas progressivamente debilitadas, tem o condão de lesar liberdades, acirrar desigualdades e, se não for impedida, pôr em marcha forçada a autocratização da América.
A face externa do problema tem dimensão assombrosa. A presidência imperial de Trump é o principal núcleo disseminador da ilusão dos strongmen por todo o Ocidente político – com traços de cesarismo regressivo, no léxico gramsciano. Na América Latina, oficialmente reduzida a província, aquela presidência é farol e apoio de toda uma sequência de trumpitos, para recorrer ao termo mordaz da The Economist – o que em nada lembra o sentido libertador da Declaração de 1776. Há mais: de um modo geral, nesta turbulenta passagem de época, o grande país demite-se em cena aberta da sua história e declina da sua parte de responsabilidade pelo destino do mundo.
*Tradutor e ensaísta, coeditor das ‘Obras’ de Gramsci no Brasil
Em artigo para o O Estado de S. Paulo, Luiz Sérgio Henriques analisa a crise do trumpismo nos 250 anos da Independência dos EUA, contrastando a visão realista de Marx e Gramsci sobre o país com o atual declínio democrático. O autor argumenta que os EUA vivem uma "autocratização" interna e se demitem de sua responsabilidade global, promovendo o cesarismo regressivo com o "trumpismo". Mais detalhes podem ser conferidos no artigo original de Luiz Sérgio Henriques no O Estado de S. Paulo.
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Charge satírica exposta temporariamente no Museu de Arte Murilo Mendes (MAMM), em Juiz de Fora, ironizando a ignorância provinciana.
O PHAROL DAS MINAS E DOS CAMPOS GERAES
Seção: Espaço Aberto às Cabeças Fechadas (Edição Inaugural) Por L. S. Mendes
A acusação leviana de que figuras tão díspares quanto Joaquim Nabuco, Karl Marx, Antonio Gramsci e Roberto Campos seriam meros "capachos do imperialismo" é o sintoma manifesto de uma persistente patologia teórica: o reducionismo ideológico. Essa visão petrifica a história, substitui o método dialético pelo preconceito doutrinário e transforma o debate público em um tribunal de inquisição alimentado por cartilhas obsoletas.
Romper com esse maniqueísmo de blocos de granito não significa endossar as escolhas políticas ou os caminhos econômicos de cada um desses personagens. Significa, antes de tudo, resgatar o rigor e reconhecer a densidade do processo histórico.
1. O Rigor Dialético contra o Dogmatismo: Marx e Gramsci
Certas correntes, ao se fecharem em um nacionalismo abstrato ou em um anti-americanismo puramente retórico, cometem o pecado capital de ignorar os seus próprios clássicos.
Karl Marx nunca operou com moralismos baratos. Como fundador da primeira visão histórico-sistemática da modernidade capitalista, ele viu na vitória do Norte industrial e ianque na Guerra Civil Americana um impulso progressista essencial para a derrocada do Sul escravista e o consequente amadurecimento do movimento operário global.
Existe uma ironia histórica profunda que os dogmáticos preferem esquecer: para sobreviver à miséria absoluta no exílio londrino — onde perdeu filhos para a fome e a insalubridade —, Marx vendeu sua força de trabalho intelectual como correspondente do New-York Daily Tribune. Não se vendeu ao "imperialismo", mas sim ao maior jornal abolicionista e progressista da época, ligado à ala radical do partido de Abraham Lincoln. Usou o dinheiro americano para financiar O Capital e as páginas do jornal para denunciar o colonialismo britânico na Índia e a Guerra do Ópio na China.
Décadas depois, Antonio Gramsci, detido nos cárceres do fascismo italiano, recusou-se terminantemente a encerrar o fenômeno americano no rótulo estéril do "imperialismo". Ele enxergou no fordismo e na ausência de classes parasitárias na América uma "revolução passiva" que transformava radicalmente as bases da produção e da vida social. Gramsci compreendeu que o capitalismo se reinventava e que a classe trabalhadora precisava encarar esse dynamism de frente, em vez de sonhar com um mítico combate definitivo.
2. O Pragmatismo da Linha de Frente: Nabuco e Campos
Quando olhamos para a história do Estado brasileiro, o mundo gira e a "Lusitana roda" de forma ainda mais complexa, deixando tonta a esquerda que delira em purismos. A montagem da nossa diplomacia e da infraestrutura econômica sempre exigiu realismo geopolítico, operando muito acima das paixões partidárias.
Joaquim Nabuco, monarquista convicto e amigo pessoal de Dom Pedro II, não hesitou em aceitar o chamado da jovem República brasileira. Foi nomeado pelo governo republicano como ministro plenipotenciário na Casa de Rio Branco. O Barão do Rio Branco e os governantes da época sabiam que o prestígio internacional, a erudição e o trânsito de Nabuco em Washington eram ativos indispensáveis para consolidar nossas fronteiras. O interesse do Estado e a soberania moral do país prevaleceram sobre as divergências de regime.
O mesmo pragmatismo institucional se repete no século XX com Roberto Campos. Caricaturado por críticos extremistas sob o apelido jocoso de "Bob Fields", este diplomata de escol e economista liberal-conservador foi peça-chave na formulação do Plano de Metas de Juscelino Kubitschek e participou ativamente de missões financeiras no governo de João Goulart.
Campos foi convocado por esses presidentes progressistas não por alinhamento ideológico, mas por ser um operador técnico de primeira linha, capaz de dialogar com os centros financeiros internacionais. Pode-se e deve-se criticar os custos sociais de suas políticas e sua posterior atuação na ditadura militar; contudo, reduzi-lo a um lacaio estrangeiro impede a compreensão de como funciona o capitalismo periférico.
Conclusão: A Urgência da Lucidez
A história não é um desfile de almas santificadas ou de vilões de desenho animado. Ela se move por contradições e acomodações pragmáticas. O verdadeiro perigo contemporâneo não está no cosmopolitismo do debate, mas sim na autocratização e no "cesarismo regressivo" que vemos ressurgir globalmente através de figuras autoritárias.
Se o pensamento crítico deseja ter relevância neste século, precisa abandonar urgentemente o tribunal dos rótulos fáceis. O compromisso com a emancipação humana e com o desenvolvimento nacional exige o abandono dos espantalhos ideológicos e o resgate urgente da lucidez crítica.
Use o código com cuidado.
Arminio Fraga: “O quadro é desastroso”
Dívidas acumuladas pelas famílias, pelas empresas e pelo governo são um alerta de que a economia requer ajustes urgentes, segundo o ex-presidente do BC
Por Márci...
Leia mais em: https://veja.abril.com.br/paginas-amarelas/arminio-fraga-o-quadro-e-desastroso/
Dica de leitura: As leis secretas da economia, de Gustavo FrancoComunicação Millenium
23/04/2021
2 min de leitura
A sugestão do Instituto Millenium para esta semana é o livro “As leis secretas da economia: Revisitando Roberto Campos e as leis do Kafka”, do economista Gustavo Franco.
A obra questiona a obediência da economia brasileira em relação às leis conhecidas. Em busca de possíveis respostas, Gustavo Franco começou a investigar as práticas que envolvem as políticas financeiras no país.
O autor teve como inspiração algumas das leis elaboradas nos anos 60 por Roberto Campos e Alexandre Kafka. O livro aborda temas como o Plano Real, a privatização e a política monetária com uma linguagem bem-humorada e tendo como base a análise de personalidades importantes da cultura e da política, como Maquiavel e Machado de Assis.
A leitura é indicada para quem deseja entender de forma prática um pouco mais sobre economia sem deixar o humor de lado.
Sobre o autor
Gustavo H.B. Franco é bacharel e mestre em economia pela PUC do Rio de Janeiro e Ph.D (1986) pela Harvard University. Foi presidente do Banco Central do Brasil, e também diretor da Área Internacional do Banco Central e Secretário Adjunto de Política Econômica do Ministério da Fazenda, entre 1993 e 1999. Gustavo Franco participa de diversos conselhos consultivos e de administração e escreve regularmente para jornais e revistas. É professor do Departamento de Economia da PUC desde 1986. Tem 14 livros publicados e mais de uma centena de artigos em revistas acadêmicas.
"Eu sou Fernando Henrique. Vou morrer com ele. Continuar como está é perda de tempo. Vamos torcer para que apareça um outro Fernando Henrique." Gustavo Franco, há 1 mês.
Zé Lourenço & Jamil Joanes - Fla X FluExemplo Prático: Aplicação no Samba (Estilo Vanzolini)
Vanzolini gostava de narrar crônicas urbanas. Veja como a métrica do verso abaixo se mantém exata para os instrumentistas não perderem a cabeça do compasso:
"O Estado cede ao mercado / Nesse jogo eu não me estancoO plano foi desenhado / Pelas mãos de Gustavo Franco.Mas a crise que bate à porta / Deixa o povo com o bolso em branco."AO VIVO: FORA DA ORDEM - 26/07/2026CNN BrasilTransmissão iniciada há 68 minutos
Os Estados Unidos confirmaram uma sobretaxa de 12,5% sobre produtos brasileiros, sob a justificativa de suposto trabalho forçado. A medida atinge produtos de 86 países e reacende, no governo Lula, o debate sobre reciprocidade e possíveis respostas às novas tarifas impostas por Donald Trump.
A live também analisa a escalada do conflito no Oriente Médio, com ataques dos Houthis no Mar Vermelho e ameaças à navegação pelo Estreito de Bab el-Mandeb, rota responsável por 7% do petróleo global. As mortes de militares aumentam a pressão sobre o governo Trump, que responsabiliza o Irã pelo agravamento da tensão.
Outro destaque é o futuro do acordo nuclear entre Estados Unidos e Arábia Saudita. Trump exige que o reino reconheça Israel e nega a possibilidade de enriquecimento de urânio pelos sauditas.
Assista ao vivo, toda sexta-feira, a partir das 13h (horário de Brasília) com apresentação de analista de Internacional Lourival Sant’Anna, o analista sênior de Internacional Américo Martins, direto de Londres, e o professor da Universidade George Washington, Maurício Moura.
O público também poderá enviar dúvidas e comentários, que serão incorporados ao debate. Participe com a gente! O Fora da Ordem vai ao ar toda sexta-feira a partir das 13h.
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"A análise estatística da pesquisa Nexus (BR-01489/2026) indica paridade matemática absoluta e estabilidade no primeiro turno, com oscilações dentro da margem de erro de 2 p.p. Em cenários de segundo turno, observa-se empate técnico entre Lula e diversas alternativas de oposição, destacando-se a competitividade de Ronaldo Caiado, enquanto altas taxas de rejeição e 73% de votos cristalizados limitam o teto dos líderes. A disputa permanece indefinida, com potencial de crescimento para nomes com menor rejeição sobre os 27% de votos fluidos."
Na Convenção Nacional do PL de Jair Bolsonaro, Milei Disputa com Lula a Gerência da Petroquímica do Afeto na América do Sul com Trump
"Flávio Bolsonaro não tem existência individual autônoma"
Rádio BandNews FM
Milei disputa com Lula, na festa de Bolsonaro, a gerência da petroquímica do afeto na América do Sul com Trump
Bom dia! “Quem fala mal do SUS, em geral, não precisa dele.”O efeito inesperado das deportações de TrumpWW ESPECIAL - POR QUE O BRASIL SEGUE REFÉM DE LULA E BOLSONARO? - 26/07/2026CNN Brasil
Transmissão ao vivo realizada há 12 horas WW — Programas na íntegra
Assista ao WW Especial deste domingo, 26 de julho de 2026. #CNNBrasil
Participam deste episódio Carlos Melo, cientista político e professor do Insper, Graziella Testa, cientista política e professora da UFPR, e Rafael Cortez, cientista político e professor do IDP.
O Golpe do Mais sem Maus
Se tem uma coisa que a Luciana — minha segunda patroa oficial, a quem o destino me deu a missão de aturar e recriar nas páginas — entende, é de crise existencial da gramática brasileira. O Brasil não é para amadores, e a língua que se fala aqui muito menos.
Estávamos os dois na sala quando o telejornal começou a despejar aquela saraivada diária de notícias. Era o PIB caindo de um lado, o preço da picanha subindo do outro, o atacante do time perdendo gol sem goleiro e a inflação flertando com o teto da meta.
Dei um suspiro de cortar o coração de qualquer cronista e decretei:
— Luciana, não tem jeito. O Brasil tá maus!
Luciana, que estava concentrada em achar o erro de digitação na bula de um ansiolítico, nem olhou para trás. Soltou apenas aquela pérola que só mentes treinadas no caos doméstico conseguem parir:
— Mario, o seu problema é que você caiu no golpe do mais sem maus.
Fiquei mudo. O golpe do mais sem maus? Que diabo de heresia linguística era aquela?
— Explique-se, criatura — exigi, já catando um bloquinho de notas.
— É simples, Mario. O brasileiro vive nessa ilusão de que tudo tem que ser "mais". É mais turista chegando no Galeão, é mais bilionário na lista da Forbes, é o fulano que diz que o clube dele é "o mais grande" do país. O país quer viver no superlativo, quer a festa, o carnaval, o otimismo purinho, no pelo. Quer o "mais!".
— E o "maus"? — perguntei, fascinado.
— O "maus" é o fantasma que a gente tenta varrer para debaixo do tapete. É quando o "mais" dá errado. É a realidade batendo na porta de segunda a sexta. Mas o governo, a publicidade e os técnicos de futebol vendem o golpe: eles te dão o "mais", mas fingem que o "maus" não existe. É o otimismo compulsório. O Brasil tá maus justamente porque quer ser mais o tempo todo, entendeu?
Olhei para a Luciana e percebi que a inteligência artificial daquele casamento não vinha dos meus livros, vinha da poltrona ao lado. O brasileiro é um eterno caidor de golpes, e o maior deles é achar que dá para viver no lucro ("mais") sem carregar o prejuízo ("maus") na bagagem.
"791. A civilização se depurará um dia, fazendo desaparecer os males que tenha produzido?— Sim, quando a moral estiver tão desenvolvida quanto a inteligência. O fruto não pode vir antes da flor."
Mônica Bergamo: Lula decide não discutir com MileiRádio BandNews FM
27 de jul. de 2026
sábado, 25 de julho de 2026
Lula já levou o tetra? Por Thaís OyamaO GloboOs votos que deixaram o candidato do PL parecem estar sendo absorvidos principalmente pelos indecisos
A notícia não é boa para Lula. A pesquisa Datafolha divulgada ontem, ao mostrar um cenário inalterado em relação a junho, reforçou uma tendência já detectada por outros institutos. Desde maio, diferentes levantamentos vêm registrando desgaste de Flávio Bolsonaro sem um crescimento correspondente de Lula ou dos demais candidatos.
O que a consistência desses dados sugere é que a disputa continua aberta. Os votos que deixaram o candidato do PL parecem estar sendo absorvidos principalmente pelo contingente de indecisos. Para onde eles migrarão a partir de agora é a questão que pode definir a eleição.
Para alguns analistas, nem sequer é possível dizer que será Flávio o adversário de Lula num eventual segundo turno. Felipe Nunes, CEO da Quaest, diz que o destino dos votos perdidos pelo candidato do PL dependerá em grande medida do início da campanha, em especial da exposição que Flávio terá nos debates. Isso, naturalmente, se houver debates: até agora, nenhum dos mais bem colocados demonstrou entusiasmo pela ideia. Lula, por não ter nada a ganhar como favorito; Flávio, pela notória dificuldade em enfrentar situações do tipo e porque, quanto mais fica conhecido, maior é sua rejeição.
— O brasileiro dá grande importância à performance dos candidatos. Um desempenho muito bom ou muito ruim de um nome pode fazer uma parcela importante do eleitorado mudar seu voto — diz Nunes.
O economista Maurício Moura, fundador do Instituto Ideia, é mais cético quanto à possibilidade de Flávio ser ultrapassado na corrida pelo segundo turno. Pelo Datafolha, Ronaldo Caiado, por exemplo, teria de tomar dele 15 pontos percentuais. Considerando os mais de 40% de desconhecimento do ex-governador, seu reduzido tempo de TV e tempo de campanha, Moura avalia que o goiano só chegaria ao segundo turno na hoje improvável hipótese de Flávio sair do páreo.
Assim, a situação mais provável continua sendo uma disputa entre Lula e Flávio — uma contenda de assimetria inédita, a começar pelo peso político dos protagonistas. Lula, qualquer que seja o julgamento que se faça dele, pertence ao minúsculo grupo das figuras incontornáveis da história política brasileira. Em larga medida, as disputas nacionais das últimas quatro décadas se organizaram em torno dele, do partido que fundou e das forças que surgiram para enfrentá-lo — sendo o bolsonarismo a mais recente e eloquente delas.
É diante dessa dimensão histórica que a pequenez política de Flávio Bolsonaro se revela em sua plenitude. Senador de trajetória medíocre, o primogênito de Jair chega à convenção do partido sem vice, incapaz de atrair aliados, cercado de denúncias e transformado em candidato por decisão exclusiva do pai. A situação escancara a segunda gritante assimetria da disputa: a diferença de capacidade estratégica das campanhas. Para o PT, disputar eleições é um ofício aperfeiçoado ao longo de 40 anos; para Flávio, tem sido um acúmulo de erros primários — de vídeos desfocados e declarações desastrosas à incapacidade de identificar os segmentos decisivos do eleitorado e falar com eles. Flávio já era o adversário preferido de Lula desde quando não se sabia quem seria o candidato do bolsonarismo. Entende-se agora por quê.
A dez semanas da eleição, o petista chega à campanha em trajetória ascendente e com a máquina de governo trabalhando a seu favor em voltagem máxima. Flávio chega ao período decisivo no limite de suas dificuldades.
Ainda assim — e essa é a notícia ruim para Lula —, se os votos que abandonaram o filho de Bolsonaro dificilmente migrarão para o petista e tampouco serão suficientes para impulsionar um terceiro nome, restam dois destinos possíveis: converter-se em brancos e nulos ou retornar ao próprio Flávio, que, num eventual segundo turno, pode acabar vitaminado pela polarização. Se hoje Lula avança rumo ao quarto mandato, não está sozinho. O antipetismo — como ele, uma sólida força da política brasileira — segue firme ao seu lado.
sábado, 25 de julho de 2026
A violência onipresente, por Marco Aurélio Nogueira*O Estado de S. PauloEstamos sem saber como reagir a essa mescla diabólica de violências
Quando falamos em violência, vem-nos à mente, antes de tudo, a violência explícita, ostensiva, aquela em que o sangue jorra e vidas são destruídas. Guerras, assassinatos, agressões selvagens, armas de fogo, facas, drones e canhões. Nem sempre consideramos as demais formas de violência que se manifestam em nosso cotidiano. A fome é violenta, assim como as desigualdades e a falta de serviços públicos de qualidade. Há outras, aparentemente pequenas. Não as processamos porque estão normalizadas: convivemos com elas como se fossem paisagens ou eventos entranhados no dia a dia. Violências quase invisíveis, às quais nos habituamos a ponto de as desprezarmos como problema.
É o caso do barulho. Podemos assimilá-lo, mas não temos como inocentá-lo. Numa cidade como São Paulo, por exemplo, ele causa malefícios silenciosos, que nos perturbam e nos tiram a concentração, além, obviamente, de prejudicar nosso descanso e nosso sono. Já há muitos estudos a respeito, nem é preciso insistir no tema. São Paulo é uma cidade sempre em construção, com prédios sendo erguidos sem parar, com caminhões circulando o tempo todo e obras madrugada adentro. Há o zumbido ininterrupto dos aparelhos de ar-condicionado, as algazarras gratuitas, os shows e cultos, os desfiles e paradas. Tem quem não se incomode, que entra na vibe e segue em frente. Outros vestem fones de ouvido com cancelamento de ruído.
Pensemos no tempo que se gasta com deslocamentos. Nos horários de pico em São Paulo, pode-se levar quatro horas para ir de um ponto a outro da cidade. Imaginem chegar em casa depois de trabalhar oito horas e gastar mais quatro no ônibus ou no metrô? A pessoa sofre simplesmente porque precisa circular. Vai brincar com os filhos, relaxar, preparar o jantar?
O barulho e o tempo gasto nem sempre são tratados como violência, e sim como um mal necessário, do tipo que não tem como ser controlado ou evitado. Não deveriam ser vistos como algo normal. Falase em São Paulo: se você quer silêncio, mude-se para o interior, vá para uma cidade pequena ou uma casa no campo.
A violência ostensiva está mais perto do cotidiano do que imaginamos. Assaltos à mão armada, furtos, assédios, chantagens, acidentes de trânsito, feminicídios, estupro de crianças e adolescentes, brigas de torcedores, gritos racistas ou homofóbicos, balas perdidas. Palavras e gestos também podem agredir. O bullying e o cyberbullying, que são crescentes, entram fácil nesse rol. Todos são atos que compõem a primeira face da violência explícita, igualmente perigosa e repulsiva. Embora possam ser, em parte, atenuados com acréscimos de escolarização, educação cívica e campanhas de conscientização, nenhum deles pode ser normalizado.
A segunda face abre-se toda para o mundo do crime. Ele é diversificado, clandestino, mas também anda pelas ruas. As facções criminosas são violentas por definição. Combatem-se umas às outras, matam policiais que as enfrentam, civis e “doleiros” com quem colaboram, fazem pactos de sangue. Usam o território nacional para atravessar armas e drogas trazidas do Paraguai, da Bolívia, da Colômbia e do Peru, para fazê-las chegar à Ásia e à Europa. É um repto à soberania nacional. Violentam o Estado de Direito quando hackeiam sistemas digitais brasileiros. Violentam a população quando ocupam territórios comunitários para neles instalar seus bunkers e suas plataformas de serviços. É inaceitável que tais territórios não sejam desocupados e devolvidos aos verdadeiros donos.
O crime organizado também violenta quando corrompe policiais, políticos, juízes, banqueiros. Como o Brasil não dispõe de uma política de segurança pública e de uma força especializada no combate ao crime, ele rola solto. Operando em rede e por células, está sempre a se reproduzir e a desafiar quem o confronta. A violência policial desmedida e seletiva integra essa segunda face, como se fosse cópia do que fazem os criminosos.
As diferentes violências devem, evidentemente, ser hierarquizadas. Algumas são mais graves e complexas do que outras. No limite, implicarão o uso da força, um aparato de inteligência e de informações, o apoio das Forças Armadas. As mais corriqueiras passam por ajustes educacionais e pela recomposição de laços sociais desfeitos pelo ritmo alucinante da vida e pelo uso intensivo de telas e redes sociais. Mas todas são violências a serem combatidas pelos meios que estiverem ao nosso alcance. Na verdade, estamos sem saber como reagir a essa mescla diabólica de violências.
Num ano eleitoral, seria lógico que os candidatos falassem a respeito de modo substantivo, para esclarecer a opinião pública e sugerir passos concretos para que a segurança tenha um lugar ao sol no futuro próximo. Podemos esperar que o façam?
O direito à segurança é básico e essencial. As coisas não podem ser deixadas ao deus dará, porque fazem sangrar a sociedade inteira e conspiram contra o progresso, a produtividade, a tranquilidade, a justiça, o Estado Democrático e republicano.
*Professor titular de Teoria Política da Unesp
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TÍTULO: O MESTRE DA CURVATURA DA TERRA E A BALANÇA DA JUSTIÇA
PERSONAGENS: MINISTRO KASSIO NUNES MARQUES: Juiz piauiense, elegante, terno bem cortado, postura formal, mas com um olhar que entrega a familiaridade com o sotaque da terra. Ri "amarelo" quando a formalidade jurídica bate de frente com a realidade nua e crua. O CONSULTOR (MISTE CÁ) / O CABEÇA CHATA: Engenheiro estrutural, piauiense da gema, cabeça ligeiramente achatada (“efeito do calor do Trópico”, segundo ele). Veste um paletó de linho amassado sobre uma camisa sem gravata. Olhar faiscante, raciocínio na velocidade da luz e um humor que corta o protocolo como faca em manteiga.
CENÁRIO:
Antecâmara do gabinete do Ministro no TSE. Uma mesa de jacarandá reluzente. De um lado, pilhas de processos eleitorais. Do outro, uma lousa branca improvisada que o Consultor trouxe debaixo do braço, já rabiscada com equações de Gauss e um desenho de uma rapadura.
(A ação começa ao modo pirandelliano: o Consultor entra quebrando a quarta parede, olhando para o público/leitores, ajustando os óculos na ponta do nariz).
CONSULTOR: (Para o público) Vocês olham para esta cabeça ligeiramente achatada no topo e pensam: "Lá vem mais um carregador de piano". Engano de quem confunde volume com densidade! Minha assimetria craniana é contingência geográfica, meu povo. É o peso do Trópico de Capricórnio que esmaga os fracos, mas compacta o cérebro dos fortes. Sou engenheiro de estruturas. Se eu errar o cálculo, o teto cai na cabeça do inocente. Se o Ministro errar a estatística, cai a República. E entre o teto e a República, o peso é quase o mesmo!
(O Ministro Kassio entra, segurando uma pasta. Olha para o Consultor, depois para o público, confuso com a metalinguagem).
MINISTRO KASSIO: (Tossindo discretamente) Hum... Meu caro conterrâneo. O senhor já está despachando com o além? O pleito de 2026 está batendo à porta, a segurança das urnas é o tema da vez, e o senhor conversando com as paredes?
CONSULTOR: (Virando-se, abrindo os braços) Ministro, meu conterrâneo de Teresina! Eu não conversava com as paredes, conversava com a História! Mas venha cá, sente aí na sua cadeira de couro legítimo que o assunto hoje é sério. O senhor me chamou porque quer blindar os números da eleição de 2026, correto? Quer saber se o resultado que sai da urna é "sagrado".
MINISTRO KASSIO: Exatamente. No meio jurídico, buscamos a verdade real. Mas na boca do povo, e na tribuna dos partidos, as palavras voam. Eles confundem tudo. Quero que o senhor me explique, com a solidez da sua engenharia, a diferença exata entre Acurácia e Precisão. O Tribunal precisa dessa distinção técnica para os relatórios.
CONSULTOR: (Dá uma risadinha franca, bate no topo da própria cabeça) Ah, Kassio... posso te chamar de Kassio aqui no privado, né? Lá fora eu te chamo de Excelência. Veja bem, o direito gosta de palavras bonitas que cobrem o vazio. A engenharia gosta de números feios que sustentam o concreto. Vamos ao quadro!
(O Consultor pega um pincel atômico. Desenha um alvo de dardos clássico na lousa. Desenha três pontinhos colados um no outro, bem na borda externa do alvo, longe do centro).
CONSULTOR: Imagine que o senhor vai caçar preá no sertão com uma espingarda velha. O senhor dá três tiros. Os três tiros pegam exatamente no mesmo lugar: na orelha de uma vaca que estava a dez metros do preá. O senhor foi preciso? Foi! Teve uma precisão cirúrgica. Errou o alvo todas as vezes exatamente do mesmo jeitinho, com o mesmo desvio padrão. Isso é Precisão: repetibilidade, consistência no erro!
MINISTRO KASSIO: (Dá um riso amarelo, ajeita a gravata) Deus me livre... Se o TSE for "preciso" desse jeito, nós legitimamos o erro de forma consistente. O tribunal vira uma máquina de errar igual.
CONSULTOR: Exatamente! Agora olhe o outro lado. (Desenha outro alvo. Três pontinhos espalhados: um em cima, um embaixo, um na esquerda, todos longe do centro, mas se você tirar a média geométrica deles, o centro exato do desenho fica no meio).
CONSULTOR: O senhor dá mais três tiros. Um acerta o céu, outro acerta o chão, outro acerta o rabo do jumento. Na média... na média estatística, o preá morreu de susto no centro. Isso é Acurácia sem precisão. Você está perto da verdade na média geral, mas cada tiro individual é uma tragédia!
MINISTRO KASSIO: (Preocupado, coça a testa) Cruzes... Na eleição não pode ter "média de susto". Um voto para o candidato A não pode compensar um erro no candidato B na média final. Onde fica o ideal?
CONSULTOR: (Garante com o dedo indicador para cima) O ideal, meu nobre Ministro, é o que nós fazemos na engenharia de pontes e o que o TSE tem que fazer em 2026: Acurácia E Precisão juntas! (Desenha três pontos cravados exatamente na mosca do alvo). É acertar o preá no olho (acurácia) e fazer isso as cem vezes que o senhor atirar (precisão).
MINISTRO KASSIO: Entendi. A acurácia é a proximidade do valor real, e a precisão é a proximidade dos resultados entre si. Mas e os "outros bichos" que o senhor mencionou na proposta de consultoria?
CONSULTOR: Ah, os outros bichos! O bicho mais perigoso da estatística eleitoral chama-se "Viés" ou Bias, para os íntimos de Harvard. O viés é aquele erro sistemático, a calibração torta. Sabe quando a balança do mercado já começa marcando 100 gramas antes de você botar a carne?
MINISTRO KASSIO: Sei... o famoso "peso do papel de embrulho".
CONSULTOR: Pois é. Se o sistema tiver um viés, não importa si você rodar o algoritmo uma vez ou um milhão de vezes, ele vai errar sempre para o mesmo lado. Por isso, na minha terra, para testar se uma calçada está reta, a gente não confia só no nível de bolha do pedreiro que tomou uma cachaça. A gente joga uma bacia d'água. A água não tem viés ideológico, Kassio! Ela corre para onde a gravidade manda. O nosso trabalho aqui no TSE em 2026 é sermos a bacia d'água.
MINISTRO KASSIO: (Sorri, captando o espírito da coisa, mas mantendo a postura) Uma metáfora hidráulica para o processo eleitoral. Interessante. Mas me diga uma coisa, Consultor... e o fator humano? Como a estatística prevê o imponderável? O eleitor que muda de ideia na cabine, o boato de WhatsApp de última hora?
CONSULTOR: (Gargalha, batendo na mesa de jacarandá) Aí o senhor tocou no cálculo estrutural da alma humana! Na engenharia, a gente usa o Coeficiente de Cagaço... desculpe o termo, Excelência, no relatório eu escrevo "Fator de Segurança". Se uma viga aguenta uma tonelada, a gente projeta ela para aguentar quatro. Por quê? Porque sempre tem um abençoado que vai inventar de fazer uma festa de casamento em cima da viga.
MINISTRO KASSIO: (Dando o maior riso amarelo do dia) Fator de segurança... anotado. Vamos adotá-lo nos sistemas de contingência.
CONSULTOR: (Sério, olhando nos olhos do Ministro) Brincadeiras à parte, meu conterrâneo. A matemática é a única coisa que separa a civilização do caos. O Piauí nos deu a resiliência para aguentar o calor e a cabeça chata para aguentar a pressão. Use a acurácia para garantir que cada voto seja ele mesmo; use a precisão para provar que o sistema funciona hoje, amanhã e sob auditoria; e use o fator de segurança para os dias de tempestade política.
MINISTRO KASSIO: (Levanta-se, estende a mão) Excelente primeira entrevista, Consultor. O senhor me convenceu. Só peço que, nas reuniões plenárias com os outros ministros, o senhor reduza um pouco as menções a preás, jumentos e coeficientes de nomes impublicáveis.
CONSULTOR: (Pega a lousa debaixo do braço, pisca para o público) Fechado, Ministro! No plenário eu falo em Laplace, Gauss e Distribuição de Poisson. Mas aqui no gabinete, a gente sabe que o que segura o teto é o bom e velho cimento armado com uma pitada de malícia piauiense!
(O Consultor sai de cena assobiando. O Ministro Kassio olha para a lousa, suspira, limpa o suor da testa e volta aos processos).
FIM DO ESQUETE
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Rascunho
RASCUNHOS INAUGURAIS
Por Gustavo Franco
"A ilusão fiscal crônica é o ópio de governos que preferem gastar o futuro a enfrentar o presente."
— Armínio Fraga
I. O Real e o Labirinto da Memória: 32 Anos Depois
Recebi o convite da editoria do Valor Econômico para revisitar as origens do Plano Real com a incômoda certeza de que o passado, no Brasil, é um bicho instável. Quando olho para trás, vejo o grupo que se reuniu no Ministério da Fazenda em 1993 não como um panteão de heróis de bronze, mas como uma bancada de operários da teoria econômica, cansados de ver o país naufragar em planos mirabolantes. Fomos chamados de "a turma da PUC-Rio", um rótulo que carregava tanto de elogio técnico quanto de ranço político.
Mas a verdade é que o Real não nasceu em uma torre de marfim acadêmica; ele foi moldado no choque bruto entre a inflação inercial e a engenharia tributária, cambial e monetária.
O Real foi, antes de tudo, um exercício de desobediência civilizada contra o consenso da época. Nós vínhamos de uma sequência trágica de congelamentos de preços e confiscos que destruíram a poupança popular. Nossa premissa — gestada nos debates da PUC com Persio Arida, André Lara Resende, Edmar Bacha e Pedro Malan — era rigorosamente oposta: o preço não era o vilão, o indexador era.
A criação da URV (Unidade Real de Valor) foi a nossa vacina contra a inércia. Ela funcionou como uma moeda paralela e intangível, permitindo que a sociedade brasileira convertesse seus preços voluntariamente, sem o trauma da canetada estatal. Foi um truque de mágica psicológica ancorado em uma disciplina fiscal implacável.
Muitos críticos da época, e alguns historiadores de hoje, gostam de pintar a estabilização como um subproduto do cenário internacional ou de uma âncora cambial excessivamente rígida. Discordo frontalmente. A transição do governo Itamar Franco para a era Fernando Henrique Cardoso exigiu uma blindagem política que poucos economistas operacionais conseguiriam sustentar sozinhos.
Nós operávamos o Banco Central e o Ministério da Fazenda com um olho no balanço de pagamentos e o outro no Congresso Nacional. A estabilidade não é um evento que se encerra no dia da troca da moeda; ela é um processo diário de defesa das instituições monetárias contra o populismo fiscal.
Hoje, três décadas após aquela virada histórica, o Real enfrenta o teste do tempo e a constante tentação do retrocesso. O maior legado daquela equipe da PUC-Rio não foi apenas o fim da hiperinflação, mas a introdução de uma cultura de responsabilidade que o Brasil insiste em tentar esquecer.
Escrever sobre o Real para o público do Valor não é um exercício de nostalgia ou de autoelogio acadêmico. É um alerta sussurrado ao pé do ouvido da história: a moeda forte é o único patrimônio real dos invisíveis e dos vulneráveis. Quem brinca com o equilíbrio fiscal joga fora a maior conquista social da nossa geração.
II. O Povo como Abstração e o Urubu de Estimação
Há um parentesco incômodo entre certas práticas da nossa atual política econômica e as crônicas que Machado de Assis publicava no final do século XIX. O nosso maior bruxo, que conhecia as entranhas da burocracia e as manhas da nossa elite como ninguém, cansou de ver governantes verbalizarem o conceito de “povo” com uma salivação incontrolável, quase mística, enquanto, nos bastidores, os decretos serviam estritamente para consolidar privilégios herdados.
O "povo", nas bocas que hoje comandam o debate público, não é uma soma de indivíduos de carne, osso e bolso castigados; é uma convenção retórica vazia, um biombo moral usado para justificar o injustificável.
Recentemente, em entrevista de fôlego às Páginas Amarelas da revista Veja, disparou-se um alerta ácido que deveria ecoar não apenas nos gabinetes de Brasília, mais ainda nos tapetes escuros das grandes instituições financeiras. Há uma complacência cínica no ar.
Enquanto o discurso oficial se veste com os trapos de um populismo distributivo de mentira, as mesas de operação celebram o beneplácito indiferente de um governo que entrega juros reais estratosféricos e rolagens de dívida confortáveis. É o milagre da multiplicação dos discursos: saliva-se o "social" na tribuna para que as bancas financeiras se locupletem em silêncio no balcão.
O silêncio cúmplice do mercado diante da deterioração fiscal é o preço que se paga pela captura consentida.
Essa dinâmica nos empurrou para uma verdadeira mixórdia administrativa e conceitual. A desordem é tamanha, o pragmatismo fisiológico é tão rasteiro, que no jargão popular — seja no calor das esquinas cariocas ou na malandragem clássica do Bixiga paulistano — o governo já está chamando “urubu de meu louro”.
Passou-se da fase de mascarar os problemas para a fase de adotá-los com orgulho. Déficits crônicos viraram virtude; o inchaço da máquina pública é vendido como investimento; e o teto de gastos, outrora uma âncora, virou uma peça de ficção de mau gosto.
Quando a contabilidade pública passa a tratar a ave de rapina do rombo fiscal como se fosse o papagaio doméstico da responsabilidade, o limite do bom senso já foi ultrapassado.
Machado de Assis entendia de economia política muito mais do que supõe a nossa vã academia. Ele sabia que o pior tipo de elite é aquela que terceiriza a culpa da inflação e do atraso para as forças ocultas do mercado, enquanto extrai até a última gota de suor da classe média e dos vulneráveis por meio do imposto inflacionário e da asfixia tributária.
A história nos ensina que a engenharia monetária do Real não tolerava esse tipo de mistificação. Chamar o urubu da irresponsabilidade fiscal de "meu louro" não muda o seu apetite destruidor.
Cedo ou tarde, a realidade cobra o preço da saliva gasta em falso nome do povo, e o banquete das illusions sempre termina com a conta sendo paga pelos mesmos invisíveis de sempre.
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RascunhoRASCUNHOS INAUGURAISPor Gustavo Franco"A ilusão fiscal crônica é o ópio de governos que preferem gastar o futuro a enfrentar o presente."— Armínio FragaI. O Real e o Labirinto da Memória: 32 Anos DepoisRecebi o convite da editoria do Valor Econômico para revisitar as origens do Plano Real com a incômoda certeza de que o passado, no Brasil, é um bicho instável. Quando olho para trás, vejo o grupo que se reuniu no Ministério da Fazenda em 1993 não como um panteão de heróis de bronze, mas como uma bancada de operários da teoria econômica, cansados de ver o país naufragar em planos mirabolantes. Fomos chamados de "a turma da PUC-Rio", um rótulo que carregava tanto de elogio técnico quanto de ranço político. Mas a verdade é que o Real não nasceu em uma torre de marfim acadêmica; ele foi moldado no choque bruto entre a inflação inercial e a engenharia tributária, cambial e monetária.O Real foi, antes de tudo, um exercício de desobediência civilizada contra o consenso da época. Nós vínhamos de uma sequência trágica de congelamentos de preços e confiscos que destruíram a poupança popular. Nossa premissa — gestada nos debates da PUC com Persio Arida, André Lara Resende, Edmar Bacha e Pedro Malan — era rigorosamente oposta: o preço não era o vilão, o indexador era. A criação da URV (Unidade Real de Valor) foi a nossa vacina contra a inércia. Ela funcionou como uma moeda paralela e intangível, permitindo que a sociedade brasileira convertesse seus preços voluntariamente, sem o trauma da canetada estatal. Foi um truque de mágica psicológica ancorado em uma disciplina fiscal implacável.Muitos críticos da época, e alguns historiadores de hoje, gostam de pintar a estabilização como um subproduto do cenário internacional ou de uma âncora cambial excessivamente rígida. Discordo frontalmente. A transição do governo Itamar Franco para a era Fernando Henrique Cardoso exigiu uma blindagem política que poucos economistas operacionais conseguiriam sustentar sozinhos. Nós operávamos o Banco Central e o Ministério da Fazenda com um olho no balanço de pagamentos e o outro no Congresso Nacional. A estabilidade não é um evento que se encerra no dia da troca da moeda; ela é um processo diário de defesa das instituições monetárias contra o populismo fiscal.Hoje, três décadas após aquela virada histórica, o Real enfrenta o teste do tempo e a constante tentação do retrocesso. O maior legado daquela equipe da PUC-Rio não foi apenas o fim da hiperinflação, mas a introdução de uma cultura de responsabilidade que o Brasil insiste em tentar esquecer. Escrever sobre o Real para o público do Valor não é um exercício de nostalgia ou de autoelogio acadêmico. É um alerta sussurrado ao pé do ouvido da história: a moeda forte é o único patrimônio real dos invisíveis e dos vulneráveis. Quem brinca com o equilíbrio fiscal joga fora a maior conquista social da nossa geração.II. O Povo como Abstração e o Urubu de EstimaçãoHá um parentesco incômodo entre certas práticas da nossa atual política econômica e as crônicas que Machado de Assis publicava no final do século XIX. O nosso maior bruxo, que conhecia as entranhas da burocracia e as manhas da nossa elite como ninguém, cansou de ver governantes verbalizarem o conceito de “povo” com uma salivação incontrolável, quase mística, enquanto, nos bastidores, os decretos serviam estritamente para consolidar privilégios herdados. O "povo", nas bocas que hoje comandam o debate público, não é uma soma de indivíduos de carne, osso e bolso castigados; é uma convenção retórica vazia, um biombo moral usado para justificar o injustificável.Recentemente, em entrevista de fôlego às Páginas Amarelas da revista Veja, disparou-se um alerta ácido que deveria ecoar não apenas nos gabinetes de Brasília, mais ainda nos tapetes escuros das grandes instituições financeiras. Há uma complacência cínica no ar. Enquanto o discurso oficial se veste com os trapos de um populismo distributivo de mentira, as mesas de operação celebram o beneplácito indiferente de um governo que entrega juros reais estratosféricos e rolagens de dívida confortáveis. É o milagre da multiplicação dos discursos: saliva-se o "social" na tribuna para que as bancas financeiras se locupletem em silêncio no balcão. O silêncio cúmplice do mercado diante da deterioração fiscal é o preço que se paga pela captura consentida.Essa dinâmica nos empurrou para uma verdadeira mixórdia administrativa e conceitual. A desordem é tamanha, o pragmatismo fisiológico é tão rasteiro, que no jargão popular — seja no calor das esquinas cariocas ou na malandragem clássica do Bixiga paulistano — o governo já está chamando “urubu de meu louro”. Passou-se da fase de mascarar os problemas para a fase de adotá-los com orgulho. Déficits crônicos viraram virtude; o inchaço da máquina pública é vendido como investimento; e o teto de gastos, outrora uma âncora, virou uma peça de ficção de mau gosto. Quando a contabilidade pública passa a tratar a ave de rapina do rombo fiscal como se fosse o papagaio doméstico da responsabilidade, o limite do bom senso já foi ultrapassado.Machado de Assis entendia de economia política muito mais do que supõe a nossa vã academia. Ele sabia que o pior tipo de elite é aquela que terceiriza a culpa da inflação e do atraso para as forças ocultas do mercado, enquanto extrai até a última gota de suor da classe média e dos vulneráveis por meio do imposto inflacionário e da asfixia tributária. A história nos ensina que a engenharia monetária do Real não tolerava esse tipo de mistificação. Chamar o urubu da irresponsabilidade fiscal de "meu louro" não muda o seu apetite destruidor. Cedo ou tarde, a realidade cobra o preço da saliva gasta em falso nome do povo, e o banquete das illusions sempre termina com a conta sendo paga pelos mesmos invisíveis de sempre.💡
1) "Uma vez USP, uspiano até PUC-Rio renascer como Paloma!"
2) “Em entrevista à Revista Veja, o economista Armínio Fraga contesta a narrativa de austeridade do Ministério da Fazenda, classificando a gestão atual como desastrosa e com forte semelhança ao descontrole fiscal da era Dilma. Fraga argumenta que as ações da equipe econômica, sob liderança de Durigan e Ceron, representam uma maquiagem contábil que ignora sinais de recessão, como o encurtamento da dívida e a asfixia do crédito. Leia a entrevista completa em Revista Veja.”
3) "sábado, 25 de julho de 2026
'Efeito Gabrielli' mostra o velho na política de Lula, por Adriana Fernandes
Folha de S. Paulo
Durigan foi escalado para atuar como bombeiro após conversas de bastidor de coordenador de programa de governo
Mas se quiser convencer, ministro da Fazenda deveria dar pistas mais claras do que pode vir por aí
Substituto de Fernando Haddad na Fazenda, Dario Durigan atuou como bombeiro na campanha para a reeleição do presidente Lula, na tentativa de apagar os ruídos provocados por conversas de bastidores de representantes da Faria Lima com Sérgio Gabrielli, coordenador do programa de governo.
O ministro buscou consertar o "efeito Gabrielli" ao afirmar que o governo não pretende adotar medidas de controle de capitais. Para completar, disse que vai "melhorar o fiscal, custe o que custar" ao defender medidas para conter as despesas obrigatórias.
Só a necessidade de dar explicações para contrapor o que disse Gabrielli sobre questões tão básicas a fim de evitar que o caldo entorne em 2027 mostra que a divisão no governo sobre os rumos da política econômica segue presente. Haddad encarou essa disputa.
É por isso que as palavras de Durigan soam vazias para os analistas que buscam respostas sobre como será a economia num eventual quarto mandato de Lula. As declarações revelam o que há de retrógrado no governo: a aposta em medidas que deram errado e que fecham as portas para o novo.
Não há espaço nem para discutir inovações com o objetivo de cortar despesas que são ineficientes. É desolador que a essa altura achem que consertar as contas públicas não é prioridade, mas sim submissão ao mercado, e que o problema seja a "centralidade da política de juros", como sugeriu Gabrielli.
Faltando poucos meses para as eleições, ninguém acha que Durigan vai dizer o que pretende fazer para corrigir os problemas das contas públicas com medidas amargas.
Certamente o ministro não repetirá Paulo Guedes, que nas eleições de 2022 enviou um projeto de Orçamento para o primeiro ano do governo eleito sem recursos para programas importantes, como o Farmácia Popular, e depois avisou que precisaria adotar medidas duras para refazer a peça orçamentária.
Se quiser convencer, Durigan deveria dar pistas claras do que pode vir por aí. Para começar, precisa conter o pacote de bondades eleitorais, que não acaba. O alargamento do socorro às empresas afetadas pelo tarifaço é a prova disso."
4) "Congresso em Foco:
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MUDANÇA NA ESPLANADA
Quem é Dario Durigan, o "CEO" da Fazenda cotado para suceder Haddad
Atual número 2 da equipe econômica e homem de confiança de Haddad, Durigan deve assumir a Fazenda com a missão de manter a política fiscal do governo em ano eleitoral.
Congresso em Foco
17/3/2026 13:35
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Com a saída de Fernando Haddad do Ministério da Fazenda esperada para os próximos dias, Dario Durigan desponta como o nome mais provável para assumir o comando da pasta. O próprio ministro já sinalizou que seu atual secretário-executivo é um nome natural para a sucessão, embora tenha ressaltado que a decisão final cabe ao presidente Lula. Nos bastidores, a eventual troca é tratada como a opção de continuidade da política econômica do terceiro mandato de Lula.
A movimentação ocorre no momento em que o PT e o Palácio do Planalto trabalham para lançar Haddad ao governo de São Paulo. O ministro resistiu por meses à ideia de disputar a eleição, mas acabou sendo pressionado por Lula e pelo partido a enfrentar o governador Tarcísio de Freitas, em uma disputa vista como estratégica para garantir ao presidente um palanque forte no maior colégio eleitoral do país. Pelas regras eleitorais, ministros que pretendam concorrer em outubro precisam observar o prazo de desincompatibilização, que vence em 4 de abril.
Durigan é homem de confiança de Fernando Haddad. Se for confirmado no ministério, deve dar continuidade ao trabalho do atual ministro.
Durigan é homem de confiança de Fernando Haddad. Se for confirmado no ministério, deve dar continuidade ao trabalho do atual ministro.Gabriela Biló/Folhapress
O número 2 da Fazenda
Se a confirmação vier, Durigan chegará ao cargo como o "copiloto" de Haddad. Ele é secretário-executivo da Fazenda desde junho de 2023, quando substituiu Gabriel Galípolo, então indicado para a diretoria de Política Monetária do Banco Central. Na prática, ocupa o posto de número 2 da pasta e já vinha sendo preparado para assumir mais protagonismo, tanto na gestão interna quanto na interlocução com outras áreas do governo e com o mercado.
Dario Durigan é chamado nos bastidores de "CEO" da Fazenda porque, como secretário-executivo, exerce na prática o papel de gestor da engrenagem interna do ministério. É ele quem organiza fluxos, distribui tarefas, cobra entregas, centraliza informações e ajuda a transformar decisões políticas em execução administrativa. O apelido resume a imagem de Durigan como o operador que faz a máquina do ministério funcionar no dia a dia, mesmo sem ser o titular do cargo.
Formação fora do figurino clássico
O secretário-executivo nasceu em Bebedouro (SP), a 250 km da capital paulista, e tem 41 anos. Sua formação acadêmica foge ao perfil tradicional de ministro da Fazenda. Ele é advogado, formado em Direito pela USP, com mestrado pela UnB. Sua trajetória está mais ligada a políticas públicas, articulação institucional e desenho jurídico de políticas econômicas do que à economia acadêmica ou ao mercado financeiro tradicional. Ainda assim, esse perfil híbrido ajuda a explicar por que ganhou espaço dentro da equipe de Haddad: é visto como operador técnico, gestor e negociador, mais do que como formulador econômico de perfil clássico.
Nesse ponto, ele se aproxima de outros ministros da Fazenda que não vinham da formação econômica tradicional. Fernando Henrique Cardoso era sociólogo; Antonio Palocci, médico. Haddad, por sua vez, é advogado e doutor em filosofia, embora tenha também mestrado em economia.
Trajetória no setor público e relação com Haddad
Antes da Fazenda, Durigan acumulou passagens por postos importantes da burocracia federal e da política paulista. Trabalhou na Casa Civil da Presidência entre 2011 e 2015, no governo Dilma Rousseff, em temas jurídicos e estratégicos. Depois, foi assessor especial de Haddad na Prefeitura de São Paulo, entre 2015 e 2016, em funções ligadas à coordenação entre secretarias e à interlocução com a Câmara Municipal. Também passou pela Advocacia-Geral da União e, fora do governo, chefiou a área de políticas públicas do WhatsApp no Brasil entre 2020 e 2023.
Essa trajetória ajuda a desenhar seu perfil político. Durigan é menos eleitoral e menos partidário do que Haddad, mas é profundamente integrado à rede de confiança do ministro e do Planalto. Sua passagem pela prefeitura paulistana consolidou a relação com Haddad; a ida à Fazenda transformou essa confiança em poder de gestão.
O que ele pensa
No conteúdo das falas públicas, Durigan aparece como defensor de uma linha de continuidade com viés fiscalista moderado. Em março deste ano, afirmou que a situação fiscal do país "melhorou muito" nos últimos três anos e defendeu uma estratégia de "gradualismo" para garantir estabilidade econômica. Na mesma fala, vinculou essa estratégia à revisão de benefícios fiscais, à preservação da trajetória de crescimento e à implementação da reforma tributária.
Também há um traço moralizante em suas posições mais recentes. No início de março, Durigan defendeu que a reforma administrativa "deve começar no andar de cima", com regulamentação nacional dos supersalários e limitação de penduricalhos.
Na agenda tributária, o secretário-executivo tem sido um porta-voz fiel da linha Haddad. Em outubro de 2025, disse que a gestão da Fazenda queria deixar como legado três pilares: "soberania, combate ao crime organizado e justiça tributária". Nessa formulação, justiça tributária significa tributar melhor a renda e o patrimônio, aliviar o peso sobre salários e sustentar medidas como a tributação de offshores, fundos exclusivos, apostas on-line e a revisão de incentivos fiscais.
Nome de continuidade
Esse perfil tende a ser bem recebido por parte do mercado justamente por sinalizar previsibilidade. Como Durigan já participa diretamente da implementação do arcabouço fiscal e da reforma tributária, sua eventual nomeação é lida como continuidade, não como ruptura. Ao mesmo tempo, esse pode ser seu principal desafio: se assumir, herdará uma pasta poderosa em ano eleitoral, mas sem o mesmo capital político de Haddad para arbitrar conflitos, negociar impasses com o Congresso e resistir a pressões por gasto.
É por isso que, em Brasília, ele costuma ser descrito como o "CEO" do ministério: alguém que conhece a máquina, domina o fluxo decisório e fala a linguagem técnica sem romper com a lógica política do governo."
5) “Essa é uma referência histórica clássica ao debate econômico brasileiro! A menção à USP (Universidade de São Paulo) e à PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro) evoca a tradicional — e muitas vezes acalorada — disputa intelectual entre as duas maiores escolas de pensamento econômico do país, que moldaram as políticas públicas nas últimas décadas.O Embate das EscolasA Tradição Uspiana: Historicamente ligada ao desenvolvimento nacional, à Unicamp e a correntes heterodoxas ou estruturalistas. Formou economistas que olham muito para o papel do Estado na indução do crescimento e na distribuição de renda. É a escola que moldou grande parte do pensamento econômico do PT, de Guido Mantega a Fernando Haddad (embha Haddad transite por uma linha mais pragmática).A Escola da PUC-Rio: O berço da ortodoxia e do liberalismo social no Brasil. Foi lá que se consolidou o pensamento que gerou o Plano Real, com nomes como Armínio Fraga, Pedro Malan, Gustavo Franco e Edmar Bacha. O foco sempre esteve na responsabilidade fiscal, controle da inflação, eficiência de mercado e reformas estruturais."Até PUC-Rio renascer como Paloma!"A metáfora do "renascer como Paloma" carrega uma ironia fina sobre a teimosia dos debates macroeconômicos no Brasil. Ela sugere que, para um autêntico "uspiano" de convicção, as teses ortodoxas e os economistas formados na Gávea (PUC-Rio) só teriam apelo ou validade se passassem por uma metamorfose completa — ou se o próprio cenário econômico mudasse de tal forma que a velha polarização deixasse de fazer sentido.Na prática do Ministério da Fazenda atual, vemos exatamente esse cabo de guerra: os técnicos de formação mais flexível precisando adotar e executar as metas de austeridade que os economistas da PUC-Rio (como Armínio Fraga) cobram do lado de fora, enquanto a militância mais tradicional à esquerda chia contra o que chamam de "ortodoxia disfarçada".”
6) “O que mudou de 2006 para 2026?O cenário político brasileiro passou por transformações profundas que inviabilizam uma repetição exata daquela dinâmica. As principais mudanças estruturais incluem:1. Fim da hegemonia PSDB x PT e a ascensão do BolsonarismoEm 2006: A disputa ocorria entre duas forças tradicionais (PT e PSDB) dentro de uma lógica de centro-esquerda versus centro-direita institucional.Em 2026: O polo opositor mudou totalmente de mãos. O PSDB perdeu protagonismo e a direita passou a ser liderada pela força ideológica do bolsonarismo, hoje representada no cenário nacional por nomes como o senador Flávio Bolsonaro (PL) e o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos).2. Níveis inéditos de polarização e rejeiçãoEm 2006: Havia maior migração e volatilidade de votos entre as rodadas. Lula conseguiu avançar sobre o eleitorado moderado no segundo turno.Em 2026: Os dados do Datafolha mostram um eleitorado cristalizado e altos índices de rejeição cruzada (acima de 45% para os principais líderes), reduzindo o espaço para viradas drásticas.3. Mudança na dinâmica de São PauloEm 2006: O PSDB paulista funcionava de forma independente e buscava uma identidade de eficiência gerencial.Em 2026: O governo do estado de São Paulo está diretamente acoplado à engrenagem da direita nacional, servindo como a principal vitrine executiva e base logística para as candidaturas de oposição ao Palácio do Planalto.A IA pode cometer erros. Por isso, cheque as respostas”