Mundo em Mutação
Inspirados já nos ensinamentos de Sófocles, aqui, procurar-se-á a conexão, pelo conhecimento, entre o velho e o novo, com seus conflitos. As pistas perseguidas, de modos específicos, continuarão a ser aquelas pavimentadas pelo grego do período clássico (séculos VI e V a.C).
terça-feira, 12 de maio de 2026
MESMAS LETRAS EM OUTRAS PALAVRAS: ANAGRAMA
Pedacinhos do Céu
João Nogueira - Além do Espelho
Vinícius Werner Shtorache
24 de set. de 2012
João Nogueira no programa Ensaio da TV Cultura (1992).
Quando eu olho o meu olho além do espelho
Tem alguém que me olha e não sou eu
Vive dentro do meu olho vermelho
É o olhar de meu pai que já morreu
O meu olho parece um aparelho
De quem sempre me olhou e protegeu
Assim como meu olho dá conselho
Quando eu olho no olhar de um filho meu
A vida é mesmo uma missão
A morte uma ilusão
Só sabe quem viveu
Pois quando o espelho é bom
Ninguém jamais morreu
Sempre que um filho meu me dá um beijo
Sei que o amor de meu pai não se perdeu
Só de ver seu olhar sei seu desejo
Assim como meu pai sabia o meu
Mas meu pai foi-se embora no cortejo
E eu no espelho chorei porque doeu
Só que olhando meu filho agora eu vejo
Ele é o espelho do espelho que sou eu
A vida é mesmo uma missão
A morte uma ilusão
Só sabe quem viveu
Pois quando o espelho é bom
Ninguém jamais morreu
Toda imagem no espelho refletida
Tem mil faces que o tempo ali prendeu
Todos têm qualquer coisa repetida
Um pedaço de quem nos concebeu
A missão de meu pai já foi cumprida
Vou cumprir a missão que Deus me deu
Se meu pai foi o espelho em minha vida
Quero ser pro meu filho espelho seu
A vida é sempre uma missão
A morte uma ilusão
Só sabe quem viveu
Pois quando o espelho é bom
Ninguém jamais morreu
E o meu medo maior é o espelho se quebrar
E o meu medo maior é o espelho se quebrar
E o meu medo maior é o espelho se quebrar
E o meu medo maior é o espelho se quebrar
"Sei que me amas com grande fervor
Há em teus lábios mil frases de amor
Entretanto, eu preciso ouvir a voz da razão
Para saber se direi sim ou não"
Waldir Azevedo
não é preciso mudar as letras do sistema —
basta reorganizá-las para que tudo pareça novo.
Otto e o óbvio
Ruy Castro
Nelson Rodrigues gostava de contar esta história. Otto Lara Resende, morador da Gávea, ia todos os dias pelo Aterro do Flamengo para o jornal em que trabalhava, no centro da cidade. Um dia, ao passar pelo Morro da Viúva, olhou casualmente à direita e viu um corpo estranho na enseada: uma pedra gigante com uma casinha no cocuruto. Era o Pão de Açúcar. Embora morasse no Rio desde 1945 e todos os empregos que tivera o obrigassem a passar em frente a ele, Otto nunca se dera conta de sua existência. Atônito, meteu o pé no freio. Os pneus faiscaram e obrigaram os motoristas atrás dele a fazer o mesmo.
Para espanto de todos, Otto saiu do carro e começou a zanzar entre eles, apontando mudo, de boca aberta, para o Pão de Açúcar. Assustadas, as pessoas também desceram, para acudi-lo. Asmático, veio-lhe a falta de ar e ele puxou a bombinha. Uma senhora, abanando-o, dizia: "Calma, meu senhor, calma!". E, sempre apontando para o Pão de Açúcar, só então Otto balbuciou: "Ontem não estava ali! Ontem!". E Nelson completou: "Foi um momento para a eternidade —o grande confronto entre Otto Lara Resende e o óbvio ululante".
Foi a primeira vez que Nelson usou a expressão "óbvio ululante", para dizer que o óbvio ulula à nossa frente, implorando para ser percebido. Mas não o vemos. "Só os profetas enxergam o óbvio", concluiu Nelson. Por isso, Otto nunca enxergara o Pão de Açúcar —ele era o óbvio ululante.
Tudo o que aconteceu durante Bolsonaro e só agora está vindo à tona do pântano era óbvio desde o começo. Bolsonaro não dedicou um único dia de seu suposto governo a governar. A educação, a saúde, a segurança, nem mesmo a economia, nunca lhe disseram nada. A partir do primeiro dia, empenhou-se em sua recondução ao poder em 2022, precavendo-se de que, se isso não acontecesse pelas urnas, viria na forma de um golpe.
Uma consulta aos arquivos mostrará que, com as mesmas palavras, isso foi dito várias vezes neste espaço naqueles quatro anos. Nenhuma vantagem —era o óbvio. E tão óbvio que o próprio Bolsonaro o ladrava nos palanques, caçambas e motociatas, na certeza de que ninguém o enxergaria.
Folha de São Paulo, 04/12/2024
terça-feira, 12 de maio de 2026
A ilusão do caso Vorcaro, por Fernando Gabeira
O Globo
Ele não entende a colaboração premiada como fim de carreira. Faz planos. Para começar, não entregará todo o dinheiro que amealhou
Não sou dessas pessoas que o tempo inteiro dizem: "Vai acabar em pizza, vai acabar em pizza." Mas confesso que estou um pouco cético sobre a delação de Daniel Vorcaro, o homem que iluminaria toda a escuridão da República. Vorcaro não entende a delação como fim de carreira. Faz planos. Para começar, não entregará todo o dinheiro que amealhou. Precisa de recursos para recomeçar adiante. Há muita coisa que não poderá esconder, pois o conjunto de mensagens no celular revela seu movimento financeiro. Mas aquilo que não está a descoberto, ele deve considerar um fundo de sobrevivência para a nova etapa, pois certamente não conta com um longo período de prisão.
Outro ponto vulnerável na delação de Vorcaro são os próprios advogados. Ele é apenas um caso fortuito, e provavelmente muito lucrativo, para os advogados. Mas nada se compara à relação estratégica e permanente que precisam manter com o STF. Quando se trata de apontar as armas para a Corte, faltará pólvora ou, no mínimo, ela estará molhada.
Detesto a expressão “acochambrar”. Para coisas feias, palavras feias. Na semana passada, um ministro do TSE, aliado de Alexandre de Moraes, Floriano Marques, encontrou-se com o advogado de Vorcaro num hotel de Brasília. O encontro se deu um dia depois da apresentação da proposta de delação. O ministro admite que conversou superficialmente sobre a delação e comentou:
— Puxa vida, que coisa!
Ninguém pode provar que a conversa não foi superficial. Marques foi indicado por Lula, por sugestão de Moraes. São colegas na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo.
Por uma tentativa de conhecer a delação premiada do tenente-coronel Mauro Cid, o general Braga Netto foi para o espaço. O advogado de Vorcaro sabe disso. Por coincidência, Braga Netto também é seu cliente. O ministro e o advogado são amigos. Quem não é amigo, conhecido, camarada? “Meu caro, que prazer, vamos tomar algo para combater essa secura de Brasília.”
A Polícia Federal trabalha firme e com competência. Mas será difícil romper esse cipoal de relações e favores. No caso do senador Ciro Nogueira, houve indícios, casa, mesada, cartão e um ato de ofício: a emenda apresentada por Ciro, subindo de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a garantia de ressarcimento aos credores de um banco quebrado. Vorcaro saudou essa emenda nas conversas com a namorada. Possivelmente, outros amigos de Vorcaro na política terão dado bandeira e cairão também. Mas o núcleo mais duro, que envolve ministros do Supremo, talvez não seja tocado.
Quem quer brigar com o Supremo? A qualquer momento, nosso destino pode estar nas mãos deles. Se julgam e condenam, apelar para quem? Você fica com a corda no pescoço, com a espada na cabeça e com uma parte da esquerda jurando que você é de extrema direita.
No entanto será preciso reclamar. O caso Master não pode dar em pizza. Haja farinha, molho de tomate e orégano para cobrir 8 milhões de quilômetros quadrados. Mas é preciso não ter grandes ilusões. O Brasil não é fácil.
Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende e Hélio Pellegrino (imagem: Acervo pessoal)
"Onde entra o conceito de anagrama sobre pizzas e outras guloseimas que podem aparecer num suposto acordo de colaboração premiada de Vorcaro? Segundo o artigo de Fernando Gabeira, mineiro como o 'banqueiro' que sabe o valor de cada tostão em terras de banqueiros e bancos quebrados ou arrombados."
O conceito de anagrama, aqui, deixa de ser um jogo de letras e passa a ser uma metáfora política sobre a recombinação dos mesmos elementos para obter resultados diferentes (ou disfarçados).
Ao "conglobar" o anagrama de VORCARO com o texto de Gabeira sobre as guloseimas da corrupção, chegamos aos seguintes pontos:
1. O Anagrama da Impunidade: "Acabar em Pizza"No texto, Gabeira cita o clichê "vai acabar em pizza". Se pegarmos as letras de VORCARO, encontramos a essência do que ele descreve sobre o banqueiro:
ROCA/ROÇAR: Vorcaro "roça" o poder. O texto menciona o encontro em hotéis de Brasília, o "cipoal de relações" e a proximidade com ministros. É o movimento de chegar perto sem se queimar totalmente.
CORO: A delação premiada, para Gabeira, corre o risco de ser apenas um "coro" ensaiado. O banqueiro, os advogados e os ministros cantam a mesma música para que o "núcleo duro" não seja tocado.
CARRO / CORRA: O texto diz que Vorcaro "faz planos" e não entregará todo o dinheiro. Ele quer o "carro" (os recursos) para "correr" (recomeçar) adiante. O anagrama vira estratégia de fuga financeira.
2. O Valor do "Tostão" no Banco Quebrado (Master)Você mencionou a mineiridade e o valor de cada tostão. Gabeira destaca que Vorcaro não é um delator comum: ele é um calculista.
O Anagrama "CORAVA": Antigamente, "corar" algo era dar cor ou vergonha. Gabeira sugere que, nesse "acordo", ninguém cora de vergonha. O aumento da garantia de ressarcimento de R\( 250 mil para R\) 1 milhão (a emenda de Ciro Nogueira) é o "tostão" multiplicado que Vorcaro comemora com a namorada.
Guloseimas e Pizzas: A "pizza" no Brasil é o anagrama político perfeito: você pega os ingredientes (provas, mensagens de celular, dinheiro amealhado), fatia tudo, distribui entre os amigos (STF, advogados, políticos) e, no final, a forma continua a mesma, mas o conteúdo foi digerido pelo sistema.
3. A "Ilusão" Anagramática
Gabeira joga com a ideia de que a delação de Vorcaro "iluminaria a escuridão".
Se rearranjarmos as letras de VORCARO, podemos formar "CORVORA" (uma corruptela de corvo). O corvo, citado no texto como ave que ronda bancos quebrados e carniça política, é quem melhor entende o valor do que sobra.
O banqueiro mineiro sabe que, em Brasília, para não "acabar em pizza", ele precisa oferecer uma "guloseima" maior (a cabeça de alguém), mas Gabeira duvida que ele entregue o "chef" da cozinha.Conclusão:O anagrama de VORCARO aplicado ao texto revela que ele não quer apenas "limpar o nome", mas sim rearranjar as mesmas peças (o dinheiro escondido, as influências no STF e as amizades em hotéis) para que, no final, o resultado da conta (o valor do tostão) continue favorecendo o banqueiro, enquanto o país fica com a conta da "farinha, molho de tomate e orégano".Você acredita que o "fundo de sobrevivência" que Gabeira menciona é o verdadeiro "anagrama financeiro" que a Polícia Federal não conseguirá decifrar?
terça-feira, 12 de maio de 2026
Ao convidar Bolsonaro e Collor, Nunes Marques acirra conflitos no STF, por Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense
A decisão de Nunes Marques também fortaleceu o discurso da oposição no Congresso, especialmente do PL, partido de Bolsonaro, que retomou o projeto de anistia
A posse do ministro Kassio Nunes Marques na presidência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), prevista para hoje, está sendo marcada pelo convite protocolar a todos os ex-presidentes da República, inclusive Jair Bolsonaro e Fernando Collor de Mello, o que produziu um efeito político oposto ao discurso de pacificação que o próprio magistrado pretende imprimir à sua gestão. Ao chamar para a cerimônia dois ex-presidentes condenados pela Justiça — o primeiro por tentativa de golpe de Estado; o segundo na Operação Lava-Jato —, Nunes Marques também acirrou as tensões internas no Supremo Tribunal Federal (STF).
Além de aprofundar o desconforto entre ministros da Corte, Nunes Marques jogou mais lenha na fogueira da oposição bolsonarista, que voltou a articular uma anistia ampla aos envolvidos nos ataques de 8 de janeiro de 2023. O gesto do novo presidente do TSE foi interpretado por integrantes do Supremo como um cavalo de pau na atuação da Corte durante as eleições. Embora o convite tenha sido tratado oficialmente como mera tradição republicana, extensiva a todos os ex-presidentes da República no período democrático, a presença simbólica de Bolsonaro na posse de seu indicado seria um constrangimento aos demais integrantes da Corte. O ex-presidente cumpre prisão domiciliar após condenação superior a 27 anos de prisão pelos crimes relacionados à tentativa de ruptura institucional.
O constrangimento se ampliria porque Bolsonaro, caso decidisse comparecer à cerimônia, dependeria de autorização do ministro Alexandre de Moraes, relator das ações penais relacionadas ao golpe. Moraes e Bolsonaro nunca se bicaram. A escalada de confronto entre ambos foi o epicentro do choque entre forças golpistas, liderada pelo então presidente da República, e a resistência democrática, ancorada nas instituições da República, sobretudo o STF e o TSE. Moraes presidia o TSE nas eleições de 2022, nas quais o ex-presidente foi derrotado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Agora, a posse de novo presidente do TSE pode ser palco de mais um capítulo da longa escalada de confrontos entre ambos. A decisão de Nunes Marques também fortaleceu o discurso da oposição no Congresso, especialmente do PL, partido de Bolsonaro. O líder da legenda na Câmara, deputado Sóstenes Cavalcante (RJ), retomou imediatamente a mobilização em torno de uma Proposta de Emenda Constitucional que prevê anistia geral aos condenados pelos atos golpistas do 8 de Janeiro. Moraes é acusado pela oposição de “invasão de competências” e “afronta à democracia”, ao suspender a aplicação da nova lei de dosimetria das penas, que reduziria drasticamente a pena de prisão de Bolsonaro.
A PEC apresentada pelo PL possui alcance amplo. O texto prevê anistia para condenados por crimes de dano qualificado, deterioração de patrimônio público, associação criminosa armada, tentativa de abolição do Estado Democrático de Direito e golpe de Estado. Na prática, a proposta abre caminho para beneficiar não apenas participantes diretos das invasões às sedes dos Três Poderes, mas também Jair Bolsonaro, apontado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) e condenado pelo STF como líder político da articulação golpista.
Deslegitimação
A movimentação recoloca o Congresso em rota de colisão com o Supremo. Nos bastidores do STF, ministros enxergam na nova ofensiva parlamentar uma tentativa de deslegitimar as decisões da Corte e transformar condenados por crimes contra a democracia em vítimas políticas. São recorrentes as críticas ao protagonismo judicial de Moraes, sobretudo entre setores conservadores e bolsonaristas.
Indicado ao STF por Bolsonaro em 2020, Nunes Marques construiu na Corte um perfil discreto, tecnicamente conservador e frequentemente alinhado a posições defendidas pelo ex-presidente. Natural de Teresina, com trajetória na advocacia, no Tribunal Regional Eleitoral do Piauí (TRE-PI) e, posteriormente, no TRF-1, Nunes Marques foi a primeira indicação de Bolsonaro ao Supremo, onde cultivou uma imagem de magistrado avesso a confrontos públicos.
No STF, porém, suas decisões o aproximaram da ala mais crítica ao ativismo judicial. O ministro votou em favor de interpretação mais restritiva sobre responsabilização de plataformas digitais, defendeu maior proteção à liberdade de expressão e assumiu relatorias sensíveis em temas econômicos e eleitorais. Sua eleição para o comando do TSE, ao lado do ministro André Mendonça, também indicado por Bolsonaro, consolidou a percepção de que a Justiça Eleitoral terá neste ciclo uma condução menos identificada com a linha adotada nos últimos anos por Moraes e pela ministra Cármen Lúcia.
Embora Nunes Marques tenha perfil “sereno e técnico”, o gesto protocolar de convidar Bolsonaro e Collor foi considerado dentro do STF como um recado político em favor da “normalização” institucional dos condenados pela Justiça por tentativa de golpe de estado. No caso de Collor, que cumpre prisão domiciliar, representa mais um revés para Lava-Jato, operação que dividiu profundamente o Supremo ao longo da última década.
O histórico de confrontos entre Bolsonaro e Moraes mostra como a decisão de Nunes Marques parece até uma provocação. O embate começou em 2020, quando o ministro do STF suspendeu a nomeação do delegado Alexandre Ramagem para a direção-geral da Polícia Federal, sob argumento de desvio de finalidade e proximidade excessiva com a família Bolsonaro. A decisão foi vista pelo então presidente como interferência direta do Judiciário em seu governo.
A Biblioteca Central da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e os estúdios da Faculdade de Comunicação (Facom/UFJF) estão entre os cenários de gravações do documentário “12 Dias”, que reconstitui o sequestro da Rua das Margaridas, ocorrido em agosto de 1990 no bairro Novo Horizonte, em Juiz de Fora. O episódio do sequestro é considerado um dos mais longos da história de Minas Gerais e permanece vivo na memória da população de Juiz de Fora.
Juiz de Fora vai ganhar um documentário que revisita um dos episódios mais marcantes da sua história recente.
“O movimento tático da defesa de Jair Bolsonaro ao protocolar um pedido de revisão criminal em maio de 2026 visa, primordialmente, retirar o caso das mãos da Primeira Turma do STF (liderada por Alexandre de Moraes) e levá-lo para a Segunda Turma ou ao Plenário.Aqui estão os pontos-chave dessa "partida de xadrez" jurídica:O Próximo Lance (Relatoria): A chave do xadrez foi entregue ao ministro Kassio Nunes Marques, sorteado em 11 de maio de 2026 como relator da revisão criminal. Por ser um ministro indicado por Bolsonaro e integrante da Segunda Turma, sua atuação é vista pela defesa como um terreno mais favorável.A Estratégia do "Erro Judiciário": Os advogados alegam que a condenação a 27 anos e 3 meses foi baseada em erro, questionando a competência da Primeira Turma para julgar um ex-presidente e pedindo a anulação da delação de Mauro Cid.O Tempo e o "Carcereiro": Enquanto o ex-presidente cumpre prisão domiciliar humanitária por questões de saúde (desde março de 2026), o tempo corre em meio a movimentações políticas, como a promulgação da Lei da Dosimetria pelo Congresso, que poderia reduzir sua pena para 20 anos.O Risco do "W.O.": No contexto jurídico, um "W.O." (vitória por falta de comparência ou omissão) seria análogo a uma nulidade processual absoluta ou a um erro procedimental que invalidasse todo o julgamento anterior sem análise do mérito. Embora nebuloso, é o que a defesa busca ao apontar que o trânsito em julgado foi "prematuro".A decisão de Nunes Marques sobre admitir ou não as novas provas e o envio do caso para o revisor na Segunda Turma determinarão se o "encarcerado" conseguirá reverter o jogo.”
erça-feira, 12 de maio de 2026
Autonomia ou Dependência? Por André Lara Resende
Um Cético Esperançoso
As políticas de juros dos bancos centrais estão no cerne dos mercados financeiros. Movem preços de todos os ativos, provocam ganhos e perdas, transferem riqueza, estimulam ou desestimulam a economia. Não surpreende que estejam submetidas a todo tipo de pressões políticas.
Depois de dois anos de duras críticas à política de juros do Banco Central, Lula indicou Gabriel Galípolo para a sua diretoria em 2023. Houve quem achasse que poderia haver uma inflexão na política do BC. No entanto, nada mudou. Nas primeiras reuniões do comitê de política monetária, o Copom, a decisão foi sempre por manter ou até mesmo elevar os juros. Galípolo era apenas uma voz entre os nove diretores membros do comitê — nada poderia fazer para rever a política em curso, alegaram os que contavam com ele para reduzir os juros.
Alçado à presidência do BC no início de 2025, esperava-se que Galípolo tivesse autoridade para finalmente dar início a uma queda consistente até uma taxa compatível com as internacionais. Mais uma vez, não foi o que ocorreu. Ao contrário, com Galípolo na presidência, o BC continuou a elevar os juros. A taxa real de juros é da ordem de 10% ao ano, insustentável quando a economia cresce a menos de um terço disso. Lula, e também Haddad no Ministério da Fazenda, não deixaram de demonstrar discordância em relação aos juros excessivos, mas nunca fizeram críticas abertas a Galípolo na presidência do BC.
Nos Estados Unidos, Kevin Warsh, indicado por Trump, deve presidir o Fed a partir da segunda metade de maio. Paira sobre ele a dúvida de que mantenha independência de política monetária. Trump tem atacado de forma recorrente o Banco Central americano e seu atual presidente insistindo que os juros deveriam ser mais baixos. Duramente criticado e processado sob alegação de aprovar gastos excessivos na reforma da sede do Fed, Powell se manteve inflexível na defesa da autonomia para conduzir a política de juros. Numa quebra da tradição, Powell não pretende deixar a diretoria do Fed após ser substituído por Warsh na presidência. Insiste em continuar até que o processo contra ele seja concluído, pois seu mandato como diretor vai até janeiro de 2028.
Warsh tem sólida formação em economia e direito, foi dos mais jovens diretores do Fed na primeira década deste século, sob o comando de Ben Bernanke. Não lhe faltam credenciais. Também não pode ser acusado de ser “dovish” — condescendente com políticas excessivamente expansionistas —; ao contrário, sempre foi considerado “hawkish”, linha dura, na condução da política monetária. Na crise de 2008, quando o Fed inovou ao introduzir a expansão direta do crédito por meio do Quantitative Easing (QE), Warsh foi contra o seu prolongamento além da crise. Anos depois, já fora do Fed, criticou duramente a segunda rodada do QE durante a epidemia de Covid. O problema é que agora, apesar de negar ter recebido qualquer instrução para baixar os juros, Warsh, ao menos explicitamente, recusa-se a discordar do presidente. Não respondeu à pergunta da senadora Elizabeth Warren sobre se Trump havia realmente perdido a eleição de 2020. Saiu pela tangente e recusou-se a confirmar a efetiva derrota do ex-presidente.
Apesar disso, por razões semelhantes às de Galípolo, Warsh dificilmente promoverá uma guinada na política do BC americano. O mais provável, como sugere a relativa tranquilidade dos mercados, é que o Fed se mantenha fiel a uma condução técnica da política monetária. Aqui e lá, no Brasil e nos EUA, assim como em toda parte, parece haver um consenso de que não há alternativa. Por mais fortes que sejam as pressões, um banco central que se afaste dos preceitos técnicos estabelecidos corre o risco de provocar uma crise financeira e um surto inflacionário de consequências imprevisíveis.
Há um consenso institucional de que não existe alternativa para a condução da política de juros. Este consenso político, contudo, coexiste com uma profunda perplexidade sobre as bases conceituais da política monetária. A teoria estabelecida na segunda metade do século passado, segundo a qual uma restrição monetária elevava o juro, desestimulava a demanda, provocava recessão e desemprego, moderando a alta dos salários e dos preços, foi silenciosamente aposentada. Sem pretender retomar o tema — já o tratei de forma exaustiva em meus livros Juros, Moeda e Ortodoxia (2017) e Consenso e Contrassenso (2020), publicados pela Companhia das Letras —, me restrinjo a listar dois fatos incontroversos. Primeiro: os bancos centrais não controlam a moeda, mas sim a taxa básica de juros. Segundo: a relação inversa entre recessão, desemprego e inflação, expressa pela Curva de Phillips, desapareceu.
Sem o seu tradicional canal de transmissão — da redução da demanda para o desemprego e a capacidade ociosa, e destas para os preços —, a política monetária perdeu seu substrato conceitual. Ainda hoje, todo trabalho acadêmico parte de um modelo matemático com relação inversa entre capacidade utilizada e inflação para, depois de muita álgebra, chegar a uma equação simples que relaciona essencialmente a inflação às expectativas de inflação. O resumo da ópera é que, após extensa formulação matemática, a teoria dominante conclui que o que provoca inflação são as próprias expectativas de inflação.
Algumas perguntas básicas se impõem. De quem são essas expectativas e como são formadas? No Brasil, assume-se que sejam as do mercado financeiro, coletadas e divulgadas semanalmente pela Pesquisa Focus do Banco Central. Por que apenas as expectativas do mercado financeiro, se os preços que compõem o índice de inflação não são por ele fixados? Supostamente, o mercado, onisciente, reflete as expectativas da sociedade. Quanto ao processo de formação dessas expectativas, a teoria é vaga. Já foram retroativas, baseadas na inflação observada; depois passaram a ser prospectivas, racionais, baseadas no que prevê o próprio modelo conceitual. Após a refutação lógica e empírica das inúmeras hipóteses sobre o que determina o nível de preços, restou apenas a relativamente nova Teoria Fiscal do Nível de Preços, TFNP, uma complexa formulação matemática que associa a inflação à trajetória futura do déficit fiscal. Por depender de inúmeras variáveis inobserváveis, a TFNP não pode ser empiricamente refutada.
Chega-se assim ao resumo da base técnica da política monetária hoje: a inflação depende das expectativas do mercado financeiro, que por sua vez dependem do modelo conceitual, que postula, sem comprovação empírica possível, serem função da trajetória futura das contas públicas. Ainda assim, o protocolo para a condução da política de juros — baseado na heurística da Regra de Taylor — manda subir os juros sempre que sobem as expectativas de inflação do mercado financeiro. O fato de que a alta dos juros agrave a trajetória das contas públicas, o que segundo o próprio modelo deveria aumentar as expectativas de inflação, não parece incomodar os defensores da condução técnica. É apenas mais uma das inúmeras contradições da macroeconomia contemporânea. A conclusão é inescapável: não há nada de técnico, muito menos de científico, na base das políticas dos bancos centrais. Pelo contrário, na falta de embasamento lógico e empírico, adota-se um protocolo heurístico. Basta um pouco de reflexão para concluir que estamos muito mais para crenças dogmáticas do que para técnicas científicas.
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Voltemos a Galípolo. Quem o conhece não tem como acusá-lo de despreparo. Tem formação acadêmica de qualidade, conhece a fundo a teoria econômica e monetária neoclássica. Ao contrário de muitos outros indicados para a diretoria do Banco Central, tem experiência prática de mercados financeiros. Além da competência técnica, domina a crítica ilustrada à teoria econômica dominante e transita com familiaridade pela teoria do conhecimento. Sei que Galípolo compartilha da convicção de que a taxa de juros fixada pelo Banco Central é um grave equívoco. Só a força do consenso institucional em relação à inexistência de alternativa pode explicar a sua conversão à ortodoxia.
Segundo a teoria neoclássica, a taxa de juros não é determinada pelo BC, mas pela oferta de fundos emprestáveis, ou seja, pela poupança. Como a taxa de poupança no Brasil é baixa e o déficit público é alto, o resultado seria uma alta taxa de juros estrutural. Tenho feito críticas recorrentes a essa noção — disponíveis no meu Substack, em “Dívida Pública, Riqueza Privada” — e não pretendo repeti-las aqui.
Uma outra vertente teórica, com apelo tanto para a ortodoxia quanto para alguns de seus críticos, sustenta que a taxa de juros de uma economia periférica é determinada pelos fluxos de capitais financeiros. A taxa de equilíbrio seria função dos juros nos EUA — ainda hoje a economia da moeda de referência internacional — mais o prêmio de risco do país. O capital financeiro se deslocaria para “arbitrar” qualquer desvio em relação a essa taxa, composta pelos juros americanos, somados ao prêmio de risco e à expectativa de desvalorização cambial.
O tema tem longa tradição na literatura técnica sobre economias financeiramente integradas. A versão contemporânea pode ser resumida assim: o câmbio é importante determinante da inflação; logo, para controlar a inflação é preciso controlar o câmbio; e para controlar o câmbio é preciso abrir mão do controle dos juros. O BC ditaria efetivamente a taxa de juros, mas, para não perder o controle cambial e inflacionário, não poderia fugir da taxa determinada pelo fluxo de capitais de curto prazo. Anunciaria, portanto, apenas a taxa exigida pelo mercado. O Banco Central só teria autonomia para implementar o que exige o mercado. Não é o BC que pauta o mercado, mas o mercado quem pauta o Banco Central.
Este é o raciocínio que sou obrigado a ouvir e contestar de forma recorrente. A redução da taxa de juros provocaria fuga de capitais e forte desvalorização cambial. A inflação sairia de controle, as expectativas seriam “desancoradas”, o que reforçaria o surto inflacionário numa espiral incontrolável. Para recuperar a credibilidade, o BC seria forçado a reverter a redução e elevar a taxa a níveis ainda mais altos, sob risco de mergulhar o país no caos.
Não concordo, e explico por quê. É fato que o diferencial de juros é um importante fator na atração de capitais especulativos de curto prazo, que influenciam a taxa de câmbio. Ocorre que a taxa de juros brasileira é muito superior à necessária para equilibrar o câmbio num patamar competitivo. Um país com superávit comercial sustentado há mais de duas décadas, autossuficiente em energia, exportador de petróleo e com quase 20% do PIB em reservas internacionais não precisa de uma taxa de juros mais de três vezes superior às internacionais para evitar uma corrida cambial. A redução dos juros, se implementada não como ato de voluntarismo político, mas de forma inteligente e fundamentada, deixaria claro que todos têm a ganhar. Os capitais de curto prazo continuariam atraídos por um diferencial ainda muito positivo. Uma eventual desvalorização cambial inicial seria rapidamente revertida pela melhora das perspectivas de crescimento e do custo da dívida pública. Ninguém pode argumentar contra o fato de que a redução da taxa de juros estimularia o investimento, a produtividade e o crescimento — reduzindo ao mesmo tempo o numerador e aumentando o denominador da relação dívida/PIB, o principal indicador de risco de crédito do país.
Galípolo conhece os equívocos conceituais do consenso dominante. Jovem, com uma carreira profissional pela frente, fez uma opção em relação a suas alianças.Trata-se de um exemplo prático da analogia das ideias com as roupas, que tratei em “A Teimosa Persistência das Crenças”. Assim como as roupas, as ideias podem ter dupla função: a prática e a simbólica. Quando as circunstâncias não impõem sua função prática, adota-se a simbólica — aquela que nos identifica com um determinado grupo. Galípolo optou por privilegiar a função simbólica das crenças e estabelecer as alianças que lhe parecem mais convenientes. Assim fazemos quase todos e quase sempre, na maioria das vezes de forma inconsciente.
Existe sim alternativa para rever os juros absurdos impostos pelo Banco Central, mas é preciso quebrar a barreira ideológica que, sob pretensa fundamentação técnica, transformou a política de juros num poderoso canal de transferência de renda e riqueza. Enquanto isso não ocorrer, pouco importa que os bancos centrais sejam presididos por pessoas competentes como Galípolo e Kevin Warsh. Os dogmas institucionalizados garantem que o protocolo continuará a ser cumprido.
Entender o poder é o primeiro passo para não cair nas armadilhas dele. 🏛️⚖️
No dia a dia, é fácil confundir força com autoridade — e segredo com “estratégia”. Bobbio insistia num ponto simples: em democracia, o poder precisa ser visível, explicável e passível de contestação.
Do Banquete, das Crenças e do Governo Invisível das Coisas
À maneira de um convívio entre antigos e modernos
I. Do motivo deste banquete
Assim como outrora Dante Alighieri ofereceu, em seu Convivio, alimento aos que, privados do latim dos doutos, careciam do pão do entendimento, também aqui se propõe um banquete — não de iguarias sensíveis, mas de reflexões sobre o poder, o saber e a verdade.
Pois convém saber que nem todo alimento nutre igualmente, e que muitas vezes aquilo que se oferece como substância é apenas forma, e aquilo que se apresenta como verdade é já interpretação servida à mesa.
E, sendo assim, não é despropositado investigar quem cozinha, quem serve e quem consome — e sob quais regras invisíveis se organiza o convívio.
II. De como o saber se faz pão e se distribui com medida
Digo que o saber humano não chega aos homens em estado puro, mas sempre acompanhado de mediação, assim como o pão acompanha os pratos mais sólidos para torná-los assimiláveis.
E esta mediação não é inocente.
Pois quem traduz o saber:
escolhe suas palavras,
determina suas formas,
e, não raro, limita seu alcance.
Assim, o que se apresenta como universal pode ser, em verdade, particular — e o que se anuncia como necessário pode ser apenas costume reiterado.
Nisso concordaria Antonio Gramsci, ao sustentar que o domínio mais eficaz não é o que se impõe pela força, mas o que se infiltra no entendimento, fazendo com que os homens aceitem como natural aquilo que lhes foi ensinado a não questionar.
III. Do consenso que se faz natureza
Há entre os modernos uma arte refinada, pela qual certas opiniões deixam de parecer opiniões e passam a ser tomadas como evidências.
E isso ocorre não porque sejam demonstradas, mas porque são repetidas sob o nome de ciência, técnica ou prudência.
Neste ponto, muito instrutivo é o testemunho de André Lara Resende, o qual, com espírito simultaneamente cético e esperançoso, observa que a política dos juros — tida como fundamento técnico — repousa sobre bases frágeis, quando não contraditórias.
Pois se diz:
que a inflação depende de expectativas,
que as expectativas dependem de modelos,
e que os modelos não podem ser plenamente verificados.
Logo, o edifício ergue-se não sobre certeza, mas sobre aceitação.
E, ainda assim, permanece firme — não pela solidez de seus fundamentos, mas pela força do consenso que o sustenta.
IV. Do poder que se reorganiza sem se alterar
Não se deve, contudo, supor que tal ordem se mantenha imóvel.
Ao contrário, ela se move — mas move-se como o anagrama, que rearranja letras sem alterar o conjunto.
Assim se compreende o que descreve Fernando Gabeira, ao tratar de episódios em que a revelação prometida se converte em redistribuição calculada.
Pois não se desfaz o sistema:
apenas se reordenam suas partes,
redistribuem-se responsabilidades,
e se preserva o essencial sob nova aparência.
E, desse modo, aquilo que parecia ruptura revela-se continuidade sob outra forma.
V. Do teatro das instituições
Também não escapa à observação que o poder não atua apenas nos conteúdos, mas nas formas e nos gestos.
Como bem indica Luiz Carlos Azedo, há ocasiões em que convites, presenças e símbolos falam mais do que decisões explícitas.
E assim se constrói um teatro em que:
a aparência de normalidade encobre a tensão,
o gesto protocolar dissimula a intenção,
e o espetáculo sustenta a ordem.
Pois o poder, quando maduro, já não necessita afirmar-se — basta-lhe parecer natural.
VI. Das ideias como vestes
Convém ainda considerar uma observação sutil:
as ideias não servem apenas para compreender o mundo, mas também para situar os homens dentro dele.
Como as vestes:
têm função prática, mas também simbólica;
protegem, mas também identificam.
E assim ocorre que homens instruídos, conhecedores das fragilidades de certas doutrinas, ainda assim as adotam — não por ignorância, mas por pertencimento.
Este é o ponto mais delicado do convívio:
não se trata de erro, mas de adesão.
VII. Conclusão: do banquete que se fecha sobre si
Chegamos, portanto, a uma conclusão que não é leve.
O banquete do saber, do poder e da verdade:
não é livre,
não é neutro,
e não é plenamente acessível.
Ele se organiza segundo regras que:
distribuem o que pode ser dito,
delimitam o que pode ser pensado,
e orientam o que pode ser feito.
E, ainda assim, apresenta-se como aberto.
Se Dante Alighieri estivesse entre nós, talvez dissesse que muitos se alimentam sem saber de que se nutrem.
E Antonio Gramsci acrescentaria que o mais poderoso dos domínios é aquele que dispensa vigilância, porque já foi interiorizado.
Resta, então, ao conviva atento — cético, mas não desesperado — reconhecer que:
não é necessário destruir o banquete para compreendê-lo,
mas é indispensável perceber que os pratos, o pão e a ordem do serviço
nunca são inocentes.
Se quiser,
Juros, moeda e ortodoxia - Teorias monetárias e controvérsias políticas Capa comum – 26 junho 2017
Edição Português por André Lara Resende (Autor)
Neste conjunto de ensaios, André Lara Resende reflete sobre as origens e o desenvolvimento da teoria monetária e suas implicações no contexto brasileiro. Juros, inflação e política fiscal recebem do autor um enfoque inovador, ancorado nas melhores investigações da atualidade, que põem em questão algumas convicções estabelecidas. Da teoria à história, os ensaios discutem as políticas comumente receitadas para a inflação crônica, a recessão e o desemprego. Antes de buscar a polêmica fácil ou propor uma “nova heterodoxia”, este livro pretende estimular o debate ao abrir uma janela de oportunidade para a reflexão sobre políticas públicas da mais alta relevância.
Livro II — Da Moeda, dos Juros e das Crenças que Regem o Valor
No qual se trata da natureza da riqueza, do governo invisível dos preços e das razões pelas quais os homens obedecem ao que não compreendem inteiramente
I. Do lugar da moeda no convívio humano
Convém, antes de tudo, estabelecer que a moeda, embora pareça coisa simples — instrumento de troca e medida de valor —, é, na verdade, uma das mais sutis construções do engenho humano.
Pois ela não possui valor em si, mas o recebe:
da confiança dos homens,
da autoridade das instituições,
e do costume reiterado.
E assim, sendo fundada não na matéria, mas na crença, a moeda pertence mais ao domínio do entendimento do que ao das coisas sensíveis.
II. De como o preço do tempo se tornou soberano
Entre todos os preços que regem o convívio econômico, nenhum se mostra tão elevado quanto o preço do tempo — isto é, o juro.
Pois o juro:
decide o valor do presente em relação ao futuro,
regula o investimento e o consumo,
e distribui ganhos e perdas entre os homens.
E, no entanto, aquilo que tanto governa raramente é plenamente compreendido.
Diz-se que sua determinação é técnica, fruto de cálculos refinados e leis necessárias.
Mas, como observa André Lara Resende, essa aparência de rigor encobre incertezas profundas.
III. Da fragilidade dos fundamentos tidos por firmes
A doutrina corrente afirma que:
elevar juros reduz a demanda,
reduzindo a demanda, contêm-se os preços,
e, assim, se governa a inflação.
Mas tal cadeia, outrora aceita como evidente, já não se sustenta com a mesma firmeza.
Pois:
a relação entre desemprego e inflação se enfraqueceu,
os canais de transmissão tornaram-se obscuros,
e as próprias teorias foram ajustadas para acomodar suas falhas.
Chega-se, então, a uma formulação curiosa:
a inflação depende das expectativas
e as expectativas dependem daquilo que se acredita que ocorrerá
Assim, o edifício teórico repousa sobre si mesmo, como arco sustentado por sua própria curvatura.
IV. Das expectativas como governo invisível
Pergunta-se, com razão:
de quem são essas expectativas?
Responde-se: do mercado.
E quem é o mercado?
Um conjunto de agentes cuja visão se toma por representação do todo.
E assim se estabelece uma ordem em que:
poucos formam expectativas,
muitos se submetem a elas,
e todos são afetados por suas consequências.
Aqui se revela, mais uma vez, o ensinamento de Antonio Gramsci:
👉 o poder mais eficaz não impõe — orienta
👉 não ordena — induz
👉 não se mostra — naturaliza-se
O que se chama “expectativa” pode, portanto, ser também hegemonia em estado numérico.
V. Da autonomia que se converte em dependência
Afirma-se que os bancos centrais são autônomos.
E, de fato, o são em relação aos governos eleitos.
Mas não o são necessariamente em relação ao sistema de crenças que os orienta.
Pois, como argumenta André Lara Resende:
a política de juros segue protocolos,
os protocolos seguem modelos,
e os modelos seguem pressupostos não demonstráveis.
Logo, a autonomia formal pode coexistir com dependência substancial.
Não se obedece a um governante visível,
mas a uma ordem conceitual invisível.
VI. Do capital errante e da disciplina dos fluxos
Há ainda aqueles que sustentam que os juros não podem divergir dos padrões internacionais, sob pena de fuga de capitais e desordem cambial.
E assim se constrói um argumento de necessidade:
os fluxos financeiros exigem conformidade,
a conformidade exige juros elevados,
e os juros elevados se tornam inevitáveis.
Mas tal necessidade pode ser menos absoluta do que se afirma.
Pois, como observa o mesmo autor:
países com fundamentos sólidos não precisam submeter-se integralmente a tais pressões,
e a crença na inevitabilidade pode ser maior que a própria limitação.
Aqui o anagrama retorna:
não se altera o sistema —
apenas se reorganiza a justificativa.
VII. Do juro como instrumento de redistribuição
Convém não esquecer que o juro não apenas regula a economia — ele também redistribui riqueza.
E o faz de modo silencioso:
transferindo renda de devedores para credores,
elevando o custo da dívida pública,
e condicionando o crescimento.
Assim, o que se apresenta como técnica revela-se também política.
Mas, por ser mediado por linguagem especializada e fórmulas abstratas, escapa ao escrutínio comum.
E, desse modo, permanece no banquete como prato servido aos poucos — mas de grande efeito.
VIII. Das crenças que vestem a razão
Retomemos, por fim, a analogia das ideias como vestes.
Quando a função prática enfraquece, prevalece a simbólica:
adota-se a doutrina que identifica,
preserva-se o discurso que integra,
e evita-se a ruptura que exclui.
Assim se compreende por que:
mesmo conhecendo as fragilidades do sistema,
muitos de seus guardiões permanecem fiéis a ele.
Não por erro, mas por posição.
IX. Conclusão: do círculo que se fecha
Diante do exposto, pode-se dizer que a ordem monetária contemporânea se assemelha a um círculo:
as teorias sustentam as expectativas,
as expectativas sustentam as políticas,
e as políticas reforçam as teorias.
E, assim, o sistema se mantém — não por prova definitiva, mas por coerência interna.
Se Dante Alighieri estivesse à mesa, talvez dissesse que este é um banquete em que o pão da explicação se tornou mais relevante que o alimento que deveria sustentar.
E o conviva prudente, inspirado pelo ceticismo esperançoso de André Lara Resende, reconheceria que:
não é suficiente aceitar o prato servido,
nem basta recusar o alimento,
mas é necessário compreender a cozinha —
suas regras, seus limites e suas crenças.
Só então será possível saber se o que se chama de necessidade
é, de fato, inevitável —
ou apenas mais um arranjo entre muitos possíveis.
Se quiser,
S09E40: Otto Lara Resende ou Bonitinha, mas ordinária, de Nelson Rodrigues
Livrada!
Resenha de uma das peças de teatro, com todo tipo de maluquice, que saia da cabeça do Nelson Rodrigues.
Mônica Salmaso | O velho Francisco | Show "Noites de Gala, Samba na Rua" ao vivo
Biscoito Fino
3 de ago. de 2015 #BiscoitoFino #MonicaSalmaso #NoitesDeGalaSambaNaRua
Vídeo oficial da faixa "O velho Francisco" parte do show "Noites de Gala, Samba na Rua" de Mônica Salmaso.
O velho Francisco
Monica Salmaso
Já gozei de boa vida
Tinha até meu bangalô
Cobertor, comida
Roupa lavada
Vida veio e me levou
Fui eu mesmo alforriado
Pela mão do Imperador
Tive terra, arado
Cavalo e brida
Vida veio e me levou
Hoje é dia de visita
Vem aí meu grande amor
Ela vem toda de brinco, vem
Todo domingo
Tem cheiro de flor
Quem me vê, vê nem bagaço
Do que viu quem me enfrentou
Campeão do mundo
Em queda de braço
Vida veio e me levou
Li jornal, bula e prefácio
Que aprendi sem professor
Freqüentei palácio
Sem fazer feio
Vida veio e me levou
Hoje é dia de visita
Vem aí meu grande amor
Ela vem toda de brinco, vem
Todo domingo
Tem cheiro de flor
Eu gerei dezoito filhas
Me tornei navegador
Vice-rei das ilhas
Da Caraíba
Vida veio e me levou
Fechei negócio da China
Desbravei o interior
Possuí mina
De prata, jazida
Vida veio e me levou
Hoje é dia de visita
Vem aí meu grande amor
Hoje não deram almoço, né?
Acho que o moço até
Nem me lavou
Acho que fui deputado
Acho que tudo acabou
Quase que
Já não me lembro de nada
Vida veio e me levou
Composição: Chico Buarque.
O VELHO FRANCISCO
Intérprete: Mônica Salmaso
Autoria: Chico Buarque
DVD, ao vivo, gravado em março de 2008 no teatro Fecap em São Paulo, registra o show homônimo, que já passou pelas principais capitais do país. Ao lado do quinteto Pau Brasil, formado por Nelson Ayres (piano), Paulo Bellinati (violão e cavaquinho), Teco Cardoso (sax e flautas), Ricardo Mosca (bateria) e Rodolfo Stroeter (baixo), Mônica Salmaso contempla diversas fases do autor Chico Buarque.
Compre o DVD em https://www.biscoitofino.com.br/dvd/d...
#BiscoitoFino #MonicaSalmaso #NoitesDeGalaSambaNaRua
Chico Buarque - "O velho Francisco" (Clipe Oficial)
Biscoito Fino
4 de nov. de 2011
Cinco anos após sua ultima turnê, Chico Buarque ensaia para o show de lançamento do seu novo Cd "Chico"
Música "O velho francisco "
segunda-feira, 11 de maio de 2026
PARA ISTO
PARA ESTE FIM
"A política é teatro, e Trump e Lula sabem atuar."
domingo, 10 de maio de 2026
Lula e Trump dominam teatro político, por Lourival Sant’Anna
O Estado de S. Paulo
Uma semana antes de visitar Xi Jinping em Pequim, Donald Trump se reuniu com Lula. Embora fosse um pedido antigo do Brasil, a reunião foi marcada às pressas. Não havia agenda preparada com antecedência pelos diplomatas dos dois lados. A substância dos assuntos não era importante. Para Trump e Lula, a reunião bastava.
Por isso ela foi um sucesso: as muitas divergências não foram endereçadas. Cada um disse o que quis, sem contestação. Os assuntos foram lançados, sem um objetivo que não a simples ocorrência de uma conversa longa e amistosa.
O quase monopólio da China sobre minerais críticos fragiliza os EUA. A guerra contra o Irã agravou a situação. O Pentágono informou em sessões sigilosas com integrantes das Comissões de Defesa da Câmara e do Senado que consumiu metade dos seus mísseis mais sofisticados – Tomahawk, Atacms, Thaad e Patriot.
A principal hipótese de emprego dessas armas é contra a China, diante de eventual anexação de Taiwan e das disputas na região Ásia-Pacífico. Agora, para repor os estoques, os EUA precisam de minerais críticos. É aí que entra a reunião com Lula.
O Brasil tem a segunda maior reserva de terras raras do mundo, com cerca de 17%, embora esse mapeamento esteja incompleto e a fatia possa ser maior. A China encabeça o ranking, com cerca de 40%. Trump quis demonstrar que o Brasil não está sob a órbita chinesa.
MARCO REGULATÓRIO. A empresa americana USA Rare Earth comprou por US$ 2,8 bilhões uma mina em Minaçu, Goiás, a única fora da China com matérias-primas para a produção de ímãs permanentes.
Na véspera da cúpula, a Câmara aprovou o marco regulatório para os minerais críticos, para dar segurança jurídica a investimentos. Lula disse a Trump que o Senado também o aprovaria naquela mesma noite, o que não ocorreu, mas revela o entusiasmo dele por esse fator de magnetismo do Brasil em face aos EUA.
Quando lhe perguntaram como foi a reunião, Trump respondeu que tinha sido boa, que Lula é um “bom homem”, um “cara inteligente”, que os EUA querem mais comércio com o Brasil, e que os brasileiros pediram “alívio nas tarifas”.
Essas frases, combinadas com o post no Truth Social em seguida ao encontro, revelam a boa vontade de Trump, que aceitou criar um grupo de trabalho com prazo de 30 dias para discutir o tarifaço americano. Nada disso garante que ele vá desistir de impor novas tarifas.
Lula, por sua vez, tinha o interesse de se projetar como estadista e provar capacidade de lidar com Trump, apesar das intrigas da oposição. O timing para ele era importante também, depois de duas derrotas sucessivas no Congresso.
Política é teatro, e Trump e Lula sabem atuar.
Análise: Trump destaca conversas com Lula sobre tarifaço
Lourival Sant'Anna avalia que encontro entre os dois líderes rendeu prazo extra ao Brasil para apresentar defesa em investigação comercial americana
Da CNN Brasil
07/05/26 às 21:24 | Atualizado 07/05/26 às 21:24
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Em post em suas redes sociais, Donald Trump destacou os temas econômicos discutidos em seu encontro com Luiz Inácio Lula da Silva. De acordo com o analista de Internacional Lourival Sant'Anna, a reunião entre os dois líderes representou um dos momentos mais importantes para o Brasil no âmbito das relações comerciais com os Estados Unidos.
Na avaliação de Lourival, a conversa não deve alterar a substância da investigação americana sobre práticas comerciais brasileiras consideradas injustas, mas pode impactar o prazo do processo. "Na substância, em princípio, não, mas no prazo, provavelmente, sim", afirmou o analista durante o CNN Prime Time desta quinta-feira (7).
Segundo Sant'Anna, Lula teria obtido de Trump um prazo adicional de 30 dias para que o Brasil possa apresentar sua defesa ou reiterar argumentos já expostos anteriormente. Esse entendimento estaria subentendido também em publicação feita pelo próprio Trump sobre o encontro.
Lula: “Trump repete muitas vezes que ama o Brasil”
Lula deixa Washington após reunião com Donald Trump
Quero que os EUA voltem a ver no Brasil um parceiro importante, diz Lula
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A investigação americana teve início em julho do ano passado e tem previsão de encerramento em julho deste ano, completando 12 meses. Com o prazo extra, o Brasil ganha tempo para ponderar e continuar negociando, o que, na avaliação do analista, demonstra boa vontade por parte de Trump.
Sant'Anna destacou ainda a composição da delegação americana presente na reunião. "Essa equipe do presidente Trump que estava ali era uma equipe toda econômica e toda técnica.", observou.
A ausência de Marco Rubio, que representa o Departamento de Estado e é descrito por Sant'Anna como o elemento mais ideológico e mais contrário ao governo Lula, foi considerada favorável ao Brasil. Rubio estava no Vaticano, em encontro com o papa Leão XIV. "Isso foi muito bom para o presidente Lula, porque o Marco Rubio poderia ter trazido questões mais inconvenientes e complicadas", ressaltou o analista.
No lugar de Rubio, esteve presente Jameson Greer, representante do comércio dos Estados Unidos, que trouxe à mesa as questões ligadas ao protecionismo americano. Entre os temas considerados "irritantes" na relação entre os dois países, Sant'Anna citou o PIX, as patentes, as tarifas e a proteção ao etanol, sobretudo o produzido no Nordeste brasileiro.
"Lula conseguiu essa concessão [de prazo] que foi um dos pontos altos dessa reunião, uma das coisas mais importantes para o Brasil", avaliou Sant'Anna.
CNN Brasil
Disseram Que Eu Voltei Americanizada
Carmen Miranda
Me disseram que eu voltei americanizada
Com o burro do dinheiro, que estou muito rica
Que não suporto mais o breque do pandeiro
E fico arrepiada ouvindo uma cuíca
Disseram que com as mãos estou preocupada
E corre por aí que eu sei certo zum zum
Que já não tenho molho, ritmo, nem nada
E dos balangandans já nem existe mais nenhum
Mas pra cima de mim pra quê tanto veneno?
E eu posso lá ficar americanizada?
Eu que nasci com o samba e vivo no sereno
Topando a noite inteira a velha batucada
Nas rodas de malandro, minhas preferidas
Eu digo é mesmo eu te amo, e nunca I love you
Enquanto houver Brasil na hora das comidas
Eu sou do camarão ensopadinho com chuchu
Me disseram que eu voltei americanizada
Com o burro do dinheiro, que estou muito rica
Que não suporto mais o breque do pandeiro
E fico arrepiada ouvindo uma cuíca
Me disseram que com as mãos estou preocupada
E corre por aí que eu sei certo zum zum
Que já não tenho molho, ritmo, nem nada
E dos balangandans já nem existe mais nenhum
Mas pra cima de mim pra quê tanto veneno?
Eu posso lá ficar americanizada?
Eu que nasci com o samba e vivo no sereno
Topando a noite inteira a velha batucada
Nas rodas de malandro, minhas preferidas
Eu digo é mesmo eu te amo, e nunca I love you
Enquanto houver Brasil na hora das comidas
Eu sou do camarão ensopadinho com chuchu
Mas pra cima de mim pra quê tanto veneno?
Eu posso lá ficar americanizada?
Eu que nasci com o samba e vivo no sereno
Topando a noite inteira a velha batucada
Nas rodas de malandro, minhas preferidas
Eu digo é mesmo eu te amo, e nunca I love you
Enquanto houver Brasil na hora das comidas
Eu sou do camarão ensopadinho com chuchu
Composição: Vicente Paiva, Luís Peixoto.
Falando direito | 4° episódio - Significado e pronúncia de AD HOC.
Aglene Sotero
Dizem que a língua é viva. Eu desconfio que, às vezes, ela também gosta de pregar peças — especialmente quando encontra um “coleguinha” animado e um latinismo pela frente.
A cena foi simples, quase inocente: alguém solta um elegante “ad hoc” no meio da conversa. Era para soar clássico, daqueles que vêm direto das arcadas romanas, com toga e tudo — afinal, “ad hoc” significa justamente isso: para isso, para esse fim. Mas o coleguinha, talvez inspirado por séries, filmes ou por um suposto intercâmbio imaginário na Casa Branca, resolveu temperar a expressão. Saiu algo como “ád róqui”, com direito a sotaque importado e confiança de quem acabou de voltar de um café com Donald Trump.
Foi nesse momento que, em algum plano etéreo da cultura brasileira, Carmen Miranda ergueu uma sobrancelha.
Porque, veja bem, a história se repete — só muda o idioma. Lá atrás, disseram que ela tinha voltado “americanizada”. Que já não tinha o molho, o ritmo, o balanço. Ela, com seu turbante e sua ironia afiada, respondeu sambando, com a graça de quem não precisa provar nada a ninguém. Seguiu firme, entre o pandeiro, a cuíca e o camarão com chuchu, reafirmando sua identidade sem pedir licença.
Hoje, o nosso coleguinha faz algo parecido — só que ao contrário. Não foi para fora, mas parece ter voltado. Não trocou o samba pelo jazz, mas trocou o latim pelo inglês… sem precisar.
O pobre “ad hoc”, que em sua origem pede apenas um sopro discreto — o “h” mudo, o som correndo junto, quase tímido — virou espetáculo. Um “ád róqui” cheio de efeitos especiais, como se cada sílaba tivesse passado pela alfândega linguística e voltado com selo internacional.
E o mais curioso: ninguém pediu.
Talvez seja esse o grande drama contemporâneo: não basta falar, é preciso performar. Não basta saber, é preciso parecer que sabe… de preferência com sotaque. O latim, coitado, que já é uma língua aposentada, ainda precisa aguentar esse tipo de reencarnação improvisada — às vezes mais caricata do que erudita.
É aí que entra o contraponto necessário — quase um antídoto ad hoc — oferecido por quem se dedica a explicar, com clareza e leveza, o sentido real das palavras. No episódio “Falando direito”, a professora Aglene Sotero resgata o que parecia perdido: o significado correto, a pronúncia adequada, o respeito à origem. Sem afetação, sem espetáculo — apenas compreensão.
🎥 Vídeo de referência (significado e pronúncia de “ad hoc”):
Falando direito | 4° episódio - Significado e pronúncia de AD HOC
E então, no teatro imaginário desta crônica, forma-se um encontro improvável: de um lado, Carmen, abanando seu leque e dizendo “eu sou do samba”; do outro, o coleguinha, ajustando o colarinho invisível e insistindo no “ád róqui”. Ao fundo, quase como narradora silenciosa, Aglene organiza o palco, devolvendo às palavras o seu lugar.
Carmen sorri — aquele sorriso enviesado que já atravessou oceanos e críticas — e talvez diga:
“Meu bem, se é pra inventar moda… pelo menos faça com ritmo.”
Porque, seja no português, no latim ou no inglês, há uma regra que ninguém consegue americanizar: a elegância está menos no som e mais no sentido.
E, convenhamos, não há nada mais “ad hoc” — para isso, para esse fim — do que usar a palavra certa… do jeito certo.
Créditos: Esta crônica dialoga com o conteúdo didático apresentado por Aglene Sotero, responsável pelo vídeo indicado, que aborda o significado e a pronúncia correta da expressão latina “ad hoc”.
domingo, 10 de maio de 2026
Dinheiro, direito e política, por Pedro S. Malan
Mães, feliz dia!
'Todo governo responsável deve tentar manter a inflação sob controle',
diz Malan na CasaFolha
'Em janeiro de 1961, em seu pronunciamento de despedida da Presidência dos EUA, Dwight Eisenhower utilizou publicamente pela primeira vez a expressão “Complexo Industrial Militar”.'
'Nos dias atuais, a expressão mais apropriada talvez fosse “complexo digital-industrial-militar”, dado o peso crescente das grandes empresas de tecnologia e o inexorável uso da inteligência artificial na indústria de armamentos.'
📰 EDIÇÃO EXTRAORDINÁRIA
OPINIÃO & MOVIMENTO
Maio de 2026 — Em memória de Raimundo Rodrigues Pereira
EDITORIAL
A frase que atravessa décadas — “há dois tipos de jornalistas: os que gostam de informação e os que gostam de dinheiro” — permanece como uma dessas sentenças que sobrevivem menos pela autoria do que pela utilidade. Atribuída, negada, nunca plenamente assumida, ela carrega o peso de um tempo em que a fronteira entre notícia e interesse era, deliberadamente, embaralhada.
Mais do que um julgamento moral sobre a imprensa, a frase revela um método. Não se trata apenas de classificar jornalistas, mas de estabelecer uma lógica de poder: a informação como mercadoria, o acesso como moeda, a influência como instrumento. Nesse terreno, o jornalismo deixa de ser mediação pública e passa a operar como engrenagem de projetos políticos.
A trajetória do personagem a quem se atribui a sentença ajuda a compreender seu alcance. Médico de formação, mas forjado politicamente no interior do regime militar, ele ascende como operador de comunicação antes mesmo de se consolidar como figura institucional. Ocupa ministério estratégico, governa um dos estados mais importantes do país, transita entre Câmara e Senado com desenvoltura — sempre orbitando o núcleo duro do poder.
Não se trata de um percurso qualquer. É o itinerário de quem entendeu cedo que controlar a narrativa é tão decisivo quanto controlar a máquina administrativa. Dossiês, vazamentos, versões plantadas — práticas que hoje se digitalizaram — já compunham, em versão analógica, um repertório sofisticado de intervenção no debate público. As célebres “pastinhas” não eram apenas arquivos: eram instrumentos.
As controvérsias que marcaram essa carreira não são desvios, mas parte do mesmo sistema. A acusação de manipulação de votações, a pecha de “pianista”, os episódios de constrangimento público — tudo isso aponta para uma concepção de política em que os meios raramente são questionados, desde que os fins sejam preservados.
É nesse ponto que o contraste se impõe. De um lado, a prática que transforma informação em ativo negociável. De outro, uma tradição de jornalismo que, mesmo sob censura, perseguição e escassez, insistiu em tratar a informação como bem público.
A morte recente de um dos representantes mais íntegros dessa tradição recoloca o problema em termos históricos. Pertencente à geração que enfrentou a ditadura não apenas com palavras, mas com estruturas alternativas de imprensa, ele ajudou a construir espaços onde a notícia não se submetia ao cálculo imediato do poder. Não por ingenuidade, mas por convicção.
É difícil imaginar que alguém com essa trajetória aceitasse com naturalidade a lógica implícita na frase. Não por desconhecer suas engrenagens — ao contrário, conhecia-as profundamente —, mas porque sabia o preço que se paga quando o jornalismo abdica de sua função crítica. Diante de fontes poderosas, especialmente aquelas cujo capital político se construiu também pela manipulação da informação, a desconfiança não era um gesto de estilo, mas uma exigência ética.
Talvez, no fim, a frase esteja incompleta. Não há apenas dois tipos de jornalistas. Há também aqueles que compreendem o jogo e, ainda assim, escolhem não jogá-lo. São esses que, em tempos de confusão deliberada entre interesse e verdade, mantêm de pé a ideia — cada vez mais rara, mas ainda indispensável — de que informar não é negociar, é esclarecer.
REPORTAGEM ESPECIAL
Poder, informação e controle: o método de Antônio Carlos Magalhães
A longa trajetória de Antônio Carlos Magalhães — o ACM — confunde-se com a própria história política recente do Brasil. Nascido em Salvador em 1927, médico de formação, construiu sua carreira a partir da União Democrática Nacional (UDN), consolidando-se como uma das figuras mais influentes da Bahia e do país.
Durante o regime instaurado após o Golpe de 1964, ACM tornou-se um operador central. Nomeado prefeito de Salvador e posteriormente governador da Bahia, atuou em estreita articulação com o poder militar. Sua ascensão prosseguiu no período democrático, quando ocupou o Ministério das Comunicações e se firmou como liderança no Congresso Nacional.
No Senado, onde exerceu a presidência entre 1997 e 2001, consolidou um estilo político marcado pela centralização e pelo controle rigoroso de aliados e adversários. A expressão “carlismo” passou a designar não apenas um grupo político, mas um modo de operar — baseado na lealdade, na força e no domínio da informação.
Seus críticos apontam que esse domínio frequentemente se apoiava em mecanismos de influência sobre a imprensa, incluindo vazamentos seletivos e produção de dossiês. Seus apoiadores, por outro lado, destacam sua capacidade de articulação e o papel desempenhado na modernização da infraestrutura baiana.
ACM faleceu em 2007, ainda no exercício do mandato de senador, deixando um legado simultaneamente reconhecido e contestado.
PERFIL
Raimundo Rodrigues Pereira: jornalismo como resistência
Nascido em Exu (PE), em 1940, Raimundo Rodrigues Pereira pertence a uma geração marcada pelo confronto direto com a ditadura. Estudante do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), foi expulso em 1964 por razões ideológicas e preso no contexto do novo regime.
Após a prisão, retomou os estudos na Universidade de São Paulo, formando-se em Física, mas foi no jornalismo que encontrou seu campo de atuação. Iniciou na imprensa técnica e alcançou veículos de grande circulação, até assumir, em 1972, a direção do semanário Opinião.
Em 1975, liderou a criação do jornal Movimento, um dos mais importantes veículos da chamada imprensa alternativa. Publicado sob censura e constante pressão, o jornal tornou-se espaço de crítica política e reflexão intelectual, resistindo até 1981.
Raimundo nunca se filiou formalmente a partidos políticos, mas sua atuação foi decisiva na construção de um jornalismo independente, comprometido com a informação como bem público — em contraste com práticas de instrumentalização da notícia.
Faleceu em 2 de maio de 2026, aos 85 anos, deixando uma trajetória marcada pela coerência e pela resistência.
NOTAS DA REDAÇÃO
🗂️ As “pastinhas” antes do digital
Antes da informatização dos arquivos, a organização de informações políticas passava por métodos físicos. No caso de figuras centrais do poder, relatos recorrentes mencionam a existência de dossiês organizados manualmente — instrumentos de pressão e negociação política.
🎙️ Jornalismo sob pressão
Durante a ditadura, veículos como Opinião e Movimento enfrentaram:
censura prévia
apreensão de edições
atentados contra bancas
processos judiciais
Ainda assim, mantiveram circulação e influência no debate público.
⚖️ Ética e poder
A tensão entre jornalismo e poder político permanece atual. A distinção entre informar e influenciar continua sendo um dos principais desafios da prática jornalística.
ANEXOS HISTÓRICOS
📌 Anexo I — Trajetória de Antônio Carlos Magalhães
Resumo biográfico com destaques:
Nascimento: 1927, Salvador (BA)
Formação: Medicina
Carreira política:
UDN (anos 1950)
Prefeito de Salvador (1967)
Governador da Bahia (1971 e 1979)
Ministro das Comunicações
Senador e presidente do Congresso
Perfil:
liderança centralizadora
forte articulação política
Falecimento: 2007
📌 Anexo II — Trajetória de Raimundo Rodrigues Pereira
Nascimento: 1940, Exu (PE)
Formação:
ITA (interrompido)
Física pela USP
Perseguição política:
prisão em 1964
detenção no DEOPS e Base Aérea
Atuação jornalística:
direção do Opinião (1972)
fundação do Movimento (1975)
Legado:
imprensa alternativa
resistência à ditadura
Falecimento: 2026
FECHO DA EDIÇÃO
Entre a frase que divide jornalistas e a prática que os define, esta edição extraordinária propõe um registro: há momentos históricos em que informar não é apenas relatar — é resistir.
E é nessa linha tênue, entre o poder e a palavra, que se inscrevem tanto os personagens quanto os conflitos aqui revisitados.
sábado, 9 de maio de 2026
O parlamentarismo inconcluso, por Marcus Pestana
Em 1988, coroamos o processo de redemocratização do país. Foi uma transição peculiar: negociada, pacífica, original e longa. A travessia percorrida iniciou-se com a Lei da Anistia, passou pela vitória de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral, culminando com as eleições diretas para presidente da República. Mas o ápice, dos dez longos anos de transição, foi a promulgação do novo texto constitucional, apelidado por Ulysses Guimarães de “Constituição Cidadã”.
O texto consolidou direitos democráticos individuais e coletivos, organizou os poderes da República, ampliou direitos sociais. Um traço inequívoco da nova Constituição é seu espírito parlamentarista. Foi previsto e realizado, em abril de 1993, o plebiscito para que a população escolhesse a forma e o sistema de governo. A República derrotou a Monarquia. O presidencialismo deu uma goleada no parlamentarismo, reafirmando a cultura política dominante no Brasil. Sobreviveu uma contradição: um sistema presidencialista coabitando com um texto constitucional de índole parlamentarista.
Passou a ser essencial para a governabilidade o presidente da República formar maioria parlamentar. Collor já havia sido afastado por falta de apoio congressual diante da explosão de denúncias de corrupção. Itamar Franco assumiu com grande solidariedade multipartidária, já que o Congresso Nacional se sentia responsável pela derrubada do primeiro presidente eleito pós redemocratização e guardava grande receio de retrocessos. FHC, eleito em 1994 e 1998, governou dentro da lógica do “presidencialismo da coalizão”, basicamente apoiado por três partidos políticos (PSDB, PMDB e PFL).
Cuidamos mal do sistema eleitoral e das regras que regem a vida partidária. Inventamos um método de escolha da representação único no mundo. Uma jabuticaba de baixa qualidade: o voto nominal proporcional, sem ancoragem territorial ou programática. O mandato é partidário, o cálculo das vagas tem lógica coletiva, mas o voto é nominal, pessoal. Não houve barreiras à excessiva pulverização da representação. A fidelidade partidária é baixa. O conteúdo ideológico é ralo. A democracia interna nos partidos é frágil. As emendas parlamentares e o financiamento público deram autonomia aos deputados e senadores. Resultado: em 2022, elegemos um presidente de esquerda e um Congresso predominantemente conservador. Consequência: na penúltima semana, o presidente colheu duas graves derrotas, deixando interrogações no ar.
Após a corrosão do “presidencialismo de coalizão”, houve diversas tentativas para contornar a desconexão entre Executivo e representação parlamentar: cooptação, confrontação, rendição. Chegamos ao “estado da arte” atual, um parlamentarismo inconcluso: um Congresso com grande poder político decisório, sem a reponsabilidade proporcional sobre a governabilidade e a boa governança.
Independente de direita, esquerda ou centro, como predomina o pragmatismo individualista, qualquer presidente terá enorme dificuldade de formar maioria estável e sólida. Vale revalorizar a escolha feita no governo Temer, que a partir do diagnóstico correto da contradição central do nosso sistema político, levou o Congresso para dentro do governo, numa experiência prática semipresidencialista, responsabilizando-o pelas escolhas a serem feitas e suas consequências.
O texto de Marcus Pestana oferece uma lente crítica para analisar a relação entre a Prefeita Margarida Salomão e o Vice-Prefeito Marcelo Detoni em Juiz de Fora. A tese central do autor é que vivemos um "parlamentarismo inconcluso", onde o Executivo precisa ceder poder real ao Legislativo e a parceiros políticos para garantir estabilidade.Abaixo, os pontos de conexão entre o artigo e a realidade política local de Juiz de Fora:
1. A Necessidade da Coalizão
Pestana argumenta que o presidencialismo brasileiro exige a formação de maiorias estáveis.
Aplicação Local: Margarida Salomão (PT), vinda de um campo de esquerda, escolheu Marcelo Detoni (PSB), um empresário com perfil moderado e trânsito no setor produtivo.
Objetivo: Essa aliança replica a lógica do "presidencialismo de coalizão" no nível municipal, visando evitar a paralisia do governo perante uma Câmara Municipal plural e pragmática.
2. O Vice como Articulador (Semipresidencialismo Prático)
O autor menciona a experiência do governo Temer de "levar o Congresso para dentro do governo".
Aplicação Local: Detoni não ocupa apenas um cargo figurativo. Ele atua como o braço de articulação política.
Função: Ao delegar ao vice a interlocução com vereadores e setores econômicos, a prefeita aplica o conceito de "responsabilização compartilhada" citado no texto, tentando mitigar o "pragmatismo individualista" dos parlamentares locais.
3. A Contradição do Sistema Eleitoral
Pestana critica a "jabuticaba" do voto proporcional sem ancoragem programática, que gera fragmentação.
Conexão: Em Juiz de Fora, a fragmentação da Câmara exige que a parceria entre Prefeita e Vice seja o sustentáculo da governabilidade. Sem a figura mediadora de um vice bem aceito por diferentes espectros (como é o caso de Detoni), a prefeita teria a "enorme dificuldade de formar maioria estável" mencionada por Pestana.
4. Gestão de Crises e Derrotas
O texto aponta que o Executivo tem sofrido derrotas graves quando há desconexão com a representação parlamentar.
O papel do Vice: Em Juiz de Fora, a função política de Detoni é justamente evitar essas "interrogações no ar". Ele atua para que o projeto do Executivo não seja barrado pela falta de "responsabilidade proporcional" do Legislativo sobre a boa governança.
📌 Resumo da Análise:Para Pestana, o sistema atual é disfuncional sem uma cooperação profunda. No caso de Juiz de Fora, a parceria Margarida-Detoni é a tentativa prática de resolver a "contradição central" do sistema político brasileiro: unir a legitimidade do voto majoritário (Prefeita) com a necessidade de pacificação e negociação constante com o poder decisório dos representantes locais (papel do Vice).
"Senoide de Juiz de Fora do mirante: no meio do caminho havia os trilhos e, às suas margens, a sede da Prefeitura."
Abaixo, o fragmento transfigurado pelo estilo memorialista de Pedro Nava, fundindo o detalhe topográfico à vertigem do tempo:
Daquela escarpa de vento e névoa — o mirante onde a cidade se entrega como um corpo em decúbito — a vista não apenas alcança; ela padece a geografia. Juiz de Fora desenhava-se ali sob a geometria de uma senoide obsessiva, uma ondulação de telhados e ladeiras que subiam e desciam no ritmo de uma respiração asmática de província.
No centro dessa sístole e diástole urbana, o vulto de ferro: os trilhos. Havia, sim, no meio do caminho, essa cicatriz metálica, o rastro frio da Central do Brasil cortando a carne da terra com a indiferença de um destino grego. E plantada ali, na beira desse abismo horizontal onde o trem range sua liturgia de fumaça, erguia-se a Sede da Prefeitura. Monumento de burocracia e pedra, vigiando as margens do trilho como se o poder político buscasse, no aço das locomotivas, a mesma rigidez cega do tempo que passa, apita e não retorna. Era o encontro do efêmero ferroviário com a solidez fingida do Paço, ambos banhados pela luz melancólica de uma Minas que se sonha industrial enquanto se perde em lembranças.
domingo, 10 de maio de 2026
Dinheiro, direito e política, por Pedro S. Malan
O Estado de S. Paulo
Toda sociedade produz hierarquias, desigualdades e conflitos de razão e interesse. Mas democracias dignas deste nome procuram combater excessos
A oligarquia dos Poderes e a crise da democracia é o título do livro de Joaquim Falcão, prestes a ser publicado. Foi Falcão quem me presenteou, anos atrás, com How Democratic is the American Constitution?, livro de Robert Dahl, um dos mais influentes cientistas políticos norte-americanos no século 20, falecido em 2014. Nessa obra, Dahl formula uma pergunta que considera tão relevante quanto assustadora: “Será que os Poderes constitucionais dos Estados, do governo federal e dos três ramos principais deste último são apropriados para as nossas necessidades e valores democráticos de hoje?”
Dahl lembra que direitos implicam deveres e também oportunidades: o que significaria liberdade de expressão se não houvesse oportunidade de se manifestar livremente? E acrescenta um quarto elemento: os recursos para o exercício de direitos e oportunidades (e deveres), cujo caráter indispensável o autor ilustra ao auxílio de cenário ficcional.
Trata-se de uma reunião com alto número de participantes e que deve alcançar importante decisão. O moderador anuncia que, para assegurar a todos a liberdade de expressão, o uso da palavra estaria limitado a dois minutos. Até aí tudo parece razoável. Deixa de sê-lo quando acrescenta: “Depois que todos que quiserem falar tiverem exercido esse direito, cada minuto adicional será leiloado para quem der o lance mais alto”. A grita dos cidadãos reunidos seria imediata e contundente. Mas prossegue Dahl: “No entanto, essa foi a decisão da Corte Suprema dos EUA no famoso caso Buckley versus Valeo (1976).” A Corte decidiu que a garantia de liberdade de expressão da Primeira Emenda da Constituição dos EUA restava violada pela legislação eleitoral por força da imposição de limites de gastos a candidatos ou seus simpatizantes. Gastar dinheiro para difundir mensagens políticas constitui, no entendimento da Corte, forma de expressão protegida pela Constituição. Tendo reconhecido a complexidade da discussão, Dahl conclui que “existem falhas profundas numa constituição se a mais alta corte judiciária do país pode interpretá-la de modo a impor barreira intransponível à obtenção de grau satisfatório de igualdade política entre seus cidadãos”.
Passadas duas décadas dessa pertinente reflexão, o aumento expressivo da concentração de riqueza observado desde então tornou ainda mais relevante e oportuna a preocupação com o poder do dinheiro nas eleições. Em particular, por meio dos chamados super PACs (“political action committees”), que não podem doar diretamente a campanhas, mas podem gastar sem limites em propaganda política (nas redes sociais, internet, televisão) e que constituem o veículo por excelência de apoio financeiro de megadoadores.
Em janeiro de 1961, em seu pronunciamento de despedida da Presidência dos EUA, Dwight Eisenhower utilizou publicamente pela primeira vez a expressão “Complexo Industrial Militar”. No discurso, alertou para o crescente poder da aliança entre as Forças Armadas, a indústria de armamentos e interesses políticos associados. A expressão teve enorme repercussão à época porque Eisenhower havia sido presidente por dois mandatos e comandante supremo das forças aliadas na Europa. Não lhe faltavam, portanto, credenciais para alertar contra o risco de pressão pela agudização de conflitos, levando a um estado permanente de mobilização para a guerra.
Nos dias atuais, a expressão mais apropriada talvez fosse “complexo digital-industrial-militar”, dado o peso crescente das grandes empresas de tecnologia e o inexorável uso da inteligência artificial na indústria de armamentos. A propósito, Trump encaminhou ao Congresso norte-americano pedido de aumento do orçamento de Defesa para US$ 1,5 trilhão no ano fiscal que começa em 1.º de setembro deste ano. O orçamento para o ano fiscal 2025/2026 já havia sido 20% maior do que o do ano anterior. Estamos no quarto ano da guerra na Ucrânia. Estamos também no terceiro mês da guerra no Oriente Médio, e sem perspectiva de solução duradoura à vista.
Exatos cem anos atrás, Whitehead escreveu: “It is the business of the future to be dangerous.” A continuação dessa frase é igualmente importante: “And it is among the merits of science to equip the future for its duties” (e está dentre os méritos da ciência o de equipar o futuro para suas tarefas). A tecnologia pode prestar enormes serviços para o progresso da humanidade nas áreas de saúde, educação, energia, clima e meio ambiente, mas também, infelizmente, para a violência e o conflito. E, se é verdade que a guerra, a violência e o conflito têm um longo passado, também é verdade que parecem ter um longo futuro.
Toda sociedade produz hierarquias, desigualdades e conflitos de razão e interesse. Mas democracias dignas deste nome procuram combater excessos de velhas e novas formas de desigualdades, conter inclinações autoritárias e lidar com conflitos sem recurso à violência ou apelos a pretensos “salvadores da pátria”. A exemplo da obra de Dahl, o livro de Falcão também faz perguntas assustadoras que têm relevância e importância, e avalia como estamos nesse processo no Brasil de hoje.
Mães, feliz dia! •
domingo, 10 de maio de 2026
O conto noir, o detetive durão, os negócios da política e o caso Master, por Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense
O avanço das apurações do caso Master produzirá reações políticas cada vez mais intensas. Ciro Nogueira não é um parlamentar periférico. É um dos líderes mais influentes do Centrão
“Pelas ruas vis deve passar um homem que não seja ele próprio vil, que não esteja maculado nem tenha medo. O detetive, nessa espécie de história, deve ser esse homem. Ele é o herói; ele é tudo. Deve ser um homem completo, um homem comum e, contudo, um homem incomum. Deve ser, para usar uma frase já bastante gasta, um homem de honra — por instinto, inevitavelmente, sem pensar nisso, e certamente sem dizê-lo. Deve ser o melhor homem de seu mundo e suficientemente bom para qualquer mundo.”
Essa passagem do ensaio literário A simples arte de matar (“The Simple Art of Murder”), de Raymond Chandler (LPM), é a melhor definição do herói noir dos romances policiais norte-americanos. O homem solitário, moralmente íntegro, mas mergulhado num mundo corrompido, no qual a fronteira entre crime e legalidade se tornou nebulosa. O herói atravessa uma sociedade decadente sem ilusões sobre justiça ou pureza como um Ulysses da sarjeta.
Essa é a ética noir. O herói não é um vencedor clássico nem um justiceiro absoluto. Ele vive cercado por corrupção, violência, políticos venais, policiais vendidos e milionários decadentes, mas preserva um código moral próprio. Sua integridade nasce da escolha pessoal e não das instituições. Sabe que não salvará o mundo. Sua função é apenas resistir à degradação sem se tornar parte dela.
O ensaio de Chandler foi um manifesto literário e moral e, ao mesmo tempo, a defesa do romance noir norte-americano como forma moderna de representação da sociedade urbana, corrupta e violenta do século XX. Expulsos de Hollywood pelo macartismo, antogos roteiristas, seus criadores transformaram o romance policial em literatura de crítica social.
Chandler considerava os enigmas dos autores policiais clássicos distantes da experiência real da violência. “O assassinato, que na realidade é uma tragédia, tornou-se uma espécie de jogo de salão”. O crime não é um quebra-cabeça abstrato. Em sua visão, a literatura policial precisava reencontrar o mundo concreto: ruas sujas, corrupção policial, chantagem, medo, desigualdade e decadência moral.
O assassinato não podia ser apenas um truque lógico; deveria revelar a própria estrutura da sociedade moderna. Em vez de lordes envenenados em mansões, surgem gângsteres, políticos corruptos, policiais vendidos, empresários inescrupulosos e mulheres fatais. O crime deixa de ser exceção e passa a integrar o funcionamento cotidiano da ordem social. Vira uma patologia, na definição clássica do antropólogo e sociólogo Émile Durkheim.
O detetive não é um herói triunfante, mas a consciência moral solitária num universo decadente. A literatura noir fez a crítica cultural da sociedade americana do pós-guerra. A expansão do capitalismo urbano, a corrupção institucional e a mercantilização das relações humanas criaram um ambiente em que a violência foi banalizada.
O novo patamar
As histórias ocorrem nas zonas cinzentas entre legalidade e crime, porque as instituições formais já não são plenamente confiáveis. Chandler mostra que o verdadeiro mistério não está apenas em descobrir quem matou, mas em compreender por que uma sociedade produz continuamente violência, cinismo e corrupção. Seu ensaio permanece como uma das reflexões mais sofisticadas já escritas sobre crime, literatura e modernidade.
Com todos os seus ingredientes, o caso Master dispensa a ficção de um romance policial noir. Banqueiros, executivos, políticos, magistrados, o cadáver de um suicida numa cela da PF. Uma história na qual a corrupção, mais do que naturalizada, é institucionalizada. A nova ação da Polícia Federal, o que há de mais competente e íntegro no sistema de segurança, foi autorizada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça. Seu foco são as relações entre o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e o banqueiro Daniel Vorcaro, o dono do banco Master, cujas revelações elevaram as investigações a um novo patamar.
Ao alcançar Nogueira, um dos principais articuladores do Centrão e figura estratégica da oposição ao governo Lula, a Polícia Federal ingressa numa zona sensível, na qual qualquer passo em falso pode comprometer não apenas o destino do inquérito, mas também a credibilidade das instituições encarregadas de conduzi-lo. A proximidade entre Ciro Nogueira e o banqueiro Daniel Vorcaro já era conhecida nos bastidores de Brasília. Há outros políticos e magistrados no vasto círculo de amizade e, digamos, relações institucionais do banqueiro.
Pagamentos mensais, aquisição de participação societária com deságio expressivo, custeio de viagens internacionais e suposta elaboração de emenda constitucional pelo próprio banco são indícios de atividades criminosas, mas quem acompanha os bastidores da política sabe que esse modus operandi da “política como negócios” predomina no Congresso e contaminou o Judiciário. Quem quiser que atire a primeira pedra. O que espanta mais é a escala. O avanço das apurações produzirá reações políticas cada vez mais intensas.
Ciro Nogueira não é um parlamentar periférico. Trata-se de um dos líderes mais influentes do Centrão, ex-ministro da Casa Civil do governo Bolsonaro, presidente nacional do PP e peça-chave na articulação do conservadorismo brasileiro. Qualquer movimento contra ele terá repercussões no Congresso, nas alianças eleitorais de 2026 e nas relações entre a PF e o Supremo Tribunal Federal (STF). Circunscrever o caso ao escândalo financeiro é a receita pronta para o inquérito virar uma pizza napolitana. Restará a literatura policial para um dia recontar essa história ao estilo noir.
Aqui vai um resumo claro e direto do texto:
🧠 Ideia central
O artigo usa o conceito do romance noir — especialmente o ensaio The Simple Art of Murder de Raymond Chandler — como metáfora para analisar o chamado “caso Master” na política brasileira.
🕵️♂️ A metáfora do noir
O noir retrata um mundo corrupto, violento e moralmente ambíguo.
O herói é um detetive solitário, com um código moral próprio, que não consegue mudar o sistema — apenas resistir a ele.
Para Chandler, o crime não é exceção, mas parte da estrutura da sociedade moderna (ideia próxima à visão de Émile Durkheim sobre o crime como fenômeno social).
👉 O autor sugere que essa lógica se aplica ao cenário político atual.
🏛️ O “caso Master”
Envolve investigações da Polícia Federal autorizadas pelo ministro André Mendonça.
Apura relações entre:
Ciro Nogueira (senador influente do Centrão)
Daniel Vorcaro (ligado ao banco Master)
Há suspeitas como:
pagamentos mensais
vantagens financeiras
relações políticas e empresariais próximas
⚖️ Interpretação do autor
O texto argumenta que:
A política brasileira funciona, em parte, como um sistema onde negócios e poder se misturam.
A corrupção não aparece como exceção, mas como algo estrutural e disseminado.
O caso pode gerar forte impacto político, pois envolve um líder importante do Congresso.
🔥 Risco institucional
Investigações envolvendo figuras centrais como Ciro Nogueira podem:
afetar alianças políticas
influenciar eleições futuras
tensionar relações entre instituições (PF, STF, Congresso)
Há o risco de o caso:
ser reduzido a um escândalo financeiro
ou acabar sem consequências (“virar pizza”)
🎭 Conclusão do texto
O autor sugere que a realidade política brasileira se aproxima de um romance noir:
cheia de zonas cinzentas
com corrupção disseminada
e sem heróis claros
👉 Se a verdade não for totalmente esclarecida, talvez reste apenas a literatura para contar essa história no futuro.
Se quiser,
COMO EXPLICAR A BAIXA APROVAÇÃO DO GOVERNO LULA III? | Análise de Breno e Tom Altman
Opera Mundi
Transmitido ao vivo em 3 de mai. de 2026 #GovernoLula #OpiniãoPolítica #AprovaçãoGoverno
COMO EXPLICAR A BAIXA APROVAÇÃO DO GOVERNO LULA III? | Análise de Breno e Tom Altman
00:00:00 - Abertura
00:02:50 - Devemos levar as pesquisas de opinião a sério
00:05:38 - A Culpa dos números ruins não é do povo
00:07:35 - Hipóteses para a desconexão entre os números da economia e a popularidade do governo
00:11:00 - O espírito anti-sistema dificulta o gradualismo do Gov. Lula III
00:15:01 - O método do gradualismo e o exemplo do 6x1
00:16:35 - Outros métodos possíveis para um governo com minoria no parlamento
00:18:35 - Não há percepção de desenvolvimento e de futuro
00:22:10 - O arcabouço fiscal e a taxa de juros
00:28:06 - Lula III esperava que o capital privado levasse ao desenvolvimento
00:29:54 - Os episódios econômicos que mancharam a imagem do Lula III
00:31:35 - O governo não tem projeto de desenvolvimento estrutural
00:35:55 - O lado negativo dos números positivos da economia
00:40:50 - A esquerda virou sistema?
00:49:10 - A fragilidade da frente ampla
00:51:40 - A comunicação do governo pode mobilizar a opinião pública?
00:55:20 - O governo consegue virar à esquerda?
01:02:02 - O Centrão sequestoru Lula
01:06:15 - É possível um congresso à esquerda em 2026
01:08:30 - A juventude não aprova o gradualismo de Lula
01:12:00 - Celebrar as conquistas não basta, é preciso avanços
01:16:14 - O desemprego da juventude e os avanços da direita
01:19:20 - A esquerda precida voltar a falar em socialismo
01:26:34 - Perguntas do público
01:58:15 - Encerramento
Se a economia vai bem, por que a popularidade do governo Lula III não acompanha? Essa é a pergunta que está no ar — e que muita gente evita encarar de frente. Afinal, os números parecem contar uma história positiva: crescimento econômico, inflação sob controle, real valorizado frente ao dólar, desemprego em queda histórica e salários avançando acima dos preços. O Brasil, inclusive, voltou a sair do mapa da fome. E tem mais: isenção de imposto de renda para quem ganha até cinco mil reais, programas sociais retomados, iniciativas como o Pé-de-Meia ganhando corpo. No papel, o cenário é positivo. Mas, então, por que o sentimento popular parece caminhar na direção oposta? Por que, mesmo com indicadores favoráveis, o descontentamento é grande e as pesquisas mostram mais reprovação do que aprovação? Estamos diante de uma má política de comunicação? A ideologia e a religião passaram a pesar mais que o bolso? As fake news dominam o jogo? Fatos pontuais distorcem a percepção geral? Ou será que os números escondem uma realidade mais complexa, que não cabe nas planilhas? Neste episódio do “Análise com Breno Altman”, apresentado por Tom Altman, vamos tentar entender esse enigma.
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