Inspirados já nos ensinamentos de Sófocles, aqui, procurar-se-á a conexão, pelo conhecimento, entre o velho e o novo, com seus conflitos.
As pistas perseguidas, de modos específicos, continuarão a ser aquelas pavimentadas pelo grego do período clássico (séculos VI e V a.C).
AO VIVO: O BRASIL PERDEU A VERGONHA? | WW ESPECIALCNN BrasilTransmissão iniciada há 57 minutos WW — Programas na íntegraAssista AO VIVO ao WW Especial deste domingo, 6 de setembro de 2026. #CNNBrasilParticipam deste episódio Eduardo Giannetti, economista, cientista social e escritor, Oscar Vilhena Vieira, jurista e professor da FGV Direito de SP, e Mario Sabino, jornalista e escritor. Manhattan Connection 06/09/2026 | com Augusto CuryEu Não Tenho Onde MorarDorival Caymmi
"A fotografia é um fragmento congelado que se recusa a envelhecer sozinho; mas a verdade de uma vida exige o mergulho na nuance, para além da superfície das lentes."— D H
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O avesso do portão
Por D H — Folha de Santana
A pressa dos algoritmos reconstrói o passado com a tinta grossa do veredicto sumário
O que resta de um homem quando sua biografia é reduzida a um pixel capturado há cinquenta anos? A fotografia, por natureza, é um fragmento congelado que se recusa a envelhecer sozinho. Quando a imagem daquela fachada na Rua Santana, no bairro Santa Terezinha, foi arremessada no turbilhão das redes sociais, o veredicto veio com a velocidade instantânea dos tribunais digitais. Para a horda de perfis automatizados e indignações sob encomenda, o número 40 abrigava apenas um monstro. A suástica pintada no portão de madeira em junho de 1973 tornou-se o resumo definitivo, sem direito a recurso ou nota de rodapé, de uma existência inteira. É a pedagogia do cancelamento retrospectivo: pega-se o pior símbolo da história da humanidade e cola-se na testa de um morto que já não pode erguer a voz para explicar o avesso de sua própria calçada.
Se a história dependesse apenas da superfície das lentes, estaríamos todos condenados ao erro. O jornalismo de fôlego e a memória afetiva dos que ficaram, no entanto, exigem o mergulho na nuance. Quem de fato cruzou aquela rua na Juiz de Fora dos anos 1970 conheceu o avesso do portão. Ali morava o Seu Filinho. Não um ideólogo do horror, mas um modesto técnico em eletrônica, criado e estimado pelos vizinhos. Um homem cujo único e obsessivo hobby era passar madrugadas em claro debruçado sobre a mecânica delicada de rádios de válvulas. Num tempo de chumbo, sob o silêncio vigiado e a censura imposta a partir do golpe de 1964, Filinho ligava seus aparelhos em "alta altura". Suas ondas curtas traziam o eco de transmissões estrangeiras e relíquias europeias para dentro de um bairro pacato. A pintura infame, vista de perto, era a excentricidade analógica de um sujeito solitário e fascinado por frequências distantes. O bairro, que conhecia o homem por trás do pincel, recolheu a intolerância e preservou o afeto.
O texto de Emmanuel e a ironia fina de Noel Rosa — que já questionava onde estava a honestidade dos salões que promovem festivais de caridade enquanto varrem a humanidade para debaixo do tapete — convergem no mesmo diagnóstico: a incapacidade humana de digerir a verdade em sua totalidade. Preferimos o rótulo mastigado porque a complexidade dá trabalho. Ao transformarmos o Seu Filinho em um espantalho ideológico, limpamos nossa própria consciência digital, mas desertificamos nossa alma.
Dias depois, o olhar da caridade e o testemunho oral de seus antigos vizinhos devolveram ao Seu Filinho o direito à sua própria e contraditória humanidade. A memória, quando resgatada com rigor e empatia, sobrevive aos bots. Assim se faz.
Use o código com cuidado.
“Toda longa caminhada constitucionalista recomeça, necessariamente, pelo redespertar de suas minorias ativas.”
O Dia Seguinte da Sociedade Civil
Por P F D N
Passado o ruído retórico e estético do Sete de Setembro — data em que o eleitorado oscila entre a exasperação maniqueísta das redes e o amoldamento passivo ao cardápio que lhe conferem —, o dia oito exige decantar o que resta de real na estrutura poliárquica do país.
Se em 1889 o nascimento da República prescindiu do povo, legando-nos a crônica de uma massa bestializada que assistia ao Estado como quem fita uma parada militar, o constitucionalismo moderno aprendeu que a vitalidade de um regime não emerge da pureza das massas, mas da densidade de sua sociedade civil.
Foi a recusa das minorias ativas em aceitar o simulacro jurídico de 1967 que demonstrou, outrora, que o país havia superado o alheamento do século XIX; ali, corporações, juristas e universidades sabiam exatamente a dimensão dos direitos que lhes eram suprimidos.
O drama contemporâneo, contudo, não reside na ignorância fundacional de 1889, tampouco na violência impositiva de 1967, mas no preocupante recesso político de nossa malha associativa.
Após o concerto cívico que garantiu as balizas de 2022, parte expressiva dessas elites intermediárias recolheu-se aos próprios umbigos, tragada pelo silêncio obsequioso ou anestesiada pelo clientelismo estatal.
Imaginou-se, por ingenuidade ou conveniência, que a preservação da Carta de 88 seria obra instantânea das instituições de Brasília, esquecendo-se de que a lei natural da burocracia estatal é a inércia e a autoproteção.
Quando a grande mídia, as universidades e as entidades de classe se omitem, o vácuo é prontamente ocupado por simulacros enfermos de elite política ou por salteadores do mercado, arrastando o Supremo Tribunal Federal e o Parlamento para crises sem precedentes.
Qualquer distensão desse pântano político terá de ser incremental, parcial e, fundamentalmente, de fora para dentro.
Não se trata de buscar soluções ideais ou quimeras éticas contra o interesse dos que mandam, mas de reativar os canais de diálogo da sociedade civil para agregar novos interesses à cena.
O recado do dia seguinte à independência é cético, mas obstinado: a travessia contra a hiperpolarização exige que as contra-elites profissionais, docentes e civis abandonem seus recolhimentos e disputem a gramática do sistema.
Se o cobertor institucional é curto e conviveremos inevitavelmente com quaresmas pregadas por mistificadores, que ao menos a sociedade civil se recuse a assistir a esse deserto moral em estado de bestialização.
Toda longa caminhada constitucionalista recomeça, necessariamente, pelo redespertar de suas minorias ativas.
A Geometria do Esquecimento na Rua Santana
Por P F D N
No dia seguinte às grandes celebrações institucionais, quando o calor das praças dá lugar à poeira rotineira das calçadas, a verdadeira história de uma cidade não se revela nas atas das assembleias, mas nas fachadas que a burocracia do Estado decidiu ignorar. Aqueles que observam a trajetória poliárquica do Brasil a partir de arranjos de cúpula perdem a fina sutileza da micro-história urbana — aquela que transcorria silenciosa nas franjas operárias de Juiz de Fora, mais precisamente na Rua Santana, no bairro Santa Terezinha, onde um portão de ferro ostentou, por longos anos do pós-1964, a geometria berrante e incômoda de uma suástica nazista colorida.
Para o observador ingênuo, refém do maniqueísmo que hoje coloniza o debate público, a permanência daquele símbolo totalitário em plena via pública durante o auge do regime militar pareceria um paradoxo insolúvel. Contudo, o historiador rigoroso das instituições compreende que o silêncio que cercava a oficina do técnico eletrônico e projetor de filmes — o "Filhinho", figura saída das brumas de uma tapera alta daquela infância que não volta mais — era o resultado de uma refinada engenharia de sobrevivência e conveniência social. Enquanto o aparato repressor do Estado gastava suas energias na caça obsessiva às minorias ativas da esquerda operária e estudantil, o anacronismo da extrema-direita merecia das elites locais uma "vista grossa" e obsequiosa, herdeira direta das simpatias integralistas que outrora perfumaram os salões da Manchester Mineira nas décadas de 1930 e 1940.
A reação da sociedade civil circundante, por sua vez, distanciou-se tanto do heroísmo cívico quanto da cumplicidade ideológica. Operou-se ali o clássico mecanismo de defesa da folclorização: ao carimbar o artesão dos rolos de película e das válvulas de rádio como um sujeito exótico, "folclórico" ou acometido por desequilíbrios da alma, a vizinhança despolitizava o horror. O diagnóstico popular funcionava como um salvo-conduto urbano; transformado em "maluco de bairro", o homem podia reter seu símbolo sem que a vizinhança precisasse confrontar a barbárie que ele evocava, operando uma amnésia tática necessária para que o cotidiano da Rua Santana seguisse seu curso subótimo.
O desfecho daquele portão, contudo, guarda a melancolia típica das coisas que não necessitam de tribunal para acabar. A suástica colorida da Rua Santana não foi removida por um decreto judicial ou por um protesto de praça; ela se extinguiu pelo método incremental da intempérie, descascando sob o sol e lavada pelas chuvas até se dissolver de per si. Foi engolida pelo mesmo crepúsculo que levou embora os projetores de cinema de bairro e as oficinas de eletrônica valvulada. O "Filhinho" e sua heresia estética desapareceram na poeira de uma Juiz de Fora manufatureira que o tempo desidratou, provando que, no Brasil, o esquecimento biológico costuma ser o mais eficaz — e o mais cínico — dos pacificadores sociais. A infância e a tapera alta não voltam mais; resta-nos apenas a crônica da ferrugem que limpa o que a sociedade civil preferiu não enxergar.
CríticaCyro Aguiar
Legenda: A canção Crítica, de Cyro Aguiar, acrescenta uma chave musical à crônica: fala do desgaste provocado pela crítica permanente, da solidão que ela produz e da necessidade de afastamento diante de um ambiente dominado pela reclamação. No contexto desta narrativa, a música ressoa como contraponto àquilo que a sociedade preferiu não enxergar — e, depois, simplesmente deixou que o tempo apagasse.
Legenda: Há uma espécie de ironia melancólica em encerrar esta memória com Crítica, de Cyro Aguiar: a canção fala do cansaço diante de quem só sabe apontar defeitos e reclamar, enquanto a crônica trata justamente de outra forma de silêncio — aquele que nasce quando uma comunidade escolhe não ver. Entre a crítica que incomoda e o esquecimento que apaga, permanece a pergunta sobre o que uma sociedade prefere enfrentar e o que prefere deixar enferrujar.
A segunda versão combina melhor com o tom memorialístico e ensaístico da crônica. O link direciona para a gravação ao vivo de Cyro Aguiar disponível no YouTube.
Também confirmei que “Crítica” é composição de Cyro Aguiar e aparece associada ao álbum Crítica, de 1975.
domingo, 6 de setembro de 2026
Toda caminhada começa pelo primeiro passo, por Paulo Fábio Dantas Neto*
Foi divulgada ontem, dia 04.09, pela Transparência Internacional, uma nota pública intitulada "O Brasil precisa neutralizar as ameaças às suas instituições e ao seu regime democrático", em cujo primeiro parágrafo lê-se:
“Um juiz constitucional cercado por gravíssimos indícios de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e obstrução de justiça já representa, por si só, um risco institucional em razão da natureza de suas condutas. Mas torna-se um elemento ainda mais desestabilizador pelas medidas que pode adotar em busca da impunidade. É nisso que o ministro Alexandre de Moraes se transformou diante das revelações que apontam para suas condutas com Daniel Vorcaro e, sobretudo, diante de sua retaliação autoritária, colocando o Supremo Tribunal Federal no caminho de uma crise institucional sem precedentes”.
Claro que não se pode recepcionar um texto de um movimento global monotemático, como é o Transparência Internacional - para o qual o combate à corrupção é fundamental a ponto de pretender erradicá-la - como se fosse um texto plenamente político. Seu posicionamento é assumidamente concentrado na dimensão institucional e é, desse modo, distinto e muitas vezes vai mesmo na contramão do que se deve esperar de algum ator político relevante, obrigado a olhar simultaneamente para várias direções, sem aderir à ideia de que a corrupção seja o único ou o principal problema do país.
A organização autora da nota não se distingue, portanto, por aquele saber prático característico da grande política, que combina a afirmação de princípios com a responsabilidade de encontrar e apontar soluções pacíficas e exequíveis para situações políticas complexas. É um movimento cuja missão é atingir meta situada no plano do ideal, mas nem por isso seu trabalho deve ser visto como diletante.
O serviço que presta à sociedade e à própria política é importante na medida em que tenta contribuir para a diminuição do fosso entre ética pública e prática política e mesmo quando esse fosso não diminui e as rotinas imprudentes prevalecem, movimentos como esse oferecem um alerta realista, em momentos críticos, sobre a direção que as coisas estão tomando. É o que essa nota pública faz ao enfatizar os sinais preocupantes emitidos pelos passos dados já há longo tempo, pelo ministro citado.
É posicionamento de um movimento respeitável e merece consideração, ainda que se saiba que qualquer solução da crise que ele corretamente aponta será parcial, não será instantânea e só poderá vir das pessoas de carne e osso que estão à frente das instituições. Tentarei destrinchar esses três pontos.
Terá que ser parcial porque realmente está claro não se tratar de problema localizado, pois vasos comunicantes contaminam mutuamente as instituições. Daí o senso comum achar que só caberia uma "faxina geral" e como a realidade mostra que ela é impossível, a ideia fica só como desejo frustrado e
gera perplexidade (de impotentes e/ou apáticos), desilusão (de traídos e/ou cínicos) e ódio (de ressentidos e/ou bélicos). É preciso ser realista e compreender que soluções parciais começarão permitindo (ou não impedindo) que haja vencedores parciais inidôneos, isto é, o cobertor é curto para proteger todas as instituições ao mesmo tempo e sempre haverá algum satanás pregando quaresma e sendo bem sucedido, cantando de galo, ao menos enquanto um movimento incipiente de mudança estiver longe do seu terreiro.
Uma mudança positiva no ambiente político terá que ser incremental e as soluções não instantâneas, primeiro porque é impossível mudar em pouco tempo o que está sendo cevado há décadas e deitou raízes em toda parte. Segundo, porque não podemos brigar com o tempo. É preciso tê-lo como aliado. Por exemplo, precificar essa eleição como um momento (quase) perdido porque desse deserto não parece que vá sair nada em que valha a pena apostar. Isso não quer dizer que devamos ignorar as eleições, nem deixar de escolher candidatos, mas ter uma saudável consciência cética de que o cardápio oferecido é uma dieta áspera e, pior: não indica remédio para moléstia alguma. Dele não sairá nada além do alimento necessário para o corpo de cidadãos não morrer. Comer com apetite zero não deve ser visto como atitude problemática, mas como decisão prudente de quem sabe que o vazio político é muito mais fundo.
Se a demora de soluções é inevitável, assim como a convivência com algum mistificador ou tartufo bem sucedido, então é preciso cuidar que nenhum triunfo seja definitivo e que o processo, uma vez iniciado, siga na direção da mudança, embora provavelmente em ritmo lento, irregular, incluindo retrocessos.
Para isso, precisará surgir um núcleo de elite política que enxergue mais longe e não se deixe engolfar pelo imediato. A impressão de que essa elite não existe é lúcida e não é arbitrária. Corresponde a um fato. Essa elite não existe mesmo, enquanto corpo. Seus possíveis componentes vagam como se fossem ainda fetos ou como almas penadas. Estão pulverizados e pouco visíveis, porque o sarrafo da competição plebiscitária os exclui ou limita seriamente. Precisam ser localizados e estimulados a se agregar. Quem pode fazer esse reconhecimento e produzir esse estímulo? Chegamos ao terceiro ponto.
As pessoas de carne e osso que estão à frente das instituições não se moverão a partir do seu próprio eixo porque a "lei natural" do seu movimento é a inércia. Sua racionalidade (mesmo no caso de quem não é corrupto, nem despótico, nem perverso) aponta-lhes a atitude de preservação, filha do interesse de manter-se ali. O que fazer? "Denunciar" o interesse, considerá-lo um pecado e sonhar com uma elite desinteressada? Eu não apostaria na possibilidade dessa elite vir a existir.
Todo e qualquer sistema político é conservador por natureza. A democracia política é um sistema e como tal não foge a essa regra. O que a distingue (e a faz ser superior, aos olhos dos democratas) é ser um tipo de sistema em que a mudança é mais possível do que em qualquer outro, porque em vez de uma elite existem várias, elites e contra-elites de variados tipos, disputando esse poder. Aquelas que não o alcançam podem vir a alcançá-lo um dia e mesmo que não o alcancem nunca, poderão sempre influir sobre decisões. Isso só é possível num sistema poliárquico porque nele o governo é limitado e não soberano. Mesmo longe da perfeição (que, como se sabe, não existe) ele é o melhor dos artefatos subótimos inventados até aqui.
Algumas pessoas, por demagogia ou ingenuidade, abominam "as elites" (política, econômica, militar, cultural, etc...) e imaginam uma sociedade que possa ser governada sem elas. Estamos tendo, no Brasil de hoje (no qual a elite política é um simulacro enfermo e as demais recuaram da cena, omitindo-se por despreparo, timidez ou conveniência, inclusive a elite econômica, hoje sucateada por bandos de salteadores da marca de Vorcaro), um spoiler do que pode acontecer se o mal for irreversível e passar da precariedade à total ausência de elites.
Se para evitar o desgoverno falta uma elite política que faça jus a esse nome; e se a inércia do sistema tende a reproduzi-la como é, trata-se de uma encruzilhada. Qualquer mudança relevante, mesmo parcial e incremental, só poderá vir (se vier) de fora para dentro. Mas de onde?
Afasto do pensamento a demagogia ou a ingenuidade de imaginar que venha diretamente do "povo", essa entidade soberana para decidir quem governa, mas que não pode governar ela mesma. O eleitorado, no Brasil ou noutra democracia qualquer, manifesta-se diante de um cardápio e fora daí protesta ou se amolda ao que recebe, às vezes exaspera-se, impede certas políticas que o contrariam e vive julgando os políticos em geral e os governantes em particular com o maniqueísmo que ganhou asas nas redes sociais. São esses os seus poderes. Produzir e concretizar governos não está entre eles.
Coisa diferente dá-se (ou pode dar-se) no ambiente que chamamos, por costume, de sociedade civil. Chamamos assim, muitas vezes sem refletir sobre o que ela é e como está se comportando.
A "sociedade civil" distingue-se do eleitorado dentre outras coisas porque pode influir, também, fora da arena eleitoral. Ela existe, é relevante, mas não é uma coisa só. Produz elites de distintos contornos sociais. Há elites nos andares de cima e de baixo da sociedade de mercado (grande mídia incluída), elites patronais, trabalhistas e congêneres, atuando nos respectivos sindicatos e associações. Há as elites (ou "minorias ativas") de movimentos sociais antigos e novos (estudantil, de docentes, de profissionais de vários tipos) e também de ativistas de direitos humanos, direitos civis, ambientalistas, pacifistas, antirracistas, de gênero, etc..). E há elites nas corporações, as da "mídia" (em sua dimensão cultural), as das igrejas, das universidades públicas e privadas, da comunidade científica, de entidades como OAB, ABI, dos clubes de serviço, de ONGs de um modo geral, etc...
Lado trágico da nossa miséria política atual é que atores relevantes dessa malha associativa entraram em recesso político após a mobilização que tiveram durante o período entre a pandemia e as eleições de 2022. Encerrada a mobilização cívica, vários voltaram-se aos umbigos, outros foram tragados pela
polarização político-partidária ou pela corrupção, outros estatalizados pelo clientelismo governamental, sem falar em muitos que entraram em silêncio obsequioso, receosos da "volta do fascismo".
Quando penso num começo de conversa sobre como sair do pântano político em que o país foi mergulhado, estou pensando nesse recorte do corpo social que pode tentar se comunicar ao mesmo tempo com o que está se deteriorando embaixo e com o que sugere estar em metástase em cima. Para chegar ao eleitor comum terá que saber lidar nas e com as redes sociais, com sua gramática e sua semântica. Para chegar às elites governamental, burocrática, parlamentar e judicial do estado terá que saber lidar com a gramática e a semântica do sistema político. Paro de destrinchar e começo a conversar com os botões com pouca certeza de que posso compartilhar a conversa. Mas arrisco.
É difícil? Sem dúvida. Dificílimo, mas não vejo outro caminho. Não se trata de imaginar que essa sociedade civil tão heterogênea possa se mover como um pelotão coeso e disciplinado. Mas é possível supor consensos relativamente amplos dentro dela, em vez da atomização atual. Foi assim em 2022, mas não o bastante para a pressão se manter depois que o perigo passou. Dessa vez o horizonte não pode ser o da eleição. Precisa ser o da restauração plena da dinâmica política da ordem da Carta de 88, com alterações que a busca de consensos políticos aconselhar, mas tendo como limite o consenso maior de que seus pilares precisam ser preservados.
Nunca é demais lembrar que a Carta de 88 foi obra conjunta da sociedade política e da sociedade civil, realizada num momento em que estava longe de transcorrer uma lua de mel entre a primeira e o eleitorado. Este se encontrava no auge da desilusão e da raiva, após o desastre que se seguiu às bondades artificialmente prorrogadas do Plano Cruzado. Foi o tempo de vitórias do ressentimento, as de prefeitos populistas antipolíticos em pleno ano de 88 e a de Collor, no ano seguinte. Mas suas quaresmas não duraram porque, enquanto a desilusão seguia seu ciclo, áreas ativas da sociedade civil agiam em concerto com áreas não populistas da sociedade política para completar com êxito a transição democrática. Em vez do que se ván todos! argentino, surgiu uma carta de navegação para uma nova geração da elite política construir uma nova mediação com o eleitorado. Enquanto Collor foi filho do populismo que se alimentava do caos, o plano Real seria o filho primogênito da Carta de 88
Hoje tudo é mais complexo porque o eleitorado não está à deriva nem se move, órfão, num espaço vazio. As redes sociais o ocupam como se fossem um objeto impessoal à disposição das pessoas comuns e nessa medida mantém oculta uma parte (talvez a parte mais empoderada) dos sujeitos que as manejam. A política (da sociedade política e da sociedade civil) está desafiada a disputar esse manejo com transparência para não se tornar vassala. Isso passa por consensos civis que antecedam novos consensos políticos. A gramática da extrema polarização precisa ser superada. A jornada é cívica.
Em vez de esbravejar contra o interesse dos que mandam (ou escolher um dos lados e se alistar na guerra), trata-se de agregar outros interesses à cena para multiplicar os que ganham consideração.
Nenhuma elite política, por mais tosca que seja, deixa de pressentir o perigo para si de um descontentamento geral passar a ser uma rejeição eleitoral. Sente o calor da frigideira antes dele se propagar e se o sistema continuar sendo a democracia, ela se senta e negocia.
Por isso é significativo o pronunciamento da Transparência Internacional. O capítulo brasileiro de um ator típico de sociedade civil apontando um passo necessário, não para encerrar, mas para começar a conversa. O poder de chantagem assimétrico do ministro Alexandre de Moraes é um obstáculo a ser removido para que esse diálogo ocorra. Claro que não é o único óbice. Mas é preciso começar de um ponto e esse me parece óbvio pelo potencial de distensão que pode trazer a desconcentração do poder que o ministro retém em suas mãos. Fora daí seria esperar uma solução ideal e instantânea, que não virá. Ou renunciar a todas as esperanças e seguir o barco como está, esperando a colisão com o iceberg.
Quanto à disputa eleitoral, estará resolvida em menos de dois meses. O processo de mudança do ambiente político precisará seguir, seja qual for o resultado das urnas. A eleição será uma variável importante, mas seus efeitos serão bem mais limitados do que ambos os polos querem fazer crer. O lado que vencer não terá consenso sistêmico, muito menos social, para cancelar o outro.
*Cientista político e professor da UFBa
domingo, 6 de setembro de 2026
Crime, castigo e relações perigosas de ministros do STF no caso Master, por Luiz Carlos AzedoCorreio BrazilienseAo citar Gilmar Mendes, Dias Toffoli, Luiz Fux e Nunes Marques, também supostamente investigados de forma ilegal, Moraes insinua ter apoio da maioria dos ministros do Supremo contra Mendonça“Raskólhnikov, de lábios desmaiados, olhar fixo, aproximou-se devagar, aproximou-se até junto da mesa dele, apoiou uma das mãos sobre ela, quis dizer alguma coisa e não pôde; apenas se ouviram alguns sons incoerentes.
— O senhor está maldisposto: uma cadeira! Aqui…Sente-se nesta cadeira, sente-se. Água!
Raskólhnikov deixou-se cair na cadeira, mas sem afastar os olhos da cara desagradavelmente surpreendida de Iliá Pietróvitch. Olharam-se um ao outro por um momento e ficaram à espera. Trouxeram a água.
— É que eu… — começou Raskólhnikov.
— Beba água.
Raskólhnikov desviou a água com a mão e, devagar, mas distintamente, disse:
— É que fui eu quem matou aquela velha viúva dum funcionário e a sua irmã Lisavieta, com uma machadada, para roubá-la.
Iliá Pietróvitch abriu a boca. De todos os lados acudiu gente. Raskólhnikov repetiu a sua declaração…”
O protagonista do romance Crime e Castigo (Nova Cultural), de Fiódor Dostoiévski, é o ex-estudante pobre Rodion Raskólhnikov. Em São Petersburgo, movido por uma teoria de que seria um homem superior, ele assassina uma velha agiota e a irmã dela. Em seguida, passa a sofrer de intensa angústia mental, delírios e profunda culpa psicológica. O “castigo” real não é apenas a condenação legal, mas o tormento de sua própria consciência isolada.
Crime e Castigo não é somente um romance policial sobre um duplo homicídio. Desde o início, o leitor sabe que Rodion Raskólhnikov matou a agiota Aliena Ivanovna e, inesperadamente, sua irmã. O enigma é compreender o caminho entre o crime e a confissão. Raskólhnikov acredita que homens extraordinários podem violar a lei em nome de objetivos superiores. Mata para provar sua teoria, mas não consegue viver acima da própria consciência. Antes de ser condenado pelo tribunal, já fora condenado pelo sentimento de culpa. No fim, guiado pelo amor de Sônia, ele se entrega à polícia e encontra a redenção na Sibéria.
A crise do Supremo tem uma dimensão dostoievskiana. A sociedade desconhece toda a história das relações reveladas pelo telefone de Daniel Vorcaro, das ordens transmitidas à Polícia Federal e dos vazamentos seletivos contra autoridades. Os integrantes da Corte, porém, sabem muito mais do que revelam. Cada qual conhece o que fez, o que autorizou, o que tolerou e aquilo que soube em silêncio.
A gravidade não decorre apenas das mensagens atribuídas a Vorcaro. O banqueiro procura interlocutores poderosos, teme ser preso e sugere ter acesso às instituições encarregadas de investigá-lo. Como respostas não foram recuperadas, conclusões exigem cautela. A ausência dessas respostas não elimina as perguntas. Impõe uma investigação independente, transparente e de acordo com o devido processo legal, sem condenações antecipadas nem proteção corporativa.
Impeachment
André Mendonça levantou o sigilo do material e adotou providências consideradas incompatíveis com as prerrogativas do plenário. Alexandre de Moraes reagiu e pediu a investigação do colega dentro do inquérito das fake news. A PGR contestou o relatório policial. A crise deixou de envolver somente os fatos investigados. Passou a alcançar a legalidade dos métodos empregados na investigação e seus principais atores.
É aí que o Supremo esbarra na sua jurisprudência. Pau que dá em Chico dá em Francisco, diz o velho ditado popular. Decisões monocráticas de enorme alcance, investigações abertas por iniciativa judicial e a expansão de inquéritos foram usadas nos casos do 8 de janeiro. Agora, práticas semelhantes são condenadas dentro da própria Corte. Isso não significa que eventual nulidade no caso Master anule automaticamente o processo de Bolsonaro. São processos distintos. Mas é disso que agora se trata.
Ao considerar esses métodos ilegais, o Supremo deverá explicar por que os admitiu anteriormente. Coerência é essencial. Também seria inaceitável, nesse caso, usar as garantias constitucionais para destruir toda a investigação e libertar Vorcaro sem apurar os fatos. Provas ilegais devem ser anuladas, não as responsabilidades. Talvez, seja esse um dos objetivos dos responsáveis pelos vazamentos.
Edson Fachin tenta uma saída institucional: retirou a disputa do inquérito das fake news, pediu explicações aos envolvidos e pretende levar as questões relevantes ao plenário. Também defende o fim do inquérito aberto em 2019 e um código de ética para os ministros. Por enquanto, são apenas declarações de intenções. Ao citar os ministros Gilmar Mendes, Dias Toffoli, Luiz Fux e Nunes Marques, supostamente também investigados de forma ilegal, Moraes insinua já ter apoio de metade dos votos do Supremo contra Mendonça.
Não por acaso, também relaciona o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, responsável por pautar ou não os pedidos de impeachment de ministros do Supremo, que ameaça abrir um processo contra Moraes e outro contra Mendonça, para conter o ímpeto da oposição. A indignação pública e seu impacto eleitoral, porém, podem converter essa ameaça tática numa pauta impossível de controlar. Ninguém pode estar acima da lei, nem mesmo quem tem o poder de interpretá-la. Sem confiança pública, decisões são percebidas como demonstrações de força de quem detém o poder e não como atos de Justiça do Estado democrático de direito.
AO VIVO: O BRASIL PERDEU A VERGONHA? | WW ESPECIALCNN BrasilTransmissão iniciada há 57 minutos WW — Programas na íntegraAssista AO VIVO ao WW Especial deste domingo, 6 de setembro de 2026. #CNNBrasilParticipam deste episódio Eduardo Giannetti, economista, cientista social e escritor, Oscar Vilhena Vieira, jurista e professor da FGV Direito de SP, e Mario Sabino, jornalista e escritor. Manhattan Connection 06/09/2026 | com Augusto CuryEu Não Tenho Onde MorarDorival Caymmi
"A fotografia é um fragmento congelado que se recusa a envelhecer sozinho; mas a verdade de uma vida exige o mergulho na nuance, para além da superfície das lentes."— D H
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O avesso do portão
Por D H — Folha de Santana
A pressa dos algoritmos reconstrói o passado com a tinta grossa do veredicto sumário
O que resta de um homem quando sua biografia é reduzida a um pixel capturado há cinquenta anos? A fotografia, por natureza, é um fragmento congelado que se recusa a envelhecer sozinho. Quando a imagem daquela fachada na Rua Santana, no bairro Santa Terezinha, foi arremessada no turbilhão das redes sociais, o veredicto veio com a velocidade instantânea dos tribunais digitais. Para a horda de perfis automatizados e indignações sob encomenda, o número 40 abrigava apenas um monstro. A suástica pintada no portão de madeira em junho de 1973 tornou-se o resumo definitivo, sem direito a recurso ou nota de rodapé, de uma existência inteira. É a pedagogia do cancelamento retrospectivo: pega-se o pior símbolo da história da humanidade e cola-se na testa de um morto que já não pode erguer a voz para explicar o avesso de sua própria calçada.
Se a história dependesse apenas da superfície das lentes, estaríamos todos condenados ao erro. O jornalismo de fôlego e a memória afetiva dos que ficaram, no entanto, exigem o mergulho na nuance. Quem de fato cruzou aquela rua na Juiz de Fora dos anos 1970 conheceu o avesso do portão. Ali morava o Seu Filinho. Não um ideólogo do horror, mas um modesto técnico em eletrônica, criado e estimado pelos vizinhos. Um homem cujo único e obsessivo hobby era passar madrugadas em claro debruçado sobre a mecânica delicada de rádios de válvulas. Num tempo de chumbo, sob o silêncio vigiado e a censura imposta a partir do golpe de 1964, Filinho ligava seus aparelhos em "alta altura". Suas ondas curtas traziam o eco de transmissões estrangeiras e relíquias europeias para dentro de um bairro pacato. A pintura infame, vista de perto, era a excentricidade analógica de um sujeito solitário e fascinado por frequências distantes. O bairro, que conhecia o homem por trás do pincel, recolheu a intolerância e preservou o afeto.
O texto de Emmanuel e a ironia fina de Noel Rosa — que já questionava onde estava a honestidade dos salões que promovem festivais de caridade enquanto varrem a humanidade para debaixo do tapete — convergem no mesmo diagnóstico: a incapacidade humana de digerir a verdade em sua totalidade. Preferimos o rótulo mastigado porque a complexidade dá trabalho. Ao transformarmos o Seu Filinho em um espantalho ideológico, limpamos nossa própria consciência digital, mas desertificamos nossa alma.
Dias depois, o olhar da caridade e o testemunho oral de seus antigos vizinhos devolveram ao Seu Filinho o direito à sua própria e contraditória humanidade. A memória, quando resgatada com rigor e empatia, sobrevive aos bots. Assim se faz.
Use o código com cuidado.
“Toda longa caminhada constitucionalista recomeça, necessariamente, pelo redespertar de suas minorias ativas.”
O Dia Seguinte da Sociedade Civil
Por P F D N
Passado o ruído retórico e estético do Sete de Setembro — data em que o eleitorado oscila entre a exasperação maniqueísta das redes e o amoldamento passivo ao cardápio que lhe conferem —, o dia oito exige decantar o que resta de real na estrutura poliárquica do país.
Se em 1889 o nascimento da República prescindiu do povo, legando-nos a crônica de uma massa bestializada que assistia ao Estado como quem fita uma parada militar, o constitucionalismo moderno aprendeu que a vitalidade de um regime não emerge da pureza das massas, mas da densidade de sua sociedade civil.
Foi a recusa das minorias ativas em aceitar o simulacro jurídico de 1967 que demonstrou, outrora, que o país havia superado o alheamento do século XIX; ali, corporações, juristas e universidades sabiam exatamente a dimensão dos direitos que lhes eram suprimidos.
O drama contemporâneo, contudo, não reside na ignorância fundacional de 1889, tampouco na violência impositiva de 1967, mas no preocupante recesso político de nossa malha associativa.
Após o concerto cívico que garantiu as balizas de 2022, parte expressiva dessas elites intermediárias recolheu-se aos próprios umbigos, tragada pelo silêncio obsequioso ou anestesiada pelo clientelismo estatal.
Imaginou-se, por ingenuidade ou conveniência, que a preservação da Carta de 88 seria obra instantânea das instituições de Brasília, esquecendo-se de que a lei natural da burocracia estatal é a inércia e a autoproteção.
Quando a grande mídia, as universidades e as entidades de classe se omitem, o vácuo é prontamente ocupado por simulacros enfermos de elite política ou por salteadores do mercado, arrastando o Supremo Tribunal Federal e o Parlamento para crises sem precedentes.
Qualquer distensão desse pântano político terá de ser incremental, parcial e, fundamentalmente, de fora para dentro.
Não se trata de buscar soluções ideais ou quimeras éticas contra o interesse dos que mandam, mas de reativar os canais de diálogo da sociedade civil para agregar novos interesses à cena.
O recado do dia seguinte à independência é cético, mas obstinado: a travessia contra a hiperpolarização exige que as contra-elites profissionais, docentes e civis abandonem seus recolhimentos e disputem a gramática do sistema.
Se o cobertor institucional é curto e conviveremos inevitavelmente com quaresmas pregadas por mistificadores, que ao menos a sociedade civil se recuse a assistir a esse deserto moral em estado de bestialização.
Toda longa caminhada constitucionalista recomeça, necessariamente, pelo redespertar de suas minorias ativas.
A Geometria do Esquecimento na Rua Santana
Por P F D N
No dia seguinte às grandes celebrações institucionais, quando o calor das praças dá lugar à poeira rotineira das calçadas, a verdadeira história de uma cidade não se revela nas atas das assembleias, mas nas fachadas que a burocracia do Estado decidiu ignorar. Aqueles que observam a trajetória poliárquica do Brasil a partir de arranjos de cúpula perdem a fina sutileza da micro-história urbana — aquela que transcorria silenciosa nas franjas operárias de Juiz de Fora, mais precisamente na Rua Santana, no bairro Santa Terezinha, onde um portão de ferro ostentou, por longos anos do pós-1964, a geometria berrante e incômoda de uma suástica nazista colorida.
Para o observador ingênuo, refém do maniqueísmo que hoje coloniza o debate público, a permanência daquele símbolo totalitário em plena via pública durante o auge do regime militar pareceria um paradoxo insolúvel. Contudo, o historiador rigoroso das instituições compreende que o silêncio que cercava a oficina do técnico eletrônico e projetor de filmes — o "Filhinho", figura saída das brumas de uma tapera alta daquela infância que não volta mais — era o resultado de uma refinada engenharia de sobrevivência e conveniência social. Enquanto o aparato repressor do Estado gastava suas energias na caça obsessiva às minorias ativas da esquerda operária e estudantil, o anacronismo da extrema-direita merecia das elites locais uma "vista grossa" e obsequiosa, herdeira direta das simpatias integralistas que outrora perfumaram os salões da Manchester Mineira nas décadas de 1930 e 1940.
A reação da sociedade civil circundante, por sua vez, distanciou-se tanto do heroísmo cívico quanto da cumplicidade ideológica. Operou-se ali o clássico mecanismo de defesa da folclorização: ao carimbar o artesão dos rolos de película e das válvulas de rádio como um sujeito exótico, "folclórico" ou acometido por desequilíbrios da alma, a vizinhança despolitizava o horror. O diagnóstico popular funcionava como um salvo-conduto urbano; transformado em "maluco de bairro", o homem podia reter seu símbolo sem que a vizinhança precisasse confrontar a barbárie que ele evocava, operando uma amnésia tática necessária para que o cotidiano da Rua Santana seguisse seu curso subótimo.
O desfecho daquele portão, contudo, guarda a melancolia típica das coisas que não necessitam de tribunal para acabar. A suástica colorida da Rua Santana não foi removida por um decreto judicial ou por um protesto de praça; ela se extinguiu pelo método incremental da intempérie, descascando sob o sol e lavada pelas chuvas até se dissolver de per si. Foi engolida pelo mesmo crepúsculo que levou embora os projetores de cinema de bairro e as oficinas de eletrônica valvulada. O "Filhinho" e sua heresia estética desapareceram na poeira de uma Juiz de Fora manufatureira que o tempo desidratou, provando que, no Brasil, o esquecimento biológico costuma ser o mais eficaz — e o mais cínico — dos pacificadores sociais. A infância e a tapera alta não voltam mais; resta-nos apenas a crônica da ferrugem que limpa o que a sociedade civil preferiu não enxergar.
CríticaCyro Aguiar
Legenda: A canção Crítica, de Cyro Aguiar, acrescenta uma chave musical à crônica: fala do desgaste provocado pela crítica permanente, da solidão que ela produz e da necessidade de afastamento diante de um ambiente dominado pela reclamação. No contexto desta narrativa, a música ressoa como contraponto àquilo que a sociedade preferiu não enxergar — e, depois, simplesmente deixou que o tempo apagasse.
Legenda: Há uma espécie de ironia melancólica em encerrar esta memória com Crítica, de Cyro Aguiar: a canção fala do cansaço diante de quem só sabe apontar defeitos e reclamar, enquanto a crônica trata justamente de outra forma de silêncio — aquele que nasce quando uma comunidade escolhe não ver. Entre a crítica que incomoda e o esquecimento que apaga, permanece a pergunta sobre o que uma sociedade prefere enfrentar e o que prefere deixar enferrujar.
A segunda versão combina melhor com o tom memorialístico e ensaístico da crônica. O link direciona para a gravação ao vivo de Cyro Aguiar disponível no YouTube.
Também confirmei que “Crítica” é composição de Cyro Aguiar e aparece associada ao álbum Crítica, de 1975.
domingo, 6 de setembro de 2026
Toda caminhada começa pelo primeiro passo, por Paulo Fábio Dantas Neto*
Foi divulgada ontem, dia 04.09, pela Transparência Internacional, uma nota pública intitulada "O Brasil precisa neutralizar as ameaças às suas instituições e ao seu regime democrático", em cujo primeiro parágrafo lê-se:
“Um juiz constitucional cercado por gravíssimos indícios de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e obstrução de justiça já representa, por si só, um risco institucional em razão da natureza de suas condutas. Mas torna-se um elemento ainda mais desestabilizador pelas medidas que pode adotar em busca da impunidade. É nisso que o ministro Alexandre de Moraes se transformou diante das revelações que apontam para suas condutas com Daniel Vorcaro e, sobretudo, diante de sua retaliação autoritária, colocando o Supremo Tribunal Federal no caminho de uma crise institucional sem precedentes”.
Claro que não se pode recepcionar um texto de um movimento global monotemático, como é o Transparência Internacional - para o qual o combate à corrupção é fundamental a ponto de pretender erradicá-la - como se fosse um texto plenamente político. Seu posicionamento é assumidamente concentrado na dimensão institucional e é, desse modo, distinto e muitas vezes vai mesmo na contramão do que se deve esperar de algum ator político relevante, obrigado a olhar simultaneamente para várias direções, sem aderir à ideia de que a corrupção seja o único ou o principal problema do país.
A organização autora da nota não se distingue, portanto, por aquele saber prático característico da grande política, que combina a afirmação de princípios com a responsabilidade de encontrar e apontar soluções pacíficas e exequíveis para situações políticas complexas. É um movimento cuja missão é atingir meta situada no plano do ideal, mas nem por isso seu trabalho deve ser visto como diletante.
O serviço que presta à sociedade e à própria política é importante na medida em que tenta contribuir para a diminuição do fosso entre ética pública e prática política e mesmo quando esse fosso não diminui e as rotinas imprudentes prevalecem, movimentos como esse oferecem um alerta realista, em momentos críticos, sobre a direção que as coisas estão tomando. É o que essa nota pública faz ao enfatizar os sinais preocupantes emitidos pelos passos dados já há longo tempo, pelo ministro citado.
É posicionamento de um movimento respeitável e merece consideração, ainda que se saiba que qualquer solução da crise que ele corretamente aponta será parcial, não será instantânea e só poderá vir das pessoas de carne e osso que estão à frente das instituições. Tentarei destrinchar esses três pontos.
Terá que ser parcial porque realmente está claro não se tratar de problema localizado, pois vasos comunicantes contaminam mutuamente as instituições. Daí o senso comum achar que só caberia uma "faxina geral" e como a realidade mostra que ela é impossível, a ideia fica só como desejo frustrado e
gera perplexidade (de impotentes e/ou apáticos), desilusão (de traídos e/ou cínicos) e ódio (de ressentidos e/ou bélicos). É preciso ser realista e compreender que soluções parciais começarão permitindo (ou não impedindo) que haja vencedores parciais inidôneos, isto é, o cobertor é curto para proteger todas as instituições ao mesmo tempo e sempre haverá algum satanás pregando quaresma e sendo bem sucedido, cantando de galo, ao menos enquanto um movimento incipiente de mudança estiver longe do seu terreiro.
Uma mudança positiva no ambiente político terá que ser incremental e as soluções não instantâneas, primeiro porque é impossível mudar em pouco tempo o que está sendo cevado há décadas e deitou raízes em toda parte. Segundo, porque não podemos brigar com o tempo. É preciso tê-lo como aliado. Por exemplo, precificar essa eleição como um momento (quase) perdido porque desse deserto não parece que vá sair nada em que valha a pena apostar. Isso não quer dizer que devamos ignorar as eleições, nem deixar de escolher candidatos, mas ter uma saudável consciência cética de que o cardápio oferecido é uma dieta áspera e, pior: não indica remédio para moléstia alguma. Dele não sairá nada além do alimento necessário para o corpo de cidadãos não morrer. Comer com apetite zero não deve ser visto como atitude problemática, mas como decisão prudente de quem sabe que o vazio político é muito mais fundo.
Se a demora de soluções é inevitável, assim como a convivência com algum mistificador ou tartufo bem sucedido, então é preciso cuidar que nenhum triunfo seja definitivo e que o processo, uma vez iniciado, siga na direção da mudança, embora provavelmente em ritmo lento, irregular, incluindo retrocessos.
Para isso, precisará surgir um núcleo de elite política que enxergue mais longe e não se deixe engolfar pelo imediato. A impressão de que essa elite não existe é lúcida e não é arbitrária. Corresponde a um fato. Essa elite não existe mesmo, enquanto corpo. Seus possíveis componentes vagam como se fossem ainda fetos ou como almas penadas. Estão pulverizados e pouco visíveis, porque o sarrafo da competição plebiscitária os exclui ou limita seriamente. Precisam ser localizados e estimulados a se agregar. Quem pode fazer esse reconhecimento e produzir esse estímulo? Chegamos ao terceiro ponto.
As pessoas de carne e osso que estão à frente das instituições não se moverão a partir do seu próprio eixo porque a "lei natural" do seu movimento é a inércia. Sua racionalidade (mesmo no caso de quem não é corrupto, nem despótico, nem perverso) aponta-lhes a atitude de preservação, filha do interesse de manter-se ali. O que fazer? "Denunciar" o interesse, considerá-lo um pecado e sonhar com uma elite desinteressada? Eu não apostaria na possibilidade dessa elite vir a existir.
Todo e qualquer sistema político é conservador por natureza. A democracia política é um sistema e como tal não foge a essa regra. O que a distingue (e a faz ser superior, aos olhos dos democratas) é ser um tipo de sistema em que a mudança é mais possível do que em qualquer outro, porque em vez de uma elite existem várias, elites e contra-elites de variados tipos, disputando esse poder. Aquelas que não o alcançam podem vir a alcançá-lo um dia e mesmo que não o alcancem nunca, poderão sempre influir sobre decisões. Isso só é possível num sistema poliárquico porque nele o governo é limitado e não soberano. Mesmo longe da perfeição (que, como se sabe, não existe) ele é o melhor dos artefatos subótimos inventados até aqui.
Algumas pessoas, por demagogia ou ingenuidade, abominam "as elites" (política, econômica, militar, cultural, etc...) e imaginam uma sociedade que possa ser governada sem elas. Estamos tendo, no Brasil de hoje (no qual a elite política é um simulacro enfermo e as demais recuaram da cena, omitindo-se por despreparo, timidez ou conveniência, inclusive a elite econômica, hoje sucateada por bandos de salteadores da marca de Vorcaro), um spoiler do que pode acontecer se o mal for irreversível e passar da precariedade à total ausência de elites.
Se para evitar o desgoverno falta uma elite política que faça jus a esse nome; e se a inércia do sistema tende a reproduzi-la como é, trata-se de uma encruzilhada. Qualquer mudança relevante, mesmo parcial e incremental, só poderá vir (se vier) de fora para dentro. Mas de onde?
Afasto do pensamento a demagogia ou a ingenuidade de imaginar que venha diretamente do "povo", essa entidade soberana para decidir quem governa, mas que não pode governar ela mesma. O eleitorado, no Brasil ou noutra democracia qualquer, manifesta-se diante de um cardápio e fora daí protesta ou se amolda ao que recebe, às vezes exaspera-se, impede certas políticas que o contrariam e vive julgando os políticos em geral e os governantes em particular com o maniqueísmo que ganhou asas nas redes sociais. São esses os seus poderes. Produzir e concretizar governos não está entre eles.
Coisa diferente dá-se (ou pode dar-se) no ambiente que chamamos, por costume, de sociedade civil. Chamamos assim, muitas vezes sem refletir sobre o que ela é e como está se comportando.
A "sociedade civil" distingue-se do eleitorado dentre outras coisas porque pode influir, também, fora da arena eleitoral. Ela existe, é relevante, mas não é uma coisa só. Produz elites de distintos contornos sociais. Há elites nos andares de cima e de baixo da sociedade de mercado (grande mídia incluída), elites patronais, trabalhistas e congêneres, atuando nos respectivos sindicatos e associações. Há as elites (ou "minorias ativas") de movimentos sociais antigos e novos (estudantil, de docentes, de profissionais de vários tipos) e também de ativistas de direitos humanos, direitos civis, ambientalistas, pacifistas, antirracistas, de gênero, etc..). E há elites nas corporações, as da "mídia" (em sua dimensão cultural), as das igrejas, das universidades públicas e privadas, da comunidade científica, de entidades como OAB, ABI, dos clubes de serviço, de ONGs de um modo geral, etc...
Lado trágico da nossa miséria política atual é que atores relevantes dessa malha associativa entraram em recesso político após a mobilização que tiveram durante o período entre a pandemia e as eleições de 2022. Encerrada a mobilização cívica, vários voltaram-se aos umbigos, outros foram tragados pela
polarização político-partidária ou pela corrupção, outros estatalizados pelo clientelismo governamental, sem falar em muitos que entraram em silêncio obsequioso, receosos da "volta do fascismo".
Quando penso num começo de conversa sobre como sair do pântano político em que o país foi mergulhado, estou pensando nesse recorte do corpo social que pode tentar se comunicar ao mesmo tempo com o que está se deteriorando embaixo e com o que sugere estar em metástase em cima. Para chegar ao eleitor comum terá que saber lidar nas e com as redes sociais, com sua gramática e sua semântica. Para chegar às elites governamental, burocrática, parlamentar e judicial do estado terá que saber lidar com a gramática e a semântica do sistema político. Paro de destrinchar e começo a conversar com os botões com pouca certeza de que posso compartilhar a conversa. Mas arrisco.
É difícil? Sem dúvida. Dificílimo, mas não vejo outro caminho. Não se trata de imaginar que essa sociedade civil tão heterogênea possa se mover como um pelotão coeso e disciplinado. Mas é possível supor consensos relativamente amplos dentro dela, em vez da atomização atual. Foi assim em 2022, mas não o bastante para a pressão se manter depois que o perigo passou. Dessa vez o horizonte não pode ser o da eleição. Precisa ser o da restauração plena da dinâmica política da ordem da Carta de 88, com alterações que a busca de consensos políticos aconselhar, mas tendo como limite o consenso maior de que seus pilares precisam ser preservados.
Nunca é demais lembrar que a Carta de 88 foi obra conjunta da sociedade política e da sociedade civil, realizada num momento em que estava longe de transcorrer uma lua de mel entre a primeira e o eleitorado. Este se encontrava no auge da desilusão e da raiva, após o desastre que se seguiu às bondades artificialmente prorrogadas do Plano Cruzado. Foi o tempo de vitórias do ressentimento, as de prefeitos populistas antipolíticos em pleno ano de 88 e a de Collor, no ano seguinte. Mas suas quaresmas não duraram porque, enquanto a desilusão seguia seu ciclo, áreas ativas da sociedade civil agiam em concerto com áreas não populistas da sociedade política para completar com êxito a transição democrática. Em vez do que se ván todos! argentino, surgiu uma carta de navegação para uma nova geração da elite política construir uma nova mediação com o eleitorado. Enquanto Collor foi filho do populismo que se alimentava do caos, o plano Real seria o filho primogênito da Carta de 88
Hoje tudo é mais complexo porque o eleitorado não está à deriva nem se move, órfão, num espaço vazio. As redes sociais o ocupam como se fossem um objeto impessoal à disposição das pessoas comuns e nessa medida mantém oculta uma parte (talvez a parte mais empoderada) dos sujeitos que as manejam. A política (da sociedade política e da sociedade civil) está desafiada a disputar esse manejo com transparência para não se tornar vassala. Isso passa por consensos civis que antecedam novos consensos políticos. A gramática da extrema polarização precisa ser superada. A jornada é cívica.
Em vez de esbravejar contra o interesse dos que mandam (ou escolher um dos lados e se alistar na guerra), trata-se de agregar outros interesses à cena para multiplicar os que ganham consideração.
Nenhuma elite política, por mais tosca que seja, deixa de pressentir o perigo para si de um descontentamento geral passar a ser uma rejeição eleitoral. Sente o calor da frigideira antes dele se propagar e se o sistema continuar sendo a democracia, ela se senta e negocia.
Por isso é significativo o pronunciamento da Transparência Internacional. O capítulo brasileiro de um ator típico de sociedade civil apontando um passo necessário, não para encerrar, mas para começar a conversa. O poder de chantagem assimétrico do ministro Alexandre de Moraes é um obstáculo a ser removido para que esse diálogo ocorra. Claro que não é o único óbice. Mas é preciso começar de um ponto e esse me parece óbvio pelo potencial de distensão que pode trazer a desconcentração do poder que o ministro retém em suas mãos. Fora daí seria esperar uma solução ideal e instantânea, que não virá. Ou renunciar a todas as esperanças e seguir o barco como está, esperando a colisão com o iceberg.
Quanto à disputa eleitoral, estará resolvida em menos de dois meses. O processo de mudança do ambiente político precisará seguir, seja qual for o resultado das urnas. A eleição será uma variável importante, mas seus efeitos serão bem mais limitados do que ambos os polos querem fazer crer. O lado que vencer não terá consenso sistêmico, muito menos social, para cancelar o outro.
*Cientista político e professor da UFBa
domingo, 6 de setembro de 2026
Crime, castigo e relações perigosas de ministros do STF no caso Master, por Luiz Carlos AzedoCorreio BrazilienseAo citar Gilmar Mendes, Dias Toffoli, Luiz Fux e Nunes Marques, também supostamente investigados de forma ilegal, Moraes insinua ter apoio da maioria dos ministros do Supremo contra Mendonça“Raskólhnikov, de lábios desmaiados, olhar fixo, aproximou-se devagar, aproximou-se até junto da mesa dele, apoiou uma das mãos sobre ela, quis dizer alguma coisa e não pôde; apenas se ouviram alguns sons incoerentes.
— O senhor está maldisposto: uma cadeira! Aqui…Sente-se nesta cadeira, sente-se. Água!
Raskólhnikov deixou-se cair na cadeira, mas sem afastar os olhos da cara desagradavelmente surpreendida de Iliá Pietróvitch. Olharam-se um ao outro por um momento e ficaram à espera. Trouxeram a água.
— É que eu… — começou Raskólhnikov.
— Beba água.
Raskólhnikov desviou a água com a mão e, devagar, mas distintamente, disse:
— É que fui eu quem matou aquela velha viúva dum funcionário e a sua irmã Lisavieta, com uma machadada, para roubá-la.
Iliá Pietróvitch abriu a boca. De todos os lados acudiu gente. Raskólhnikov repetiu a sua declaração…”
O protagonista do romance Crime e Castigo (Nova Cultural), de Fiódor Dostoiévski, é o ex-estudante pobre Rodion Raskólhnikov. Em São Petersburgo, movido por uma teoria de que seria um homem superior, ele assassina uma velha agiota e a irmã dela. Em seguida, passa a sofrer de intensa angústia mental, delírios e profunda culpa psicológica. O “castigo” real não é apenas a condenação legal, mas o tormento de sua própria consciência isolada.
Crime e Castigo não é somente um romance policial sobre um duplo homicídio. Desde o início, o leitor sabe que Rodion Raskólhnikov matou a agiota Aliena Ivanovna e, inesperadamente, sua irmã. O enigma é compreender o caminho entre o crime e a confissão. Raskólhnikov acredita que homens extraordinários podem violar a lei em nome de objetivos superiores. Mata para provar sua teoria, mas não consegue viver acima da própria consciência. Antes de ser condenado pelo tribunal, já fora condenado pelo sentimento de culpa. No fim, guiado pelo amor de Sônia, ele se entrega à polícia e encontra a redenção na Sibéria.
A crise do Supremo tem uma dimensão dostoievskiana. A sociedade desconhece toda a história das relações reveladas pelo telefone de Daniel Vorcaro, das ordens transmitidas à Polícia Federal e dos vazamentos seletivos contra autoridades. Os integrantes da Corte, porém, sabem muito mais do que revelam. Cada qual conhece o que fez, o que autorizou, o que tolerou e aquilo que soube em silêncio.
A gravidade não decorre apenas das mensagens atribuídas a Vorcaro. O banqueiro procura interlocutores poderosos, teme ser preso e sugere ter acesso às instituições encarregadas de investigá-lo. Como respostas não foram recuperadas, conclusões exigem cautela. A ausência dessas respostas não elimina as perguntas. Impõe uma investigação independente, transparente e de acordo com o devido processo legal, sem condenações antecipadas nem proteção corporativa.
Impeachment
André Mendonça levantou o sigilo do material e adotou providências consideradas incompatíveis com as prerrogativas do plenário. Alexandre de Moraes reagiu e pediu a investigação do colega dentro do inquérito das fake news. A PGR contestou o relatório policial. A crise deixou de envolver somente os fatos investigados. Passou a alcançar a legalidade dos métodos empregados na investigação e seus principais atores.
É aí que o Supremo esbarra na sua jurisprudência. Pau que dá em Chico dá em Francisco, diz o velho ditado popular. Decisões monocráticas de enorme alcance, investigações abertas por iniciativa judicial e a expansão de inquéritos foram usadas nos casos do 8 de janeiro. Agora, práticas semelhantes são condenadas dentro da própria Corte. Isso não significa que eventual nulidade no caso Master anule automaticamente o processo de Bolsonaro. São processos distintos. Mas é disso que agora se trata.
Ao considerar esses métodos ilegais, o Supremo deverá explicar por que os admitiu anteriormente. Coerência é essencial. Também seria inaceitável, nesse caso, usar as garantias constitucionais para destruir toda a investigação e libertar Vorcaro sem apurar os fatos. Provas ilegais devem ser anuladas, não as responsabilidades. Talvez, seja esse um dos objetivos dos responsáveis pelos vazamentos.
Edson Fachin tenta uma saída institucional: retirou a disputa do inquérito das fake news, pediu explicações aos envolvidos e pretende levar as questões relevantes ao plenário. Também defende o fim do inquérito aberto em 2019 e um código de ética para os ministros. Por enquanto, são apenas declarações de intenções. Ao citar os ministros Gilmar Mendes, Dias Toffoli, Luiz Fux e Nunes Marques, supostamente também investigados de forma ilegal, Moraes insinua já ter apoio de metade dos votos do Supremo contra Mendonça.
Não por acaso, também relaciona o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, responsável por pautar ou não os pedidos de impeachment de ministros do Supremo, que ameaça abrir um processo contra Moraes e outro contra Mendonça, para conter o ímpeto da oposição. A indignação pública e seu impacto eleitoral, porém, podem converter essa ameaça tática numa pauta impossível de controlar. Ninguém pode estar acima da lei, nem mesmo quem tem o poder de interpretá-la. Sem confiança pública, decisões são percebidas como demonstrações de força de quem detém o poder e não como atos de Justiça do Estado democrático de direito.
Cartola - As Melhores
“Creio que a ordem não pode eflorescer, senão no seio da estabilidade e da justiça. Mas vejo os depositários da ordem respirarem deliciosamente na agitação, animando-a, promovendo-a, propagando-a, e sinto empolarem-se, cada vez mais acirradas, as paixões políticas, em que a vida oficial parece comprazer-se.”
Rui Barbosa, “Manifesto à Nação”, 1892
👆epigrafe do artigo da Flávia Tavares do Canal Meio, hojeFoto registra ministros do STF rindo em meio à crise entre Moraes e Vorcaro | HORA HCNN Brasil
3 de set. de 2026 #CNNBrasil #politica
Uma fotografia de Alexandre de Moraes rindo ao lado de colegas do STF (Supremo Tribunal Federal) repercutiu nesta quinta-feira (3). O ministro dava gargalhadas um dia após mensagens do WhatsApp de Daniel Vorcaro sugerirem que o ex-banqueiro e Moraes mantinham contato. O analista de Política da CNN Pedro Venceslau comenta o assunto. #CNNBrasil #politica
Primo Rico e Primo PobreGenios Da Comédia
Genios Da Comédia
“Essa frase traduz o famoso brocardo científico e lógico: "A ausência de evidência não é evidência da ausência" (do inglês, "Absence of evidence is not proof of absence"). Ela significa que o fato de não termos encontrado pistas, rastros ou provas sobre algo não serve como confirmação automática de que esse algo nunca existiu ou não aconteceu.”
Ausência de prova do fato não é a mesma coisa que a prova da auseência do fato.
Consigliere
O Consigliere é o membro de uma Máfia siciliana-italiana que serve como o conselheiro do Don, e uma das três posições mais prestigiosas na hierarquia da Máfia, junto com o Don, e o Sottocapo ou Subchefe.
O Consigliere é um dos poucos, e as vezes o único, membros de uma Máfia que pode diretamente questionar as ideias e planos do Don ou discutir com ele. O principal trabalho de um Consigliere é agir como um "cérebro auxiliário" para o Don, sendo que muitas vezes o Consigliere é o cérebro de verdade por trás do sucesso de uma Máfia. Eles também geralmente agem como os mediadores durante reuniões com outras famílias. O Consigliere também geralmente gerencia os negócios e operações legítimos da família, e são também as vezes legítimos e não-criminosos eles mesmo, com apenas pequenas operações de apostas e agiotagem.
O Consigliere também é geralmente o único na família que sabe de todos os contatos, negócios, operações, contas e segredos da família e do Don, e se trair a família e caguetar para as autoridades, poderia arruinar completamente a organização.
Imitação do evangelho segundo o espiritismo - Edição Histórica BilíngueEdição Português por Allan Kardec (Autor), Evandro Noleto Bezerra (Tradutor)
A presente edição da FEB contém a reprodução eletrônica (digitalizada) da 1ª edição francesa da Imitação do evangelho segundo o espiritismo, tal como surgiu em Paris em abril de 1864, bem como sua tradução integral em nossa língua, a fim de que os leitores possam conferir as diferenças existentes entre o texto primitivo e o da 3ª edição da obra, publicada em 1866, revista, corrigida e modificada por Allan Kardec sob o título de O evangelho segundo o espiritismo, versão que hoje utilizamos. Com a publicação deste livro, a Federação Espírita Brasileira presta homenagem ao sesquicentenário de seu lançamento, comemorado em 2014, na expectativa de que as atuais e futuras gerações possam acompanhar, passo a passo, o cuidado de Allan Kardec na sistematização e aperfeiçoamento de suas obras, assistido, como sempre, pelos demais Espíritos da Codificação Espírita, tendo à frente o Espírito de Verdade. A todos, pois, desejamos boa leitura!
“A origem do termo na obra
No francês original de Kardec, costuma aparecer termos como "j'admets volontiers" ou "de bon gré" (admito de bom grado, aceito voluntariamente).
Muitos tradutores históricos do século XIX e início do século XX no Brasil — como o célebre Guillon Ribeiro, cuja tradução é amplamente distribuída pela Federação Espírita Brasileira (FEB) — optaram por manter uma linguagem formal e literal da época. Por esse motivo, utilizaram construções como "admito de boamente" para passar a ideia de aceitar um argumento de forma sincera, sem resistência e de mente aberta.”
14 Bis - Caçador De Mim (Ao Vivo)Caçador de MimFlávio VenturiniComposição: Sérgio Magrão, Luiz Carlos Sá.
EDIÇÃO DE SÁBADO: IMPLOSÃOFoto: Fernando Facioli/ Divulgação
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05/09/26 • 7:00
Flávia Tavares“Creio que a ordem não pode eflorescer, senão no seio da estabilidade e da justiça. Mas vejo os depositários da ordem respirarem deliciosamente na agitação, animando-a, promovendo-a, propagando-a, e sinto empolarem-se, cada vez mais acirradas, as paixões políticas, em que a vida oficial parece comprazer-se.”Rui Barbosa, “Manifesto à Nação”, 1892
Estamos às vésperas de mais um 7 de Setembro dramático. Alexandre de Moraes será novamente um de seus protagonistas e, do outro lado, estará também o bolsonarismo. Mas há duas distinções fundamentais daquele Dia da Independência de 2021 em que o ex-presidente Jair Bolsonaro dizia que não mais cumpriria ordens judiciais de Moraes e que a paciência do povo estava se esgotando.
A primeira é que não são só os bolsonaristas que estão impacientes com o ministro. A segunda é que, desta vez, a erosão que corrói os pilares do Supremo Tribunal Federal (STF) é provocada pelo lado de dentro. O confronto entre a ala de Moraes e o ministro André Mendonça, e que se esparramou pela Procuradoria-Geral da República e pela Polícia Federal, deixou a instituição se equilibrando numa viga frágil de credibilidade. Um sopro quente dos ventos eleitorais e ela pode não resistir. Implodir.
A infiltração da crise nas cúpulas dos Poderes é diretamente proporcional à de Daniel Vorcaro e seus bilhões. Midas às avessas, todo ouro que ele distribuiu tem potencial para desintegrar quem o aceitou. Como diria Caetano, “ou não”. A depender da costura de um acordo que salve a maioria e da eventual convulsão social disso decorrente. Estamos no terreno do imprevisível. Da maior crise dos 135 anos de história do Supremo. Para compreendê-la e imaginar saídas dessa provação, o Meio ouviu Oscar Vilhena Vieira, professor da FGV Direito e cientista político; Rafael Mafei, advogado e professor de Direito na USP e na ESPM; e Felipe Recondo, pesquisador e jornalista, autor da newsletter Recondo e os Onze.
Breve cronologia do caos
Jair Bolsonaro cumpre hoje prisão domiciliar por conta do processo que o ministro Alexandre de Moraes relatou no Supremo. Em alguma medida, embora parlamentares se esforçassem para articular uma anistia que desafiasse a decisão da Corte, havia um sentimento de que o ápice do enfrentamento externo que podia subjugar o Supremo tinha sido superado. E o período de crise, idem. Então, veio o caso Master.
Pulando já para esta semana, na terça-feira, 1º de setembro, o ministro André Mendonça retirou o sigilo da Petição 16.662, depois do vazamento de parte de seu conteúdo pela imprensa. O documento que veio a público era um relatório de 218 páginas produzido pela Polícia Federal, a pedido de Mendonça, a partir da análise do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, apreendido na operação Compliance Zero. Boa parte do material reproduz conversas do fundador do Banco Master com um contato salvo na agenda do aparelho como “Alexandre de Moraes BRASILIA”. O relatório também menciona o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. Mendonça encomendou o relatório e um juiz auxiliar ouviu Daniel Vorcaro, tudo sem que os colegas fossem informados.
O sangramento político e público de Moraes, Gonet e Andrei, mas principalmente de Moraes, se deu por dois dias. O relatório detalhava como o ministro alterou o contrato de R$ 130 milhões do escritório de sua mulher, Viviane, com o Master; os cartões de crédito com limites de R$ 300 mil emitidos pelo Master aos filhos do casal; as mensagens de Vorcaro ao ministro pedindo orientação e ajuda em seu caso. Dois dos maiores jornais do país pediram a renúncia de Moraes em duros editoriais — sim, isso ainda importa. A opinião pública estava encontrando coesão contra o ministro.
Mas, assim como o inquérito das fake news que relata desde 2019, a gana de Alexandre de Moraes parece infindável. Na quinta-feira, ele trucou. Paralelamente a vazamentos que davam conta de encontro de Mendonça com Vorcaro e interlocução com seu advogado, e da tentativa do ex-banqueiro de fechar um contrato com o instituto de Mendonça, Moraes usou o mesmo inquérito das fake news e encaminhou ao presidente da Corte, Edson Fachin, documentos que, segundo ele, apontam indícios de improbidade administrativa, abuso de autoridade e crime de responsabilidade por parte de Mendonça na condução dos inquéritos do Master e das fraudes do INSS. Apontou, a partir de um outro relatório da PF, que Mendonça estaria conduzindo as investigações com interesses eleitorais.
Na mesma noite, Fachin abriu um procedimento próprio e deu cinco dias úteis para que Moraes, Mendonça, Gonet e Andrei Rodrigues prestem informações por escrito. Antes disso, a Procuradoria-Geral da República já havia se manifestado pela nulidade de toda a apuração determinada por Mendonça, sustentando que a decisão de investigar um ministro cabe ao plenário e não a um relator isolado.
Em três dias úteis, o Supremo produziu um ministro pedindo a investigação de outro, um procurador-geral citado no material que ele próprio precisa avaliar, uma cúpula policial envolvida no episódio e sua corporação rachada. Fachin está com uma bomba nas mãos e pretende desarmá-la no colegiado. Completou a primeira fase de sua intervenção na manhã de sexta-feira, retirando do inquérito das fake news, que não tem mais qualquer respaldo fora da ala dos alexandristas, as acusações de Moraes contra Mendonça. A guerra deve chegar ao plenário na semana que vem.
Sem precedentes
Virou clichê hiperbolizar as crises políticas no Brasil. Convenhamos, são quatro décadas de pouco cerimoniosos “eitas atrás de vixes” na nossa jovem democracia pós-1988. Dois presidentes impichados, fora os presos. Uma nova tentativa de golpe militar. Uma jornada de junho e vários escândalos de corrupção no meio. Nesse percurso, uma instituição foi ganhando força na medida em que se politizava — talvez sem se dar conta que a equação poderia vir a se inverter.
A lista de agressões históricas à Corte é longa. Floriano Peixoto deixou de nomear ministros e desafiou Rui Barbosa com o infame “quem dará habeas corpus a quem der o habeas corpus” em 1892. Hermes da Fonseca repetiu o gesto. Getúlio Vargas aposentou seis ministros, suspendeu prerrogativas de magistrados e viu a Constituição de 1937 transferir ao Senado o poder de revisar decisões da Corte. Em 1964 houve nova supressão de prerrogativas e o afastamento de três ministros. Em 1977, quando o Supremo tentou propor uma reforma no Judiciário, a reforma veio de fora, no Pacote de Abril.
“O Supremo sempre teve o seu poder constrangido por setores autoritários da vida política brasileira que estavam em desconformidade com a Constituição”, diz Oscar Vilhena. “O governo Bolsonaro reedita isso. Ele se torna mais uma vez uma ameaça tendo o Supremo como um proxy da Constituição.” Ameaça externa, portanto, é a normalidade da Corte, e às vezes ela se consuma.
O que está acontecendo agora é de outra natureza. “A ameaça interna é aquela que decorre de uma perda de autoridade por parte de membros da Corte”, diz Vilhena. Perda de autoridade, na definição dele, quer dizer exercer o poder conferido pela Constituição fora das bases em que ele foi conferido. “Você tem alguns ministros, não são todos, mas esses que agem como se fossem senadores da República, transitando com os interesses que eles terão que julgar.” Daí a imagem que organiza seu diagnóstico, a de uma erosão das estruturas do Supremo, que deixa o tribunal ainda mais vulnerável aos ataques que, como faz questão de frisar, também continuam vindo de fora.
“Ainda que um juiz constitucional tenha uma latitude política maior, ela não pode comprometer a ideia de que eles estão agindo com imparcialidade e com integridade, de que não estão sendo beneficiários das decisões que tomam", acrescenta. E não custa lembrar que, direta ou indiretamente e em variadas medidas, ao menos Dias Toffoli, Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes e Kássio Nunes Marques já haviam aparecido em relações de latitude bastante elástica com Vorcaro e Master. Agora, até Mendonça.
De tudo que é lado
O que mais preocupa Vilhena é a maneira como o ambiente externo se imiscui no interno. Quem atacava o Supremo por fora começou a fazer outra conta: “talvez melhor do que destruir seja capturar”. O problema, diz o professor, passa a ser a instrumentalização dos magistrados por setores da política brasileira.
Ou vice-versa, dizem também os bastidores de Brasília ao longo da semana. Se Mendonça é acusado de agir em favorecimento de Flávio Bolsonaro ao supostamente permitir o vazamento das suspeitas sobre Lulinha e ao partir para cima de Moraes, o decano Gilmar Mendes se reuniu com o presidente Lula e cobrou que o governo fosse mais firme no controle da Polícia Federal e da Advocacia-Geral da União, para impedir as investidas de Mendonça — o que poderia ser bem pouco republicano, dada a autonomia adquirida e desejável da PF.
A despeito disso, a pressão falou alto e Lula se pronunciou, na propaganda eleitoral, muito ao seu modo: sem citar ninguém nominalmente, defendeu investigações “doa a quem doer” e reforma política e no Judiciário. Aqui é que aparece a mão dupla da crise, com eleições pautando e sendo pautadas.
“Seria muito ingênuo achar que tudo que está acontecendo é à revelia do calendário das eleições”, acrescenta Rafael Mafei, ao analisar a dinâmica de vazamentos que antecedeu a guerra declarada nesta semana. “Pelas mudanças de tecnologia, os vazamentos foram facilitados. Não é uma coisa que deve diminuir. O que vale repensar é a estratégia que o Supremo adota, tanto Moraes quanto Mendonça, de manter muita coisa em sigilo por muito tempo, contando que isso só vai sair lá adiante, que há como controlar.” O melhor jeito de neutralizar esse fator, defende, é garantir que as investigações sejam rapidamente abertas e o sigilo seja levantado o quanto antes. “É como deveria ser. A regra é a publicidade, o sigilo deve ser mantido apenas na medida da estrita necessidade da eficiência da investigação.”
Do lado de dentro, Mafei interpreta a escalada no conflito entre Moraes e Mendonça como uma disputa de posição. Num tribunal historicamente dominado por Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes, Mendonça quer ser protagonista e se colocar como contraponto a esse eixo. Por isso, diz o professor, a votação no plenário que se aproxima, embora carregue discussões jurídicas reais, funcionará sobretudo como termômetro. “O que vai determinar que pedido [de investigação] vai ser bem-sucedido é a temperatura dos apoios de cada um.”
Os pivôs
O pesquisador Felipe Recondo oferece uma outra lente. Não porque entenda que o conflito seja menos grave, mas porque acredita que a metáfora da corte palaciana descreve mal o funcionamento do tribunal. “As pessoas costumam descrever o tribunal como um Game of Thrones. E não é assim.” Autor de vários livros sobre o STF, o mais recente sendo O Tribunal — Como o Supremo se Uniu Ante a Ameaça Autoritária, Recondo refuta a noção que alguns têm de que os ministros são amigos e combinam cada lance. “Cada ministro é quase uma instituição. A instituição maior é, claro, o Supremo, mas não tem esse tipo de aliança, esse tipo de conversa.” Cada ministro só tem um voto, e não consegue angariar o apoio dos outros “abrindo as asas”.
Assim, embora coisas seríssimas estejam em jogo — e um contexto que inclui uma eleição presidencial e uma condenação recente de um ex-presidente por tentativa de golpe —, pode ser que coisas mais objetivas estejam sendo calculadas do que uma disputa etérea de poder.
Recondo descreve Mendonça como um ministro isolado, capaz de reunir apoios em pautas específicas, o que é o comportamento orgânico do Supremo. Grupos ali se formam por julgamento, não por aliança permanente. Nesse caso, pode haver uma confluência circunstancial em torno das críticas internas ao que Moraes fez nos últimos anos, sem que isso configure um bloco estável.
Sobre Moraes, o cálculo dos colegas é mais complexo. Ele tem crédito acumulado pelo que fez durante o governo Bolsonaro, no inquérito das fake news e no dos atos antidemocráticos, e os ministros sabem que qualquer enfraquecimento dele produz retaliações. Mas chega um ponto, diz Recondo, em que a pergunta muda de “ele merece apoio?” para “devemos apoiá-lo em absolutamente tudo, mesmo diante de fortes indícios?”. O resultado é um tribunal que olha para Moraes com “uma confiança com pé atrás” e para Mendonça com imensa desconfiança.
A decisão de Moraes de contra-atacar Mendonça se encaixaria nessa descrição, diz Mafei, como uma estratégia de defesa com três funções ao mesmo tempo: retaliar o colega diretamente; atrair aliados dentro e fora do Supremo, acenando com os riscos que o aprofundamento do caso Master representa para outros magistrados e políticos; e apontar uma saída jurídica, a nulidade, capaz de interromper as investigações.
Alô, polícia
Um dia antes de Moraes acionar o inquérito das fake news contra o colega, Gilmar Mendes propôs a Fachin que delegados da Polícia Federal deixem de atuar nos gabinetes dos ministros. Hoje são seis policiais cedidos ao tribunal, quatro deles nos gabinetes de Mendonça e Moraes, um com Luiz Fux e um na Polícia Judicial. Em junho, o governo pediu a mais de cinquenta órgãos que devolvessem policiais federais cedidos. O Supremo foi poupado.
Recondo considera que a formação desses esquadrões dos ministros diz mais sobre o que a Polícia Federal se tornou do que sobre o Supremo, e propõe o seguinte dilema: o parâmetro de Alexandre de Moraes não deveria valer para todos? Afinal, Moraes escolheu o delegado que queria no passado porque desconfiava que o procurador-geral da República, o diretor-geral da PF e o ministro da Justiça do governo Bolsonaro poderiam interferir a ponto de inviabilizar seu trabalho. A desconfiança de Mendonça é exatamente a mesma. “O ministro Alexandre estava errado em desconfiar disso? Não sabemos. O ministro André está errado em desconfiar disso? Não sabemos. Agora, se eles desconfiam, alguma coisa tem de errado na relação com a Polícia Federal.”
O resultado é um sistema em que cada relator quer o próprio salvo-conduto e a própria equipe para garantir que uma investigação chegue a algum lugar. Num processo que depende de colaboração entre instituições, isso produz impasse, e o impasse produz nulidade. Cada um tenta suprir a lacuna que atribui ao outro, e, ao atravessar a linha de competência alheia, contamina o próprio trabalho.
Vilhena traça a genealogia do problema. A Polícia Federal já foi balcanizada desde o início da Nova República, quando José Sarney levou o delegado Romeu Tuma, da polícia estadual de São Paulo, para dirigi-la. Sempre se soube da existência da polícia de um ministro e da de outro. Houve melhora relativa nas gestões de José Carlos Dias e, sobretudo, de Márcio Thomaz Bastos, que deu à corporação uma boa autonomia. Mas essa autonomia também tem custo. Hoje a PF não enxerga controle no Ministério da Justiça. Ele foi substituído pelo controle no Supremo. Vilhena lembra o que ouviu certa vez de um secretário de Segurança: ele dizia nunca ter tido problema para dar ordem a policial. O segredo era que sempre que se manda fazer o que eles já querem fazer, eles fazem. “Isso é um problema de controle de polícia no mundo todo. O FBI é assim também”, acrescenta.
A conclusão que ele tira disso é institucional. Já que o ministro da Justiça sozinho não dá conta, porque a Polícia Federal o enxerga como quem aluga uma casa no fim de semana e vai embora no domingo, são necessários controles orgânicos sobre as agências de aplicação da lei. Um Senado minimamente capaz poderia criar um comitê de segurança pública para rever atos da PF, por exemplo. E a escolha de um diretor-geral seria mais bem escrutinada, não fruto da amizade com o presidente ou algo do gênero.
A hora e a vez de Fachin
Os três entrevistados convergem num ponto. Não há saída que não passe pelo presidente do Supremo. Edson Fachin não esteve na alfaiataria nem nas festas, não é sócio de instituto e não aparece em nenhuma das linhas do relatório. “Nunca houve qualquer denúncia, qualquer manifestação de que ele tenha uma conduta imprópria”, diz Vilhena. É quem tem o maior grau de imparcialidade diante dos grupos em disputa, e a obrigação institucional de conduzir uma solução. Além disso, diz, “combater o ministro Fachin agora, de um lado ou de outro, é pisar numa mina”.
Sobre a condição do presidente, Recondo afirma que Fachin já vinha sendo avisado por Mendonça de que a coisa chegaria a esse nível e se preparava para isso. Talvez não soubesse a forma, e a forma provavelmente não lhe agradou, porque instalou no tribunal a suspeita de que um ministro pode investigar outro sem passar pela procuradoria. O modelo de presidência que Fachin persegue, na leitura de Recondo, é o de Rosa Weber, alguém capaz de decidir sem protagonismo pessoal. Só que o desfecho provável é ingrato. “Pela forma como o ministro Fachin conduz esses processos, e pela visão dele do que é certo e do que deveria ser feito, eu não duvido que ele desagrade a todo mundo. Tanto Mendonça quanto Moraes quanto Gilmar. Ele faz porque acha que é o certo a fazer.”
Sobre a permanência de Moraes, Vilhena é direto: o ministro perdeu condição de exercer a função de magistrado, e isso valeria para qualquer tribunal, inclusive para um juiz de primeira instância. A dificuldade, insiste, é que ele não está com suspeitas sozinho, o que torna qualquer solução seletiva insustentável.
Pedidos de impeachment já se acumulam no Senado. Embora Moraes tenha conversado por três horas com Davi Alcolumbre, presidente da Casa e também enroscado no Master, antes de apresentar seu contra-ataque a Mendonça, o senador está pressionado e já dá sinais de que pode ceder. O truque para diminuir a pressão foi espalhar por Brasília que abriria processos de impeachment tanto contra Moraes quanto contra Mendonça.
A alternativa que Vilhena considera mais plausível é uma renúncia negociada, e para descrever como isso pode funcionar ele recorre à Suprema Corte americana. Quando um juiz assume a posição nos EUA, ganha do Estado uma cadeira feita sob medida, com as medidas tiradas por um marceneiro. Quando se aposenta, os colegas compram do Estado aquela cadeira e a oferecem de presente. Uma ministra da corte americana lhe contou que há casos em que os colegas compram a cadeira antes da aposentadoria e mandam entregar na casa do juiz. O dia em que ele chega em casa e pergunta o que aquilo está fazendo ali é o dia em que fica sabendo que não deve voltar. Isso já teria acontecido no Brasil. Vilhena diz que um ex-ministro do STF lhe relatou algo parecido no Supremo, uma reunião em que os colegas comunicaram a alguém que ele não tinha mais condição de ficar. Só nunca lhe disse de quem se tratava nem quando aconteceu.
Depois da tempestade
O passo seguinte seria apresentar à sociedade um projeto de Supremo compatível com um regime democrático, e isso começaria pela competência penal. Nenhuma corte constitucional no mundo julga casos como o do Master, ou o do INSS. O ensaio brasileiro iniciado em 1988 produziu resultados positivos e um efeito colateral que agora se cobra: cada vez que assume um caso criminal de figura importante, o tribunal se politiza e perde a imparcialidade necessária para defender a República. “Ele entra no jogo, ele é capturado pelo jogo da política mais baixo possível.” A proposta é reduzir a prerrogativa de foro ao presidente da República e aos presidentes da Câmara e do Senado, e devolver o resto à Justiça comum.
Mafei concorda com o diagnóstico e discorda do momento. Para ele, não há clima político para qualquer iniciativa de reforma agora, e uma proposta apresentada no calor desta crise correria o risco de servir para retalhar o Supremo e diminuir poderes que o tribunal precisa manter. O que se pode discutir desde já, argumenta, são as reformas que dependem apenas do próprio Supremo: transparência sobre valores e remunerações recebidos pelos ministros, regras básicas de conflito de interesses e código de ética. Nada disso expõe a Corte ao risco de uma emenda constitucional apresentada a pretexto de melhorar e destinada a limitar.
Fica de pé o problema do calendário. O plenário terá de decidir em prazo curto, a um mês da eleição, com o Senado pressionado por pedidos de impeachment que dependem da vontade de um único parlamentar, com a Polícia Federal fraturada e com um procurador-geral que segue dando pareceres sobre um caso em que aparece citado.
Recondo lembra que casos assim costumam esfriar, e que a imprensa erra sistematicamente ao supor que o calor do momento se manterá. Ele acha que desta vez será diferente. “Chegamos naquele ponto de não retorno, em que é preciso enfrentar o problema de frente e ter algum tipo de explicação para a sociedade e para os próprios ministros.” A fórmula que sustentou o tribunal até aqui deixou de funcionar. Nenhum ministro do Supremo consegue mais dizer que não há nada para ser visto e seguir em frente. Sob o risco de implosão.
Análise: Último foro contra crises, STF arrasta o país para umaA sociedade civil, em suas diversas representações, reage e inicia mobilizações – mas todos com receio de contaminação política e eleitoral
04/09/26 às 17:58 | Atualizado 04/09/26 às 17:58
Em Brasília, articulações para salvar o STF (Supremo Tribunal Federal) da crise. No Brasil, mobilização contra a corrupção e a inação dos Poderes.
A reação ao cataclisma que o ministro Alexandre de Moraes causou ao usar o inquérito das Fake News contra André Mendonça está longe de conter a crise no STF. Até porque, nesse contra-ataque, o ministro que até aqui era o todo poderoso do Supremo, decretou o fim da corte como a conhecemos até agora, como disse William Waack no WW.
Hoje, o país acordou com essa sentença, mas sem nenhuma sinalização sobre o que será do próximo STF. O presidente da Corte, Edson Fachin, tenta conter os estragos ao tirar o processo contra André Mendonça do inquérito das Fake News e prometendo acabar com esse instrumento que beira um regime de exceção nas mãos de um ministro.
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A sociedade civil, em suas diversas representações, reage e inicia mobilizações – mas todos com receio de contaminação política e eleitoral.
É como se o Brasil tivesse sido sequestrado por uma crise em que, aquele que deveria ter o poder de evita-lá, é exatamente quem arrasta o país para dentro dela.
CNN Brasil
TópicosAlexandre de Moraes
André Mendonça
Hora H
STF (Supremo Tribunal Federal)
Thais Herédia
EMENTA: CONSTITUCIONAL E REGIMENTAL. ALTERAÇÃO FONÉTICA E ORTOGRÁFICA EM AMBIENTE DE ALTA POLÍTICA. DA TRANSMUTAÇÃO DO ESTADO DE DESORDEM (CAOS) EM NARRATIVA POPULAR (CAUSO). DO DESLOCAMENTO DA TÔNICA JURÍDICA (ACÓRDÃO) PARA A CONVENIÊNCIA DOS BASTIDORES (ACORDÃO). RECURSO PROVIDO PARA ADMITIR QUE O RIGOR ESTILÍSTICO CEDE DIANTE DOS ARRANJOS ESPECÍFICOS DA CAPITAL.
1. A subsunção dos fatos à norma, quando analisada sob a ótica do Planalto Central, sofre mitigação interpretativa decorrente da fonética e da ausência deliberada de acentuação gráfica.
2. O fenômeno da mutação do caos em causo constitui técnica de pacificação retórica, pela qual a desordem institucional é convertida em anedota de contornos pitorescos, esvaziando-se a gravidade do fato concreto.
3. A supressão do acento agudo na palavra acórdão opera verdadeira transmutação de natureza jurídica: desveste-se o ato de sua formalidade processual colegiada para revesti-lo da condição de pacto pragmático de coalizão (acordão).
4. Configurada a primazia da vocalização e dos arranjos sobre a literalidade do texto, conclui-se que a semântica do poder é essencialmente prosódica.
ACÓRDÃO
Vistos, relatados e discutidos estes autos, os Ministros do Tribunal Pleno, por unanimidade de votos, conhecem da divergência vocabular para DAR PROVIMENTO à tese de que, no topo do Planalto Central, a gramática é subordinada à conveniência dos fatos, nos termos do voto do Relator.
Brasília, 5 de setembro de 2026.
Ministro Relator
Ata de Reunião Não-Oficial (Mas Homologada)
Local: Um gabinete com isolamento acústico e café caro.
O Fenômeno da Gravidade Zero da Gramática Candanga
No topo do Planalto Central, a física e a linguística operam sob leis próprias. É o único lugar do mundo onde o desespero e a baderna institucional (o caos) passam por um banho de assessoria de imprensa e viram uma história folclórica para se contar rindo no jantar (o causo). O erro vira folclore; a crise vira piada de salão.
Mas o verdadeiro milagre acontece na ortografia. Ali, o acento agudo é uma commodity de alto risco.
Se você coloca o acento, você tem um acórdão: uma decisão jurídica, formal, publicada no Diário Oficial, cheia de latim e termos que ninguém usa desde 1800. Dá trabalho, exige fundamentação e, pior, gera obrigações.
Por isso, o verdadeiro estadista prefere a economia de sinal gráfico. Tira-se o acento e, num passe de mágica fonética, nasce o acordão. O "acordão" não precisa de base legal, só de quórum e de um bom operador de bastidor. Ele resolve a vida de todo mundo, limpa o horizonte penal e garante a governabilidade até a próxima terça-feira.
In suma: o destino da nação não depende da Constituição, mas da capacidade do sujeito de engolir a tônica certa na hora de falar. No Planalto, quem sabe vocalizar não precisa explicar. E quem sabe omitir o acento, nunca precisa se desculpar.
Use o código com cuidado.
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RESENHA FINAL: O JOGO DOS R$ 5,3 BILHÕES NO CHAPADÃO DOS TOGADOS
Direto do Planalto Central, pelas ondas do além com a fleuma, a manha e a garra de João Sem Medo!
A sirene da Praça dos Três Poderes tocou, o juiz recolheu a redonda e o rádio não espera ninguém! O Plenário Presencial do STF encerrou os trabalhos do dia e mandou todo mundo pro vestiário. A disputa histórica sobre o RE 1.479.774 (Tema 1.309), que decide se o Fisco pode morder o PIS/Cofins das aplicações financeiras das reservas técnicas das seguradoras, foi interrompida pelo apito final e o jogo segue adiado para amanhã.
O placar eletrônico do STF FC está travado em 2 a 1 para os Camisados. Mas calcem as chuteiras de cravo alto porque o segundo tempo promete ser um troço de louco!
📋 A SÚMULA DA PELADA (Placar Atualizado)
Time / Corrente
Votos
Atletas da Toga
👕 TIME DE CAMISA (A favor das Seguradoras)
2
Luiz Fux (Relator): Abriu o placar defendendo que as reservas técnicas servem para garantir o segurado, não sendo faturamento livre. Dias Toffoli: Viu a jogada bonita e carimbou o segundo gol na tabelinha.
🩳 TIME DESCAMISADO (A favor do Fisco)
1
Alexandre de Moraes: Voltou com o voto-vista soltando o caneco na divergência. Entrou de carrinho argumentando que aplicar dinheiro é o negócio da seguradora e tem que pagar imposto.
📢 O MEGAFONE DO TÉCNICO (O Famoso Item 2 da Tese)
O Item 2 da tese do relator ficou isolado na prancheta para a leitura final na beira do campo. A linha de impedimento está bem traçada pela comissão técnica: é preciso separar cirurgicamente o que é receita de faturamento típico da atividade comercial daquilo que é mera recomposição financeira de reservas obrigatórias por lei. Se a zaga bater cabeça nessa distinção técnica, abre-se a porteira para um rombo bilionário no bolso de quem contrata seguro neste país.
🧼 VESTIÁRIO E FAIR PLAY: ORDENS PARA A REAPRESENTAÇÃO
O Presidente do time, Edson Fachin, exigiu platitude e equilíbrio absoluto na mesa para manter o ecossistema do tapetão limpo de fumaças políticas ou odores suspeitos de desespero arrecadatório. Jogo limpo é a regra. Por isso, as ordens de João Sem Medo para o descanso noturno são claras:
Os Camisados: Tratem de lavar os uniformes imediatamente. Deixem o pano no sereno do Planalto Central para tirar a inhaca do primeiro tempo e passem com ferro em brasa. Amanhã a tese da não incidência precisa entrar em campo esticada, alva e sem nenhuma rachadura.
Os Descamisados: Direto para o chuveirão! Água fria na cabeça para acalmar os ânimos e muito sabonete nas axilas. O fair play exige que o destino desse caminhão de dinheiro seja decidido estritamente na bola e na técnica, sem contaminações ou odores estranhos no plenário.
A bola volta a rolar amanhã cedo no STF. Quem vai faturar o caneco? O Fisco ou o Contribuinte? Os outros ministros estão com a chuteira na mão esperando o apito inicial. Fui, que o rádio não espera ninguém!
Use o código com cuidado.
Alexandre de Moraes vandaliza o SupremoPor O Estado de S. Paulo
Ao declarar guerra ao colega André Mendonça, o ministro, suspeito de ser ‘consigliere’ de Vorcaro, causa mais dano ao STF do que a horda de arruaceiros do 8 de Janeiro
Sem quebrar um copo, o ministro Alexandre de Moraes infligiu ao Supremo Tribunal Federal (STF) um dano mais grave do que o causado pelos arruaceiros que tomaram a Corte de assalto no fatídico 8 de janeiro de 2023. Na quinta-feira passada, Moraes vandalizou a instituição em nome de sua defesa pessoal.
O gatilho para a ira do ministro foi a revelação, feita por este jornal, de novos e inquietantes pormenores da promíscua – e potencialmente criminosa – relação entre ele e Daniel Vorcaro, que, como se sabe, celebrou um contrato de serviços advocatícios no valor de R$ 131 milhões com o escritório da mulher do ministro, Viviane Barci de Moraes. O teor das dezenas de mensagens extraídas de celulares de Vorcaro pela Polícia Federal (PF) sugere que Moraes atuava como uma espécie de consigliere do banqueiro vigarista – nada menos.
Diante desse fato escabroso, o único caminho republicano seria Moraes se afastar voluntariamente do cargo, poupando o Supremo de ser atirado na fossa moral em que ele mesmo se meteu. Mas, em vez disso, o ministro acionou o “modo sobrevivência” e usou o famigerado inquérito das fake news, seu brinquedo de pequeno tirano, para declarar guerra ao colega André Mendonça, o relator das investigações sobre o Banco Master no STF, que ousou levantar o sigilo do relatório da PF e, assim, expôs o grau de proximidade entre Moraes e Vorcaro.
Já um tal de “relatório de inteligência” – em tese, também feito pela PF – do qual Moraes se valeu para acusar Mendonça de improbidade administrativa, abuso de autoridade e violação da Lei Orgânica da Magistratura Nacional, a bem da verdade, é uma peça tosca que mal vale o papel em que foi escrita. Não tem cabeçalho oficial, não é assinado por um delegado federal e consiste em uma série de ilações sobre objetivos políticos de Mendonça. No corpo do próprio texto, pasme o leitor, consta a advertência de que se trata de um documento “sem caráter decisório e sem valor probatório” e, ademais, de “baixa a moderada confiabilidade”. Foi com base nisso que Moraes pediu – e o presidente do STF, Edson Fachin, em boa hora recusou – que Mendonça fosse incluído no rol de investigados do inquérito das fake news.
É preciso dizer sem rodeios: o sr. Alexandre de Moraes e todos os que o protegem no STF – a começar pelo decano do tribunal, Gilmar Mendes – se tornaram, não de agora, a maior fonte de instabilidade democrática no País. Essa ala daninha da Corte traiu o espírito norteador da criação do Supremo Tribunal Federal, em 1891, e a transformou nessa aberração corporativista que ameaça afundar o Brasil em uma crise de tal magnitude que, no limite, pode pôr em risco a própria democracia.
Para salvar a pele, Moraes ainda tenta impor uma falsa equivalência entre legítimas dúvidas técnicas a respeito da atuação de Mendonça como relator do caso Master e as suspeitas gravíssimas que pesam sobre si mesmo. Ao que tudo indica, Moraes aposta na confusão generalizada para, ao fim e ao cabo, evitar ter de responder sobre o mérito dessas suspeitas, fixando-se na forma como foram expostas. Também não se pode condenar quem veja em sua campanha iracunda a pavimentação do caminho até a nulidade de todas as investigações sobre o caso Master no STF – sonho de todos em Brasília que colocaram suas almas à venda para servir aos interesses comerciais de Vorcaro.
Para piorar, o subproduto dessa crise é a instrumentalização escancarada da PF: ora acionada por Moraes para produzir “relatórios” a seu feitio, ora orientada pelo decano do STF a praticar desobediência civil, ignorando decisões de Mendonça que considere “ilegais”, ora ameaçada pelo próprio Mendonça com o afastamento de seu diretor-geral, Andrei Rodrigues. Uma corporação que deve primar pela atuação legal, técnica e republicana virou joguete nas mãos de autoridades movidas por suas próprias agendas.
O STF se reergueu fisicamente dos escombros do 8 de Janeiro. É incerto, porém, se será capaz de se libertar do cativeiro em que foi aprisionado por Moraes, que faz da Corte refém de suas ambições. Agora cabe a Fachin liderar essa histórica missão de resgate. Se decidir fazê-lo, tomando as decisões que lhe cabem nessa hora grave, o ministro presidente pode estar certo de que terá do jornal O Estado de S. Paulo todo o apoio de que precisar.
Nenhum ministro está acima do SupremoPor Correio Braziliense
O STF não pode se transformar numa arena em que disputas pessoais, suspeitas de conflitos de interesse e decisões dos próprios envolvidos deixem em segundo plano a Justiça e o interesse público
Nenhum homem está acima da instituição. Essa máxima, elementar numa democracia, tornou-se a questão central para o Supremo Tribunal Federal (STF). A crise provocada pelo caso Banco Master ultrapassou os limites de uma investigação criminal e expôs divergências entre ministros, Polícia Federal (PF) e Procuradoria-Geral da República (PGR) num grau de tensão que ameaça contaminar a credibilidade da própria Corte. O Supremo precisa, com urgência, reencontrar o caminho da estabilidade.
Não se trata de proteger seus integrantes nem de blindá-los, mas de preservar uma instituição que ocupa posição central no sistema democrático brasileiro. O STF não pode se transformar numa arena em que disputas pessoais, suspeitas de conflitos de interesse e decisões dos próprios envolvidos deixem em segundo plano a Justiça e o interesse público. A regra deve valer para todos: fatos precisam ser investigados, responsabilidades individualizadas e direitos preservados. Não existem atalhos legítimos no Estado de Direito.
As investigações sobre o Master são especialmente delicadas porque alcançaram extensa rede de relações empresariais, jurídicas e políticas. Quando integrantes da mais alta Corte entram em confronto por decisões ligadas a uma investigação dessa dimensão, o problema imediatamente se torna institucional. Divergências jurídicas são naturais num tribunal colegiado. O que não é normal é a impressão de que decisões judiciais, investigações e medidas policiais possam ser movimentos numa disputa entre magistrados.
Existe o risco de transformar o Supremo simultaneamente em personagem, investigador, vítima e juiz de fatos que eventualmente alcancem seus integrantes ou pessoas próximas a eles. A resposta para esse problema não pode ser corporativa. Se existem suspeitas, devem ser investigadas segundo a lei. Se forem falsas, os atingidos têm direito à reparação. Se houver irregularidades, ninguém deve receber tratamento privilegiado em razão do cargo que ocupa.
O mesmo rigor vale para Daniel Vorcaro e eventuais colaboradores. Delação premiada não é sentença nem prova suficiente para condenação. As declarações precisam ser confirmadas por provas independentes. Da mesma forma, PF e Ministério Público precisam atuar com autonomia, sem submissão aos interesses dos investigados ou às disputas políticas e institucionais.
A crise também expõe um problema anterior ao Master: a excessiva personalização do Supremo. O STF passou muitas vezes a ser identificado pelos nomes dos ministros, e não pela força de sua jurisprudência. Essa inversão precisa acabar. O Supremo não pertence aos seus 11 integrantes. Cada ministro exerce temporariamente uma parcela do poder conferido pela Constituição à instituição. Ministros passam, a Corte permanece.
Defender o Supremo, portanto, não significa defender automaticamente qualquer ministro. Pode significar investigar seus integrantes, reconhecer impedimentos, corrigir decisões e impor limites. A transparência fortalece o tribunal, enquanto o corporativismo o enfraquece.
Nada será mais destrutivo para sua legitimidade do que consolidar a percepção de que existem dois padrões de Justiça: um para os cidadãos e outro para as cúpulas do Estado. O caso Master tornou-se um teste para o STF. O Congresso não pode usar a crise para intimidar ministros, mas a Corte também não pode responder às críticas legítimas refugiando-se numa fortaleza corporativa. A saída está na colegialidade, na transparência, no respeito às competências constitucionais e ao devido processo legal.
É preciso despersonalizar o conflito. Nenhum ministro é maior do que o Supremo, assim como o Supremo não está acima da Constituição. Sua autoridade será preservada se demonstrar que a regra fundamental da República vale para todos: ninguém está acima da lei.
sábado, 5 de setembro de 2026
O lado de Vorcaro na disputa presidencial, por Adriana FernandesFolha de S. PauloDa cadeia, ex-banqueiro continua dando as cartas; ele quer a nulidade do processo do caso MasterEstratégia acaba favorecendo o presidenciável Flávio Bolsonaro por colocar em risco investigação sobre o filme 'Dark Horse'
Da cadeia, Daniel Vorcaro continua dando as cartas. Ele quer a nulidade do processo do caso Master. O ex-banqueiro caminha a passos largos para conseguir que seja colocado em suspeição todo o inquérito contra ele.
Na intimidade das mensagens trocadas pelo celular, Vorcaro é "amigo, Dani, irmãozão, mermão". Em público, os mesmos que o tratam com palavras amorosas nada sabem. Não são amigos.
O deputado Nikolas Ferreira, que se autoproclama "homem de família", entrou nessa lista. Pediu que Vorcaro ajudasse seu ex-assessor de gabinete a liberar "um ativo de minério". Maracutaia.
Vorcaro muda de advogados como quem troca de roupa. Diz que vai falar, não conta nada, volta atrás, sinaliza com nova delação, engana e segue segurando os cordões das marionetes ao sabor de quem mais o ajudar a alcançar seu propósito.
O advogado da hora é Daniel Bialski, que já prestou serviços ao ex-governador Cláudio Castro, a Michelle Bolsonaro no caso das joias sauditas e à ex-deputada Carla Zambelli.
Em Brasília, Bialski é conhecido por ter boa relação com André Mendonça, relator do caso Master no STF (Supremo Tribunal Federal) e ex-ministro de Bolsonaro.
A disputa eleitoral apertada e o STF em chamas ajudam Vorcaro. A última dele foi dar um depoimento ao gabinete de Mendonça dizendo que sofreu tortura psicológica, maus-tratos e ameaças veladas na prisão para não relatar fatos ligados à Polícia Federal.
O depoimento, gravado em vídeo, foi dado a um juiz auxiliar da equipe do ministro. O alvo era o chefe da PF, Andrei Rodrigues.
Os vazamentos pinçados dão aos advogados a chance de pedir a nulidade. A estratégia acaba favorecendo o presidenciável Flávio Bolsonaro por colocar em risco a apuração sobre o filme "Dark Horse".
Ao tirar o sigilo parcial do caso, Mendonça não estaria agindo de forma proposital? O episódio lembra a atitude do ex-juiz Sérgio Moro, que divulgou grampo de ligação entre Lula e Dilma Rousseff.
Não nos esquecemos: Vorcaro é o maior fraudador da história do sistema financeiro do país. Quem ainda acredita nele?
Na FlorestaCartola
Na floresta dei-te um ninho
E mostrei-te um bom caminho
Mas quando a mulher não tem brio, dizem que
É malhar em ferro frio
Tudo eu fiz por você
Não quisestes entender
Os meus conselho
E a minha opinião
Algum dia vais ver
Como é triste sofrer
E de joelhos
Vens pedir o meu perdão
Na floresta dei-te um ninho
E mostrei-te um bom caminho
Mas quando a mulher não tem brio, dizem que
É malhar em ferro frio
O teu contentamento
Foi o meu sofrimento
Não importa tudo isso até acabar
E assim me contento
Esperando o momento
Que a minha porta pra você há de fechar
Composição: Cartola, Silvio Caldas.