Mundo em Mutação
Inspirados já nos ensinamentos de Sófocles, aqui, procurar-se-á a conexão, pelo conhecimento, entre o velho e o novo, com seus conflitos. As pistas perseguidas, de modos específicos, continuarão a ser aquelas pavimentadas pelo grego do período clássico (séculos VI e V a.C).
terça-feira, 3 de março de 2026
Entre a Ampulheta e o Algoritmo: o Brasil que cresce para fora e o desafio de se reinventar por dentro
SUBTÍTULO
PIB de R$ 12,7 trilhões revela força exportadora e limites estruturais do mercado interno; em paralelo, a revolução da inteligência artificial impõe uma estratégia de adaptação produtiva, educacional e institucional para evitar que o crescimento econômico se torne insuficiente diante da transformação tecnológica.
RESUMO (ABSTRACT)
O crescimento de 2,3% do PIB brasileiro em 2025, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), confirma a resiliência da economia e a força de seu setor exportador, especialmente agropecuária e petróleo. No entanto, a desaceleração da indústria de transformação, o investimento ainda moderado e a percepção persistente de carestia evidenciam limites estruturais na capacidade de o crescimento se traduzir em melhora ampla do poder de compra e da qualidade do emprego.
O artigo analisa essa tensão — um país que se projeta externamente enquanto enfrenta desafios internos de diversificação produtiva e distribuição de renda — e a conecta a um segundo vetor decisivo: a aceleração da inteligência artificial. À luz da advertência de Yuval Noah Harari, publicada no The New York Times, argumenta-se que a adaptação ampla — combinando competências intelectuais, socioemocionais e práticas — torna-se elemento estratégico tanto para indivíduos quanto para a própria estrutura econômica nacional.
Entre expansão externa, restrições internas e incerteza tecnológica, o desafio brasileiro deixa de ser apenas crescer e passa a ser transformar crescimento em desenvolvimento sustentável, socialmente disseminado e tecnologicamente preparado para o futuro.
Crescer para fora, apertar por dentro? O PIB de R$ 12,7 trilhões e a vida concreta do país
Ilustração: a economia brasileira representada como uma ampulheta. Na parte superior, exportações, petróleo e agro; na inferior, consumo pressionado, preços elevados e famílias ajustando o orçamento.
O Brasil encerrou 2025 com crescimento de 2,3% e um Produto Interno Bruto (PIB) de R$ 12,7 trilhões, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em termos per capita, a renda média anual alcançou R$ 59.687,49, com alta real de 1,9%.
O número é positivo. Indica que a economia produziu mais do que no ano anterior. Não há recessão, nem estagnação formal. Mas a pergunta que atravessa a estatística e chega ao cotidiano é outra: esse crescimento mudou a vida concreta de quem trabalha, consome e paga contas todos os meses?
A imagem que acompanha este artigo sintetiza uma tensão estrutural. Na parte superior da ampulheta, vê-se o Brasil exportador: grãos, petróleo, navios carregados, moedas acumuladas. Na parte inferior, o país da renda comprimida, do supermercado mais caro, do combustível instável, do orçamento doméstico ajustado. Entre uma parte e outra, um estreitamento: a passagem do crescimento agregado para o bem-estar cotidiano.
Não se trata de oposição simplista entre “economia real” e “números oficiais”. Trata-se de observar a composição do crescimento.
O motor externo permanece forte
O principal destaque de 2025 foi a agropecuária, com expansão de 11,7%. Soja e milho registraram produções recordes. A extração de petróleo também avançou. As exportações de bens e serviços cresceram 6,2% no ano e 14,2% no quarto trimestre frente ao mesmo período de 2024.
O Brasil mostrou, mais uma vez, alta competitividade na produção de commodities. Vendeu mais ao exterior, gerou divisas, sustentou parte relevante do desempenho macroeconômico.
Esse movimento confirma uma característica histórica: o país é altamente eficiente quando se trata de produzir e exportar recursos naturais em larga escala. É uma vantagem comparativa consolidada.
Mas o crescimento puxado por commodities possui limites conhecidos. Ele depende de preços internacionais, de ciclos externos e de condições climáticas. E, sobretudo, não garante, por si só, expansão ampla do emprego urbano ou aumento proporcional da renda do trabalho.
A engrenagem interna cresce menos
Enquanto o campo avançou com vigor, a indústria de transformação recuou 0,2% no acumulado do ano e caiu 2,0% no quarto trimestre na comparação anual. A construção civil perdeu fôlego no fim do ano. O investimento total da economia — medido pela formação bruta de capital fixo — ficou em 16,8% do PIB, praticamente estável e abaixo de patamares observados em economias emergentes que crescem de forma mais acelerada.
Investimento é o que amplia a capacidade produtiva futura: novas fábricas, máquinas, infraestrutura, tecnologia. Quando ele cresce pouco, o potencial de expansão estrutural também se mantém contido.
O consumo das famílias avançou 1,3%, bem menos que os 5,1% registrados em 2024. O dado ajuda a explicar a percepção difusa de desaceleração no cotidiano. A economia cresceu, mas em ritmo insuficiente para produzir uma sensação generalizada de prosperidade.
No quarto trimestre, o PIB praticamente ficou estável em relação ao trimestre anterior (alta de 0,1%). O investimento caiu 3,5% nessa comparação. O consumo das famílias ficou parado. O dinamismo perdeu intensidade ao longo do ano.
Crescimento médio, impactos desiguais
O PIB é um indicador agregado. Ele informa o volume total produzido, não a forma como essa produção se distribui entre setores, regiões ou estratos sociais.
A inflação, por exemplo, afeta grupos de maneira diferente. Famílias de renda mais baixa destinam parcela maior do orçamento a alimentação, transporte e energia — itens frequentemente mais voláteis. Mesmo com controle da inflação média, a percepção de carestia pode permanecer elevada para parte significativa da população.
Além disso, setores como agropecuária moderna e extração de petróleo são intensivos em capital e tecnologia, mas não necessariamente em emprego de massa. Podem gerar grande valor adicionado sem multiplicar postos de trabalho urbanos na mesma proporção.
Esse descompasso ajuda a entender a distância entre o crescimento estatístico e a experiência cotidiana.
Juros, crédito e limites do mercado interno
A política monetária restritiva adotada para conter a inflação teve efeitos esperados: desacelerou o crédito e reduziu o ritmo do consumo. Juros mais altos encarecem financiamentos e afetam decisões de investimento empresarial.
O resultado é uma economia que cresce, mas com menor tração doméstica. O setor externo sustenta parte relevante do avanço, enquanto o mercado interno opera em compasso mais cauteloso.
Esse padrão não configura crise. Mas indica dependência relativamente elevada de poucos motores de expansão.
Estrutura produtiva e horizonte de desenvolvimento
O desempenho de 2025 reforça um traço estrutural: forte inserção internacional baseada em commodities e desempenho mais modesto na indústria de transformação.
Economias que conseguem combinar competitividade no setor primário com base industrial robusta e alta taxa de investimento tendem a apresentar crescimento mais disseminado e sustentável. O Brasil demonstra capacidade produtiva significativa, mas enfrenta o desafio de ampliar sua complexidade econômica.
Não se trata de negar os méritos do agronegócio ou da indústria extrativa, mas de observar que o desenvolvimento envolve diversificação produtiva, inovação tecnológica e integração mais profunda entre setores.
Entre o número e a vida concreta
A frase que inspira esta reflexão — “o Brasil cresce para fora, aperta por dentro” — não é um juízo moral, mas uma hipótese interpretativa.
Crescer para fora significa ampliar exportações, consolidar posição internacional, fortalecer contas externas.
Apertar por dentro significa crescimento insuficiente do mercado interno, investimento contido, renda pressionada e percepção persistente de carestia.
A imagem da ampulheta traduz essa tensão: no topo, o fluxo de riqueza gerado pelo setor exportador; na base, a filtragem lenta desse crescimento até alcançar o consumo e o bem-estar das famílias.
Transformar crescimento em desenvolvimento exige que o fluxo não se estreite no meio. Exige maior taxa de investimento, expansão da produtividade, geração de empregos qualificados e estabilidade de renda.
O PIB de R$ 12,7 trilhões confirma que o Brasil é uma economia grande e relevante. O crescimento de 2,3% confirma que não houve retração. Mas o desafio permanece: converter expansão quantitativa em transformação qualitativa.
Entre estatística e cotidiano existe uma ponte estrutural. Em 2025, ela avançou — mas ainda não na velocidade capaz de alterar de forma ampla a experiência diária da maioria.
O país cresceu.
A questão central é como fará esse crescimento atravessar a ampulheta e chegar, de maneira mais ampla e consistente, à vida concreta.
Yuval Noah Harari defende adaptabilidade diante das incertezas da inteligência artificial
Por ocasião de artigo publicado no The New York Times
O historiador israelense afirmou que a humanidade enfrenta um momento inédito de incerteza quanto ao futuro do trabalho e das relações sociais em razão do avanço da inteligência artificial.
A questão não é apenas quais setores crescerão, mas como as próprias bases do mercado de trabalho poderão se reorganizar.
📌 Versão em Português
“Esta é a primeira vez na história em que ninguém tem ideia de como o mundo será daqui a dez anos — como será o mercado de trabalho, como serão as relações sociais, e assim por diante.
Portanto, diversifique seus riscos. Não foque apenas em uma área restrita, como programação.
Dê igual importância à sua mente (habilidades intelectuais), ao seu coração (habilidades sociais) e às suas mãos (habilidades práticas).
É na combinação dessas três dimensões que os humanos ainda mantêm uma grande vantagem sobre a inteligência artificial.”
📌 English Version
“This is the first time in history that nobody has any idea what the world will look like in 10 years — what the job market will look like, what social relations will look like, and so on.
So hedge your bets. Don’t focus on a narrow subject like coding.
Give equal importance to your head (intellectual skills), your heart (social skills), and your hands (motor skills).
It is in the combination of these three that humans still have a large advantage over AI.”
Nota editorial
A declaração reforça um ponto que dialoga diretamente com o cenário econômico descrito ao longo deste artigo.
Se o Brasil enfrenta o desafio de transformar crescimento quantitativo em desenvolvimento estrutural, indivíduos e instituições enfrentam desafio semelhante no plano tecnológico: não basta especialização estreita; é necessária formação ampla, adaptável e capaz de combinar competência técnica, inteligência social e habilidades práticas.
Em um ambiente econômico marcado por crescimento concentrado, investimento ainda limitado e rápida transformação tecnológica, adaptabilidade deixa de ser virtude abstrata e passa a ser estratégia concreta.
Síntese final
O Brasil cresceu 2,3% em 2025.
A estrutura desse crescimento revela avanços e limites.
E o ambiente tecnológico global adiciona uma camada adicional de incerteza.
Entre expansão externa, desafios internos e transformação digital acelerada, a variável estratégica comum é clara: capacidade de adaptação — institucional, produtiva e individual.
Crescimento é dado estatístico.
Desenvolvimento é construção histórica.
E adaptação, hoje, tornou-se condição de sobrevivência econômica.
O Voto Não Revoga a Dignidade
Direito e Razão: Teoria do Garantismo Penal
por Luigi Ferrajoli (Autor)
"Nenhuma maioria, nem mesmo a unanimidade, pode legitimar a violação de direito fundamental."
Luigi Ferrajoli
A parte crítica, repito, não é menos importante do que a construtiva. Uma e outra se apoiam e se justificam reciprocamente. Não é casual que, naSífjágrnas finais, Ferrajoli cite com honra o "precioso pequeno livro" de Jhering, A luta pelo direito, no qual a luta pelo direito se apresenta como um dever para nós mesmos e para os demais. Não é por acaso que nas mesmas páginas se recupere com honra o princípio da "garantia social", enunciado no art. 23 da Constituição francesa de 1793, definida como a "ação de todos para assegurar a cada um o gozo e a conservação de seus direitos". Paradoxalmente, para concluir, até mesmo o mais perfeito sistema do garantismo não pode encontrar em si mesmo sua própria garantia e exige a intervenção ativa por parte dos indivíduos e dos grupos na defesa dos direitos que, ainda quando se encontrem normativamente declarados, nem sempre estão definitivamente protegidos. íTiirim) junho de 1989. NORBERTO BOBBIO
Marcelo Cerqueira, advogado de presos políticos e deputado
Publicado em 03/03/2026 - 06:51 Luiz Carlos Azedo
Brasília, Congresso, Eleições, Justiça, Memória, Militares, Partidos, Política, Política, Rio de Janeiro, Segurança, Violência
O ex-parlamentar foi um dos principais advogados de perseguidos da ditadura militar do Rio de Janeiro e protagonizou no Congresso a campanha da anistia, ao lado do senador Teotônio Vilela
A história da redemocratização brasileira não pode ser contada sem referência a Marcelo Cerqueira, um dos mais combativos advogados e parlamentares do período autoritário. Militante da causa democrática, notabilizou-se por sua atuação jurídica em defesa de perseguidos políticos e pela presença destacada na campanha da anistia, ao lado do senador Teotônio Vilela, o “Menestrel das Alagoas”, que percorreu o país conclamando a sociedade à reconciliação nacional.
BORA COMEÇAR MEU POVO!
Letícia Damasceno, âncora do Integração Notícia, em registro desta terça-feira, 03 de março de 2026. À frente do matinal da TV Integração Juiz de Fora desde setembro de 2025, a jornalista tem se destacado pela sensibilidade e conexão direta com a Zona da Mata, especialmente após a cobertura emocionante das chuvas no Jardim Natal. Além da bancada, Letícia segue dando voz às periferias através do quadro "Fala Comunidade".
A frase sintetiza uma das ideias centrais do garantismo de Luigi Ferrajoli: os direitos fundamentais não se submetem ao voto. Não são concessões do Estado. Não dependem de consenso. São limites ao poder.
Ferrajoli desenvolveu essa tese em Direito e Razão, obra que marca o pensamento jurídico contemporâneo. O livro nasceu nos anos de chumbo na Itália, quando o sistema penal foi instrumentalizado para combater a violência política dos anos 1970.
A tese central é simples e radical: nenhuma emergência, nenhum clamor popular, nenhuma unanimidade justifica violar direitos fundamentais.
Porque quando esses direitos cedem diante da vontade majoritária, o que sobra não é democracia. É tirania com votos.
segunda-feira, 2 de março de 2026
Quem pode investigar quem? Por Carlos Pereira
O Estado de S. Paulo
A intervenção do Supremo em CPI desafia os contornos práticos da separação de poderes
Quando a interferência do Supremo Tribunal Federal na política é indevida? A pergunta não é retórica. Ela ganha concretude quando o Judiciário intervém no funcionamento de uma Comissão Parlamentar de Inquérito – instrumento clássico de controle político exercido por minorias parlamentares.
Uma CPI é, muitas vezes, o que resta a uma minoria legislativa para fiscalizar governos, expor condutas potencialmente ilícitas e produzir informação qualificada. Em democracias ancoradas no princípio da separação de poderes, trata-se de mecanismo legítimo de controle.
Paradoxalmente, porém, raramente uma CPI consegue impor perdas políticas reais a governos. A maioria parlamentar tende a esvaziar investigações inconvenientes. Por isso mesmo, a Constituição protege o direito de minorias instaurarem CPIs desde que preenchidos requisitos formais.
Uma vez instalada, a comissão não é estática. Ao longo das investigações, fatos novos surgem, conexões inesperadas aparecem e o escopo original pode ser ajustado. A dinâmica investigativa não é linear. CPIs não são peças processuais imutáveis; são arenas políticas de produção de informação.
Foi nesse contexto que a CPI do Crime Organizado redirecionou seus trabalhos e passou a investigar o Banco Master. Aprovou a quebra de sigilos da empresa Maridt Participações, pertencente ao ministro Dias Toffoli e seus irmãos. O ministro Gilmar Mendes anulou a decisão sob o argumento de desvio de finalidade e abuso de poder.
A questão central não é se o Supremo pode controlar atos de uma CPI. Pode – e deve – quando há violação de direitos fundamentais ou extrapolação constitucional. O Judiciário é guardião das garantias individuais, inclusive contra abusos parlamentares.
O problema surge quando o controle deixa de ser jurídico e passa a definir o alcance político da investigação. Se qualquer adaptação do objeto for tratada como desvio, o instrumento perde elasticidade – e efetividade. O risco é transformar controle judicial em veto antecipado.
É evidente que CPIs podem ser instrumentalizadas politicamente. Mas essa é precisamente sua natureza: são instrumentos políticos de investigação. O filtro contra abusos não pode ser a supressão prévia da apuração, mas a exigência de fundamentação adequada, respeito ao devido processo e proporcionalidade nas medidas adotadas.
O STF está protegendo direitos ou delimitando o alcance da fiscalização parlamentar? A resposta não define apenas o destino da CPI do Master. Ela ajuda a estabelecer os contornos práticos da separação de poderes no Brasil contemporâneo. •
RODA VIVA | ALESSANDRO VIEIRA | 02/03/2026
segunda-feira, 2 de março de 2026
Segredo judicial, uso e abuso, por Demétrio Magnoli
O Globo
A aparente parceria Toffoli-Moraes espalha um rastro de suspeita sobre toda a paisagem
Nos sistemas democráticos, a sociedade deposita confiança extrema nas autoridades encarregadas de gerenciar a Justiça. A prova encontra-se no instituto do segredo judicial. Aceitamos que elas detenham informações temporariamente vedadas a nós — concordamos com uma radical assimetria de poder. A implicação: vandalizar o privilégio do monopólio da informação é uma traição maior de confiança. O STF envereda por esse caminho, sob a alegação paradoxal de que vivemos em excepcionalidade permanente.
O segredo de Justiça tem diversas finalidades, como proteger as investigações contra interferências dos acusados e preservar a identidade das vítimas de certos crimes repugnantes. Serve, ainda, no caso desse tipo de crimes, para evitar a exposição pública de suspeitos não declarados réus. As manipulações do segredo no inquérito 4.781, das fake news, e na efêmera relatoria de Toffoli à frente do caso Master cumprem outras funções, que são ilegítimas.
O inquérito das fake news, instituído de ofício pelo STF e sem sorteio de relatoria, nasceu como excepcionalidade, nos idos de março de 2019. Sob o pesado manto do segredo, censurou reportagem de uma revista, derrubou um número desconhecido de perfis de redes sociais e prolongou-se no tempo, englobando uma vasta coleção de casos sem conexão direta com o objeto original.
A emergência criada pela conspiração golpista do bolsonarismo, justificativa oferecida pelo plenário do tribunal, esgotou-se com a transformação dos investigados em réus, há quase um ano — mas o inquérito prosseguiu. Seu desdobramento mais recente foi a imposição de medidas cautelares contra auditores da Receita Federal, seguida pela abertura de investigação contra Kleber Cabral, presidente da entidade de classe dos auditores, motivada apenas por entrevistas concedidas à imprensa.
O segredo imposto ao inquérito não protege as investigações ou preserva vítimas. Sua utilidade primária é limitar o escrutínio público dos atos judiciais do relator, Alexandre de Moraes. Não sabemos que perfis de redes sociais foram derrubados nem o motivo de tais atos de censura permanente. Ignoramos as razões para a retirada de passaportes e a aplicação de tornozeleiras eletrônicas a funcionários públicos não declarados réus. Desconhecemos o teor da acusação contra um líder classista que se limitou a pronunciar críticas às duras cautelares contra seus representados.
O segredo de Moraes tem validade seletiva, não excluindo a publicidade oportunista. Os nomes dos auditores investigados foram, oficialmente, tornados públicos. Por essa via, o relator pinta um rótulo na testa de cada um — mas, ao mesmo tempo, impede que apresentem à opinião pública seus argumentos de defesa. A segunda utilidade do segredo judicial controlado pelo relator é a intimidação do conjunto dos auditores fiscais.
Toffoli aprendeu a lição do abuso de poder. Na relatoria do caso Master, impôs segredo máximo sobre o inquérito e cercou a investigação da PF por restrições incomuns, sob a justificativa absurda de evitar choques a um sistema financeiro que já absorveu a liquidação do banco de fantasia. Aí, o segredo judicial é uma venda aplicada aos olhos da sociedade, proibindo-a de conhecer a extensa teia de relações políticas de Daniel Vorcaro.
Os atos intimidatórios de Moraes, que parecem conectados às iniciativas extravagantes de Toffoli, configuram uma invasão das prerrogativas de André Mendonça, novo relator do caso Master. No fim, o relator do inquérito das fake news nomeou a si mesmo correlator do inquérito sobre a pirâmide financeira de Vorcaro. A aparente parceria Toffoli-Moraes espalha um rastro de suspeita sobre toda a paisagem.
É que, sobre os dois ministros, paira a sombra de segredos não judiciais: o contrato da mulher de Moraes com o Master e os negócios da empresa de Toffoli com fundos vinculados a Vorcaro. Pode não ser nada — ou ser muito.
O abuso do segredo volta-se contra o próprio STF, oferecendo verossimilhança às narrativas políticas extremistas. Passa da hora de levantar as cortinas, iluminando o palco onde circulam os juízes de capa preta.
domingo, 1 de março de 2026
Brasil
🔴 BREAKING NEWS: Programa Especial - Conflito EUA x Irã | 01/03/2026
CNN Brasil
Transmissão iniciada há 56 minutos #CNNBrasil
Assista AO VIVO ao Programa Especial - Conflito EUA x Irã - deste domingo, 1º de março de 2026. #CNNBrasil
📰 Gazeta de Notícias
Edição da Manhã — Segunda-feira, 2 de março de 2026
Rio de Janeiro
CRÔNICA DA SEMANA
Entre a Razão e o Sonho da Paz
Por Machado de Assis & Carolina Augusta Xavier de Novais
Introdução
Dizem que a humanidade progride como um cavalheiro distraído: dá dois passos adiante, detém-se para contemplar a paisagem, e logo percebe que trouxe consigo as mesmas sombras de ontem.
Não mudaram muito os homens; mudaram as máquinas que os acompanham.
Observávamos, Carolina e eu, duas curiosas imagens chegadas à redação desta Gazeta. Parecem pinturas vindas de dois sonhos distintos — ou talvez de duas consciências do mesmo mundo.
Uma fala com a razão severa dos filósofos.
A outra com o murmúrio poético dos artistas.
Comecemos pela primeira.
I — A Razão que Contempla o Abismo
Figura 1 — O mundo político fragmentado entre poder, guerra e esperança.
Aqui o planeta surge como um tabuleiro onde a política move peças que lembram generais, tratados e máquinas de destruição. Há uma sensação inquietante: a própria Terra parece transformada em objeto de cálculo.
Não nos surpreende. Desde os clarões de Hiroshima e Nagasaki, a humanidade passou a viver com uma consciência nova — a de que o progresso pode também ser o engenheiro da ruína.
Dir-se-ia que o espírito de Albert Einstein, se porventura passeasse pelas redações do século XXI, suspiraria ao ver que a ciência continua poderosa, mas a prudência humana ainda é uma aprendiz tardia.
Fala-se hoje de países como personagens de tragédia antiga, cada qual defendendo sua própria narrativa de segurança.
O resultado, contudo, permanece semelhante:
o planeta inteiro transforma-se em palco de uma prudência armada.
Carolina observa — e concordo com ela — que essa pintura tem algo de fragmentação cubista. O mundo aparece dividido em ângulos que não se encaixam, como se as próprias ideias de poder e paz tivessem perdido o centro.
II — O Sonho que Ainda Caminha
Figura 2 — Alegoria visual sobre esperança humana em meio às ruínas do tempo.
A segunda imagem parece menos severa — mas talvez seja mais profunda.
Nela vemos uma criança e uma figura que lembra o andarilho silencioso do cinema. Sentados diante de um planeta cansado, observam o tempo escorrer como um relógio que se dissolve.
É difícil não recordar o humanismo melancólico de Charlie Chaplin. Chaplin sempre soube que o mundo pode ser absurdo — e que, ainda assim, o riso e a ternura são pequenas formas de resistência.
Há nessa pintura algo de sonho:
uma árvore que nasce no deserto,
um planeta sustentado pela mão humana,
uma criança segurando um ramo verde como quem acredita no amanhã.
Talvez seja isto que nos falte com frequência — não tecnologia, nem discursos — mas a simples imaginação de um futuro comum.
Epílogo
No fundo, estas duas imagens contam a mesma história por caminhos distintos.
A primeira diz:
“Cuidado com o poder.”
A segunda responde:
“Lembrem-se da humanidade.”
Entre essas duas frases talvez esteja todo o destino do nosso século.
Se a razão e o sonho conseguirem caminhar juntos, haverá esperança.
Se não, continuaremos a repetir — com máquinas cada vez mais perfeitas — os erros muito antigos do coração humano.
E assim encerramos esta crônica de segunda-feira com a observação doméstica de Carolina, que sempre preferiu a sabedoria simples às teorias grandiosas:
“Se o mundo insiste em fabricar armas, que ao menos as crianças continuem plantando árvores.”
Conselho modesto — mas talvez suficiente para começar uma paz.
Gazeta de Notícias
Tipografia imaginária, porém sincera. 🌿🕊️
S
👆o morro do Cristo, no centro da cidade, partido ao meio. No sopé vários prédios atingidos, deslizamentos, etc.
"A fotografia enviada mostra o Morro do Imperador, também chamado Morro do Cristo, com uma grande cicatriz de deslizamento descendo da crista da montanha até a área urbana de Juiz de Fora. No alto aparece o Cristo Redentor de Juiz de Fora e várias torres de transmissão; ao pé do morro veem-se prédios atingidos ou ameaçados pelo deslizamento.
Essa imagem dialoga de forma surpreendente com a literatura memorialística de Pedro Nava, especialmente no livro Baú de Ossos. Ao reconstituir a paisagem urbana de sua infância, Nava recorda o casarão de sua avó, viúva do engenheiro Henrique Halfeld, um dos fundadores da cidade. Pela posição dominante dessa casa na antiga malha urbana, o autor cria uma imagem literária forte: a cidade parecia “partida ao meio” pelo casarão da avó.
Essa “divisão” em Nava era simbólica. A casa funcionava como ponto de referência que organizava a memória familiar e o espaço urbano: de um lado a cidade que crescia e se modernizava; de outro o núcleo tradicional ligado à família Halfeld, cuja história se concentrava na área central próxima ao atual Parque Halfeld.
A fotografia contemporânea parece transformar essa metáfora em imagem concreta. O morro que domina a cidade surge literalmente cortado por uma fenda, uma cicatriz geológica que desce até o tecido urbano. Assim, a paisagem cria uma espécie de eco visual da narrativa de Nava:
antes, a cidade “dividida” pela memória e pela casa familiar;
agora, o morro que vigia a cidade aparece fisicamente rasgado.
Desse modo, a foto não apenas registra um evento natural — um grande deslizamento —, mas também oferece uma leitura simbólica da cidade. Juiz de Fora continua deitada sob o Morro do Imperador, como tantas vezes descrita por seus cronistas; porém, a montanha que a domina parece hoje marcada por uma fratura que lembra, de maneira inesperada, a poderosa metáfora criada por Pedro Nava em suas memórias."
"Às vezes, compreender uma época exige atenção não apenas aos fatos extraordinários, mas às pequenas frases que circulam entre eles.
Porque muitas vezes é nelas que o tempo se deixa ver."
"Versão final resumida:
A foto mostra um deslizamento de terra real que abriu uma grande cicatriz na encosta da montanha.
A terra e as rochas desceram pela vegetação formando um sulco vertical até a área urbana abaixo.
No topo do morro há antenas e construções, indicando ocupação humana próxima da área instável.
Ideia central: registro visual de um desastre natural causado por deslizamento de encosta, visível claramente a olho nu. 🌄"
Brasil, Mostra A Tua Cara | Ester Carro | 11/08/2024
TV Cultura
🔥 *UM LIXÃO VIROU PARQUE. MULHERES ESTÃO REFORMANDO CASAS NA FAVELA. A DIGNIDADE ESTÁ TRANSFORMANDO VIDAS.*
Neste domingo, 1º de março, às 10h30, o programa “Brasil, mostra a tua cara!”apresentará uma história real que inspira e emociona.
O jornalista Ricardo Viveiros entrevistará a arquiteta Ester Carro, professora da Universidade Presbiteriana Mackenzie, nascida e criada no Jardim Colombo, na comunidade de Paraisópolis, em São Paulo.
À frente do Instituto Fazendinhando, Ester lidera projetos que estão mudando a realidade da região.
💪 O projeto Fazendeiras capacita mulheres da comunidade para atuarem em reformas e acabamentos, gerando renda, autonomia e transformação social.
🌿 O projeto Fazendinha transformou um antigo lixão em parque e espaço de convivência para a comunidade.
Na entrevista, Ester também fala sobre urbanismo social, suas experiências internacionais e o impacto da maternidade em sua trajetória.
✨ Uma conversa sobre coragem, pertencimento e transformação.
📺 Não perca! Domingo, 1º de março, às 10h30, na TV Cultura.
Brasil (Gal Costa) letra completa
Brasil
Canção de Gal Costa ‧ 1991
Não me convidaram
Pra essa festa pobre
Que os homens armaram pra me convencer
A pagar sem ver
Toda essa droga
Que já vem malhada antes de eu nascer
Não me ofereceram
Nem um cigarro
Fiquei na porta estacionando os carros
Não me elegeram
Chefe de nada
O meu cartão de crédito é uma navalha
Brasil
Mostra tua cara
Quero ver quem paga
Pra gente ficar assim
Brasil
Qual é o teu negócio?
O nome do teu sócio?
Confia em mim
Não me convidaram
Pra essa festa pobre
Que os homens armaram pra me convencer
A pagar sem ver
Toda essa droga
Que já vem malhada antes de eu nascer
Não me sortearam
A garota do Fantástico
Não me subornaram
Será que é o meu fim?
Ver TV a cores
Na taba de um índio
Programada pra só dizer "sim, sim"
Brasil
Mostra a tua cara
Quero ver quem paga
Pra gente ficar assim
Brasil
Qual é o teu negócio?
O nome do teu sócio?
Confia em mim
Grande pátria desimportante
Em nenhum instante
Eu vou te trair
(Não vou te trair)
Compositores: George Alberto Heilborn Israel / Agenor De Miranda Araujo Neto / Nilo Romero Filho
Ironia social e política: da frase de Francelino ao trocadilho de Belmiro
A história recente do Brasil oferece um curioso jogo de espelhos entre política, cultura popular e linguagem. Uma frase dita em 1976 atravessa décadas, ganha novos sentidos no rock dos anos 1980 e reaparece, quase cinquenta anos depois, em tom de humor irônico numa entrevista empresarial. Essa trajetória ajuda a compreender como certos símbolos críticos do país são continuamente reaproveitados para comentar o presente.
Tudo começa com Francelino Pereira, então presidente da ARENA durante o regime militar. Em 1976, ele expressou perplexidade diante da desconfiança popular em relação ao processo político da época e perguntou: “Que país é este?”. A frase tinha, naquele contexto, um tom de incredulidade institucional — uma tentativa de defender a legitimidade do sistema político sob o qual o país vivia.
Poucos anos depois, a pergunta ganharia outro destino. O compositor Renato Russo transformou a expressão em matéria-prima para uma crítica social muito mais agressiva. A canção Que País É Este, lançada pela banda Legião Urbana, não repete a frase como dúvida, mas como denúncia. O verso famoso — que fala da presença de problemas “nas favelas” e “no Senado” — transforma a perplexidade de um político em um grito de indignação contra corrupção, desigualdade e violência.
Nesse processo, Renato Russo não apenas repetiu a frase; ele a subverteu. A pergunta institucional tornou-se um refrão de protesto. Aquilo que antes expressava espanto diante da descrença popular passou a apontar diretamente para as razões dessa descrença.
Décadas depois, o mesmo repertório simbólico reaparece de forma inesperada. Durante uma entrevista na CNN Brasil, o empresário Belmiro Gomes, CEO do Assaí Atacadista, fez um trocadilho inspirado na música:
“Da favela ao Senado tem manjar pra todo lado.”
A frase altera o verso da canção ao substituir “sujeira” por “manjar”. O resultado é uma ironia leve, quase bem-humorada, mas carregada de implicações. “Manjar” sugere fartura, banquete, algo abundante. Assim, o que antes era descrito como sujeira política passa a ser insinuado como um banquete de interesses distribuído entre diferentes esferas da sociedade.
O efeito irônico se torna ainda mais interessante quando se observa o perfil social de quem pronuncia a frase. Belmiro Gomes tem origem popular e construiu carreira no varejo até chegar ao topo de uma grande empresa. Sua trajetória de ascensão econômica ecoa, de certo modo, a narrativa de mobilidade social associada ao atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que também emergiu de origem humilde no Nordeste e alcançou o poder político máximo do país.
Essa coincidência de trajetórias produz uma ironia adicional. Em 1976, a frase de Francelino era pronunciada por um representante do regime e contestada por setores da oposição. Décadas depois, o cenário se inverte parcialmente: antigos grupos oposicionistas chegaram ao poder, enquanto figuras vindas de origens populares passaram a ocupar posições de destaque tanto na política quanto no empresariado.
Nesse contexto, o trocadilho de Belmiro pode ser lido como uma crítica bem-humorada ao ambiente econômico contemporâneo — marcado por debates sobre juros elevados, desigualdade de renda, apostas online e outras pressões que afetam principalmente as camadas populares. O humor da frase suaviza a crítica, mas não elimina sua força simbólica: a ideia de que certos mecanismos do sistema parecem funcionar como um “banquete” para alguns enquanto outros lidam com dificuldades cotidianas.
Há ainda um elemento cultural interessante nessa cena. Mesmo após ascender às esferas mais altas da política ou da economia, muitos personagens públicos brasileiros mantêm traços linguísticos populares — expressões coloquiais, sotaques regionais e modos de falar associados às classes trabalhadoras. Isso reforça a ligação simbólica com a origem social e também aproxima o discurso das experiências do público mais amplo.
Assim, a frase percorre um longo caminho histórico. Nasce como perplexidade política nos anos 1970, transforma-se em protesto punk no rock dos anos 1980 e reaparece, décadas depois, como ironia econômica em pleno debate contemporâneo.
O resultado é um exemplo típico da cultura política brasileira: uma mesma expressão atravessando regimes, gerações e posições ideológicas diferentes, sempre reaparecendo como forma de comentar — com indignação, sarcasmo ou humor — a eterna pergunta sobre o país.
sábado, 28 de fevereiro de 2026
Entre Keynes, o nacionalismo econômico e os mitos políticos
O carnaval brasileiro tem uma peculiaridade: ele nunca termina exatamente quando o calendário manda. Começa antes, prolonga-se depois e deixa no ar uma espécie de ressaca coletiva. Algo parecido ocorre com a política contemporânea. As disputas não se encerram quando deveriam, as narrativas prolongam-se para além dos fatos e os personagens transformam-se em mitos que passam a organizar a percepção da realidade.
Foi nesse clima que Marco Aurélio Nogueira observou, recentemente, que a política brasileira tende a caminhar novamente para um confronto entre dois “mitos”: o lulismo e o bolsonarismo. Em tal cenário, advertiu ele, o debate público tende a perder densidade programática e a transformar-se em um duelo de identidades políticas.
Essa observação ajuda a situar um fenômeno mais amplo, que ultrapassa as fronteiras brasileiras. Em diferentes países, a política contemporânea tem sido dominada por lideranças fortemente personalizadas que mobilizam identidades nacionais, ressentimentos sociais e expectativas econômicas.
Entre essas lideranças encontram-se Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, dois personagens frequentemente apresentados como antípodas ideológicos, mas que compartilham algumas características estruturais de atuação política.
Para compreender melhor esse paradoxo, convém convocar à roda uma terceira figura intelectual: John Maynard Keynes.
A esfinge do dinheiro e a política
No ensaio recente de Luiz Gonzaga Belluzzo e Manfred Back, publicado em CartaCapital, Keynes aparece como o pensador que desafiou a pretensão da economia de prever o futuro com exatidão matemática.
No célebre capítulo XII de The General Theory of Employment, Interest and Money, Keynes argumenta que decisões econômicas são tomadas em um ambiente de incerteza radical. Investidores e empresários não operam com certezas, mas com expectativas frágeis, muitas vezes guiadas por estados de confiança ou por ondas de otimismo e pessimismo.
Essa percepção altera profundamente a forma de compreender o capitalismo. Se o futuro é intrinsecamente incerto, o sistema econômico não pode depender apenas da autorregulação dos mercados. Torna-se necessário algum tipo de coordenação institucional capaz de estabilizar expectativas e sustentar a atividade econômica.
Daí emerge o papel do Estado como agente de estabilização do capitalismo, não como seu substituto.
Trump, a globalização e a ruptura
É nesse ponto que a crítica de Marcus Pestana ganha relevância. Em sua leitura, Trump representa uma ruptura com a ordem econômica liberal construída após a Segunda Guerra Mundial.
Essa ordem foi organizada em torno de instituições multilaterais como:
United Nations
International Monetary Fund
World Trade Organization
Durante décadas, tais instituições sustentaram um modelo de capitalismo baseado na globalização produtiva e na liberalização comercial.
Trump rompe parcialmente com esse paradigma ao defender políticas de nacionalismo econômico, protecionismo comercial e prioridade absoluta aos interesses industriais dos Estados Unidos. A retórica do “America First” expressa precisamente essa tentativa de reorganizar a relação entre Estado, mercado e economia nacional.
Paradoxalmente, embora se apresente como defensor do mercado, Trump questiona elementos centrais do capitalismo global liberal.
Lula e o desenvolvimentismo
O caso brasileiro segue outro caminho.
Desde os anos 2000, os governos liderados por Luiz Inácio Lula da Silva têm sido associados a uma tradição desenvolvimentista que combina mercado, políticas sociais e atuação estatal.
Nesse modelo, o Estado atua como indutor do crescimento econômico por meio de:
investimento público
políticas de crédito
expansão do mercado interno
programas de transferência de renda
Tais instrumentos dialogam diretamente com a tradição keynesiana, pois procuram sustentar a demanda agregada e reduzir as oscilações do ciclo econômico.
Se Trump representa uma contestação nacionalista da globalização, Lula procura reorganizar o capitalismo brasileiro ampliando o papel do Estado na promoção do desenvolvimento e da inclusão social.
Mitos políticos e democracia
Apesar dessas diferenças substantivas, há um ponto de convergência que merece atenção. Tanto Trump quanto Lula operam em sistemas políticos marcados por forte personalização da liderança.
Nos Estados Unidos, o trumpismo transformou-se em uma identidade política que ultrapassa o próprio Partido Republicano. No Brasil, o lulismo tornou-se uma referência simbólica que vai além da estrutura partidária do Partido dos Trabalhadores.
É nesse terreno que a advertência de Marco Aurélio Nogueira ganha força. Quando a política passa a girar em torno de mitos, ela tende a empobrecer o debate programático e a reduzir a disputa democrática a um confronto de identidades.
A democracia deixa então de ser um espaço de deliberação sobre projetos coletivos e transforma-se em um campo de batalha entre narrativas políticas concorrentes.
Conclusão
A comparação entre Trump e Lula revela um quadro mais complexo do que a oposição simplificada entre direita e esquerda costuma sugerir.
Lula apresenta maior afinidade explícita com a tradição keynesiana, tanto em sua retórica quanto em sua prática de governo. Trump, por sua vez, rejeita essa tradição no plano discursivo, mas adota em determinados momentos instrumentos fiscais e industriais que produzem efeitos semelhantes aos previstos pela teoria keynesiana.
Ambos permanecem, contudo, dentro do horizonte do capitalismo contemporâneo.
Suas diferenças dizem respeito sobretudo às formas de organização do capitalismo nacional que cada um procura promover.
Em última análise, Trump e Lula representam variantes distintas de um mesmo fenômeno histórico: o retorno do Estado como instrumento de fortalecimento econômico nacional em um mundo marcado pela incerteza — precisamente a condição que John Maynard Keynes identificou como característica permanente do capitalismo moderno.
E talvez seja justamente essa incerteza que explique por que, em tempos de turbulência, as sociedades tendem a buscar não apenas programas econômicos, mas líderes capazes de personificar suas esperanças e seus medos.
S
Não Tem Solução
O carnaval tem um lado esquecido que define seu paradoxal temperamento de ser, ao mesmo tempo, uma festa profana e sagrada. Se no carnaval as irreverências são possíveis, deve-se lembrar que ele ocorre entre o Advento e a Quaresma – o nascimento e a paixão de Cristo.
O carnaval inventa um intervalo libertino entre dois eventos cruciais da religiosidade católica: o nascimento, a morte e a ressurreição de Deus encarnado em Jesus Cristo. A festa de Momo é um espaço de licenciosidades que invertem o cotidiano – gênero e idade são neutralizados; a rua vira casa e a noite, dia; o bloco voluntário substitui a compulsão da família; o canto malicioso, o discurso e a prece; e a estrutura social fantasiosamente se inverte: pobre vira nobre e negro ganha a liberdade do branco.
Depois dessa liberdade cósmica expressa no abuso do corpo ou carne – pois carnaval (carne levare) significa “abandonar a carne” –, chega a Quaresma, exprimindo uma polaridade comum em todas as sociedades: depois do excesso e da guerra, vêm a disciplina e a paz.
Conforme afirmei nas minhas pesquisas, o papel do carnaval neste Brasil legislado e dominado por gente branca que ocupa altos cargos e, se culpada, escapa da lei pela lei, o carnaval se modernizou. Incorporou dimensões capitalistas, organizando-se em grupos profissionais, com desfiles competitivos, ingressos, tempo regulado e prêmios. Nesses tempos de moderno desencanto, o “brincar” tem sido vencido pela competição que – como no esporte e na vida em geral – determina o campeão e o prêmio. Tudo realizado sob a égide do “progresso” que calcula, racionaliza e, como dizia Max Weber, desencanta.
É dentro desse contexto que ocorre a guinada dos deuses, orixás, fadas e outras figuras encantadas para as celebridades. Tudo se passa, como é típico do capitalismo, no movimento que vai dos céus à crueza do mundo real. A fantasia tem sido absorvida pela voracidade capitalista da luta por dinheiro e, com ela, por uma ameaça ainda mais perversa: a da propaganda político-partidária.
Se houver esse movimento infeliz de abrir o carnaval para a louvação e a adesão política, como fez a Escola de Samba Acadêmicos de Niterói ao petismo e ao presidente Lula, o carnaval será canibalizado pelo que ele sublima: a luta de classes, sem pandeiro, mas com guilhotinas.
Seria o fim do que o carnaval expressa como alternativa simbólica. Será a morte de Dom Carnal pela convencionalidade burra, hipocrisia, mentira e pelas regras que, desde a sua invenção, celebram o lado mais humano da nossa humanidade. O riso pelo riso e a vida mesmo sabendo que se morre.
Nota: Se conservador é simbolizado como lata de conserva, todo canhoto seria esquerdista; e os destros, fascistas.
PS: Expresso aqui meus sentimentos pela morte do prof. João Baptista Borges Pereira, um companheiro profissional afetuoso.
Por Marialva Barbosa*
A célebre frase de Karl Marx na abertura de O 18 de Brumário de Luís Bonaparte, de 1852, ainda que se refira a outros contextos e à conjuntura política da França do século XIX (1), serve como epígrafe do texto que ora apresento e que traz algumas reflexões, a partir da história, sobre o terrível momento em que estamos mergulhados.
* Marialva Barbosa é professora titular da Escola de Comunicação (ECO) da UFRJ e pesquisadora do CNPq
Epílogo na avenida
O carnaval brasileiro sempre foi mais do que festa. Como lembra Roberto DaMatta, ele é uma espécie de laboratório simbólico da sociedade: um momento em que hierarquias se embaralham, papéis se trocam, identidades se reinventam e o cotidiano é suspenso por alguns dias de licença ritual.
Na avenida, o mundo se reorganiza como narrativa.
O pobre vira rei, o rei vira caricatura, a ordem vira brincadeira e a brincadeira revela a ordem. A fantasia não oculta a realidade; ela a ilumina por contraste. No desfile carnavalesco, mito e rito caminham juntos: os personagens tornam-se símbolos e os símbolos passam a organizar a percepção coletiva do mundo.
Algo semelhante acontece na política contemporânea.
Em tempos de incerteza econômica e de turbulência institucional — justamente o tipo de cenário que John Maynard Keynes descreveu como próprio do capitalismo — as sociedades passam a buscar narrativas capazes de dar sentido ao caos. Líderes políticos transformam-se em personagens quase míticos, encarnando expectativas, medos e promessas de redenção coletiva.
Assim, o debate público frequentemente se organiza menos em torno de programas e mais em torno de figuras simbólicas.
No Brasil, o enredo dominante parece girar em torno de personagens como Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro, enquanto no plano internacional a figura de Donald Trump ocupa papel semelhante na política norte-americana.
Cada um deles funciona como um tipo de personagem carnavalesco da política: condensações simbólicas de valores, ressentimentos, projetos e identidades coletivas.
Como nos desfiles de escola de samba, o enredo não é apenas racional. Ele é afetivo, narrativo, imagético. Ele organiza o imaginário social.
Mas, como também ensina DaMatta, o carnaval não destrói a ordem social: ele a revela.
Depois da folia, todos voltam para casa. A fantasia retorna ao armário, os instrumentos silenciam e a vida cotidiana retoma seu curso. O rito termina, mas deixa marcas no modo como a sociedade se percebe.
Talvez a política democrática funcione de maneira semelhante.
Ela precisa de rituais — eleições, debates, manifestações — e também de narrativas capazes de mobilizar cidadãos. O risco surge quando o mito substitui completamente o debate público e quando a política passa a ser vivida apenas como desfile de identidades irreconciliáveis.
Nesse caso, a avenida fica cheia de personagens, mas vazia de projetos.
O desafio democrático consiste justamente em manter aberta a praça pública onde os cidadãos possam conversar para além dos mitos, sem negar a dimensão simbólica que inevitavelmente acompanha a vida política.
Afinal, como no carnaval, a sociedade precisa de enredos que a representem — mas precisa também lembrar que, ao final do desfile, o que permanece não é a fantasia, e sim a realidade comum que todos terão de compartilhar quando a música parar.
E quando isso acontece, talvez a melhor sabedoria seja a mais antiga das escolas de samba da política:
saber celebrar, mas também saber governar depois que a avenida se esvazia. 🎭
S
Sexo
Eu sei, e estou certo no Senhor Jesus, que nenhuma coisa é de si mesma imunda a não ser para aquele que a tem por imunda. – Paulo. (Romanos, 14:14.)
Quando Paulo de Tarso escreveu esta observação aos romanos, referia-se à alimentação que, na época, representava objeto de áridas discussões entre gentios e judeus.
Nos dias que passam, o ato de comer já não desperta polêmicas perigosas, entretanto, podemos tomar o versículo e projetá-lo noutros setores de falsa opinião.
Vejamos o sexo, por exemplo. Nenhum departamento da atividade terrestre sofre maiores aleives. Profundamente cego de espírito, o homem, de maneira geral, ainda não consegue descobrir aí um dos motivos mais sublimes de sua existência. Realizações das mais belas, na luta planetária, quais sejam as da aproximação das almas na paternidade e na maternidade, a criação e a reprodução das formas, a extensão da vida e preciosos estímulos ao trabalho e à regeneração foram proporcionadas pelo Senhor às criaturas, por intermédio das emoções sexuais; todavia, os homens menoscabam o lugar santo, povoando-lhe os altares com os fantasmas do desregramento.
O sexo fez o lar e criou o nome de mãe, contudo, o egoísmo humano deu-lhe em troca absurdas experimentações de animalidade, organizando para si mesmo provações cruéis.
O Pai ofereceu o santuário aos filhos, mas a incompreensão se constituiu em oferta deles. É por isto que romances dolorosos e aflitivos se estendem, através de todos os continentes da Terra.
Ainda assim, mergulhado em deploráveis desvios, pergunta o homem pe la educação sexual, exigindo-lhe os programas. Sim, semelhantes programas poderão ser úteis; todavia, apenas quando espalhar-se a santa noção da divindade do poder criador, porque, enquanto houver imundície no coração de quem analise ou de quem ensine, os métodos não passarão de coisas igualmente imundas.
Livro PÃO NOSSO – EMMANUEL / Chico Xavier – 94 – Sexo
Centro Espírita No Caminho da Luz - Espiritismo Cristão Chico Xavier 12 de junho de 2015 | 1
94
Sexo
Pão Nosso #094 - Sexo
NEPE Paulo de Tarso | Evangelho e Espiritismo
Transmitido ao vivo em 30 de mar. de 2023
Série de estudos, com Artur Valadares, da obra "Pão Nosso", de Emmanuel/Chico Xavier.
A estação de Peirópolis, sem data. Foto cedida por A. C. Belviso
PAINEIRAS
“Frederico Peiró residia a quatro léguas da nascente do rio Uberaba, próximo à estação ferroviária de Paineiras — mais tarde, Peirópolis, em homenagem aos grandes serviços que ele prestara ao local — ao pé de uma cadeia de alterosas serras, que descrevem uma curva circular quase fechada, compostas algumas delas de enormes moles de rocha calcárea, donde graças a essa riqueza e ao gênio empreendedor de Peiró, formou-se um núcleo considerável de população laboriosa e próspera, à qual não faltava a escola, a Agência do Correio, o Telefone, a Farmácia Espírita gratuita e outros benefícios.
Aquelas rochas são ali convertidas em alta escala, em alvo e saboroso pão, em fartura para toda aquela pequena colmeia humana. Pois não há só indivíduo completamente pobre: têm tudo o que é indispensável à vida, mesmo aqueles que não podem trabalhar por doença ou velhice.”
Recolhemos esses dados da Gazeta de Uberaba, de 12 de março de 1910.
Transcrevemos da mesma excelente crônica, o extraordinário retrato do espanhol, que teve papel destacado no pioneirismo Espírita do Brasil, em nossa região.
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Corina Novelino
Ei-lo:
É um homem de estatura mediana, bem proporcionado, rosto sensivelmente redondo e de traços regulares, cabelos e bigode loiros, olhos azuis, fisionomia simpática e aspecto de bondade.
É singelo no vestir e no dizer e jamais faz alarde de suas obras. À primeira vista parecer anglo-saxão; mas viu a luz primeira no esplendoroso sol da zona temperada do hemisfério setentrional, na pitoresca Ibéria, sob céu azul da Andaluzia, no ubérrimo solo da Província de Jean, em Linares.
Há cerca de três lustros reside nesta vasta, fértil e encantadora Minas.
Emprega a sua atividade, com inteligência, na indústria, no comércio e na agricultura, auferindo bons resultados.
Nunca, porém, será grande pela riqueza, pois professa a religião do Bem e essas duas grandezas são, no mesmo indivíduo e no estado atual das coisas, incompatíveis (sic).
É um propagandista incansável da evolução, do aperfeiçoamento humano.
Acorre e auxilia, moral e materialmente, todas as causas e idéias, que tendem ao bem geral.
É justamente estimado por todos aqueles que vivem a seu redor, seguindo-lhe de maneira louvável os exemplos, a sã orientação, que ele sabe imprimir aos seus atos.
É um dos poucos homens que têm coração, que sentem os males alheios, que têm a noção das causas que se originam e que cumprem com assombro dever combater estas e diminuir aqueles, na medida de suas possibilidades, prestando aos seus semelhantes a maior soma possível de benefícios.
Onde há sofrimentos a mitigar, necessidades a socorrer, enfermos a assistir, prejuízos a combater, aí está o humano indivíduo, cuja imagem tive por um instante ante o objetivo, pronto a prestar todo o seu valioso concurso, a praticar a sublime religião, cujo único ídolo é o Bem.
Como se vê, o homem e suas tarefas edificadoras foram focados com respeito, lealdade e abertamente. Todavia, a Doutrina Espírita, que ele professava desde 1896, aparece na imprensa leiga da época sob um véu sutil...
Mas, o essencial é salientar a personalidade, seus esforços nas tarefas doutrinárias e fraternas.
Um opúsculo, divulgado em 1915, dedicado a Frederico Peiró pela colônia espanhola, de Uberaba, traz importante registro histórico, no campo do Espiritismo, em Minas Gerais.
Acentua o valioso documentário que, até 1893, Frederico Peiró era materialista, adiantando, que, nesse tempo, freqüentou sessões espíritas,
Eurípedes — o Homem e a Missão
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O mandamento maior
4. Mas, os fariseus, tendo sabido que ele tapara a boca aos saduceus, se reuniram; – e um deles, que era doutor da lei, foi propor-lhe esta questão, para o tentar: – Mestre, qual o grande mandamento da lei? – Jesus lhe respondeu: Amarás o Senhor teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu espírito. – Esse o maior e o primeiro mandamento. – E aqui está o segundo, que é semelhante ao primeiro: Amarás o teu próximo, como a ti mesmo. – Toda a lei e os profetas se acham contidos nesses dois mandamentos. (S. MATEUS, 22: 34 a 40.)
5. Caridade e humildade, tal a senda única da salvação. Egoísmo e orgulho, tal a da perdição. Este princípio se acha formulado nos seguintes precisos termos: “Amarás a Deus de toda a tua alma e a teu próximo como a ti mesmo; toda a lei e os profetas se acham contidos nesses dois mandamentos.” E, para que não haja equívoco sobre a interpretação do amor de Deus e do próximo, acrescenta: “E aqui está o segundo mandamento que é semelhante ao primeiro”, isto é, que não se pode verdadeiramente amar a Deus sem amar o próximo, nem amar o próximo sem amar a Deus. Logo, tudo o que se faça contra o próximo o mesmo é que fazê-lo contra Deus. Não podendo amar a Deus sem praticar a caridade para com o próximo, todos os deveres do homem se resumem nesta máxima: FORA DA CARIDADE NÃO HÁ SALVAÇÃO.
O Evangelho seg. o Espiritismo [Ep95] Parábola do Bom Samaritano (cap XV, 1-3)
Náo perca a chance de ser feliz.
A felicidade de um instante fica
gravada para sempre no coração.
PEIRÓPOLIS 🦕
Do presente ao passado: A História de Peirópolis antes dos fósseis
setembro 23, 2019 Pet História
Peirópolis, bairro uberabense ícone da Paleontologia, tem uma História singular. Quando passeamos pelos jardins ou visitamos o Museu, deslumbrados pelo bucolismo do lugar, quase ninguém percebe que ali já foi uma estação ferroviária. Este espaço, bem como outra dezena de construções da região central do bairro passaram,desde 1992, por processos de tombamentos pelo Patrimônio Histórico de Uberaba.
Todo este processo e a conversão do prédio da antiga estação férrea em Museu Paleontológico foi uma luta empenhada pelos moradores da comunidade. No fim da década de 1980, eles se uniram, através da Associações do Amigos e Moradores de Peirópolis, para barrar a dinamitação das rochas para exploração do calcário, já que elas continham grande quantidade de fósseis por escavar. Além disso, munidos de um sentimento coletivo e conscientes da riqueza patrimonial dos fósseis, os moradores lutaram por um espaço de pesquisa e exposição dos fósseis encontrados no bairro, pois, na ausência deste espaço, eles eram levados para o Rio de Janeiro. Trabalho este articulado pelo renomado cientista – e que hoje nomeia o museu – Dr. Llewellyn Ivor Price (1905- 1980). Assim, a comunidade conquistou este espaço de pesquisa e exposição no prédio da antiga estação férrea.
Ela esteve abandonada desde 1970, quando foi desativada. Neste intervalo (1970-1992), o bairro teve uma estagnação do grande movimento que a ferrovia proporcionava. A causa disso? Um trágico acidente em 28 de setembro de 1970. O trem descarrilou em uma subida e os vagões de cimento tombaram sobre os vagões de pessoas. A tragédia deixou uma comunidade de famílias em luto e encerrou a célebre ferrovia.
Ela representa uma saudade constante de um bairro distante da urbanidade, porém, completamente antenado. A ferrovia integrava o bairro com todas as cidades vizinhas através do transporte de pessoas, além de escoar a produção do cal. Peirópolis que antes se chamava Paineiras (1899), foi reflexo do progresso brasileiro dos anos 1910 e 1920. Além da prosperidade econômica na figura da ferrovia, o bairro era rural, mas se comunicava com outros lugares através da linha telefônica na Casa da Telefonista e um posto dos Correios e Telégrafos na estação, que recebia correspondências diariamente.
O nome que homenageia a estação em 1924 é do imigrante espanhol Frederico Peiró (1859-1915). Empreendedor e visionário, ele chega ao bairro na mesma década que a ferrovia, em meados de 1890. Peiró é o precursor de dois eventos marcantes e que atravessam a história do lugar: a religião e a escola. Amigo de Eurípedes Barsanulfo, Peiró estimulou o espiritismo, sendo que, esta foi a religião preponderante no bairro, que possui três centros espíritas. Nos dias de hoje, o espiritismo teve uma pequena decadência, mas ainda é forte e coexiste pacificamente com católicos e protestantes. A escola também é icônica: datando de 1910, em um período em que a educação era elitizada, o espanhol construiu uma escola para os filhos de seus funcionários. Atualmente ela está sob a gestão municipal.
Assim, do Passado ao Presente, na Pacata Paineiras, passou Peiró com o Progresso, passou o Price com a Paleontologia e a peculiar Peirópolis pode parecer um pedacinho do paraíso.
Fontes
¹http://www.portaluberaba.online/peiropolis-e-tema-de-livro-que-sera-entregue-com-sessao-de-autografos-no-dia-28-de-junho/
²http://www.curtamais.com.br/uberaba/peiropolis-a-terra-dos-dinossauros-e-um-dos-passeios-imperdiveis-em-uberaba
³Acervo PET História UFTM, 2019.
⁴Acervo PET História UFTM, 2019
⁵Acervo PET História UFTM, 2019
⁶Associação dos Amigos e Moradores de Peirópolis, sem data.
⁷Acervo da Associação de Amigos de Peirópolis, década de 1980
⁸Acervo da Associação de Amigos de Peirópolis, 1989
⁹Lista de Agências Postais em 1911 enumera uma agência na Estação Paineiras em Uberaba - Hemeroteca Digital. Diccionario Postal Brasileiro, 1911. Edição A00068, p.66. Disponível em: http://bit.ly/2kWZ6Jn
¹⁰Lista de ida e volta de trens na Estação Paineiras da Companhia Mogyana. Almanak Laemmert, 1910, Edição A00067, p.399. Disponível em: http://bit.ly/2mzTpkM
Tobias Rosa foi um dos dirigentes do Jornal Gazeta de Uberaba. Imagem do final do século XIX. Acervo: Superintendência do Arquivo Público de Uberaba.
Jornal Gazeta de Uberaba
Acervo: 1879 a 1912
A Imprensa no Brasil:
Os jornais são referências fundamentais para as pesquisas historiográficas por garantirem acesso à informação e revelarem ideologias diferenciadas, as tradições, os usos, os costumes, as atividades comerciais, os aspectos políticos, sociais, culturais e econômicos, que marcaram a trajetória de um povo.
No Brasil, qualquer atividade de imprensa era proibida antes de 1808 e, consequentemente a imprensa brasileira nasceu tardiamente, assim como o ensino superior, as manufaturas, a própria independência política e a abolição da escravatura.
Ao contrário dos principais países latino-americanos, o Brasil entrou no século XIX sem tipografia, sem jornais e sem universidades, inviabilizando a formação do público leitor. Isso gerou um legado de analfabetismo, sentido até hoje.
A primeira tipografia a funcionar de forma duradoura no País viria a bordo da nau Medusa, integrante da esquadra que transferiu a Corte Portuguesa para o Brasil em 1808, fugindo das tropas napoleônicas. Utilizando-se desse material tipográfico o príncipe D. João baixou um decreto em 13 de maio de 1808, determinando a instalação da Impressão Régia no Rio de Janeiro, com a ressalva de que nela “se imprimam exclusivamente toda a legislação e papéis diplomáticos que emanarem de qualquer repartição do meu real serviço, e se possam imprimir todas e quaisquer obras, ficando inteiramente pertencendo seu governo e administração à mesma Secretaria”.
A imprensa brasileira tem como marcos fundadores: o lançamento, em Londres, do Correio Braziliense, em 1º de junho, e a criação da Gazeta do Rio de Janeiro, em 10 de setembro, ambos de 1808.
Apesar dos percalços e limitações, a imprensa brasileira conquistou espaço em sua trajetória histórica e possui um número apreciável de jornais que têm revelado notável capacidade de inovação técnica e editorial, o que lhes permitem vencer todos os desafios surgidos até hoje.
A Imprensa em Uberaba:
Em Uberaba, a imprensa surgiu em fins do século XIX e desde então revela fatos importantes que marcaram a história da cidade e do Brasil. Os jornais fundados na cidade tiveram o desafio de construir um jornalismo informativo, crítico e esclarecedor.
O primeiro jornal impresso que se tem notícia no Triângulo Mineiro surgiu em Uberaba, intitulado O Paranaíba, que segundo o pesquisador Hildebrando Pontes[1], foi criado pelo médico francês Henriques Raimundo des Genettes em 01 de outubro de 1874.
Hildebrando Pontes revela que a maioria dos primeiros impressos obedecia a fins políticos, “daí ser a política uma das causas que mais eficazmente contribuíram para o progressivo desenvolvimento da imprensa entre nós” [2]. Lembra que por estes impressos manterem posicionamentos políticos em suas abordagens, alguns jornalistas sofreram violências das partes ofendidas.
Segundo Hildebrando Pontes, em boa parte era graças aos jornais que a civilização ganhava força: “Hoje, graças ao benemérito influxo da civilização, cuja maior parte se deve à imprensa, a leitura de jornais é tão necessária ao espírito como o alimento que da vida e força ao organismo. Um fato parece não ter importância se dele não se ocupa a imprensa”.
Jornal Gazeta de Uberaba:
Com a preocupação em viabilizar para o público o acesso às informações pertinentes à imprensa de Uberaba, a Superintendência do Arquivo Público tem como um dos objetivos recuperar acervos documentais. Diante disso, intermediou junto a Arnaldo Rosa Prata, ex-prefeito de Uberaba, a disponibilização do Jornal Gazeta Uberaba para ser digitalizado e disponibilizando via internet para o público.
O Gazeta de Uberaba foi distribuído pela primeira vez em 1875 e teve como primeiro diretor e redator José Alexandre de Paiva Teixeira. Na primeira etapa de sua existência foi publicado até fevereiro de 1876.
Em 27 de abril de 1879 o mesmo jornal foi recriado por João Caetano e Tobias Rosa (tio de Arnaldo Rosa Prata) e nessa época o impresso manteve uma atuação político-partidária oponente ao Partido Liberal que era representado por outro jornal com o título de Correio Uberabense.
O Jornal Gazeta de Uberaba foi o quarto periódico criado em Uberaba.
Arnaldo Rosa Prata resguarda o acervo há anos e gentilmente emprestou os jornais para serem digitalizados pela Superintendência do Arquivo Público de Uberaba. Um acervo de grande importância para a história do município e região e se refere ao período de 27 de abril de 1879 a 1912.
O Gazeta de Uberaba era um periódico semanal, que após 30 de novembro de 1894 passou a circular seis vezes por mês. Em 1º de janeiro de 1903, a circulação passou a ser diária e tornou-se o primeiro jornal diário que Uberaba teve.
Nas oficinas montadas com capricho, na Rua Tristão de Castro, nº 2, executavam-se excelentes trabalhos de arte tipográfica. A sua tiragem era de 1.200 exemplares impressos em 4 a 6 páginas. Na sua existência de aproximadamente meio século de circulação, o Gazeta de Uberaba contava com um numeroso corpo de colaboradores representados por distintos jornalistas nacionais e estrangeiros.
Em 1891 assumiu a direção do jornal o professor Alexandre Barbosa, sucedido pelo promotor de justiça pública de Uberaba, Joaquim José Saraiva Júnior, que também não permaneceu por muito tempo na direção, uma vez que foi transferido para a Promotoria de Monte Alegre. Sendo assim, a coordenação e redação passaram para as mãos de Chrispiniano Tavares, José Maria Teixeira de Azevedo e outros. Quando entrou em cena a República, a aderência política afeita pela folha ajustou-se ao Partido Republicano Mineiro (PRM).
Já no ano de 1895, o então proprietário do jornal Gazeta de Uberaba, Tobias Antônio Rosa, mudou-se para o município de Ribeirão Preto, levando consigo o jornal, que passou a ser intitulado São Paulo e Minas. Em 1897 Tobias Antônio Rosa voltou para Uberaba e reabriu as portas da redação do jornal com o seu nome anterior, Gazeta de Uberaba.
Na sucessão da presidência do Estado de Minas Gerais, de Bias Fortes, para Silviano Brandão, surgiu em Uberaba o Partido da Lavoura e Comércio, entidade que representava os interesses de segmentos econômicos da região que eram contrários às taxações cobradas em detrimento aos seus interesses financeiros. Assim nasceu também o jornal Lavoura e Comércio, em 1889, de propriedade de Antônio Garcia de Adjunto. O embate de interesses políticos na região ficou marcado claramente nas linhas editorias dos dois jornais: de um lado estava o Gazeta de Uberaba, alinhado com as proposições políticas do governo de Minas Gerais, de Silviano Brandão; do outro lado, o Lavoura e Comércio, entrincheirando os interesses classistas locais.
A oposição do jornal Gazeta de Uberaba ao jornal Lavoura e Comércio se deu até a fusão do Partido da Lavoura e Comércio com o Partido Republicano Mineiro, em janeiro de 1903. Após esse período o Gazeta de Uberaba centrou-se noutras questões de interesses gerais como relata Pontes[3].
Hildebrando Pontes, mostra no seu estudo sobre a imprensa de Uberaba que, o Gazeta de Uberaba, a partir de 1909, ajustou seu enfoque editorial à defesa do recém-criado Partido Civilista, contrário a indicação feita pela convenção nacional ao pleito da Presidência da República. Hildebrando Pontes ainda conta que o jornal tomou outra linha absolutamente diferente pela marcada até então, quando:
[...] Entretanto por transação de 21 de janeiro do ano seguinte, entre os diretores os senhores Tobias Rosa e Filho e o Coronel Américo Brasileiro Fleury, passou a ser, a Gazeta de Uberaba, desse dia em diante propriedade do último. Essa transação inverteu diametralmente, os pólos de defesa política do jornal, que passou a ser agora, órgão francamente hermista, politicamente redigida pelo deputado Afrânio de Mello Franco, e literariamente redigido pelo José Afonso de Azevedo, figurando, ainda, no seu corpo de colaboradores, além de outros, o Dr. José Julio de Freitas Coutinho, Juiz Municipal de Uberaba. Cessada a campanha hermista, continuou como órgão do PRM, redactoriado pelos doutores Lauro de Oliveira Borges, Alaor Prata Soares e José Julio de Freitas Coutinho. (PONTES, JORNAL CORREIO CATÓLICO, 1931. n/p).
A partir de 24 de janeiro de 1911, o jornal Gazeta de Uberaba tornou-se “Propriedade de uma Associação”, dirigida pelos mesmos senhores, menos o Dr. Coutinho, que se retirou.
No entanto, o Jornal Gazeta de Uberaba teve suas atividades interrompidas em 1912.
Em novembro de 1913, o coronel Tobias Rosa, fundou a Gazeta do Triângulo, uma associação que defendia os interesses do PRM – Democrata.
Em 1915 rearticulou a volta do Gazeta de Uberaba, que dessa vez atendia aos interesses do “Partido da Concentração Municipal de Uberaba”. Desse modo, o Gazeta de Uberaba funcionou até 1917, ano em que faleceu o coronel Tobias Antônio Rosa.
Marta Zednik de Casanova
Superintendente do Arquivo Público de Uberaba
Jornal: O Estado de S. Paulo
Data: Quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026
Seção: Cultura & Comportamento
Autor: Roberto DaMatta
Política no carnaval?
O carnaval tem um lado esquecido que define seu paradoxal temperamento de ser, ao mesmo tempo, uma festa profana e sagrada. Se no carnaval as irreverências são possíveis, deve-se lembrar que ele ocorre entre o Advento e a Quaresma — o nascimento e a paixão de Cristo.
O carnaval inventa um intervalo libertino entre dois eventos cruciais da religiosidade católica: o nascimento, a morte e a ressurreição de Deus encarnado em Jesus Cristo. A festa de Momo é um espaço de licenciosidades que invertem o cotidiano — gênero e idade são neutralizados; a rua vira casa e a noite, dia; o bloco voluntário substitui a compulsão da família; o canto malicioso, o discurso e a prece; e a estrutura social fantasiosamente se inverte: pobre vira nobre e negro ganha a liberdade do branco. Depois dessa liberdade cósmica expressa no abuso do corpo ou carne — pois carnaval (carne levare) significa “abandonar a carne” —, chega a Quaresma exprimindo uma polaridade comum em todas as sociedades: depois do excesso e da guerra, vêm a disciplina e a paz.
Conforme afirmei nas minhas pesquisas, o papel do carnaval neste Brasil legislado e dominado por gente branca que ocupa altos cargos e se culpada escapa da lei pela lei, o carnaval se modernizou. Incorporou dimensões capitalistas, organizando-se em grupos profissionais, com desfiles competitivos, ingressos, tempo regulado e prêmios. Nesses tempos de modernização e desencanto, o “brincar” tem sido vencido pela competição que — como no esporte e na vida em geral — determina o campeão e o prêmio. Tudo realizado sob a égide do “progresso” que calcula, racionaliza e, como dizia Max Weber, desencanta.
É dentro desse contexto que ocorre a guinada dos deuses, orixás, fadas e outras figuras encantadas para as celebridades.
Tudo se passa, como é típico do capitalismo, no movimento que vai dos céus à crueza do mundo real. A fantasia tem sido absorvida pela voracidade capitalista da luta por dinheiro e, com ela, por uma ameaça ainda mais perversa: a da propaganda político-partidária.
Se esse movimento infeliz de abrir o carnaval para a louvação e a adesão política, como fez a Escola de Samba Acadêmicos de Niterói ao petismo e ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o carnaval será canibalizado pelo que ele sublima: a luta de classes, sem pandeiro, mas com guilhotinas. Seria o fim do que o carnaval expressa como alternativa simbólica. Será a morte de Dom Carnal pela convencionalidade burra, hipocrisia, mentira e pelas regras que, desde a sua invenção, celebram o lado mais humano da nossa humanidade. O riso pelo riso e a vida mesmo sabendo que se morre.
Nota: Se conservador é simbolizado como lata de conserva, todo canhoto seria esquerdista; e os destros, fascistas.
PS: Expresso aqui meus sentimentos pela morte do prof. João Baptista Borges Pereira, um companheiro profissional afetuoso.
Roberto DaMatta é antropólogo, escritor e autor de “Carnavais, Malandros e Heróis”.
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026
O dia mais difícil
Para quem só espera a repetição do que já aconteceu, o acontecimento inédito chega como ruptura — e o deixa, por um instante decisivo, atônito diante do inesperado.
COISAS NOSSAS
Night Lights A
'Nesse sentido, os últimos meses do ano de 1888 têm a força de um exemplo – e de um exemplo completamente demolidor para ele.'
A revolta dos escravos e o fim do Império
1975 - CANTO DO POVO DE UM LUGAR
Todo dia o sol levanta
E a gente canta
Ao sol de todo dia
Fim da tarde a terra cora
E a gente chora
Porque finda a tarde
Quando a noite a lua mansa
E a gente dança
Venerando a noite
Tonada
Música y letra: Caetano Veloso
© 1975 Ed. Gapa/Saturno
Letra:
Queria ser pandeiro
Pra sentir o dia inteiro
A tua mão na minha pele a batucar
Saudade do violão e da palhoça
Coisa nossa, coisa nossa
O samba, a prontidão
E outras bossas,
São nossas coisas,
São coisas nossas!
Malandro que não bebe,
Que não come,
Que não abandona o samba
Pois o samba mata a fome,
Morena bem bonita lá da roça,
Coisa nossa, coisa nossa
O samba, a prontidão
E outras bossas,
São nossas coisas,
São coisas nossas!
Baleiro, jornaleiro
Motorneiro, condutor e passageiro,
Prestamista e o vigarista
E o bonde que parece uma carroça,
Coisa nossa, muito nossa
O samba, a prontidão
E outras bossas,
São nossas coisas,
São coisas nossas!
Menina que namora
Na esquina e no portão
Rapaz casado com dez filhos, sem tostão,
Se o pai descobre o truque dá uma coça
Coisa nossa, muito nossa
O samba, a prontidão
E outras bossas,
São nossas coisas,
São coisas nossas!
Música
Noel Rosa - "São Coisas Nossas" (Noel Rosa Pela Primeira Vez Vol. 3/2002)
Gravadora Galeão
O DIA MAIS DIFÍCIL: LULINHA NA MIRA, O FANTASMA DE FLÁVIO E PALANQUES EMPACADOS
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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026
Quebra de sigilo do filho de Lula mostra cerco da oposição ao governo, por Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense
A CPMI do INSS deixou de ser apenas instrumento de apuração e se converteu em arena de desgaste continuado. Opera em dois tempos: o jurídico e o midiático
A quebra dos sigilos bancário e fiscal de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, pela CPMI do INSS, somada à decisão judicial que já havia autorizado medidas semelhantes no âmbito da investigação criminal, representaram uma típica “bola nas costas” no Palácio do Planalto. O governo vinha administrando a comissão com relativa folga, amparado por maioria circunstancial e pela capacidade de modular convocações incômodas. A votação que atingiu o filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva mudou o eixo político da CPMI.
O fato novo não é apenas a deliberação da comissão parlamentar. O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), já havia autorizado a quebra de sigilos em investigação conduzida pela Polícia Federal. Agora, Lula está diante de um duplo cerco, um na frente política (CPMI), outro na judicial (STF), que vão se apertar e aumentar o desgaste pessoal do presidente da República e do governo.
A CPMI investiga descontos indevidos em benefícios de aposentados e pensionistas do INSS, supostamente operacionalizados por Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”. O prejuízo é estimado em R$ 6,3 bilhões e atinge um segmento social historicamente associado à base eleitoral do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Trata-se de um escândalo com alto potencial simbólico: envolve idosos, renda mínima e confiança no Estado.
Até a citação de Lulinha, o governo se defendia com uma narrativa eficaz: tratava-se de esquema iniciado em 2019, atravessando a gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro. O Palácio do Planalto tomou providências para ressarcimento e apuração rigorosa do escândalo. A entrada do filho do presidente no radar, mesmo que não seja denunciado, altera a equação. Mesmo que não se prove qualquer ilícito, o custo político é sobretudo eleitoral. A oposição ganha uma narrativa fácil para comunicação com o eleitor, associando corrupção bilionária, aposentados prejudicados e possível elo com familiar do presidente.
Como a mulher de Cesar, o dilema dos filhos de presidentes ajuda a ilustrar o problema: não basta ser honesto; é preciso parecer honesto. A situação impõe a Lula uma postura institucionalmente correta, reafirmar autonomia da PF e do Judiciário, mas pessoalmente constrangedora. A comissão deixou de ser apenas instrumento de apuração e se converte em arena de desgaste continuado. Opera em dois tempos: o jurídico e o midiático.
O primeiro depende de provas; o segundo, de fatos políticos e vazamentos seletivos. Mesmo sem indiciamento, a simples manutenção do nome de Lulinha no noticiário por meses já produzirá efeito corrosivo. É nesse ponto que o governo se torna dependente do Centrão. Para evitar convocações mais agressivas, ampliação de diligências ou pautas hostis, o Executivo precisa negociar apoio permanente. Isso significa concessões orçamentárias, espaço político e influência em cargos estratégicos. O custo da governabilidade será muito alto.
Promiscuidade
Em ano eleitoral, qualquer associação entre o presidente e escândalo que atinja aposentados tem peso ampliado. Ainda que Lula tenha afirmado publicamente que “ninguém ficará livre” e que “se tiver filho meu envolvido, será investigado”, a oposição explorará cada etapa da investigação como evidência de fragilidade moral. Um governo eleito com discurso de reconstrução institucional e justiça social passa a depender ainda mais de alianças pragmáticas para conter danos políticos. Escândalos envolvendo familiares têm impacto próprio. Mesmo quando não resultam em condenação, alimentam percepções difusas de promiscuidade entre público e privado. E percepções, nas eleições, são como fatos.
O INSS nasceu em 1990 da fusão do IAPAS com o INPS e convive historicamente com fraudes, desde o caso Jorgina de Freitas nos anos 1990 até os esquemas atuais. O problema é estrutural: fragilidade de controles, volume gigantesco de recursos e capilaridade nacional. O escândalo atual é ainda maior e ocorre em ambiente de hiperexposição digital. Se nada for comprovado contra Lulinha,o governo poderá alegar tentativa de exploração política. Mas até lá, a investigação será uma dor de cabeça permanente. Cada nova fase da Operação Sem Desconto, cada novo depoimento ou planilha apreendida, reacenderá a controvérsia.
O Planalto também subestimou o potencial de convergência entre investigação judicial e iniciativa parlamentar. A quebra de sigilo, tanto na esfera da CPMI quanto na decisão do ministro do STF, cria um corredor institucional difícil de bloquear sem custo político elevado. Para contê-lo, o governo terá que se entender com o Centrão nos termos estabelecidos pelos presidentes do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), e da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB).
Ontem, a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI)do INSS ouviu Paulo Otávio Montalvão Camisotti, filho do empresário Maurício Camisotti, e aprovou a quebra dos sigilos bancário e fiscal de Fabio Luís Lula da Silva, o Lulinha.A sessão foi precedida por confusão e chegou a ser suspensa após bate-boca entre parlamentares. A base governista decidiu recorrer ao presidente do Congresso, Davi Alcolumbre (União-AP), para contestar a votação que aprovou a quebra de sigilo fiscal e bancário de Lulinha, no âmbito da CPMI do INSS. Sua decisão ainda é uma charada.
Entre a investigação e a narrativa: a política como arena de desgaste permanente
A decisão da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que apura irregularidades no Instituto Nacional do Seguro Social de aprovar a quebra de sigilo bancário e fiscal de Fábio Luís Lula da Silva reposicionou o eixo político da investigação. Até então, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva conseguia administrar a comissão dentro de uma margem razoável de previsibilidade, apoiado em articulações parlamentares e na tentativa de circunscrever a apuração a fatos ocorridos em gestões anteriores.
A entrada do filho do presidente no radar da investigação altera substancialmente essa equação. Não apenas pelo seu conteúdo jurídico — ainda sujeito à produção de provas e à verificação de eventuais responsabilidades —, mas sobretudo pelo impacto político inerente à exposição prolongada de familiares de chefes de governo em investigações de grande visibilidade.
Em democracias contemporâneas, comissões parlamentares raramente funcionam exclusivamente como instrumentos técnicos de investigação. Elas operam em dois planos simultâneos: o jurídico e o político-midiático. No primeiro, a comissão exerce poderes constitucionais relevantes — convocação de testemunhas, requisição de documentos e aprovação de medidas investigativas. No segundo, produz fatos políticos capazes de influenciar a agenda pública, mobilizar narrativas e alterar a correlação de forças no debate público.
Esse fenômeno não é exclusivo do Brasil. Parlamentos de diversas democracias utilizam comissões investigativas como instrumentos de fiscalização e também como arenas de disputa política. A diferença reside na intensidade com que essas dimensões se sobrepõem. Em contextos de elevada polarização política e intensa exposição digital, a dimensão simbólica tende a ganhar protagonismo.
No caso brasileiro, a investigação ocorre em um terreno particularmente sensível. O INSS administra recursos destinados a aposentados e pensionistas — um dos pilares do sistema de proteção social do país. Fraudes envolvendo benefícios previdenciários produzem repercussão imediata, não apenas pela dimensão financeira, mas pelo impacto moral associado à vulnerabilidade do público afetado.
Nesse cenário, cada decisão institucional passa a produzir efeitos que transcendem o processo investigativo. A autorização judicial para quebra de sigilos no âmbito de investigações conduzidas pela Polícia Federal — incluindo decisões proferidas por ministros do Supremo Tribunal Federal, como André Mendonça — cria uma convergência entre esferas investigativas que amplia a complexidade do caso.
Essa convergência entre investigação parlamentar e judicial produz aquilo que cientistas políticos descrevem como “corredores institucionais de pressão”: processos paralelos que se retroalimentam, ampliando o alcance e a visibilidade da investigação.
Em paralelo, emergem no debate público especulações recorrentes sobre a existência de jogos políticos previamente calculados — interpretações que sugerem que determinados movimentos institucionais fariam parte de arranjos tácitos entre atores políticos. A metáfora frequentemente mobilizada para ilustrar essa percepção é a das manipulações esportivas, nas quais partidas aparentemente competitivas ocultariam resultados previamente acordados.
Contudo, uma análise institucional mais rigorosa recomenda cautela diante desse tipo de leitura. Sistemas democráticos complexos raramente operam por meio de roteiros previamente definidos. O que prevalece, em geral, é a interação estratégica entre atores com interesses distintos e incentivos institucionais próprios.
A experiência brasileira recente fornece exemplos claros desse dinamismo institucional. Decisões judiciais proferidas por ministros do Supremo, como Dias Toffoli, tiveram impacto profundo em investigações de grande repercussão pública, incluindo processos relacionados à Operação Lava Jato e casos envolvendo autoridades políticas de diferentes espectros ideológicos.
Essas decisões, embora fundamentadas juridicamente na proteção de garantias constitucionais e na legalidade dos procedimentos investigatórios, frequentemente geram interpretações políticas divergentes. Para alguns setores, representam correções necessárias a excessos investigativos; para outros, simbolizam limitações indevidas à responsabilização de agentes públicos.
Essa tensão revela um fenômeno sociológico mais profundo: a crescente dificuldade de separar, no debate público, a análise jurídica da interpretação política. Em ambientes polarizados, decisões institucionais passam a ser lidas menos por seus fundamentos normativos e mais por suas consequências políticas percebidas.
Nesse contexto, investigações que envolvem familiares de governantes adquirem peso simbólico particular. A história política demonstra que, mesmo na ausência de condenações formais, tais episódios frequentemente deixam marcas duradouras na percepção pública de integridade e legitimidade.
O desafio das instituições democráticas, diante desse cenário, é preservar a credibilidade de seus procedimentos. Investigações precisam ser conduzidas com rigor jurídico e transparência, evitando tanto a instrumentalização política quanto a percepção de seletividade.
A política democrática não é um jogo previamente combinado. Mas tampouco é um espaço neutro de apuração técnica. Trata-se, antes, de uma arena permanente de disputa — onde direito, poder e narrativa se entrelaçam de forma inevitável.
O resultado final dessas disputas raramente é determinado por um único ato institucional. Ele emerge, ao longo do tempo, da interação entre investigações, decisões judiciais, disputas parlamentares e, sobretudo, da forma como a sociedade interpreta esses acontecimentos.
Em última instância, é essa interpretação coletiva — construída no espaço público — que define o verdadeiro impacto político de episódios como o que agora mobiliza Brasília.
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026
Quebrado ao meio, Ivan Alves Filho
O filósofo alemão Friedrich Nietzsche, que tanto marcou o pensamento moderno, afirmou certa vez desejar “quebrar ao meio a História da Humanidade”.
Talvez ele não tenha logrado seu intento. Mas pelo menos uma certeza podemos ter: Friedrich Nietzsche quebrou ao meio a sua própria história.
Explico: o filósofo passaria os últimos onze anos de sua existência internado em um asilo de alienados. Morreu em 1900, logo após completar 56 anos. Teve pouco tempo para produzir, como se vê, mas o fez intensamente. Provavelmente por vislumbrar a tragédia, Nietzsche não seria o primeiro na história do pensamento.
Acusado frequentemente de ser um filósofo de propósitos autoritários, Friedrich Nietzsche recorreu por diversas vezes aos aforismos como forma de expressar o seu pensamento. Curiosamente, o aforismo implica a adoção de um sistema aberto por parte do pensador. É seguramente contrário a qualquer rigidez conceitual. Não fica difícil perceber que Nietzsche se recusou a colocar uma grade no que quer que seja. Pensa como vive, ou seja, em liberdade.
Apesar das especulações existentes em torno da sua concepção de Übermensch (ou Super-homem) o termo utilizado por Friedrich Nietzsche tem mais que ver com a ideia de uma superação a que o homem deve buscar sempre, no sentido de ultrapassar suas dificuldades e até limites. Assim, essa concepção nada tem que ver com uma noção de mundo dos nazistas, que dela tentaram se apropriar, transformando-a em algo que apontava para uma Herrenrasse (ou uma raça de mestres, superior às demais).
Seu sistema de raciocínio é flexível, revelando semelhanças com aquele de outro gigante da filosofia europeia, Michel de Montaigne. E talvez seja o caso também de pensarmos em Chamfort e em suas máximas. De qualquer forma, a agilidade mental dos autores de aforismas impressiona ainda hoje. Assim, em um diálogo travado com Ruhlière, o moralista Chamfort, ao ouvir dele que em sua vida só cometeu “uma única maldade”, replicou imediatamente: “E quando ela vai terminar?”
Nietzsche foi influenciado inicialmente por Arthur Schopenhauer, pelo músico Wagner e pela tragédia grega, três constantes em seu trabalho. Depois, romperia com o pessimismo de Schopenhauer. Vive de forma modesta, compõe muito e viaja, sobretudo pela Itália e pela Alemanha.
Na verdade, estamos a mil léguas de um pensamento especulativo meramente abstrato. Nietzsche busca na própria vida a matéria para suas reflexões. Não é nem de longe um acadêmico, um filósofo profissional. Não é pago para pensar. Pelo contrário: paga o preço pelo que pensa. Mesmo sendo esse preço extremamente alto, como de fato o foi. O próprio filósofo apontava para essa característica fundamental de sua obra e em seus últimos escritos pedia que ninguém tomasse “partido” por ela, querendo apenas ser olhado pelas pessoas “com uma dose de curiosidade, como uma planta estranha”.
E uma bela oportunidade de praticar isso nos é dada pela leitura de seus melhores textos filosóficos, publicados na prestigiosa coleção Bibliothèque de la Pléiade, da editora Gallimard, de Paris. Na edição coordenada por Marc de Launay, alguns textos são inéditos inclusive. Trata-se da edição definitiva dos escritos de Friedrich Nietzsche, não resta dúvida. Há ali muitas, mas muitas plantas estranhas mesmo.
Muito se especulou (e se especula até hoje) a respeito da loucura de Nietzsche. Foram levantadas as mais diferentes hipóteses, da sífilis à psicose maníaco-depressiva. Provavelmente ninguém chegará a uma conclusão exata. Até porque o cérebro humano possui cerca de 100 bilhões de neurônios, ultra compactados em uma massa de pouco mais de um quilo e meio, totalmente interligados entre si. Difícil mesmo de entender.
De toda maneira, o próprio Friedrich Nietzsche percebia que algo não ia lá muito bem com ele. Assim, já em 1881, apenas oito anos antes de enlouquecer, o autor de Genealogia da moral escrevia ao seu amigo Peter Gast: “Ah, amigo, tenho por vezes o pressentimento de levar uma vida muito perigosa. Meu espírito me diz que sou uma dessas máquinas que podem explodir de uma hora para outra”.
Dito e feito. E vamos tentar saber por qual razão, independentemente das especulações a respeito de sua saúde mental. Há quem estabeleça ligações, por exemplo, entre a evolução do seu pensamento (ou do próprio ritmo de seu pensamento, melhor dizendo até) e a instalação da loucura em seu cérebro. Poderia ter sido um caso extremo de estafa. Nesse sentido, os últimos meses do ano de 1888 têm a força de um exemplo – e de um exemplo completamente demolidor para ele.
Esses são meses quase emblemáticos, para não dizer mesmo fatais, para esse grande leitor de Stendhal e Dostoiévski. A produção intelectual de Friedrich Nietzsche nesse período impressiona qualquer pessoa. Vejamos então. Em agosto de 1888, ele redigiu O caso Wagner. Em setembro, O crepúsculo dos ídolos. Em outubro, O anticristo. Em novembro, Nietzsche escreveu Ecce Homo. Ou seja, um ritmo simplesmente alucinante.
“Trabalhe em algo, para que o diabo te encontre sempre ocupado”, asseverou São Jerônimo. E Nietzsche parece ter seguido isso à risca, apesar de nunca ter professado muitas simpatias pelo Cristianismo, cuja moral criticava, conforme sabemos. Mas Nietzsche nutria uma grande admiração por Cristo.
O filósofo alemão ainda não se daria por satisfeito, contudo: antes mesmo daquele fatídico ano de 1888 terminar, ele põe um ponto final em dois outros trabalhos ou ensaios, intitulados respectivamente Ditirambos de Dionísio e Nietzsche contra Wagner. Um assombro.
Certa vez, o filósofo escreveu algo que se encaixa perfeitamente em sua trajetória: “Quanta verdade suporta, de quanta verdade é capaz um espírito? Essa sempre foi para mim a mais preciosa e mais valiosa medida...Toda conquista, todo passo adiante na senda do conhecimento é fruto de um ato de valor, de dureza contra si mesmo, de própria depuração”.
Isso posto, é preciso reconhecer os equívocos de Nietzsche em matéria de pensamento, uma vez que, por intermédio da apologia que fez do absurdo e do desespero, contribuiu seguramente para conduzir a filosofia ocidental a alguns impasses sérios.
Seja como for, a 3 de janeiro de 1889 Friedrich Nietzsche mergulhava para sempre na loucura. O seu cérebro certamente não aguentou tamanha carga. Na verdade, cérebro algum talvez suportasse.
*Ivan Alves Filho, historiador
Enem 2023: Caetano Veloso responde questão que o menciona na prova
Enem 2024: questão polêmica sobre Caetano Veloso tem resposta oficial diferente da apontada pelo cantor; veja gabarito
Pergunta aborda o uso reiterado da palavra 'coisa' em uma crônica com referências intertextuais a músicas do artista baiano. Caetano marcaria a "A", mas Inep considerou a "C" como a certa.
Por Redação g1 — São Paulo
14/11/2024 09h58 Atualizado há um ano
Caetano Veloso responde questão do Enem na qual é citado
Os organizadores do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2024 não tiveram a mesma interpretação de Caetano Veloso ao decidirem qual a alternativa correta na questão que citava músicas do artista.
Segundo o gabarito oficial, divulgado nesta quinta-feira (14) pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), a resposta correta é a "C". Caetano, no entanto, em vídeo compartilhado nas redes sociais em 4 de novembro, afirmou que marcaria a "A".
Professores ouvidos pelo g1 chegaram a sugerir que as duas opções fossem consideradas certas. O Inep descartou essa possibilidade.
➡️Qual a questão "polêmica"? Era da prova de Linguagens (33 da prova VERDE 🟢, 20 da AZUL🔵, 8 da BRANCA⚪ e 45 da AMARELA🟡).
➡️Qual era o tema? A pergunta trazia uma crônica em que a autora, Tati Bernardi, menciona seu nervosismo ao notar que já escreveu textos com o termo genérico "coisa".
Em um tom bem-humorado, ela faz uma reflexão de maneira metalinguística: emprega essa palavra 11 vezes, incluindo cognatos (vocábulos que têm etimologicamente uma origem comum), como "coisar" e "coisinha". Em todos os momentos, há referências a versos cantados por Caetano.
Cabia ao candidato decidir qual o recurso usado para garantir a "progressão textual" do trecho. Veja abaixo:
Questão 33 da prova VERDE — Foto: Reprodução
➡️Quais seriam as duas alternativas supostamente corretas? Segundo Eduardo Calbucci, professor do Anglo, o uso reiterado de "coisa" contribui para a progressão textual e para a unidade temática do texto, dando à palavra uma função poética e destacando seu papel como um "termo coringa".
Isso justificaria marcar a alternativa C, que foca na repetição da palavra e no seu impacto na estrutura do texto ("reiteração, marcada pela repetição de um determinada palavra e de seus cognatos").
Contudo, Bernardi também faz referências diretas a quatro canções de Caetano Veloso: "Qualquer Coisa", "Sampa", "Lindeza" e "Samba de Verão". Como essas músicas contêm a palavra "coisa", seu uso na crônica estabelece uma intertextualidade relevante para o desenvolvimento e a coesão temática, justificando também a alternativa A (intertextualidade, marcada pela citação de versos de letras de canções"), apontada por Caetano.
Por isso, Calbuci sugeriu que as duas opções fossem consideradas corretas. O Inep, no entanto, classificou a "C" como a certa.
Enem 2024: correção da questão de Português sobre Coisa de Caetano Veloso
Enem
Inep
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