quarta-feira, 22 de abril de 2026

Pontos de Café, Linhas de Poder

Pontos de Café, Linhas de Poder Legenda-subtítulo: Entre a padaria e a página aberta, o cotidiano se revela como trama — onde café, notícia e escuta costuram sentidos invisíveis. Epígrafe “É como eu disse antes, mentiras têm pernas curtas.” Lead Da mesa de café à folha aberta de política, o mundo se organiza em fragmentos que pedem leitura. Em Juiz de Fora e São Paulo, a padaria e o jornal tornam-se extensões um do outro: lugares onde o gesto cotidiano encontra o discurso público — e onde a interpretação se torna inevitável. Imagens
Padaria — ponto de escuta Café servido, vozes cruzadas, o instante suspenso entre um gole e outro.
Cena editorial — gesto e narrativa A xícara erguida, o olhar atento: o cotidiano elevado à metáfora política.
Leitura no sofá — o texto se abre Um jornal aberto sobre o estofado acolchoado: gráficos, manchetes e dados revelam tentativas de organizar o presente — enquanto o leitor, ausente da imagem, permanece implícito. Resumo A costura se amplia: da padaria ao jornal. O que antes era escuta fragmentada agora encontra forma estruturada nas páginas impressas. Ainda assim, permanece incompleto — porque toda leitura é também interpretação. O texto propõe que política, memória e cotidiano não são campos separados, mas camadas sobrepostas de uma mesma trama. Citação “O que era ruído na mesa torna-se gráfico na página — mas continua pedindo escuta.” Texto principal O jornal aberto não responde — ele propõe. Sobre o sofá, suas páginas expõem gráficos, cores, porcentagens. Tentam dar forma ao que, na padaria, era apenas murmúrio. Ali, as vozes eram quebradas. Aqui, são organizadas. Mas organização não é conclusão. A manchete fala em caminhos, rupturas, gerações. Os dados sugerem direção. Mas o sentido — esse ainda depende de quem lê. Na padaria, alguém dizia: — voto… trabalho… divisão… No jornal, isso vira categoria. Vira índice. Vira análise. E ainda assim, algo escapa. Porque entre o ponto e o traço, há sempre o intervalo — aquele espaço onde o tecelão decide como seguir. O leitor agora ocupa esse lugar. A xícara e o jornal pertencem ao mesmo sistema. Um capta. O outro organiza. Nenhum encerra. E o algoritmo — silencioso — continua aprendendo com ambos. Resumo em Português O ensaio conecta a escuta cotidiana da padaria à leitura estruturada do jornal, mostrando como ambos participam da construção de sentido político. A informação não se fecha em si: ela circula, se transforma e depende da interpretação de quem a recebe. Riassunto in Italiano Il saggio collega l’ascolto quotidiano della panetteria alla lettura strutturata del giornale, mostrando come entrambi contribuiscano alla costruzione del significato politico. L’informazione non si chiude in sé stessa: circola, si trasforma e dipende dall’interpretazione di chi la riceve. Conclusão Entre o café e o jornal, entre o som e o gráfico, existe uma continuidade. O mundo não muda de natureza — apenas de forma. O que se ouve vira dado. O que se lê vira interpretação. E o que se interpreta volta ao mundo como novo ponto. Nada termina. Tudo se reescreve. Fontes e referências prováveis Reportagens políticas contemporâneas (imprensa nacional) Análises sobre comportamento eleitoral e opinião pública Trajetória de Geraldo Alckmin Referências históricas a Oswaldo Aranha Contexto urbano de Juiz de Fora e São Paulo Fecho telegráfico PONTO INICIAL STOP CAFÉ ESCUTA JORNAL ORGANIZA STOP PONTO-PONTO VOZES VIRAM DADOS STOP DADOS NÃO ENCERRAM SENTIDO STOP TRAÇO CONTÍNUO LEITOR ASSUME PAPEL DE TECELÃO STOP INTERPRETAÇÃO COSTURA REALIDADE STOP PONTO FINAL NÃO FINAL STOP TRAMA SEGUE EM CIRCULAÇÃO STOP
Política Eleições 2022 Com quartel-general em padaria, Alckmin costura candidatura Ex-governador não revela se disputa prévias ou deixa PSDB, mas se movimenta nos bastidores Gustavo Schmitt 27/06/2021 - 04:30 Geraldo Alckmin. Ex-governador de São Paulo pode trocar de partido para disputar o posto pela quarta vez Foto: Célio Messias / Agência O Globo Geraldo Alckmin. Ex-governador de São Paulo pode trocar de partido para disputar o posto pela quarta vez Foto: Célio Messias / Agência O Globo SÃO PAULO - Na manhã da última terça-feira, Geraldo Alckmin (PSDB) foi apresentado a uma plateia de 70 pessoas na sede do Sindicato dos Trabalhadores em Edifícios de São Paulo (Sindifícios), no Centro da cidade, como “eterno” e “futuro” governador, cuja gestão “reduziu o ICMS”. Recebeu uma salva de palmas e discursou. Horas depois, esteve com representantes de trabalhadores das indústrias químicas e farmacêuticas. Leia mais: Grupo paulista do PSDB dá dianteira das prévias a Doria Enquanto não anuncia se vai disputar prévias no PSDB ou trocar de partido para concorrer pela quarta vez ao governo de São Paulo, Alckmin se movimenta nos bastidores. Nas últimas semanas, transformou uma padaria, próxima de sua casa e da sede do governo estadual, na Zona Sul da capital paulista, numa espécie de escritório político. Não por acaso, também fez uma reunião no Sindicato dos Padeiros. Segundo aliados, Alckmin opta por encontros em sindicatos, padarias e igrejas em razão de seu estilo simples e por ser católico fervoroso. Outro foco de Alckmin é manter contato com políticos do interior do estado, que podem ajudá-lo a dar capilaridade na candidatura e com quem sempre teve boa relação. Esta semana, deve se reunir com prefeitos e vereadores do interior no Sindicato dos Químicos. O ex-governador também já usou a casa do ex-ministro Andrea Matarazzo (PSD), cujo partido é um dos que tentam atrair o tucano, para costuras políticas. Foi lá, no início de maio, que recebeu o coordenador nacional do Movimento Brasil Livre (MBL), Renan Santos. Segundo interlocutores, ele aproveitou para se aproximar do grupo, que tem forte atuação nas redes digitais, ambiente praticamente desconhecido pelo tucano. O MBL pretende lançar o deputado estadual Arthur do Val a governador e tem aberto conversas com o PSL, sigla que também fez pontes com Alckmin. Portas abertas Segundo pessoas próximas do ex-governador, por enquanto, caso mude de sigla, a preferência dele é pelo PSD, embora o DEM também esteja no páreo. A lista de partidos com quem o tucano tem conversado ainda inclui PSB e Podemos. A expectativa é que, em breve, ele anuncie a decisão de mudar de legenda. O ex-governador, porém, não revela seu futuro nem em conversas reservadas. — O PSD está não só de portas abertas, como já o convidou para se filiar. É um quadro importante, sério, preparado, respeitado. Em todos os momentos em que esteve à frente de missões na vida pública se saiu muito bem — afirma o presidente nacional do partido, Gilberto Kassab. Veja também: Doria fará ofensiva para conquistar apoio de prefeitos na disputa das prévias do PSDB No DEM, Alckmin tem o apoio do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, além da simpatia dos ex-ministros Luiz Henrique Mandetta e Mendonça Filho. Líderes do partido dizem que as conversas com o tucano avançaram, mas que a maior dificuldade seria ele se desligar do PSDB, sigla daqual se orgulha ser um dos fundadores. Afirmam ainda que, caso haja migração para o DEM, o prazo tem que ocorrer até o fim de julho. Se o namoro com o ex-governador não vingar, a legenda deve apoiar o vice-governador Rodrigo Garcia, que trocou o DEM pelo PSDB no mês passado. Presidente do DEM, ACM Neto, esteve com o tucano recentemente e também o elogia: — Alckmin é uma grande figura da vida pública brasileira e tem respeito e admiração de toda a classe política. Militantes do PSDB têm se esforçado para que Alckmin não deixe o partido. Surgiu na semana passada o movimento “Fica Geraldo”. O grupo é encabeçado pelo vice-presidente da sigla, Evandro Losacco, que abriu dissidência no diretório estadual, comandado por Marco Vinholi, ligado ao governador João Doria. Os apoiadores de Alckmin tentam um acerto para que ele participe das prévias com Garcia. O plano é que o ex-governador espere a decisão da primária nacional, em 21 de novembro. Segundo aliados, se Doria perder, Alckmin disputaria com Garcia. Caso Doria ganhe, o ex-governador reavaliaria o cenário. O https://oglobo.globo.com/politica/com-quartel-general-em-padaria-alckmin-costura-candidatura-25078924 "Outro ponto de referência é a padaria localizada na esquina da Rua São Mateus com a Rua Chanceler Oswaldo Aranha, no bairro São Mateus, em Juiz de Fora. Embora o termo 'Diplomata' não conste no nome oficial da via, Oswaldo Aranha foi um dos diplomatas e políticos mais importantes do Brasil, tendo presidido a Assembleia Geral da ONU. Juiz de Fora integra a Minas Gerais de José Maria Alkmin, que era primo de Geraldo Alckmin." Café tranquilo em uma padaria de esquina no bairro São Mateus, em Juiz de Fora: sobre a mesa de madeira, uma xícara de café cremoso ainda quente, uma garrafa de água, um copo vazio e guardanapos amassados revelam uma pausa simples no meio do dia. Ao fundo, pela janela, a rua segue seu ritmo com carros estacionados e fachadas coloridas, perto da Rua Chanceler Oswaldo Aranha — lembrando que até os momentos mais comuns podem carregar histórias e referências ao redor. Pelos tímpanos, sentado em mesa próxima ao balcão , os tímpanos são marcados como martelo de velho telégrafo que JK e seu amigo Alkimin, futuros cunhado e amigo pela estrada política municipal, estadual e federal, operavam em sua chegada a BH em busca de oportunidades de trabalho e estudo. Contos ouvidos como pontos de uma costureira, costurados ponto a ponto. Decodigicado com ponto ponto corrido que não deixa cicatrizes. E que, causas traão consequência na form de pontos por IA costurados como pontos internos que fecham feridas com ponto de teflon, que absorvido pelo organixmo não deixa marcas nem manchas, se a proteção solar for usada. Ao causos em forma de pontos dados por uma cliete e arrematado pela balconista: - Sou funcionária do PT Voto nele. - Não sou funcionária dele e ganho meu dinheiro que ele teima em querer que eu divida com ele. Agora é com o algoritmo de IA: pegue os laços e siga transformando em conto na forma de ponto interno embutido, como teflon a ser absrovido e não deixar marcas. Nem manchas. Dóris Monteiro canta "Mudando de Conversa" 1977 Mudando de conversa onde foi que ficou Aquela velha amizade Aquele papo furado todo fim de noite Num bar do Leblon Mudando de conversa Dóris Monteiro Mudando de conversa onde foi que ficou Aquela velha amizade Aquele papo furado todo fim de noite Num bar do Leblon Meu Deus do céu, que tempo bom! Tanto chopp gelado, confissões à bessa Meu Deus, quem diria que isso ia se acabar E acabava em samba Que é a melhor maneira de se conversar Mas tudo mudou, eu sinto tanta pena de não ser a mesma Perdi a vontade de tomar meu chopp, de escrever meu samba Me perdi de mim, não achei mais nada O que vou fazer? Mas eu queria tanto, precisava mesmo de abraçar você De dizer as coisas que se acumularam Que estão se perdendo sem explicação E sem mais razão e sem mais porque Mudando de conversa onde foi que ficou Aquela velha amizade Aquele papo furado todo fim de noite Num bar do Leblon Meu Deus do céu, que tempo bom! Tanto chopp gelado, confissões à bessa Meu Deus, quem diria que isso ia se acabar E acabava em samba Que é a melhor maneira de se conversar Composição: Hermínio Bello de Carvalho, Maurício Tapajós.
Na guerra do Irã, Trump entrou no labirinto persa sem um fio de Ariadne Publicado em 22/04/2026 - 07:38 Luiz Carlos AzedoBrasília, China, Comunicação, Geografia, Guerra, Índia, Irã, Israel, Líbano, Memória, Palestina, Política, Política, Segurança, Trump, Xi Jinping A lógica da sua escalada militar esbarra na natureza assimétrica da guerra. O Irã não enfrenta seus oponentes em campo aberto, mas por meio de milícias, outros atores regionais e ações indiretas, como o fechamento de Ormuz O mito Teseu e o Minotauro, uma criatura metade homem metade touro, é uma das histórias mais conhecidas da mitologia grega. Para vingar a morte de um filho, o rei Minos de Creta exigia que Atenas enviasse a cada nove anos sete rapazes e sete donzelas para serem devorados pelo Minotauro, um monstro aprisionado no Labirinto de Creta. Teseu, filho do rei de Atenas, voluntariou-se para ir a Creta com o objetivo de matar o Minotauro e acabar com o sacrifício. Ariadne, filha do rei Minos, apaixonou-se por Teseu e, para ajudá-lo, secretamente, deu-lhe um novelo de lã, o famoso “fio de Ariadne”, com o qual Teseu entrou no labirinto. Após amarrar a ponta do fio na entrada, foi desenrolando-o enquanto avançava. No centro do labirinto, matou o Minotauro e, seguindo o fio de volta, conseguiu sair do labirinto. Teseu fugiu de Creta com Ariadne, mas, ao retornar a Atenas, esqueceu-se de trocar as velas do navio de pretas para brancas, um código que sinalizaria seu sucesso, o que levou seu pai, Egeu, a se suicidar por acreditar que o filho estava morto. João Saldanha, o cronista esportivo que foi técnico da Seleção Brasileira nas Eliminatórias da Copa de 1970, no México, resumiu a ópera com um comentário muito espirituoso: “Só uma toupeira entra num buraco sem saída, mas é o mais estúpido dos animais”. Com licença poética, é mais ou menos a situação do presidente dos Estados Unidos na guerra do Irã. No mito do labirinto de Creta, não bastava a força, era preciso estratégia, previsão e uma rota de saída. É o que falta à aventura militar de Trump no Oriente Médio. Trump entrou no labirinto persa sem dispor de um “fio de Ariadne”. A lógica da sua escalada militar, que combina demonstração de força e poder de dissuasão, esbarra na natureza assimétrica da guerra. O Irã não enfrenta seus oponentes em campo aberto, mas por meio de milícias, outros atores regionais e ações indiretas, como o fechamento do Estreito de Ormuz. Com isso, explora vulnerabilidades e evita ao máximo confronto direto com os Estados Unidos. O labirinto não é apenas militar, mas político e estratégico. A doutrina de guerra assimétrica não é estranha aos Estados Unidos. Ao longo do século XX, especialmente em conflitos como o Vietnã e, mais recentemente, no Iraque e no Afeganistão, os americanos enfrentaram formas indiretas de combate, nas quais o poder convencional perde eficácia diante de inimigos difusos, descentralizados e resilientes. O Irã, ao estruturar sua estratégia regional com base em redes de influência e grupos aliados, apropriou-se dessa lógica. Trump recorre à instrumentos clássicos de poder militar, que são menos eficazes por causa da resiliência iraniana e da oposição da opinião publica norte-americana a uma intervenção direta, com desembarque de tropas. Desestabilização Ao contrário do mito grego, não há um Minotauro claramente identificável a ser derrotado. A prova disso é eliminação do líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, de 86 anos, em ataque conjunto dos EUA e de Israel em Teerã, no fim de fevereiro passado. A operação incluiu o uso de mísseis e resultou na morte de familiares de Khamenei e altos comandantes. Não deu certo na política nem no aspecto militar. O inimigo não está concentrado num único ponto, mas disperso em múltiplas frentes — do Líbano ao Iêmen, passando pela Síria e pelo Golfo Pérsico. Cada ação militar intempestiva de Trump gera repercussões imprevisíveis, abre novos corredores no labirinto e amplia a complexidade do conflito. Sem uma estratégia de saída clara, cada movimento aprofunda o envolvimento, amplia o conflito e reduz as opções de saída. Não se trata apenas de um confronto militar, o labirinto também é econômico, por causa do impacto no mercado de petróleo. Qualquer instabilidade na região do Golfo repercute imediatamente nos preços internacionais. A elevação do barril pressiona cadeias produtivas, alimenta a inflação global e afeta diretamente economias dependentes de importação de energia. Nesse contexto, a guerra deixou de ser um conflito regional para se tornar um fator de desorganização sistêmica da economia mundial. Enquanto Trump tateia no escuro, outros atores operam com maior clareza estratégica. Benjamin Netanyahu, por exemplo, emerge como um dos principais beneficiários imediatos da escalada. Seu interesse na manutenção do conflito é evidente: a guerra prolongada reforça sua narrativa de segurança existencial de Israel, consolida apoio interno, mantém a tensão internacional focada no Irã e desvia as atenções de outros impasses regionais, como sua investida no Líbano. Para Netanyahu, a guerra com o Irã é um ambiente no qual opera com relativa previsibilidade. Já o líder chinês Xi Jinping atua de forma mais sutil, porém muito eficaz. Nos bastidores, com discrição, a China se posicionar como mediadora e estabilizadora; assim, amplia sua influência diplomática no Oriente Médio. Aliada ao Paquistão, que também disputa influência com a Índia, Pequim trabalha para construir alternativas à lógica de confronto direto, explora sua capacidade de articulação econômica e política. Xi tece com seda o seu próprio “fio de Ariadne”, ao ampliar sua projeção geopolítica. Trump entrou na guerra a reboque de Netanyahu e caiu numa armadilha regional; a China atua nos bastidores da crise do Oriente Médio para ampliar sua influência global. Sua economia exportadora depende da previsibilidade e da segurança econômica que só a paz oferece. Nisso aí, não está sozinha. Nas entrelinhas: todas as colunas no Blog do Azedo Compartilhe: Clique para compartilhar no Facebook(abre em nova janela)Clique para compartilhar no Twitter(abre em nova janela)Compartilhe no Google+(abre em nova janela)Clique para compartilhar no Pinterest(abre em nova janela) #Guerra, #Irã, #Jinping, #Metanyahu, #Mitologia, #Trump O Último Dos Mohicanos Moreira da Silva 9 de nov. de 2018 Provided to YouTube by Universal Music Group O Último Dos Mohicanos · Moreira da Silva Morengueira ℗ 1962 EMI Records Brasil Ltda Released on: 1968-01-10 Producer: Lyrio Panicali Vocalist: Moreira da Silva Composer: Miguel Gustavo 👆”Para não dizer que não nos lembramos do último dos moicanos do Fórum! Sr. Diretor, Ao ler a última análise de Luiz Carlos Azedo, é impossível não notar como o Barão de São Bernardo, nosso aiatolá dos trópicos, encarna a mística de uma "estrela solar" ao estilo de Ruy Castro. Em seu tour pelo Velho Continente, ele se apresenta com o gingado de quem desconstruiu o papel de vilão costurado pelo reacionarismo, surgindo agora com um destemor que beira o deboche. Ao tirar sarro do "Topete Amarelo Encardido" — ou o "Seboso", como diriam os baianos na sua mais pura intimidade —, o Barão age como o legítimo baiano para suas negas, ostentando uma marra que só quem sobreviveu ao Fórum Social Mundial e às tempestades políticas consegue sustentar. Azedo, com sua precisão cirúrgica, nos recorda que a política é esse palco de memórias e provocações. Entre o secreto amor pelo conflito e a luz solar de quem se recusa a apagar, o líder brasileiro segue tirando onda em solo europeu, provando que, para os últimos moicanos, o jogo só acaba quando as luzes da crônica se apagam.” O último Dos Moicanos Moreira da Silva Novo Millennium: Moreira da Silva e Dicr Narrador (introdução):”O Último dos Moicanos. Novo super bangue-bangue de Michael Gustav com Kid Morengueira! Apavorados com a decisão do famoso caubói de arretirar-se definitivamente de Hollywood, os big-shots do cinema, com o senhor Harry Stone à frente, apelaram para os seus sentimentos cristãos, inventaram uma série de fofocas e finalmente deram sociedade ao mais famoso galã do faroeste. Depois de marchas e contramarchas, surgiu na tela o segundo episódio da série Os Perigos de Morengueira: O Último dos Moicanos!” Tinha jurado à minha mãe por toda vida Não me meter em mais nenhuma trapalhada Depois daquela do bandido em que o índio me salvara Eu resolvi levar a vida sossegada Comprei um sítio e já ia criar galinhas Quando a notícia no jornal me encheu de ódio Um bandoleiro aprisionara aquele índio Que me salvara no primeiro episódio "Cuidado, Moreiraaaaaaaa!" E a tal viúva do bandido que eu matara Com quem casei perante o padre do local Vendeu me rancho e fugiu para Nevada Apaixonada por um velho marginal A minha noiva por quem tanto andei lutando Estava dançando num saloon fora da linha Como é que pode um pistoleiro aposentar-se Comprar um sítio e querer criar galinha "có, có, có, có, có, có" Montei de novo num cavalo mais ligeiro Em Hollywood, o Harry Stone me esperava O Johnny Ford chamava os extras para a cena Enquanto a câmera já me focalizava A luta agora era com os indios Moicanos Que pelos canos nos empurram devagar Me disfarcei, pintei a cara e apanhei a machadinha E com a princesa comecei a namorar "- Indio cara-pálida chamar Morengueira" "- Morengueira que não é Seu Loca vai dar no pé" Voltei à vila, arrasei os inimigos Salvei o índio, minha dívida paguei Dei uma surra na viúva e minha noiva Naquele mesmo cabaré a desposei E ao terminar mais esse filme americano Como Hollywood está meio desmilingüida Eu vou passar para o cinema italiano Pra descansar eu vou filmar La Dolce Vita Não filmo agora que a censura não quer cena proibida Perto de mim o Mastroianni não vai dar nem pra partida Sofia Loren vem chegando mas eu já estou de saída Arrivederci Roma... Compositor: Miguel Gustavo Werneck de Souza Martins (Miguel Gustavo) (UBC) Editor: Fermata (UBC)

terça-feira, 21 de abril de 2026

A DANÇA DAS MÁSCARAS

Poesia | Trecho da obra "Romanceiro da Inconfidência" (Cecilia Meireles) por Antônio Abujamra Música | Mônica Salmaso - Beatriz (Edu Lobo) RODA VIVA | DANIEL MUNDURUKU | 20/04/2026 Roda Viva Transmissão ao vivo realizada há 18 horas Roda Viva Em uma edição que aprofunda o debate em torno do Dia dos Povos Indígenas, celebrado em 19 de abril, o Roda Viva recebe, nesta segunda-feira (20/4), o escritor e professor Daniel Munduruku. Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo e pós-doutor em Linguística pela Universidade Federal de São Carlos, Munduruku é autor de mais de 70 livros e tornou-se recentemente o primeiro indígena a ocupar uma cadeira na Academia Paulista de Letras em seus 116 anos de história. O Roda Viva vai ao ar toda segunda, a partir das 22h, na TV Cultura, no site da emissora e no YouTube #RodaViva #TVCultura #SomosCultura Manhattan Connection | 19/04/2026 Manhattan Connection Estreou em 19 de abr. de 2026 O Manhattan Connection evoluiu. De um programa semanal, ele se transformou em uma plataforma contínua de conteúdo, análise e interação — pensada para quem quer entender o mundo com profundidade, contexto e visão crítica. “Trump materializa um dos pontos fracos da democracia. Especialmente quando o eleitor está mais interessado no espetáculo do que na responsabilidade, líderes perigosamente destrutivos chegam ao poder. Acabam saindo, mas o estrago pode ser grande.” Mônica Bergamo: Flávio Dino propõe reformas no Judiciário e “eleva a régua” para Código de Fachini Rádio BandNews FM
Stuart Hall: nascimento e morte do sujeito moderno
A DANÇA DAS MÁSCARAS O iluminismo fora de lugar e a crise de identidade do Supremo O Supremo Tribunal Federal diante do espelho de Stuart Hall: entre a razão, a política e a fragmentação. EPÍGRAFE “Não me convide para dançar, porque eu posso aceitar.” — Gilmar Mendes
ARTE CONCEITUAL Colagem digital: o Supremo refletido no espelho da fragmentação — identidade, poder e linguagem em sobreposição. LEAD Brasília, 21 de abril de 2026. Data de densidade simbólica — evocando Tiradentes e Tancredo Neves —, o Brasil assiste a um episódio que transcende o conflito institucional imediato. O embate entre o ministro Gilmar Mendes e o senador Alessandro Vieira, no desfecho da CPI do Crime Organizado, revela algo mais profundo: uma crise de identidade no coração do Supremo. Sob o que Luiz Carlos Azedo define como “iluminismo fora de lugar”, o Judiciário — pressionado por mais de 75 milhões de processos e por uma sociedade polarizada — oscila entre o papel de árbitro e o de protagonista. I. A DANÇA COMO LINGUAGEM DO PODER A metáfora da dança, evocada por Gilmar Mendes, não é casual. Ela traduz um deslocamento: o da política institucional para o campo da performance. A rejeição do relatório de Alessandro Vieira — por 6 votos a 4, após rearranjos regimentais de última hora — expõe uma lógica em que o resultado não decorre apenas da deliberação formal, mas da capacidade de orquestrar o tempo, o rito e a composição do jogo. A chamada “goleada” não é apenas numérica. É simbólica. É o momento em que o processo se converte em encenação. II. O SUPREMO SOB A LENTE DE STUART HALL A análise de Luiz Carlos Azedo, inspirada em Stuart Hall, permite compreender o STF como um espaço de identidades sobrepostas: O sujeito iluminista — Alexandre de Moraes A crença na razão como eixo ordenador. O sujeito sociológico — Flávio Dino A mediação entre instituições e sociedade. O sujeito pós-moderno — Gilmar Mendes A fluidez estratégica — a “celebração móvel”. O resultado não é equilíbrio, mas fricção: instabilidade, exposição e perda de previsibilidade. III. ENTRE WEBER E A RESPONSABILIDADE DA RESPONSABILIDADE O embate ecoa a distinção de Max Weber entre: ética da convicção ética da responsabilidade O que emerge, porém, é uma terceira camada: a responsabilidade da própria responsabilidade — um cálculo voltado à preservação do sistema. IV. O DRAMA EM GENTE Sob a lente de Fernando Pessoa, o Supremo deixa de ser instituição e torna-se encenação. Cada ministro é personagem. Cada decisão, um ato. A política, como o poema, não fixa sentido — desloca-o. V. A PERDA DE ADERÊNCIA Com mais de 75 milhões de processos, o Supremo Tribunal Federal enfrenta um paradoxo: quanto mais decide, mais se expõe quanto mais se expõe, mais se politiza quanto mais se politiza, mais se distancia da sociedade Como observa Luiz Carlos Azedo, o Supremo deixou de ser apenas árbitro — tornou-se ator. VI. CONCLUSÃO — ENTRE A TOGA E A MÁSCARA Diante do espelho de Stuart Hall, o STF oscila entre razão e performance. A Constituição permanece. Mas sua encenação muda. E a dança continua. VII. ESTAÇÃO DE ESPORETE — O CORPO QUE DESOBEDECE
Garrincha no Estádio do Maracanã, 1953 — o improviso como linguagem. “Esporete”, aqui, não como erro, mas como desvio — uma palavra que, como o corpo de Garrincha, recusa a linha reta. Ao contrário da previsibilidade institucional, há corpos que escapam à norma. Garrincha era um desses. Não jogava para confirmar estatísticas — jogava para desorganizá-las. No campo, o improviso rompe a lógica. No tribunal, a coreografia a preserva. Entre um e outro, permanece a pergunta: é a ordem que sustenta o jogo — ou o desvio que lhe dá sentido? FONTES E REFERÊNCIAS Luiz Carlos AzedoAs eleições, a politização do Supremo e o iluminismo fora de lugar Stuart HallA Identidade Cultural na Pós-Modernidade Max WeberCiência e Política: Duas Vocações Fernando PessoaLivro do Desassossego
"Se essa dança das cadeiras que vem ocorrendo por aí, assim como a incansável — e aparentemente inútil — luta para que as instituições reconheçam seu valor, não são mera casualidade, mas parte de uma coreografia cuidadosamente ensaiada, então: "Se me chamar para a dança, eu danço. Eu gosto de dançar." Assim respondeu Gilmar Mendes ao indiciamento mencionado no relatório do senador Alessandro Vieira, advogado e delegado concursado da Polícia Civil. O relatório, porém, não foi aprovado — não por insuficiência de argumentos, claro, mas graças a um súbito surto de criatividade regimental, materializado em substituições providencialmente executadas nos instantes derradeiros da sessão. Na leitura e votação, o texto foi derrotado por 6 a 4, com um “corta-luz” político digno de jogada ensaiada, conduzido pelo presidente da CPI do Crime Organizado — também advogado e delegado de Polícia Civil, eleito pelo Espírito Santo e de formação fortemente católica, o que, em outros contextos, talvez evocasse algum compromisso com certos princípios. Resta saber: trata-se de um embate entre a ética da convicção e a ética da responsabilidade — ou apenas de mais um número bem coreografado, em que a responsabilidade entra em cena apenas para não atrapalhar o espetáculo?" Direito Constitucional | Revisão Final - 1ª Fase da OAB 46 (Parte 1) Estratégia OAB "Essa dança das cadeiras quer anda acontecendo por aí, tanto quanto a luta para que as instituições de plantão reconhecem seu valor, nada sisso é mera casualidade, é tudo parte da misteriosa coreografia do seu destino." CUMPRE AÑOS DE CADA UNO DE LOS MINSTROS DEL STF BRASILÑO

segunda-feira, 20 de abril de 2026

📖 O verão que não terminou

Crônica histórica (versão final para publicação)
No verão de 13 de dezembro de 1968 a ex-presidente cumpria anos em tradução literal do espanhol. O Coronel do Exército no Ministério do Trabalho, ou da Educação, mandava às favas a consciência e votar sim, ao AI-5, enfim promulgado por Costa. O filho de dono de mercearia e de dona de casa, casado com Catão e seis filhos, votou alegando da “esperança” que a nuvem malfazeja não demoraria mais que seis meses para mudar sua forma. E também votou sim à aprovação do AI-5. O terceiro, também mineiro como a ex-presidente, então na vice-presidência, disse não. Foi andorinha solitária que não desanuviou aquele verão de 1968. O terceiro disse não! No verão de 13 de dezembro de 1968 — verão no calendário, mas estação incerta no espírito — o país parecia suspenso entre o calor e a tempestade. No Palácio das Laranjeiras, as portas se fecharam ainda à luz da tarde. Lá dentro, reunia-se o Conselho de Segurança Nacional sob a presidência de Costa e Silva. Do lado de fora, o Brasil ainda era outro — ou acreditava ser. Os homens à mesa não eram estranhos à gravidade. Alguns carregavam carreiras moldadas por crises; outros, a convicção de que governar era decidir quando endurecer. Ainda assim, havia hesitação — um silêncio que não se registraria em ata. Foi então que a frase cortou o ambiente. Jarbas Passarinho abandonava os escrúpulos como quem abandona uma margem. Entre os presentes, estava Magalhães Pinto — homem que dizia que a política era como nuvem: muda de forma a cada olhar. Falou como quem ainda acredita no tempo: Seis meses, talvez. Uma nuvem que passa. Mas havia quem enxergasse outra coisa. Quando falou, Pedro Aleixo não elevou a voz. Disse não. E, ao dizer, deslocou o centro da sala. Não temia o presidente. Temia o guarda da esquina. E então a história encontra a canção. Na arquitetura delicada de Chico Buarque, surge a figura do terceiro — aquele que chega sem alarde, sem imposição, sem gesto espetacular. “o terceiro me chegou” “como quem chega do nada” Ele não traz nada. Não pergunta. Não negocia. E, ainda assim, transforma. A leitura se abre: o “terceiro” da canção encontra o “terceiro” da história. Não pelo gesto íntimo — mas pela recusa. Não pela presença — mas pela posição. Como Pedro Aleixo, que, sem levantar a voz, sem alterar o rito, sem romper a formalidade — disse não. E esse não ecoa mais do que muitos discursos. As canetas avançaram. O Ato Institucional nº 5 tomava forma — não como surpresa, mas como destino já decidido antes de ser escrito. Do lado de fora, a noite descia sobre o país. E o dia, no papel, ainda era 13 de dezembro. Mas o Brasil já atravessava outra data — não escrita, não anunciada, mas vivida. Décadas depois, restariam os registros. As atas. As memórias. E os relatos de Carlos Chagas. Porque há momentos em que a história não termina quando a reunião acaba. Ela continua — nas ruas, nas vozes, nas canções. E talvez nenhuma síntese seja tão precisa quanto aquela que não estava na ata: o medo não era o poder no topo. Era o poder na esquina. 📌 Versão final integrada — imagem, manuscrito, crônica e diálogo musical prontos para publicação.

domingo, 19 de abril de 2026

O ESTREITO DA PALAVRA: ENTRE A DEFESA E O ACESSO

Trump diz que negociações com Irã podem ser retomadas 'em 2 dias'; EUA afirmam que navios recuaram após bloqueio O ESTREITO DA PALAVRA: ENTRE A DEFESA E O ACESSO (MUNDI OPERA — Ensaios sobre a Economia Invisível do Direito)
Da “stileza” do rábula à monetização do parecer oral: quando a forma jurídica passa a disputar com a substância o próprio sentido de justiça.


“A defesa não é uma verdade revelada, mas uma verdade construída.” — Francesco Carnelutti

“Ninguém morre enquanto permanece vivo no coração de alguém.”
Oscar Schmidt — 16/02/1958


"Um sentir é o do sentente, mas outro é do sentidor.” — João Guimarães Rosa

ARO HA – MUNDI OPERA

A tessitura que se apresenta não responde a perguntas formuladas, mas as incorpora silenciosamente. Como no gesto ensaístico em que a indagação se dissolve na própria resposta, o que se observa é um percurso em que Direito, linguagem e poder deixam de ser compartimentos estanques para se tornarem zonas de tradução do real. A figura inaugural não é institucional, mas empírica. Um defensor sem diploma, cuja legitimidade emergia da prática reiterada, da experiência absorvida no contato direto com o conflito. Não se tratava de precariedade, mas de um estágio anterior à formalização plena do saber jurídico. A chamada “stileza” — essa forma de acuidade não escolarizada — operava como tecnologia de acesso à justiça em contextos onde o Estado ainda não havia se completado. A substituição dessa figura por estruturas formalizadas não representa apenas avanço técnico. Representa deslocamento de poder. A exigência de inscrição, exame e filiação corporativa redefine quem pode falar em nome do Direito. A palavra deixa de ser instrumento e passa a ser prerrogativa. É nesse ponto que a oralidade retorna — não como resquício do passado, mas como produto sofisticado do presente. O parecer oral, agora reconhecido, tributável e protegido, inaugura uma nova economia da linguagem jurídica. Aquilo que antes circulava na informalidade passa a integrar o circuito oficial: a palavra como serviço, a escuta como valor, o aconselhamento como ativo. Mas a formalização da fala não elimina o problema essencial: o da correspondência entre forma e substância. Quando a palavra se monetiza, impõe-se a necessidade de seu lastro. O que legitima o honorário não é sua existência formal, mas a materialidade do trabalho que o sustenta. A dificuldade surge quando essa materialidade se torna opaca, difusa, ou deliberadamente vaga. Nesse cenário, a linguagem jurídica corre o risco de se autonomizar — de operar independentemente daquilo que deveria representar. A metáfora geopolítica oferece uma chave interpretativa. Tal como fluxos energéticos globais atravessam gargalos estratégicos, também os fluxos financeiros encontram seus próprios estreitos institucionais. A concentração de recursos em poucos canais — ainda que formalmente justificável — revela zonas de densidade onde técnica e influência se sobrepõem. Não é o volume, por si só, que inquieta, mas a dissociação entre o que se paga e o que se entrega. A vagueza descritiva, quando combinada à magnitude financeira, produz um ruído que o Direito não pode ignorar. O contrato, nesse contexto, deixa de ser apenas instrumento de vontade e passa a ser objeto de escrutínio material. A advertência clássica permanece: a defesa é construção. E toda construção exige elementos verificáveis. A ausência deles não conduz à neutralidade, mas à suspeita — não como juízo antecipado, mas como exigência de esclarecimento. Essa tensão não se limita ao plano privado. Ela se projeta sobre o próprio desenho institucional. Quando a função jurisdicional se aproxima da orientação pública — especialmente em ambientes de visibilidade — a distinção entre julgar e aconselhar torna-se tênue. A pedagogia institucional, embora legítima, exige limites claros para não se converter em atuação indireta. A crítica que emerge — a percepção de escassez de magistralidade — não aponta para a quantidade de juízes, mas para a rarefação de uma postura. Julgar implica conter-se. Implica resistir à tentação de participar do fluxo contínuo de opiniões que caracteriza o espaço público contemporâneo. Nesse ambiente, a advocacia — fortalecida em suas prerrogativas — encontra-se diante de um paradoxo estrutural. A ampliação de suas garantias visa proteger o exercício da defesa. Mas, sem mecanismos efetivos de verificação material, tais garantias podem ser instrumentalizadas para fins diversos daqueles que as justificaram. A linha divisória não é formal, mas teleológica. Não está na existência do parecer, mas em sua finalidade. Quando o vínculo entre serviço e remuneração se rompe, o que resta é uma aparência de legalidade desprovida de substância. É aqui que a moralidade pública deixa de ser categoria abstrata e assume função operativa. Não como juízo moralizante, mas como critério de consistência entre declaração e realidade. A tributação registra; não legitima. A formalidade documenta; não absolve.
“A sociedade pode enriquecer sem se desenvolver, quando aperfeiçoa seus mecanismos de exclusão.” — José de Souza Martins

Ao fundo, persiste a intuição literária: há sempre um sentente — aquele que vive o fato — e um sentidor — aquele que o traduz. O Direito se realiza no intervalo entre ambos. Quando essa distância se amplia em excesso, a linguagem jurídica deixa de mediar e passa a excluir. O percurso, então, não é de negação da técnica, mas de sua reconexão com a realidade que pretende ordenar. Entre o rábula e o parecerista, entre a oralidade e o documento, entre o acesso e a influência, o sistema jurídico brasileiro ensaia sua própria síntese. O risco não está na sofisticação, mas na dissociação.

INTERLÚDIO (para escuta e transição entre forma e realidade)
“A engrenagem não se revela pelo ruído, mas pela repetição.”

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ANEXO I — CURADORIA ANALÍTICA DA NOTÍCIA
Mandantes e mandatários: forma, fluxo e opacidade na arquitetura do poder financeiro

Texto-base: “Mandantes e mandatários”, de Carlos Andreazza, publicado em O Estado de S. Paulo (18 de abril de 2026).

1. Eixo central da narrativa: a insuficiência do primeiro círculo O texto parte de um ponto metodologicamente relevante: a crítica à suficiência explicativa da delação inicial de Daniel Vorcaro no contexto da Operação Compliance Zero. Há um risco recorrente de estabilização prematura da narrativa investigativa. A figura de Paulo Henrique Costa aparece como exemplo dessa possível saturação. Sua posição institucional não comportaria autonomia decisória compatível com operações bilionárias.
Leitura: distinção entre executor formal e centro decisório real.

2. Desproporção econômica como indício O contraste entre R$ 140 milhões e R$ 12 bilhões opera como chave interpretativa. Não é o número em si, mas o descompasso que revela: sub-representação de agentes centrais fragmentação da responsabilidade camadas de ocultação
Leitura: fluxos concentrados, autoria dispersa.

3. Mandatário vs. Mandante A distinção estrutura o texto: mandatário: executor mandante: decisor Surge a hipótese de vértice político associado a Ibaneis Rocha, tensionando a separação entre cadeia formal e cadeia real de decisão.

4. Limites da delação A delação deixa de ser eixo exclusivo. A investigação precede e excede o relato.
Leitura: verdade jurídica não segue ordem narrativa.

5. Engenharia da opacidade A atuação de Daniel Monteiro revela: estruturas jurídicas de dissimulação uso de fundos e empresas intermediárias circulação transversal de recursos
Leitura: a técnica jurídica como infraestrutura de fluxo.

6. Economia da linguagem jurídica Honorários elevados indicam: complexidade estrutural zona cinzenta entre consultoria e ocultação necessidade de lastro material
Leitura: a palavra jurídica como ativo exige correspondência.

7. Estratégia narrativa O texto jornalístico: desconstrói a aparência de completude reintroduz a dúvida desloca o foco para o invisível

8. Síntese interpretativa O caso revela: cadeia decisória estratificada economia de intermediação possível dissociação entre forma e substância

9. Convergência com MUNDI OPERA A notícia confirma empiricamente: a monetização da palavra a formalidade como possível biombo a centralidade da substância

10. Epígrafe de fechamento “Quando os caminhos do dinheiro se tornam mais complexos que os fatos que deveriam explicar, o problema deixa de ser contábil — e passa a ser jurídico.”

Conclusão do Anexo Entre mandatários visíveis e mandantes difusos, o poder não desaparece — apenas se redistribui. O desafio permanece o mesmo: não basta que a forma exista — é preciso que ela corresponda.



EPÍLOGO
“Aqui jaz a forma sem lastro — falou alto, circulou muito, mas não provou o que dizia.”

Ou, em registro mais sóbrio:

“Sem correspondência entre forma e causa, o Direito deixa de julgar — e passa a simular.”

sábado, 18 de abril de 2026

Homens de fé

"A pesquisa não é uma verdade revelada." Camila Rocha
“Todo aquele, pois, que escuta estas minhas palavras e as pratica, assemelhá-lo-ei ao homem prudente que edificou a sua casa sobre a rocha.” — Jesus. (MATEUS, 7.24) 1 Os grandes pregadores do Evangelho sempre foram interpretados à conta de expressões máximas do Cristianismo, na galeria dos tipos veneráveis da fé; entretanto, isso somente aconteceu, quando os instrumentos da verdade, efetivamente, não olvidaram a vigilância indispensável ao justo testemunho. 2 É interessante verificar que o Mestre destaca, entre todos os discípulos, aquele que lhe ouve os ensinamentos e os pratica. Daí se conclui que os homens de fé não são aqueles apenas palavrosos e entusiastas, mas os que são portadores igualmente da atenção e da boa vontade, perante as lições de Jesus, examinando-lhes o conteúdo espiritual para o trabalho de aplicação no esforço diário. 3 Reconforta-nos assinalar que todas as criaturas em serviço no campo evangélico seguirão para as maravilhas interiores da fé. Todavia, cabe-nos salientar, em todos os tempos, o subido valor dos homens moderados que, registrando os ensinos e avisos da Boa Nova, cuidam, desvelados, da solução de todos os problemas do dia ou da ocasião, sem permitir que suas edificações individuais se processem, longe das bases cristãs imprescindíveis. 4 Em todos os serviços, o concurso da palavra é sagrado e indispensável, mas aprendiz algum deverá esquecer o sublime valor do silêncio, a seu tempo, na obra superior do aperfeiçoamento de si mesmo, a fim de que a ponderação se faça ouvida, dentro da própria alma, norteando-lhe os destinos. Emmanuel Texto extraído da 1ª edição desse livro. 9 Homens de fé Pão Nosso #009 - Homens de fé NEPE Paulo de Tarso | Evangelho e Espiritismo Transmitido ao vivo em 10 de mar. de 2022 Série de estudos, com Artur Valadares, da obra "Pão Nosso", de Emmanuel/Chico Xavier. Transcrição
Eurípedes Barsanulfo (1880–1918) foi um educador, político e médium brasileiro, amplamente conhecido como o “Apóstolo da Caridade” e também como um dos pioneiros do espiritismo no Brasil. Nascido em Sacramento (MG), destacou-se por fundar o Colégio Allan Kardec, a primeira escola espírita do país. Principais aspectos da sua trajetória: Nascimento e Educação: Nasceu em 1º de maio de 1880, em Sacramento-MG, demonstrando interesse precoce por literatura e intelecto. Ação Espírita: Fundou o Grupo Espírita Esperança e Caridade em 1905, após converter-se ao espiritismo. Educação: Fundou o Colégio Allan Kardec (1907), focando em educação gratuita para órfãos e necessitados. Político e Jornalista: Foi vereador e fundou a “Gazeta de Sacramento” para levar informação à população. Médium e Educador: Conhecido por suas extraordinárias faculdades mediúnicas tinha como seu guia espiritual Vicente de Paula. Era dedicado à educação gratuita de pobres e órfãos, atuando ativamente em trabalhos de caridade. Desencarnação: Faleceu precocemente aos 38 anos, em 1º de novembro de 1918, vítima da gripe espanhola, após se dedicar a socorrer doentes. Eurípedes é reconhecido por sua dedicação abnegada ao próximo e por ter unido educação secular e espiritual, deixando um legado de amor e caridade no triângulo mineiro, em todo Brasil e no mundo inteiro. #espirita #euripedesbarsanulfo #allankardec #chicoxavier #jesus
Retrato de Eurípedes Barsanulfo (1880–1918) Professor, médium e educador do Espírito A GAZETA DE SACRAMENTO A dinâmica de trabalho não conhecia cansaços no roteiro do jovem Eurípedes. Conhecido nos círculos culturais da cidade por sua participação conscienciosa no Grêmio Dramático Sacramentano, Eurípedes amplia suas atividades no campo da comunicação, criando com a colaboração de José Martins Borges, Leão de Almeida e Prof. Inácio G. Melo a Gazeta de Sacramento, que circulou, provavelmente até 1918. Esse periódico – o primeiro de Sacramento – era conhecido também nas cidades vizinhas. O Lavoura e Comércio, de Uberaba, em tiragem especial dedicada ao Município de Sacramento, em 1918, transcreve bem lançado artigo (editorial) inserto na Gazeta de Sacramento. S
Você está em: O Evangelho segundo o Espiritismo > Capítulo XVI — Não se pode servir a Deus e a Mamon > Jesus em casa de Zaqueu Jesus em casa de Zaqueu 4. Tendo Jesus entrado emJericó, passava pela cidade – e havia ali um homem chamado Zaqueu, chefe dos publicanos e muito rico – o qual, desejoso de ver a Jesus, para conhecê-lo, não o conseguia devido à multidão, por ser ele de estatura muito baixa. – Por isso, correu à frente da turba e subiu a um sicômoro, para o ver, porquanto ele tinha de passar por ali. – Chegando a esse lugar, Jesus dirigiu paro o alto o olhar e, vendo-o, disse-lhe: Zaqueu, dá-te pressa em descer, porquanto preciso que me hospedes hoje em tua casa. – Zaqueu desceu imediatamente e o recebeu jubiloso. – Vendo isso, todos murmuravam, a dizer: Ele foi hospedar-se em casa de um homem de má vida. (Veja-se: “Introdução”, artigo – Publicanos.) Entretanto, Zaqueu, pondo-se diante do Senhor, lhe disse: Senhor, dou a metade dos meus bens aos pobres e, se causei dano a alguém, seja no que for, indenizo-o com quatro tantos. – Ao que Jesus lhe disse: Esta casa recebeu hoje a salvação, porque também este é filho de Abraão; – visto que o Filho do homem veio para procurar e salvar o que estava perdido. (S.LUCAS, 19:1 a 10.) O Evangelho seg. o Espiritismo [Ep102] Jesus em casa de Zaqueu (cap XVI, 4) Eleições 2024: Camila Rocha, cientista política e pesquisadora do Cebrap Jornal da Gazeta Estreou em 6 de out. de 2024 #JornalDaGazeta #HoraDoVoto #Eleições2024naGazeta A cientista político e pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), Camila Rocha, é entrevistada na Hora do Voto. Ela fez sua análise sobre as eleições de hoje. #HoraDoVoto #Eleições2024naGazeta

Fidelidade à fonte e fiel à mensagem?

"Um sentir é o do sentente, mas outro é do sentidor.” João Guimarães Rosa José de Souza Martins: O Brasil oculto da polarização "A partir de 1881, o analfabetismo voltava a vetar o direito de ser eleitor. A sociedade enriquecia, mas não se desenvolvia socialmente. O Brasil sempre foi bom em inventar discriminações e exclusões para se adaptar sem se transformar. Só em 1967, uma emenda à Constituição reconheceu aos analfabetos o direito de voto. Completava a Lei Áurea. Mas as graves imperfeições do sistema político continuam a mantê-los fora da cidadania. Nas eleições municipais de 2016, dos mais de 38 milhões de eleitores analfabetos, 44% se abstiveram, quase 17 milhões de eleitores. A polarização política não será superada enquanto o país for competente em eleger representantes do atraso social e do retrocesso político. Gente nascida e cevada nos chamados currais eleitorais dessa imensa e secular trama de armadilhas políticas à democracia. Há grandes e significativas exceções políticas, de cidadãos decentes e corajosos, empenhados no bem comum e no progresso político do país. Tomara Deus. Mas, Deus mesmo, se vier, que venha armado, como alertou Guimarães Rosa." Fidelidade à fonte e fiel à mensagem? Uma carta persa do Brasil ao olhar satírico de Londres 🖼️ Ilustração (à maneira de William Hogarth)
Ilustração satírica no estilo de Hogarth CARTA LXVII Do Brasil, a um nobre persa em Londres Meu estimado amigo, Se as artes, como me escreves, têm em Londres um intérprete tão engenhoso quanto o pintor que satiriza os vícios de tua cidade, creio poder assegurar-te que aqui, nestas terras do Novo Mundo, encontrei matéria que não lhe seria menos fecunda. Assisti recentemente a uma cena que, se transposta ao buril desse teu célebre observador dos costumes, produziria uma dessas composições morais em que cada figura parece ignorar o ridículo que encarna. Tratava-se de uma dama reputada por instruída, cuja função é narrar aos outros os acontecimentos do reino — não como um simples cronista, mas como um intérprete das intenções ocultas dos homens. Ela falava de um magistrado que, segundo dizia, apenas “exarara” um ato conforme a “jurisprudência cediça”. Confesso-te que, ao ouvir tais palavras, julguei estar diante de um escriba de tribunal e não de alguém que se dirige ao público. Mas logo percebi que essa linguagem não era acidente: era ornamento. Aqui, meu caro, não basta dizer — é preciso parecer dizer como aqueles que decidem. A palavra não serve apenas para esclarecer, mas para indicar proximidade com os que a inspiram. Assim, quem escuta não distingue se está diante de um relato ou de um eco. O mais curioso, porém, é a prudência com que essa dama se move. Declara com insistência que não há crime; repete que nada foi provado; e, no entanto, cerca essas negativas de tal forma que o espírito do ouvinte, conduzido com delicadeza, chega sozinho a conclusões que jamais foram afirmadas. Dir-se-ia que aqui descobriram a arte de acusar sem acusar, de sugerir sem dizer, e de convencer sem se comprometer. Imagino, então, como o teu artista londrino representaria tal cena: ao centro, a narradora, com uma pena numa mão e um espelho na outra — não para refletir a verdade, mas para refletir aqueles a quem deseja agradar. Ao redor, ouvintes de olhar elevado, como se a altura das palavras os elevasse também em entendimento, quando na verdade apenas os afasta da clareza. Lembrei-me, ao sair, de que os homens não temem tanto o erro quanto a simplicidade. Preferem ser enganados com elegância do que instruídos com franqueza. Se estas práticas chegarem um dia às tuas ruas — o que não duvido, pois os vícios viajam mais rápido que as virtudes —, aconselho-te a pedir ao teu pintor que as registre. Não para corrigi-las, pois isso seria tarefa ingrata, mas para que ao menos se possa rir delas com alguma consciência. Permaneço, como sempre, teu atento observador das delicadezas e dos artifícios dos homens, — Teu amigo nas terras do Brasil Nota editorial (contexto contemporâneo) Inspirado no espírito crítico de Montesquieu em Cartas Persas (1721), o texto propõe uma reflexão sobre práticas modernas de comunicação política e jornalística: a tensão entre fidelidade à fonte, construção narrativa e compreensão pública. Francis Fukuyama: The End of History Was Never What You Think Sam Harris 16 de abr. de 2026 Sam Harris speaks with Francis Fukuyama about liberal democracy, American politics, and global order. They discuss the misunderstood thesis of "The End of History," how conservatism has mutated into ethno-nationalism, the self-defeating extremes of both identity politics and neoliberalism, the damage of Trump's second term, the war in Iran, the future of Israel, antisemitism on the left and right, and other topics. Francis Fukuyama is the Olivier Nomellini Senior Fellow at Stanford University's Freeman Spogli Institute for International Studies and Director of Stanford's Ford Dorsey Master's in International Policy. One of the most influential political thinkers of his generation, he is best known for his 1992 book The End of History and the Last Man. His forthcoming memoir is In the Realm of the Last Man. Dr. Fukuyama has held distinguished appointments at Johns Hopkins, George Mason University, the RAND Corporation, and the U.S. Department of State's Policy Planning Staff. His articles can be read at Persuasion, and his podcast is Frankly Fukuyama. Website: francisfukuyama.com Stay updated on new episodes, essays, and events — subscribe to Sam Harris’s free newsletter: https://samharris.org/newsletter-signup/
sexta-feira, 17 de abril de 2026 O Brasil oculto da polarização, por José de Souza Martins* Valor Econômico Não é direita ou esquerda. É o nosso extremismo: somos radicalmente de extremo centro Parece que todos são contra a polarização política. À medida que o cenário das eleições se define, em particular a de presidente da República, vai ficando claro que, mais uma vez, o dilema é apenas o de optar por qual polarização. O Brasil tem mudado. Vai se ver, ficou no mesmo lugar. Os penduricalhos do oportunismo não o deixam mover-se. Há muita coisa por trás disso. Muita história, muitas acomodações, muitos interesses. Não é direita ou esquerda. É o nosso extremismo: somos radicalmente de extremo centro, que, na verdade, é o município e o regionalismo dele decorrente. Sobretudo, óbvios e conhecidos resíduos dos imensos e acumulados impasses a que o país se torne algo diferente do que sempre foi. Mesmo nossas revoluções são golpes, como em 1889, 1930 e 1964. A polarização nasceu com o Brasil, com a criação do primeiro município, o de São Vicente, em 1532. Estão aí os fundamentos da estrutura política da sociedade brasileira. A coisa era simples. Havia a Coroa, isto é, o poder do Estado português. E havia os municípios, então chamados “vilas”, o poder local e dos locais, a representação daquela parte da população reconhecida como gente, uma espécie de embrião minoritário e excludente da sociedade civil. Na verdade, a Coroa não patrocinou a ocupação do território descoberto. O rei não utilizou os meios do Estado para ocupar o que veio a ser o Brasil. Os particulares, com seus próprios recursos materiais e humanos, organizavam as expedições de caça aos indígenas, que trabalhariam para eles em troca da catequese. E de ocupação do território. Em compensação, os conquistadores recebiam reconhecimento simbólico do rei, através de títulos e de formalização jurídica das sesmarias, as concessões de terras. Era a base política do que veio a ser a corrupção no país. Tomavam do rei o que era deles mesmos, e não do rei. Por isso, no Brasil, a corrupção parece tão natural e até honesta. Os homens bons criavam o patrimônio do rei e com isso também tomavam do rei o que podiam. Não é estranho que ainda hoje, quando corruptos são apanhados, estranhem. E o próprio povo de vários modos não estranhe a corrupção porque não a considera como tal. Naqueles começos, nem todos os habitantes eram reconhecidos como gente. Os indígenas não o eram. Os negros escravizados trazidos da África tampouco. Para ser gente era preciso ter alma. Nos primeiros tempos, havia dúvidas quanto a se indígenas e negros tinham alma. Foi penosíssimo e lento o processo do reconhecimento suficientemente amplo de que tinham alma e eram gente. Ainda no século XVIII persistia a dúvida teórica, como vejo em documentos de uma pesquisa documental que fiz, aqui e em Portugal. A partir do século XIX a dúvida estava reduzida a saber e decidir quem podia ter direitos políticos, isto é, o direito de ser eleitor. As primeiras Constituições, desde a Independência, estabeleceram restrições a que alguém se tornasse eleitor. Até 1881 analfabeto podia votar porque eram raríssimos nas populações originárias os alfabetizados. Para ser eleitor o importante era ter cabedal. A riqueza “alfabetizava” os ricos analfabetos. O cabedal legitimava as diferenças sociais, um progresso na linha de definição da condição humana, desde vésperas da Independência, não mais por direito de nascimento. É que o dinheiro dissolve desigualdades não econômicas e de origem. Havia disfarces para a discriminação racial que agora tinha outras características: também aí ter cabedal era um deles. E havia uma hierarquia, quem tinha menos podia ser eleitor só no município, um pouco mais na província, muito nas eleições gerais. A partir de 1881, o analfabetismo voltava a vetar o direito de ser eleitor. A sociedade enriquecia, mas não se desenvolvia socialmente. O Brasil sempre foi bom em inventar discriminações e exclusões para se adaptar sem se transformar. Só em 1967, uma emenda à Constituição reconheceu aos analfabetos o direito de voto. Completava a Lei Áurea. Mas as graves imperfeições do sistema político continuam a mantê-los fora da cidadania. Nas eleições municipais de 2016, dos mais de 38 milhões de eleitores analfabetos, 44% se abstiveram, quase 17 milhões de eleitores. A polarização política não será superada enquanto o país for competente em eleger representantes do atraso social e do retrocesso político. Gente nascida e cevada nos chamados currais eleitorais dessa imensa e secular trama de armadilhas políticas à democracia. Há grandes e significativas exceções políticas, de cidadãos decentes e corajosos, empenhados no bem comum e no progresso político do país. Tomara Deus. Mas, Deus mesmo, se vier, que venha armado, como alertou Guimarães Rosa. *José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar, da Universidade de Cambridge e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador Emérito do CNPq. Membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de Escravidão, em Genebra (1996-2007. Entre outros livros, é autor de “Desavessos” (Editora Com Arte).

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Do campo ao Planalto: entre o passe e a decisão

Como funciona a relação entre política e esporte, no Brasil? Poesia | Se os tubarões fossem homens, de Bertold Brecht João Gilberto - Saudosa Maloca (1982) Lula atrás em pesquisas mostra desafio sobre até que ponto PT fala para o Brasil, diz professor Jairo Nicolau, professor da FGV CPDOC, analisou no Mercado Aberto, do canal UOL, o cenário eleitoral após divulgação das pesquisas recentes. Para ele, Lula e Flávio Bolsonaro possuem desafios distintos nas eleições. #MercadoAberto #canaluol #Política #Economia #Lula #FlávioBolsonaro #Eleições #MercadoFinanceiro #corte #canaluoltextos Do diálogo entre camisa 10 e camisa 9 às táticas do poder — quando pensar e romper também definem a política O futebol brasileiro pode ser contado como um diálogo antigo entre dois personagens: o camisa 10 e o camisa 9. Um pensa, o outro rompe. Um desenha o jogo, o outro rasga a linha final. Entre ambos, não há apenas um passe — há uma época inteira. Anos 60: o futebol como invenção Nos anos 60, quando o jogo ainda cabia na imaginação e no talento cru, Pelé e Coutinho, no Santos Futebol Clube, pareciam brincar de antecipar o futuro. Não havia rigidez: o 10 invadia a área, o 9 recuava para pensar. Era o futebol como invenção permanente, onde a tabelinha era quase um sussurro combinado antes do gol. Na mesma década, em outro registro, Tostão e Dirceu Lopes, no Cruzeiro Esporte Clube, refinavam a ideia de inteligência coletiva — um jogo de aproximação, de triangulações curtas, como se o campo fosse menor para quem pensava mais rápido. Anos 70: equilíbrio entre arte e força Os anos 70 trouxeram um futebol mais físico, mas sem abrir mão da arte. Ademir da Guia e César Maluco, na Sociedade Esportiva Palmeiras, representavam o equilíbrio entre cadência e explosão. Ademir era o tempo — desacelerava o mundo ao seu redor; César era o instante — o chute seco, o fim da jogada. Já Rivellino e Flávio Minuano, no Sport Club Corinthians Paulista, davam ao jogo um tom mais dramático: o drible largo, o chute de longe, a tentativa como estilo. E no Botafogo de Futebol e Regatas, Didi e Quarentinha haviam estabelecido um modelo quase didático: o passe como régua, o gol como consequência inevitável. Anos 80: o auge da síntese Nos anos 80, o jogo amadurece taticamente, mas ainda permite o brilho individual como centro gravitacional. Zico e Nunes, no Clube de Regatas do Flamengo, sintetizam essa fase: o 10 já é também finalizador, o 9 já participa da construção. O campo se alonga, a marcação aperta, mas a dupla encontra frestas — como quem conhece de memória os espaços invisíveis do jogo. Anos 90/2000: velocidade e precisão A partir dos anos 90 e, sobretudo, nos anos 2000, o futebol se globaliza, acelera e se torna mais vertical. Na Seleção Brasileira de Futebol, Rivaldo e Ronaldo transformam eficiência em arte: menos toques, mais precisão, como se cada jogada já nascesse sabendo onde terminaria. Ao lado deles, Ronaldinho Gaúcho reintroduz o improviso — lembrando que, mesmo na era da velocidade, o futebol ainda pode ser surpresa. Juiz de Fora: quando o improvável entra em campo Mas a história não se escreve apenas nos grandes estádios. Às vezes, ela escapa — como bola vadia — para campos improváveis. Em Minas, a Seleção Brasileira de Futebol de Pelé cruzou com o Tupi Football Club. Do outro lado, homens comuns. Entre eles, Moacyr Toledo. E então aconteceu o improvável: o empate. 📸 Registro do improvável
Legenda: Pelé (à esquerda) disputa a bola com Moacyr Toledo em jogo-treino da Seleção Brasileira de Futebol contra o Tupi Football Club, em 1966. (Acervo / reprodução) A fotografia prova: por um instante, não havia diferença. Apenas jogo. Do campo à política: o mesmo dilema Essa tensão entre pensar e romper — entre o cálculo e a ação — não pertence apenas ao futebol. Ela reaparece, com outros nomes, no coração da política. No governo de Luiz Inácio Lula da Silva, essa dualidade ganha forma na atuação de Guilherme Boulos e José Guimarães. Ambos encarnam uma velha encruzilhada: avançar rapidamente em pautas populares ou calibrar o passo para preservar alianças. Boulos, vindo dos movimentos sociais, atua como o “camisa 10” — mobilizador, ideológico, voltado à base. Defende mudanças imediatas, como o fim da escala 6×1, como resposta urgente à realidade social. Guimarães, operador experiente do Congresso, assume o papel do “camisa 9” — pragmático, negociador, atento ao momento do chute. Prefere a transição, o acordo, o tempo político necessário para viabilizar decisões. Essa diferença não é erro. É método. Assim como no futebol, onde o passe e a finalização precisam coexistir, o governo oscila entre impulso e cálculo. Mas, levada ao extremo, essa dualidade pode gerar ruído — como um time que não decide se acelera ou segura o jogo. O tempo das decisões O debate sobre a jornada 6×1 revela isso com clareza. Enquanto parte do governo pressiona por mudança imediata, outra reconhece os limites impostos pelo Congresso e pelo setor produtivo. No mundo, a redução da jornada já avançou. No Brasil, o caminho parece ser gradual — uma transição possível entre o ideal e o viável. Entre o passe e o gol No futebol, a jogada perfeita nasce do encontro entre quem pensa e quem executa. Na política, talvez não seja diferente. Entre o 10 e o 9, entre Boulos e Guimarães, entre o impulso e o cálculo, o que está em jogo é sempre a mesma coisa: o tempo certo. E, como naquela fotografia em Juiz de Fora, há momentos raros em que tudo se alinha — e o improvável deixa de ser exceção para se tornar história.
Boulos e Guimarães, duas táticas de Lula na cozinha do Planalto Publicado em 17/04/2026 - 07:43 Luiz Carlos AzedoBrasília, Congresso, Economia, Eleições, EUA, Europa, Governo, Memória, Partidos, Política, Política, Saúde, Sindicatos, Trabalho Ambos protagonizam uma velha encruzilhada dos governos de esquerda: avançar rapidamente em pautas populares ou calibrar o passo para preservar alianças e estabilidade Com a saída do ministro da Casa Civil, Rui Costa, e da ministra de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, que disputarão as eleições como candidatos ao Senado, os principais operadores políticos do Palácio do Planalto passaram a ser Guilherme Boulos, na Secretária-Geral da Presidência, e José Guimarães, que substituiu Gleisi. Miriam Belchior assumiu a Casa Civil com foco na gestão administrativa do governo. Boulos e Guimarães têm perfis completamente diferentes. Ex-candidato a prefeito de São Paulo, Boulos construiu sua trajetória política a partir dos movimentos sociais, especialmente no campo da luta por moradia, o que lhe confere forte conexão com a militância de esquerda e com pautas de mobilização popular. Sua atuação no governo reflete essa origem: é um articulador de base social, voltado para sindicatos, movimentos organizados e partidos progressistas, com discurso mais ideológico e mobilizador. Já Guimarães representa a face pragmática do governo. Deputado experiente, com trânsito consolidado no Congresso, atua como operador político clássico, interlocutor do presidente junto ao Centrão e ao presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), para construir maiorias e viabilizar votações. Seu perfil é moderado, negociador capaz de fazer muitas concessões para colher resultados. Essas diferenças traduzem estratégias distintas dentro do próprio governo, as quais o presidente Luiz Inácio Lula da Silva estimula como forma de ampliar sua margem de manobra. No caso da proposta de extinção da escala de trabalho 6 x 1, a divergência entre ambos se tornou explícita e revela duas táticas políticas em disputa no interior do Planalto para lidar com o Congresso no processo eleitoral. Levada à prática, porém, essa dualidade costuma causar mais problemas do que soluções. Leia também: Fim da escala 6×1 opõe Congresso e governo Boulos defende uma mudança imediata, sem transição prolongada, uma pauta urgente de justiça social e qualidade de vida. Para ele, a manutenção da escala 6 x 1 representa uma forma de exploração que compromete não apenas a saúde física e mental do trabalhador, mas, também, sua capacidade de convívio familiar e desenvolvimento pessoal. É contra qualquer tentativa de uma transição longa, com implementação gradual ao longo de anos, que seria uma forma de esvaziar politicamente a medida. Ao defender que o fim da escala seja “para agora”, Boulos revela uma estratégia eleitoral que busca mobilizar a base social do lulismo e alargar a chamada “economia do afeto” para vencer as eleições. Guimarães adota postura cautelosa. Embora não se oponha ao mérito da proposta, sinaliza abertura para negociação no Congresso. Inclusive, admite a possibilidade de uma transição. Sua preocupação central é garantir que a mudança seja aprovada sem provocar reação adversa do setor produtivo ou da maioria parlamentar, cuja composição é mais conservadora. Ao afirmar que o tema deve ser “discutido” e que o formato final dependerá do Congresso, Guimarães reforça sua lógica de construção gradual de consenso, sem rupturas políticas que possam comprometer a governabilidade. A oposição também vê a questão pela ótica eleitoral e, por isso, é contra. Debate chega atrasado Essa divergência expressa duas visões sobre o ritmo e o método de transformação social: uma é orientada pela pressão política e pela mobilização, representada por Boulos e os partidos de esquerda; outra, guiada pela negociação institucional e pelo cálculo de viabilidade, encarnada por Guimarães e os aliados do governo mais ao centro. Essa é uma velha encruzilhada dos governos de esquerda: avançar rapidamente em pautas populares ou calibrar o passo para preservar alianças e estabilidade. Leia mais: Governo admite transição no fim da escala 6×1 e expõe divergências internas O debate sobre a escala 6 x 1 chega até atrasado. A jornada 5 x 2, por exemplo, nos Estados Unidos, foi adotada por Henry Ford na sua linha de produção de automóveis, em 1926. O modelo brasileiro atual — de até 44 horas semanais — está entre os mais extensos em comparação com países desenvolvidos. Na Europa, observa-se uma tendência consolidada de redução da jornada, com ganhos de produtividade, avanço tecnológico e valorização do bem-estar. Países como Alemanha, Dinamarca e Noruega operam com cargas médias entre 26 e 28 horas semanais, enquanto a França adota uma jornada de cerca de 30 horas e a Itália, em torno de 35 horas. Esses modelos se apoiam em três fundamentos. O primeiro é econômico: trabalhadores menos exaustos tendem a ser mais produtivos. O segundo, social: jornadas menores ampliam o tempo disponível para educação, lazer e convívio familiar, contribuem para a coesão social e para economia do lazer e da cultura. O terceiro é tecnológico: a automação e a digitalização permitem produzir mais com menos horas de trabalho humano, torna possível redistribuir o tempo sem perda de eficiência. Jornadas de quatro dias (4 x 3) têm sido testadas em países como Reino Unido e Espanha. No Brasil, relações de trabalho marcadas por desigualdade e informalidade, somadas à baixa produtividade média, dificultam a adoção imediata de modelos mais avançados. Por isso, a tendência é a transição para o modelo 5 x 2, já presente em diversos setores. A proposta de jornadas mais curtas, como a 4 x 3, esbarra na maioria do Congresso. Nas entrelinhas: todas as colunas no Blog do Azedo Compartilhe: Clique para compartilhar no Facebook(abre em nova janela)Clique para compartilhar no Twitter(abre em nova janela)Compartilhe no Google+(abre em nova janela)Clique para compartilhar no Pinterest(abre em nova janela) #6x1, #Boulos, #congresso, #Guimarães, Lula 🎶 Playlist — O som do gol através do tempo (com links) Dê o play como quem revive: cada faixa é um instante congelado — o passe, o chute, o grito. Anos 60 — O futebol como invenção A Banda — Chico Buarque ▶️ https://www.youtube.com/results?search_query=Chico+Buarque+A+Banda Mas Que Nada — Jorge Ben Jor ▶️ https://www.youtube.com/results?search_query=Jorge+Ben+Jor+Mas+Que+Nada Anos 70 — Arte e força País Tropical — Jorge Ben Jor ▶️ https://www.youtube.com/results?search_query=Jorge+Ben+Jor+Pa%C3%ADs+Tropical Como Nossos Pais — Elis Regina ▶️ https://www.youtube.com/results?search_query=Elis+Regina+Como+Nossos+Pais Anos 80 — Síntese e brilho Tempo Perdido — Legião Urbana ▶️ https://www.youtube.com/results?search_query=Legi%C3%A3o+Urbana+Tempo+Perdido Você Não Soube Me Amar — Blitz ▶️ https://www.youtube.com/results?search_query=Blitz+Voc%C3%AA+N%C3%A3o+Soube+Me+Amar Anos 90/2000 — Velocidade e explosão É Uma Partida de Futebol — Skank ▶️ https://www.youtube.com/results?search_query=Skank+%C3%89+Uma+Partida+de+Futebol Festa — Ivete Sangalo ▶️ https://www.youtube.com/results?search_query=Ivete+Sangalo+Festa Juiz de Fora — O improvável eterno Romaria — Elis Regina ▶️ https://www.youtube.com/results?search_query=Elis+Regina+Romaria Tocando em Frente — Almir Sater ▶️ https://www.youtube.com/results?search_query=Almir+Sater+Tocando+em+Frente 🎧 Coda Se o futebol é instante, a música é permanência. O gol dura segundos — a canção, décadas. E quando o leitor apertar o play, talvez perceba: o tempo não passou — ele só mudou de faixa. Se Edu Lobo - Reza — Vídeo TV Alemanha, 1966 A Banda - Lea Massari e Chico Buarque Mas, Que Nada! Jorge Ben Jor - País Tropical Elis Regina - Como Nossos Pais Legião Urbana - Tempo Perdido (Ao Vivo Especial) Você Não Soube Me Amar - Fernanda Abreu e Blitz [DVD Ao Vivo e A Cores] Skank - É Uma Partida De Futebol Ivete Sangalo - Festa (Video Clipe) Elis Regina - Romaria Tocando em Frente, por Almir Sater