O Eco dos Festivais: Entre o Desencanto de 1968 e a Apatia de 2026
O ano de 1968 inscreveu-se na memória global como o epicentro de uma fratura geracional e política. Enquanto as ruas de Paris, Praga e Rio de Janeiro ferviam sob o signo da contestação e do confronto direto com as estruturas de poder, a Itália vivia o seu próprio Sessantotto — um período de intensas greves operárias, ocupações universitárias e questionamento radical dos valores burgueses. Ironicamente, foi nesse mesmo ano de convulsão que a melancolia intimista de "Canzone Per Te", interpretada por Sergio Endrigo e Roberto Carlos, sagrou-se vencedora do prestigiado Festival de Sanremo. Em vez dos hinos de marcha ou do tom panfletário que ditavam o espírito da época, a canção triunfou ao traduzir o luto de um fim, o isolamento afetivo e a dolorosa constatação de que "a festa mal começou e já terminou". Havia, por trás do lirismo amoroso, a captura sutil de um desencanto coletivo: a percepção de que as grandes promessas de modernidade e comunhão pareciam claudicar diante da realidade.
Quase seis décadas depois, o Brasil de 2026 projeta um reflexo invertido, mas igualmente melancólico, daquela atmosfera. Às vésperas de uma eleição presidencial crucial, o país não experimenta a efervescência utópica de 1968, mas o seu exato oposto: uma apatia generalizada e um profundo esvaziamento do debate público. O paralelo histórico não se dá pelo excesso de paixão das massas, mas pela institucionalização do silêncio e pela mercantilização da política de rua. Se em 1968 a música popular servia de refúgio lírico contra a saturação do ruído ideológico, em 2026 o lirismo melancólico de Endrigo ressoa como metáfora de um sistema representativo exaurido. As calçadas coloridas por bandeiras pagas e a polarização movida pelo medo, e não por projetos de futuro, evidenciam que a mística democrática nacional transformou-se em pura engrenagem processual — uma festa que parece ter terminado antes mesmo que o cidadão comum pudesse nela se reconhecer.
O Vazio por Trás das Bandeiras: A Fantasia da Plausibilidade e o Esvaziamento do Voto
Entre a propaganda totalitária de Arendt, a apatia mercadológica das ruas e a urgência de uma causa comum nas Eleições 2026.
A poucos dias do pleito de outubro, a paisagem urbana das cidades brasileiras ganhou uma profusão de cores artificiais trazida pelos abanadores de bandeiras assalariados. A análise do cientista político Jairo Nicolau no blog Política & Dados expõe uma realidade intrigante: em um pleito marcado pelo silêncio, pelo desinteresse generalizado e pelo desânimo do eleitorado, a rua se faz notar quase que exclusivamente por meio de uma força de trabalho contratada com recursos do Fundo Eleitoral. O antigo engajamento voluntário e ideológico cedeu espaço a uma engrenagem pragmática de subsistência econômica, sintetizada no lema popularizado pelos próprios cabos eleitorais: "é melhor pingar do que faltar".
Essa onipresença das bandeiras nas esquinas e sinais de trânsito não reflete o convencimento de ideias, mas uma estratégia de sinalização de sobrevivência. Diante de um calendário eleitoral oficial encurtado, os candidatos recorrem às bandeiras como os últimos recursos visuais disponíveis para fixar seus números na memória do eleitor. Esse cenário conecta-se diretamente ao diagnóstico severo de Marco Aurélio Nogueira sobre o impasse institucional brasileiro. A polarização defensiva — onde o eleitor vota para rejeitar quem o assusta em vez de apoiar um projeto — blinda as mazelas históricas do Estado, como o patrimonialismo e o corporativismo. Sem a costura de uma causa comum que uma a sociedade civil, o país corre o risco de sair das urnas mantendo o sistema operando "por aparelhos", intoxicado pelos gases de uma polarização que promete persistir muito além da apuração dos votos.
Esse esvaziamento do debate é o terreno fértil para dinâmicas históricas mais profundas. Como advertiu Hannah Arendt em sua obra seminal Origens do Totalitarismo, a engrenagem da dominação política não se inicia com a violência explícita, mas com a conquista das massas pela propaganda. Antes de isolar por completo uma sociedade sob o jugo do autoritarismo, os movimentos ideológicos buscam "parecer plausíveis" aos olhos de um público que ainda tem acesso a outras fontes de informação. Quando a política de rua se transforma em pura coreografia mecânica mercantilizada e o eleitorado abdica do pensamento crítico em prol do afeto ou do medo, a linha que separa a propaganda democrática da manipulação totalitária torna-se perigosamente tênue.
A ilusão das calçadas coloridas mascara a melancolia de um sistema que se esvaziou de sentido próprio. "A festa mal começou e já terminou", como se a mística democrática tivesse perdido o brilho, restando apenas o automatismo do processo. Diante desse ciclo que claudica, o ato de insistir na reflexão escrita e na vigilância cívica torna-se o nosso próprio manifesto particular: "per questo canto e canto te" — um registro de resistência e afeto pelo que resta de republicanismo, cultivando a consciência crítica como uma flor na solidão dos tempos áridos, na esperança de que um novo sonho, finalmente, nos pegue pela mão.
Opúsculo, à Guisa de Conclusão: Macunaíma no Poder
O diagnóstico sombrio sobre as engrenagens que movem a política e a sociedade encontra o seu desfecho analítico na tese do sociólogo José de Souza Martins. Ao evocar o clássico personagem de Mário de Andrade, o autor demonstra que os representantes políticos brasileiros, historicamente, operam como representantes de si mesmos, organizados em uma estrutura partidária fluida e sem compromisso programático — um verdadeiro "partido nacional macunaímico".
Não se trata de uma ausência de ideologia, mas da consolidação de uma deformação estrutural: o Brasil acabou por criar um "capitalismo anticapitalista", cuja dinâmica principal reside no lucro privado baseado no prejuízo coletivo. A coreografia vazia das ruas, a manipulação retórica das propagandas e o impasse institucional que paralisa o Estado são apenas os sintomas superficiais desse capitalismo do herói sem nenhum caráter. Sem que se confronte essa matriz patrimonialista e predatória, qualquer alternância de poder corre o risco de perpetuar uma sociabilidade do faz de conta, mantendo a sociedade civil alienada do verdadeiro pacto republicano.
Assista à apresentação histórica da música vencedora do Festival de Sanremo de 1968, ano profundamente simbólico para a história política ocidental, e acompanhe o lirismo melancólico que ecoa os impasses da nossa própria atualidade: Sergio Endrigo – Canzone per te (Festival di Sanremo del 1968) - live Sanremo and more 24 de out. de 2024 Sergio Endrigo – Canzone per te (Festival di Sanremo del 1968 la seconda e la terza serata) - live, stereo. Presenters - Pippo Baudo and Luisa Rivelli. Written-By – Sergio Bardotti, Sergio Endrigo. Directed By [Orchestra] – Giancarlo Chiaramello. "Canzone per te" ("A song for you"), written by Italian composer Sergio Endrigo and sung by Brazilian singer Roberto Carlos, was the Italian entrant to and winner of the 1968 edition of the Sanremo Music Festival. On the night of the contest, held in Sanremo, Italy, the song was performed by both Endrigo and Carlos. Construction from permitted video fragments, restoring by Vladimir Mastica (VM).
Use o código com cuidado.*Você também pode conferir e ler a composição poética completa acessando a Letra de Canzone Per Te no Letras.mus.br.
DOCUMENTO HISTÓRICO AUDIOVISUAL
Estádio do Jornal da Noite: A Entrevista de Gilmar Mendes por Renata Lo Prete
(Som de fundo: o burburinho tenso das grandes decisões. Entra no ar a voz cadenciada, musical e inconfundível do mestre Waldir Amaral, direto do Estádio do Jornal da Noite...)
WALDIR AMARAL: Deixa eu ver... o relógio corre! No gramado iluminado dos estúdios da Globo, o decano da Corte Suprema, o camisa 10 Gilmar Mendes, avança com a bola no pé. Mas atenção, amigos! Na cobertura, colada nele, vem a zagueira de ferro Renata Lo Prete, com uma marcação cerradíssima, sem dar espaço para o atacante respirar! Ela aperta o cerco, estica o microfone e lança o bote: "Ministro, esse inquérito não virou uma ferramenta política?"
É o momento da verdade no Estádio da Notícia! Gilmar domina no peito... e o que é que ele faz? Olha para o tempo... O atacante estuda o lance, puxa a bola para a perna esquerda e começa o contra-ataque:
— "Eu... eu tenho a impressão... de que o inquérito... continua necessário."E agora Gilmar faz aquela paradinha de Pelé! Ele amortece a bola, deixa a zagueira na saudade e solta uma bomba:
— "...E... ele vai acabar... quando terminar!"Renata Lo Prete dá um leve sorriso de canto, aquele tique jornalístico de quem diz "estou de olho na jogada", e ameaça interromper. Mas Gilmar Mendes é raposa felpuda! Ele percebe o movimento da marcadora e emenda em alto e bom som, sem dar o rebote:
— "...E é preciso que isso seja dito... em alto e bom som. [Suspiro rápido] E o tribunal... o tribunal tem sido... vilipendiado."Que categoria! Que frieza do camisa 10! Deixa eu pedir o comentário rápido de quem entende de tática... Fala daí, meu garoto, João Saldanha! O Gilmar passou pela marcação ou o inquérito tá em impedimento?
JOÃO SALDANHA: Olha, Waldir... o Gilmar é malandro, joga com o regulamento debaixo do braço! A Renata foi muito bem na marcação, apertou ali na lateral do campo perguntando da longevidade de um inquérito que já dura anos. Qualquer garoto novo ali espanava e chutava a bola para o mato. Mas o decano não. Ele usou a experiência, segurou o jogo com essas paradinhas e jogou a pressão de volta para a torcida. Só que a Renata não se entrega, Waldir! Veja que ela já está se posicionando para fechar o ângulo dele de novo!
WALDIR AMARAL: Tem toda razão, João! O jogo é lá e cá! Gilmar Mendes sente o cansaço, dá uma respirada profunda... e o ritmo cai. Ele baixa o tom de voz, esconde a jogada, quase num cochicho tático para enganar a marcação de Lo Prete, que só observa a linha de impedimento:
— "...Sem se fazer alarde disso. [Mudança brusca de direção] A questão... a questão aí... é o modus faciendi."Renata Lo Prete ergue uma sobrancelha! Ela tenta o bote por baixo, quer saber quem manda na área do tribunal se o clima é de crise. Mas Gilmar dá um drible de corpo espetacular, divide as responsabilidades e solta a tese do jogo coletivo:
— "O presidente... o presidente não decide. [Outra paradinha de Pelé... ele olha bem nos olhos da zagueira] Aqui... aqui rege um parlamentarismo. [O silêncio ecoa no estádio] Presidente... não decide per se."Fim de jogo na grande área jurídica! O atacante usou todo o repertório de pausas para prender a bola no ataque! Mas para selar essa transmissão com chave de ouro, o apito final é dele! O homem que já comandou clássicos e não esconde nada de ninguém. O nosso analista de arbitragem, o ex-juiz Mario Vianna! Com a palavra, o mestre do apito!
MARIO VIANNA:
(Voz rascante, enérgica, batendo na mesa)
"O JUIZ ERROU!!! O JUIZ ERROU, WALDIR!!!"
O Gilmar Mendes quis apitar o jogo sozinho e inventar uma regra que não tá no livro da Constituição! Inventou uma 'paradinha' no meio do tribunal! Na minha época, se o presidente do Supremo não decide nada sozinho e o tribunal é um parlamentarismo, então o juiz da partida perdeu o controle do jogo! Não pode ter dois pesos e duas medidas! A Renata Lo Prete foi na bola, foi legítima, cobrou o tempo de jogo e o Gilmar saiu de campo jogando bonito com o latim, mas sem resolver a encrenca do inquérito! O JUIZ ERROU!!!
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