Inspirados já nos ensinamentos de Sófocles, aqui, procurar-se-á a conexão, pelo conhecimento, entre o velho e o novo, com seus conflitos.
As pistas perseguidas, de modos específicos, continuarão a ser aquelas pavimentadas pelo grego do período clássico (séculos VI e V a.C).
TALENTO SEM FRONTEIRASEm quatro filmes cotados para o Oscar, a atriz Sandra Hüller se tornou uma grife cobiçada pelo cinema europeu e por Hollywood, com atuações de intensidade discreta que roubam a cena
VIRADA INÉDITAPor que Flávio Bolsonaro perdeu uma eleição em que saiu na frente?Campanhas avaliam erros e acertos no segundo turno, da mobilização nas ruas à estratégia digital, passando pela relação com o mercado e o eleitorado religiosoDiego Amorim
26/10/2026
Diego Amorim
Neste dia seguinte ao resultado das eleições de 2026, são muitas as análises e opiniões sobre o que pode ajudar a explicar uma virada inédita entre o primeiro e o segundo turnos numa corrida presidencial no Brasil.
O PlatôBR elenca 13 pontos que, desde ontem à noite, estão sendo aventados e discutidos nas duas campanhas, a vitoriosa de Lula e a derrotada de Flávio Bolsonaro.
‘Já ganhou’ e ‘salto alto’
A euforia que tomou conta de Flávio e de seus aliados após o primeiro turno foi difícil de reverter. Muitos se apressaram em montar o governo, pensar em nomes para o STF e planejar a relação com o Congresso. Era cedo demais.
‘Menos Janja, mais Alckmin’
Para o segundo turno, Lula mexeu na campanha depois do baque. Trouxe “sangue novo”, com governadores e ex-governadores do Nordeste. Aceitou o efeito Janones fora da campanha oficial. E ajustou narrativas, sobretudo no tema da segurança pública. Foi menos identitário e mais pragmático. Pode ter, assim, conseguido reduzir resistências.
O ‘exército’ de Janones
Sim, o canal de WhatsApp de André Janones foi um fato novo e surpreendente, que trouxe a esquerda para o jogo das redes sociais, onde a direita sempre havia dominado. Fez a diferença.
‘Tapete vermelho’ antes nas ruas
Depois do baque do primeiro turno, a esquerda não demorou a ir para as ruas. Enquanto Nikolas Ferreira fazia a programação do “Bloquinho do 22”, estudantes e famílias eleitoras de Lula já ocupavam espaços nas cidades. Não era um movimento organizado pela CUT ou pelo MST, mas algo que parecia espontâneo. Teve peso.
A busca por eleitores
A ofensiva para diminuir a abstenção foi puxada pela campanha do PT. Flávio não teve o mesmo êxito. Lula conseguiu tirar de casa muita gente que não votou no primeiro turno e que queria evitar a volta do bolsonarismo. Teve efeito.
Cadê os aliados?
Enquanto isso, muitos — muitos mesmo — aliados de Flávio que venceram a eleição no primeiro turno foram descansar e celebrar, acreditando que o candidato do PL seria eleito.
E os outros candidatos?
Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Augusto Cury declararam apoio a Flávio no segundo turno, mas, para não dizer que sumiram, não participaram da campanha como Flávio esperava. Criou-se um vácuo na transferência de votos.
E os eleitores dos outros candidatos?
Além disso, a militância bolsonarista não “acolheu” os eleitores de Caiado, Zema, Cury e Renan Santos. Pelo contrário. Nas redes sociais, os votos desse grupo foram subestimados, e os embates eram constantes.
A ‘Marçalização’ de Flávio
Trazer Pablo Marçal para perto no segundo turno foi, sem dúvida, um dos grandes erros da campanha do PL. O deboche, o sarcasmo e a ironia não funcionaram. A zombaria de jovens eleitos de direita, com dancinhas e chacotas com os derrotados da esquerda, pode ter passado uma impressão ruim para o eleitorado de centro e independente.
Debates da Band e da Globo
A postura de Flávio incomodou parte do eleitorado, sobretudo os mais velhos. Os embates televisivos viraram um duelo de imagens: a de um “jovem arrogante” contra a de um “velhinho”, chamado de “nove dedos” pelo candidato do PL, em um erro que pode ter sido fatal. O eleitorado brasileiro, em geral, ainda é muito sensível a esse tipo de situação.
Faria Lima
A relação de Flávio com o mercado ao longo de toda a campanha foi marcada por idas e vindas e pela desconfiança. A Faria Lima queria respostas concretas, que não chegaram. Faltou segurança.
Reação do Nordeste
Será que o vídeo de Nikolas Ferreira, com uma visão bastante estereotipada do Nordeste, provocou efeito contrário? É uma pergunta que o mundo político se faz. Se tem uma coisa de que o nordestino não gosta é de ser tachado de “pobre sofrido”.
E os evangélicos?
Flávio não conseguiu a adesão do mundo evangélico como o pai, Jair. Sobretudo para mulheres evangélicas, pode ter sido difícil engolir a imagem de um fiel acusado de participar de orgias com garotas de programa. Não é um apoio simples de conquistar nessas condições.
André Janones
Eleições 2026
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O "Tetra Fake" Nacional e a Lição do "Bi de Fato" em Juiz de Fora: A Democracia Calça Sandálias de Humildade
A análise apressada dos números eleitorais costuma ser terreno fértil para a soberba política. Nacionalmente, setores da esquerda apressam-se em carimbar as vitórias presidenciais de 2002, 2006, 2022 e 2026 como um "tetra" contínuo e incontestável de Luiz Inácio Lula da Silva. Trata-se, contudo, de um tetra fake. O conceito de tetracampeonato evoca linearidade, hegemonia ininterrupta e consolidação absoluta de um projeto de poder — elementos inexistentes em um país que viveu um hiato de 16 anos de alternância, instabilidade e forte avanço conservador entre esses mandatos. O verdadeiro triunfo político não reside na contabilidade fantasiosa de taças distantes, mas na solidez do bi de fato e de direito conquistado no microcosmo de Juiz de Fora.
Na "maior das menores cidades" de Minas Gerais, a eleição de outubro de 2026 desenhou um cenário de soberania real e contínua dentro das próprias urnas locais. Diferente do sufoco nacional, onde o presidente precisou buscar uma virada inédita, o eleitorado juiz-forano entregou a liderança a Lula tanto em 4 de outubro (com 49,58% dos votos válidos no primeiro turno) quanto em 25 de outubro (expandindo a hegemonia para 57,66% no segundo turno). Esse "bi" num mesmo mês, consolidado degrau por degrau, oferece uma lição de realismo tático que o plano nacional insiste em ignorar.
Essa dinâmica evoca o antídoto perfeito contra o salto alto na política. Como já cantava Noel Rosa em sua crítica cirúrgica a "essa mania" de grandeza e exibicionismo, a política que se descola da realidade desafina na apuração. A resposta para o sucesso duradouro do campo progressista na Zona da Mata está no oposto da arrogância: está na humildade do "pé no chão", uma sabedoria há muito moldada pelos sambistas de Juiz de Fora — cujo fazer tradicional e as agremiações locais foram elevados a Patrimônio Cultural Imaterial do Município.
O samba juiz-forano, com seus baluartes e estandartes, sempre entendeu que ninguém cruza a linha de chegada desfilando sozinho. Quando a esquerda local reconheceu que as suas bandeiras particulares pesam menos do que a caminhada conjunta com as forças democráticas, ela construiu frentes amplas capazes de vencer sem dar vexame. Os estandartes do samba e os da política real se encontram na mesma avenida: aquela que entende a democracia como um valor universal, plural e que exige constante negociação.
O "bi de fato" de Juiz de Fora em 2026 prova que a hegemonia não se decreta com petulância ou narrativas de falsos títulos acumulados no passado. Ela é construída no presente, com a modéstia de quem sabe ouvir o ritmo das ruas e a pluralidade do eleitorado. Menos exibicionismo, mais pé no chão.
JOSÉ CASADOATRAÇÃO FATALCOMEÇA na segunda-feira 26 o evento legislativo mais importante da temporada pós-eleição: a corrida de deputados e senadores para “ajudar” o vencedor da disputa presidencial. Acontece a cada quatro anos e só acaba quando termina a lua de mel do novo governo com o eleitorado, fogo-fátuo da política e cada vez mais efêmero na América do Sul.
Seja Lula ou Flávio Bolsonaro, não será difícil ao presidente eleito, mesmo sem maioria no Congresso, começar com apoio parlamentar muito além dos limites da bancada de aliados, circunscrita a dois em cada dez votos na Câmara e no Senado.
Isso se deve a uma peculiaridade do mapa das desigualdades regionais: fazer oposição é complicado para representantes de cidades pequenas (com até 20 000 habitantes) ou de regiões como o Nordeste, onde há mais dependentes dos programas de transferência de renda do governo federal do que empregados com carteira assinada.
Quanto mais frágeis a economia e o mercado de trabalho regionais, maior é a necessidade de socorro federal. Um retrato da dependência está na carta de Lula aos 5 569 prefeitos e 58 000 vereadores de todo o país, divulgada 96 horas antes do segundo turno da eleição para presidente. Ele lembra as transferências de verbas vitais para os serviços municipais de saúde, educação, assistência social e habitação, além de sustentar a folha salarial das prefeituras, principais empregadoras em oito de cada dez cidades do interior.
A dependência é relevante sobretudo nas regiões Nordeste, Norte e Centro-Oeste, onde vivem 68 milhões de eleitores — dois milhões a mais que no rico Sudeste. É melhor sofrer no poder do que longe dele, repetia Antonio Carlos Magalhães, ex-governador da Bahia. Por isso, o magnetismo do caixa de Brasília permeia o oceano de histórias do poder.
Uma delas aconteceu em 2023, quando Lula ainda nem completara noventa dias de atual mandato. Primaz no aglomerado parlamentar conhecido como Centrão, o partido Progressistas estava desnorteado com a derrota e a tentativa de golpe de Estado de Jair Bolsonaro, a quem havia sustentado no Congresso nos últimos dois anos de governo.
“Vai começar a corrida para ‘ajudar’ o vencedor da eleição presidencial”
O PP nascera na fusão de grupos conservadores abrigados na antiga Aliança Renovadora Nacional (Arena), esteio parlamentar da ditadura. Apoiou todos os presidentes das últimas três décadas (Fernando Henrique Cardoso, Dilma Rousseff, Michel Temer, Jair Bolsonaro e Lula em três governos). Associado ao Partido dos Trabalhadores, na década passada foi protagonista em processos do mensalão e da corrupção na Petrobras — destacando-se, nesse caso, pelo maior número de políticos investigados (18).
Fez-se uma reunião para definir objetivos do PP no novo mundo de Lula. Com a naturalidade de quem havia chefiado a Casa Civil de Bolsonaro até três meses antes, o senador Ciro Nogueira propôs reescrever a história da década de alianças com Lula e o PT migrando para a oposição.
— Tá tudo muito bom, tudo muito bem, mas, ô Ciro, ensina aí pra gente como é ser oposição — alguém provocou.
Foi quando o deputado “Lula”, Luiz Eduardo, de 22 anos e quatro oligarquias pernambucanas no sobrenome (Queiroz Campos da Fonte Albuquerque), atalhou: — É, tio, mas esse negócio de óculos Ray-Ban, sapato branco e oposição só fica bonito nos outros…
O riso traduziu a memória coletiva sobre arranjos que levaram o PP e outros partidos da direita tradicional a atravessar este início do século XXI aglomerados no Centrão.
Três semanas atrás, renovou-se a moldura do bloco no Congresso. Ganharam realce as facções da extrema direita que gravitam em torno de Jair Bolsonaro, sujeito oculto de uma eleição que não teve candidato de centro. É notável que o avanço dos extremistas tenha sido impulsionado por pessoas e partidos que escolheram fazer política à margem e até mesmo contra a direita tradicional, centrista, moderada e geralmente educada no uso de garfo e faca. Aglutinada no Partido Liberal de Flávio Bolsonaro e no seu satélite, o Novo, a extrema direita deglutiu o Centrão nas urnas. Dobrou de tamanho no Senado e até tomou uma fatia (10%) do dinheiro dos fundos partidário e eleitoral que passa pelo caixa dos partidos do Centrão.
Rachada na eleição, a direita segue dividida no Congresso. Para o presidente eleito será incontornável: vai precisar negociar com o Centrão, dono de 49% dos votos na Câmara e de 40% no Senado, cada vírgula de cada projeto. É atração fatal. ◼
PERFILTALENTO SEM FRONTEIRASEm quatro filmes cotados para o Oscar, a atriz Sandra Hüller se tornou uma grife cobiçada pelo cinema europeu e por Hollywood, com atuações de intensidade discreta que roubam a cenaPASSADO Em A Terra do Meu Pai: protagonista viaja pela Alemanha dividida no pós-guerra com o pai, o autor Thomas Mann
50ª mostra > filmes > A Terra do Meu Pai
No verão de 1949, no ápice da Guerra Fria, o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura Thomas Mann e sua filha Erika embarcam em uma emocionante viagem a bordo de um Buick preto pelas ruínas da Alemanha, partindo de Frankfurt sob domínio estadunidense até a Weimar sob controle soviético. De volta ao lar após 16 anos de exílio nos EUA, o escritor é forçado a confrontar não apenas os destroços de uma nação dividida, mas também as feridas irremediáveis de sua própria família. Vencedor do prêmio de melhor direção no Festival de Cannes.
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ficha técnica
direção
Paweł Pawlikowski
roteiro
Paweł Pawlikowski, Henk Handloegten
fotografia
Łukasz Żal
montagem
Piotr Wójcik, Paweł Pawlikowski
som
Oliver Achatz
música
Marcin Masecki
design de produção
Katarzyna Sobańska, Marcel Sławiński
elenco
Hanns Zischler, Sandra Hüller, August Diehl, Devid Striesow, Joachim Meyerhoff
produção
Jeanne Tremsal, Mario Gianani, Ewa Puszczyńska, Edward Berger, Lorenzo Gangarossa, Lorenzo MIeli, Dimitri Rassam
produzido por
Nine Hours, Extreme Emotions, OUR Films, Chapter 2
coproduzido por
Canal+ Polska, Wroclaw Feature Film Studio, Lower Silesia Film Centre, Silesia Film Institution, Arte France Cinéma, Pathé
distribuição
Imovision, Mubi
world sales
The Match Factory
contato
info@matchfactory.de
galeria
A Terra do Meu Pai
direção
Paweł Pawlikowski
Paweł Pawlikowski
Silêncio de um MinutoMaria BethâniaSilêncio de um minutoNoel RosaTeu silêncio absoluto
Obrigou-me a confessar
Que o meu samba está de luto
Meu violão vai soluçarNoel Rosa - Silêncio de um minuto (Aracy de Almeida)Noel Rosa
11 de abr. de 2013
Noel Pela Primeira Vez (Volume 6 CD 11 Faixa 10)
Intérprete: Aracy de Almeida // Músicos: Radamés Gnattali (arranjador) e sua Orquestra.
Composição: Noel Rosa
Ano da Composição: 1935
Não te vejo e não te escuto
O meu samba está de luto
Eu peço o silêncio de um minuto
Homenagem a história
De um amor cheio de glória
Que me pesa na memória
Nosso amor cheio de glória
De prazer e de emoção
Foi vencido e a vitória
Cabe à tua ingratidão
Tu cavaste a minha dor
Com a pá do fingimento
E cobriste o nosso amor
Com a cal do esquecimento
Teu silêncio absoluto
Obrigou-me a confessar
Que o meu samba está de luto
Meu violão vai soluçar
Luto preto é vaidade
Neste funeral de amor
O meu luto é saudade
E saudade não tem cor
Por Samuel Machado Filho:
"Samba composto em 1935, porém só lançado em disco no ano de 1940, na interpretação de Marília Batista, em versão resumida. Neste registro, Aracy de Almeida, canta a letra completa. Gravação Continental de 27 de março de 1951, lançada em maio-junho seguintes sob n.o 16391-B, matriz 2587, no segundo dos dois álbuns de 78 rpm que Aracy
dedicou à obra noelina."
Flávio perdeu eleição por abrir a boca e mostrar sua ignorância, diz Lynch.Meio
26 de out. de 2026 #flaviobolsonaro #lula #eleições2026
O que levou Lula a vencer o segundo turno das eleições de 2026? Para o cientista político Christian Lynch, Flávio Bolsonaro é o candidato mais desqualificado da história do Brasil. Veja neste corte do Central Meio de 26 de outubro de 2026 uma análise sobre os fatores que derrubaram Flávio Bolsonaro.
Assista completo em: https://youtube.com/live/VMKjQvAdiD8
O artigo de opinião assinado por Luiz Carlos Azedo para o Correio Braziliense apresenta um cenário político hipotético para o segundo turno das eleições presidenciais de 2026, no qual Luiz Inácio Lula da Silva conquistaria um quarto mandato após uma vitória de virada sobre Flávio Bolsonaro. O texto projeta um resultado de 51,74% dos votos válidos para Lula contra 48,26% de seu adversário, em meio a relatos de problemas logísticos no transporte público e desafios de governabilidade frente a um Congresso com forte presença da oposição. Você pode ler a análise completa no Correio Braziliense.
segunda-feira, 26 de outubro de 2026
Mesmo com locaute, Lula vence Flávio de virada e conquista quarto mandato, por Luiz Carlos AzedoCorreio BrazilienseA recuperação de Lula veio de uma reação vigorosa da sociedade civil, que devolveu o movimento à campanha, com presença nas ruas e mobilização digital
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva conquistou seu quarto mandato numa virada espetacular sobre Flávio Bolsonaro. Derrotado no primeiro turno, quando recebeu 45,16% dos votos válidos, contra 47,03% do adversário, recuperou a iniciativa e venceu de forma inequívoca. Quando o Tribunal Superior Eleitoral reconheceu sua reeleição, às 21h08, com 97,69% da apuração concluída, tinha 51,74%, contra 48,26% do senador: uma vantagem de aproximadamente 4,2 milhões de votos. O resultado reafirma a capacidade de sobrevivência e de mobilização, inclusive da juventude, do principal líder popular da nossa história contemporânea.
A vitória ocorreu apesar das dificuldades de acesso às urnas, num domingo marcado por denúncias de locaute no transporte coletivo. Ônibus retidos, frotas insuficientes e longas esperas atingiram sobretudo quem depende dos serviços públicos para exercer a cidadania. A intenção deliberada de impedir votos precisa ser investigada. Oferecer transporte insuficiente numa eleição significa transformar a desigualdade social em obstáculo ao sufrágio.
O Ministério da Justiça identificou falhas em sete estados. Em Salvador, a Justiça Eleitoral determinou a recomposição integral da frota e ordenou a prisão do secretário municipal de Mobilidade, Pablo Souza. A prefeitura atribuiu os problemas à necessidade de retirar propaganda eleitoral dos veículos. A explicação terá de ser confrontada com a fiscalização e os registros da operação.
A atuação do presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, também exige avaliação crítica. À tarde, reconheceu dificuldades, mas afirmou que estavam sendo corrigidas. Somente às 16h44 veio a notícia de sua determinação para que autoridades eleitorais da Bahia prestassem esclarecimentos em meia hora, ou seja 16 minutos antes do fim da votação. Coube ao ministro Cristiano Zanin, do Supremo, estender a votação até as 19h, nas seções cujas urnas ainda estavam abertas. As já encerradas não puderam receber novos eleitores.
O episódio se somou às controvérsias sobre o canal “Exército do Lula”. Nunes Marques havia determinado sua suspensão em decisões posteriormente revertidas. Na reta final, uma nova disputa exigiu intervenção do ministro Floriano Azevedo Marques para preservar o canal até análise colegiada. Fiscalizar propaganda e reprimir desinformação são deveres da Justiça Eleitoral. Exercê-los exige critérios transparentes e proporcionais, especialmente quando a intervenção pode desmobilizar milhões de apoiadores às vésperas da votação.
Desafios permanecem
Lula também precisou enfrentar suas próprias limitações. O primeiro turno desfez a expectativa de que a experiência presidencial e as realizações sociais bastariam para assegurar a liderança. O custo de vida, o endividamento e a insegurança alimentaram o desejo de mudança. A defesa da democracia precisava encontrar tradução nas preocupações de quem termina o mês sem dinheiro ou convive com o domínio territorial do crime.
Flávio explorou essas vulnerabilidades com acusações de corrupção, críticas ao preço dos alimentos e promessas de repressão mais dura. Procurou associar Lula à tolerância com criminosos e ao desgaste dos escândalos. Houve falsidades verificadas, como a afirmação de que Lula e Janja gastaram R$ 7 bilhões em viagens. No debate da Band, acusações recíprocas empobreceram a escolha oferecida ao eleitor.
A recuperação de Lula veio de uma reação vigorosa da sociedade civil, que devolveu o movimento à campanha, com presença nas ruas e mobilização digital, focadas no eleitor inclinado à abstenção. Deu certo: a ausência às urnas, mesmo com o locaute, caiu de 21,08% para 19,21%. Lula conseguiu transformar uma posição defensiva numa convocação popular, recuperando a ligação entre sua trajetória e as expectativas de proteção social.
Entretanto, a vitória presidencial não reverteu o resultado do Congresso. O PL conquistou 121 cadeiras na Câmara e elegeu 19 senadores. No Senado, terá 28 integrantes, enquanto o PT permanece com nove. O bolsonarismo perdeu o Planalto, mas ampliou instrumentos de pressão, fiscalização e bloqueio. A composição da Casa acirrará as disputas sobre indicações, competências do Judiciário e iniciativas contra ministros do Supremo.
O quarto mandato começará, portanto, com legitimidade renovada e governabilidade difícil. Lula precisará construir maiorias sem entregar o comando do orçamento, preservar políticas sociais com financiamento sustentável e enfrentar o crime organizado com coordenação nacional e resultados concretos. Terá de elevar produtividade, melhorar serviços e defender a autonomia internacional do Brasil. Também precisará preparar uma renovação política que sobreviva à sua liderança. A virada demonstrou sua força pessoal; o desafio será convertê-la em instituições confiáveis e melhorias duradouras na vida da população.
A célebre frase atribuída ao ex-ministro Antônio Delfim Netto sintetiza de forma pragmática a visão do exercício político e da tecnocracia durante o período do regime militar no Brasil: "Poder é o poder de permanecer no governo. O Poder não é absoluto. Mas é melhor relativo no poder que contra ele."
Essa declaração ilustra a lógica de sobrevivência e manutenção da influência política por meio do pragmatismo, indicando que, mesmo em um cenário onde o poder é limitado ou compartilhado (relativo), estar dentro da estrutura governamental é sempre estrategicamente superior a estar na oposição ou fora do centro decisório. Delfim Netto expressou esse pensamento para justificar a resiliência e a continuidade de atores políticos e técnicos na máquina estatal ao longo de diferentes arranjos e tensões de poder da época.
A alma mater do professor Antônio Delfim Netto é a Universidade de São Paulo (USP).
Ele graduou-se em Ciências Econômicas e Administrativas no ano de 1951 pela Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA-USP). Na mesma instituição, concluiu seu doutorado com uma tese focada no café e construiu uma sólida trajetória acadêmica, tornando-se professor catedrático (e posteriormente Professor Emérito).
A ligação de Delfim Netto com a USP era tão profunda que ele costumava declarar: "Sem a USP, eu não seria nada". Em vida, ele oficializou a doação de seu vasto acervo particular — uma biblioteca gigantesca com mais de 100 mil livros e periódicos — para a própria FEA-USP.
Mateus 7:21 Nem todos os que dizem: Senhor! Senhor! entrarão no reino dos céus.6. Nem todos os que me dizem: Senhor! Senhor! entrarão no reino dos céus; apenas entrará aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. — Muitos, nesse dia, me dirão: Senhor! Senhor! não profetizamos em teu nome? Não expulsamos em teu nome o demônio? Não fizemos muitos milagres em teu nome? — Eu então lhes direi em altas vozes: Afastai-vos de mim, vós que fazeis obras de iniquidade. (S. Mateus, 7:21 a 23.)
7. Aquele, pois, que ouve estas minhas palavras e as pratica, será comparado a um homem prudente que construiu sobre a rocha a sua casa. — Quando caiu a chuva, os rios transbordaram, sopraram os ventos sobre a casa; ela não ruiu, por estar edificada na rocha. — Mas, aquele que ouve estas minhas palavras e não as pratica, se assemelha a um homem insensato que construiu sua casa na areia. Quando a chuva caiu, os rios transbordaram, os ventos sopraram e a vieram açoitar, ela foi derribada; grande foi a sua ruína. (S. Mateus, 7:24 a 27; S. Lucas, 6:46 a 49.)
8. Aquele que violar um destes menores mandamentos e que ensinar os homens a violá-los, será considerado como último no reino dos céus; mas, será grande no reino dos céus aquele que os cumprir e ensinar. (S. Mateus, 5:19.)
9. Todos os que reconhecem a missão de Jesus dizem: Senhor! Senhor! — Mas, de que serve lhe chamarem Mestre ou Senhor, se não lhe seguem os preceitos? Serão cristãos os que o honram com exteriores atos de devoção e, ao mesmo tempo, sacrificam ao orgulho, ao egoísmo, à cupidez e a todas as suas paixões? Serão seus discípulos os que passam os dias em oração e não se mostram nem melhores, nem mais caridosos, nem mais indulgentes para com seus semelhantes? Não, porquanto, do mesmo modo que os fariseus, eles têm a prece nos lábios e não no coração. Pela forma poderão impor-se aos homens; não, porém, a Deus. Em vão dirão eles a Jesus: “Senhor! não profetizamos, isto é, não ensinamos em teu nome; não expulsamos em teu nome os demônios; não comemos e bebemos contigo?” Ele lhes responderá: “Não sei quem sois; afastai-vos de mim, vós que cometeis iniquidades, vós que desmentis com os atos o que dizeis com os lábios, que caluniais o vosso próximo, que espoliais as viúvas e cometeis adultério. Afastai-vos de mim, vós cujo coração destila ódio e fel, que derramais o sangue dos vossos irmãos em meu nome, que fazeis corram lágrimas, em vez de secá-las. Para vós, haverá prantos e ranger de dentes, porquanto o reino de Deus é para os que são brandos, humildes e caridosos. Não espereis dobrar a justiça do Senhor pela multiplicidade das vossas palavras e das vossas genuflexões. O caminho único que vos está aberto, para achardes graça perante ele, é o da prática sincera da lei de amor e de caridade.”
São eternas as palavras de Jesus, porque são a verdade. Constituem não só a salvaguarda da vida celeste, mas também o penhor da paz, da tranquilidade e da estabilidade nas coisas da vida terrestre. Eis por que todas as instituições humanas, políticas, sociais e religiosas, que se apoiarem nessas palavras, serão estáveis como a casa construída sobre a rocha. Os homens as conservarão, porque se sentirão felizes nelas. As que, porém, forem uma violação daquelas palavras, serão como a casa edificada na areia: o vento das renovações e o rio do progresso as arrastarão.
Leitura do ESE, capítulo XVIII -Nem todos os que dizem: “Senhor! Senhor!” entrarão no Reino dos CéusMadô Espírita
Transmitido ao vivo em 28 de jul. de 2020 Momento de reflexão - Leitura do Evangelho Segundo o Espiritismo
Leitura do Evangelho Segundo o Espiritismo
Capítulo XVIII, do item 06 ao 09 - Nem todos os que dizem: “Senhor! Senhor!” entrarão no Reino dos Céus
Apresentador: Adelvair David
Realizado em 28 de Julho de 2020, Terça Feira
Aqui está a transcrição completa do texto contido na imagem:Diversos oradores se fizeram ouvir, inclusive discípulos de Eurípedes, dentre os quais o Sr. Zenon Zoroastro Borges, cujas palavras são ainda hoje lembradas pela justeza das argumentações.
Eurípedes dirige-se aos amigos, em lágrimas. Emocionava-se ante a demonstração coletiva de simpatia, mas roga aos irmãos queridos terminem ali o programa comemorativo. A misericórdia do Pai já havia descido, por acréscimo, anulando os esforços da Justiça humana; agora era necessário esquecer o resto, a fim de que o Ato Divino não fosse envolvido pelas sombras de nossa incompreensão. A vingança só deveria ser usada para a prática do Perdão.
Não obstante o discurso de Eurípedes, vasado em sublimes expressões de Amor, os manifestantes revelaram seu intuito irrevogável de festejar, durante algumas horas a grande vitória do Bem. Era um direito, que lhes assistia. Ninguém oporia diques à alegria que jorrava das almas, como cascatas buliçosas e incontroláveis.
Eurípedes fala novamente ao povo amigo. Ante a decisão inabalável da sua gente, resta-lhe suplicar ordem, caridade e paz. Que o próximo fosse respeitado em tudo. Que não exorbitassem os amigos nas demonstrações jubilares para não ferir suscetibilidades.
A cidade, pequenina e pacífica, apresentava o aspecto inusitado de grande centro convulsionado por massa humana e foguetório, em dia de grande gala.
A noite chegara. As comemorações culminaram com o cortejo fúnebre simbólico, onde não faltaram velas, tochas e discursos. O defunto era o processo criminal, colocado num caixão de madeira.
Encerrava-se, assim, o triste episódio com lances paradoxais de euforia popular.
Era a suprema resposta ao Benfeitor, que há muito se identificara com o Senhor "pelo emprego dos seus dons, pelo valor de suas realizações e pelas obras que deixava, em torno dos próprios pés." (63)
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(63) Emmanuel, Caminho, Verdade e Vida, psic. Francisco C. Xavier, Ed. FEB, Rio, RJ, 6ª Ed., cap. 165.
Eurípedes – o Homem e a Missão
195
Palavras são ainda hoje lembradas pela justeza das argumentações.Da emancipação da alma- Audiobook de "O Livro dos espíritos" de "Allan Kardec" - Parte SegundaSussurros de Tinta
Introdução ao estudo da doutrina espírita
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Capítulo VIII — Da emancipação da alma
O sono e os sonhos.
400. O Espírito encarnado permanece de bom grado no seu envoltório corporal?
“É como se perguntasses se ao encarcerado agrada o cárcere. O Espírito encarnado aspira constantemente à sua libertação, e tanto mais deseja ver-se livre do seu envoltório, quanto mais grosseiro é este.”
401. Durante o sono, a alma repousa como o corpo?
“Não, o Espírito jamais está inativo. Durante o sono, afrouxam-se os laços que o prendem ao corpo e, não precisando este então da sua presença, ele se lança pelo espaço e entra em relação mais direta com os outros Espíritos. ”
402. Como podemos julgar da liberdade do Espírito durante o sono?
“Pelos sonhos. Quando o corpo repousa, acredita-o, tem o Espírito mais faculdades do que no estado de vigília. Lembra-se do passado e algumas vezes prevê o futuro. Adquire maior potência e pode pôr-se em comunicação com outros Espíritos, quer neste mundo, quer noutro. Dizes frequentemente: Tive um sonho extravagante, um sonho horrível, mas absolutamente inverossímil. Enganas-te. É amiúde uma recordação dos lugares e das coisas que viste ou que verás em outra existência ou em outra ocasião. Estando entorpecido o corpo, o Espírito trata de quebrar seus grilhões e de investigar no passado ou no futuro. “Pobres homens, que mal conheceis os mais vulgares fenômenos da vida! Julgais-vos muito sábios e as coisas mais comezinhas vos confundem. Nada sabeis responder a estas perguntas que todas as crianças formulam: Que fazemos quando dormimos? Que são os sonhos?
“O sono liberta a alma parcialmente do corpo. Quando dorme, o homem se acha por algum tempo no estado em que fica permanentemente depois que morre. Tiveram sonos inteligentes os Espíritos que, desencarnando, logo se desligam da matéria. Esses Espíritos, quando dormem, vão para junto dos seres que lhes são superiores. Com estes viajam, conversam e se instruem. Trabalham mesmo em obras que se lhes deparam concluídas, quando volvem, morrendo na Terra, ao mundo espiritual. Ainda esta circunstância é de molde a vos ensinar que não deveis temer a morte, pois que todos os dias morreis, como disse um santo.
“Isto, pelo que concerne aos Espíritos elevados. Pelo que respeita ao grande número de homens que, morrendo, têm que passar longas horas na perturbação, na incerteza de que tantos já vos falaram, esses vão, enquanto dormem, ou a mundos inferiores à Terra, onde os chamam velhas afeições, ou em busca de gozos quiçá mais baixos do que os em que aqui tanto se deleitam. Vão beber doutrinas ainda mais vis, mais ignóbeis, mais funestas do que as que professam entre vós. E o que gera a simpatia na Terra é o fato de sentir-se o homem, ao despertar, ligado pelo coração àqueles com quem acaba de passar oito ou nove horas de ventura ou de prazer. Também as antipatias invencíveis se explicam pelo fato de sentirmos em nosso íntimo que os entes com quem antipatizamos têm uma consciência diversa da nossa. Conhecemo-los sem nunca os termos visto com os olhos. É ainda o que explica a indiferença; há homens que não cuidam de conquistar novos amigos, por saberem que muitos têm que os amam e lhes querem. Numa palavra: o sono influi mais do que supondes na vossa vida.
“Graças ao sono, os Espíritos encarnados estão sempre em relação com o mundo dos Espíritos. Por isso é que os Espíritos superiores assentem, sem grande repugnância, em encarnar entre vós. Quis Deus que, tendo de estar em contato com o vício, pudessem eles ir retemperar-se na fonte do bem, a fim de igualmente não falirem, quando se propõem a instruir os outros. O sono é a porta que Deus lhes abriu, para que possam ir ter com seus amigos do céu; é o recreio depois do trabalho, enquanto esperam a grande libertação, a libertação final, que os restituirá ao meio que lhes é próprio.
“O sonho é a lembrança do que o Espírito viu durante o sono. Notai, porém, que nem sempre sonhais, porque nem sempre vos lembrais do que vistes, ou de tudo o que haveis visto, enquanto dormíeis. Vossos sonhos nem sempre refletem a ação da alma em seu pleno desenvolvimento; são, muitas vezes, apenas a lembrança da perturbação que experimenta à sua partida ou no seu regresso ao corpo, acrescida da relativa ao que fizestes ou do que vos preocupa quando em vigília. A não ser assim, como explicaríeis os sonhos absurdos, que tanto os sábios, quanto as mais humildes e simples criaturas têm? Acontece também que os maus Espíritos se aproveitam dos sonhos para atormentar as almas fracas e pusilânimes.
“De resto, dentro em pouco vereis desenvolver-se outra espécie de sonhos. Conquanto tão antiga como a de que vimos falando, vós a desconheceis. Refiro-me aos sonhos de Joana, ao de Jacob, aos dos profetas judeus e aos de alguns adivinhos indianos. São recordações guardadas por almas que se desprendem inteiramente do corpo, recordações dessa segunda vida a que ainda há pouco aludi.
“Tratai de distinguir essas duas espécies de sonhos, entre os de que vos lembrais, do contrário cairíeis em contradições e em erros funestos à vossa fé.”
Os sonhos são efeito da emancipação da alma, que mais independente se torna pela suspensão da vida ativa e de relação. Daí uma espécie de clarividência indefinida que se alonga até aos mais afastados lugares e até mesmo a outros mundos. Daí também a lembrança que traz à memória acontecimentos da presente existência ou de existências anteriores. As singulares imagens do que se passa ou se passou em mundos desconhecidos, entremeados de coisas do mundo atual, é que formam esses conjuntos estranhos e confusos, que nenhum sentido ou ligação parecem ter.
A incoerência dos sonhos ainda se explica pelas lacunas que apresenta a recordação incompleta do que nos apareceu quando sonhávamos. É como se a uma narração se truncassem frases ou trechos ao acaso. Reunidos depois, os fragmentos restantes nenhuma significação racional teriam.
403. Por que não nos lembramos sempre dos sonhos?
“Naquilo que chamas sono, só há o repouso do corpo, visto que o Espírito está constantemente em atividade. Recobra, durante o sono, um pouco da sua liberdade e se corresponde com os que lhe são caros, quer neste mundo, quer em outros. Mas como é pesada e grosseira a matéria que o compõe, o corpo tem dificuldade em conservar as impressões que o Espírito recebeu, porque a este não chegaram por intermédio dos órgãos corporais.”
404. Que se deve pensar das significações atribuídas aos sonhos?
“Os sonhos não são verdadeiros como o entendem os ledores de sorte, pois é absurdo crer-se que sonhar com tal coisa anuncia tal outra. São verdadeiros no sentido de que apresentam imagens que para o Espírito têm realidade, porém que, frequentemente, nenhuma relação guardam com o que se passa na vida corporal. Amiúde, são também, como atrás dissemos, uma recordação. Por fim, podem algumas vezes ser um pressentimento do futuro, se Deus o permitir, ou a visão do que no momento ocorre em outro lugar a que a alma se transporta. Não se contam por muitos os casos de pessoas que em sonho aparecem a seus parentes e amigos, a fim de avisá-los do que a elas está acontecendo? Que são essas aparições senão as almas ou Espíritos de tais pessoas a se comunicarem com entes caros? Quando tendes certeza de que o que vistes realmente se deu, não fica provado que a imaginação nenhuma parte tomou na ocorrência, sobretudo se o que observastes não vos passava pela mente quando em vigília?”
405. Acontece com frequência verem-se em sonho coisas que parecem um pressentimento, mas que, afinal, não se confirma. A que se deve atribuir isto?
“Pode suceder que tais pressentimentos venham a se confirmar apenas na experiência do Espírito, e não na do corpo; isto é, o Espírito vê aquilo que deseja porque vai ao seu encontro. É preciso não esquecer que, durante o sono, a alma sempre está mais ou menos sob a influência da matéria e que, por conseguinte, nunca se liberta completamente de suas ideias terrenas, donde resulta que as preocupações do estado de vigília podem dar ao que se vê a aparência do que se deseja, ou do que se teme. A isto é que, em verdade, cabe chamar-se efeito da imaginação. Sempre que uma ideia nos preocupa fortemente, tudo o que vemos se nos mostra ligado a essa ideia.”
406. Quando em sonho vemos pessoas vivas, muito nossas conhecidas, a praticarem atos de que absolutamente não cogitam, não é isso puro efeito de imaginação?
“De que absolutamente não cogitam, dizes. Que sabes a tal respeito? Os Espíritos dessas pessoas vêm visitar o teu como o teu os vai visitar, sem que saibas sempre aquilo em que eles pensam. Ademais, não é raro atribuirdes, de acordo com o que desejais, a pessoas que conheceis, o que se deu ou se está dando em outras existências.”
407. É necessário o sono completo para a emancipação do Espírito?
“Não; basta que os sentidos entrem em torpor para que o Espírito recobre a sua liberdade. Para se emancipar, ele se aproveita de todos os instantes de trégua que o corpo lhe concede. Desde que haja prostração das forças vitais, o Espírito se desprende, tornando-se tanto mais livre quanto mais fraco for o corpo.”
Assim é que quando estamos apenas adormecidos, ou em simples modorra, frequentemente vemos imagens idênticas às que se apresentam nos sonhos.
408. Parece-nos algumas vezes ouvirmos em nós mesmos palavras pronunciadas distintamente e que nenhum nexo têm com o que nos preocupa. Qual a razão disso?
“É fato: ouvis até mesmo frases inteiras, principalmente quando os sentidos começam a entorpecer-se. É, algumas vezes, fraco eco do que diz um Espírito que convosco se quer comunicar.”
409. Outras vezes, num estado que ainda não é bem o do adormecimento, estando com os olhos fechados, vemos imagens distintas, figuras cujas mínimas particularidades percebemos. Que há aí, efeito de visão ou de imaginação?
“Estando entorpecido o corpo, o Espírito trata de desprender-se. Transporta-se e vê. Se fosse completo o sono, já seria sonho.”
410. Dá-se também que, durante o sono, ou quando nos achamos apenas ligeiramente adormecidos, acodem-nos ideias que nos parecem excelentes e que se nos apagam da memória, apesar dos esforços que façamos para retê-las. Donde vêm essas ideias?
“Provêm da liberdade do Espírito que se emancipa e que, emancipado, goza de mais faculdades. Também são, frequentemente, conselhos que outros Espíritos dão.”
a) – De que servem essas ideias e esses conselhos, se lhes perdemos a lembrança, não os podendo aproveitar?
“Algumas vezes essas ideias mais dizem respeito ao mundo dos Espíritos do que ao mundo corpóreo. Com mais frequência, porém, se o corpo as esquece, o Espírito as retêm, e voltam no momento necessário, como uma inspiração súbita.”
411. Estando desprendido da matéria e atuando como Espírito, sabe o Espírito encarnado qual será a época de sua morte?
“Frequentemente acontece pressenti-la. Algumas vezes também sucede ter nítida consciência dessa época, o que dá lugar a que, em estado de vigília, tenha intuição do fato. Por isso é que algumas pessoas preveem com grande exatidão a data em que virão a morrer.”
412. Pode a atividade do Espírito durante o repouso ou sono corporal fatigar o corpo?
“Pode, pois que o Espírito se acha preso ao corpo qual balão cativo ao poste. Assim como as sacudiduras do balão abalam o poste, a atividade do Espírito reage sobre o corpo e pode fatigá-lo.”
Afaste a tristeza.
A alegria do seu coração
mostra o seu pensar positivo.
No artigo publicado em O Estado de S. Paulo, Luiz Sérgio Henriques analisa os riscos que o avanço da extrema direita representa para a democracia, no Brasil, nos Estados Unidos e em outras nações ocidentais. O autor destaca que a essência da democracia não está apenas na realização de eleições, mas, sobretudo, no respeito às regras institucionais, à Constituição e aos resultados das urnas, mesmo quando desfavoráveis aos próprios interesses políticos.
Recorrendo aos episódios de invasão do Capitólio, em janeiro de 2021, e aos atos golpistas de Brasília, em janeiro de 2023, o articulista demonstra como a rejeição das derrotas eleitorais e as tentativas de concentração de poder ameaçam os fundamentos democráticos. No caso brasileiro, considera que a responsabilização dos envolvidos nos ataques às instituições confirma a capacidade de resistência da ordem constitucional, embora não elimine os riscos de novas investidas contra ela.
Henriques também critica propostas que possam favorecer a alteração das regras constitucionais em benefício de interesses pessoais ou eleitorais. Ao final, defende que democratas de todas as correntes políticas — esquerda, centro e direita constitucional — superem suas divergências e reconstruam um compromisso comum com a democracia, isolando os extremismos e preservando a integridade das instituições.
A mensagem central do artigo é inequívoca: na democracia, não basta disputar o poder e vencer eleições; é indispensável respeitar as regras do jogo, aceitar as derrotas e garantir que nenhum governante esteja acima da Constituição.
As regras do jogo - EstadãoO artigo de Luiz Sérgio Henriques publicado no O Estado de S. Paulo argumenta que a preservação da democracia exige o compromisso incondicional com as regras do jogo eleitoral diante do avanço de uma extrema direita subversiva. O texto destaca que a estabilidade institucional brasileira permanece vigente, mas alerta contra tentativas de manipular normas constitucionais e enfatiza a necessidade de um cordão sanitário democrático contra o extremismo. Você pode ler a análise completa em O Estado de S. Paulo.
domingo, 25 de outubro de 2026
As regras do jogo, por Luiz Sérgio Henriques*O Estado de S. PauloNão é possível escolher o terreno da luta, mas pode-se fixar o objetivo comum de restabelecer a integridade do espectro político
Não é nada incomum, na política e na vida, ter de agir sob a pressão inclemente da força das coisas. Num momento em que a recessão democrática se espalha em países-chave do Ocidente, é obrigatório valorizar os fundamentos mais elementares da nossa crença comum ou, para ser mais enfático, da nossa escolha de vida. Somos democratas – de esquerda, direita ou centro – e nos habituamos a considerar como intocável o compromisso com eleições justas e livres, embora os fins pelos quais lutamos possam divergir. Numa formulação um tanto mais teórica, por princípio interessa-nos menos o resultado do jogo do que as regras sob as quais ele é jogado.
A espantosa novidade dos nossos dias é o surgimento de uma extrema direita abertamente subversiva, que, violando regras, se lança sobre todas as instâncias da ordem democrática, sem exclusão das estritamente liberais. Pode até acontecer a eleição regular de um líder supremo, desde que se preserve a ligação direta com as massas. Por isso, logo em seguida, busca-se corroer os instrumentos liberais que limitam o poder pessoal e atuam como freio à autocratização. A ascensão aparentemente irresistível dessa nova direita, respeitadas as particularidades dos mais variados contextos, indica que ela não é o resultado da ação fortuita de líderes talentosos ou adversários destituídos de capacidades mínimas, ainda que uns e outros de fato existam.
Deixemos de lado as condições de possibilidade da “direita revolucionária” e examinemos os casos críticos do Brasil, hoje, e dos Estados Unidos, com as eleições legislativas de 3 de novembro. As vicissitudes que atingiram as duas maiores democracias americanas confirmam, além de qualquer dúvida razoável, o elevado risco que correram – e correm. O presidente Donald Trump invariavelmente se autoproclama vencedor integral de três eleições seguidas, quando só numa delas, em 2024, levou a melhor tanto no voto popular quanto no colégio eleitoral. E o motim deflagrado contra o Capitólio, em janeiro de 2021, por ocasião da derrota para o presidente Joe Biden, serviria como modelo insurrecional para os fatos de Brasília em janeiro de 2023, ao se frustrar a reeleição do então presidente Jair Bolsonaro.
É preciso reconhecer nisso a transgressão de mais uma pedra fundamental da nossa crença, estabelecida com acuidade por Adam Przeworski. A democracia, segundo este cientista político, é “o sistema em que partidos perdem eleições” e, por isso, são absolutamente ilegítimos atos insanos ou desesperados. As palavras de Przeworski parecem modestas e são cortantes. Sugerem recuo para uma definição mínima e, na verdade, estabelecem um ponto além do qual a forma de vida já é outra, moldada pelo que tem sido o “subversivismo elementar” de boa parte dos maiores responsáveis pela grande transformação em curso.
À luz dessa concepção mínima, o Brasil continua a ser uma democracia. Realiza eleições regulares, faz prevalecer seus resultados e dispõe de instituições capazes de responsabilizar quem tentou subvertê-los. As condenações pelos atos de Brasília, longe de desmentirem essa condição, confirmam a vigência da ordem constitucional. Nem os escândalos e desvios que atingem a República autorizam a conclusão contrária. Mas seria imprudente supor que uma Constituição nascida das lutas contra o arbítrio esteja imune a novas tentativas de alterar as regras do jogo.
Por este motivo, não faz parte do repertório legalmente constituído – e, portanto, por si só causa justificada apreensão – a mal-ajambrada pretensão de reforma constitucional veladamente exposta pelo senador Flávio Bolsonaro. A pretexto de liquidar o instituto da reeleição e abrir mão da disputa em 2030, o senador parece reivindicar – ou deixar ao acaso de eventual maioria legislativa – a extensão de hipotético mandato que agora conquiste. Ainda uma vez, o que se evidencia é tanto a tentação de obter um resultado altamente questionável quanto o desprezo cínico pelas regras do jogo. Mandatos legítimos, uma vez conquistados, não devem ser prorrogados depois de conferidos pelas urnas.
Para sair da conjuntura crítica, os democratas de todo o espectro – aqui, nos Estados Unidos e em muitos outros países – enfrentam suas próprias contradições e dificuldades. O centro político, por exemplo, está em retirada, incapaz como foi de uma candidatura presidencial que funcionasse como alternativa. A direita constitucional está desafiada continuamente a se afastar da nova direita subversiva. E a esquerda, muito variada internamente, nem sempre escapa à tentação suicida de uma polarização catastrófica para os fins de mudança social a que aspira.
Não é possível escolher o terreno da luta, mas pode-se fixar o objetivo comum de restabelecer a integridade do espectro político, com independência das siglas que o componham. O intuito é refazer, o quanto antes, aquele “cordão sanitário” em torno do extremismo – aliás, não só de direita – que ajudou a preservar as democracias modernas.
Entre estas, afinal, com altos e baixos, nos situamos orgulhosamente desde 1988.
*TRADUTOR E ENSAÍSTA, É COEDITOR DAS ‘OBRAS’ DE GRAMSCI NO BRASIL
domingo, 25 de outubro de 2026
Lula ou Flávio, a sorte, as virtudes e o papel do indivíduo na história, por Luiz Carlos AzedoCorreio BrazilienseTodo aventureirismo é perigoso. O governante sem limites é aquele que considera legítimo remover qualquer obstáculo à própria vontade
“Aquele que menos se apoiou na sorte reteve o poder mais seguramente.” A advertência de Nicolau Maquiavel, no capítulo VI de O príncipe (Hemus), merece reflexão neste domingo. Conquistar o governo e saber governar são capacidades distintas. As circunstâncias podem abrir as portas do poder a quem não construiu os meios para exercê-lo. A virtù permite aproveitar a fortuna e enfrentar suas consequências. Essa correlação ajuda a compreender a disputa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que busca a reeleição, e o senador Flávio Bolsonaro, que aspira à Presidência.
Para o pensador florentino, virtù não significa bondade, pureza de intenções ou obediência à moral religiosa, mas capacidade política, ou seja, discernimento, coragem, flexibilidade e competência para agir diante das circunstâncias. Já a fortuna são essas contingências, abrange acontecimentos que escapam à vontade do governante. Nenhum dirigente controla integralmente o destino, mas é possível se preparar para as tempestades e aproveitar os ventos favoráveis.
Diante dessa lição de Maquiavel, qual é o papel do indivíduo na história? Atribuir tudo aos grandes personagens subestima os movimentos sociais que os embalam. Submetê-los integralmente a forças impessoais também falseia a compreensão dos acontecimentos. Entre o carisma do líder e o peso das estruturas há o espaço da ação política, no qual decisões individuais podem ampliar possibilidades, desperdiçar oportunidades ou precipitar os desastres.
Karl Marx mostrou essa tensão no passagem de O 18 de Brumário de Luís Bonaparte (Boitempo), a maior reportagem política já escrita, que relata a segunda restauração da monarquia após a Revolução Francesa : “Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado”.
Essa frase ilumina as trajetórias de Lula e Flávio quanto aos limites da vontade. Os candidatos são expressão de interesses, expectativas e conflitos, mas suas escolhas diante das contradições do processo político decidem o destino de todos nós. Lula cumpriu esse papel com notável destaque. Sua trajetória reúne experiências vividas da transição social do Brasil rural para o urbano: a migração nordestina, o trabalho industrial, o sindicalismo, a resistência à ditadura e a organização partidária dos trabalhadores.
Sua liderança nasceu das greves do ABC, ganhou expressão nacional com a fundação do PT e alcançou a Presidência depois de três derrotas eleitorais. Não é fruto de um golpe de sorte, muito pelo contrário. Essa resiliência não o torna infalível ou dispensa o julgamento de seus governos. Sua habilidade de conciliação produziu acomodações e suas alianças agora cobram o preço de concessões e contradições. A biografia excepcional não responde automaticamente aos problemas do presente. A experiência pode produzir prudência, mas também alimentar a confiança excessiva em soluções que podem já não dar certo.
Quando os tempos mudam
A presença de Lula no poder não pode ser explicada como um acidente eleitoral. O presidente que busca o quarto mandato ajudou a organizar as forças que o projetaram e promoveu o reconhecimento, a participação e a inclusão dos mais pobres. Sua genialidade política foi transformar experiência pessoal em identificação coletiva. Lula ganhou dimensão histórica porque soube representar milhões de pessoas que procuravam um lugar nas decisões nacionais.
Entretanto, como já dizia Maquiavel, a maior virtude do governante é perceber quando os tempos mudam e não subestimar os adversários. Flávio Bolsonaro ocupa posição distinta. Tem carreira parlamentar, foi deputado estadual e chegou ao Senado; mostrou ser incorreto tratá-lo como estreante. Entretanto, sua projeção nacional está inseparavelmente ligada ao patrimônio político do pai. Não apresenta trajetória equivalente de organização social, construção partidária ou direção do Executivo. A diferença em relação a Lula ultrapassa a idade: envolve a origem e a autonomia da liderança.
É nesse sentido que a imagem do príncipe aventureiro de Maquiavel se ajusta à candidatura de Flávio. O filho do ex-presidente Bolsonaro pode alcançar o poder beneficiado por circunstâncias que não criou: o desgaste do adversário, a rejeição ao PT e a disponibilidade de uma identidade política herdada. A fortuna, aqui, tem sobrenome, base eleitoral e estruturas de mobilização. O risco começa quando essa herança é apresentada como capacidade para governar e resgata uma experiencia fracassada quanto ao seu humanismo.
Todo aventureirismo é perigoso quando a ambição é maior do que a responsabilidade democrática. O príncipe sem limites é aquele que considera legítimo remover qualquer obstáculo à própria vontade. Na República, o Congresso e a Justiça, as demais instituições democráticas, a sociedade civil, a imprensa e a oposição têm funções que transcendem ao resultado eleitoral, principalmente nos momentos de crise. A vitória concede um mandato temporário subordinado à Constituição. Não entrega ao vencedor a propriedade do Estado.
E o voto secreto, direto e universal, na urna eletrônica, garante que cada brasileiro faça sua escolha e o resultado do pleito seja inequívoco.
Alea jacta est!
DAS GÁVEAS DE PORTUGAL AO PORTÃO 1.600: UMA CRÔNICA SAPECA NA ANTEVÉSPERA DO DOUS DE OUTUBRO
Postado na antevéspera de 25 de outubro de 2026 — Sob o olhar atento da memória de Juiz de Fora
O mar revolto da história: a Baía testemunha a passagem do tempo e das frotas.
Diz-se na boa cartilha da história pátria que o Iluminismo, quando desceu as encostas do Douro pelas mãos de Sebastião José de Carvalho e Melo, o temido Marquês de Pombal, trazia uma obsessão quase cirúrgica pelo ordenamento. Pombal queria o império alinhado à régua, os jesuítas banidos em 1759 e a instrução pública livre de silogismos religiosos. Mas o que o austero ministro nunca previu é que, séculos depois, no exato metro linear número 1.600 da Avenida Presidente Itamar Franco (a eterna Independência, em Juiz de Fora), a geometria urbana e a carne estudantil haveriam de pregar-lhe uma peça de fina e doce malícia.
Corta a cena para esta sexta-feira fria de outubro de 2026. A nossa breve, atribulada e curta democracia ferve na antevéspera do segundo turno das eleições presidenciais, marcado para este domingo, 25 de outubro. No portão do Colégio dos Jesuítas, instituição plantada na antiga Chácara das Palmeiras na década de 1950, o ar está carregado de promessas e de exaustão. Foi ali, naquele limiar de ferro e asfalto, que uma jovem parzinha de seus doze para treze anos proferiu a sentença que paralisou o tempo: "Tenho uma caralhada de matéria para estudar. Tenho que viajar."
A frase, capturada pelo ouvido atento e anotada no caderno de um elegante senhorzinho de quase 81 anos, uniu dois mundos separados por sete décadas de travessuras coloniais e contemporâneas. Esse nobre ancião, que ali frequentou o mesmo chão nos idos em que a disciplina era rígida e a batina preta impunha respeito, sorriu de canto de boca. Na sua época, o reitor e xerife da moral era o temido Padre Benjamim — a quem a malandragem dos pares de calças curtas, longe dos ouvidos sacros, apelidara carinhosamente de "Picão". Pode isso, Arnaldo? A regra é clara: a irreverência escolar é a única instituição que nunca racha.
A gávea isolada: o "caralho" náutico onde o estudante cumpre seu castigo pré-férias.
Se Pombal exigia o rigor das posturas, o poeta Manuel Maria Barbosa du Bocage, lá do seu confessionário profano e libertino, assinaria embaixo da exclamação da menina com um soneto obsceno de aplausos. Pois a etimologia, essa ciência despudorada, não nos deixa mentir: a "caralhada" de apostilas que a jovem carrega nos braços remete, textualmente, ao mastro principal das antigas naus portuguesas. O caralho era a cestinha da gávea, aquele posto alto e isolado onde o marujo rebelde pagava seus pecados ao vento congelante, tonto de tanto balançar, tentando avistar o contorno de uma terra prometida.
Hastes ao vento: a cruz colonial rasgando o mar sob o peso das obrigações.
Assim viaja a mente do estudante moderno: empurrado para a gávea pelo peso dos exames, com hastes e carajos ao vento, olhando o horizonte urbano e sonhando com a fuga do final de semana. Enquanto isso, o noticiário de outubro de 2026 nos sobra que, em outra embarcação bem menos sacra flutuando na Baía de Guanabara, as elites políticas e os banqueiros de terno caro — o elo contemporâneo de Flávio e Vorcaro, cujos ecos da investigação bizarramente cruzaram as mesas da Delegacia da Polícia Federal da própria Juiz de Fora — celebram seus acordos sigilosos em um verdadeiro bacaba de influências, regado a vinhos densos, mimos de luxo e iates de alta linhagem.
A nau dos privilegiados: a bizarra apoteose moderna que esbarra no interior mineiro.
Passa-se a régua, portanto, na calçada do número 1.600. O número, que a engenharia urbana jura ser apenas a distância métrica até o marco zero, finge homenagear o século XVI da chegada dos padres de Nóbrega e Anchieta. Mas a verdade que se estampa na fresta do portão é outra, puramente boccagiana: o colégio jesuíta continua a ser a nau que cruza o mar revolto da nossa história. Entre a memória do Padre Benjamim, o "Picão", e o desabafo libertador da menininha de 2026, a juventude juiz-forana segue firme, despachando as obrigações para a gávea e cruzando os portões em busca da estrada, antes que as urnas de domingo decidam o rumo da tempestade.
Use o código com cuidado.
Eleições 2026: confira as principais datas do calendário eleitoralResolução informa que cidadãs e cidadãos devem solicitar o título de eleitor até 6 de maio para participar do pleito06/03/2026 11:35 - Atualizado em 14/10/2026 12:03
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Foto: Luiz Roberto/TSE
Edifício-sede do TSE, em Brasília. Foto: Luiz Roberto/Secom/TSE
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aprovou, em sessão extraordinária administrativa realizada no dia 2 de março de 2026, a Resolução nº 23.760, que estabelece o calendário oficial das Eleições Gerais de 2026.
Cidadãs e cidadãos que necessitam solicitar o primeiro título de eleitor, realizar transferências de domicílio ou revisar dados cadastrais têm até o dia 6 de maio de 2026 para fazê-lo de forma presencial. A partir do dia 7 de maio de 2026, o cadastro eleitoral estará oficialmente fechado para novos pedidos, reabrindo apenas após o término do pleito.
As Eleições de 2026 ocorrerão no dia 4 de outubro de 2026 (1º turno), oportunidade em que serão eleitos os cargos de presidente da República, governadores, senadores e deputados federais, estaduais e distritais. Nos casos em que houver necessidade de 2º turno, a votação ocorrerá no dia 25 de outubro de 2026.
Abaixo, confira cronologicamente as principais datas do calendário eleitoral:
Janeiro de 2026
1º de janeiro: Início do registro obrigatório na Justiça Eleitoral de pesquisas de opinião pública que venham a ser divulgadas sobre o pleito ou sobre possíveis candidatos. Passam a valer também os limites de gastos com publicidade dos órgãos públicos e a proibição da distribuição gratuita de bens, valores ou benefícios pela administração pública (salvo emergências ou programas sociais preexistentes).
Março de 2026
5 de março a 3 de abril: Período da janela partidária, prazo no qual deputadas e deputados federais, estaduais e distritais podem trocar de partido para concorrer às eleições sem risco de perda do cargo eletivo por infidelidade partidária.
5 de março: Data-limite para que o TSE publique todas as instruções e resoluções aplicáveis às Eleições de 2026.
Abril de 2026
4 de abril (6 meses antes do 1º turno):
Prazo final para que partidos políticos e federações obtenham o registro de seus estatutos junto ao TSE.
Data-limite para que futuros candidatos fixem seu domicílio eleitoral na circunscrição em que desejam concorrer e estejam com a filiação partidária devidamente aprovada.
Prazo final para que o presidente da República, governadores e prefeitos que queiram disputar outros cargos renunciem aos seus respectivos mandatos executivos (desincompatibilização).
7 de abril: Último dia para que eleitoras e eleitores que não possuem cadastro biométrico na Justiça Eleitoral solicitem serviços de alistamento, transferência ou revisão cadastral pela internet, utilizando o Autoatendimento Eleitoral.
Maio de 2026
6 de maio: Prazo limite para que eleitores com biometria ou que necessitem de atendimento presencial solicitem emissão do primeiro título, transferência de local de votação ou revisão de dados cadastrais.
7 de maio: O cadastro eleitoral é suspenso (fechado) para novas solicitações.
13 a 15 de maio: Realização, na sede do TSE, do Teste de Confirmação para verificar a efetividade das correções implementadas após o Teste Público de Segurança (TPS 2025).
15 de maio: Pré-candidatas e pré-candidatos estão autorizados a iniciar a arrecadação de recursos financeiros por meio de plataformas homologadas de financiamento coletivo (crowdfunding), desde que não haja pedido explícito de voto.
Junho de 2026
1º de junho: Limite para que a União repasse as dotações orçamentárias relativas ao Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) ao TSE.
16 de junho: Prazo final para que o TSE divulgue o montante total disponível do Fundo Eleitoral a ser distribuído aos partidos.
30 de junho: Início da vedação para que emissoras de rádio e TV transmitam programas apresentados ou comentados por pessoas que se apresentem como pré-candidatas ou pré-candidatos.
Julho de 2026
4 de julho (3 meses antes do 1º turno): Passam a vigorar restrições severas a agentes públicos, como a proibição de nomeações, demissões sem justa causa, contratações e participação em inaugurações de obras públicas.
20 de julho a 20 de agosto: Período para que eleitores com deficiência ou mobilidade reduzida solicitem transferência para seções eleitorais adaptadas ou facilidades para votação em trânsito.
20 de julho a 5 de agosto: Período oficial para a realização de convenções partidárias destinadas a deliberar sobre coligações e escolher formalmente candidatas e candidatos.
Agosto de 2026
5 de agosto: Prazo final para a realização das convenções partidárias.
15 de agosto: Último dia para que partidos políticos, federações e coligações registrem formalmente as suas candidaturas junto à Justiça Eleitoral.
16 de agosto: Início da propaganda eleitoral geral nas ruas e na internet.
28 de agosto a 1º de outubro: Período de exibição do horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão correspondente ao primeiro turno.
6 de agosto: Início do período de proibições severas à programação diária de emissoras de rádio e TV. Fica vedado às emissoras:
Transmitir imagens de pesquisas em formatos que identifiquem participantes ou manipulem dados.
Veicular qualquer tipo de propaganda política fora do horário reservado por lei.
Dar tratamento privilegiado a candidatos, partidos ou coligações.
Exibir filmes, novelas ou programas satíricos que contenham alusões negativas ou positivas a candidatos.
Setembro de 2026
14 de setembro (20 dias antes do 1º turno): Data limite para a conclusão da Cerimônia de Assinatura Digital e Lacração dos Sistemas Eleitorais pelo TSE. Também se encerra o prazo para solicitações de apoio de transporte por comunidades indígenas e quilombolas.
19 de setembro (15 dias antes do pleito): Candidatas e candidatos não podem ser detidos ou presos, a não ser em flagrante delito.
29 de setembro a 6 de outubro: Eleitoras e eleitores não podem ser presos ou detidos, salvo em flagrante delito, em decorrência de sentença criminal condenatória por crime inafiançável ou por desrespeito a salvo-conduto.
Outubro de 20263 de outubro: Realização da Cerimônia de Verificação do Sistema de Gerenciamento da Totalização dos resultados eleitorais.
3 a 5 de outubro: Proibição total de transporte de armas e munições por parte de colecionadores, atiradores e caçadores (CACs) em todo o território nacional.
4 de outubro (Primeiro Domingo): Dia das Eleições (1º Turno). A votação inicia às 8h e encerra às 17h, uniformizada em todo o país de acordo com o horário oficial de Brasília.
25 de outubro (Último Domingo): Dia das Eleições (Eventual 2º Turno).
Em caso de 2º turno:9 a 23 de outubro: Veiculação da propaganda eleitoral gratuita no rádio e na TV.
10 de outubro: Candidatos participantes do 2º turno não podem ser presos, exceto em flagrante.
20 de outubro: Eleitores não podem ser presos, exceto em flagrante, por crime inafiançável ou quebra de salvo-conduto.
24 a 26 de outubro: Nova restrição de porte e transporte de armas de fogo para CACs em território nacional.
Novembro de 20263 de novembro: Reabertura do cadastro eleitoral. Retomam-se os atendimentos presenciais nos cartórios, serviços online de alistamento e transferências pela internet, além da emissão de certidões de quitação eleitoral.
Dezembro de 20263 de dezembro: Prazo final para que eleitores que deixaram de votar no 1º turno apresentem a justificativa de ausência sem penalidade.
18 de dezembro: Data limite estabelecida para a diplomação das eleitas e dos eleitos pela Justiça Eleitoral.
Janeiro de 20275 de janeiro de 2027: Posse oficial do presidente da República e do vice-presidente da República eleitos.
6 de janeiro de 2027: Posse oficial dos governadores e vice-governadores estaduais eleitos.
8 de janeiro de 2027: Prazo final para a entrega de justificativa de ausência no 2º turno das eleições ocorridas em outubro.
MC/EM/DBGRES Tradição Hoje É Domingo, É Alegria, Vamos Sorrir E Cantar! 2001Rogério Cardoso
29 de nov. de 2014
Enredo: Hoje É Domingo, É Alegria, Vamos Sorrir E Cantar!
Ano: 2001
Autores: Lourenço e Adalto Magalha
samba na voz de Celino Dias
Tom Jobim | Sabiá | InéditoBiscoito FinoÁudio oficial da música "Sabiá ", interpretada por Tom Jobim.Tom Jobim foi, sem dúvida, um dos grandes poetas da música brasileira. As gravações de "Inédito" são de 1987 e foram lançadas em álbum duplo em 1995, um ano depois da morte do artista. Todas as músicas foram gravadas em estúdio adaptado na casa de Tom. Perfeito para os amantes da boa música.
Ouça o álbum completo em todas as plataformas de música.
LetraSabiá (TOM JOBIM / CHICO BUARQUE)Jack Nicholson
BR
The Bucket List - Never Trust A Fart"Quase no final do maravilhoso filme Antes de Partir (The Bucket List) de 2007, Jack chega à sua sala, saindo de um lavabo (creio eu) diz para seu jovem gerente que está sentado na poltrona, revisando os papéis:"eu vi um baile de debutantes p.327
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O Ser, o Parecer e a Palavra: Uma Jornada do Conceito à Performance
A existência humana oscila entre o que guardamos no íntimo e o que projetamos para o mundo. O dilema entre essência e aparência não é apenas um debate filosófico estéril; ele se manifesta na desconstrução da linguagem, na literatura e na entrega absoluta da performance artística. Este ensaio costura essas três frentes, unindo o conceito original, a arquitetura da palavra e o ápice da expressão humana.
I. A Dialética do Ser e do Parecer
O ponto de partida da nossa reflexão repousa na máxima "ser é parecer". Historicamente, a filosofia tentou separar a essência (a verdade interna) da aparência (a projeção externa). No entanto, a modernidade e a era da performance borraram essas fronteiras.
A aparência deixou de ser apenas um simulacro da verdade para se tornar a própria moeda de troca social. Como antecipou Maquiavel na política e como escancaram as redes sociais contemporâneas, o "parecer" frequentemente dita a realidade prática. O desafio humano reside em equilibrar essa balança: como habitar um palco social sem perder a coerência e a autenticidade do próprio ser?
II. A Arquitetura Fractal da Palavra
Se o ser e o parecer duelam na vida, eles encontram uma trégua na linguagem. A palavra tem o poder de quebrar as aparências para revelar novas essências. Demonstramos isso ao desestruturar três substantivos próprios profundamente enraizados na identidade e na geografia brasileira:
Sabiá transmutado em Sá Bia (A transformação da natureza na figura humana e caipira).
Delfim transmutado em Del Fim (A transição de um título de nobreza para uma condição existencial e teleológica).
Suassuna transmutado em Sua Suma (A fusão de um sobrenome histórico com a ideia de um compêndio de totalidade).
Ao quebrar a casca fonética desses termos, criamos um substantivo composto triplo estruturado de forma fractal. A linguagem aqui opera no nível da essência: ela desconstrói o que a palavra "parece" ser na superfície para criar um novo "ser" poético, um enigma metalinguístico que homenageia a sonoridade e a literatura armorial.
III. A Performance como Fusão da Essência
O ápice desse encontro entre o conceito e a forma se materializa na arte. Na crônica dedicada a Jack Nicholson no livro Pelo Buraco da Fechadura: Eu Vi um Baile de Debutantes, o cronista Mario Prata capta o momento exato em que a técnica e a alma se fundem.
Na cena final do funeral no filme The Bucket List (Antes de Partir), Nicholson "parece improvisar". Ali, o ator quebra a barreira do roteiro (a aparência do personagem) e entrega a sua própria vulnerabilidade diante da finitude (a essência do ser). É o instante em que o parecer se torna tão genuíno que se transforma em ser. O grande artista é aquele que usa a simulação para revelar a verdade mais nua e crua da experiência humana.
[ FILOSOFIA ]
Ser vs. Parecer (Dilema Essencial)
>>
[ LINGUAGEM ]
Sá Bia, Del Fim Sua Suma (Quebra Fractal)
>>
[ ARTE / PERFORMANCE ]
O Improviso de Nicholson (A fusão da técnica com a verdade nua)
Conclusão: A Suma de Tudo
Partindo da abstraction filosófica, passando pela desconstrução cirúrgica da palavra, até desaguar na crônica da performance cinematográfica, percebemos que o ser e o parecer não são inimigos excludentes. Eles são as duas faces da mesma moeda existencial. A palavra dita o ritmo, a filosofia provoca o pensamento, e a arte — seja na crônica de Prata ou no olhar de Nicholson — executa a síntese final: parecer, com tanta entrega, até que não reste outra opção a não ser ser.
Nota de encerramento: Com produtividade embutida todos a tinham como premissa implícita, que levavam a trincar e ranger de dentes com as embalagens de crescimento, desenvolvimento e prosperidade: Delfim, Meirelles e Paulo Guedes.
Aqui é o Pedro Silveira. Sentem-se confortáveis nas poltronas das suas cabines, pois o mar da economia brasileira nunca é calmo. Para cruzar esse oceano de números herméticos e teses que parecem mais nós táticos de técnicos de gabinete, convidei para sentar aqui na cabine de transmissão o nosso eterno comandante, o homem que já esteve no timão das naus de Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso. Ele que desenhou a jogada ensaiada do Real, da sua gênese nos treinos até os versículos da consagração no gramado. Fala, meu garoto, João Saldanha! Decodifica esse jogo para a moça que está nos ouvindo e pro rapaz que não quer trincar os dentes com o economês.
•••
Pedro, meus amigos. O negócio é o seguinte, e não tem mistério. Economia é que nem futebol: se você joga para a torcida e esquece de arrumar a defesa, toma de goleada no contra-ataque. E o que a gente viu nessas últimas décadas foi muito técnico de prancheta bonita, metido a sabichão, prometendo o título do "desenvolvimento" sem saber o básico do feijão com arroz.
Vamos botar a bola no chão e olhar o campo por setores, sem borrar a tática.
A Pré-História do Nosso Meio-Campo
Primeiro, vieram os caras que a crônica gosta de incensar. O Delfim jogava naquele estilo antigo, do "deixa o bolo crescer que depois a gente divide". O resultado? O bolo cresceu, os cartolas comeram tudo na tribuna de honra e a geral ficou com fome, na base do arrocho. Anos depois, o Meirelles entrou com aquela retranca italiana, o tal do Teto de Gastos. Trancou o time lá atrás, proibiu o apoio dos laterais e o povo ficou sem saúde e sem educação. Aí veio o Paulo Guedes, o ultraliberal da praia, prometendo um "boom" de investimentos que parecia aquele ponta-esquerda cisca-cisca: corre, faz fumaça, pedala, mas não cruza uma bola na área. Vendeu os anéis e os dedos do Estado e entregou a inflação no preço do arroz e do feijão.
Aí o torcedor me pergunta: "E os governos que vieram depois, João?" Vamos por partes.
2003 a 2006: O Palocci jogando na segurança
Quando o Lula assumiu em 2003, todo mundo achava que o time ia partir para o ataque desordenado. Que nada. O Antonio Palocci pegou o esquema tático que a gente tinha deixado redondinho no governo do Fernando Henrique — o Tripé Macroeconômico — e não mexeu em time que está ganhando. Manteve o superávit, garantiu a defesa e o mercado se acalmou. Com a casa arrumada, sobrou espaço para o passe curto: o Bolsa Família e o aumento real do salário mínimo. Foi um feijão com arroz bem temperado. O time não deu espetáculo de cara, mas ganhou os três pontos.
2007 a 2014: O Mantega e o ataque total (que virou chuveirinho)
Aí o Palocci saiu e o Guido Mantega assumiu a camisa 10. No começo, de 2007 a 2010, pegou o vento a favor das commodities — o nosso atacante de área que estava iluminado. O Mantega olhou pro banco e falou: "Vamos pro ataque!". Lançou o PAC, botou o BNDES e os bancos públicos para tabelar no ataque, injetando crédito na praça. O consumo explodiu, a torcida fez a festa.
Só que o sujeito se empolgou, Pedro. De 2011 a 2014, já no governo Dilma, o jogo mudou lá fora, mas o Mantega continuou querendo jogar no ataque total. Inventou a tal da "Nova Matriz Econômica". Forçou a queda dos juros no grito do treinador, deu desoneração fiscal para a indústria como quem distribui bicho adiantado e tabelou o preço da gasolina e da energia na marra. O que aconteceu? O meio-campo desguarneceu, as contas públicas estouraram e o time cansou. Foi o início do sufoco.
2015 a 2016: O Ajuste no Desespero
O segundo tempo da Dilma foi uma bagunça tática tremenda. Ela viu que o esquema do Mantega tinha falido e chamou o Joaquim Levy, o "Mãos de Tesoura", que jogava na escola do Meirelles. O cara quis dar um cavalo de pau no time no meio do campeonato. Cortou tudo, travou as jogadas, mas o vestiário já estava rachado com o Congresso. Não teve esquema tático que salvasse. O Nelson Barbosa ainda tentou entrar no finalzinho para acalmar os ânimos, mas a nau já tinha colidido com o iceberg do impeachment.
2023 a 2026: O Haddad e o esquema do "Novo Arcabouço"
E agora, meus amigos, nessa última temporada de 2023 a 2026, quem assumiu a prancheta foi o Fernando Haddad. O homem pegou o time destroçado depois do Guedes e teve que inventar um esquema novo porque o Teto de Gastos do Temer e do Meirelles já tinha estourado faz tempo.
O que o Haddad fez? Criou o "Novo Arcabouço Fiscal". Em vez de prender o time na zaga que nem o Meirelles, ou de abrir as pernas e privatizar tudo que nem o Guedes, ele propôs um equilíbrio: o gasto do governo só cresce se a receita crescer. É o legítimo esquema 4-4-2 moderno. Para financiar o social e os investimentos públicos, ele foi buscar receita onde os outros técnicos não tinham coragem de mexer: foi taxar as apostas esportivas, as compras dos ricaços no exterior, as grandes empresas. Buscou o equilíbrio fiscal não cortando a perna do trabalhador, mas cobrando de quem estava assistindo ao jogo de camarote. Foi pragmático. Não é o futebol arte que a ala mais radical queria, mas manteve a inflação sob controle e o PIB rodando sem a torcida quebrar as cadeiras do estádio.
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É isso, meus amigos do Blog. João Saldanha matou a bola no peito e colocou no ângulo. A economia brasileira é um campeonato longo, cheio de técnicos que prometem a taça da prosperidade na base do gogó, mas a verdade é que só ganha quem equilibra a responsabilidade no bolso com a comida no prato do povo. Um abraço e até a próxima viagem!
Use o código com cuidado.
Antes de partir – um filme sobre tudo o que é importante na vida
Um diagnóstico de câncer é sempre algo assustador, que nos coloca sob a perspectiva da nossa própria morte. Foi isso que aconteceu com Carter Chambers (Morgan Freeman), um mecânico que é levado ao hospital após passar mal durante um tratamento experimental para combater o câncer, e com Edward Cole (Jack Nicholson), o dono do hospital, que também está internado por causa da doença.
O contraste entre os dois homens de meia idade é interessante: dividem o quarto do hospital um humilde trabalhador casado e pai de família, e um rico administrador, que apesar de achar incômodo dividir o quarto com um estranho nada pode fazer, pois foi ele mesmo quem criou a política de dois leitos por quarto, para ganhar mais dinheiro com o hospital.
Eleição dos rejeitados: Lula pressiona por erro de Flávio Bolsonaro | Estadão AnalisaEstadão Analisa2 / 1.032
quinta-feira, 22 de outubro de 2026
Volatilidade do voto sobe e TSE discute proibir canais do "zap", por Luiz Carlos AzedoCorreio BrazilienseEnquanto aguarda explicações da Meta, o Tribunal Superior Eleitoral admite restringir canais políticos de WhatsApp com mais de 200 mil seguidores nas 48 horas anteriores à votação
Na reta de chegada da campanha presidencial, aumentaram o contingente e a volatilidade dos indecisos, talvez porque a dureza dos ataques entre os candidatos tenha também provocado mais rejeição. Flávio Bolsonaro mantém o favoritismo numérico nas cinco pesquisas divulgadas ontem, mas sua vantagem sobre Luiz Inácio Lula da Silva é estreita. O aumento dos indecisos gera instabilidade nas campanhas e mostra que, agora, sim, a maioria dos eleitores entrou no debate eleitoral. Lula e Flávio também intensificam a presença nas redes e a mobilização dos apoiadores. Nesse ambiente, decisões do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre o funcionamento das plataformas podem interferir na capacidade de cada candidatura alcançar justamente quem ainda hesita.
A Quaest registra de forma clara a mudança. Na pergunta espontânea, sem apresentação dos nomes dos candidatos, os indecisos passaram de 7% para 14% em uma semana. Flávio recuou de 43% para 40%, enquanto Lula passou de 42% para 40%. Na pesquisa estimulada, porém, quando os nomes são apresentados, a indefinição fica em 2%, ante 1% anteriormente. Ou seja, a hesitação é maior do que aquela captada pela escolha direta entre os dois concorrentes.
A alteração é especialmente significativa entre mulheres e independentes. No eleitorado feminino, as indecisas passaram de 8% para 17% — Lula perdeu quatro pontos e Flávio, cinco. Entre os homens, a indefinição cresceu três pontos. Entre os independentes, o salto foi ainda maior: de 13% para 31%, acompanhado de recuos de 10 pontos para Lula e cinco para Flávio. Na direita não bolsonarista, o candidato do PL caiu de 89% para 82%, enquanto os indecisos chegaram a 9%. São segmentos nos quais as fidelidades políticas oferecem menor proteção contra o desgaste da campanha.
O debate de domingo passado, marcado por acusações recíprocas, ajuda a analisar esse desconforto, embora a pesquisa não permita atribuir toda a mudança ao confronto: as entrevistas ocorreram entre os dias 17 e 20, abrangendo momentos anteriores e posteriores ao encontro. Na prática, com o confronto direto, os candidatos mobilizaram suas campanhas, mas deixaram parte do público sem resposta para preocupações concretas. A circulação incessante de cortes nas imagens do debate, para atacar os adversários, prolongou as polêmicas nos celulares e pode ampliar tanto a rejeição quanto a disposição de reconsiderar o voto.
Nos votos válidos, Flávio aparece com 50,7% na Veritá, cerca de 50,6% na Quaest, 51,1% na Futura, aproximadamente 51% na Palver e 51,1% na Ideia. Todas lhe dão vantagem numérica, dentro das respectivas margens de erro. A distância para Lula diminuiu nas séries Veritá e Quaest, mas aumentou na Futura e na Palver. O favoritismo permanece sendo de Flávio, mas a disputa continua aberta e não se pode descartar uma virada de Lula.
Mordaça
É nesse cenário que a atuação do TSE preocupa. O Conselho de Supervisão da Meta, órgão independente, reconheceu falhas na aplicação das políticas antifraude às contas de anúncios de Lula e cobrou revisão especializada. A manifestação dá substância às reclamações de tratamento desigual. A empresa, por sua vez, nega interferência política e atribui os episódios a problemas técnicos. O reconhecimento das falhas exige apuração de seus efeitos e se houve favorecimento deliberado.
Os episódios apontados como interferência ao impulsionamento de publicações de Lula e diferenças na geração de imagens pela inteligência artificial. A Meta admitiu que seus filtros nem sempre reconheciam candidatos identificados pela combinação de prenome e número eleitoral. O TSE determinou correções e comprovação de tratamento igualitário e, ontem, deu prazo de 24 horas ao Ministério Público Eleitoral para avaliar as medidas. Houve providências, mas a demora é injustificável. Numa campanha tão curta, uma oportunidade de comunicação perdida dificilmente pode ser restituída depois.
Enquanto aguarda explicações da plataforma, a cúpula do tribunal discute restringir canais políticos de WhatsApp com mais de 200 mil seguidores nas 48 horas anteriores à votação. O alcance formal seria geral, mas o impacto político da mordaça seria desigual: o Exército do Lula, com mais de 7 milhões de inscritos, tornou-se instrumento central da reação petista nas redes e nas ruas, enquanto o canal Tropa do Flávio tem 2,5 milhões. Após a repercussão negativa da iniciativa, Nunes Marques afirmou rejeitar mudanças de última hora; Mendonça sustentou que a minuta resultou de discussão coletiva. A Corte deverá tomar uma decisão ainda hoje.
Os precedentes são preocupantes. Nunes Marques suspendeu o canal a pedido da campanha de Flávio. O relator Ricardo Villas Bôas Cueva restabeleceu seu funcionamento diante da insuficiência de provas. A análise técnica não localizou os conteúdos apontados, embora registrasse lacunas decorrentes de mensagens apagadas ou editadas. Depois de novo bloqueio, o registro formal pela campanha permitiu sua liberação.
Combater ilícitos exige provas, rapidez e proporcionalidade. Discutir uma restrição geral às vésperas da votação, depois desse vaivém, abala a previsibilidade que a Corte deve assegurar. Com indecisos em alta e diferenças mínimas nas pesquisas, a paridade de armas precisa ser demonstrada em decisões coerentes. A confiança no resultado também depende da confiança nas condições da disputa.
quinta-feira, 22 de outubro de 2026
Flávio promete a volta de programa que abriu brechas para lavagem de dinheiro pelo PCC, por Adriana FernandesFolha de S. Paulo
Perse é o pior benefício tributário de todos os tempos
Não é mera coincidência que no mesmo dia o candidato tenha se reunido com mais de 30 sertanejos em Goiânia; eles foram os grandes beneficiários dessa farra tributária
O Perse é o maior programa de lavagem de dinheiro e sonegação do país. Não é a coluna quem afirma. São os investigadores que há pelo menos três anos apuram as irregularidades possibilitadas pelas brechas nas regras do benefício tributário, criado pelo governo Jair Bolsonaro para socorrer o setor de eventos dos prejuízos com a pandemia da Covid-19.
Em 2024, a Folha revelou que fiscais da Receita tinham encontrado no programa indícios de operações de lavagem de dinheiro de atividades ilícitas no país, após o custo do benefício tributário explodir no ano anterior.
Em março daquele mesmo ano, a Polícia Federal e a Receita Federal lançaram uma ofensiva para fechar o cerco contra os crimes cometidos por empresas beneficiárias do Perse. Empresas investigadas na operação Latus Actio eram suspeitas de integrar um esquema de lavagem de dinheiro para o PCC.
As empresas utilizadas para lavagem de dinheiro se valeram do Perse para não pagar imposto. O benefício se tornou um atrativo para que firmas do setor de eventos, ou registradas como se fossem atuantes na área, fossem utilizadas para ilegalidades.
As operações Jogo de Sombras, Arena e Conto da Sorte deste ano apuraram o uso de empresas de eventos para a lavagem de dinheiro de bets.
Apesar de o programa ser uma porta aberta para fraudes, o Perse foi renovado com apoio de parlamentares do alto clero do Congresso e ganhou um teto de R$ 15 bilhões de renúncia fiscal. Em abril do ano passado, o programa foi encerrado porque o limite foi atingido rapidamente.
Mesmo com todo esse histórico nefasto, Flávio Bolsonaro anunciou que vai ressuscitar o Perse.
É mais uma medida na direção oposta à do programa de ajuste fiscal prometido pela sua equipe econômica, de cortar renúncias para reduzir a dívida pública.
Não é mera coincidência que no mesmo dia o candidato tenha se reunido com mais de 30 sertanejos em Goiânia. Eles foram os grandes beneficiários dessa farra tributária. Não há privilégio maior: pagar zero de imposto para desfilar por aí em seus jatinhos.