Inspirados já nos ensinamentos de Sófocles, aqui, procurar-se-á a conexão, pelo conhecimento, entre o velho e o novo, com seus conflitos.
As pistas perseguidas, de modos específicos, continuarão a ser aquelas pavimentadas pelo grego do período clássico (séculos VI e V a.C).
Humildade e Liberdade de Pensamento: Homilton expressa sua modéstia diante da tarefa de falar sobre a vida de Eurípedes, afirmando que não busca revelar fatos que dificilmente se escreveriam tal qual foram na realidade. Ele destaca que seu principal título — e que lhe pertence por direito divino — é o da liberdade de pensamento e de ação concedido por Deus, permitindo-lhe falar livre de preconceitos e do convencionalismo social, seguindo apenas a sua consciência.
“E os que fizeram o bem sairão para a ressurreição da vida; e os que fizeram o mal, para a ressurreição da condenação.” — Jesus. (JOÃO, 5.29)
O versículo João 5:29 traz um ensinamento de Jesus sobre a responsabilidade das escolhas humanas e o destino após a morte:
A ressurreição da vida: Destinada àqueles que praticaram o bem e creram na mensagem do Mestre.
A ressurreição da condenação: Referente àqueles que persistiram de forma consciente na prática do mal.
O Contexto da PassagemA voz do Filho do Homem: Pouco antes, no versículo 28, Jesus afirma que virá a hora em que todos os que estão nos sepulcros ouvirão a Sua voz.
O critério do julgamento: O texto aponta para a universalidade da ressurreição, abrangendo tanto justos quanto injustos, tendo as obras e a atitude do coração como reflexo do caráter de cada pessoa.
Diferentes correntes religiosas interpretam o trecho de formas particulares:
No Cristianismo Tradicional: Vê-se a passagem como a confirmação de um juízo final onde os salvos (pela fé demonstrada em frutos de justiça) herdam a vida eterna, e os perdidos enfrentam a separação de Deus. Você pode acompanhar reflexões devocionais sobre o tema na Bíblia Online.
No Espiritismo: O trecho é frequentemente associado à lei de causa e efeito e à reencarnação, onde o espírito colhe em novas experiências aquilo que construiu em jornadas anteriores, conforme abordado em comentários literários como no Livro Pão Nosso.
Passagens relacionadas na BíbliaDaniel 12:2 – Fala sobre os que dormem no pó da terra despertarem para a vida eterna ou para a vergonha eterna.
Mateus 25:31 – Descreve a vinda do Filho do Homem em sua glória para o julgamento.
Atos 24:15 – Menciona a esperança da ressurreição tanto dos justos quanto dos injustos.
Pão Nosso #127 - Lei de retornoNEPE Paulo de Tarso | Evangelho e EspiritismoTransmitido ao vivo em 14 de set. de 2023Série de estudos, com Artur Valadares, da obra "Pão Nosso", de Emmanuel/Chico Xavier.1 Em raras passagens do Evangelho, a lei reencarnacionista permanece tão clara quanto aqui, em que o ensino do Mestre se reporta à ressurreição da condenação.
2 Como entenderiam estas palavras os teólogos interessados na existência de um inferno ardente e imperecível?
3 As criaturas dedicadas ao bem encontrarão a fonte da vida em se banhando nas águas da morte corporal. 4 Suas realizações do porvir seguem na ascensão justa, em correspondência direta com o esforço perseverante que desenvolveram no rumo da espiritualidade santificadora, todavia, os que se comprazem no mal cancelam as próprias possibilidades de ressurreição na luz.
5 Cumpre-lhes a repetição do curso expiatório.
6 É a volta à lição ou ao remédio.
Não lhes surge diferente alternativa.
7 A lei de retorno, pois, está contida amplamente nessa síntese de Jesus.
8 Ressurreição é ressurgimento. E o sentido de renovação não se compadece com a teoria das penas eternas.
9 Nas sentenças sumárias e definitivas não há recurso salvador. Através da referência do Mestre, contudo, observamos que a Providência Divina muito mais rica e magnânima que parece.
10 Haverá ressurreição para todos, apenas com a diferença de que os bons tê-la-ão em vida nova e os maus em nova condenação, decorrente da criação reprovável deles mesmos.
EmmanuelTexto extraído da 1ª edição desse livro.127Lei de retorno
Creia no seu poder interno.A energia positiva que há
dentro de você é a
felicidade em ação.Cuidar do corpo e do Espírito - O Evangelho segundo o Espiritismo - Cap. XVII - Item 11Canal CEICVocê está em: O Evangelho segundo o Espiritismo > Capítulo XVII — Sede perfeitos > Instruções dos Espíritos. > Cuidar do corpo e do Espírito. > 11
11. Consistirá na maceração do corpo a perfeição moral? Para resolver essa questão, apoiar-me-ei em princípios elementares e começarei por demonstrar a necessidade de cuidar-se do corpo que, segundo as alternativas de saúde e de enfermidade, influi de maneira muito importante sobre a alma, que cumpre se considere cativa da carne. Para que essa prisioneira viva, se expanda e chegue mesmo a conceber as ilusões da liberdade, tem o corpo de estar são, disposto, forte. Façamos uma comparação: Eis se acham ambos em perfeito estado; que devem fazer para manter o equilíbrio entre as suas aptidões e as suas necessidades tão diferentes? Inevitável parece a luta entre os dois e difícil achar-se o segredo de como chegarem a equilíbrio.
Dois sistemas se defrontam: o dos ascetas, que tem por base o aniquilamento do corpo, e o dos materialistas, que se baseia no rebaixamento da alma. Duas violências quase tão insensatas uma quanto a outra. Ao lado desses dois grandes partidos, formiga a numerosa tribo dos indiferentes que, sem convicção e sem paixão, são mornos no amar e econômicos no gozar. Onde, então, a sabedoria? Onde, então, a ciência de viver? Em parte alguma; e o grande problema ficaria sem solução, se o Espiritismo não viesse em auxílio dos pesquisadores, demonstrando-lhes as relações que existem entre o corpo e a alma e dizendo-lhes que, por se acharem em dependência mútua, importa cuidar de ambos. Amai, pois, a vossa alma, porém, cuidai igualmente do vosso corpo, instrumento daquela. Desatender as necessidades que a própria natureza indica, é desatender a lei de Deus. Não castigueis o corpo pelas faltas que o vosso livre-arbítrio o induziu a cometer e pelas quais é ele tão responsável quanto o cavalo mal dirigido, pelos acidentes que causa. Sereis, porventura, mais perfeitos se, martirizando o corpo, não vos tornardes menos egoístas, nem menos orgulhosos e mais caritativos para com o vosso próximo? Não, a perfeição não está nisso: está toda nas reformas por que fizerdes passar o vosso Espírito. Dobrai-o, submetei-o, humilhai-o, mortificai-o: esse o meio de o tornardes dócil à vontade de Deus e o único de alcançardes a perfeição.
Jorge, Espírito Protetor.
Paris, 1863.
O texto da imagem é o início do capítulo "15 - Testemunho e Definição", pertencente ao livro "Eurípedes - o Homem e a Missão" (página 173).
Abaixo está o resumo dos pontos principais do trecho:
Elogio à obra de Homilton Wilson: O texto se inicia com uma reflexão sobre os escritos de Homilton Wilson (irmão consangüíneo e discípulo de Eurípedes Barsanulfo), destacando como ele define com brilhantismo e fidelidade a posição de Eurípedes como um verdadeiro Espírita consciente de seus deveres perante a Doutrina de Salvação e o Cristo.
O contexto de incompreensão: É mencionado que, em uma época de desmandos religiosos em que a pureza da Codificação Kardequiana enfrentava velhas fraudes, era natural que os adeptos do Espiritismo enfrentassem as sanções e a incompreensão do cotidiano.
O testemunho de Homilton (1945): É citado o trecho de uma palestra proferida por Homilton Wilson em 28/06/1945, no Centro Espírita Eurípedes Barsanulfo, em Ribeirão Preto (SP). Nela, ele afirma categoricamente: "Eurípedes foi Espírita" e que ele realizou diante de todos tudo o que é ressaltado no estudo e na meditação da Doutrina dos Espíritos, codificada por Allan Kardec.
Humildade e Liberdade de Pensamento: Homilton expressa sua modéstia diante da tarefa de falar sobre a vida de Eurípedes, afirmando que não busca revelar fatos que dificilmente se escreveriam tal qual foram na realidade. Ele destaca que seu principal título — e que lhe pertence por direito divino — é o da liberdade de pensamento e de ação concedido por Deus, permitindo-lhe falar livre de preconceitos e do convencionalismo social, seguindo apenas a sua consciência.
Na canção popular brasileira, a palavra lenitivo carrega seu significado literal e poético mais puro: um bálsamo, um alívio ou consolo para as dores do corpo, da mente e da alma. Como a música popular é um dos campos mais sofisticados da nossa literatura, esse termo erudito é frequentemente usado por compositores para ilustrar aquilo que abranda o sofrimento diante das durezas da vida.
O uso dessa palavra e o seu conceito aparecem na música brasileira de três formas principais:
1. A música e a arte como o próprio "lenitivo
"Em muitas composições, o próprio ato de cantar, sambar ou ouvir música é colocado como o remédio para as frustrações cotidianas.
Meu LenitivoManu Dias
Um exemplo claro está no samba "Meu Lenitivo", interpretado por Manu Dias, onde a letra diz abertamente: "Somente o samba / Ameniza as dores que a vida nos traz / Eterniza amores que não temos mais / Quando as dificuldades me tiram a paz / Vou sambar". Aqui, o samba assume o papel de um fomento curativo para a falta de paz.
2. Elementos do cotidiano operando como alívio
Os compositores costumam transformar elementos da cultura e do dia a dia no lenitivo necessário para suportar a realidade.
Sem a cachaça, ninguém segura esse rojão | LITERATURA BRASILEIRA & CACHAÇAOutras PalavrasChico Buarque: Na clássica música "Meu Caro Amigo" (composta com Francis Hime), Chico narra a situação difícil do Brasil da década de 1970. Na letra, a cachaça é descrita poeticamente por analistas e críticos como o lenitivo da dureza — uma válvula de escape e um conforto físico e emocional contra o sufoco do período.
BonançaGrupo MalíciaArt Popular: No pagode "Bonança" (composição de Tauã Paiva Alves), a palavra aparece explicitamente para falar de superação amorosa: "Mas quem espera alcançar, pode confiar / A bonança irá despertar / Trazendo lenitivo pra dor / Renascendo um amor de raiz".
O livro dos Espíritos Parte 2 Capítulo 6 P 320 329 Comemoração dos mortos FuneraisEstudos EspíritasVocê está em: O Livro dos Espíritos > Parte segunda — Do mundo espírita ou mundo dos Espíritos > Capítulo VI — Da vida espírita > Comemoração dos mortos. Funerais.Comemoração dos mortos. Funerais.
320. Sensibiliza os Espíritos o lembrarem-se deles os que lhes foram caros na Terra?
“Muito mais do que podeis supor. Se são felizes, esse fato lhes aumenta a felicidade. Se são desgraçados, serve-lhes de lenitivo.”
321. O dia da comemoração dos mortos é, para os Espíritos, mais solene do que os outros dias?
Prestam-se para ir ao encontro dos que vão orar nos cemitérios sobre seus túmulos?
“Os Espíritos acodem nesse dia ao chamado dos que da Terra lhes dirigem seus pensamentos, como o fazem noutro dia qualquer.”
a) – Mas o de finados é, para eles, um dia especial de reunião junto de suas sepulturas?
“Nesse dia, em maior número se reúnem nas necrópoles, porque então também é maior, em tais lugares, o das pessoas que os chamam pelo pensamento. Porém, cada Espírito vai lá somente pelos seus amigos e não pela multidão dos indiferentes.”
b) – Sob que forma aí comparecem e como os veríamos, se pudessem tornar-se visíveis?
“Sob a que tinham quando encarnados.”
322. E os esquecidos, cujos túmulos ninguém vai visitar, também lá, não obstante, comparecem e sentem algum pesar por verem que nenhum amigo se lembra deles?
“Que lhes importa a Terra? Só pelo coração nos achamos a ela presos. Desde que aí ninguém mais lhe vota afeição, nada mais prende a esse planeta o Espírito, que tem para si o universo inteiro.”
323. A visita de uma pessoa a um túmulo causa maior contentamento ao Espírito, cujos despojos corporais aí se encontrem, do que a prece que por ele faça essa pessoa em sua casa?
“Aquele que visita um túmulo pode manifestar, por essa forma, que pensa no Espírito ausente. A visita é a representação exterior desse pensamento. Já vos disse que a prece é que santifica o ato da rememoração. Nada importa o lugar, desde que seja feita com o coração.”
324. Os Espíritos das pessoas a quem se erigem estátuas ou monumentos assistem à sua inauguração, e experimentam algum prazer nisso?
“Muitos comparecem a tais solenidades, quando podem; porém, menos os sensibiliza a homenagem que lhes prestam do que a lembrança que deles guardam os homens.”
325. Qual a origem do desejo que certas pessoas exprimem de ser enterradas antes num lugar do que noutro? Será que preferirão, depois de mortas, vir a tal lugar? E essa importância dada a uma coisa tão material constitui indício de inferioridade do Espírito?
“Afeição particular do Espírito por determinados lugares; inferioridade moral. Que importa este ou aquele
pedaço de terra a um Espírito elevado? Não sabe ele que sua alma se reunirá às dos que lhe são caros, embora fiquem separados os seus respectivos ossos?”
a) – Deve-se considerar futilidade a reunião dos despojos mortais de todos os membros de uma família?
“Não; é um costume piedoso e um testemunho de simpatia que dão os que assim procedem aos que lhes foram entes queridos. Conquanto destituída de importância para os Espíritos, essa reunião é útil aos homens: mais concentradas se tornam suas recordações.”
326. Comovem a alma que volta à vida espiritual as honras que lhe prestem aos despojos mortais?
“Quando já ascendeu a certo grau de perfeição, o Espírito se acha escoimado de vaidades terrenas e compreende a futilidade de todas essas coisas. Porém, ficai sabendo, há Espíritos que nos primeiros momentos que se seguem à sua morte material experimentam grande prazer com as honras que lhes tributam, ou se aborrecem com o pouco caso que façam de seus envoltórios corporais. É que ainda conservam alguns dos preconceitos desse mundo.”
327. O Espírito assiste ao seu enterro?
“Frequentemente assiste, mas algumas vezes não percebe o que se passa, se ainda está perturbado.”
a) – Lisonjeia-o a concorrência de muitas pessoas ao seu enterro?
“Mais ou menos, conforme o sentimento que as anime.”
328. O Espírito daquele que acaba de morrer assiste à reunião de seus herdeiros?
“Quase sempre. Para seu ensinamento e castigo dos culpados, Deus permite que assim aconteça. Nessa ocasião, o Espírito julga do valor dos protestos que lhe faziam. Todos os sentimentos se lhe patenteiam e a decepção que lhe causa a rapacidade dos que entre si partilham os bens por ele deixados o esclarece acerca daqueles sentimentos. Chegará, porém, a vez dos que lhe motivam essa decepção.”
329. O instintivo respeito que, em todos os tempos entre todos os povos, o homem consagrou e consagra aos mortos é efeito da intuição que tem da vida futura?
“É a consequência natural dessa intuição. Se assim não fosse, nenhuma razão de ser teria esse respeito.”
Paciência - Lenine | LETRA3. A associação poética com o nome de batismo
É impossível falar de "lenitivo" e canção popular sem pensar na figura de Lenine. Embora o nome do cantor pernambucano seja uma homenagem direta ao líder político russo Vladimir Lenin, a sonoridade de seu nome evoca imediatamente os verbos lenir e o adjetivo lenitivo.
Essa coincidência poética se reflete perfeitamente na sua obra. Músicas como "Paciência" (onde ele canta "mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma...") funcionam exatamente como um lenitivo para a velocidade e o caos do mundo moderno.
Uma mulher, uma loira e os mortos que ainda tocam
Música, poesia, memória e democracia para passar a régua — sem jamais fechar a conta
E agora podemos, enfim, passar a régua.
Mas não fechar a conta.
Porque certas contas — sobretudo as da música — continuam abertas depois da morte dos seus autores. Talvez seja esse o único espiritismo em que vale acreditar: aquele em que os mortos voltam não para assombrar os vivos, mas para serem novamente interpretados.
Imagine-se a cena.
No escuro, um violão.
A voz de uma mulher gaúcha.
E Una Mujer reaparece.
Não é Agustín Lara, como a memória apressada poderia sugerir. A canção vem de outro lugar, e justamente por isso a viagem fica ainda mais extraordinária. Paul Misraki, nascido em Constantinopla, em família judaica, tornou-se em Paris compositor, pianista e arranjador ligado ao jazz e à canção francesa. Sua obra atravessou França, América do Sul, Estados Unidos e cinema.
A canção atravessou ainda outra fronteira quando João Gilberto a gravou em João, de 1991, ao lado de um repertório que misturava samba, bolero, música italiana, Cole Porter, Noel Rosa e Charles Trenet.
E então, décadas depois, aparece Adriana Calcanhotto.
A loira gaúcha.
O violão.
A voz.
E a canção volta a respirar.
Não como relíquia, mas como matéria contemporânea.
É aí que a história fica maior do que uma simples genealogia musical. Não estamos diante de uma brasileira copiando uma francesa, nem de uma gaúcha imitando um mexicano, nem de João Gilberto reproduzindo uma canção estrangeira. Estamos diante daquela coisa misteriosa que a música popular faz melhor do que qualquer tratado cultural: ela incorpora o estrangeiro até que ele deixe de ser estrangeiro.
Misraki atravessou o Atlântico. João Gilberto o trouxe para dentro da gramática da bossa. Adriana o devolveu ao mundo com outra respiração.
E, ao lado dessa mulher, pode perfeitamente surgir uma loira.
A Uma Loira de Hervê Cordovil — compositor mineiro, parceiro de Noel Rosa em canções como Triste Cuíca e Não Resta a Menor Dúvida.
E então a brincadeira fica séria.
Porque Cordovil também pertence a esse estranho clube dos compositores que parecem continuar compondo depois de mortos. Basta Noel Rosa entrar pela porta.
Não é preciso imaginar uma sessão espírita.
É só colocar o disco para tocar.
Noel chega primeiro.
Cordovil responde.
João Gilberto aparece com aquele violão que parece ter inventado uma nova maneira de fazer silêncio.
E, de repente, lá está Adriana Calcanhotto, sozinha com seu instrumento, retomando Una Mujer.
O próprio percurso de Adriana confirma essa vocação para fazer a tradição conversar com o presente: seu trabalho com poesia inclui Mário Quintana, e Quintana pertence às suas memórias de infância em Porto Alegre.
É aqui que o Rio Grande do Sul entra — não como folclore, mas como atitude.
Adriana não precisa vestir o gaúcho como fantasia regional. Não precisa de bombacha, chimarrão ou monumento. Seu gaúcho está em outra parte: na independência, na desconfiança diante do óbvio, na capacidade de atravessar o Brasil sem pedir autorização a nenhum centro cultural.
E talvez seja justamente aí que Mário Quintana reconheceria a sua conterrânea.
Quintana, o poeta que gostava de deslocar o mundo alguns centímetros para que pudéssemos enxergá-lo melhor. Adriana, a cantora que faz operação semelhante com as canções: desloca-as um pouco, troca-lhes a luz, devolve-as ao público como se fossem recém-descobertas.
Ela não precisa ser apenas a intérprete de uma tradição.
É uma de suas continuadoras.
E isso vale reconhecer também por sua trajetória como mulher, compositora, cantora, instrumentista, artista e cidadã que assumiu posições públicas e políticas. Mas o mais interessante talvez seja que sua obra nunca precisou escolher entre o local e o universal.
O gaúcho, nela, não fecha portas: abre janelas.
Por isso a cena final poderia ser esta:
Hervê Cordovil sentado ao piano.
Noel Rosa encostado no balcão.
João Gilberto, silencioso, afinando o violão.
Paul Misraki chegando de Paris — ou talvez de Constantinopla, ninguém sabe mais.
Agustín Lara passando pela porta — porque, afinal, ele não pode faltar a este cabaré.
E, no palco, Adriana.
Uma mulher.
Uma loira.
Uma gaúcha.
Cantando uma canção que não é mexicana, não é brasileira, não é francesa, não é argentina — e, justamente por isso, é de todos nós.
Talvez seja essa a verdadeira vida eterna.
Não a permanência do corpo, mas a possibilidade de uma voz encontrar outra voz muitos anos depois. Um verso encontrar outro século. Um violão encontrar outro ouvido. Uma canção atravessar fronteiras, governos, modas, ideologias e mortes sem perder a capacidade de nos reunir.
Os mortos continuam vivos quando alguém ainda os canta.
Os poetas continuam entre nós quando seus versos ainda conseguem abrir uma janela.
E a democracia também é isso: o direito de continuar ouvindo, reinterpretando, discordando, criando e cantando juntos.
Porque nenhuma cultura permanece viva se for transformada em monumento. Ela permanece viva quando pode ser reinventada.
E talvez por isso a música seja uma das formas mais bonitas de liberdade: ela não exige que os mortos concordem com os vivos. Basta que os vivos tenham liberdade para fazê-los cantar novamente.
Pode passar a régua.
A conta não fecha.
A música ficou devendo.
E é exatamente por isso que amanhã alguém ainda vai voltar para ouvi-la.
Música. Poesia. Memória. Democracia.
Porque celebrar a vida eterna é também celebrar aquilo que continua vivo em nós.
Para o Blogger: cole esse conteúdo na aba HTML do editor, não na aba “Escrever/Compor”. Ele não contém page-break, iframe, CSS externo ou elementos que normalmente provoquem quebra artificial de páginas. O texto fica em fluxo contínuo, como uma crônica de blog, e o próprio Blogger fará a adaptação para celular.
E o último movimento, acho que ficou no tom certo: não é um epitáfio para os artistas mortos; é justamente o contrário — é uma celebração de que eles continuam trabalhando entre nós toda vez que alguém abre um piano, pega um violão, lê um poema ou canta uma canção.
Adriana Calcanhotto - Una Mujer (Ao Vivo)Una MujerAdriana CalcanhottoPaixão e identidade feminina em “Una Mujer” de Adriana Calcanhotto
“Una Mujer”, interpretada por Adriana Calcanhotto, questiona e provoca os conceitos tradicionais de feminilidade ao afirmar que uma mulher que não se entrega ao amor não merece ser chamada de mulher. A letra utiliza comparações diretas, como “una flor que no da aroma” (uma flor que não exala perfume) e “una leña que no sabe arder” (uma lenha que não sabe queimar), para reforçar a ideia de que a essência feminina estaria ligada à capacidade de viver e expressar a paixão. O texto destaca qualidades como ser sonhadora, coquete e ardente, sugerindo que a entrega ao amor é vista como uma característica fundamental da mulher idealizada na canção.
A canção também traz a metáfora do “idioma mágico” da paixão, que só pode ser aprendido “con besos” (com beijos), indicando que o amor e o desejo são experiências sensoriais e intuitivas, não apenas racionais. Ao manter a letra original em espanhol, Adriana Calcanhotto demonstra respeito à obra e sua habilidade de transitar entre culturas musicais, valorizando a intensidade e a entrega sugeridas na letra. “Una Mujer” pode ser entendida tanto como uma celebração da paixão feminina quanto como uma provocação aos padrões sociais, questionando o que realmente define uma mulher e sugerindo uma crítica à repressão dos desejos e sentimentos.
Identidade feminina
Intensidade do amor
Crítica social-política
Composição: Misraki, Roos Georges.
O paradoxo do caçula democrático
Há uma simbiose indissociável entre a solidez das instituições republicanas e o livre exercício do escrutínio público, uma engrenagem viva que se moveu com precisão na recente entrevista do ministro Gilmar Mendes à jornalista Renata Lo Prete, no g1. O diálogo, travado sob a habitual voltagem das crises de Brasília, evoca uma máxima fundamental para os dias correntes: "É legítimo que se faça a pergunta.E que se esclareça.E que as pessoas respondam." Nessa tríade reside o oxigênio de qualquer sociedade aberta.
Historicamente, o Brasil acostumou-se a buscar bombeiros institucionais nos momentos em que o tecido institucional esgarça. Evoca-se, quase por instinto, a mítica conciliação mineira sintetizada no clássico brado: "Chamem o Tancredo!". No entanto, na complexa paisagem política contemporânea, onde o Supremo Tribunal Federal se equilibra entre o papel de guardião da estabilidade democrática e o de vidraça sob severo questionamento, a necessidade de mediação mudou de endereço. O imperativo de conciliação hoje passa, obrigatoriamente, pela prestação de contas à sociedade, sem o filtro protetor dos bastidores.
É nesse ponto que sobressai a natureza do fazer jornalístico. Se, por um lado, o Judiciário se vê obrigado a calibrar as fronteiras de sua atuação — enfrentando críticas legítimas sobre a transparência e os limites de inquéritos excepcionais —, por outro, a imprensa cumpre seu papel de fricção necessária. Afinal, como lembra o adágio popularizado, "o jornalismo é filho caçula da democracia". Não há um sem o outro. A legitimidade da Corte não se fragiliza pela contundência das perguntas; ao contrário, é na capacidade de responder a elas que o tribunal se fortalece.
As notícias que consumimos em ritmo frenético não nascem no vácuo; são herdeiras diretas dos desdobramentos de ontem e anteontem. Diante de um cenário em que as tensões institucionais se renovam a cada ciclo de vinte e quatro horas, a busca por respostas claras deixa de ser um mero exercício retórico para se tornar uma exigência de sobrevivência republicana. Quando a dinâmica do poder exige esclarecimentos e a sociedade demanda clareza, a ordem velada que ecoa nas redações e nas consciências cidadãs é uma só: chamem a fiscalização, façam a pergunta e exijam o esclarecimento.
Escudo de Trump mira ponto fraco de Lula e cerca as fronteiras do Brasil, por Luiz Carlos Azedo
Correio BrazilienseO crime organizado virou uma patologia no Brasil. O Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) já não são somente quadrilhas dedicadas ao tráfico
O beabá da sociologia moderna começa com uma grande provocação de seu criador, Émile Durkheim, sociólogo, antropólogo e filósofo francês, que forma a santíssima trindade dos pensadores clássicos das ciências sociais com Karl Marx e Max Weber. O seu principal mérito foi emancipar a sociologia como disciplina autônoma, elaborando um método científico próprio e diferenciando-a da psicologia e da filosofia. A provocação foi afirmar que o crime é um fato social normal, em As Regras do Método Sociológico (Martins Fontes).
Durkheim não pretendia justificá-lo. Ao contrário, assinalava que nenhuma sociedade conhecida havia eliminado as transgressões e que a reação a elas reafirmava as regras coletivas. Para o sociólogo, o “normal” é todo fenômeno recorrente em sociedades de um mesmo tipo e estágio de desenvolvimento. O “patológico” aparece quando esse fenômeno ultrapassa certos limites e compromete a vida coletiva. A fronteira, portanto, não separa sociedades com crime daquelas sem crime, mas sociedades capazes de fazer valer suas regras diante do crime daquelas em que o poder criminoso passa a disputá-las.
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Postado por Gilvan Cavalcanti de Melo às 08:26:00 Nenhum comentário:
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Renata LoPrete entrevista Gilmar Mendesg123 de abr. de 2026#notícias #g1HÁ CINCO MESESAqui está a transcrição completa do texto manuscrito contido na imagem:
"É legítimo que se faça a pergunta.E que se esclareça.E que as pessoas respondam."Chamem a Renata!
Palavra de ordem em Minas quando a democracia se sente ameaçada:Chamem o Tancredo!
O jornalismo é filho caçula da democracia.
As notícias de hoje são as caçulas das de anteontem.
Futuro nunca passou tanto pelo Senado quanto agora, por Maria Cristina FernandesValor EconômicoPoder dos senadores sobre o mandato dos ministros do STF e sobre a reforma dos tribunais superiores despertou interesse inaudito na disputa
A disputa pelo Senado sempre foi a que menos mobilizou o eleitor. Desta vez, é diferente. Não há exatamente entusiasmo pela disputa porque o desalento grassa em todas as campanhas e para todos os cargos. Mas os desatinos do Supremo Tribunal Federal despertaram o interesse pela disputa na Casa que não apenas sabatina e vota os indicados à Corte como também pode definir sua degola.
Medir este interesse em pesquisa não é fácil por conta das duas vagas. Nomes que aparecem como segunda ou terceira opções do entrevistado podem acabar aparecendo na liderança pela soma das menções. Ainda que se dê o malefício da dúvida às pesquisas que circulam por aí, há convergência de que este basta ao STF não será suficiente para garantir uma maioria bolsonarista ao Senado. As projeções mais confiáveis indicam um equilíbrio entre Centrão e PL, ficando os partidos mais à esquerda como a terceira força da Casa. A renovação dará, ainda, um peso maior às mulheres.
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O STF e as eleições, por William WaackO Estado de S. Paulo.Qualquer que seja o resultado eleitoral deste ano, a crise no Supremo vai se ampliar
O quatriunvirato que se vê dono do STF provocou a fusão da crise dessa instituição com as eleições, transformadas por eles mesmos em questão existencial quando aberta e publicamente apostaram as fichas em Lula. Trouxeram uma luta pelo poder disputada nas urnas para dentro do STF.
A Corte acabou sendo levada pelo mesmo quatriunvirato à condição de símbolo de proteção do patrimonialismo, isto é, quando grupos privados se apropriam do Estado em defesa de interesses próprios. É completa bobagem acreditar que uma derrota de Lula significaria o fim do patrimonialismo, ou do “sistema”, mas é desse jeito que uma enorme parcela do público “sente” a atmosfera política, fulanizada nas figuras dos ministros.
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Postado por Gilvan Cavalcanti de Melo às 07:54:00 Um comentário:
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STF tem encontro com código de ética, por Carolina BrígidoO Estado de S. PauloA depender das decisões tomadas, Corte poderá evitar ou acelerar interferência externa
Passadas as eleições, dois assuntos que foram empurrados para debaixo do tapete vão pautar o Supremo Tribunal Federal. O primeiro é decidir o que fazer com indícios de que ministros receberam vantagens indevidas de Daniel Vorcaro. Em paralelo, Cármen Lúcia anunciou a pessoas próximas que vai apresentar o texto de um código de ética para os integrantes do tribunal.
Hoje, a probabilidade de um código ser aprovado no tribunal é mínima. Ainda assim, o presidente Edson Fachin insiste no projeto. A estratégia não é teimosia, mas uma espécie de redução de danos. Para ele, apontar desvios éticos ou indícios de cometimento de crimes dos pares não tira credibilidade do tribunal – ao contrário, mostraria que a Corte tem mecanismos internos capazes de resolver as próprias crises.
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Una foto que puede cambiar el rumbo del hemisferioEl 23 de septiembre, cuando la dictadora Delcy Rodríguez se fotografió sonriente con Donald Trump en Nueva York, muchos lo vieron como farándula política. La foto vistosa, el giro inesperado, la curiosidad de ver a una chavista con su zona de confort extendida a los EEUU. Y a solo unos kilómetros en donde su antecesor, Nicolás Maduro, permanece encerrado en una celda. Entenderlo como una excentricidad entretenida es un error. Esa foto no es una imagen más. Es un mensaje cifrado con varias capas, y cada una de ellas toca una libertad que hasta ahora dábamos por sentada en América Latina.
🇧🇷 Tradução para o PortuguêsUma foto que pode mudar o rumo do hemisférioNo dia 23 de setembro, quando a ditadora Delcy Rodríguez foi fotografada sorrindo com Donald Trump em Nova York, muitos viram isso como puro espetáculo político. A foto chamativa, a reviravolta inesperada, a curiosidade de ver uma chavista com sua zona de conforto estendida aos EUA. E a apenas alguns quilômetros de onde seu antecessor, Nicolás Maduro, permanece trancado em uma cela. Entender isso como uma excentricidade divertida é um erro. Essa foto não é apenas mais uma imagem. É uma mensagem cifrada com várias camadas, e cada uma delas afeta uma liberdade que, até agora, considerávamos garantida na América Latina.
🇺🇸 Tradução para o Inglês (English Translation)A photo that could change the course of the hemisphereOn September 23, when the dictator Delcy Rodríguez was photographed smiling with Donald Trump in New York, many saw it as political showbiz. The flashy photo, the unexpected twist, the curiosity of seeing a Chavista with her comfort zone extended to the US. And just a few miles away from where her predecessor, Nicolás Maduro, remains locked in a cell. Understanding it as an entertaining eccentricity is a mistake. That photo is not just another image. It is a coded message with multiple layers, and every single one of them touches upon a freedom that, until now, we took for granted in Latin America.A IA pode cometer erros. Por isso, cheque as respostas
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A Teoria da Ferradura (Horseshoe Theory), formulada pelo filósofo e escritor francês Jean-Pierre Faye, é um conceito da ciência política que serve para explicar por que a extrema-esquerda e a extrema-direita muitas vezes se comportam de maneira idêntica, apesar de estarem em lados opostos do espectro ideológico.
🧲 O Conceito Visual e Estrutural
A metáfora é simples e visual:
O modelo tradicional: Imagina a política como uma linha reta, onde a esquerda está em uma ponta, o centro no meio e a direita na outra ponta. Quanto mais você se afasta do centro, mais distante fica do lado oposto.
O modelo de Faye: Imagina a política como uma ferradura. As duas pontas continuam existindo, mas a linha se curva de tal forma que as extremidades se aproximam e quase se tocam.
[ CENTRO ]
/ \
[ESQUERDA] [DIREITA]
| |
| |
[EXTREMA] <----> [EXTREMA]
ESQUERDA DIREITA
(Pontas quase se tocam)
🌐 O Significado Contextual no Texto do Autor
No texto publicado por Nacho Montes de Oca, a teoria é usada para ilustrar a convergência dos extremos. O autor contextualiza o conceito através de três características principais:
Nutrição Mútua e Aliança Oculta: O autor afirma que os extremos "não brigam mais, eles se nutrem". Na prática, a extrema-esquerda e a extrema-direita precisam uma da outra para existir, pois usam o medo do "inimigo" para engajar seus seguidores. O texto sugere que, no cenário latino-americano, eles chegaram a um ponto de convergência tão grande que formaram uma "parceria política" para uma "festa populista em estéreo".
Aversão ao Pensamento Crítico: Ambos os extremos convergem na rejeição ao debate democrático tradicional, à moderação e à reflexão. Para entrar nessa "festa", o autor diz que é preciso "se agachar para cruzar a entrada", significando que ambos exigem a submissão intelectual e a perda da dignidade dos indivíduos.
Métodos Idênticos para Fins Parecidos: Embora os discursos teóricos sejam diferentes (um foca na classe social, o outro no nacionalismo/costumes), na prática, ambos convergem no uso do populismo, do autoritarismo, do ataque às instituições democráticas e no alinhamento com regimes ou elementos criminosos (como sugere um dos comentários do post).
Em resumo, Nacho Montes de Oca utiliza Jean-Pierre Faye para alertar que, ao extremar o discurso, a política deixa de ser um debate de ideias e passa a ser um jogo de espelhos, onde o radical de esquerda e o radical de direita se tornam faces da mesma moeda totalitária.
Use o código com cuidado.
Nacho Montes de Oca no X: "Una foto que puede cambiar el rumbo del hemisferio
El 23 de septiembre, cuando la dictadora Delcy Rodríguez se fotografió sonriente con Donald Trump en Nueva York, muchos lo vieron como farándula política. La foto vistosa, el giro inesperado, la curiosidad de ver a una chavista con su zona de confort extendida a los EEUU. Y a solo unos kilómetros en donde su antecesor, Nicolás Maduro, permanece encerrado en una celda. Entenderlo como una excentricidad entretenida es un error. Esa foto no es una imagen más. Es un mensaje cifrado con varias capas, y cada una de ellas toca una libertad que hasta ahora dábamos por sentada en América Latina. El punto de partida es entender que Delcy Rodríguez, la dictadora interina, llega a Estados Unidos invitada por la Casa Blanca. Hace un año era una rea de la justicia acusada de delitos aberrantes contra los venezolanos y de ser la segunda y lavandera de dinero sucio de un régimen corrupto hasta la médula. Ahora es la jefa del chavismo. Sigue siendo la administradora de un régimen brutal. Pero igual es recibida con todos los honores. El primer mensaje que esconde es el más obvio y el más brutal: se acabó la condición democrática. Durante treinta años, desde que terminó la Guerra Fría, la regla no escrita fue: se puede ser de izquierda o de derecha, se puede caerle mejor o peor en Washington, pero si se necesitan dólares, préstamos del FMI y una foto en la Casa Blanca, tiene que haber una elección que, al menos, parezca creíble. No hacía falta que fuera perfecta. Alcanzaba con que hubiera oposición, con que la prensa pudiera informarla. Esa ficción obligaba a los gobiernos a no cruzar del todo la línea. Ese foto le puso fecha de defunción a esa regla. En marzo, la administración Trump les dio a petroleras norteamericanas acceso a una quinta parte de los más de 300 mil millones de barriles en reservas probadas de Venezuela y a cambio levantó sanciones y la sacó de la lista negra antinarcóticos. No pidió elecciones, ni liberar a todos los presos políticos, ni garantías reales para la prensa independiente. Como dijo el propio Trump ese día, "Venezuela no está preparada para votar". Traducido: no me interesa si votan. Me interesa que cumplan con barriles, con frenar la droga y con frenar migrantes. El segundo mensaje es más técnico, pero más erosivo para la soberanía al sur del Río Grande. Es la tutela sin tropas. La Orden Ejecutiva 14373, firmada en enero, no le devuelve la plata del petróleo a Venezuela. Crea, y cito textual, una "cuenta de custodia" en Washington que administra el Departamento de Estado. Es decir, el gobierno venezolano pone la cara, pero la billetera la maneja otro. No es una invasión. Es más sofisticado: es un contrato donde, para seguir siendo presidente de un país con el apoyo de Estados Unidos, sus recursos vitales pasan a ser administrados por el socio más fuerte. Si esto funciona en Venezuela, ¿por qué no en el futuro en Bolivia con el litio o en Ecuador con el cobre? El tercer mensaje es el que más debería preocuparnos a los periodistas y a cualquier ciudadano. Toca directamente nuestras libertades. Porque la foto blanquea que se puede apretar a la prensa y salir premiado. Mientras Delcy es recibida, Venezuela ocupa el puesto 159 sobre 180 en el ranking de libertad de prensa de Reporteros Sin Fronteras. Es uno de los peores lugares del mundo para hacer periodismo. Y sin embargo fue admitida sin condiciones. El mensaje que baja a la región es devastador: perseguir periodistas ya no te cierra puertas, te las puede abrir. Y ya se está viendo el efecto contagio. En su informe de abril, Reporteros Sin Fronteras habló de la peor caída global en 25 años y puso a cuatro países latinoamericanos en alerta roja. Argentina, que bajo el gobierno de Javier Milei cayó 69 puestos desde 2022, después de que en abril se prohibiera el ingreso de periodistas acreditados a la Casa Rosada -un gesto imitado por Trump con medios disidentes días atrás-. En El Salvador, Nayib Bukele usa la nueva Ley de Agentes Extranjeros para abrir causas penales a medios independientes. En Ecuador, donde Daniel Noboa adelantó elecciones municipales y dejó afuera a la principal fuerza opositora, se denuncia un hostigamiento similar. No es que copiaron a Delcy. Es que aprendieron que ahora pueden hacerlo sin pagar costo en Washington. El problema es que se trata de un mismo método que, cuando es usado por el mismo chavismo o sus aliados cubanos, nicaragüenses o un gobierno de izquierda como el mexicano, despierta críticas entre muchos de los que, cinco minutos después, minimizan esos incidentes o se hacen parte de la horda anti-periodistas cuando se cometen desde la derecha. Y lo hacen ante una prensa que, un rato antes, decían no odiar lo suficiente. O piden certificados de veracidad y pureza al periodismo por encargo de líderes que hacen de la mentira y la promesa rota un canto cotidiano. El cinismo de ambos extremos de la militancia política suena en estéreo. Y ese enervante, demencial y, por sobre, todo hipócrita. Pero no es solo la libertad de prensa. Es la libertad de elegir o de que un juez defienda al ciudadano del abuso del poder y la prerrogativa de que cada voto valga. Cuando se legitima a alguien como la dictadora venezolana que, según la encuestadora Delphos de junio, tiene 61% de rechazo y 24% de apoyo, y al mismo tiempo se deja afuera a María Corina Machado, que ganó una primaria con 92% de los votos y que hoy mide más de 70% contra menos de 4% de Rodríguez según Datanálisis, le estás diciendo a todo el continente que la legitimidad ya no viene de abajo, de la gente, sino de arriba, de tener algo para transar. Por eso esa imagen de la dictadora y su tutor modifica la historia del hemisferio. No es como otros giros de Trump. No se trata de aranceles, no es un insulto predecible en Twitter. Es el momento en que Estados Unidos deja de ser, con todos estándares flexibles acostumbrados, el garante de que la democracia era el peaje para entrar al sistema, y pasa a ser el aval de que la estabilidad y los negocios son suficientes. En el siglo XX tuvimos la Doctrina Monroe: América para los americanos. Después tuvimos la doctrina de la promoción democrática: América para las democracias. Lo que nace es una tercera doctrina: América para quien garantice orden y recursos, se vote o no. Y acá viene el último mensaje, el más irónico y el más difícil de digerir. El chavismo, que durante 25 años dijo que venía a enterrar a la derecha, le terminó enseñando cómo quedarse en el poder. Y da cátedra sobre cómo pasar de un tutelaje chino y ruso a uno de Estados Unidos sin caerse. Pero que siempre hay que ser tutelado. Y algunos gobiernos latinoamericanos ya rindieron examen al abrazarse a la dictadrua venezolana a la que hace un año repudiaban. O al callarse ahora esas mismas críticas, aunque contradigan el pensar de quienes los votaron o lo que ellos mismo decían respecto al chavismo. Allí hay otro residuo político, en la caída de las ideologías. La dictadora que militó el desprecio a Trump, al que llamó "terrorista de Estado" y "criminal". Hoy, se encuentra con el mismo que llamó al chavismo un "régimen narco", "ladrones", "sucios" y "repugnantes". Socialismo y conservadurismo, fundidos políticamente. No es una anomalía, es un golpe re realidad. Ese transformismo político mutuo es un ejemplo didáctico que cae como una lección hacia sus respectivas sociedades, sus líderes y sus ciudadanos. Vale todo, lo que importa es el líder, el negocio y mantenerse en el poder. Y tiene un efecto imitativo que no está disociado del origen real de muchos de los “nuevos dirigentes”, que surgieron del final del intestino de aquellos partidos e ideologías a las que luego declararon sus adversarios a muerte. Y a su vez achata el debate de ideas para trasladarlo al de las conveniencias transaccionales que lleva el discurso público, a un nivel de retórica sobreactuada de obediencia al líder, en un grado que hasta hoy se creía que era solo una excentricidad norcoreana. O chavista. Y la tristeza del "por algo el líder pide que matemos a los gorriones", pero replicado en un discurso de miles de personas que deja en manos de una figura política su futuro sin cuestionar ni corroborar la factibilidad de cada propuesta. Para eso está el posteo, no se necesita mas texto. La hambruna intelectual promete ser épica. Esta contorsión es caracterizada en la neolengua como "realpolitik", que es una forma poco elegante de acomodarse y justificar una renuncia a valores para intentar validar al líder y emparenta a derecha e izquierda en una misma escuela política. Y de paso frivoliza el debate para pasar de las ideas argumentadas a una emocionalidad que acude con más frecuencia al grito que a la reflexión conjunta. No es solo la ideología, es el método donde convergen los polos opuestos de la política. El chavismo inventó una forma de gobernar: un líder que encarna al pueblo, un enemigo interno que es traidor y no rival —antes el imperialismo, ahora el Estado profundo—, el Estado usado como botín para premiar leales y un vínculo directo por redes sociales saltándose a los medios. Observen hoy a Buenos Aires, a San Salvador, a Quito. Luego a Caracas, a La Habana y a Managua. Vuelvan la vista a Washington. ¿No es exactamente la misma tecnología de poder, pero con otro color político? Por eso Trump se entiende mejor con Delcy que con Machado. Delcy no tiene un proyecto de país que la obligue a pelearse con él. Solo quiere sobrevivir administrando el aparato que le dejó Maduro. Es predecible. Machado, en cambio, tiene un mandato real de la gente y si la reconocés, tenés que ayudarla a hacer lo que prometió: contar los votos y meter presos a los corruptos. Y eso incomoda al nuevo socio petrolero. La imagen de Delcy Y Donald no es farándula. No es una foto curiosa para el archivo. Si este precedente queda en pie, dentro de diez años quizás vamos a mirar este 23 de septiembre como miramos hoy la caída del Muro de Berlín o la firma del Consenso de Washington: el día que entendimos que las reglas habían cambiado y no nos habíamos dado cuenta. La pregunta ya no es si Delcy es democrática o no. La pregunta es si la región está dispuesta a aceptar que a partir de ahora la democracia es un asunto opcional. Y comprender que, una vez que bajaron los estándares democráticos, los próximos gobiernos, sean de derecha o de izquierda, encontrarán una democracia cada vez más magullada y al sistema de garantías republicanas ajado. Destruir una república, muestra la experiencia venezolana, lleva muy poco tiempo. Recuperarla es una tarea titánica. El chavismo que hoy se pasea tutelado por la tierra de su viejo adversario es una invitación y una advertencia al mismo tiempo. Tampoco se trata de enfocarlo todo como una oposición o defensa de Trump, porque a fin de cuentas es una figura que resalta pero que no deja de ser una circunstancia pasajera, al igual que su dictadora asociada de Venezuela. La cuestión es mirar más allá del circo político y pensar sin fanatismos lo que va a quedar establecido. Es mucho más que una foto. Es un sinceramiento de un cambio que se propone y que se acomoda por derecha o por izquierda para legitimar una lógica de poder transideológica. Para el momento en que se consolide, puede que ya no haya dónde quejarse una vez muerto el mensajero y el resto de los canales para expresar la disidencia. El fin de los medios se justifica para los que creen que el fin justifica los medios. Parece un trabalenguas, pero es una alarma cifrada para el que pudo llegar hasta aquí al conservar la capacidad de leer en un texto de mas de dos párrafos. Los extremos ya no pelean, se nutren y expulsan el pensamiento critico y reflexivo del debate. Esa es el bonus de una relación en la que la teoría de la herradura Jean-Pierre Faye terminó por develar que errar es humano, pero sumarse a los extremos es para equinos. Ahora sí, un aplauso para la pareja política y su invitación al resto del continente para su fiesta populista en estéreo. Están todos invitados, siempre y cuando accedan a agacharse para cruzar la entrada. PS: es una editorial escrita desde la alarma y el enojo. La indignación a veces obliga a salirse del periodismo de datos para expresar lo que, si se queda guardado dentro, se pudre."
@nachomdeo
Nacho Montes de Oca
@nachomdeo
Una foto que puede cambiar el rumbo del hemisferio
El 23 de septiembre, cuando la dictadora Delcy Rodríguez se fotografió sonriente con Donald Trump en Nueva York, muchos lo vieron como farándula política. La foto vistosa, el giro inesperado, la curiosidad de ver a una chavista con su zona de confort extendida a los EEUU. Y a solo unos kilómetros en donde su antecesor, Nicolás Maduro, permanece encerrado en una celda. Entenderlo como una excentricidad entretenida es un error. Esa foto no es una imagen más. Es un mensaje cifrado con varias capas, y cada una de ellas toca una libertad que hasta ahora dábamos por sentada en América Latina.
El punto de partida es entender que Delcy Rodríguez, la dictadora interina, llega a Estados Unidos invitada por la Casa Blanca. Hace un año era una rea de la justicia acusada de delitos aberrantes contra los venezolanos y de ser la segunda y lavandera de dinero sucio de un régimen corrupto hasta la médula. Ahora es la jefa del chavismo. Sigue siendo la administradora de un régimen brutal. Pero igual es recibida con todos los honores.
El primer mensaje que esconde es el más obvio y el más brutal: se acabó la condición democrática. Durante treinta años, desde que terminó la Guerra Fría, la regla no escrita fue: se puede ser de izquierda o de derecha, se puede caerle mejor o peor en Washington, pero si se necesitan dólares, préstamos del FMI y una foto en la Casa Blanca, tiene que haber una elección que, al menos, parezca creíble. No hacía falta que fuera perfecta. Alcanzaba con que hubiera oposición, con que la prensa pudiera informarla. Esa ficción obligaba a los gobiernos a no cruzar del todo la línea.
Ese foto le puso fecha de defunción a esa regla. En marzo, la administración Trump les dio a petroleras norteamericanas acceso a una quinta parte de los más de 300 mil millones de barriles en reservas probadas de Venezuela y a cambio levantó sanciones y la sacó de la lista negra antinarcóticos. No pidió elecciones, ni liberar a todos los presos políticos, ni garantías reales para la prensa independiente. Como dijo el propio Trump ese día, "Venezuela no está preparada para votar". Traducido: no me interesa si votan. Me interesa que cumplan con barriles, con frenar la droga y con frenar migrantes.
El segundo mensaje es más técnico, pero más erosivo para la soberanía al sur del Río Grande. Es la tutela sin tropas. La Orden Ejecutiva 14373, firmada en enero, no le devuelve la plata del petróleo a Venezuela. Crea, y cito textual, una "cuenta de custodia" en Washington que administra el Departamento de Estado. Es decir, el gobierno venezolano pone la cara, pero la billetera la maneja otro. No es una invasión. Es más sofisticado: es un contrato donde, para seguir siendo presidente de un país con el apoyo de Estados Unidos, sus recursos vitales pasan a ser administrados por el socio más fuerte. Si esto funciona en Venezuela, ¿por qué no en el futuro en Bolivia con el litio o en Ecuador con el cobre?
El tercer mensaje es el que más debería preocuparnos a los periodistas y a cualquier ciudadano. Toca directamente nuestras libertades. Porque la foto blanquea que se puede apretar a la prensa y salir premiado. Mientras Delcy es recibida, Venezuela ocupa el puesto 159 sobre 180 en el ranking de libertad de prensa de Reporteros Sin Fronteras. Es uno de los peores lugares del mundo para hacer periodismo. Y sin embargo fue admitida sin condiciones. El mensaje que baja a la región es devastador: perseguir periodistas ya no te cierra puertas, te las puede abrir.
Y ya se está viendo el efecto contagio. En su informe de abril, Reporteros Sin Fronteras habló de la peor caída global en 25 años y puso a cuatro países latinoamericanos en alerta roja. Argentina, que bajo el gobierno de Javier Milei cayó 69 puestos desde 2022, después de que en abril se prohibiera el ingreso de periodistas acreditados a la Casa Rosada -un gesto imitado por Trump con medios disidentes días atrás-. En El Salvador, Nayib Bukele usa la nueva Ley de Agentes Extranjeros para abrir causas penales a medios independientes. En Ecuador, donde Daniel Noboa adelantó elecciones municipales y dejó afuera a la principal fuerza opositora, se denuncia un hostigamiento similar. No es que copiaron a Delcy. Es que aprendieron que ahora pueden hacerlo sin pagar costo en Washington.
El problema es que se trata de un mismo método que, cuando es usado por el mismo chavismo o sus aliados cubanos, nicaragüenses o un gobierno de izquierda como el mexicano, despierta críticas entre muchos de los que, cinco minutos después, minimizan esos incidentes o se hacen parte de la horda anti-periodistas cuando se cometen desde la derecha. Y lo hacen ante una prensa que, un rato antes, decían no odiar lo suficiente. O piden certificados de veracidad y pureza al periodismo por encargo de líderes que hacen de la mentira y la promesa rota un canto cotidiano. El cinismo de ambos extremos de la militancia política suena en estéreo. Y ese enervante, demencial y, por sobre, todo hipócrita.
Pero no es solo la libertad de prensa. Es la libertad de elegir o de que un juez defienda al ciudadano del abuso del poder y la prerrogativa de que cada voto valga. Cuando se legitima a alguien como la dictadora venezolana que, según la encuestadora Delphos de junio, tiene 61% de rechazo y 24% de apoyo, y al mismo tiempo se deja afuera a María Corina Machado, que ganó una primaria con 92% de los votos y que hoy mide más de 70% contra menos de 4% de Rodríguez según Datanálisis, le estás diciendo a todo el continente que la legitimidad ya no viene de abajo, de la gente, sino de arriba, de tener algo para transar.
Por eso esa imagen de la dictadora y su tutor modifica la historia del hemisferio. No es como otros giros de Trump. No se trata de aranceles, no es un insulto predecible en Twitter. Es el momento en que Estados Unidos deja de ser, con todos estándares flexibles acostumbrados, el garante de que la democracia era el peaje para entrar al sistema, y pasa a ser el aval de que la estabilidad y los negocios son suficientes.
En el siglo XX tuvimos la Doctrina Monroe: América para los americanos. Después tuvimos la doctrina de la promoción democrática: América para las democracias. Lo que nace es una tercera doctrina: América para quien garantice orden y recursos, se vote o no.
Y acá viene el último mensaje, el más irónico y el más difícil de digerir. El chavismo, que durante 25 años dijo que venía a enterrar a la derecha, le terminó enseñando cómo quedarse en el poder. Y da cátedra sobre cómo pasar de un tutelaje chino y ruso a uno de Estados Unidos sin caerse. Pero que siempre hay que ser tutelado. Y algunos gobiernos latinoamericanos ya rindieron examen al abrazarse a la dictadrua venezolana a la que hace un año repudiaban. O al callarse ahora esas mismas críticas, aunque contradigan el pensar de quienes los votaron o lo que ellos mismo decían respecto al chavismo.
Allí hay otro residuo político, en la caída de las ideologías. La dictadora que militó el desprecio a Trump, al que llamó "terrorista de Estado" y "criminal". Hoy, se encuentra con el mismo que llamó al chavismo un "régimen narco", "ladrones", "sucios" y "repugnantes". Socialismo y conservadurismo, fundidos políticamente. No es una anomalía, es un golpe re realidad.
Ese transformismo político mutuo es un ejemplo didáctico que cae como una lección hacia sus respectivas sociedades, sus líderes y sus ciudadanos. Vale todo, lo que importa es el líder, el negocio y mantenerse en el poder.
Y tiene un efecto imitativo que no está disociado del origen real de muchos de los “nuevos dirigentes”, que surgieron del final del intestino de aquellos partidos e ideologías a las que luego declararon sus adversarios a muerte. Y a su vez achata el debate de ideas para trasladarlo al de las conveniencias transaccionales que lleva el discurso público, a un nivel de retórica sobreactuada de obediencia al líder, en un grado que hasta hoy se creía que era solo una excentricidad norcoreana. O chavista.
Y la tristeza del "por algo el líder pide que matemos a los gorriones", pero replicado en un discurso de miles de personas que deja en manos de una figura política su futuro sin cuestionar ni corroborar la factibilidad de cada propuesta. Para eso está el posteo, no se necesita mas texto. La hambruna intelectual promete ser épica.
Esta contorsión es caracterizada en la neolengua como "realpolitik", que es una forma poco elegante de acomodarse y justificar una renuncia a valores para intentar validar al líder y emparenta a derecha e izquierda en una misma escuela política. Y de paso frivoliza el debate para pasar de las ideas argumentadas a una emocionalidad que acude con más frecuencia al grito que a la reflexión conjunta.
No es solo la ideología, es el método donde convergen los polos opuestos de la política. El chavismo inventó una forma de gobernar: un líder que encarna al pueblo, un enemigo interno que es traidor y no rival —antes el imperialismo, ahora el Estado profundo—, el Estado usado como botín para premiar leales y un vínculo directo por redes sociales saltándose a los medios. Observen hoy a Buenos Aires, a San Salvador, a Quito. Luego a Caracas, a La Habana y a Managua. Vuelvan la vista a Washington. ¿No es exactamente la misma tecnología de poder, pero con otro color político?
Por eso Trump se entiende mejor con Delcy que con Machado. Delcy no tiene un proyecto de país que la obligue a pelearse con él. Solo quiere sobrevivir administrando el aparato que le dejó Maduro. Es predecible. Machado, en cambio, tiene un mandato real de la gente y si la reconocés, tenés que ayudarla a hacer lo que prometió: contar los votos y meter presos a los corruptos. Y eso incomoda al nuevo socio petrolero.
La imagen de Delcy Y Donald no es farándula. No es una foto curiosa para el archivo. Si este precedente queda en pie, dentro de diez años quizás vamos a mirar este 23 de septiembre como miramos hoy la caída del Muro de Berlín o la firma del Consenso de Washington: el día que entendimos que las reglas habían cambiado y no nos habíamos dado cuenta.
La pregunta ya no es si Delcy es democrática o no. La pregunta es si la región está dispuesta a aceptar que a partir de ahora la democracia es un asunto opcional. Y comprender que, una vez que bajaron los estándares democráticos, los próximos gobiernos, sean de derecha o de izquierda, encontrarán una democracia cada vez más magullada y al sistema de garantías republicanas ajado. Destruir una república, muestra la experiencia venezolana, lleva muy poco tiempo. Recuperarla es una tarea titánica. El chavismo que hoy se pasea tutelado por la tierra de su viejo adversario es una invitación y una advertencia al mismo tiempo.
Tampoco se trata de enfocarlo todo como una oposición o defensa de Trump, porque a fin de cuentas es una figura que resalta pero que no deja de ser una circunstancia pasajera, al igual que su dictadora asociada de Venezuela. La cuestión es mirar más allá del circo político y pensar sin fanatismos lo que va a quedar establecido.
Es mucho más que una foto. Es un sinceramiento de un cambio que se propone y que se acomoda por derecha o por izquierda para legitimar una lógica de poder transideológica. Para el momento en que se consolide, puede que ya no haya dónde quejarse una vez muerto el mensajero y el resto de los canales para expresar la disidencia. El fin de los medios se justifica para los que creen que el fin justifica los medios. Parece un trabalenguas, pero es una alarma cifrada para el que pudo llegar hasta aquí al conservar la capacidad de leer en un texto de mas de dos párrafos.
Los extremos ya no pelean, se nutren y expulsan el pensamiento critico y reflexivo del debate. Esa es el bonus de una relación en la que la teoría de la herradura Jean-Pierre Faye terminó por develar que errar es humano, pero sumarse a los extremos es para equinos.
Ahora sí, un aplauso para la pareja política y su invitación al resto del continente para su fiesta populista en estéreo. Están todos invitados, siempre y cuando accedan a agacharse para cruzar la entrada.
PS: es una editorial escrita desde la alarma y el enojo. La indignación a veces obliga a salirse del periodismo de datos para expresar lo que, si se queda guardado dentro, se pudre.
"Para atingir Mendonça, Moraes dispara um tiro que ricocheteia no ministro Fachin, que atua como presidente-anteparo. Nessa troca de chumbo no Supremo, Mendonça revida o Inquérito das Fake News com uma investigação própria. Um embate direto travado por meio de inquéritos mágicos."RODA VIVA | WÁLTER MAIEROVITCH | 21/09/2026Roda Viva e TV Cultura
Transmissão ao vivo realizada há 19 horas Roda Viva | 2026
Nesta segunda-feira (21), o Roda Viva recebe o jurista e professor Wálter Maierovitch.
Após o país acompanhar com atenção a sessão plenária do Supremo Tribunal Federal, paralisada pelo pedido de vista do ministro Flávio Dino, o programa analisa os próximos passos da Corte, os impactos das posturas adotadas pelos magistrados e os reflexos em todo o Poder Judiciário.
A discussão integra a programação do mês de celebração dos 40 anos do Roda Viva, reafirmando o compromisso do programa com o debate dos grandes temas nacionais.
00:00:00 Abertura e apresentação
00:02:49 Apuração e ética no STF
00:08:40 Suspeição do Procurador-Geral
00:13:39 Decoro e imagem das instituições
00:20:00 Crises históricas do Judiciário
00:27:02 Impactos nas eleições de 2026
00:31:00 Impedimento e foro íntimo
00:33:57 Propostas de mudança no STF
00:42:53 Papel do CNJ e transparência
00:50:45 Relações do Caso Master
00:59:00 Validade da delação premiada
01:04:14 Mudanças no STF e mandato
01:09:00 Projetos de anistia e golpe
01:13:42 Crise entre os Poderes
01:18:31 Considerações finais e encerramento
#RodaViva #TVCultura #SomosCultura #WálterMaierovitch
Resumo
O artigo de Christopher Garman, publicado no Valor Econômico, argumenta que o Brasil vive uma degradação institucional lenta, mais preocupante no longo prazo do que a atual crise envolvendo o STF.
O autor identifica três frentes principais:
Judiciário: o aumento da atuação de escritórios ligados a familiares de ministros e suspeitas de influência sobre decisões criaria um ambiente propício ao tráfico de influência.
Crime organizado: facções estariam ampliando sua atuação econômica e política, alcançando setores como combustíveis, mineração e fintechs e aumentando sua presença em governos locais.
Congresso: o crescimento das emendas parlamentares, combinado com fiscalização considerada insuficiente, teria ampliado o poder econômico do Legislativo e favorecido interesses particulares.
Segundo Garman, esses processos não configuram ainda uma ruptura institucional, mas corroem gradualmente a confiança nas instituições e a igualdade de competição entre empresas. No curto prazo, a crise do STF poderia afetar a confiança dos investidores e o ambiente político para uma eventual reforma fiscal em 2027.
O autor considera que mudanças no Judiciário e maior fiscalização das emendas são possíveis, mas vê como desafio mais difícil conter a penetração do crime organizado no Estado.
Ao mesmo tempo, o artigo ressalta que o Brasil mantém instituições relativamente robustas: Judiciário e Ministério Público independentes, Polícia Federal atuante e diversos mecanismos de veto no sistema político. Essa estrutura, argumenta Garman, também explica por que grandes escândalos conseguem vir à tona.
Tese central: mais importante do que a permanência de ministros específicos no STF é saber se a crise atual produzirá reformas capazes de reduzir estruturalmente o tráfico de influência, a corrupção e a infiltração do crime organizado nas instituições.
terça-feira, 22 de setembro de 2026
Lenta e ampla degradação institucional, por Christopher GarmanValor EconômicoApesar de tudo, as instituições brasileiras são robustas em comparação com os padrões globais
O Supremo Tribunal Federal está mergulhado em uma crise institucional sem precedentes. Por trabalhar em uma empresa de risco global, frequentemente recebo perguntas sobre os efeitos desse escândalo na confiança dos investidores internacionais. A resposta não é fácil. No curto prazo, a principal questão é como essa crise pode afetar o resultado da eleição presidencial e, consequentemente, as perspectivas para uma reforma fiscal em 2027 que crie condições para a queda das taxas de juros, que vêm estrangulando as empresas e as famílias.
Mas os efeitos de longo prazo são, de longe, mais relevantes: o escândalo envolvendo o Supremo é sintoma de uma degradação institucional em curso há uma década, visível em três frentes: o tráfico de influência em decisões judiciais, a cooptação crescente da política pelo crime organizado e a corrupção difusa entre parlamentares que, cada vez mais, defendem seus próprios interesses econômicos. Juntos, esses vetores não configuram uma crise institucional aguda, mas a dinâmica se assemelha à de uma rã na água fervente: mina lentamente a confiança nas instituições e no ambiente de negócios.
A crise no STF tem suas raízes em um ambiente propício ao tráfico de influência nos tribunais. Em 2023, a corte flexibilizou as restrições impostas a familiares de ministros que atuam em escritórios responsáveis por casos perante as cortes superiores. E, de acordo com um estudo do jornal O Estado de São Paulo, das 1.860 ações apresentadas ao STF e ao Superior Tribunal de Justiça por escritórios onde advogam familiares de ministros, 70% foram protocoladas após o parente assumir o cargo. Oito dos dez ministros do STF estão nessa situação. Advogados relatam que clientes contratam, cada vez mais, além de um escritório tradicional, outro de um familiar de um ministro. Relatos de que algumas decisões nos tribunais superiores estão sendo influenciadas por quem contrata esses escritórios vêm aumentando.
Ao mesmo tempo, cresce a infiltração do crime organizado na esfera pública. Facções criminosas estão diversificando seus negócios, incluindo combustíveis, mineração e fintechs; um estudo mostra que essas atividades já respondem por 5% do PIB do país. Pesquisas apontam que cerca de 19% da população vive em áreas controladas por facções, e a infiltração em governos estaduais e municipais é generalizada, como indicam investigações no Rio de Janeiro e em São Paulo. Há um risco real de que a infiltração do crime nas instituições se aproxime do modelo hoje visto no México, embora ainda não tenhamos chegado nesse estado.
No Congresso Nacional, a corrupção cresceu desde que uma emenda à Constituição deu ao Legislativo, a partir de 2015, controle sobre emendas orçamentárias, sem supervisão do Executivo: os recursos saltaram de R$ 3,8 bilhões em 2015 para R$ 47 bilhões em 2025, o equivalente a cerca de 0,36% do PIB. O problema não é só o uso ineficiente, mas a ausência de fiscalização: prefeitos relatam exigências de comissões de até 20%, pagas por meio de superfaturamento das obras. Os parlamentares tornaram-se também menos dependentes do Executivo e, cada vez mais, passaram a legislar em benefício de seus negócios privados. O Executivo enfrenta mais dificuldades para conseguir que o Senado aprove nomeações para agências reguladoras, e crescem também relatos de indicações de escritórios de advocacia para ajudar em temas regulatórios.
Juntos, esses vetores representam uma decadência institucional lenta, cujo custo é difícil de mensurar, mas que se manifesta principalmente de duas formas. Primeiro, mina a igualdade de condições de competição: investidores e empresas que não jogam o jogo de influência nos tribunais, ou que enfrentam parlamentares com interesses próprios e crime organizado infiltrado em seus setores, sentem esse desequilíbrio na prática. Segundo, corrói a confiança nas instituições: os eleitores já apontam a corrupção como o principal problema desta eleição, e essa desconfiança tende a se refletir nas urnas.
Diante de um escândalo dessa magnitude no STF, alguma mudança é provável, e tanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva quanto o senador Flávio Bolsonaro já defendem uma reforma do Judiciário. A falta de fiscalização sobre as emendas orçamentárias, por sua vez, é mais difícil de enfrentar. Qualquer novo governo será tentado a negociar a aprovação de um ajuste fiscal em troca da preservação desse mecanismo. O cenário mais provável é que o uso dos recursos passe a ser mais fiscalizado, com as investigações em curso servindo como instrumento de pressão — mas nenhum novo governo conseguirá alterar essas regras rapidamente. O desafio maior, entretanto, é frear a degradação institucional decorrente do avanço do crime organizado: o Ministério Público, a Polícia Federal e a Receita Federal têm avançado, mas a cooptação do setor público continua a crescer.
Apesar de tudo isso, as instituições brasileiras são robustas em comparação com os padrões globais. O Judiciário e o Ministério Público são independentes; a Polícia Federal é atuante; e o sistema político tem múltiplos pontos de veto. Esse arranjo dificulta a governabilidade, mas, ao mesmo tempo, explica por que grandes escândalos vêm à tona (em outras democracias, escândalos como esse não veem a luz do dia). Investidores internacionais reconhecem isso.
Mas a batalha para preservar a robustez institucional depende de medidas que ataquem a raiz dessa degradação. Mais relevante do que a permanência ou não do ministro Alexandre de Moraes (ou de outros) no cargo é saber se a crise pode dar início a uma reforma que coíba as práticas que criam um ambiente propício ao tráfico de influência.
Resumo
O artigo de Paulo Fábio Dantas Neto parte de um discurso de Mark Carney, primeiro-ministro do Canadá, para propor uma reflexão sobre o lugar do Brasil no mundo diante da ofensiva internacional de Donald Trump.
A ideia central é que a ordem internacional do pós-guerra está se enfraquecendo, dando lugar a uma competição mais agressiva entre grandes potências. Carney propõe que países de porte intermediário, como Canadá e Brasil, atuem conjuntamente — política, comercial e diplomaticamente — para defender soberania, democracia, direitos humanos e pluralismo, sem simplesmente se alinhar a uma potência rival dos EUA.
Para o autor, essa proposta oferece ao Brasil uma alternativa ao conceito de “Sul Global” como principal eixo de sua política externa. O Brasil poderia manter relações econômicas com países do Sul, China e Brics, mas sem transformar essas relações em alinhamento político com regimes autoritários. Interesses pragmáticos e valores democráticos, argumenta, podem coexistir.
O artigo recupera então o pensamento de San Tiago Dantas, especialmente sua defesa de uma política externa independente, baseada na soberania nacional e na cooperação voluntária entre Estados. Nessa visão, o Brasil não deveria ser nem potência agressora nem país subordinado, mas um Estado capaz de cooperar preservando sua autonomia.
Daí surge a ideia de “outro Ocidente”, associada também a José Guilherme Merquior: o Brasil faria parte de uma tradição cultural e política ocidental, mas não precisaria se subordinar às grandes potências ocidentais. Para o autor, essa posição permitiria ao Brasil defender seus interesses e sua soberania mantendo vínculos com democracias.
Em uma frase: o texto defende que o Brasil deveria ir além da dicotomia “EUA versus Sul Global”, construindo uma política externa soberana, democrática e pragmática — “outro Ocidente, nunca anti-Ocidente”.
terça-feira, 22 de setembro de 2026
Mark Carney, San Tiago Dantas e o mote do “outro Ocidente”, por Paulo Fábio Dantas Neto*
Demorou um pouco até que uma voz mais firme e positiva surgisse de um país ocidental, reconhecendo com realismo a extensão e profundidade radicais da ofensiva de Donald Trump para decretar, nas relações internacionais, o retorno do império da competição sem regras entre grandes potências. O primeiro ministro Mark Carney, do Canadá, em pronunciamento no Fórum Econômico Mundial, em Davos, além de fazer isso, lançou um facho de luz num mundo que, diante da fera, tem oscilado entre a perplexidade, o medo, a retórica oca e a indignação impotente. Ao reconhecer a falência da ordem mundial do pós-guerra e a impossibilidade de sua refundação, exortou o que chama de potências médias (dentre as quais vê o seu país incluído) a agirem em bloco, política, comercial e diplomaticamente para resistirem à ação das potências hegemonistas e contraporem, ao mundo sem regras que elas estão consagrando na esteira da blitz trumpista, um processo de construção de uma nova ordem, na qual possam ser preservados tanto os interesses soberanos dos países, como valores civilizatórios supranacionais, com destaque aos direitos humanos, à democracia e o pluralismo político.
A relativa demora da reação guarda alguma semelhança com a prudência da diplomacia brasileira. Afinal, ambos os países estão tradicionalmente situados na chamada área de influência dos EUA. No caso do Canadá, mais ainda, porque tem com aquele país uma imensa fronteira, tendo sido alvo de insólita ameaça de anexação. Isso valoriza ainda mais a firmeza, a ousadia e a largueza de visão do pronunciamento do primeiro-ministro. O único ponto não bem explicitado no discurso memorável é a indeterminação, talvez deliberada, do que se pode considerar como médias potências. Mas a afirmação final do discurso de que o caminho proposto é “totalmente aberto para qualquer país disposto a trilhá-lo conosco” não deixa dúvidas sobre a amplitude política e a generosidade planetária do posicionamento.
Certamente a amplitude não é politicamente ingênua. Sabe discernir as distintas capacidades de reação de distintos países (daí a alusão ao protagonismo dos de porte intermediário) mas não fecha previamente o arco da promessa. Fica evidente uma tentativa de construir uma alternativa a artefatos da estratégia trumpista, como o chamado comitê de paz de Gaza, uma iniciativa com clara intenção de consumar a interdição do papel da ONU, de há muito desafiado e desgastado por grandes potências. Em vez de clamar, retoricamente, pelo respeito ao virtual e cada vez menos real poder arbitral daquela organização, Carney está propondo uma articulação e ação realistas de novo tipo. E pelo desenho mesmo da proposta, combinando interesses e valores, o reconhecimento da ineficácia da ONU como poder arbitral não implica em desconhecer nem deixar de apoiar o papel ativo que desempenha, através de várias organizações específicas, na promoção dos direitos humanos no mundo e na assistência e solidariedade contínuas a populações submetidas aos efeitos de situações de agressão e opressão.
O pronunciamento é, por tudo isso, uma sinalização concreta para a política externa brasileira. Se ela assumir a integridade e as implicações políticas de um discurso como esse, estará sintonizada não apenas com o Canadá e o mundo democrático, mas com as melhores tradições do Itamaraty.
Essa sinalização chega em momento propício para encontrar boa guarida. A política externa brasileira atual, desde o tarifaço de Trump, passou a demonstrar razoável sintonia com esse discurso. O horizonte dessa sintonia é bem mais largo do que o discurso do "Sul Global", a marca geopolítica principal que, até poucos meses atrás, tentava guiar passos do próprio Itamaraty. Parece que a realidade da blitz trumpista está levando o governo a achar um eixo que articule melhor política e diplomacia. Os efeitos têm sido animadores e justificam a expectativa de que o governo brasileiro e seu presidente acolham a fala canadense como aceno a uma firme aliança e não como o nascimento de um discurso rival.
A lógica pragmática da prioridade às relações “Sul-Sul” é se amparar no banco dos Brics e na influência chinesa para escapar das garras de Trump. Isso colocaria em segundo plano o Canadá, assim como a UE. A conversa do canadense é outra. Para enfrentar a ofensiva de Trump não adota o caminho de amparar-se em potências rivais dos EUA, cujo traço comum, para além de suas vocações também imperiais, é serem ditaduras. Com elas, relações diplomáticas e comerciais, sim, cooperação política, não.
Nenhum interesse pragmático justifica um compromisso seletivo com o valor dos direitos humanos. Por essa chave de abordagem das relações internacionais cabe, por exemplo, contrapor-se ao massacre de Israel em Gaza e não cabe fazer silêncio ou murmurar com timidez sobre o que ocorre no Irã. Pragmatismo de interesses e de valores não são incompatíveis. São complementares para livrar potências médias, como somos Brasil e Canadá, de escolherem inseticidas para combater os insetos.
O pronunciamento de Carney evoca as melhores tradições da nossa política externa, registradas em formulações igualmente amplas, em distintos contextos. Não vou aqui exumar tais contextos nem resgatar, pela enésima vez, as memórias de Rio Branco, Ruy Barbosa, ou Osvaldo Aranha. Trago à lembrança San Tiago Dantas, pelo que ele tem de mais contemporâneo. Não tanto sua experiencia no Itamaraty, evidentemente datada, mas o legado do seu pensamento político de esquerda positiva, formulador de uma combinação fantástica de convicção democrática, reformismo social e - o que aqui mais interessa – visão do interesse nacional soberano articulado com uma perspectiva cosmopolita. É dele a reflexão que tentarei resumir, pedindo desculpas por possíveis imprecisões e servindo-me da memória de discussões do grupo de pesquisa Ecos do Subsolo, que tive a sorte de coordenar na UFBa.
San Tiago buscava definir, de forma teórica e de forma prática, possibilidades de uma política de não-alinhamento que impulsionasse o Brasil como protagonista de suas experiências sociopolíticas, em detrimento de qualquer subordinação primária a interesses externos. Na dinâmica internacional, poder-se-ia identificar, segundo ele, grupos distintos de acordo com seus interesses externos, entendidos enquanto aqueles interesses que podem levar um Estado nacional a intervenções fora de seu campo interno de ação e indispensáveis para o preenchimento de seus fins políticos. São estes: Grupo 1 - Estados potencialmente agressores: têm como tendência permanente serem determinantes na esfera de interesses internos de outros Estados. Buscam interferir em áreas que estão sob controle de outro Estado, sendo que a maioria dessas modalidades de influência, quando se exercem como ações permanentes, configura o imperialismo; Grupo 2 - Estados potencialmente agredidos: aqueles que visam à preservação da própria esfera de determinações contra interferências de outro Estado. Almejam, portanto, a defesa da própria soberania contra todas as formas externas de infiltração, com reivindicações anti-imperialistas. São o oposto dos países do grupo 1.
Esses dois primeiros grupos eram extremos da linha de política exterior, entre os quais se pode identificar o modo como os vários estados nacionais se posicionam em relação aos outros na dinâmica política internacional. Isso é especialmente relevante quando, para San Tiago, nenhum Estado pode existir em isolamento absoluto, nem mesmo teoricamente, uma vez que “a existência de um Estado Nacional pressupõe a de outros Estados Nacionais, cujas esferas de interesses e de influência, ou coincidem convergentemente, ou se desenvolvem paralelamente com a do Estado considerado". No caso brasileiro, a experiência nacional identificaria o país num terceiro grupo, no qual os interesses externos corresponderiam à necessidade de cooperação voluntária, via entendimentos com outros Estados para o preenchimento de seus fins. Aspiração à atividade não-compulsória que se processaria justamente pela capacidade que esse Estado teria de oferecer reciprocidade a formas de cooperação.
Devemos notar ainda a forma como San Tiago Dantas identificava o Brasil, a partir de uma dimensão histórica, na dicotomia Ocidente x Oriente. Segundo ele, a experiência civilizatória realizada no nosso meio, a partir de um processo colonizador deliberado empregado por Portugal, iniciou um processo de transplantação da civilização ocidental. Este processo teria sido comunicado aos povos e continuaria a orientá-los após alcançarem a independência política, e, no caso das Américas espanhola e portuguesa, a partir da tentativa de implantação da civilização ocidental nos trópicos, aspecto irremediavelmente determinante da formação brasileira e das virtudes e vícios das suas políticas interna e externa.
Essa postura realça a ideia de "outro ocidente", termo que devemos a José Guilherme Merquior, também um pensador instigante do Brasil. Nas percepções do liberal Merquior e do trabalhista San Tiago a comum compreensão de que esse outro ocidente é a praia natural do Brasil, da sua cultura nacional e da sua diplomacia. Sintonia fina, contemporânea e mais ou menos coetânea entre dois intelectuais cujas reflexões sobre o tema separam-se no tempo por duas décadas, entre a dos 60 e a dos 80. Sintonia contemporânea que se pode dar também entre pensamentos não coetâneos, hipótese acolhida no universo compreensivo de um terceiro pensador brasileiro, Guerreiro Ramos, hoje mobilizado, com discutível precisão, por defensores da necessidade de “descolonização” do nosso pensamento político.
Pois é justamente nessa hipótese que se pode ler o discurso atual de Carney como portador de um pensamento político análogo. Sem prejuízo da intensificação das relações comerciais com os países "do sul" (o próprio Canadá faz isso), a reação política global contra o trumpismo tem que superar a conversa do Sul Global. Ir além dela. Mostra que o ocidente não é uma imagem do passado, inerte diante da ofensiva de um presidente autocrático à frente do governo de uma potência hegemônica.
Sintonia com esse discurso inclusivo e não demarcatório de fronteiras ideológicas é caminho para o Brasil defender sua soberania sem negar laços tradicionais da sua trajetória histórica, colada a destinos de lugares onde a democracia política prosperou. Em outras palavras, outro ocidente, nunca anti-ocidente. Tomara que o atual governo possa superar suas ambiguidades ideológicas e permitir que essa linha se desenvolva. O Brasil tem porte para isso e diplomacia capaz de cumprir essa missão nacional.
*Cientista político e professor da UFBa