segunda-feira, 29 de junho de 2026

A Tabuleta das Gerais

Esther Solano afirma que haverá bolsonarismo sem a figura de Bolsonaro Folha de S.Paulo 25 de jun. de 2026 Pesquisadora afirma ao programa Desenquadrando que extrema direita interpretou transformações sociais em curso no país Flávio Bolsonaro era visto como moderado, mas agora é percebido como cínico por eleitores, segundo Solano.
segunda-feira, 29 de junho de 2026 Lula precisa mesmo de palanque em Minas? Por Bruno Carazza* Valor Econômico Disputa presidencial tem outras dinâmicas com emendas parlamentares e polarização Na edição de 19 de junho, a revista The Economist trouxe uma matéria chamando Minas Gerais de espelho do Brasil e termômetro das eleições presidenciais deste ano. As comparações se prestam a esclarecer ao público estrangeiro dois fatos repetidos na imprensa brasileira a cada quatro anos: a diversidade da composição populacional no segundo colégio eleitoral do país (que possui regiões conectadas com o Nordeste, o Centro-Oeste, Rio de Janeiro e São Paulo) e a coincidência estatística de que até hoje nenhum candidato foi eleito para o Palácio do Planalto sem também se sagrar vencedor em Minas Gerais. Mirando as eleições deste ano, a publicação britânica destacou tanto as dificuldades de Flávio Bolsonaro em pacificar a direita mineira - fragmentada diante da decisão do ex-governador Romeu Zema (Novo) em lançar-se em voo solo à Presidência e a postura não submissa do deputado Nikolas Ferreira (PL) à liderança bolsonarista - quanto as sucessivas visitas de Lula ao Estado nos últimos meses. Também nas últimas semanas o noticiário político deu bastante espaço para as articulações do Partido dos Trabalhadores em definir um candidato a governador em Minas. Depois da desistência do senador Rodrigo Pacheco (PSB), Lula titubeou entre apoiar o ex-prefeito de Belo Horizonte Alexandre Kalil (PDT), o ex-presidente da Câmara da capital mineira Gabriel Azevedo (MDB) e o empresário Josué Gomes (PSB) - filho de José Alencar (1931-2011), seu vice nos dois primeiros mandatos. Na semana passada, Lula e as lideranças nacionais do PT teriam batido o martelo e decidido lançar uma candidatura própria ao Palácio da Liberdade. No entanto, o nome mais forte do partido no Estado, a ex-prefeita de Contagem Marília Campos, não está disposta a arriscar uma eleição quase certa ao Senado em nome de uma aventura com poucas chances de vitória como governadora. O impasse reflete as dificuldades de Lula em constituir um palanque para fortalecer a sua campanha em Minas, mas tem como pano de fundo as particularidades da política mineira. Na década passada, escândalos de corrupção quase dizimaram os dois principais grupos políticos que rivalizavam entre si na capital mineira e no Estado: os tucanos ligados a Aécio Neves e os petistas comandados por Fernando Pimentel. Por outro lado, a ascensão de Zema na onda bolsonarista de 2018 não foi capaz de ocupar de forma definitiva o vácuo de poder - tanto que seu sucessor, o vice Mateus Simões, patina nas pesquisas de opinião. Nos últimos levantamentos, quem lidera com ampla margem é o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos), um político de direita com discurso popularesco alinhado a Jair Bolsonaro, mas que ultimamente tenta se colocar como independente. Peculiaridades locais à parte, essa questão da importância de Lula ter um palanque em Minas merece ser relativizada - e, quem sabe, também servir como termômetro e espelho para outras regiões do Brasil. Como pode ser visto no gráfico, não há uma correlação forte entre os históricos de votação de candidatos do PT a presidente e os postulantes ao governo estadual vindos do próprio partido ou aliados. Em tempos de polarização acirrada no plano nacional, tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro dividem o eleitorado sem depender tanto do apoio de candidatos a governador pedindo votos em seu nome no interior dos Estados. Por outro lado, mesmo que a capilarização da campanha continue importante para fidelizar simpatizantes e conquistar a pequena parcela de eleitores independentes, a dinâmica do coronelismo brasileiro sofreu uma mudança relevante com o surgimento das bilionárias emendas parlamentares. Se antes as políticas públicas levadas a cabo pelo governo estadual eram fundamentais para cooptar prefeitos e lideranças locais, hoje deputados e senadores conquistam essa lealdade de forma direta, irrigando suas bases eleitorais com dezenas de milhões de reais transferidos diretamente para os municípios. Seguindo essa nova lógica da distribuição do poder, o maior problema de Lula em Minas pode não estar na carência de um palanque forte para governador. O PT conta com apenas nove representantes entre os 53 deputados e três senadores mineiros no Congresso. Além de poucos distribuidores de emendas, o partido tem poucos receptores locais: nas eleições de 2024, o partido elegeu apenas 35 prefeitos nas 853 cidades do Estado. No espelho do Brasil, Lula só tem a própria imagem refletida na campanha. *Bruno Carazza é professor associado da Fundação Dom Cabral e autor de “O País dos Privilégios (volume 1) e “Dinheiro, Eleições e Poder”, ambos pela Companhia das Letras.
A Tabuleta das Gerais Por Marília Campos Há na política um vício antigo, comum às almas que confundem o tamanho do próprio chapéu com a vastidão do céu, que consiste em desenhar o destino dos outros sem antes consultar-lhes a têmpora ou o estômago. Falo com a autoridade de quem governou Contagem por quatro vezes, ouvindo a voz do povo e não os sussurros que ecoam dos palácios da Corte. Agora, ao renunciar aos dois anos finais de meu mandato, vejo-me cercada por conselheiros de ocasião, todos munidos do pincel da conveniência partidária. Lumbrai-vos de Custódio, o célebre confeiteiro de Machado de Assis em Esaú e Jacó. Assustado com a queda do Império e a subida da República, Custódio paralisou-se diante de sua tabuleta. Se pintasse "Confeitaria do Império", a turba republicana quebrar-lhe-ia as vidraças; se arriscasse "Confeitaria da República", os saudosistas do Imperador boicotariam seus doces. Brasília, hoje, assemelha-se a esse mestre-sala das massas. O presidente Luiz Inácio, em sua infinita sabedoria de monarca republicano, quer que eu pinte na minha tabuleta o teto do Palácio Tiradentes. Exige que eu dispute o governo de Minas Gerais tão somente para servir de anteparo, de palanque dócil aos seus desígnios nacionais, ignorando que minha rota já está traçada rumo ao Senado Federal. O erro dos que habitam o topo da pirâmide é crer que Minas se governa por controle remoto ou por decretos de fidelidade cega. Querem-me como Aires, o conselheiro neutro, que assistia às brigas dos gêmeos com um sorriso cético e nenhuma ação? Não. Recuso o papel de peão no xadrez alheio. Basta olharmos para os lados para ver o resultado das tabuletas pintadas sob encomenda de Brasília. Em São Paulo, Fernando Haddad aceitou a encomenda, pintou o que o chefe mandou e colheu a derrota para o governo estadual. No Paraná, Gleisi Hoffmann submeteu-se ao mesmo figurino e assistiu ao naufrágio de suas pretensões ao Executivo. Foram sacrificados no altar da estratégia centralizadora, que prefere o território devastado à perda do controle da narrativa. Minas Gerais não é paragem para experimentos coloniais. O eleitorado mineiro, tal qual o Conselheiro Aires, guarda uma desconfiança natural de quem exibe entusiasmo excessivo ou ordens vindas de fora. Desejo um palanque que eu possa chamar de meu, construído com o suor de quem conhece as esquinas de Contagem e as carências das Gerais, e não um palanque emprestado, cujas tábuas rangem ao sabor dos interesses de Brasília. A Real Política, afinal, sobrevive tanto na República quanto no Império, mas os reinos passam e as lideranças locais, se forem autênticas, permanecem. Se o partido insiste em um equívoco estratégico para agradar ao soberano, manterei meus olhos no Senado. Custódio acabou por pintar apenas "Confeitaria do Custódio", salvando o seu negócio por focar na própria identidade. Minha tabuleta está limpa, o giz é meu, e nela escreverei o futuro que Minas escolheu, não o que Brasília tentou me impor.
Na linha do horizonte — onde o mar encontra o tempo e o tempo encontra a memória — Machado de Assis cultiva sua sacada como quem semeia ironias finas sobre o destino dos homens. Ao lado, das Gerais alterosas, ergue-se a prudência de quem aprendeu a confiar desconfiando, pois sabe que o canto do galo nem sempre anuncia apenas a manhã, mas também os disfarces da ilusão. Entre flechas sorrateiras e promessas de ocasião, resta o gesto sereno: não pintar tabuletas alheias, mas sustentar o próprio nome contra os ventos da conveniência. E assim, sob um céu que lentamente azulou na linha do mar, política e literatura se reconhecem — ambas cientes de que o coração só resiste quando abriga, ao mesmo tempo, lucidez e distância. Paulinho da Viola, Beatriz Rabello - Na Linha Do Mar (Ao Vivo) Paulinho da Viola 30 de jan. de 2025 Ouça o álbum completo na sua plataforma favorita: https://ads.somlivre.com.br/Paulinho_... Na linha do Mar Paulinho da Viola A TABULETA, O PALANQUE E A SACADA Minas entre a estratégia e a ironia Entre o cálculo frio da análise política e a ironia oblíqua da tradição literária, Minas Gerais reaparece como espelho — não apenas do Brasil, mas das tensões entre estratégia e identidade. De um lado, a leitura contemporânea da política sugere uma inflexão: o velho dogma de que vencer em Minas exige um palanque robusto já não se sustenta plenamente. A dinâmica eleitoral foi redesenhada por dois vetores principais — a polarização nacional e o poder descentralizado das emendas parlamentares. Nesse novo arranjo, o candidato presidencial depende menos da capilaridade de lideranças estaduais e mais de sua própria capacidade de mobilizar afetos e rejeições em escala ampla. O palanque, outrora essencial, torna-se relativo. Mas a crônica — como convém ao espírito das Gerais — responde com desconfiança. Se o palanque perdeu centralidade estratégica, não perdeu seu valor simbólico. É nesse intervalo que emerge a recusa: não ser instrumento de uma engenharia eleitoral desenhada à distância. A “tabuleta” que se pede não é apenas uma candidatura; é um gesto de adesão a uma lógica centralizadora que transforma lideranças locais em peças de um tabuleiro maior. A tensão entre análise e crônica não é contradição, mas complemento. De um lado, o sistema mudou: o centro já não precisa tanto da periferia como antes. De outro, a periferia — Minas — insiste em não ser apenas meio; reivindica ser fim, preservar sua autonomia narrativa e política. É aí que se revela o traço machadiano. Como um Conselheiro Aires que ainda nos observa, paira a lição silenciosa: confiar desconfiando. Minas hesita, calcula, observa — e evita entregar-se por inteiro a qualquer projeto que não reconheça como seu. Se a análise sugere que o palanque é dispensável, a crônica responde que a identidade não é. No fim, como o velho Custódio, resta a escolha mais prudente e mais arriscada: escrever na própria tabuleta apenas o próprio nome. Não por neutralidade, mas por lucidez. Porque, em tempos de império das narrativas, sobreviver politicamente talvez dependa menos de aderir ao poder central e mais de sustentar, com ambiguidade e firmeza, a própria voz.
segunda-feira, 29 de junho de 2026 O cerne do lulismo e o realinhamento eleitoral, por Altamir Peterson* A esquerda contemporânea na América Latina enfrenta a urgência de compreender o "lulismo" em toda a sua complexidade analítica para superar as leituras dicotômicas e reducionistas que dividem e polarizam o debate político. De um lado, deve-se rejeitar a idealização apologética que enxerga o modelo apenas como um projeto redistributivo perfeito; de outro, deve-se descartar a condenação mecânica que o simplifica como mera extensão do neoliberalismo estrito. O caminho para essa apreensão profunda reside em reconhecer que o modelo de reforma gradual implementado ao longo de cinco governos petistas caminhou essencialmente sob o signo da contradição. O lulismo estruturou-se por meio de uma combinação inédita de opostos: articulou conservação e mudança, promoveu a reprodução sistêmica ao mesmo tempo em que realizava superações parciais, e transitou permanentemente entre a decepção da ortodoxia política e a manutenção da esperança popular. Dominar essa dimensão contraditória é o passo indispensável para que a esquerda latino-americana possa extrair lições reais e avançar programaticamente. O lulismo é definido como um modelo de reformismo gradual e conciliação de classes. Sua engrenagem principal consiste em reduzir a miséria extrema da população historicamente excluída sem enfrentar diretamente os privilégios econômicos das elites financeiras e da burguesia. O marco dessa dinâmica foi a eleição de 2006, que operou um grande realinhamento político no Brasil ao desconectar o "subproletariado" (a massa de trabalhadores informais e precarizados) da influência das classes dominantes e da classe média tradicional, transformando essa massa na base fiel do projeto lulista. A Ideologia do subproletariado: ordem e progresso social O lulismo deslocou o debate político do eixo ideológico clássico ("Direita vs. Esquerda") para uma percepção prática de "Ricos vs. Pobres". Contudo, o próprio subproletariado impôs um limite à radicalização: essa classe deseja um Estado forte que combata a miséria, mas exige rigorosamente a manutenção da ordem socioeconômica e da paz social, rejeitando conflitos abertos, e sem qualquer horizonte de revolução social. Essa característica alinha o lulismo ao conceito de "revolução passiva" de Antonio Gramsci: uma modernização conduzida de cima para baixo pelo Estado, que inclui os marginalizados, mas esvazia a mobilização popular e preserva interesses tradicionais (como o latifúndio e o capital especulativo). A política econômica e o "Sonho Rooseveltiano" O modelo lulista é marcado por uma contradição interna que conciliou duas forças: Ortodoxia Macroeconômica: Sobretudo no primeiro mandato (balizado pela "Carta ao Povo Brasileiro"), manteve-se a feição conservadora e a estabilidade herdada dos anos 1990. Políticas Distributivas Ativas: A partir do segundo mandato, aproveitando o boom global de commodities, o Estado atuou fortemente como indutor do crescimento através de um tripé de inclusão: Massificação do Bolsa Família. Valorização real e sistemática do salário mínimo. Expansão expressiva do crédito popular e consignado. Indicadores do Ciclo (2002–2010) Essa combinação extraiu saldos sociais profundos da própria dinâmica capitalista: Desigualdade: Redução histórica e contínua do Índice de Gini. Desemprego: Despencou de “10,5\%” para “5,3\%”. Crédito Doméstico: Saltou de “25\%” para “45\%” do PIB. Crescimento: O PIB passou de uma alta de “1,3\%” (2003) para um recorde de “7,5\%” (2010). Por que o lulismo não é neoliberal? Classificar o lulismo como "intrinsicamente neoliberal" é um erro metodológico e político. Enquanto o neoliberalismo prega a retração do Estado e a precarização do trabalho, o lulismo fez o oposto: expandiu o funcionalismo, investiu em infraestrutura e transformou subproletários em trabalhadores formais amparados por direitos. Rotular o modelo de neoliberal gera um perigo político para a própria esquerda: se a população beneficiada associar as melhorias reais de sua vida (universidade, crédito, renda) ao termo "neoliberalismo", o sistema neoliberal passará a ser visto como palatável e positivo pelas classes populares. Limites históricos e o caminho para a esquerda O "reformismo fraco" do lulismo não foi uma traição voluntária, mas a diluição possível diante de uma correlação de forças adversa. Esse pacto social não eliminou as contradições do capitalismo periférico e mostrou limites estruturais evidentes. Para superar o imobilismo de uma crítica puramente retórica ou a rotulagem simplista do lulismo como neoliberal, o melhor caminho para a esquerda passa por uma estratégia dialética de incorporação e superação. Isto é, reconhecer o lulismo não como um erro a ser descartado, mas como uma etapa material concreta da formação social brasileira que alterou o patamar de vida das classes populares e que, agora, serve de base para saltos organizativos mais profundos. O itinerário para essa construção política e programática apoia-se em quatro pilares fundamentais: Assumir a base material conquistada como novo patamar de luta O primeiro passo é compreender que a inclusão pelo consumo, o acesso ao crédito, os programas de transferência de renda (como o Bolsa Família) e a valorização real do salário mínimo transformaram a fisionomia do subproletariado brasileiro. Essa massa, antes marginalizada do mercado formal, experimentou conquistas materiais indubitáveis. A esquerda não deve menosprezar essas vitórias rotulando-as de "ilusão consumista". Pelo contrário, deve utilizá-las como o novo ponto de partida: quem conquistou o direito de comer e de consumir agora tem as condições materiais mínimas para lutar por direitos estruturais. A fome desmobiliza; a estabilidade material básica gera a segurança necessária para a organização política. O discurso emancipatório deve demonstrar que a manutenção e a expansão desses direitos sociais básicos só são historicamente viáveis se as estruturas que geram a desigualdade forem enfrentadas. Transitar da "Inclusão pelo Mercado" para a "Inclusão por Direitos Universais" A grande limitação da conciliação lulista — o chamado "reformismo fraco" — foi promover o bem-estar popular majoritariamente por canais privados: o consumo de mercadorias, o endividamento familiar facilitado e o acesso a serviços privados mercantilizados (como planos de saúde populares e o ensino superior privado via ProUni). O caminho para ir além da conciliação passiva é politizar a contradição desse modelo. A esquerda precisa organizar a classe trabalhadora em torno da exigência de bens públicos universais e desmercantilizados: Transformar o alívio da pobreza em uma rede intransponível de seguridade social. Lutar por um sistema de saúde (SUS) e de educação pública que não precisem de complementos privados. Pautar a reforma urbana, o transporte público de qualidade e a habitação como direitos, retirando-os da esfera estrita da especulação imobiliária e financeira. Romper o silenciamento de classe através da formação e organização de Base O arranjo do lulismo tendeu a desmobilizar os movimentos sociais, substituindo o conflito aberto pela arbitragem institucional e pela passividade da "revolução passiva" gramsciana. Para que a classe trabalhadora caminhe em direção à emancipação soberana, é indispensável reconstruir o tecido organizativo "por baixo": Trabalho de base cotidiano: Abandonar o foco puramente institucional e eleitoral, reocupando os territórios periféricos, os novos ambientes do proletariado precarizado (como os trabalhadores de aplicativos e do setor de serviços) e as associações comunitárias. Formação política: Explicar didaticamente como a mecânica do capitalismo periférico funciona. A população precisa compreender que a riqueza que permitiu as melhorias sociais do passado veio do próprio trabalho da classe, e que o limite dessa melhoria é imposto pela barreira dos lucros do capital financeiro e do latifúndio agrário. Trata-se de reverter a fragmentação perceptiva e consolidar uma clara identidade de classe. Construir uma plataforma de reformas estruturais anticompanheiras de conciliação A estratégia de "dar aos mais pobres sem tirar dos mais ricos" esbarrou no teto fiscal e na crise de lucratividade das elites burguesas. Para enfrentar as desigualdades estruturais de forma soberana e democrática, a esquerda precisa unificar os movimentos populares em torno de reformas que a conciliação historicamente evitou: Reforma Tributária Progressiva: Superar a tributação sobre o consumo (que penaliza os mais pobres) e focar taxativamente sobre a renda, as grandes fortunas, as heranças e os lucros e dividendos retidos pelo topo da pirâmide financeira. Soberania Econômica e Reindustrialização: Pautar o controle democrático sobre os setores estratégicos (energia, saneamento, telecomunicações e recursos minerais) e redirecionar o fundo público para investimentos produtivos, reduzindo a submissão do Estado à ditadura do superávit primário e do pagamento de juros da dívida pública à elite rentista. Reforma Agrária Popular e Transição Ecológica: Unir a histórica pauta da terra ao enfrentamento do agronegócio predatório, fortalecendo a agricultura familiar, a soberania alimentar e modos de produção sustentáveis que protejam os biomas nacionais. *Antigo dirigente da Contag e do Incra
Esaú e Jacó por Machado de Assis Capítulo LXII: "Pare no D." Capítulo LXIII→ Unidade de texto com digitalização transcluída Duração: 14 minutos e 24 segundos.14:24 Ouça este texto (ajuda | info da mídia • download) (Áudio referente aos capítulos LXI, LXII e LXIII) — Mas, S. Excia.está almoçando, dizia o criado no patamar da escada a alguém que pedia para falar ao conselheiro. Era falso, Aires acabava justamente de almoçar; mas o criado sabia que o amo gostava de saborear o charuto depois do almoço, sem interrupção. Agora estava no canapé e ouviu o diálogo do patamar. A pessoa insistia em dizer uma palavrinha. — Não pode ser. — Bem, eu espero; logo que S. Excia.acabe... — O melhor é voltar depois; não mora ali defronte? Pois volte daqui a uma hora ou duas... A pessoa era o Custódio e foi para casa, mas o velho diplomata, sabendo quem era, não esperou que acabasse o charuto; mandou-lhe dizer que viesse. Custódio saiu, correu, subiu e entrou assombrado. — Que é isso, Sr. Custódio? disse-lhe Aires. O senhor anda a fazer revoluções? — Eu, senhor? Ah! senhor! Se V. Excia.soubesse... — Se soubesse o quê? Custódio explicou-se. Vá, resumamos a explicação. Na véspera, tendo de ir abaixo, Custódio foi à Rua da Assembléia, onde se pintava a tabuleta. Era já tarde; o pintor suspendera o trabalho. Só algumas das letras ficaram pintadas, — a palavra Confeitaria e a letra d. A letra o e a palavra Império estavam só debuxadas a giz. Gostou da tinta e da cor, reconciliou-se com a forma, e apenas perdoou a despesa. Recomendou pressa. Queria inaugurar a tabuleta no domingo. Ao acordar de manhã não soube logo do que houvera na cidade, mas pouco a pouco vieram vindo as notícias, viu passar um batalhão, e creu que lhe diziam a verdade os que afirmavam a revolução e vagamente a república. A princípio, no meio do espanto, esqueceu-lhe a tabuleta. Quando se lembrou dela, viu que era preciso sustar a pintura. Escreveu às pressas um bilhete e mandou um caixeiro ao pintor. O bilhete dizia só isto: "Pare no D." Com efeito, não era preciso pintar o resto, que seria perdido, nem perder o princípio, que podia valer. Sempre haveria palavra que ocupasse o lugar das letras restantes. "Pare no D". Quando o portador voltou trouxe a notícia de que a tabuleta estava pronta. — Você viu-a pronta? — Vi, patrão. — Tinha escrito o nome antigo? — Tinha, sim, senhor: "Confeitaria do Império". Custódio enfiou um casaco de alpaca e voou à Rua da Assembléia. Lá estava a tabuleta, por sinal que coberta com um pedaço de chita; alguns rapazes que a tinham visto, ao passar na rua, quiseram rasgá-la; o pintor, depois de a defender com boas palavras, achou mais eficaz cobri-la. Levantada a cortina, Custódio leu: "Confeitaria do Império". Era o nome antigo, o próprio, o célebre, mas era a destruição agora; não podia conservar um dia a tabuleta, ainda que fosse em beco escuro, quanto mais na Rua do Catete... — O senhor vai despintar tudo isto, disse ele. — Não entendo. Quer dizer que o senhor paga primeiro a despesa. Depois, pinto outra coisa. — Mas que perde o senhor em substituir a última palavra por outra? A primeira pode ficar, e mesmo o d... Não leu o meu bilhete? — Chegou tarde. — E por que pintou, depois de tão graves acontecimentos? — O senhor tinha pressa, e eu acordei às cinco e meia para servi-lo. Quando me deram as notícias, a tabuleta estava pronta. Não me disse que queria pendurá-la domingo? Tive de pôr muito secante na tinta, e, além da tinta, gastei tempo e trabalho. Custódio quis repudiar a obra, mas o pintor ameaçou de pôr o número da confeitaria e o nome do dono na tabuleta, e expô-la assim, para que os revolucionários lhe fossem quebrar as vidraças do Catete. Não teve remédio senão capitular. Que esperasse; ia pensar na substituição; em todo caso, pedia algum abate no preço. Alcançou a promessa do abate e voltou a casa. Em caminho, pensou no que perdia mudando de título, — uma casa tão conhecida, desde anos e anos! Diabos levassem a revolução! Que nome lhe poria agora? Nisso lembrou-lhe o vizinho Aires e correu aouvi-lo. ←Capítulo LXICapítulo LXIII→
Esaú e Jacó por Machado de Assis Capítulo LXIII: Tabuleta nova Capítulo LXIV→ Unidade de texto com digitalização transcluída Duração: 14 minutos e 24 segundos.14:24 Ouça este texto (ajuda | info da mídia • download) (Áudio referente aos capítulos LXI, LXII e LXIII) Referido o que lá fica atrás, Custódio confessou tudo o que perdia no título e na despesa, o mal que lhe trazia a conservação do nome da casa, a impossibilidade de achar outro, um abismo, um suma. Não sabia que buscasse; faltava-lhe invenção e paz de espírito. Se pudesse, liquidava a confeitaria. E afinal que tinha ele com política? Era um simples fabricante e vendedor de doces, estimado, afreguesado, respeitado, e principalmente respeitador da ordem pública... — Mas o que é que há? perguntou Aires. — A república está proclamada. — Já há governo? — Penso que já; mas diga-me V. Excia.: ouviu alguém acusar-me jamais de atacar o governo? Ninguém. Entretanto... Uma fatalidade! Venha em meu socorro, Excelentíssimo. Ajude-me a sair deste embaraço. A tabuleta está pronta, o nome todo pintado. — "Confeitaria do Império", a tinta é viva e bonita. O pintor teima em que lhe pague o trabalho, para então fazer outro. Eu, se a obra não estivesse acabada, mudava de título, por mais que me custasse, mas hei de perder o dinheiro que gastei? V. Excia.crê que, se ficar "Império", venham quebrar-me as vidraças? — Isso não sei. — Realmente, não há motivo; é o nome da casa, nome de trinta anos, ninguém a conhece de outro modo. — Mas pode pôr "Confeitaria da República"... — Lembrou-me isso, em caminho, mas também me lembrou que, se daqui a um ou dois meses, houver nova reviravolta, fico no ponto em que estou hoje, e perco outra vez o dinheiro. — Tem razão... Sente-se. — Estou bem. — Sente-se e fume um charuto. Custódio recusou o charuto, não fumava. Aceitou a cadeira. Estava no gabinete de trabalho, em que algumas curiosidades lhe chamariam a atenção, se não fosse o atordoamento do espírito. Continuou a implorar o socorro do vizinho. S. Excia., com a grande inteligência que Deus lhe dera, podia salvá-lo. Aires propôs-lhe um meio-termo, um título que iria com ambas as hipóteses, — "Confeitaria do Governo". — Tanto serve para um regime como para outro. — Não digo que não, e, a não ser a despesa perdida... Há, porém, uma razão contra. V. Excia. sabe que nenhum governo deixa de ter oposição. As oposições, quando descerem à rua, podem implicar comigo, imaginar que as desafio, e quebrarem-me a tabuleta; entretanto, o que eu procuro é o respeito de todos. Aires compreendeu bem que o terror ia com a avareza. Certo, o vizinho não queria barulhos à porta, nem malquerenças gratuitas, nem ódios de quem quer que fosse; mas, não o afligia menos a despesa que teria de fazer de quando em quando, se não achasse um título definitivo, popular e imparcial. Perdendo o que tinha, já perdia a celebridade, além de perder a pintura e pagar mais dinheiro. Ninguém lhe compraria uma tabuleta condenada. Já era muito ter o nome e o título no Almanaque de Laemmert, onde podia lê-lo algum abelhudo e ir com outros, puni-lo do que estava impresso desde o princípio do ano... — Isso não, interrompeu Aires; o senhor não há de recolher a edição de um almanaque. E depois de alguns instantes: — Olhe, dou-lhe uma idéia, que pode ser aproveitada, e, se não a achar boa, tenho outra à mão, e será a última. Mas eu creio que qualquer delas serve. Deixe a tabuleta pintada como está, e à direita, na ponta, por baixo do título, mande escrever estas palavras que explicam o título: "Fundada em 1860". Não foi em 1860 que abriu a casa? — Foi, respondeu Custódio. — Pois... Custódio refletia. Não se lhe podia ler sim nem não; atônito, a boca entreaberta, não olhava para o diplomata, nem para o chão, nem para as paredes ou móveis, mas para o ar. Como Aires insistisse, ele acordou e confessou que a idéia era boa. Realmente, mantinha o título e tirava-lhe o sedicioso, que crescia com o fresco da pintura. Entretanto, a outra idéia podia ser igual ou melhor, e quisera comparar as duas. — A outra idéia não tem a vantagem de pôr a data à fundação da casa, tem só a de definir o título, que fica sendo o mesmo, de uma maneira alheia ao regime. Deixe-lhe estar a palavra império e acrescente-lhe embaixo, ao centro, estas duas, que não precisam ser graúdas: das leis. Olhe, assim, concluiu Aires, sentando-se à secretária, e escrevendo em uma tira de papel o que dizia. Custódio leu, releu e achou que a idéia era útil; sim, não lhe parecia má. Só lhe viu um defeito; sendo as letras de baixo menores, podiam não ser lidas tão depressa e claramente como as de cima, e estas é que se meteriam pelos olhos ao que passasse. Daí a que algum político ou sequer inimigo pessoal não entendesse logo, e... A primeira idéia, bem considerada, tinha o mesmo mal, e ainda este outro: pareceria que o confeiteiro, marcando a data da fundação, fazia timbre em ser antigo. Quem sabe se não era pior que nada? — Tudo é pior que nada. — Procuremos. Aires achou outro título, o nome da rua, "Confeitaria do Catete", sem advertir que havendo outra confeitaria na mesma rua, era atribuir exclusivamente à do Custódio a designação local. Quando o vizinho lhe fez tal ponderação, Aires achou-a justa, e gostou de ver a delicadeza de sentimentos do homem; mas logo depois descobriu que o que fez falar o Custódio foi a idéia de que esse título ficava comum às duas casas. Muita gente não atinaria com o título escrito, e compraria na primeira que lhe ficasse à mão, de maneira que só ele faria as despesas da pintura, e ainda por cima perdia a freguesia. Ao perceber isto, Aires não admirou menos a sagacidade de um homem que em meio de tantas tribulações, contava os maus frutos de um equívoco. Disse-lhe então que o melhor seria pagar a despesa feita e não pôr nada, a não ser que preferisse o seu próprio nome: "Confeitaria do Custódio". Muita gente certamente lhe não conhecia a casa por outra designação. Um nome, o próprio nome do dono, não tinha significação política ou figuração história, ódio nem amor, nada que chamasse a atenção dos dois regimes, e conseguintemente que pusesse em perigo os seus pastéis de Santa Clara, menos ainda a vida do proprietário e dos empregados. Por que é que não adotava esse alvitre? Gastava alguma coisa com a troca de uma palavra por outra, Custódio em vez de Império, mas as revoluções trazem sempre despesas. — Sim, vou pensar, Excelentíssimo. Talvez convenha esperar um ou dois dias, a ver em que param as modas, disse Custódio agradecendo. Curvou-se, recuou e saiu. Aires foi à janela para vê-lo atravessar a rua. Imaginou que ele levaria da casa do ministro aposentado um ilustre particular que faria esquecer por instantes a crise da tabuleta. Nem tudo são despesas na vida, e a glória das relações podia amaciar as agruras deste mundo. Não acertou desta vez. Custódio atravessou a rua, sem parar nem olhar para trás, e enfiou pela confeitaria dentro com todo o seu desespero. ←Capítulo LXIICapítulo LXIV→ ▲

domingo, 28 de junho de 2026

Velhice e conhecimentos

Usos e abusos do trumpismo - A face política do trumpismo se delineia numa reatualização da Doutrina Monroe mediante um ‘corolário’ intervencionista estadao.com.br/opiniao/luiz-s… 📸Mandel Ngan/AFP Postar Opinião Estadão @opiniao_estadao #EspaçoAberto | Luiz Sérgio Henriques 10:00 · 28 de jun. de 2026
"O artigo analisa o trumpismo como uma ideologia que defende nacionalismo extremo, combate à imigração e enfraquecimento de organismos internacionais. Para a América Latina, ele se traduz em visão negativa e justificativa para intervenções dos EUA, retomando a lógica da Doutrina Monroe. O autor alerta que isso ameaça a soberania e a democracia na região, defendendo a cooperação entre nações como alternativa."
domingo, 28 de junho de 2026 Usos e abusos do trumpismo, por Luiz Sérgio Henriques* O Estado de S. Paulo A face política do trumpismo se delineia numa reatualização da Doutrina Monroe mediante um ‘corolário’ intervencionista Quem lê o excelente Leonardo Padura frequentemente encontra o elogio de uma vida menos assombrada pelos grandes dramas da História, reais ou supostos. O escritor cubano refere-se, acima de tudo, à situação intensamente sofrida pelos seus conterrâneos desde a criação do moderno mito revolucionário latino-americano, formado em torno da guerrilha dos idos dos anos 60. Para eles, tudo teve, ou ainda tem, imediata dimensão histórico-universal, quer congressos partidários ritualizados, quer eventos muito graves, como invasões frustradas e até uma catástrofe nuclear abortada no último momento. Padura deseja a todos, não só aos que lhe são próximos, uma existência mais equilibrada entre o privado e o público, o cotidiano e a História. Não sabe o que acontecerá com seu país, constrangido como está entre a necessidade de amplas reformas internas e a agressiva pressão do grupo dirigente trumpista. Para este último, como se sabe, mudanças radicais são necessárias na ilha e, de resto, em toda a América Latina. O que Padura sabe com certeza é que entre tais mudanças não se conta a defesa ou a reconstrução da democracia, mas, antes, a disseminação de governos e coalizões de extrema direita promotores de um mercado sem regras. E pelo visto, respeitadas as devidas particularidades, daqui por diante todos compartilharemos sobressaltos comuns. Para entender o fantasma que nos ronda, sempre é interessante tentar circunscrever os múltiplos sentidos do trumpismo. “Significante vazio”, tal como o conceito de populismo para Ernesto Laclau, a nova ideologia pode acolher diferentes demandas e adquirir significados distintos. Acompanhamos seus porta-vozes em momentos inaugurais, como quando J.D. Vance, na muitas vezes citada conferência de segurança em Munique, ainda no início do segundo mandato de Trump, traçou os contornos civilizacionais da luta política interna e global. Em síntese extrema, os países de democracia mais consolidada teriam insidiosos inimigos internos – os imigrantes – que minariam a coesão social, os valores religiosos sedimentados e o caráter nacional etnicamente definido. Construções supranacionais deveriam ser enfraquecidas ou canceladas em nome de soberanias irrenunciáveis. A primazia do Estado-nação era o valor a ser restaurado, se necessário com “remigrações” massivas. A utopia de uma Europa pós-nacional deveria ser combatida com uma Europa das nações, cada uma delas ciosa, antes de mais nada, da própria identidade. Para nuestra América, os significados explícitos ou implícitos do trumpismo vão noutra direção. Não há aqui um sentido de comunidade, ainda que em bases falsas, como o proposto para os europeus. Somos, os latino-americanos, vistos negativamente como foco e origem de perigos para o território norte-americano. Estes perigos tomam corpo na forma de grandes massas de imigrantes, que não se trata de regular ou administrar legitimamente de acordo com a conveniência do país receptor, mas de banir com brutalidade. Tornar a América novamente grande, ao que parece, supõe buscar uma homogeneidade étnica e linguística que contraria o sentido vital da experiência norte-americana. Seríamos ainda responsáveis únicos por uma segunda grande ameaça à segurança daquele País, a de inundar com drogas seu poderoso mercado. Organizações criminosas de tipo mafioso passam assim por uma redefinição conceitual e, como narcoterroristas, adquirem dimensão política arbitrária que potencialmente justifica violação da soberania de quem comete o erro de estar ao sul do Rio Grande. A gramática da repressão violenta ao crime, desassistida de inteligência, é a que se exporta para os diferentes grupos da extrema direita latino-americana. Governar é abrir presídios – e já há político dito alternativo entre nós que se apresenta bizarramente como “Milei na forma, Bukele no conteúdo”. A face política do trumpismo se delineia numa reatualização da Doutrina Monroe – ou Donroe, empregando trocadilho duvidoso – mediante um “corolário” intervencionista. Nos documentos oficiais mais relevantes, o território norteamericano e as demais Américas ocupam uma só e mesma seção destinada ao Hemisfério Ocidental. Seríamos assim a parte subordinada do império, constituída real ou potencialmente de Estados falidos. Ou de nações sem história, para recuperar antiga concepção que excluía do movimento do mundo aquelas que não conseguiam se afirmar como Estados modernos. É evidente que este não é o lugar do Brasil nem dos outros países das Américas. Aos trancos e barrancos, desde a ruptura com as antigas metrópoles definimos identidades não exclusivistas e, nas últimas décadas, redescobrimos a duras penas o paradigma da democracia. Sabemos que só recorrendo a tal paradigma é possível conduzir vidas dignas individual e coletivamente, para retomar o sentido essencial das preocupações de Padura. Sabemos, ainda, que o destino democrático requer solidariedade entre grandes povos e nações, entre os quais, muito além deste pesado eclipse, não é possível deixar de incluir os Estados Unidos. *Tradutor e ensaísta, coeditor das ‘Obras’ de Gramsci no Brasil
Se João Saldanha estivesse ali, encostado na mureta de concreto de um velho estádio — talvez o Azteca, talvez qualquer outro templo onde a bola resolve destinos — olharia para Macaya Márquez com aquele meio sorriso de quem já viu de tudo e diria algo assim: “Esse aí não conta Copa, não. Esse aí atravessa a história como quem atravessa um campo pesado.” Macaya, com seus 18 Mundiais nas costas, não é só um repórter. É testemunha ocular de um tempo em que o futebol era menos negócio e mais verdade crua. Eu o imagino lá em 58, na Suécia, ainda jovem, vendo um menino chamado Pelé transformar o jogo em arte — enquanto do outro lado, nós também tentávamos entender o que estava nascendo. Ali começava não só uma era do Brasil, mas uma irmandade silenciosa entre quem narra e quem sente o futebol. Depois, 1970. Ah, 70… Eu já fora tirado do banco, mas não do jogo. Porque quem é de futebol não sai nunca. E ali, no México, entre cabines de rádio cheias de fumaça e nervo, devo ter cruzado com Macaya mais de uma vez. Olhares rápidos, respeito mútuo. Cada um defendendo seu povo, mas ambos entendendo que o futebol era maior que qualquer fronteira. E enquanto a bola rolava leve naquele Brasil de 70, um outro jogo pesado acontecia fora das quatro linhas. Um condor sombrio sobrevoava a América do Sul. Ditaduras, silêncios forçados, gente desaparecendo. E nós ali, falando de futebol — que era também uma forma de resistir, de dizer que ainda havia vida, beleza, improviso. Macaya seguiu. Eu também segui do meu jeito. Ele contando Copas, eu brigando com o mundo. Mas no fundo, éramos do mesmo time: o dos que não aceitam o jogo armado, dentro ou fora de campo. Porque futebol, meu amigo, é coisa séria demais pra deixar só pra cartola. E jornalismo também. “Argumento” – Paulinho da Viola * 1975 Defesa de princípios — sem gritaria, mas sem recuo. “Balada para un loco” – Astor Piazzolla Rebeldia criativa — não aceitar o mundo como ele vem. 🎙️ Como Saldanha resumiria isso “Tem samba que briga sorrindo e tango que briga sangrando. Mas os dois são de gente que não abaixa a cabeça.” Essa seria a trilha de quem viveu futebol, política e vida no confronto — e com caráter.
"O artigo afirma que os EUA continuam influenciando a política brasileira, hoje por meio de relações estratégicas e econômicas. Destaca a aproximação de Flávio Bolsonaro com Washington e as tensões com o governo Lula, traçando um paralelo com 1964 para alertar que, embora o contexto seja diferente, a interferência externa ainda é uma preocupação."
De Lacerda a Flávio, Washington ronda a política brasileira Publicado em 28/06/2026 - 10:30 Luiz Carlos Azedo Bolívia, Brasília, Chile, China, Colômbia, Economia, Eleições, EUA, Exportações, Geografia, Governo, Itamaraty, Memória, Militares, Paraguai, Partidos, Peru, Política, Política, Segurança, Terrorismo, Trump O mundo já não vive a Guerra Fria, o Brasil é uma democracia consolidada e as relações entre Brasília e Washington são marcadas por intensa interdependência econômica. Entretanto, Flávio busca apoio de Trump contra Lula Desde a crise que culminou no golpe militar de 1964, dificilmente um político brasileiro expôs de forma tão explícita sua interlocução com autoridades dos Estados Unidos durante uma disputa política interna quanto o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL). Entretanto, o circunstâncias históricas são distintas. O mundo já não vive a Guerra Fria, o Brasil é uma democracia consolidada e as relações entre Brasília e Washington são marcadas por intensa interdependência econômica. Ainda assim, os acontecimentos recentes recolocaram em debate a influência externa sobre os rumos da política brasileira. O episódio ganhou dimensão eleitoral após a visita de Flávio a Washington. Ali, reuniu-se com integrantes do governo Donald Trump, incluindo o secretário de Estado Marco Rubio, o vice-presidente J.D. Vance e o próprio presidente norte-americano. O encontro antecedeu duas decisões relevantes: a classificação do Comando Vermelho (CV) e do Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas pelo governo dos EUA e a manutenção do processo que poderá resultar na imposição de tarifas de 25% sobre produtos brasileiros. Em carta enviada a Flávio, Rubio agradeceu o apoio recebido na classificação das facções criminosas e escreveu que os Estados Unidos reconhecem que “a violência e as sofisticadas redes criminosas dessas facções ameaçam a segurança de cidadãos honestos em todo o nosso hemisfério compartilhado”. Acrescentou que Washington atua para atingir “as redes financeiras, de drogas e de armas” dessas organizações. Rubio deixou claro que permanecem “divergências substanciais” entre os dois países nas áreas de comércio digital, sistemas de pagamento eletrônico, propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol, combate ao desmatamento ilegal e tarifas preferenciais. Mas agradeceu a Flávio pela “generosa oferta de colocar uma equipe de transição à nossa disposição caso o senhor seja eleito”. Leia também: Rubio reafirma tarifaço em carta a Flávio Bolsonaro e cita PCC e CV O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem elevado o tom com a Casa Branca: “Nós somos muito grandes, temos muita história. E nós não podemos aceitar o tratamento que os Estados Unidos deram ao Brasil nesta semana”. Acrescentou que “ninguém pode dizer que o Brasil se negou a negociar com os Estados Unidos” e classificou Marco Rubio como “um latino-americano frustrado”. Dias depois, reforçou o discurso de defesa da soberania nacional ao afirmar que o Brasil precisa estar preparado para um mundo mais instável: “Eu não quero guerra, mas também não quero ser pego de surpresa”. Há algumas semanas, Lula esteve na Casa Branca. Foi uma tentativa de reconstruir a relação bilateral com Trump. O encontro foi considerado cordial pelos dois governos e procurou reduzir tensões comerciais e geopolíticas. Entretanto, a manutenção da investigação comercial conduzida pelo USTR (singla em inglês do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos) e do chamado tarifaço demonstrou que a aproximação política não alterou as prioridades econômicas de Washington. Ofensiva de direita Figura chave nas atuais relações Brasil-EUA , Rubio é filho de imigrantes cubanos e defensor de uma política externa dura para a América Latina. Mantém intensa interlocução com lideranças de extrema-direita e conservadoras do Brasil. Entretanto, sua carta também evidencia que os governos dos EUA mudam, mas os interesses estratégicos permanecem. Ao agradecer a Flávio, confirmou a continuidade das medidas comerciais contra o Brasil. Trump comemora a eleição de governos de direita na América Latina, na expectativa de que isso contenha a presença comercial da China. Estabeleceu-se um cinturão conservador nas fronteiras do Brasil, agora formado por Argentina, Paraguai, Bolívia, Peru e Colômbia. A comparação com 1964 é inevitável. Leia mais: Mercosul em cenário adverso para Lula Naquele contexto de radicalização ideológica provocado pela Guerra Fria, o então governador do antigo estado da Guanabara, Carlos Lacerda, o principal líder civil da oposição ao presidente João Goulart, em diversas viagens aos EUA encontrou-se com autoridades norte-americanas, empresários e formadores de opinião para denunciar o governo brasileiro como incapaz de conter o avanço do comunismo. Sua intensa articulação internacional transformou-se num dos elementos da crise política que desembocaria no golpe militar de 31 de março de 1964. João Goulart ainda tentou neutralizar essa ofensiva. Em abril de 1962, visitou Washington e reuniu-se com o presidente John F. Kennedy. O objetivo era compatível com a democracia e preservar o apoio financeiro norte-americano, mas não eliminou a crescente desconfiança da Casa Branca em relação ao seu governo. Documentos posteriormente desclassificados revelaram que o governo Lyndon Johnson preparou a Operação Brother Sam, um plano de apoio logístico aos militares brasileiros caso houvesse resistência ao golpe: navios com combustível, munições e equipamentos foram deslocados para a costa brasileira. A rápida queda do governo Goulart tornou desnecessário seu emprego. O caso brasileiro não foi isolado. Ao longo das décadas de 1950, 1960 e 1970, a CIA também participou de golpes na Argentina, na Bolívia, no Chile, no Paraguai, no Uruguai e no Peru. A história parece querer se repetir, só não sabemos ainda se como farsa ou como tragédia. Nas entrelinhas: todas as colunas diariamente no Blog do Azedo Compartilhe: #Flávio, #Goulart, #Lacerda, #Trump, Lula, Rúbio
O passado pode esconder erros e o presente, entre nós, é cada vez mais imoralizante, diz o articulista. A fila da corrupção Sequência de casos expõe falhas de controle e avanço da degradação ética nas instituições brasileiras ... Leia mais no texto original: (https://www.poder360.com.br/opiniao/a-fila-da-corrupcao/) Janio de Freitas 26.jun.2026 (sexta-feira) - 6h00 Em uma semana, revela-se: a trapaça multibilionária no Banco Digimais, do bispo Edir Macedo; outra comprometedora ausência fiscalizatória do Banco Central; a transação financeira e demissão do líder do governo no Senado, Jaques Wagner; e sem garantia de fechar a fila antes do fim de semana, ações da Polícia Federal contra dirigentes, atuais ou não, de Itaú União, Bradesco e Santander. Esses 3 maiores bancos privados entraram no noticiário, e em alguns títulos mais maldosos do que informativos, por circunstâncias adversas, como a expressão funcional dos investigados. Não foram alvos de suspeições. Mas o Banco Central, envolto com poderes equivalentes aos dos legítimos Três Podres, junta-se ao bispo-banqueiro em uma reprodução do caso Daniel Vorcaro/Banco Master. Foram mais de 30 meses, de 2023 até agora, em que executivos de Edir Macedo falsearam os recursos do Digimais, multiplicando-os só na escrituração contábil, por 10 e até mais. Com isso, fundamentaram, como Vorcaro, a oferta de lucratividade excepcional dos investimentos que vendiam. Quase 3 anos dessa recompensa gritante não bastaram para o dispositivo de fiscalização do Banco Central a detectar. Nem sequer para ouvir a respeito, no meio em que tudo são tramas e o trânsito do dinheiro não pode esconder-se por completo. A transação que fere o senador Jaques Wagner, até aqui uma das escassas palavras de fato confiáveis no Congresso, exigiria mais esmero da mídia. O passado pode esconder erros e o presente, entre nós, é cada vez mais imoralizante. Nem por isso todos têm o que encobrir, de ontem ou de hoje. O que foi contado contra Jaques Wagner, até agora, tanto pode ocorrer em amizades sólidas como em subornos mascarados. Pedir que um amigo rico adquira certo imóvel, para garanti-lo e pagá-lo adiante por qualquer forma legal, é legítimo e nem parece original. As acusações não incluem prova de que não tenha sido essa a transação pedida e consumada entre Jaques Wagner, como diz, e seu endinheirado amigo Augusto Lima, que fora sócio de Daniel Vorcaro. As acusações também não incluem, até agora, prova factual bem documental de que Jaques Wagner punha à venda ações parlamentares pagáveis com o imóvel. O esmero aqui lembrado não era regra forte na mídia pré-ditadura, mas era dispensado como claro ato de luta política. Nos 21 anos pós-golpe, censura e depois interesse e covardia dispensaram até mesmo recordá-lo. Os anos de democracia são dominados pelo crescente e expansivo esmorecimento da ética. De toda ética –com sua fila própria.
Janio de Freitas "O artigo aponta uma sequência recente de escândalos financeiros e políticos no Brasil para denunciar falhas graves de fiscalização e um avanço da degradação ética nas instituições. O autor critica a omissão do Banco Central, questiona acusações ainda inconclusas contra Jaques Wagner e afirma que, mesmo em democracia, há um enfraquecimento crescente da ética pública no país." Janio de Freitas, 94 anos, é jornalista e nome de referência na mídia brasileira. Passou por Jornal do Brasil, revista Manchete, Correio da Manhã, Última Hora e Folha de S.Paulo, onde foi colunista de 1980 a 2022. Foi responsável por uma das investigações de maior impacto no jornalismo brasileiro quando revelou a fraude na licitação da ferrovia Norte-Sul, em 1987. Escreve para o Poder360 semanalmente às sextas-feiras. https://www.poder360.com.br/opiniao/a-fila-da-corrupcao/ Fim de Expediente recebe o jornalista Paulo Renato Soares e o diretor Gustavo Gomes - 26/06/26 Rádio CBN Transmitido ao vivo em 26 de jun. de 2026 #NoArNaCBN Dan Stulbach, José Godoy e Luís Gustavo Medina encerram a semana com muito bom humor e descontração. O trio recebe o jornalista Paulo Renato Soares e o diretor Gustavo Gomes, que falam sobre o documentário "Territórios - Sob o Domínio do Crime". "👆entrevista extensa (é possível pular os intervalos em “Transcricao”) com os responsáveis pela série “Territórios”. Vale a pena." Bob Fernandes, Janio de Freitas, Mário Kertész e Sérgio Augusto - Programa Três Pontos 26/06/2026 Bob Fernandes
"O texto conta a história do jornalista esportivo argentino Enrique Macaya Márquez, de 91 anos, que já cobriu 18 Copas do Mundo. Durante uma entrevista, ele foi homenageado pelo técnico Lionel Scaloni, que destacou sua trajetória e influência no futebol. O artigo ressalta o respeito conquistado pelo repórter ao longo de décadas de trabalho e sua importância no jornalismo esportivo."

sábado, 27 de junho de 2026

Elogios

João Cabral de Melo Neto - "Tecendo a Manhã" (poesia poema verso literatura) João Araújo
Pão Nosso #070 - Elogios NEPE Paulo de Tarso | Evangelho e Espiritismo Transmitido ao vivo em 6 de dez. de 2022 Série de estudos, com Artur Valadares, da obra "Pão Nosso", de Emmanuel/Chico Xavier.
“Mas ele disse: — Antes, bem-aventurados os que ouvem a palavra de Deus e a guardam.” — (LUCAS, 11.28) 1 Dirigira-se Jesus à multidão, com o enorme poder do seu amor, conquistando geral atenção. Mal terminara as observações amorosas e sábias, eis que uma senhora se levanta no seio da turba e, magnetizada pela sua expressão de espiritualidade sublime, reporta-se, em alta voz, às bem-aventuranças que deviam caber a Maria, por haver contribuído na vinda do Salvador à face da Terra. 2 Mas, prestamente, na perfeita compreensão das consequências infelizes que poderiam advir da atitude impensada, responde o Mestre que, antes de tudo, serão bem-aventurados os que ouvem a revelação de Deus e lhe praticam os ensinamentos, observando-lhe os princípios. 3 A passagem constitui esclarecimento vivo para que não se amorteça, entre os discípulos sinceros, a campanha contra o elogio pessoal, veneno das obras mais santas a sufocar-lhes propósitos e esperanças. 4 Se admiras algum companheiro que se categoriza a teus olhos por trabalhador fiel do bem, não o perturbes com palavras, das quais o mundo tem abusado muitas vezes, construindo frases superficiais, no perigoso festim da lisonja. 5 Ajuda-o, com boa vontade e entendimento, na execução do ministério que lhe compete, sem te esqueceres de que, acima de todas as bem-aventuranças, brilham os divinos dons daqueles que ouvem a Palavra do Senhor, colocando-a em prática. Emmanuel Texto extraído da 1ª edição desse livro. 70 Elogios
Título: 21 - O COMEÇO DO FIM. OS ANÚNCIOS CONTINUAM Autor: Corina Novelino Página: 224 Transcrição integral: Os avisos de Eurípedes relacionados à próxima desencarnação continuaram como um preparo inevitável para os corações amigos. Sucederam-se a tal ponto, que se espalharam pelas localidades vizinhas. O segundo anúncio, D. Amália recolheu-o do próprio Eurípedes. Relatou-lhe ele uma conversa que mantivera com D. Chiquinha, a velha avó da secretária — que o havia interpelado sobre a saúde de D. Meca. — Minha velha — acentuou Eurípedes — apesar de muito compreensiva e resignada acha-se muito abatida com o desencarne de Cora. Porque é o primeiro membro adulto da família que se vai. Mas, ela vai perder logo outro familiar, fato que a fará sofrer muito mais. A neta foi toda de branco e esse outro irá de preto... A secretária compreendeu que se tratava da repetição daqueles avisos de morte. Cora Natal era filha de Eulógio e desencarnou aos 19 anos, cheios de esperanças e de sonhos, emoldurados pela grande beleza da jovem e por predicados incomuns do Espírito. No dia subseqüente ao do enterro de Cora, quando Eurípedes tomava o seu costumeiro banho de imersão, viu-se todo de preto, na câmara mortuária, na sala de sua residência. Esse fato fora relatado à D. Amália e a alguns auxiliares da Farmácia, que dele ainda se recordam com profunda emoção e tristeza. Certa manhã, Eurípedes, contrariamente ao hábito de relacionar as ocorrências da noite, no campo espiritual, sentou-se à mesa de trabalho. Imediatamente, viram-no em atitude de recolhimento. D. Amália julgou-o muito fatigado e que, naquelas circunstâncias, ele recebia o receituário por via mecânica. Mas, em poucos minutos, dirigiu-se à secretária: — D. Amália, prepare-se para anotar o que vou descrever. São Vicente de Paulo está a meu lado convida-me para um passeio muito longo, na companhia dele. Trata-se de uma excursão espiritual. A secretária colocou-se em posição de atender à recomendação do mentor. Eurípedes continua: Resumo rigoroso (breve): O texto relata a continuidade dos avisos espirituais de Eurípedes sobre mortes iminentes, incluindo a previsão de nova perda familiar após o falecimento de Cora Natal. Descreve-se um episódio visionário em que Eurípedes se vê em ambiente mortuário, reforçando tais presságios. Em seguida, narra-se um momento em que, sob recolhimento, ele comunica à secretária um convite espiritual de Vicente de Paulo para uma longa excursão no plano espiritual. Arvo Pärt- Spiegel im Spiegel playingmusiconmars 2 de jun. de 2010 Performed by Jürgen Kruse (Piano) and Benjamin Hudson (viola) Título da obra: Eurípedes – O Homem e a Missão Autor: Corina Novelino Página: 225 Transcrição integral: — São Vicente me toma as mãos e diz-me: “Vamos, meu filho. Diga à D. Amália que não se preocupe, e tome nota de tudo”. Eurípedes anuncia à D. Amália: — Caminhamos por uma estrada clara, cheia de luminosidades intensas. As campinas floridas sucedem-se neste caminho de luz. Andamos ainda estrada afora. O vento leve perpassa pelos prados, estabelece-se um ondulado belíssimo, envolto em melodiosos sons. De quando em quando, Eurípedes reafirma: — Estamos andando e a paisagem é a mesma. E continua, a certa altura: — Avistamos uma árvore muito frondosa, ao longe, e caminhamos na sua direção. Estamos nos aproximando... Chegamos... Eurípedes descreve a amenidade da sombra daquela árvore, onde o viajor exausto encontra conforto e descanso. Após significativa pausa, Eurípedes prossegue: — D. Amália, esta árvore é tão maravilhosamente bela que não encontro comparação para que a senhora possa ter uma ideia de seu esplendor. Na Terra nada existe que se assemelhe às fulgurações dela. Todavia, tentarei um recurso comparativo: Imagine a senhora que este vegetal seja constituído inteiramente de ouro lavrado, batido pelos raios solares e terá uma ideia remota da realidade. Em cada folha, há uma palavra escrita — assinala Eurípedes — como: Deus. Jesus. Amor. Justiça. Tolerância. Paz. Esperança. Luz. Renúncia. Devotamento. Beneficência. Trabalho. Compreensão. E novamente, à secretária: — D. Amália, não é preciso que eu leia mais. A senhora compreendeu muito bem a significação desta árvore magnífica. Como a interpretaria a senhora? — A árvore simboliza a meu ver, o Cristianismo puro porque consubstancia todos os princípios salvadores exarados por Jesus. — Sua interpretação está boa, mas conversaremos a este respeito, quando fizermos um estudo mais detalhado do assunto. Nessa altura, prossegue: — São Vicente convida-me a prosseguir na viagem. Saímos. A estrada é a mesma. Andamos sempre sem parar. Avisto uma escada ao longe. Vai da Terra ao Infinito. Digo infinito, D. Amália, porque não diviso o seu fim. A seguir, Eurípedes afirma que havia alcançado, juntamente ao bondoso Guia, a base da escada. Resumo rigoroso (breve): O texto descreve a experiência espiritual de Eurípedes guiado por São Vicente de Paulo por uma paisagem luminosa. Destaca-se a visão de uma árvore simbólica, cujas folhas contêm valores cristãos fundamentais, interpretada como representação do Cristianismo puro. A narrativa prossegue com a continuação da jornada até a visão de uma escada que se estende da Terra ao Infinito, cuja base é alcançada por Eurípedes. Título da obra: Eurípedes – O Homem e a Missão Autor: Corina Novelino Página: 226 Transcrição integral: — Chegamos à escada. Começamos a subir... estamos subindo... subindo muito levemente, com asas nos pés... Eurípedes acha-se na posição inicial — olhos fechados, enquanto o Espírito prossegue na viagem, rumo às alturas siderais. A descrição da subida continua até que Eurípedes declara: Atingimos o topo da escada. São Vicente afirma, quando colocamos o pé direito no último degrau: — “Meu filho, está terminada a nossa missão na Terra. Estamos atingindo outra esfera.” — D. Amália — diz Eurípedes — a estrutura deste mundo é desconhecida para mim. Não lhe conheço os elementos físicos. Mas, para que a senhora tenha uma idéia aproximada do embasamento cósmico deste Plano, imagine-o constituído de mármore ou de jaspe. Porém, de um mármore com reverberações fascinantes. A superfície esplende-se em luminosidades próprias, verdadeiramente estonteantes. Não consigo traduzir senão vagamente para que a senhora tenha uma pálida visão da realidade. — São Vicente acentua: “Meu filho, este plano é uma mansão de Paz e bem-aventurança. Aqui é a morada daqueles que souberam bem desempenhar a sua tarefa de Amor, na Terra. É aqui sua morada, meu filho.” Prosseguindo, Eurípedes informa: — E agora, D. Amália, vejo chegar um número incalculável de cartas e telegramas... a senhora talvez tenha de tomar um secretário para auxiliá-la na tarefa de agradecimento. O transe sonambúlico chegara ao fim. Havia decorrido meia hora. Nessa altura, D. Amália coloca-se em expectativa, sem saber se o despertaria ao leve toque de suas mãos ou se o chamaria. Optou pelo vocativo: — S’Eurípedes! S’Eurípedes! — Senhora! Estou desperto... Ele sorriu de leve. Retomaram posição para os serviços de rotina. O calendário marcava: 25 de abril de 1918. Resumo rigoroso (breve): O texto conclui a experiência espiritual com a subida de Eurípedes por uma escada até outra esfera, onde São Vicente declara encerrada sua missão terrena e descreve um plano de paz destinado aos que cumpriram a lei do amor. Após a visão, Eurípedes menciona a chegada de numerosas mensagens, e o transe termina, com retorno às atividades normais em 25 de abril de 1918. REGRESSO - RAUL MORAES - Cantam: Hamilton Florentino , Tatiana Monteiro e Lília - EDITORA SONOCOM Sonocom Gravações e Edições Musicais 3 de abr. de 2020 #raulmoraes #editorasonocom Regresso Composição:Raul Moraes Cantam: Hamilton Florentino , Tatiana Monteiro e Lília Raul Corumila de Morais (Raul Moraes) 2/2/1891 Recife, PE 7/9/1937 Recife, PE Ainda jovem começou a se apresentar em diversas casas noturnas do Recife, entre as quais, o Café Chic Juventude e Cine Teatro Helvética. Em 1910 passou a atuar como pianista da dupla de cançonetistas "Os Geraldos", que naquele ano, realizaram excursão ao norte e ao sul do país. Apresentou-se em Porto Alegre, tendo sido na ocasião convidado a ministrar aulas na Academia de Canto Musical daquela cidade. Viveu por dez anos na cidade de Porto Alegre. Em 1920, retornou ao Recife. Compôs marchas de carnaval para inúmeros blocos da cidade, tendo participado de inúmeros festivais de música. Trabalhou na Rádio Clube de Pernambuco como maestro. Em 1927, sua canção "Na praia", foi gravada na Odeon pelos Turunas da Mauricéia, com Augusto Calheiros no vocal. Em 1930 Francisco Alves gravou as marchas "Cruzes...figa prá você" e "Aguenta quem pode". No mesmo ano, teve mais dez composições gravadas. Paraguassu e Zilda Morais gravaram o samba "Meu bem vem cá", e o maxixe "Tá tudo se acabando". Elsie Houston gravou a modinha "Por teu amor, por ti", Januário de Oliveira gravou as marchas "Eu só gosto é de você" e "Regresso", e Januário de Oliveira e Elsie Houston gravaram a marcha "Tá zangadinha?". Teve ainda a canção "Rosa do sul" gravada por Paraguassu, a marchinha "Eu só digo a você" lançada por Ildefonso Norat, a canção "O beijo", por Abgail Parecis, e o coco "Lenhadô", por Stefana de Macedo. Apresentou-se em diversos países, entre os quais, Argentina, Alemanha e Portugal. Entre suas composições estão marchas, valsas, hinos religiosos, foxes, dobrados e marchas patrióticas. Em 1974, foi lançado o disco "Edgar e Raul Morais", pela gravadora Rozenblit, de Pernambuco, onde aparecem algumas obras de sua autoria, entre as quais, "Marcha da folia", "Adeus pirilampos", "Despedida" e "Batutas brejeiros", esta feita em homenagem ao Bloco Batutas da Boa Vista. Um de seus maiores sucesso foi a marcha "Regresso", que foi evocada por Nelson Ferreira no clássico frevo "Evocação nº 1", que também homenageia seu nome, Raul Morais, antecedendo-lhe pelo adjetivo "Velho". Em 1999 teve a sua "Marcha da folia" gravada por Antônio Nóbrega no CD "Na pancada do ganzá". Em 2008, teve a música "Valores do passado", de sua autoria, gravada pelo cantor e compositor André Rio, no CD "Cem Carnavais", lançado através de produção independente. Orquestra Nelson Ferreira - Evocação Nº 1 Evocação Nº 1 Nelson Ferreira Felinto, Pedro Salgado, Guilherme, Fenelon Cadê teus blocos famosos? Bloco das Flores, Andaluzas, Pirilampos, apôs-fum Dos carnavais saudosos Na alta madrugada O coro entoava Do bloco a marcha-regresso E era o sucesso dos tempos ideais Do velho Raul Moraes Adeus, adeus minha gente Que já cantamos bastante E Recife adormecia Ficava a sonhar Ao som da triste melodia Composição: Nelson Ferreira.
A todos os que podem dar, pouco ou muito, direi, pois: dai esmola quando for preciso; mas, tanto quanto possível, convertei-a em salário, a fim de que aquele que a receba não se envergonhe dela.Fénelon. (Argel, 1860.) “Que o seu sábado tenha a mesma leveza que você oferece ao mundo.” #139 - DESPRENDIMENTO DOS BENS TERRENOS - PALESTRA ESPÍRITA Grupo Espírita Beneficente Dr. Hermann Transmitido ao vivo em 28 de ago. de 2020 GRUPO ESPÍRITA BENEFICENTE DR HERMANN DESPRENDIMENTO DOS BENS TERRENOS - PALESTRA ESPÍRITA Grupo Espírita Beneficente Dr. Hermann O Evangelho Segundo o Espiritismo - Cap. XVI, Itens 14 e 15. Expositora: Marcelle Desprendimento dos bens terrenos 14. Venho, meus irmãos, meus amigos, trazer-vos o meu óbolo, a fim de vos ajudar a avançar, desassombradamente, pela senda do aperfeiçoamento em que entrastes. Nós nos devemos uns aos outros; somente pela união sincera e fraternal entre os Espíritos e os encarnados será possível a regeneração. O amor aos bens terrenos constitui um dos mais fortes óbices ao vosso adiantamento moral e espiritual. Pelo apego à posse de tais bens, destruís as vossas faculdades de amar, com as aplicardes todas às coisas materiais. Sede sinceros: proporciona a riqueza uma felicidade sem mescla? Quando tendes cheios os cofres, não há sempre um vazio no vosso coração? No fundo dessa cesta de flores não há sempre oculto um réptil? Compreendo a satisfação, bem justa, aliás, que experimenta o homem que, por meio de trabalho honrado e assíduo, ganhou uma fortuna; mas, dessa satisfação, muito natural e que Deus aprova, a um apego que absorve todos os outros sentimentos e paralisa os impulsos do coração vai grande distância, tão grande quanto a que separa da prodigalidade exagerada a sórdida avareza, dois vícios entre os quais colocou Deus a caridade, santa e salutar virtude que ensina o rico a dar sem ostentação, para que o pobre receba sem baixeza. Quer a fortuna vos tenha vindo da vossa família, quer a tenhais ganho com o vosso trabalho, há uma coisa que não deveis esquecer nunca: é que tudo promana de Deus, tudo retorna a Deus. Nada vos pertence na Terra, nem sequer o vosso pobre corpo: a morte vos despoja dele, como de todos os bens materiais. Sois depositários e não proprietários, não vos iludais. Deus vo-los emprestou, tendes de lhos restituir; e ele empresta sob a condição de que o supérfluo, pelo menos, caiba aos que carecem do necessário. Um dos vossos amigos vos empresta certa quantia. Por pouco honesto que sejais, fazeis questão de lha restituirdes escrupulosamente e lhe ficais agradecido. Pois bem: essa a posição de todo homem rico. Deus é o amigo celestial, que lhe emprestou a riqueza, não querendo para si mais do que o amor e o reconhecimento do rico. Exige deste, porém, que a seu turno dê aos pobres, que são, tanto quanto ele, seus filhos. Ardente e desvairada cobiça despertam nos vossos corações os bens que Deus vos confiou. Já pensastes, quando vos deixais apegar imoderadamente a uma riqueza perecível e passageira como vós mesmos, que um dia tereis de prestar contas ao Senhor daquilo que vos veio dEle? Olvidais que, pela riqueza, vos revestistes do caráter sagrado de ministros da caridade na Terra, para serdes da aludida riqueza dispensadores inteligentes? Portanto, quando somente em vosso proveito usais do que se vos confiou, que sois, senão depositários infiéis? Que resulta desse esquecimento voluntário dos vossos deveres? A morte, inflexível, inexorável, rasga o véu sob que vos ocultáveis e vos força a prestar contas ao Amigo que vos favorecera e que nesse momento enverga diante de vós a toga de juiz. Em vão procurais na Terra iludir-vos, colorindo com o nome de virtude o que as mais das vezes não passa de egoísmo. Em vão chamais economia e previdência ao que apenas é cupidez e avareza, ou generosidade ao que não é senão prodigalidade em proveito vosso. Um pai de família, por exemplo, se abstém de praticar a caridade, economizará, amontoará ouro, para, diz ele, deixar aos filhos a maior soma possível de bens e evitar que caiam na miséria. É muito justo e paternal, convenho, e ninguém pode censurar. Mas será sempre esse o único móvel a que ele obedece? Não será muitas vezes um compromisso com a sua consciência, para justificar, aos seus próprios olhos e aos olhos do mundo, seu apego pessoal aos bens terrenais? Admitamos, no entanto, seja o amor paternal o único móvel que o guie. Será isso motivo para que esqueça seus irmãos perante Deus? Quando já ele tem o supérfluo, deixará na miséria os filhos, por lhes ficar um pouco menos desse supérfluo? Não será, antes, dar-lhes uma lição de egoísmo e endurecer-lhes os corações? Não será estiolar neles o amor ao próximo? Pais e mães, laborais em grande erro, se credes que desse modo granjeais maior afeição dos vossos filhos. Ensinando-lhes a ser egoístas para com os outros, ensinais-lhes a sê-lo para com vós mesmos. A um homem que muito haja trabalhado, e que com o suor de seu rosto acumulou bens, é comum ouvirdes dizer que, quando o dinheiro é ganho, melhor se lhe conhece o valor. Nada mais exato. Pois bem! Pratique a caridade, dentro das suas possibilidades, esse homem que declara conhecer todo o valor do dinheiro, e maior será o seu merecimento, do que o daquele que, nascido na abundância, ignora as rudes fadigas do trabalho. Mas, também, se esse homem, que se recorda dos seus penares, dos seus esforços, for egoísta, impiedoso para com os pobres, bem mais culpado se tornará do que o outro, pois, quanto melhor cada um conhece por si mesmo as dores ocultas da miséria, tanto mais propenso deve sentir-se em aliviá-las nos outros. Infelizmente, sempre há no homem que possui bens de fortuna um sentimento tão forte quanto o apego aos mesmos bens: é o orgulho. Não raro, vê-se o arrivista atordoar, com a narrativa de seus trabalhos e de suas habilidades, o desgraçado que lhe pede assistência, em vez de acudi-lo, e acabar dizendo: “Faça o que eu fiz.” Segundo o seu modo de ver, a bondade de Deus não entra por coisa alguma na obtenção da riqueza que conseguiu acumular; pertence-lhe a ele, exclusivamente, o mérito de a possuir. O orgulho lhe põe sobre os olhos uma venda e lhe tapa os ouvidos. Apesar de toda a sua inteligência e de toda a sua aptidão, não compreende que, com uma só palavra, Deus o pode lançar por terra. Esbanjar a riqueza não é demonstrar desprendimento dos bens terrenos: é descaso e indiferença. Depositário desses bens, não tem o homem o direito de os dilapidar, como não tem o de os confiscar em seu proveito. Prodigalidade não é generosidade: é, freqüentemente, uma modalidade do egoísmo. Um, que despenda a mancheias o ouro de que disponha, para satisfazer a uma fantasia, talvez não dê um centavo para prestar um serviço. O desapego aos bens terrenos consiste em apreciá-los no seu justo valor, em saber servir-se deles em benefício dos outros e não apenas em benefício próprio, em não sacrificar por eles os interesses da vida futura, em perdê-los sem murmurar, caso apraza a Deus retirá-los. Se, por efeito de imprevistos reveses, vos tornardes qual Job, dizei, como ele: “Senhor, tu mos havias dado e mos tiraste. Faça-se a tua vontade.” Eis aí o verdadeiro desprendimento. Sede, antes de tudo, submissos; confiai nAquele que, tendo-vos dado e tirado, pode novamente restituir-vos o que vos tirou. Resisti animosos ao abatimento, ao desespero, que vos paralisam as forças. Quando Deus vos desferir um golpe, não esqueçais nunca que, ao lado da mais rude prova, coloca sempre uma consolação. Ponderai, sobretudo, que há bens infinitamente mais preciosos do que os da Terra e essa idéia vos ajudará a desprender-vos destes últimos. O pouco apreço que se ligue a uma coisa faz que menos sensível seja a sua perda. O homem que se aferra aos bens terrenos é como a criança que somente vê o momento que passa. O que deles se desprende é como o adulto que vê as coisas mais importantes, por compreender estas proféticas palavras do Salvador: “O meu reino não é deste mundo.” A ninguém ordena o Senhor que se despoje do que possua, condenando-se a uma voluntária mendicidade, porquanto o que tal fizesse tornar-se-ia em carga para a sociedade. Proceder assim fora compreender mal o desprendimento dos bens terrenos. Fora egoísmo de outro gênero, porque seria o indivíduo eximir-se da responsabilidade que a riqueza faz pesar sobre aquele que a possui. Deus a concede a quem bem lhe parece, a fim de que a administre em proveito de todos. O rico tem, pois, uma missão, que ele pode embelezar e tornar proveitosa a si mesmo. Rejeitar a riqueza, quando Deus a outorga, é renunciar aos benefícios do bem que se pode fazer, gerindo-a com critério. Sabendo prescindir dela quando não a tem, sabendo empregá-la utilmente quando a possui, sabendo sacrificá-la quando necessário, procede a criatura de acordo com os desígnios do Senhor. Diga, pois, aquele a cujas mãos venha o que no mundo se chama uma boa fortuna: Meu Deus, tu me destinaste um novo encargo; dá-me a força de desempenhá-lo segundo a tua santa vontade. Aí tendes, meus amigos, o que eu vos queria ensinar acerca do desprendimento dos bens terrenos. Resumirei o que expus, dizendo: Sabei contentar-vos com pouco. Se sois pobres, não invejeis os ricos, porquanto a riqueza não é necessária à felicidade. Se sois ricos, não esqueçais que os bens de que dispondes apenas vos estão confiados e que tendes de justificar o emprego que lhes derdes, como se prestásseis contas de uma tutela. Não sejais depositário infiel, utilizando-os unicamente em satisfação do vosso orgulho e da vossa sensualidade. Não vos julgueis com o direito de dispor em vosso exclusivo proveito daquilo que recebestes, não por doação, mas simplesmente como empréstimo. Se não sabeis restituir, não tendes o direito de pedir, e lembrai-vos de que aquele que dá aos pobres, salda a dívida que contraiu com Deus. Lacordaire. (Constantina, 1863.) 2ª Parte - Cap I - Origem e Natureza dos Espíritos; Mundo Normal Primitivo; Perispírito / Leda CEFAK Transmitido ao vivo em 17 de mai. de 2017 Centro Espírita Fraternidade Allan Kardec - CEFAK www.cefak.org.br Inscreva-se no Canal https://goo.gl/pxBQSR Esta é uma gravação de uma reunião realizada no CEFAK.
PPT - Sobre a estrutura didática de “O livro dos Espíritos” Parte segunda — Do mundo espírita ou mundo dos Espíritos Capítulo I — Dos Espíritos Origem e natureza dos Espíritos. 76. Que definição se pode dar dos Espíritos? “Pode dizer-se que os Espíritos são os seres inteligentes da criação. Povoam o universo, fora o mundo material.” NOTA: A palavra Espírito é empregada aqui para designar as individualidades dos seres extracorpóreos e não mais o elemento inteligente universal. 77. Os Espíritos são seres distintos da Divindade, ou serão simples emanações ou porções desta e, por isto, denominados filhos de Deus? “Meu Deus! São obra de Deus, exatamente qual a máquina o é do homem que a fabrica. A máquina é obra do homem, não é o próprio homem. Sabes que, quando faz alguma coisa bela, útil, o homem lhe chama sua filha, criação sua. Pois bem, o mesmo se dá com relação a Deus: somos seus filhos, pois que somos obra sua.” 78. Os Espíritos tiveram princípio, ou existem, como Deus, de toda a eternidade? “Se não tivessem tido princípio, seriam iguais a Deus, quando, ao invés, são criação sua e se acham submetidos à sua vontade. Deus existe de toda a eternidade, é incontestável. Quanto, porém, ao modo pelo qual nos criou e em que momento o fez, nada sabemos. Podes dizer que não tivemos princípio, se quiseres com isso significar que, sendo eterno, Deus há de ter sempre criado ininterruptamente. Mas, quando e como cada um de nós foi feito, repito-te, nenhum o sabe: aí é que está o mistério.” 79. Pois que há dois elementos gerais no universo: o elemento inteligente e o elemento material, poder-se-á dizer que os Espíritos são formados do elemento inteligente, como os corpos inertes o são do elemento material? “Evidentemente. Os Espíritos são a individualização do princípio inteligente, como os corpos são a individualização do princípio material. A época e o modo por que essa formação se operou é que são desconhecidos.” 80. A criação dos Espíritos é permanente, ou só se deu na origem dos tempos? “É permanente. Quer dizer: Deus jamais deixou de criar.” 81. Os Espíritos se formam espontaneamente, ou procedem uns dos outros? “Deus os cria, como a todas as outras criaturas, pela sua vontade. Mas, repito ainda uma vez, a origem deles é mistério.” 82. Será certo dizer-se que os Espíritos são imateriais? “Como se pode definir uma coisa, quando faltam termos de comparação, e com uma linguagem deficiente? Pode um cego de nascença definir a luz? Imaterial não é bem o termo; incorpóreo seria mais exato, pois deves compreender que, sendo uma criação, o Espírito há de ser alguma coisa. É a matéria quintessenciada, mas sem analogia para vós outros, e tão etérea que escapa inteiramente ao alcance dos vossos sentidos.” Dizemos que os Espíritos são imateriais, porque sua essência difere de tudo o que conhecemos sob o nome de matéria. Um povo de cegos careceria de termos para exprimir a luz e seus efeitos. O cego de nascença se julga capaz de todas as percepções pelo ouvido, pelo olfato, pelo paladar e pelo tato. Não compreende as ideias que só lhe poderiam ser dadas pelo sentido que lhe falta. Nós outros somos verdadeiros cegos com relação à essência dos seres sobre-humanos. Não os podemos definir senão por meio de comparações sempre imperfeitas, ou por um esforço da imaginação. 83. Os Espíritos têm fim? Compreende-se que seja eterno o princípio donde eles emanam, mas o que perguntamos é se suas individualidades têm um termo e se, em dado tempo, mais ou menos longo, o elemento de que são formados não se dissemina e volta à massa donde saiu, como sucede com os corpos materiais. É difícil conceber-se que uma coisa que teve começo possa não ter fim. “Há muitas coisas que não compreendeis, porque tendes limitada a inteligência. Isso, porém, não é razão para que as repilais. O filho não compreende tudo o que a seu pai é compreensível, nem o ignorante tudo o que o sábio compreende. Dizemos que a existência dos Espíritos não tem fim. É tudo o que podemos, por agora, dizer.”
Seja uma pessoa sábia. A sabedoria entra quando você lhe abre as portas.

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Shanghai Express (1932) trailer

Ulisses Guimarães na rampa do Congesso, quatro dias antes de sua morte. Outubro de 1992. Acervo pessoal
26/6/2024 Até 3 dias antes da eleição do 1º turno e até 1 semana antes da eleição do 2º turno podem ocorrer surpresas. O Brasil, no meu espelho, é conservador. Hoje, contra Lula. Ontem, a favor de Lula. E, mesmo depois da eleição, pode surgir um novo líder. FHC no governo Itamar. Jaques Wagner, líder de Lula, foi como Roberto Freire, líder de Itamar. Aquela URV foi amplamente combatida. "Drible de vaca" de um alienado do mundo futebolístico. ------------- 26/6/26 BM amplo, geral e irrestrito. BB: banco dos bobos — dão poupança de juros zero. BRB: Banco Régio de Bocadas. Três forças: Imprensa PF André Mendonça 4ª força: Opinião Pública (OP) O povo para populistas de extremos pelo alto. Artigo brilhante de PM — não, senhores meganhas, M de Malan. Pedro Sim, sem ser I ou II, republicano raiz. "Vivido eu sou, analista..." ----------- Sagaz 1 26/6/24 Teve até cambalhotas em seu período de gestão na rampa do Palácio do Planalto, que o timoneiro da democracia, Ulysses Guimarães, só pôde usufruir em uma foto tirada por um fotógrafo-repórter profético, com premonições trágicas, talvez gatilhadas pelo nome do personagem. Foto emblemática de alguém que, quatro dias depois, desapareceria para sempre nas águas do mar. 2 26/6/24 Votar PEC basta? Propostas? Detalhes, para Zélia. Anarquicamente, sem sobrenome de Jorge. ------------ Políticas para se manter no poder. O mundo hoje demanda políticas monumentais. Caiado do século XX, sem alma do XXI. ------------- O que conheço: comportamento espetacular, sem perder a ideologia de direita. 3 Para isso serve a política. Amizade é acidente. --------------- É impossível não ser cordial como deputado pela convivência: "Minha neta nasceu", "Minha filha casou". -------------- Exceção — mesmo assim, não era grosseiro. Maria do Rosário foi vítima de um abuso — exceção. ----------- Questão da economia: Coisas intrincadas. Déficit público para o futuro. O país crescer sem ser voo de galinha. Domínio da criminalidade. 4 26/6/26 Economia dinâmica domina o desequilíbrio. 2027: ano-chave para déficit fiscal e custo da dívida — artigo de Armínio. Macroeconomia. Equilíbrio fiscal. Dólar flutuante. A.F. (artigo). Segurança dominada pela corrupção; e corrupção dominada pela segurança. ------------ Há 2 anos: "O crime está horroroso, vamos chamar a polícia." Hoje: "A corrupção está horrorosa, vamos afastar a polícia." 5 26/6/26 A gente vai ser condenada a uma crepitude nacional. Com a chefa no próximo programa! ------------- "Tô torcendo pela seleção brasileira de futebol." Sem branca, verde, amarela ou azul — seleção brasileira de futebol. Corte do vídeo: 31:02 6 Michelle rompe com Flávio Bolsonaro | Não é Bem Assim Meio Estreou em 25 de jun. de 2026 #michellebolsonaro #flaviobolsonaro #eleições2026 No episódio desta semana do Não é bem assim, Pedro Paulo Magalhães, Marcelo Madureira, Márcio Fortes e Manuel Thedim analisam a entrevista de Gilmar Mendes ao Roda Viva, o posicionamento de André Mendonça, o distanciamento público de Michelle Bolsonaro em relação à candidatura de Flávio Bolsonaro, a investigação envolvendo Jaques Wagner e os impactos dessas crises sobre a eleição presidencial de 2026. _ O Meio é um canal de jornalismo independente, atualizado todos os dias. Vídeos com análise e informação, colunas de opinião, programas que vão de mini documentários a entretenimento, lives e shorts. Tudo isso você encontra aqui, no Youtube do Meio. Inscreva-se! ⭐ Assista ao episódio novo do Ponto de Partida, a Série: https://nomeio.com.br/neb_nosbr The Police - Every Breath You Take (Official Music Video) The Police Every Breath You Take The Police Cada Suspiro Que Você Der Every Breath You Take Cada suspiro que você der Every breath you take E cada movimento que você fizer And every move you make Cada laço que você quebrar Every bond you break Cada passo que você der Every step you take Eu estarei te observando I'll be watching you Todo santo dia Every single day Cada palavra que você disser Every word you say Cada jogo que você jogar Every game you play Cada noite que você ficar Every night you stay Eu estarei te observando I'll be watching you Oh, será que você não enxerga Oh, can't you see Que você pertence a mim? You belong to me? Como o meu pobre coração dói How my poor heart aches Com cada passo que você dá? With every step you take? Cada movimento que você fizer Every move you make E cada promessa que você quebrar And every vow you break Cada sorriso que você fingir Every smile you fake Cada reivindicação que você fizer Every claim you stake Eu estarei te observando I'll be watching you Desde que você se foi, eu tenho estado perdido, sem rumo Since you've gone, I've been lost without a trace Eu sonho à noite e só consigo ver o seu rosto I dream at night, I can only see your face Eu olho em volta, mas é você que eu não consigo substituir I look around, but it's you I can't replace Eu sinto tanto frio e anseio pelo seu abraço I feel so cold and I long for your embrace Eu continuo gritando: Querida, querida, por favor I keep crying: Baby, baby, please Hum, hum, hum, hum Mmm, mmm, mmm, mmm Hum, hum, hum Mmm, mmm, mmm Oh, será que você não enxerga Oh, can't you see Que você pertence a mim? You belong to me? Como o meu pobre coração dói How my poor heart aches Com cada passo que você dá? With every step you take? Cada movimento que você fizer Every move you make E cada promessa que você quebrar And every vow you break Cada sorriso que você fingir Every smile you fake Cada reivindicação que você fizer Every claim you stake Eu estarei te observando I'll be watching you Cada movimento que você fizer Every move you make Cada passo que você der Every step you take Eu estarei te observando I'll be watching you Eu estarei te observando I'll be watching you (Cada suspiro que você der) (Every breath you take) (Cada movimento que você fizer) (Every move you make) (Cada laço que você quebrar) (Every bond you break) (Cada passo que você der) (Every step you take) Eu estarei te observando I'll be watching you (Todo santo dia) (Every single day) (Cada palavra que você disser) (Every word you say) (Cada jogo que você jogar) (Every game you play) (Cada noite que você ficar) (Every night you stay) Eu estarei te observando I'll be watching you (Cada movimento que você fizer) (Every move you make) (E cada promessa que você quebrar) (Every vow you break) (Cada sorriso que você fingir) (Every smile you fake) (Cada reivindicação que você fizer) (Every claim you stake) Eu estarei te observando I'll be watching you (Todo santo dia) (Every single day) (Cada palavra que você disser) (Every word you say) (Cada jogo que você jogar) (Every game you play) (Cada noite que você ficar) (Every night you stay) Eu estarei te observando I'll be watching you (Cada suspiro que você der) (Every breath you take) (Cada movimento que você fizer) (Every move you make) (Cada laço que você quebrar) (Every bond you break) (Cada passo que você der) (Every step you take) Eu estarei te observando I'll be watching you (Todo santo dia) (Every single day) (Cada palavra que você disser) (Every word you say) (Cada jogo que você—) (Every game you—) Composição: Sting.
I’ll be watching you 🎼
26/06/2024 Boa Noite 24/7 – Ao vivo Leonardo Trevisan: “O pensamento progressista precisa discutir política de defesa” TV 24/7 – 21 mil visualizações Há 2 dias: Leonardo Trevisan – Prof. de Relações Internacionais Márcia Carmo – Bogotá Tereza Cruvinel – colunista do Brasil 247 (Brasília) Florestan Fernandes Jr. – São Paulo João Carlos Miola – Porto Alegre Sara Goes – âncora da TV 247 (Fortaleza – CE) Corte do vídeo: 33:24 Andra Trus – âncora da TV 247 (SP) Você provavelmente está se referindo ao clássico Introdução à Análise Econômica (título original: Economics), escrito pelo ganhador do Prêmio Nobel americano Paul A. Samuelson. Lançado originalmente em 1948, o "livrão alaranjado" foi adotado massivamente por faculdades de economia no Brasil entre as décadas de 1960 e 1980. A obra foi fundamental para a popularização do modelo de síntese neoclássica e o ensino de macroeconomia keynesiana no país. Se você deseja encontrar edições antigas para comprar ou ler mais sobre o impacto do manual, confira os links abaixo: Explore opções de edições clássicas no maior acervo de sebos em Estante Virtual. Leia um artigo sobre a biografia e a importância do autor no Wikipedia. Veja detalhes sobre uma das versões em português no Google Livros.
sexta-feira, 26 de junho de 2026 Michelle demarca território, Flávio resiste; o pós-Bolsonaro já começou, por Luiz Carlos Azedo Correio Braziliense Pela primeira vez, a disputa pela liderança simbólica do bolsonarismo, protagonizada pelo senador e pela ex-primeira-dama, foi travada em praça pública O conflito entre Michelle Bolsonaro e Flávio Bolsonaro extrapolou o terreno das relações familiares e se tornou um dos episódios mais reveladores das contradições no clã Bolsonaro nesta pré-campanha presidencial. Pela primeira vez, desde que Jair Bolsonaro escolheu o filho mais velho como sucessor, a disputa pela liderança simbólica do bolsonarismo, protagonizada por ambos, foi travada em praça pública. À primeira vista, Michelle parecia ter produzido um enorme desgaste para a candidatura de Flávio. Principal liderança feminina da direita e responsável pela interlocução do PL com o eleitorado evangélico, acusou o enteado de tê-la “desrespeitado”, “maltratado” e “humilhado”. Gravou um vídeo muito bem produzido e de cabeça pensada, com objetivo claro de ser contundente: “Ele disse que seria melhor eu ficar fora das decisões do partido. Que eu havia chegado ontem e não entendia nada de política”. Segundo Michelle, naquele momento compreendeu que sua participação na campanha de Flávio Bolsonaro era considerada irrelevante. “Entendi que ele não queria o meu apoio ou que este era insignificante. Então eu me recolhi”. Ao exumar um episódio ocorrido há meses, durante as negociações do PL no Ceará, porém, mais do que um desabafo, fez uma afirmação de legitimidade política, de quem avalia que tem luz própria. Michelle lembrou que Jair Bolsonaro havia determinado apoio à candidatura da vereadora Priscila Costa ao Senado no Ceará e disse que suas posições refletiam a vontade do marido. Ou seja, a ex-primeira-dama disputa “lugar de fala” em nome do legado político do ex-presidente. A demarcação de território, porém, até agora, teve efeito contrário nas bases bolsonaristas. Segundo levantamento da AP Exata Inteligência, a presença de Michelle nas conversas digitais saltou de 5% para 16,4% entre os presidenciáveis em apenas quinze horas — crescimento de 228% — enquanto seus vídeos ultrapassaram milhões de visualizações. Entretanto, o aumento da exposição não foi acompanhado por melhora equivalente na percepção pública. Seu índice de confiança permaneceu praticamente estável, com pequena queda de 0,3 ponto percentual, enquanto as menções positivas recuaram para 45,5%. Já Flávio Bolsonaro experimentou movimento inverso. Seu índice de confiança cresceu 1,2 ponto e as menções positivas avançaram 3,5 pontos, atingindo o melhor desempenho dos últimos dez dias. O fenômeno confirma uma característica recorrente das comunidades políticas altamente organizadas nas redes sociais: tendem a reagir rapidamente quando identificam um ataque dirigido ao líder escolhido pelo grupo. Roupa suja Sérgio Denicoli, responsável pela pesquisa, em diversos estudos sobre comportamento digital, verificou que comunidades políticas consolidadas costumam produzir um processo de “blindagem narrativa”. Quando percebem risco ao projeto coletivo, reorganizam espontaneamente suas mensagens para proteger o principal ativo político. Foi exatamente o que ocorreu. Em poucas horas, grande parte da militância bolsonarista passou a enquadrar Flávio como vítima da exposição pública de uma divergência privada. Prevaleceu o conceito de que “roupa suja se lava em casa”. O foco deixou de ser a acusação feita por Michelle para concentrar-se na necessidade de preservar a candidatura presidencial. Flávio Bolsonaro assimilou o golpe não somente nas redes sociais. Seu pedido de desculpas revelou uma clara intenção de redução de danos. “Em nenhum momento ofendi ou tive a intenção de ofender Michelle. Se o fiz em algum momento, mais uma vez, peço desculpas.” Na sequência, deslocou o eixo da discussão para a disputa pela orientação da campanha: “Divergências de estratégia não significam divergências de princípios”. Não falou para Michelle, mas para o eleitorado conservador, que tenta conquistar com uma narrativa mais moderada do que a dos irmãos Carlos e Eduardo e de Michelle: “O Brasil precisa de maturidade, serenidade e unidade”. Michelle também retrocedeu no confronto. “Não tenho raiva de ninguém. Apenas esclareci uma situação que estava sendo deturpada”, disse nas redes sociais. E acrescentou: “Vamos todos trabalhar juntos para derrotar o atual desgoverno”. O problema é que a dimensão estratégica do confronto foi escancarada. Há duas vertentes no bolsonarismo. Flávio controla a máquina partidária, o respaldo formal do PL e a indicação feita por Jair Bolsonaro para disputar a Presidência. Michelle tem o apoio do eleitorado feminino conservador, de lideranças evangélicas e mais carisma pessoal para mobilizar emocionalmente seus apoiadores. Se Flávio vencer a eleição presidencial, Michelle provavelmente será senadora pelo Distrito Federal. Se ele perder, também. Mas ampliará sua autonomia, com mais visibilidade nacional e independência política. A herança do bolsonarismo já está em disputa.
A ministra Damares Alves, Regina Duarte e Michelle Bolsonaro no Palácio do Planalto> 2020. Acervo pessoal PARECER TÉCNICO-ANALÍTICO #024/2026 ASSUNTO: Análise Semiótica e Discursiva do Pronunciamento em Vídeo de Michelle Bolsonaro (24/06/2026) CONSULTORIA: Engenharia de Comunicação Política e Pragmática de Dados 1. O Escopo da Autoria: Da Hipótese do Ghostwriting ao Algoritmo Híbrido No ecossistema da comunicação hiperconectada, o conceito tradicional de ghostwriter transmuta-se em um fenômeno de coautoria aumentada. O pronunciamento de 27 minutos não se configura como uma peça literária monolítica, mas como uma matriz polifônica onde a vivência analógica é refinada por inteligência preditiva. A sofisticação performática e a exatidão cirúrgica do encadeamento dos argumentos sugerem o uso de sistemas avançados de modelagem linguística para estruturar as seguintes forças motrizes :Sintetização Pragmática de Dados: A conversão de métricas complexas de desempenho do PL Mulher (crescimento de 45,8% de eleitas em 2024 e capilaridade territorial) em narrativas de forte apelo emocional reflete a aplicação de engenharia de prompting político. O texto opera uma transição matematicamente precisa entre o afetivo e o factual, neutralizando ruídos e otimizando a clareza do relatório de gestão .Convergência de Vetores Ideológicos: O alinhamento semântico milimétrico com as pautas da ala conservadora indica que o discurso passou por uma filtragem de consistência léxica. Processadores de linguagem natural (LLMs) são rotineiramente empregados em gabinetes estratégicos para testar a aderência de termos antes da gravação, garantindo o amálgama perfeito entre o desabafo e a agenda do bloco feminino. 2. Semiótica de Rede: O Ethos da Humildade e o Logos Computacional Do ponto de vista semiótico, o vídeo opera em uma dupla camada de significação projetada para maximizar o engajamento algorítmico, explorando uma tensão dialética clássica :[ ETHOS DE VULNERABILIDADE ] ──(Otimização de Fluxo)──> [ LOGOS DE EFICÁCIA ] (Gatilhos de Empatia Humana) (Estrutura Logística de Dados) A Estética da Espontaneidade: A simulação de intimidade e o tom de desabafo pessoal funcionam como "iscas de retenção". A recusa calculada à sintaxe burocrática do establishment mimetiza a autenticidade valorizada pelas redes. Há uma engenharia invisível projetada para furar bolhas e acionar o arquétipo da resiliência .A Auditoria Algorítmica de Resultados: Ao rebater a premissa de que "não entende de política", o discurso abandona a passividade através de uma defesa baseada em evidências. A inserção de dados estatísticos precisos desconstrói a autoridade técnica do interlocutor (Flávio Bolsonaro), transformando o ressentimento humano em capital político processável e altamente compartilhável. 3. Pragmatismo Dinástico: Validação de Cúpula e Engenharia de Cenários Na semiótica do poder, o vazamento de um racha familiar possui alta voltagem destrutiva. A validação tácita de Jair Bolsonaro funciona como a chave de legibilidade para o sistema de comunicação. A elaboração deste discurso pressupõe a antecipação de múltiplos cenários de crise — uma especialidade de análises preditivas baseadas em IA. Ao receber a anuência do patriarca, o pronunciamento ganha o selo de legitimidade necessário para operar como uma intervenção corretiva automatizada. O ex-presidente atua como o fiador silencioso da narrativa, permitindo que a ex-primeira-dama execute a fricção pública que o cálculo puramente institucional dele impede de realizar diretamente. 4. Conclusão Provisória O vídeo em análise afasta-se da lógica da "ventriloquia política" rudimentar. Trata-se de uma peça de comunicação simbiótica e assistida: a matéria-prima do ressentimento é humana e autêntica de Michelle Bolsonaro, mas a sua lapidação retórica, a blindagem estatística e a oportunidade cronológica refletem uma engenharia cibernética sofisticada. O discurso foi lapidado por uma inteligência que compreende, de forma profunda, a gramática das emoções humanas e as regras do jogo do poder digital.
Shanghai Express (1932) trailer films411 sexta-feira, 26 de junho de 2026 Que trem é esse? Por José de Souza Martins* Valor Econômico O lucro mais fácil do transporte de minérios e de produtos agrícolas, aos olhos do empreendedorismo superficial, desvaloriza ideologicamente o lucro possível no transporte de passageiros A atualização e expansão da rede ferroviária brasileira, voltada para o agronegócio e a mineração, levanta a questão social do que nela sobrará para o chamado passageiro, como seu usurário e beneficiário. As ferrovias são fatores de criação de renda diferencial da terra na medida em que colocam os territórios que percorrem mais próximos dos mercados que se situam em seus respectivos destinos. A diminuição do tempo de um percurso opera na prática como diminuição da distância em relação ao mercado e ao mundo urbano. O lucro mais fácil do transporte de minérios e de produtos agrícolas de exportação, aos olhos do empreendedorismo superficial, desvaloriza ideologicamente o lucro adicional possível no transporte de passageiros, viabilizável pelo uso de equipamentos e infraestrutura subutilizados. Esquecem que o pequeno lucro, o chamado lucro extraordinário, também é lucro e, nesse caso, resulta num serviço social. Só num capitalismo mínimo e decadente o potencial usuário e consumidor é visto e tratado como fator de prejuízo. É a neoeconomia do subdesenvolvimento lucrativo. Na atual onda ferroviária, há exceções. Refiro-me às duas linhas de passageiros da Vale. A Vitória-Minas, de Cariacica, no Espírito Santo, a Belo Horizonte, e a de São Luís, no Maranhão, a Parauapebas, no Pará, além de Carajás. São ferrovias com composições de padrão europeu, com carros de classe econômica e de classe executiva, com restaurante e lanchonete, carro especial para pessoas com deficiência em cadeira de rodas. Na de Carajás há até carro de lazer educativo para crianças com serviço de monitores. É claro que os lucros das duas ferrovias transportadoras de minérios subsidiam esse serviço de transporte para passageiros embarcados e desembarcados em cidades e localidades ao longo de seus trajetos. Mas, na verdade, esse transporte se faz com o uso da capacidade ociosa própria das ferrovias, nos intervalos do tráfego das composições do transporte economicamente principal. O Brasil já teve uma rede ferroviária notável, documentada nas páginas do mais que centenário Guia Levi com arrolamento minucioso dos horários de trens de passageiros do país inteiro e suas conexões com os trens de países vizinhos. O aproveitamento da ociosidade de equipamentos ferroviários foi exemplar na São Paulo Railway, de 1866, que ia de Jundiaí a Santos. Até por ocasião de festas religiosas de subúrbio havia trens especiais para o serviço dos devotos. A SPR lucrava com café e algodão, mas também com os pecadores. A Paulista vivia do café. E era um luxo com os passageiros. Bauru fazia conexão com a Noroeste do Brasil até Corumbá, na fronteira com a Bolívia. De lá, pelo Ferrocarril Brasil-Bolívia ia-se até Santa Cruz de la Sierra. Subia-se os Andes de ônibus e voltava-se ao trem no Altiplano, que chegava até ruínas da cidade pré-incaica de Tihuanaco no rumo do Lago Titicaca e do Chile. Viagem que fiz em 1958. Uma semana para percorrer 600 km. Duas horas depois de Roboré, o trem semanal estacou. Um passageiro fora deixado para trás. Chegaria uma hora depois, a cavalo, com um menino que o levasse de volta. O cavalo fora mais rápido que o trem. Em meados dos anos 1950, começo da decadência ferroviária brasileira, a rede tornara-se tão expressiva que se podia ir de São Luís, no Maranhão, a Buenos Aires de trem. Três vezes por semana havia trens de São Paulo a Buenos Aires. Como o Brasil, a Argentina fora destino de milhares de imigrantes, italianos e espanhóis desde fins do século XIX. Famílias embarcadas da Itália e da Espanha imaginavam estar emigrando para a América. Porém, qual América? Separadas no embarque acabavam em portos diferentes do pretendido. Ou em Santos ou em Buenos Aires. Com o tempo, o sistema ferroviário que conectava os dois países permitiam-lhes reencontrarem-se eventualmente e episodicamente. Fiz um trecho dessa viagem para ir a um seminário em Joaçaba (SC). Ao embarcar, em União da Vitória, vi que a composição tinha um carro-restaurante. Com fome, fui a ele e descobri que era um carro vazio, só mesas e cadeiras, uma cozinha com fogão aceso para ferver a água para as cuias de chimarrão dos viajantes gaúchos. Em 1983, fui a Goiás Velho a trabalho. Decidi levar a família e ir de trem para que minhas filhas tivessem a oportunidade de fazer uma viagem dessas. Da Luz fomos a Campinas, onde fizemos baldeação para o trem que de lá ia até Brasília, duas cabinas-dormitório, conectadas, com banheiro e lavabo, carro-restaurante. Em Brasília, a estação rodoviária era também estação ferroviária final. Foi uma viagem de despedida de um Brasil que desaparecia, o Brasil de gente, e um outro Brasil, em que transportar gente não vale a pena. *José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar, da Universidade de Cambridge e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador Emérito do CNPq. Membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de Escravidão, em Genebra (1996-2007. Entre outros livros, é autor de “Desavessos” (Editora Com Arte). "Em 1983, fui a Goiás Velho a trabalho. Decidi levar a família e ir de trem para que minhas filhas tivessem a oportunidade de fazer uma viagem dessas. Da Luz fomos a Campinas, onde fizemos baldeação para o trem que de lá ia até Brasília, duas cabinas-dormitório, conectadas, com banheiro e lavabo, carro-restaurante. Em Brasília, a estação rodoviária era também estação ferroviária final. Foi uma viagem de despedida de um Brasil que desaparecia, o Brasil de gente, e um outro Brasil, em que transportar gente não vale a pena. *José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar, da Universidade de Cambridge e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador Emérito do CNPq. Membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de Escravidão, em Genebra (1996-2007. Entre outros livros, é autor de “Desavessos” (Editora Com Arte)." * _'Brazileiros são tõ bonzinhos, ouvido em Xangai, em tradução livre do mandarim'_* https://gilvanmelo.blogspot.com/2026/06/que-trem-e-esse-por-jose-de-souza.html#more Leonardo Trevisan: 'O pensamento progressista precisa discutir política de defesa' TV 247 23 de jun. de 2026 Entrevistas Especiais Os jornalistas Sara Goes, Andrea Trus e Joaquim de Carvalho recebem convidados especiais e debatem as principais notícias do Brasil e do mundo. No painel, Florestan Fernandes Júnior, Jeferson Miola, Mario Vitor Santos e Tereza Cruvinel analisam os grandes fatos da política e da economia. Paulo Moreira Leite também comentam sobre os grandes fatos do dia. Pedro Paiva e Marcia Carmo fazem a cobertura a partir de Nova Iorque e Buenos Aires.
Leonardo Trevisan: 'O pensamento progressista precisa discutir política de defesa' Professor analisa o avanço da direita na América Latina e o peso crescente da China na região 24 de junho de 2026, 10:49 hAtualizado em 24 de junho de 2026, 10:50 h 247 - Em entrevista ao programa Boa Noite 247, o professor Leonardo Trevisan analisou o avanço da extrema direita na América Latina, a disputa entre Estados Unidos e China na região e a necessidade de o campo progressista abandonar o tabu em torno da política de defesa. Para Trevisan, a ascensão de governos e candidatos de direita no continente não pode ser compreendida apenas pela lente ideológica. Segundo ele, há um elemento econômico incontornável: a dependência dos países latino-americanos das commodities e do mercado chinês. “Em vez de olhar para eles a partir da ideologia, eu olho para eles a partir do bolso”, afirmou. “Todos esses países dependem essencialmente do bom humor chinês para comprá-las.” O professor sustentou que a China está “especialmente instalada” na América Latina e que isso limita a capacidade de governos alinhados a Washington de simplesmente virarem as costas ao Brasil ou ao eixo econômico regional. Ele citou como exemplo a integração produtiva entre Brasil e Argentina, especialmente no setor automotivo, que continuaria existindo independentemente de quem ocupe o Palácio do Planalto ou a Casa Rosada. “Pouco importa o inquilino que está no Palácio do Planalto ou na Casa Rosada. A Fiesp daqui e a Fiesp de lá têm interesses em comum”, disse. Trevisan também avaliou que as vitórias recentes da direita no continente não nasceram apenas das urnas, mas sobretudo das redes sociais. Em sua visão, o celular tornou-se uma ferramenta decisiva para destruir posições de centro e ampliar a polarização política. “Essas vitórias não aconteceram na urna. Essas vitórias aconteceram no celular”, afirmou. “É uma vitória do celular que destruiu as posições de centro na América Latina.” Ao comentar a polarização na Colômbia, Trevisan observou que a sociedade não está simplesmente dividida em dois blocos equivalentes. Para ele, a abstenção revela a existência de uma parcela expressiva da população que não aderiu a nenhum dos polos. “Quando a gente fala que a Colômbia está dividida no meio, não. A Colômbia tem três terços. E um terço não aceitou os outros dois”, declarou. O professor também chamou atenção para o crescimento da produção de coca na Colômbia e para a sofisticação econômica do crime organizado. Segundo ele, os grupos criminosos já operam em mercados financeiros, lavam dinheiro e retornam fortalecidos para outras atividades. Nesse contexto, Trevisan defendeu que a esquerda e o campo progressista passem a discutir seriamente a defesa nacional. Para ele, fugir desse debate significa deixar um tema estratégico nas mãos da direita. “O pensamento progressista precisa discutir política de defesa. Se o pensamento progressista não discutir política de defesa, ele será engolido”, afirmou. Trevisan citou o Atlântico Sul como área central para a soberania brasileira e disse que o Brasil é peça essencial no tabuleiro estratégico regional. Segundo ele, a relação entre militares brasileiros e norte-americanos também precisa ser compreendida à luz da disputa com a China. “O Brasil é essencial para a segurança do Atlântico Sul. É fundamental”, declarou. Na parte final da entrevista, o professor defendeu a reconstrução de um centro democrático, capaz de dialogar tanto com a centro-esquerda quanto com a centro-direita. Para ele, sem enfrentar a desigualdade estrutural e o patrimonialismo latino-americano, a região continuará vulnerável a saídas autoritárias e falsas promessas de segurança. “Ou nós reconstruímos o centro democrático de centro-esquerda e centro-direita, ou nós não vamos a lugar nenhum”, afirmou. Trevisan também criticou a estrutura tributária brasileira, que pesa sobre o consumo e penaliza os mais pobres. Em sua avaliação, qualquer projeto democrático consistente precisa enfrentar a desigualdade de renda e a baixa conversão da carga tributária em bem-estar social. Ao concluir, o professor ironizou a crescente influência chinesa na economia regional e afirmou que as elites latino-americanas terão de se adaptar ao novo cenário geopolítico. “A escola de mandarim tem futuro”, disse. “A elite aqui e o nosso negócio vão acabar tendo que aprender mandarim.”