Mundo em Mutação
Inspirados já nos ensinamentos de Sófocles, aqui, procurar-se-á a conexão, pelo conhecimento, entre o velho e o novo, com seus conflitos. As pistas perseguidas, de modos específicos, continuarão a ser aquelas pavimentadas pelo grego do período clássico (séculos VI e V a.C).
terça-feira, 22 de setembro de 2026
Em uma frase: o texto defende que o Brasil deveria ir além da dicotomia “EUA versus Sul Global”, construindo uma política externa soberana, democrática e pragmática — “outro Ocidente, nunca anti-Ocidente”.
OS MODERADOS DECIDIRÃO
Marília de Dirceu e o Neto de Tancredo nas Eleições ao Senado
Oh, Minas Gerais!
Em Minas, o Dirceu da candidata ao Senado evoca a própria história mineira. Em outubro de 2026, quem decidir votar no neto de Tancredo para o Senado também poderá contar com o Dirceu de Marília na outra vaga.
São as regras do jogo. Como as coligações hoje são permitidas apenas para os cargos majoritários — e totalmente proibidas nas proporcionais —, o xadrez político permite essas composições peculiares. Para o Senado, o Governo do Estado e a Presidência, a conversa é outra. São outros quinhentos tostões, ou mil-réis... Quem vai saber!
Corolário Inconfidente: Marília em Campos e Ouro
passam homens, brasões, bandeiras...
O neto do mito na estrada fica,
trocando a herança por sesmarias estrangeiras.
Volta-se os olhos ao mar de outrora,
onde o consórcio do poder se desfaz:
quem se aliou ao vento de fora,
perdeu o rumo das Minas Gerais.
que a São Paulo entrega o seu destino,
andando à margem da própria história,
feito emboaba, feito peregrino.
Atado ao laço de um pernambucano,
em solo paulista busca o seu porto;
mas no xadrez de um destino humano,
quem deixa a terra, já colhe o horto.
onde o ouro se esconde sob o chão bruto,
fica Marília, firme em seus Campos,
colhendo o voto, lavrando o fruto.
Não precisa do vulto que se ausenta,
nem do fantasma que virou poeira;
sua raiz é que a sustenta,
dona e senhora da sua trincheira.
Corolário: Se a fresta do tempo separa os amantes e os partidos, a lição que se extrai do destino de outubro é clara como a água dos ribeirões mineiros: as posses mudam, os impérios caem e os homens se tornam forasteiros da própria terra quando dela se apartam. Mas Marília de Dirceu, senhora de si em seus Campos e fincada nas Minas do Ouro, não carece de consortes idos. Ela segue só, pois compreendeu, no silêncio das montanhas, que em Minas o poder não se transfere por herança: ele pertence a quem guarda o território e não deserta de sua própria província.
Ai, ai, ai! Está chegando a hora! Outubro já vem chegando, meu bem...
Quem parte leva saudades, quem fica lavra o ouro nos quintos do inferno.
segunda-feira, 21 de setembro de 2026
Está chegando a hora
domingo, 20 de setembro de 2026
Excelentíssima Senhora Ministra
Excelentíssima Senhora Ministra
A Diplomacia do Direito e o Tempero Ancestral do Povo Brasileiro
- O Rigor da Toga: Excelentíssima Senhora Ministra Cármen Lúcia, guardiã da Constituição Federal no Supremo Tribunal Federal.
- O Eco das Nações: Brasiliana, Brasiliense, brasileña, Brazilian, brésilienne, Brasilianerin — a universalidade da Justiça que ecoa do sertão ao mundo.
- O Dendê de Itaparica: A baianidade legítima que traz o axé, o barro de Canudos, a crônica e o riso de João Ubaldo Ribeiro.
- A Voz do Brasil Profundo: A comunhão solene com os legítimos espíritos, caboclos e gentes que fundaram a alma viva do povo brasileiro.
As desculpas de Cármen Lúcia
Uma crônica brasileira entre o Supremo, João Ubaldo Ribeiro e os espíritos
“Peço desculpas ao povo brasileiro, que talvez tenha esperado de mim uma postura diferente”, disse a ministra Cármen Lúcia na sessão do STF.
Por um instante, imaginei que a ministra iria emendar algo como: “desculpa pelos desvios éticos” ou, quem sabe, “pela nossa recusa de investigar qualquer coisa” ou, ainda, “pelos sete anos de inquérito das fake news”.
Mas não.
As desculpas eram por “não ter ajudado a acalmar as coisas”, no tribunal.
E foi justamente aí que a imaginação, essa velha desocupada que tantas vezes salva o brasileiro do tédio, resolveu pedir a palavra.
O aparte
Emulemos aqui dois apartes de um mesmo espírito de luz presente na sessão do dia 15 de setembro de 2026, pedindo, dentro dos Regimentos da Casa, diretamente ao presidente da Sessão um aparte para se dirigir à “Excelentíssima Ministra Brasiliana, Brasiliense, brasileña, Brazilian, brésilienne, Brasilianerin e baiana Lúcia, para saudá-la em nome dos espíritos brasileiros”.
Como assim o autor de Viva o Povo Brasileiro se referira à aparteada, e como assim, por uma dessas artes que somente a República e o além conseguem praticar conjuntamente, foi lavrado esse aparte nos anais do STF pela taquígrafa de plantão naquela histórica sessão.
— Excelentíssimo Senhor Presidente da Sessão, Ministros e Ministras desta Suprema Casa, povo brasileiro aqui presente em corpo, espírito ou por intermédio de seus representantes, venho, com a devida vênia e o respeito que me impõe a liturgia deste augusto recinto, requerer um aparte.
— Concedido, Excelência.
— Agradeço. E peço licença para me dirigir à Excelentíssima Ministra Brasiliana, Brasiliense, brasileña, Brazilian, brésilienne, Brasilianerin e baiana Cármen Lúcia, para saudá-la em nome dos espíritos brasileiros, dos vivos e dos mortos, dos que ainda não nasceram e dos que nasceram mas já desistiram de entender o Brasil.
Consta, aliás, que o próprio João Ubaldo Ribeiro, lá de onde se encontram os escritores quando o mundo já não lhes cobra prazo de entrega, terá feito chegar uma mensagem, não se sabe por qual pombo-correio metafísico, pela qual dizia:
— Minha filha, não se apoquente. O Brasil é assim mesmo. Quando o brasileiro espera uma explicação, recebe uma cerimônia. Quando espera uma cerimônia, recebe um discurso. E quando espera um discurso, recebe um aparte.
Ao que se ouviu, em algum plano mais elevado, a voz de um antigo taquígrafo:
— Registre-se em ata.
E o taquígrafo, que já havia sido funcionário público em vida e portanto conhecia a extensão do problema, acrescentou:
— Registre-se também que ninguém entendeu, mas todos concordaram que era importante.
A serenidade
A Ministra, então, agradeceu a homenagem com aquela gravidade própria dos que sabem que a História não é apenas o que se passa, mas também o que se manda registrar.
— Senhor aparteante, agradeço a manifestação. Mas devo dizer que o Brasil precisa de serenidade, de respeito às instituições e de compreensão mútua.
— Excelência, permita-me insistir, sem abusar da paciência da Casa. É precisamente em nome da serenidade que vos falo. Porque há uma serenidade que vem da paz e outra que vem do esgotamento. Há a serenidade dos sábios e a dos que já não têm forças para discutir. Há, inclusive, a serenidade do cidadão que, tendo pago seus impostos, descobriu que também precisava pagar para compreender o que se passa no tribunal.
— Vossa Excelência está fazendo uma consideração política?
— Não, Excelência. Estou fazendo uma consideração brasileira. A política é que, porventura, tenha se apropriado dela.
Nesse momento, o espírito de um antigo deputado baiano, cuja identidade não se conseguiu apurar, pediu a palavra. Como não estava presente fisicamente, o Presidente consultou o Regimento e verificou que não havia previsão expressa para apartes do além.
Mas, considerando a excepcionalidade da ocasião, decidiu ouvir a manifestação, desde que não se convertesse em precedente.
— Excelentíssimos — disse o espírito, que falava com a voz de quem já havia passado por muitas Constituições —, o Brasil é um país onde a esperança tem foro privilegiado, a indignação paga custas e a memória é frequentemente distribuída em segredo de justiça.
Houve um silêncio.
Não aquele silêncio majestoso das grandes decisões, mas o silêncio ordinário de uma sala onde alguém disse uma coisa que todos entenderam e ninguém desejava comentar.
— Peço desculpas ao povo brasileiro — disse a Ministra, retomando a palavra — se minha postura não contribuiu para acalmar os ânimos.
E o espírito, que já ia se retirando, voltou-se para o plenário:
— Eis a grande questão, Excelência. O povo brasileiro não é contra a calma. O povo brasileiro é contra a obrigação de permanecer calmo enquanto lhe explicam que tudo está em ordem.
O Presidente da Sessão consultou novamente o Regimento.
— Não consta.
— Então acrescente-se aos anais — disse o espírito.
João Ubaldo entra em cena
Foi nesse momento que o autor de Viva o Povo Brasileiro, que até então permanecera em discreta suspensão etérea, resolveu manifestar-se.
— Vossas Excelências me perdoem, mas não posso deixar de observar que o povo brasileiro tem uma vocação extraordinária para a paciência. Paciência com o governo, com a oposição, com a Justiça, com a falta de Justiça, com o excesso de Justiça e com a explicação de que tudo isso faz parte do funcionamento normal das instituições.
— O senhor está fazendo uma crítica ao Supremo? — perguntou alguém.
— Não, meu caro. Estou fazendo uma crítica ao destino. O Supremo é apenas uma das repartições onde o destino costuma protocolar seus requerimentos.
E prosseguiu:
— Mas não se enganem: o brasileiro não quer que suas instituições percam a dignidade. Quer apenas que a dignidade não seja confundida com a ausência de respostas. Quer que a solenidade não substitua a clareza. Quer que o respeito seja recíproco. E, sobretudo, quer que, quando alguém lhe peça desculpas, saiba exatamente pelo quê.
A Ministra baixou os olhos.
Não se sabe se em reflexão, se em cansaço ou se para consultar algum documento.
O Presidente declarou:
— A Casa agradece o aparte espiritual. Está encerrada a manifestação.
— Ainda não, Excelentíssimo — disse o espírito de João Ubaldo. — Falta registrar a parte mais importante.
— Qual?
— Que o Brasil continua sendo um país onde até os mortos precisam pedir licença para falar.
E, tendo dito isso, evaporou-se no éter seco da Capital Federal, deixando atrás de si apenas uma leve perturbação no ar-condicionado e a sensação de que, em algum lugar, alguém acabara de fazer uma pergunta que o Regimento não previa.
O aparte de Emmanuel
Foi então que, quando todos julgavam encerrada a sessão, uma outra presença se fez sentir no plenário.
Não vinha da tribuna, nem das galerias, nem dos corredores onde habitualmente se acumulam os requerimentos, as interpretações regimentais e as razões pelas quais aquilo que parece evidente precisa de cinco assinaturas para ser oficialmente reconhecido.
Era uma presença mais antiga.
Emmanuel, dizem, não pediu aparte.
Talvez porque os espíritos que já compreenderam alguma coisa não tenham muita necessidade de interromper ninguém.
Limitou-se a recordar, com a simplicidade dos que não precisam de retórica, que nenhum ato termina exatamente no momento em que é praticado.
Uma palavra áspera não fica onde foi pronunciada.
Uma injustiça não termina na pessoa que a sofreu.
Uma indulgência também não.
Uma boa ação tampouco.
Tudo se propaga.
O gesto de um homem pode endurecer dezenas de corações que o contemplam. Pode ensinar a indiferença ao que ainda era apenas ignorante. Pode desanimar aquele que vinha tentando corrigir-se. Pode tornar mais difícil a tarefa daquele que, em silêncio, procura fazer o bem.
Mas o contrário também acontece.
Uma palavra de justiça pode restituir coragem.
Um gesto de misericórdia pode interromper uma cadeia de ressentimentos.
Uma atitude verdadeiramente cristã pode ensinar, sem discurso, aquilo que nenhum discurso consegue ensinar.
E talvez fosse essa a razão de a velha sabedoria espiritual chamar a isso obra individual.
Porque ninguém se salva sozinho — mas ninguém pratica o bem sem levar consigo alguma coisa dos outros.
A pergunta que ficou
Foi então que João Ubaldo, que permanecera até aquele instante suspenso entre a ironia e a compaixão, olhou para Emmanuel e perguntou:
— Mas então, meu caro, quer dizer que até um ministro do Supremo, quando fala, produz atmosfera espiritual?
— Sobretudo ele — respondeu Emmanuel.
— E quando fala mal?
— Também.
— E quando pede desculpas?
— Também.
João Ubaldo sorriu.
— Quer dizer, então, que o problema não é apenas aquilo que se diz. É aquilo que a palavra faz com quem escuta.
Emmanuel assentiu.
— Exatamente.
E foi nesse instante que a sátira perdeu um pouco de sua graça.
Não toda.
Porque o Brasil, convenhamos, é um país que jamais deveria ser privado inteiramente da graça.
Mas perdeu aquela graça fácil que nos permite rir do erro alheio sem perguntar o que estamos fazendo nós mesmos com aquilo que acabamos de ver.
Pois há uma tentação particularmente brasileira — talvez não apenas brasileira — de transformar toda indignação em espetáculo e toda virtude em aplauso.
E nisso o espírito de Tiago parecia conversar com o de Emmanuel.
Se uma ação má pode contaminar o ambiente, uma ação boa também o pode purificar.
A pergunta, portanto, já não seria apenas:
“Pelo que se desculpa a Ministra?”
Seria outra, muito mais incômoda:
“O que estamos fazendo nós, espectadores de tudo isso, com aquilo que estamos vendo?”
Porque podemos assistir à injustiça e tornar-nos mais injustos.
Podemos assistir à arrogância e aprender a ser arrogantes.
Podemos contemplar o erro e encontrar nele uma licença para errar também.
Mas podemos, igualmente, encontrar num gesto de retidão a força para retificar alguma coisa dentro de nós.
A obra individual
E aqui o espírito de João Ubaldo voltou a sorrir.
— Então o senhor está me dizendo que, no fim das contas, cada brasileiro é um pequeno legislador do mundo espiritual?
— Se quiseres chamar assim — respondeu Emmanuel.
— Pois eu chamaria de coisa mais simples.
— Qual?
— Cada brasileiro é responsável pelo clima que ajuda a fazer.
Houve silêncio.
Desta vez, ninguém consultou o Regimento.
Nem era preciso.
Porque aquilo não dizia respeito ao Regimento.
Dizia respeito à velha e desconfortável liberdade humana de escolher o que fazer com aquilo que recebeu.
E, enquanto a sessão prosseguia, talvez sem que nenhum dos presentes percebesse, alguma coisa havia mudado.
Não no processo.
Não na ata.
Não na Constituição.
Mas naquele território invisível em que os homens se influenciam uns aos outros sem saber.
Ali, uma palavra continuava andando.
Uma desculpa continuava andando.
Uma indignação continuava andando.
Uma esperança também.
E talvez seja esse o verdadeiro sentido da obra individual:
não imaginar que podemos consertar o mundo inteiro, mas compreender que nenhum de nós atravessa o mundo sem deixá-lo, ainda que minimamente, diferente de como o encontrou.
João Ubaldo então se retirou.
Emmanuel também.
E os dois desapareceram por caminhos diferentes.
Um foi para o silêncio das regiões espirituais.
O outro, fiel à sua vocação baiana, evaporou no éter seco de Brasília, deixando atrás de si aquela espécie de pergunta que os bons espíritos costumam fazer e os maus cronistas preferem evitar:
Depois de tudo o que vimos, que espécie de espírito estamos ajudando a colocar no mundo?
Nota espiritual
Como ensina Emmanuel em Vinha de Luz, ao comentar a passagem de Tiago (5:20), os atos humanos não terminam em seus autores ou destinatários imediatos: uma ação pode produzir efeitos morais sobre aqueles que a testemunham, assim como uma boa ação pode irradiar gratidão, esperança, alegria e força para a prática do bem.
É nesse sentido que a expressão obra individual encerra esta crônica: não como uma fuga da responsabilidade coletiva, mas como a lembrança de que toda transformação coletiva começa, inevitavelmente, por atos concretos de indivíduos concretos.
“Uma boa ação, contudo, edifica e ilumina sempre.”
— Emmanuel
Brasília, no intervalo entre uma sessão e outra, onde os vivos continuam discutindo e os mortos, às vezes, ainda pedem aparte.
"Peço desculpas ao povo brasileiro, que talvez tenha esperado de mim uma postura diferente", disse a ministra Cármen na sessão do STF.Por um instante, imaginei que a ministra iria emendar algo como "desculpa pelos desvios éticos" ou, quem sabe, "pela nossa recusa de investigar qualquer coisa" ou, ainda, "pelos sete anos de inquérito das fake news. Mas não. As desculpas eram por "não ter ajudado a acalmar as coisas", no tribunal. Fernado Schüller As descupas de Cármen Lúcia Emulemos aqui dois apartes de um mesmo espírito de luz presente na sessão do dia 15 de setembro de 2026, pedindo dentro dos Regimentos da Casa diretamente ao presidente da Sessão um aparte para se dirigir à "Excelentíssima Ministra Brasiliana, Brasiliense, brasileña, Brazilian, brésilienne, Brasilianerin e baiana Lúcia, para saudá-la em nome dos espíritos brasileiros", como assim o autor de Viva o Povo Brasileiro se referira à aparteada e foi lavrado esse aparte nos anais do STF pela taquígra de plantão naquela histórica sessão do STF. COMPLETAR O RESTO DESSA INTERAÇÃO ESPIRITUAL COM O DOM E A GRAÇA CONSERVADA DE JOÃO UBALDO RIBEIRO, QUE DEPOIS EVAPOROU NO ÉTER SECO DA CAPITAL DO BRASIL. html(...) e foi lavrado esse aparte nos anais do STF pela taquígrafa de plantão naquela histórica sessão do STF, prosseguindo-se o registro da seguinte forma:
"Concedida a vênia pelo Presidente da Sessão, que olhava para os lados caçando com os olhos a origem daquela voz com retórica de mar grande, o éter da alta Corte estremeceu. Não era voz de se desprezar; vinha com cheiro de marisco, fumo de rolo e uma erudição que botava qualquer bacharel de fraque no chinelo. O espírito do autor de Viva o Povo Brasileiro, ajeitando uns óculos invisíveis na fumaça, pigarreou e continuou seu aparte direto à Excelentíssima baiana de coração:
— Minha senhora, folgo em ver que nesta moldura de mármores frios e gravatas engomadas ainda há quem guarde o sotaque das gentes e a coragem de se envergonhar pelo país. Mas olhe lá: não gaste toda a sua bile nem sua melancolia com as misérias desses doutores. O Brasil, de que tanto falo e de quem os senhores julgam a capa, não cabe em processo eletrônico nem se resolve em latim de missa rezada por defunto. O povo brasileiro, essa misturada de caboclo com fidalgo, de santo com capeta, resiste até ao Supremo! Peça desculpas, sim, que a fidalguia exige, mas não perca o prumo. Mantenha o dendê firme na sua toga, porque o julgamento da História é mais demorado e não aceita pedido de vista!
Houve um silêncio de missa de sétimo dia no plenário. O Ministro Flávio Dino entreabriu os lábios, Gilmar Mendes ajeitou a postura, e a Ministra, esboçando um quase sorriso de quem reconhece o axé da própria terra, tencionou responder. Mas não houve tempo.
O espectro ubaldiano, soltando uma última baforada de fumaça perfumada com maresia de Itaparica e cachaça da boa, desfez-se no ar condicionado impiedoso do Planalto Central. Evaporou-se no éter seco da capital do país, deixando os ministros a coçar as calvas, a taquígrafa atônita diante das teclas e o tribunal entregue, novamente, à secura formal do Diário da Justiça."
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