terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Tempo, omissão e verdade institucional: o STF entre a racionalidade jurídica e a racionalidade epistêmica

"No xadrez, não tem como voltar atrás. Cada movimento tem consequência. Eles começam a entender isso e levam para outras situações" Cícero Tavares da Silva Agente educacional
Na Casa Juquiá, 12 adolescentes comandam Associação de Xadrez
Leia na íntegra o discurso de Fachin na abertura do Ano Judiciário Presidente do STF destacou compromisso com integridade institucional e anunciou Cármen Lúcia como relatora da proposta de um Código de Ética da Corte Por Pedro Pupulim 2 fev 2026, 14h56 • Leia mais em: https://veja.abril.com.br/brasil/leia-na-integra-o-discurso-de-fachin-na-abertura-do-ano-judiciario/
Clube de xadrez transforma rotina de jovens na Fundação Casa e vira ferramenta de ressocialização Iniciativa em unidade no Brás proporciona a jovens reeducandos o desenvolvimento de habilidades sociais e cognitivas por meio do enxadrismo durante a privação de liberdade Compartilhe: Por Rodrigo Sampaio 27/01/2026 | 05h30 Atualização: 27/01/2026 | 10h06
Supremo Tribunal Federal "Os ministros respondem pelas escolhas que fazem, as decisões que nós todos tomamos, os casos que priorizamos, a forma como nos comunicamos. Tudo isso importa." Presidente do STF Luiz Edson Fachin ⚖️ Poder Justiça | O presidente do STF, Edson Fachin, afirmou na abertura do Ano Judiciário, nesta 2ª feira (2.fev.2026), que o Supremo inicia o ano sob o desafio de reforçar a responsabilidade institucional, a clareza de limites e a fidelidade absoluta à Constituição. Em seu discurso, destacou que momentos de adversidade exigem mais do que retórica e defendeu o respeito à liberdade de expressão e de imprensa, que classificou como pilares do debate público e da democracia. Fachin lembrou episódios históricos de interferência autoritária no Judiciário para ressaltar que a legitimidade do Tribunal depende de não ceder por conveniência nem errar por omissão. O ministro reconheceu que o STF assumiu protagonismo relevante nas últimas décadas, especialmente em crises institucionais, mas avaliou que chegou o momento de retomar a construção institucional de longo prazo e induzir o fortalecimento do sistema político. Um relógio que registra prazos e apaga certezas
As recentes audiências conduzidas pelo ministro Dias Toffoli no âmbito das investigações sobre a liquidação do Banco Master revelam mais do que um episódio técnico de fiscalização financeira. Elas expõem, de forma particularmente clara, uma concepção de verdade própria do Direito, fundada na centralidade do tempo processual, da datação dos atos e da identificação de omissões como elementos constitutivos da responsabilidade institucional. Ao interrogar o diretor do Banco Central, Ailton de Aquino, o ministro registrou como “a pergunta mais importante do processo” a questão da tempestividade: “Sem data, não existe tempestividade. Com data, surgem imediatamente as omissões”. A afirmação não é apenas retórica. Ela condensa uma epistemologia jurídica específica, na qual o conhecimento relevante não é aquele que simplesmente corresponde aos fatos, mas aquele que se manifesta no momento processual adequado. No âmbito do Direito, especialmente em instâncias como o Supremo Tribunal Federal, o tempo não é um pano de fundo neutro. Ele opera como um critério normativo de validade. A ausência de uma data precisa não implica apenas incerteza factual, mas a impossibilidade mesma de qualificação jurídica do ato. A omissão, nesse contexto, não é um silêncio contingente, mas uma forma de existência negativa: aquilo que deveria ter sido dito, registrado ou comunicado em determinado prazo e não o foi. Omissão como categoria ontológica do Direito As reportagens mostram que Toffoli buscou identificar contradições e lacunas nos depoimentos, especialmente no que diz respeito ao momento em que o Banco Central teria detectado irregularidades nas carteiras de crédito consignado do Banco Master e à eventual demora na adoção de medidas mais drásticas, como a liquidação da instituição. A pergunta subjacente não é apenas “o que se sabia”, mas “quando se soube” — e, sobretudo, “o que se fez (ou deixou de fazer) a partir desse saber”. Essa lógica evidencia uma ontologia jurídica particular: o fato jurídico não preexiste ao processo, mas é produzido por ele. Um mesmo acontecimento empírico pode assumir significados radicalmente distintos conforme sua inscrição temporal no procedimento. A omissão, assim, torna-se uma entidade juridicamente relevante não por seu conteúdo material, mas por sua posição no encadeamento formal dos atos. A racionalidade científica e o estatuto distinto do tempo Essa concepção contrasta fortemente com aquela predominante na filosofia da ciência, como discutido pelo professor da UFMG no vídeo referido. No campo científico, o tempo não funciona como critério de validade normativa, mas como variável contextual. Um dado tardio pode ser decisivo; uma ausência de resposta pode indicar prudência metodológica; uma lacuna pode ser reconhecida explicitamente como limite provisório do conhecimento. Enquanto o Direito associa omissão à falha institucional, a Ciência frequentemente associa omissão à honestidade epistêmica. Não dizer o que não se pode demonstrar é, muitas vezes, condição de rigor, não de culpa. A verdade científica é concebida como provisória, revisável e dependente de métodos de validação que transcendem o simples registro temporal. Dois regimes de verdade em tensão As audiências do STF, tal como descritas nas reportagens, tornam visível a coexistência — nem sempre pacífica — de dois regimes de verdade: O regime jurídico, no qual: a verdade é processual, o tempo é normativo, a omissão é indício de responsabilidade, e a data confere existência ao fato. O regime científico, no qual: a verdade é provisória, o tempo é histórico e experimental, a omissão pode ser metodológica, e o critério central é a justificabilidade racional. O conflito não está em qual regime é “superior”, mas no risco de transposição indevida de categorias. Avaliar práticas técnicas e científicas exclusivamente com critérios de tempestividade jurídica pode levar à judicialização da incerteza. Por outro lado, importar a lógica da indeterminação científica para o Direito pode diluir responsabilidades institucionais que dependem justamente de prazos, deveres e registros formais. Considerações finais O episódio envolvendo o STF, o Banco Central e a liquidação do Banco Master não deve ser lido apenas como um embate entre versões administrativas. Ele funciona como um caso exemplar das diferentes ontologias do tempo e da verdade que estruturam nossas instituições. O Direito exige decisões no tempo certo; a Ciência avança reconhecendo seus atrasos e limites. O desafio contemporâneo está menos em escolher entre uma ou outra racionalidade e mais em reconhecer seus limites próprios, evitando que uma pretenda julgar a outra segundo critérios que lhe são estranhos. Nesse sentido, a insistência de Dias Toffoli na data e na omissão não é um desvio, mas a expressão coerente de uma racionalidade jurídica. O problema começa apenas quando esquecemos que, fora do processo, o tempo — e a verdade — obedecem a outras lógicas. S Assista à íntegra do discurso de Fachin na abertura do Ano Judiciário Poder360 2 de fev. de 2026 #stf #fachin 💡 O QUE É IMPORTANTE SABER: ⚖️ Poder Justiça | O presidente do STF, Edson Fachin, afirmou na abertura do Ano Judiciário, nesta 2ª feira (2.fev.2026), que o Supremo inicia o ano sob o desafio de reforçar a responsabilidade institucional, a clareza de limites e a fidelidade absoluta à Constituição. Em seu discurso, destacou que momentos de adversidade exigem mais do que retórica e defendeu o respeito à liberdade de expressão e de imprensa, que classificou como pilares do debate público e da democracia. Fachin lembrou episódios históricos de interferência autoritária no Judiciário para ressaltar que a legitimidade do Tribunal depende de não ceder por conveniência nem errar por omissão. O ministro reconheceu que o STF assumiu protagonismo relevante nas últimas décadas, especialmente em crises institucionais, mas avaliou que chegou o momento de retomar a construção institucional de longo prazo e induzir o fortalecimento do sistema político. 📲 Ficou interessado? Leia a reportagem no Poder360: https://www.poder360.com.br/poder-jus... #stf #fachin Leia na íntegra o discurso de Fachin na abertura do Ano Judiciário Presidente do STF destacou compromisso com integridade institucional e anunciou Cármen Lúcia como relatora da proposta de um Código d... Leia mais em: https://veja.abril.com.br/brasil/leia-na-integra-o-discurso-de-fachin-na-abertura-do-ano-judiciario/
Troca de recados pauta abertura dos trabalhos no Supremo e no Congresso Publicado em 03/02/2026 - 08:25 Luiz Carlos Azedo Brasília, Congresso, Eleições, Ética, Governo, Justiça, Partidos, Política, Política A abertura dos trabalhos de 2026 no Legislativo e no Judiciário foi um ensaio geral do conflito entre Poderes que antecederá a campanha eleitoral O que não faltou foi troca de recados entre os chefes de Poderes, ontem, na abertura dos trabalhos do Congresso e do Supremo Tribunal Federal (STF). Apesar de protocolares, os discursos do presidente STF, ministro Édson Fachin, e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no Supremo, e dos presidentes do Congresso, Davi Alcolumbre (União-AP), e da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), no plenário da Câmara, deram o tom do que vai acontecer nos próximos meses, que antecedem a campanha eleitoral. Politicamente, o destaque foi o anúncio de que a ministra Carmem Lúcia será a relatora do projeto de Código de Ética do Supremo, o que sinalizou a disposição de Fachin de enfrentar a resistência de seus pares a adoção de medidas para “autocontrolar” o Judiciário. STAN GETZ & BILL EVANS_NIGHT AND DAY Recados em tom maior A abertura dos trabalhos de 2026 no Supremo Tribunal Federal e no Congresso Nacional produziu menos solenidade vazia do que aparentou à primeira vista. Sob discursos protocolares, houve troca calculada de recados entre chefes de Poderes, cada qual falando para públicos distintos, mas atentos ao mesmo horizonte: a campanha eleitoral que se aproxima e o desgaste acumulado das instituições. No Judiciário, o presidente do STF, Edson Fachin, buscou reposicionar a Corte num momento sensível. Ao anunciar a ministra Cármen Lúcia como relatora do Código de Ética — não mais de “conduta” — e ao fixar cronograma para o debate, Fachin assumiu compromisso público que vai além do gesto simbólico. Reconheceu, ainda que sem autocrítica explícita, que o Supremo chegou a um ponto de saturação de protagonismo e que sua legitimidade já não se sustenta apenas na retórica da defesa da democracia. Não foi um discurso conciliador, tampouco beligerante. Foi um movimento de contenção: menos volume, mais gravidade. Ao falar em autocorreção, transparência e responsabilidade pelas escolhas da Corte, Fachin sinalizou que o tempo do improviso acabou. A reação interna — entre ministros que veem o código como engessamento — indica que a tensão não é apenas entre Poderes, mas dentro do próprio Supremo. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao falar no STF, afinou-se a esse registro. Seu discurso reforçou a aliança simbólica entre Executivo e Judiciário na defesa da ordem constitucional, sobretudo ao exaltar as condenações relacionadas à tentativa de golpe. Ao mesmo tempo, respondeu às críticas de ativismo judicial ao sustentar que o Supremo não usurpou funções, mas cumpriu dever constitucional. Ao alertar para abusos eleitorais, desinformação e uso indevido de plataformas digitais, Lula introduziu um elemento de pressão concreta sobre a Justiça Eleitoral. Formalmente, não é candidato; politicamente, já atua como tal. Sua fala deslocou o debate para o terreno regulatório, antecipando conflitos que atravessarão 2026. A cobrança foi clara, ainda que envolta em linguagem institucional. No Congresso, o tom foi outro, mas o movimento convergiu. Davi Alcolumbre, no Senado, e Hugo Motta, na Câmara, reafirmaram o Legislativo como polo de resistência tanto ao Executivo quanto ao Judiciário. Ao insistirem que harmonia não significa subordinação, projetaram o Parlamento como centro de gravidade do sistema político, reagindo ao que consideram compressão de suas prerrogativas por decisões judiciais e por disputas em torno do controle orçamentário. A menção velada à sabatina pendente de Jorge Messias para o STF não foi casual. O recado foi direto: o Senado não abrirá mão do poder de veto político sobre a composição da Corte. Em ano eleitoral, esse instrumento tende a ser usado como moeda institucional, não como rito formal. O que se viu, portanto, foi um mesmo fato — uma mesma solenidade — produzindo versões distintas, engenhosas e solenes, conforme o observador e o palco. Não houve afonia nem consenso. Houve arranjo. Cada Poder tocou seu instrumento, em tempos diferentes, mas atento ao compasso comum imposto pelo calendário eleitoral e pela disputa por legitimidade. Baixou-se o tom, mas não o teor. O tamborim soou mais contido, porém audível. Em Brasília, como se sabe, o que importa não é quem fala mais alto, mas quem marca o ritmo. Fachin 'saiu do muro' em discurso na abertura do ano no Judiciário Tempo, omissão e verdade institucional: o STF entre a racionalidade jurídica e a racionalidade epistêmica “No xadrez, não tem como voltar atrás. Cada movimento tem consequência. Eles começam a entender isso e levam para outras situações.” Cícero Tavares da Silva Agente educacional 🔗 Leitura relacionada: Na Casa Juquiá, 12 adolescentes comandam Associação de Xadrez Leia na íntegra o discurso de Fachin na abertura do Ano Judiciário Presidente do STF destacou compromisso com a integridade institucional e anunciou Cármen Lúcia como relatora da proposta de um Código de Ética da Corte Por Pedro Pupulim 🗓 2 de fevereiro de 2026, 14h56 🔗 https://veja.abril.com.br/brasil/leia-na-integra-o-discurso-de-fachin-na-abertura-do-ano-judiciario/ Clube de xadrez transforma rotina de jovens na Fundação Casa e vira ferramenta de ressocialização Iniciativa em unidade no Brás proporciona a jovens reeducandos o desenvolvimento de habilidades sociais e cognitivas por meio do enxadrismo durante a privação de liberdade Por Rodrigo Sampaio 🗓 27/01/2026 – 05h30 🔄 Atualização: 27/01/2026 – 10h06 “Os ministros respondem pelas escolhas que fazem, as decisões que nós todos tomamos, os casos que priorizamos, a forma como nos comunicamos. Tudo isso importa.” ⚖️ Poder Judiciário Na abertura do Ano Judiciário, em 2 de fevereiro de 2026, o presidente do STF, Edson Fachin, afirmou que o Supremo inicia o ano sob o desafio de reforçar a responsabilidade institucional, a clareza de limites e a fidelidade absoluta à Constituição. Defendeu a liberdade de expressão e de imprensa como pilares do debate público e da democracia, lembrando episódios históricos de interferência autoritária no Judiciário. Reconheceu o protagonismo do STF nas últimas décadas, mas avaliou que é hora de retomar a construção institucional de longo prazo e induzir o fortalecimento do sistema político. Um relógio que registra prazos e apaga certezas As recentes audiências conduzidas pelo ministro Dias Toffoli, no âmbito das investigações sobre a liquidação do Banco Master, revelam mais do que um episódio técnico de fiscalização financeira. Elas expõem uma concepção de verdade própria do Direito, fundada na centralidade do tempo processual, da datação dos atos e da identificação de omissões como elementos constitutivos da responsabilidade institucional. Ao interrogar o diretor do Banco Central, Ailton de Aquino, Toffoli registrou como “a pergunta mais importante do processo” a questão da tempestividade: “Sem data, não existe tempestividade. Com data, surgem imediatamente as omissões.” No Direito, o tempo não é pano de fundo neutro. Ele funciona como critério normativo de validade. A omissão, nesse contexto, não é silêncio contingente, mas uma forma de existência negativa: aquilo que deveria ter sido feito, registrado ou comunicado dentro de um prazo e não o foi. Omissão como categoria ontológica do Direito A questão central não é apenas o que se sabia, mas quando se soube — e, sobretudo, o que se fez ou deixou de fazer a partir desse saber. O fato jurídico não preexiste ao processo: ele é produzido por ele. A omissão torna-se juridicamente relevante não por seu conteúdo material, mas por sua posição no encadeamento formal dos atos. A racionalidade científica e o estatuto distinto do tempo Na ciência, o tempo não é critério normativo de validade. Um dado tardio pode ser decisivo; uma omissão pode indicar rigor metodológico. Enquanto o Direito associa omissão à falha institucional, a ciência frequentemente associa omissão à honestidade epistêmica. Dois regimes de verdade em tensão Regime jurídico Verdade processual Tempo normativo Omissão como responsabilidade Data como condição de existência do fato Regime científico Verdade provisória Tempo histórico e experimental Omissão metodológica possível Centralidade da justificabilidade racional O risco está na transposição indevida de categorias entre esses regimes. Considerações finais O episódio envolvendo o STF, o Banco Central e o Banco Master ilustra diferentes ontologias do tempo e da verdade que estruturam nossas instituições. O Direito exige decisões no tempo certo; a ciência avança reconhecendo seus atrasos e limites. O desafio está em reconhecer os limites próprios de cada racionalidade. 🎥 Vídeo – discurso de Fachin na íntegra https://www.youtube.com/watch?v=Wzbi4qE0YEk Troca de recados entre os Poderes 🔗 Troca de recados pauta abertura dos trabalhos no Supremo e no Congresso Luiz Carlos Azedo — 03/02/2026 A abertura dos trabalhos de 2026 no Legislativo e no Judiciário foi um ensaio geral do conflito entre Poderes que antecederá a campanha eleitoral. Recados em tom maior A solenidade revelou menos ritual e mais arranjo institucional. Fachin sinalizou autocontenção e responsabilidade; Lula antecipou disputas regulatórias; o Congresso reafirmou sua autonomia. Baixou-se o tom, mas não o teor. Em Brasília, quem marca o ritmo importa mais do que quem fala mais alto. 🎥 Análises em vídeo Fachin “saiu do muro”: https://www.youtube.com/watch?v=nza1rV9VhWY Abertura do Ano Judiciário – Poder360 S

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Foi um Rio que Passou pelo Poder

Haddad analisa aceleração do capitalismo; leia trecho - Aceleração do capitalismo. Por Fernando Haddad Folha de S. Paulo Em 'Capitalismo Superindustrial', autor defende que inovação contínua cria ilusão que transforma superlucros em renda Fenômeno é mais visível na economia digital, mas todas as atividades econômicas estão submetidas à nova lógica
Bolsa de Valores de São Paulo (B3), onde empresas vendem ações com distribuição de dividendos B3/Divulgação CAPITALISMO NÃO ACABOU. APERTOU. O lucro mudou de forma, não de dono Não estamos vivendo o fim do capitalismo. Estamos vivendo o capitalismo levado ao máximo. Antes, a empresa inventava alguma coisa, ganhava mais por um tempo e depois o lucro caía, porque outras copiavam. Hoje é diferente. A inovação virou trabalho de todo dia. As grandes empresas mantêm equipes só para criar o novo sem parar. O lucro alto deixou de ser exceção. Virou rotina. O centro da riqueza também mudou. Não é mais só a máquina, o galpão ou o estoque. É o conhecimento: software, marca, patente, informação. Isso não se gasta com o uso e pode ser vendido milhões de vezes. Quem chega primeiro abre vantagem grande. Quem atrasa fica para trás. Esse dinheiro parece renda fácil, como aluguel ou pedágio. Mas não é feudo. É lucro capitalista, só que acelerado. O que mudou não foi a regra do jogo, foi a velocidade. O lucro extraordinário ficou permanente. Esse modelo concentra poder, empresas e regiões. Onde tem conhecimento protegido, tem mando. Onde não tem, sobra disputa. Esse é o capitalismo de agora: mais rápido, mais concentrado e mais duro. Jornal do Peão Digital dos Jardins Texto para quem vive do trabalho e não de ilusão
Entre a ironia de Haddad, a coreografia do comando e o samba que ensina como a política também arrasta corações — e carreiras — sem pedir licença
domingo, 1 de fevereiro de 2026 Haddad revida com ironia antigas críticas do PT. Por Dora Kramer Folha de S. Paulo Depois de apanhar como ministro, o petista é bajulado como salvador da lavoura do partido em São Paulo Se aceitar ser candidato, precisará deixar a má vontade de lado; do contrário, será difícil entusiasmar o eleitorado Foi revelador da urgência do PT em ter candidaturas fortes nos estados assistir ao chamado da ministra Gleisi Hoffmann para que todos vistam a camisa do partido na eleição de outubro. Em particular, Fernando Haddad, segundo ela qualificado para encarar o desafio em São Paulo. Mais sintomático foi ver o sorriso de banda do ministro da Fazenda ao ser instado a comentar a declaração. "Comemoro ser elogiado por Gleisi", disse, para em seguida se desvencilhar dos microfones e entrar na portaria do ministério, deixando no ar a ironia. A cena aconteceu na quinta-feira (29) e deu a Haddad a chance de revidar as críticas que a então presidente do PT fazia a ele antes de assumir a pasta da articulação política. Na mais ácida delas, Gleisi qualificou a política conduzida pelo ministro como "austericídio fiscal". A pregação por mudança de rumo significava que Fernando Haddad traía as ideias do partido. Portanto, natural que ele se questione se compensa atender ao apelo de quem o considerou um traidor. Pois então, não servia para comandar a economia, mas serve para defender as bandeiras do petismo naquela que deve ser a mais difícil das disputas estaduais de 2026? A situação impõe um dilema ao ministro já em ritual de despedida do cargo. Sofre pressão poderosa para se engajar na luta mesmo contra vontade, mas se não ceder pode ser responsabilizado por não ter contribuído para ajudar a campanha de Lula no maior colégio eleitoral do país. Numa eleição apertada como a que se desenha, uma boa votação em São Paulo pode fazer a diferença entre o êxito e o fracasso. A despeito de haver razões adicionais para a hesitação, ele pode não querer correr o risco de incluir no currículo a quarta derrota em dez anos. Mas, se resolver arriscar —inclusive porque eleição não se decide de véspera—, Haddad vai precisar deixar o desagrado de lado. Desanimado e indo ao pleito forçado, não conseguirá convencer o eleitorado de que, mais uma vez, vale a pena tentar. Foi Um Rio Que Passou em Minha Vida Paulinho da Viola Se um dia Meu coração for consultado Para saber se andou errado Será difícil negar Meu coração tem mania de amor Amor não é fácil de achar A marca dos meus desenganos ficou, ficou Só um amor pode apagar A marca dos meus desenganos ficou, ficou Só um amor pode apagar Porém (ai, porém) Há um caso diferente que marcou num breve tempo Meu coração para sempre Era dia de Carnaval Carregava uma tristeza Não pensava em novo amor Quando alguém que não me lembro anunciou Portela, Portela O samba trazendo alvorada Meu coração conquistou Ah! Minha Portela! Quando vi você passar Senti meu coração apressado Todo o meu corpo tomado, minha alegria voltar Não posso definir aquele azul Não era do céu nem era do mar Foi um rio que passou em minha vida E meu coração se deixou levar Foi um rio que passou em minha vida E meu coração se deixou levar Foi um rio que passou em minha vida E meu coração se deixou levar! Composição: Paulinho da Viola.
Não se trata, como pode parecer à primeira vista, de um desentendimento episódico entre dois ministros de um mesmo governo. A troca de farpas é apenas o sintoma visível de uma engrenagem mais antiga e mais profunda: a disputa permanente pelo controle do sentido da lealdade dentro do poder. Fernando Haddad ocupa, nesse tabuleiro, a posição ingrata do mensageiro que compreendeu cedo demais o risco do próprio recado. Ao sentir o cheiro de golpe — não o clássico, mas o doméstico, silencioso, burocrático — reage com ironia, arma predileta dos que não dispõem do comando, mas tampouco aceitam a submissão plena. O chefe comum a ambos, experiente na arte de sobreviver aos seus, adota a estratégia que a ciência política reconhece como equilíbrio pela ambiguidade: simula apoio a um, acena ao outro, e assim impede que qualquer deles consolide capital político suficiente para prescindir de sua bênção. Governa-se, assim, não pela confiança, mas pela dependência mútua. Na história recente do partido, poucos ousaram tensionar esse arranjo. Dilma Rousseff foi exceção notável. Não por bravata, mas por método: dispunha de informações, convicção e uma leitura própria da correlação de forças. Pagou por isso. Foi lançada ao sacrifício político em nome da preservação do centro do poder e, mais tarde, privada até mesmo do prêmio menor — o Senado — para que o chefe fosse poupado de nova exposição. Outros aprenderam a lição. Gleisi Hoffmann, que já transitara pelas esferas mais altas da República, retornou ao Paraná para disputar um mandato modesto, movimento que ilustra com precisão aquilo que Darcy Ribeiro chamava de “o paraíso”: chega-se a ele, mas não se permanece sem consentimento. O partido, nesse sentido, funciona menos como comunidade de iguais e mais como hierarquia disciplinada, onde a lealdade é sempre vertical. Recorda, aqui, o velho Sargento Getúlio: a ordem desce, nunca sobe; os soldados obedecem convictos de que servem à causa, mesmo quando a causa se confunde com a preservação do comandante. A deslealdade aparente entre pares é tolerada — às vezes estimulada — desde que não ameace o vértice. Assim, a controvérsia entre ministros não deve ser lida como ruído, mas como método. Não é crise; é rotina. No fundo, ninguém disputa ideias. Disputa-se o lugar na fila da sucessão — e, sobretudo, quem terá o direito de sair dela sem ser empurrado.
"Quando eu era muito jovem, vivi uma experiência que marcaria a minha vida. Era noite de carnaval, e, naquela época, os desfiles aconteciam na Avenida Rio Branco, no centro do Rio. Eu, ainda garoto, subi, sem que ninguém percebesse, na sacada do prédio do Museu de Belas Artes e ali fiquei escondido. O dia estava amanhecendo quando olhei por cima da sacada e vi a Portela passar, feito um rio azul que se lançava rumo à Cinelândia. Muitos anos depois, a partir dessa lembrança, fiz a música “Foi um Rio Que Passou em Minha Vida”. Lembro dessa história hoje, neste #tbt pré-carnaval, para desejar a todos uma boa diversão! Esta primeira foto foi tirada no desfile do carnaval de 1957, e as demais, em outros carnavais."
Foi um Rio que Passou pelo Poder Entre a ironia de Haddad, a coreografia do comando e o samba que ensina como a política também arrasta corações — e carreiras — sem pedir licença Ilustração Fotografia de Paulinho da Viola desfilando pela Portela, em tom azul predominante, semblante sereno, olhar baixo, em meio à avenida. Imagem amplamente disponível em arquivos jornalísticos, acervos culturais e redes sociais ligadas ao carnaval e à música brasileira. (Sugestão de crédito: Acervo / Reprodução redes sociais) Resenha A troca de farpas entre Fernando Haddad e Gleisi Hoffmann, destacada no artigo de Dora Kramer, não é um episódio menor nem um conflito de vaidades. É, antes, a manifestação visível de um mecanismo antigo do poder político: a administração calculada das lealdades, o controle da sucessão e o uso da ambiguidade como método de comando. Haddad, colocado na posição de possível candidato em São Paulo após ter sido alvejado como ministro, responde com ironia — recurso clássico de quem compreende o jogo, mas percebe que o tabuleiro não lhe pertence. Gleisi, que antes o acusara de “austericídio fiscal”, reaparece como fiadora de sua candidatura, não por conversão ideológica, mas por necessidade partidária. O elogio tardio diz menos sobre Haddad e mais sobre a urgência do PT. No centro, o chefe comum a ambos mantém o equilíbrio pela indecisão calculada: acena, mas não entrega; estimula, mas não consagra. A ciência política conhece bem essa técnica — governar não pela confiança, mas pela dependência. Assim se evita que qualquer ator acumule capital político suficiente para agir por conta própria. Essa lógica não é nova. Dilma Rousseff, a única que enfrentou o centro do poder com método e informação, foi levada ao sacrifício em nome da preservação do comando. Perdeu mais do que o governo: perdeu o direito à reparação simbólica, ao Senado, para proteger aquele a quem servira. Gleisi, por sua vez, conheceu o caminho inverso: do “paraíso”, como dizia Darcy Ribeiro, ao retorno disciplinado a um mandato modesto. É aqui que o samba “Foi um Rio que Passou em Minha Vida”, de Paulinho da Viola, deixa de ser apenas trilha sonora e se torna chave interpretativa. O rio do samba não pergunta se o coração está pronto; ele passa. Na política, como na vida, não são raros os que resistem à correnteza — mas são muitos os que acabam levados por ela, alguns com resignação elegante, outros com ironia defensiva. Haddad, como o personagem do samba, carrega marcas, desenganos e uma história de derrotas que não se apagam por decreto partidário. Se aceitar o chamado, precisará fingir entusiasmo; se recusar, arcará com a culpa de não ter servido ao coletivo. O dilema não é pessoal — é estrutural. No fim, como no universo de Sargento Getúlio, a ordem desce, nunca sobe. Soldados e cabos obedecem acreditando-se leais, mesmo quando a lealdade exige o sacrifício de um par. A política segue seu curso como o rio do samba: indiferente às intenções individuais, fiel apenas ao seu próprio leito. Referências Artigo: Dora Kramer, Folha de S. Paulo Samba: “Foi um Rio que Passou em Minha Vida” — Paulinho da Viola 🔗 (link para o samba) Foi Um Rio Que Passou em Minha Vida Paulinho da Viola

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Economia do afeto: De um transformismo a outro. Por Alberto Aggio

Antipatia sente; desafeto lembra. 12 Angry Men (1957) ORIGINAL TRAILER [HD 1080p] Entre a esfera pública rarefeita e o governo dos sistemas Crise da deliberação, tecnocracia e a política que funciona enquanto a democracia hesita Epígrafe “A política moderna não exige convicções profundas, mas narrativas suficientemente verossímeis para atravessar a próxima crise.” — Max Weber, relido à luz do século XXI
Ilustração pictórica Entre a esfera pública rarefeita e o governo dos sistemas A fragmentação ruidosa da esfera pública digital contrasta com o governo silencioso dos sistemas técnicos: de um lado, a política saturada de vozes; de outro, a gestão que opera fora do debate. Introdução — quando a política fala muito e decide pouco Há momentos históricos em que a política deixa de ser travada prioritariamente no plano da deliberação pública e passa a ser administrada como um problema de engenharia institucional. Não porque os conflitos tenham desaparecido, mas porque a arena onde eles deveriam ser processados perdeu densidade, capacidade de síntese e potência orientadora. É nesse intervalo — entre a crise da esfera pública e a ascensão de perfis tecnocráticos — que se inscrevem tanto a reflexão de Marco Aurélio Nogueira quanto o fenômeno político representado por Tarcísio de Freitas. A esfera pública contemporânea se movimenta intensamente, multiplica vozes, escândalos e controvérsias, mas produz poucos efeitos políticos consistentes. O ruído substituiu o debate; a circulação acelerada de informações não se converte em opinião pública qualificada; a crítica não se transforma em orientação coletiva. A promessa habermasiana de uma esfera pública racional, capaz de organizar consensos e constranger o poder, foi profundamente afetada pela digitalização da vida social, pela fragmentação dos públicos e pela captura algorítmica da atenção. Nesse ambiente, a política deliberativa perde terreno para duas dinâmicas simultâneas: de um lado, a paralisia decisória alimentada pelo excesso de informação e pela desconfiança difusa; de outro, a mobilização precária, emocional e identitária promovida por nichos digitais, influenciadores e estratégias agressivas de marketing político. O espaço público deixa de funcionar como instância de mediação democrática e passa a operar como campo de tensão improdutiva. Quando a palavra pública perde eficácia, o procedimento avança. Quando o consenso se torna inalcançável, a gestão passa a ser apresentada como solução. O técnico ocupa o espaço deixado pelo orador; o administrador substitui o tribuno. É nesse contexto que a atual turbulência política deve ser observada: intensa em manifestações e percepções negativas, mas limitada em sua capacidade de produzir orientação coletiva. A esfera pública se agita — e, no entanto, não produz efeitos políticos consistentes. É a partir desse diagnóstico que se inicia a reflexão a seguir.
Esfera pública com pouca potência democrática Por Marco Aurélio Nogueira O Estado de S. Paulo A esfera pública se agita, mas não produz efeitos políticos. Não funciona como espaço para a formação de uma vigorosa ‘opinião pública’ Há uma nova turbulência no País. A crise Master se esparrama pelos ambientes políticos. Toffoli virou um “ministro-bomba”, que levanta suspeitas generalizadas de não isenção. Há uma percepção negativa rolando solta, a constatar que são poucos os que não têm o rabo preso. Fachin fala em “autolimitação”. O Supremo Tribunal Federal (STF) está dividido e perdendo credibilidade. O que chama a atenção é que a esfera pública se agita, mas não produz efeitos políticos. Não funciona como espaço para a formação de uma vigorosa “opinião pública”. Deve-se a Jürgen Habermas, num livro de 1962 (Mudança estrutural na esfera pública), a tese de que a participação de sujeitos bem informados e com argumentos racionais poderia fazer com que a esfera pública produzisse consensos e diretrizes para orientar a tomada de decisão dos governantes. Partidos políticos, imprensa livre, instituições democráticas e organizações da sociedade civil, ao se posicionarem na dinâmica das discussões públicas, contribuiriam de forma importante para que a cidadania ativa chegasse a conclusões politicamente orientadas. A vida digitalizada, no entanto, complicou a esfera pública. Hoje, ela é um espaço de confusão e de reduzido efeito democrático. Ao contrário, tornou-se uma espécie de aríete voltado para a imobilização e a crise das democracias. Isso deriva, em boa parte, das reverberações da revolução digital, especialmente no que diz respeito à circulação de informações e à comunicação. Vivemos hoje numa economia mundializada e controlada por grandes monopólios que, com enorme liberalidade, capturam dados e informações de governos, empresas e, em particular, de indivíduos, organizando-os em bancos de dados (“nuvens”), que se tornam indispensáveis para todos. Com isso, viram praticamente donas do mundo. Não é só: esses conglomerados são proprietários de diversas plataformas digitais. Aplicativos de entretenimento, serviços e compras estão à disposição de todos. Idem com as redes sociais. Todos trabalham para capturar dados dos usuários e colocá-los no mercado. Os usuários se convertem, assim, em fornecedores de informações, muitas vezes sem perceberem isso. Perde-se, com isso, um bocado de liberdade e autonomia, embora tudo seja feito em nome de “decisões” tomadas pelos usuários, que escolhem “livremente” o que ver, ouvir ou comprar. Toda a atenção deles, porém, passa obrigatoriamente pelos filtros e menus oferecidos pelo sistema digital. Não é difícil imaginar a dimensão contraditória desse ambiente. Ele oferece coisas que nos beneficiam e dão conforto, mas, ao mesmo tempo, provoca em cada indivíduo uma sensação de estresse informacional e de abandono da atividade reflexiva mais sistemática. O pensamento crítico fica em xeque. Em 2023, Habermas publicou Uma nova mudança estrutural da esfera publica e a política deliberativa, para atualizar sua reflexão sobre o tema. Procurou compreender o impacto que as transformações digitais tiveram na vida cotidiana e no funcionamento da democracia. Para ele, há dois processos com sinal invertido “corrompendo” a esfera pública política. Por um lado, os cidadãos estão pouco empenhados em travar o debate público. Estão cortados pela falta de tempo, pela desconfiança, pela dificuldade de processar o excesso de informação. As organizações que deveriam criar condições para um debate público ampliado fazem pouco para alimentá-lo. Os intelectuais não estão capacitados para fomentar participação cívica. Restariam os partidos políticos, mas eles estão consumidos pelo pragmatismo eleitoral. Por outro lado, a digitalização da vida provoca dispersão, fragmentação e formação de nichos que arregimentam cidadãos disponíveis, fazendo com que absorvam orientações “mobilizadoras” precárias, sustentadas por fake news e “influencers”. Essa dinâmica cria uma esfera pública paralela, “semipública”, que atua tanto para esvaziar a esfera pública geral como para “colonizá-la” de modo enviesado e paralisante. As plataformas digitais agem manipulando algoritmos que direcionam as intervenções para longe da democracia. O marketing político desenfreado também dá sua contribuição. Nesse contexto, a grande mídia fica sufocada pela “autocomunicação de massa”, embora permaneça ativa com sua atuação na produção continuada de informação. O resultado é que o espaço público se degrada. Fica congestionado por intervenções digitais alheias a exigências éticas, racionais, políticas. As falas são movidas por intenções particularistas, às vezes perversas, pelo desejo de visibilidade, por motivos político-eleitorais, por paixões ideológicas descabidas, à direita e à esquerda. As narrativas que assim se compõem ignoram a complexidade social e não oferecem horizonte político razoável. A política soçobra, amassada por ressentimentos, ódios e identidades fechadas. Desconecta-se da democracia. Isso não explica tudo, mas nos ajuda a entender por que a atual turbulência não é processada cívica e politicamente. Não é um dado definitivo, mas que aparece com clareza na situação atual. Há uma nova turbulência no País. A crise Master se esparrama pelos ambientes políticos… (segue o artigo de Marco Aurélio Nogueira na íntegra) [TRANSIÇÃO EDITORIAL SILENCIOSA] (Não titulada no impresso; apenas espaçamento gráfico.) Do colapso da deliberação ao governo dos sistemas Se a análise de Marco Aurélio Nogueira descreve o esvaziamento da esfera pública como instância democrática efetiva, o passo seguinte é observar como esse vazio é ocupado na prática. A resposta não tem sido o retorno da política deliberativa em nova chave, mas a ascensão de formas de governo que operam relativamente à margem dela. É nesse ponto que emerge, com nitidez, a figura de Tarcísio de Freitas. Tarcísio de Freitas: entre a técnica, o mito e a herança política Tarcísio construiu sua legitimidade não no embate discursivo, mas na promessa de funcionamento. Sua biografia — marcada por cerca de 17 anos no Exército, formação técnica, carreira integralmente estatal — é mobilizada como argumento moral: disciplina, execução, previsibilidade. Não há genealogia mítica; há currículo operacional. Paradoxalmente, trata-se de um dos principais defensores do liberalismo econômico sem jamais ter atuado no mercado privado competitivo. Seu liberalismo não é cultural nem identitário; é instrumental. Privatizar, conceder, terceirizar não são fins ideológicos, mas métodos de entrega. “Tarcísio não governa como quem disputa o poder, mas como quem o administra enquanto decide se vale a pena desejá-lo.”
O técnico diante dos sistemas: quando a política se retrai, a gestão ocupa o centro. PPPs: política como engenharia As Parcerias Público-Privadas são a expressão máxima desse modelo. No governo paulista, tornaram-se eixo estruturante da ação estatal. O Estado não desaparece; muda de função. Sai da execução direta, entra como regulador, garantidor e gestor de contratos. A política se converte em modelagem de sistemas. O conflito é substituído por planilhas; o antagonismo, por indicadores de desempenho. A viúva que espera e o rei que não retorna Desde o fim do governo Bolsonaro, setores da direita projetam em Tarcísio a figura do herdeiro possível. Menos rejeição, mais previsibilidade, capacidade de entrega. O próprio governador recusa o papel, reafirma lealdade, nega ambições presidenciais. Surge, então, a metáfora recorrente: a Viúva Porcina da política — aquela que foi sem nunca ter sido. A viuvez não é do líder, mas da expectativa. Quanto mais ele nega, mais o mito se fortalece. O triângulo do poder: Lula, Trump e Tarcísio Trump representa o capital privado que captura o Estado para proteger o mercado nacional. Lula encarna o corporativismo de Estado e o capitalismo de laços. Tarcísio ocupa o vértice tecnocrático: abrir o mercado interno ao capital global, reduzir funções estatais diretas, maximizar eficiência. Três projetos distintos, um mesmo sintoma: a dificuldade crescente de sustentar a política como prática deliberativa robusta. Conclusão — governar sem recompor o público Tarcísio de Freitas não é a causa da crise da esfera pública, mas um de seus produtos mais bem acabados. Governa onde a palavra falha. Funciona onde o debate emperra. Entrega onde a política hesita. Resta saber se a técnica, sozinha, pode sustentar uma democracia que fala muito, decide pouco e delega cada vez mais aos sistemas aquilo que antes exigia deliberação coletiva. Epitáfio satírico (pseudamente analítico) Aqui jaz o Agente Técnico de Sistema T.F. (1992–20XX) Função: otimização de fluxos públicos sob baixa interferência ideológica. Status: permanentemente em espera (standby). Falha crítica: neutralidade técnica confundida com ausência de decisão política. Nota final: o sistema segue operando — a democracia, em modo de manutenção. Para aprofundamento Teoria e pensamento político Weber, Habermas, Schmitt, Mounk, Piketty Instituições STF, TCE-SP, BNDES, Ministério da Infraestrutura Organismos e mercado OECD, World Bank, McKinsey Global Institute Jornalismo analítico The Economist, Financial Times, Piauí, Nexo
domingo, 1 de fevereiro de 2026 A guerra de Trump contra os EUA. Por Ruy Castro Folha de S. Paulo No passado, pela bravura e correção, um indivíduo conseguia se impor a uma maioria hostil Hoje, um ferrabrás eleito democraticamente se impõe pelo poder e hostiliza e esmaga a maioria Em "Doze Homens e uma Sentença" (1957), filme de Sidney Lumet, um jurado (Henry Fonda) consegue reverter a decisão de seus dez colegas dispostos a condenar um jovem acusado de matar o pai. Fonda, o jurado nº 8, não está convencido da culpa do rapaz e apresenta objeções que vão dobrando, uma a uma, a certeza de cada um. No fim, todos votam pela absolvição do garoto. São 95 minutos num cenário único, a sala de reunião do júri, e uma esgrima de diálogos em busca da verdade e da justiça. Em "Matar ou Morrer" (1952), de Fred Zinnemann, um xerife (Will Kane, interpretado por Gary Cooper) é avisado pelo telégrafo de que um assassino que ele prendeu anos antes foi posto em liberdade e cavalga rumo à cidade, com mais três pistoleiros, para se vingar. Serão quatro contra um. Kane, a quem a cidade devia a paz em que vivia, pede ajuda aos cidadãos e todos têm motivo para recusar. Deixado sozinho, ele encara e mata os quatro (um deles, com a ajuda de sua noiva quaker Grace Kelly), Quando a cidade vai festejá-lo, Kane tira a estrelinha do colete, atira-a ao chão e vai embora. Em "O Vento Será Tua Herança" (1960), de Stanley Kramer, um advogado (Spencer Tracy) enfrenta uma cidadezinha maciçamente evangélica e criacionista decidida a silenciar um jovem professor adepto da ciência e do evolucionismo. O filme mostra o julgamento, um duelo de argumentos entre Tracy e outro poderoso advogado (Fredric March) sobre Darwin e a Bíblia —o darwinismo era então crime no estado. O professor acaba condenado, mas a uma multa ridícula, que não o impedirá de lecionar. Eram esses os EUA que, apesar de todas as sujeiras em política internacional, éramos levados a admirar. O país em que, pela bravura e correção, um indivíduo conseguia se impor a uma maioria hostil. Hoje é o contrário: um ferrabrás se impõe pelo poder e hostiliza e esmaga a maioria. Donald Trump parece estar declarando guerra aos próprios EUA. E os americanos já não têm um Henry Fonda, um Gary Cooper e um Spencer Tracy que os defendam.
domingo, 1 de fevereiro de 2026 De um transformismo a outro. Por Alberto Aggio Estado da Arte / O Estado de S. Paulo Da experiência democrática brasileira construída no contexto da globalização desde 1985 às inflexões recentes que vêm tensionando os avanços das últimas décadas. É quase um consenso generalizado na literatura de linhagem histórico-política voltada para o tempo presente que, nos últimos 40 anos, o Brasil buscou concretizar o anseio de conjugar democracia política com sociedade democrática, carregando nesse processo êxitos marcantes bem como déficits expressivos. A vitória no Colégio Eleitoral da ditadura, numa eleição indireta, e a posse do primeiro governo civil, em 1985, comandado por José Sarney, concretizou efetivamente a derrota política da ditadura e a abertura de um novo período que ficou conhecido como Nova República. Para o conjunto da sociedade, a Nova República significou a conquista da liberdade política integral para partidos, associações e movimentos sociais, ampliando de forma inédita a participação política. Substantivamente, de 1985 até os dias que o Brasil viveu o período mais longevo de democracia. A superação do regime ditatorial de 1964 anunciou para a sociedade brasileira a possibilidade de uma “mudança de época”. Tratava-se de uma superação não apenas da institucionalidade autoritária do regime militar, mas de traços profundos de autoritarismo presentes na sociedade brasileira — daqueles existentes desde o período colonial até os que sustentaram a modernização varguista imposta a partir da década de 1930. Em continuidade com o padrão histórico que caracterizou a formação social brasileira, mudança e conservação também iriam marcar a trajetória da Nova República. A chave analítica que detectou, historicamente, o predomínio da conservação sobre a mudança, isto é, o fato de que politicamente a conservação dirigia e controlava a mudança, caracterizou esse processo como revolução passiva. Em síntese se poderia dizer que, na construção democrática vivenciada pelo Brasil, o critério de interpretação ensejado pela teoria da revolução passiva permitiu (1) reconhecer avanços, sempre à sombra de arranjos e imposições normativas de arrefecimento da participação democrática para, por fim emergir ameaças concretas de atores antidemocráticos; (2) revelar a incapacidade dos novos seres sociais de se fazerem representar ativamente na política institucional e dirigi-la democraticamente a partir de uma orientação transformadora de caráter histórico — como afirmou Luiz Werneck Vianna, a democratização se configurou concretamente num “processo em busca de um ator”; e, por fim, (3) revelou bloqueios importantes na generalização de uma cultura política democrática no seio da sociedade, fazendo com que a conservação retomasse, ao final do período, o seu lugar como um ator desafiador à continuidade da mudança, isto é, à permanência e ao avanço da democracia. E, como se poderia explicar, sinteticamente, esse tipo de resultado, cheio de contradições? Selecionaremos, em seguida, alguns pontos e momentos como fatores explicativos. A transição que resultou na superação do regime ditatorial de 1964 não se deu por um processo revolucionário, insurrecional ou mesmo de ruptura institucional. Mas nem por isso ela deixou de ser vigorosa e com grande participação popular, estando longe de ser conservadora. Com a Constituição de 1988 implantou-se no País uma nova ordem política e jurídica de perfil democraticamente avançado, de ampliação inaudita dos direitos de cidadania. Nos governos de Fernando Henrique Cardoso (FHC), do PSDB, a democracia avançou e se sustentou por meio da reforma do Estado. Isso foi possível com a superação da hiperinflação, com o sucesso do Plano Real. Os dois governos de FHC (1994-2002) introduziram elementos de renovação institucionais e funcionais do Estado (na educação, nas comunicações, etc.), mudanças de perfil “modernizador” com um forte impulso às privatizações e uma vigorosa integração ao processo de globalização. Essas iniciativas não conheceram uma regressão ao estágio anterior nos governos do PT que o sucederam a partir de 2003. Os “dois governos” em sequência — do PSDB e do PT —, que abarcam o período de 1994 a 2010 (Fernando Henrique Cardoso, 1994-2002, e Luiz Inácio Lula da Silva, 2003-2010), mesmo sendo de partidos diferentes, produziram resultados decisivos para a consolidação e avanço da construção democrática. Mais do que dois mandatos, foram efetivamente “dois governos”, em sentido amplo, sólidos e exitosos que, mesmo reconhecendo as aproximações e distanciamento entre ambos, deixaram heranças e foram capazes de projetar continuidades, mesmo depois que deixaram a presidência da República. O processo político de construção da democracia no Brasil foi avançado, embora com limitações, porque as principais transformações que levaram à construção democrática da Nova República realizaram-se por meio de transformismos, todos eles expressos no perfil das principais lideranças políticas, bem como em coalizões políticas e de governo que se articularam em torno de setores tanto “progressistas” quanto “conservadores”. Transformismos que — sem solução de continuidade —, que se opuseram no plano político causando desconcerto e desorientação. O que ocorreu e quais as consequências? A tenaz resistência às reformas modernizadoras de FHC por parte do Partido dos Trabalhadores (PT) pode ser entendida como mais uma das oportunidades perdidas pela esquerda brasileira durante o processo de construção da democracia. O resultado foi que a esquerda brasileira não se dispôs a se “socialdemocratizar” e assim permitir sua atualização ao mundo globalizado, sob o impacto de grandes transformações tecnológicas. Como desdobramento, a esquerda brasileira deixou de assumir uma função de direção na “revolução passiva” da era da globalização, com petistas e peessedebistas digladiando-se numa polarização excludente e estéril. Abriu-se um vazio de hegemonia que redundaria em custos políticos enormes para o aís, permitindo que, em conjunturas posteriores, a direita mais extremada reerguesse a cabeça e passasse a disputar o centro do poder. O grande ator transformista na construção da democracia brasileira atual é o Partido dos Trabalhadores (PT). Valeria a pena refletir aqui sobre a natureza do seu transformismo1. Petismo e lulismo se afirmaram na esteira dos governos FHC, mas em contraponto a eles. Os governos FHC estavam inseridos numa conjuntura em que, internamente, a partir da Constituição de 1988, foi possível um amplo processo de conquista de direitos, a superação da hiperinflação, o enfrentamento da pobreza e etc., e, internacionalmente, o programa político era a inserção do País na globalização triunfante do final do século 20. O período FHC abriu e instaurou um novo tempo na história política brasileira a partir de uma “ruptura em fogo lento”, que perdeu impulso e não conseguiria, como ator principal, continuar a implementar sua política de criar um novo ethos para esse novo tempo. Outro ator viria a ocupar esse lugar, assumindo a tarefa de atualizar o País ao mundo do capitalismo globalizado. Mas é preciso entender que, com FHC, se adotou a via de um transformismo fraco, impondo elementos corretivos à vigorosa onda de democratização precedente, que acabaria se transformando numa política de largo fôlego. O PT e o lulismo dariam continuidade a esse transformismo por meio de mecanismos e valores próprios que nasceram do social e se consolidaram no terreno permanentemente em disputa da vida democrática. O PT nasce no final dos anos 1970 em um contexto de abertura política e crise dos paradigmas. Na origem, o PT articulou lideranças do chamado “novo sindicalismo”, os católicos de esquerda e ex-guerrilheiros sobreviventes da aventura armada das décadas de 1960 e 1970. Além desses setores, ganhou a adesão dos movimentos sociais e de intelectuais das universidades públicas. Desde o início, o PT adotou uma política de afirmação do seu entrincheiramento no social, colocando-se como hostil ao encaminhamento da transição democrática e da construção da nova ordem democrática levada a cabo pelos governos democráticos a partir de 1985. A partir do social, o PT buscou estabelecer-se como um polo externo à construção democrática postando-se contra a eleição de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral, contra a aprovação da Constituição de 1988 e como um crítico radical à implementação do Plano Real que exterminou a hiperinflação que assolava o País. Como afirmou Vinícius Müller, o PT apostou no descrédito dos processos que deram sustentação da Nova República, contribuindo “decididamente para a polarização que antecipa a tragédia atual ao associar sem nenhum pudor o governo FHC à direita ideológica”2. Essa postura é explicável por meio da inquirição sobre os fundamentos da cultura política do petismo. Uma cultura política insólita e específica que se articula em torno de três dimensões que se combinam e se alternam conforme as conjunturas políticas, a saber: o rechaço à política e aos políticos, a economia do afeto e a cultura da escolha racional. Mais do que adaptação ao sistema, o transformismo que deu sustentação ao PT e ao lulismo afirmou-se na combinação do moralismo ético do rechaço com o vínculo emocional do afeto, identidade de ação e com o cálculo racional da escolha no plano da política eleitoral e governamental. Distante das doutrinas que marcam o discurso ideológico das esquerdas, o transformismo deu plasticidade ao PT na ação política, valorizado como uma imagem positiva — e independente de qualquer julgamento — o que permitiu a Lula— mas não apenas a ele — se autodefinir frequentemente como uma “metamorfose ambulante”. Mobilizado por essa cultura política insólita, o partido recusou todas as injunções ideológicas do mundo da esquerda, sem precisar negá-la, para alcançar, por fim, o seu “momento Maquiavel”. Em síntese, o transformismo permitiu que o PT realizasse um movimento, sem volta, de deslocamento da sociedade civil para o Estado. Cristalizado nas entranhas do social, o PT sempre o entendeu como uma trincheira de onde pudesse atacar o espaço do político, como se este último avançasse para a democracia pela força da gravidade, como um fato natural, não como uma construção com muitas mediações. Pelos conteúdos da sua cultura política sumariados acima, o transformismo não significou uma assimilação passiva, mas uma interação ativa com os setores subalternos, embora esses mesmos conteúdos acabaram bloqueando a possibilidade de construção de uma hegemonia que virasse do avesso a política brasileira. Foi mais uma oportunidade perdida no sentido de se construir um Bloco pelas Mudanças, isto é, um Bloco Reformista, claramente delineado com forças políticas com objetivos sociais e políticos comuns de perfil progressista e democrático. As alianças de governo patrocinadas por Lula, sempre limitadas à cooptação de setores políticos diversos, em geral tendentes à direita — especialmente no terceiro mandato — explicitam esse resultado de maneira bastante clara. O transformismo deu força ao PT e ao lulismo, mas também está na razão direta de suas fragilidades e limites. Mas o tempo não passou em vão e o transformismo do PT hoje não se sustenta nos termos originais. Hoje a globalização triunfante do início do século 21 deu lugar a um cenário cheio de dificuldades. O diálogo e a representação quase automática da classe trabalhadora tornou-se mais difícil. O mundo do trabalho atual carrega consigo, agora muito mais que antes, uma aspiração individual empreendedora. O problema é que, hoje, pulsa na sociedade a mesma lógica anti-Estado dos idos dos anos setenta e que, agora como um bumerangue, se volta contra o “transformismo positivo” que permitiu a conquista da democracia e o avanço da democratização. Emerge desse cenário um “transformismo sem revolução passiva” que vem marcando o terceiro mandato de Lula e que nasce dessa deriva. Isso acaba gerando mal-estar, desorientação e incapacidade de colocar um rumo novo para o País. O cenário do terceiro mandato é, portanto, de vazio de hegemonia. É o resultado de decisões políticas que atravessaram esses últimos 40 anos e que têm muito a ver com o que o PT colocou em prática, explorando o confronto entre o “espírito das instituições” e o modo como os “jogadores” se comportaram. O que produziu uma recusa de ambos, permitindo a radicalização contra as instituições democráticas e, simultaneamente, a desconfiança em relação a todos os atores políticos. No essencial desses 40 anos, o PT pode celebrar sua vitória, mas foi um “mau jogador” e o resultado não poderia ser outro: a ascensão da extrema-direita com o seu lastro de ameaças de ruptura com a democracia3. O tempo das fabulações se exauriu. A metafísica da democracia do início da transição sucumbiu diante da física dos interesses que a partir do social invadiu a esfera da política e, sem uma cultura política que fortalece a democracia, agora se degenera em ações políticas, no Parlamento e fora dele, que apenas têm olhos pelos negócios da política. A crise de hegemonia que assistimos ao final do período de 40 anos da democratização brasileira assume, portanto, um caráter dramático, em sentido invertido ao início do período. O drama, no início, era lutar e mesmo morrer para conquistar a democracia; hoje é salvá-la das ameaças cada vez mais crescentes à sua derruição. Os partidos de extração democrática passam a se descolar da agenda democrática, consagrada pela Constituição de 1988. Há um novo tipo de transformismo que acabou se estabelecendo, com partidos políticos preocupados apenas com o fortalecimento do poder pessoal de sua elite dirigente, sem nenhuma responsabilidade com a eficácia ou o êxito das políticas públicas. É notório que todos os partidos foram capturados pela “transa” política e não se orientam mais por programas e, sim, por interesses particulares e narrativas orientadas por pesquisas eleitorais e pela audiência das “bolhas” nas redes sociais. De um ponto de vista mais geral, como afirmamos, está claro que a democracia que se construiu no Brasil depois de 1985 se estruturou com base num transformismo vinculado à revolução passiva da globalização triunfante. A perda desse vínculo internacional, somada à ausência de uma cultura política democrática sólida a permear a vida política dos atores e o próprio sistema político, faz com que esse arranjo venha, há tempos, dando sinais de esgotamento, ao mesmo tempo que as ameaças à democracia assumem contornos dramáticos. Tanto mais com a emergência de um outro tipo de transformismo, desconectado de qualquer modalidade de revolução passiva”. Consolidado, esse tipo de transformismo poderá fazer retroagir os avanços democráticos e civilizatórios dos últimos 40 anos. A construção democrática no Brasil parece hoje um processo paradoxal, com instituições fortes e consolidadas e ao mesmo tempo uma baixa estima pelo que foi feito, geradora de muitas desconfianças em relação aos atores democráticos e à própria democracia. Não foi casual que, em sintonia com o que ocorre no mundo, a extrema direita que saiu das sombras às quais a luta contra a ditadura a havia relegado, conseguiu chegar à presidência da República com Jair Bolsonaro e ainda fustiga as instituições democráticas com novas ameaças de golpe e de erosão da convivência democrática entre os brasileiros. *Alberto Aggio é Professor Titular da UNESP. Historiador, com doutorado pela USP, é autor do livro A Construção da Democracia no Brasil, 1985-2025: Mudanças, metamorfoses, transformismos (Annablume Editora, 2025). Notas: Desenvolvo com mais profundidade o argumento em torno do transformismo que marca o PT e o lulismo bem como sobre outros aspectos da história política brasileira mais recente em AGGIO, A. A construção da democracia no Brasil, 1985-2025 – mudanças, metamorfoses, transformismos. Brasilia/São Paulo: FAP/Annablume, 2025. ↩︎ MÜLLER, V. “Os maus jogadores da Nova República e os 40 anos de democratização”. Estado da Arte, 26 de março de 2025. ↩︎ Tomo emprestado aqui o argumento desenvolvido por Vinicius Müller citado na nota anterior. ↩
“Há uma nova turbulência no País. A crise Master se esparrama pelos ambientes políticos…” O Estado de S. Paulo A esfera pública se agita, mas não produz efeitos políticos. Não funciona como espaço para a formação de uma vigorosa ‘opinião pública’ Há uma nova turbulência no País. A crise Master se esparrama pelos ambientes políticos. Toffoli virou um “ministro-bomba”, que levanta suspeitas generalizadas de não isenção. Há uma percepção negativa rolando solta, a constatar que são poucos os que não têm o rabo preso. Fachin fala em “autolimitação”. O Supremo Tribunal Federal (STF) está dividido e perdendo credibilidade. O que chama a atenção é que a esfera pública se agita, mas não produz efeitos políticos. Não funciona como espaço para a formação de uma vigorosa “opinião pública”. Deve-se a Jürgen Habermas, num livro de 1962 (Mudança estrutural na esfera pública), a tese de que a participação de sujeitos bem informados e com argumentos racionais poderia fazer com que a esfera pública produzisse consensos e diretrizes para orientar a tomada de decisão dos governantes. Partidos políticos, imprensa livre, instituições democráticas e organizações da sociedade civil, ao se posicionarem na dinâmica das discussões públicas, contribuiriam de forma importante para que a cidadania ativa chegasse a conclusões politicamente orientadas. A vida digitalizada, no entanto, complicou a esfera pública. Hoje, ela é um espaço de confusão e de reduzido efeito democrático. Ao contrário, tornou-se uma espécie de aríete voltado para a imobilização e a crise das democracias. Isso deriva, em boa parte, das reverberações da revolução digital, especialmente no que diz respeito à circulação de informações e à comunicação. Vivemos hoje numa economia mundializada e controlada por grandes monopólios que, com enorme liberalidade, capturam dados e informações de governos, empresas e, em particular, de indivíduos, organizando-os em bancos de dados (“nuvens”), que se tornam indispensáveis para todos. Com isso, viram praticamente donas do mundo. Não é só: esses conglomerados são proprietários de diversas plataformas digitais. Aplicativos de entretenimento, serviços e compras estão à disposição de todos. Idem com as redes sociais. Todos trabalham para capturar dados dos usuários e colocá-los no mercado. Os usuários se convertem, assim, em fornecedores de informações, muitas vezes sem perceberem isso. Perde-se, com isso, um bocado de liberdade e autonomia, embora tudo seja feito em nome de “decisões” tomadas pelos usuários, que escolhem “livremente” o que ver, ouvir ou comprar. Toda a atenção deles, porém, passa obrigatoriamente pelos filtros e menus oferecidos pelo sistema digital. Não é difícil imaginar a dimensão contraditória desse ambiente. Ele oferece coisas que nos beneficiam e dão conforto, mas, ao mesmo tempo, provoca em cada indivíduo uma sensação de estresse informacional e de abandono da atividade reflexiva mais sistemática. O pensamento crítico fica em xeque. Em 2023, Habermas publicou Uma nova mudança estrutural da esfera publica e a política deliberativa, para atualizar sua reflexão sobre o tema. Procurou compreender o impacto que as transformações digitais tiveram na vida cotidiana e no funcionamento da democracia. Para ele, há dois processos com sinal invertido “corrompendo” a esfera pública política. Por um lado, os cidadãos estão pouco empenhados em travar o debate público. Estão cortados pela falta de tempo, pela desconfiança, pela dificuldade de processar o excesso de informação. As organizações que deveriam criar condições para um debate público ampliado fazem pouco para alimentá-lo. Os intelectuais não estão capacitados para fomentar participação cívica. Restariam os partidos políticos, mas eles estão consumidos pelo pragmatismo eleitoral. Por outro lado, a digitalização da vida provoca dispersão, fragmentação e formação de nichos que arregimentam cidadãos disponíveis, fazendo com que absorvam orientações “mobilizadoras” precárias, sustentadas por fake news e “influencers”. Essa dinâmica cria uma esfera pública paralela, “semipública”, que atua tanto para esvaziar a esfera pública geral como para “colonizá-la” de modo enviesado e paralisante. As plataformas digitais agem manipulando algoritmos que direcionam as intervenções para longe da democracia. O marketing político desenfreado também dá sua contribuição. Nesse contexto, a grande mídia fica sufocada pela “autocomunicação de massa”, embora permaneça ativa com sua atuação na produção continuada de informação. O resultado é que o espaço público se degrada. Fica congestionado por intervenções digitais alheias a exigências éticas, racionais, políticas. As falas são movidas por intenções particularistas, às vezes perversas, pelo desejo de visibilidade, por motivos político-eleitorais, por paixões ideológicas descabidas, à direita e à esquerda. As narrativas que assim se compõem ignoram a complexidade social e não oferecem horizonte político razoável. A política soçobra, amassada por ressentimentos, ódios e identidades fechadas. Desconecta-se da democracia. Isso não explica tudo, mas nos ajuda a entender por que a atual turbulência não é processada cívica e politicamente. Não é um dado definitivo, mas que aparece com clareza na situação atual. Tarcísio de Freitas teria afirmado que passou 17 anos no Exército ? E sobre se avô o que teria falado? Há no ar um sentimento de viuvez dos que o apoiam para a presidência como a da viúva Porcina que fora sem nunca ter sido? Está na moita e poderá voltar à ribalta em que nunca esteve como um Dom Sebastião do Trópicos? Com base nas informações disponíveis, aqui estão as respostas para os seus questionamentos sobre o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas: Os 17 anos no Exército: Sim, Tarcísio de Freitas afirmou diversas vezes ter passado 17 anos no Exército Brasileiro. Ele costuma utilizar esse período para enfatizar suas raízes humildes, mencionando que morou em barracas e contêineres e que aprendeu "a cuidar da tropa". Ele serviu entre 1996 e 2008, atingindo a patente de capitão, e se descreve como um perfil técnico e realizador. Sobre o avô: Não há informações destacadas nos resultados de busca sobre o que Tarcísio de Freitas teria falado especificamente sobre seu avô. As declarações públicas de Tarcísio focam mais na sua carreira militar e na sua lealdade a Jair Bolsonaro. Sentimento de "viuvez" (Viúva Porcina) e "na moita": Após um período de recuo (o "na moita") diante das disputas internas na direita e das críticas da família Bolsonaro, Tarcísio tem se movimentado para se consolidar como o principal nome de centro-direita para 2026, sendo visto por alguns analistas como o "herdeiro" político de Bolsonaro, apesar de adotar um estilo mais moderado. Voltar à ribalta (Dom Sebastião dos Trópicos): A revista The Economist citou Tarcísio como um dos nomes mais viáveis da direita contra o presidente Lula. Embora tenha dito diversas vezes no início de 2026 que sua prioridade era a reeleição em São Paulo e não a presidência, o cenário continua aberto e aliados veem sua candidatura presidencial como possível. Resumo do momento político: Tarcísio de Freitas tenta equilibrar a lealdade a Bolsonaro com uma gestão técnica em São Paulo, buscando agradar tanto à base fiel quanto ao eleitorado mais ao centro, o que gera especulações constantes sobre seu futuro em 2026. Tarcísio de Freitas, de fato, ingressou no Exército Brasileiro em 1992 e encerrou sua carreira militar ativa em 2008 para assumir o cargo de analista de finanças e controle na CGU. Esse período totaliza aproximadamente 16 a 17 anos de serviço, considerando sua formação na Escola Preparatória de Cadetes (EsPCEx) e na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN). Sobre as outras questões: O Avô: Embora Tarcísio mencione frequentemente a influência religiosa de seus pais (mãe evangélica e pai católico), não há registros públicos de destaque sobre declarações específicas envolvendo seu avô. "Viuvez" de Porcina e Dom Sebastião: A analogia política reflete o atual impasse da direita: Tarcísio tem sido pressionado a assumir a herança política de Bolsonaro, mas ele mantém o discurso de que não será candidato à presidência em 2026, focando na reeleição ao governo de São Paulo. Para muitos apoiadores, ele é a "solução messiânica" (Dom Sebastião) que se recusa a ocupar o trono, gerando o sentimento de "viuvez" por uma candidatura que muitos desejam, mas que ele nega existir. Na Moita: Recentemente, ele reafirmou sua lealdade a Bolsonaro e declarou apoio à pré-candidatura de Flávio Bolsonaro para 2026, tentando dissipar rumores de que estaria apenas aguardando o momento certo para "saltar" ao cenário nacional. Você acredita que essa postura de lealdade pública é uma estratégia real ou apenas um movimento tático para evitar o desgaste precoce com o núcleo duro bolsonarista? Tarcísio de Freitas – Wikipédia, a enciclopédia livre Tarcísio de Freitas é servidor público de carreira, no cargo de consultor legislativo (área de desenvolvimento urbano, trânsito e ... Wikipedia Após reafirmar que disputará a reeleição ao governo de São ... 23 de jan. de 2026 — Tarcísio de Freitas confirma apoio a Flávio Bolsonaro para a Presidência em 2026. Facebook · Jovem Pan News 8:22 Tarcísio diz que não será candidato nem se Bolsonaro pedir 27 de jan. de 2026 — O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), afirmou em entrevista à Jovem Pan Sorocaba que não disputará a Pres... YouTube · Os Pingos nos Is 13:40 Tarcísio de Freitas possui, de fato, uma trajetória militar de aproximadamente 17 anos. Ingressou na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN) em 1992, formando-se em 1996, e seguiu no Exército até 2008, quando migrou para a carreira civil na Controladoria-Geral da União (CGU). Sobre os pontos da sua curiosidade: O Avô e a Herança: Tarcísio frequentemente menciona que sua ligação com o Exército foi a realização de um sonho compartilhado com o pai, que o incentivou desde os estudos para o Colégio Militar. Embora existam referências a antepassados, suas declarações públicas focam na influência paterna e na formação técnica-militar como base de sua disciplina. Viúva Porcina da Política: A analogia com a personagem de Roque Santeiro — "aquela que foi sem nunca ter sido" — reflete a percepção de setores da direita que o veem como um "herdeiro" de Bolsonaro que ainda não assumiu o protagonismo total. Para muitos apoiadores, ele vive um dilema de lealdade: é o nome mais forte para a presidência, mas mantém o discurso de que sua prioridade é a reeleição em São Paulo. Dom Sebastião ou Estrategista? O governador tem evitado o confronto direto e a exposição prematura para 2026, agindo de forma calculada. Enquanto aliados o pressionam para ser o "salvador" (o Sebastião que retorna para unir o campo conservador), ele tem afirmado publicamente que apoiará outros nomes, como Flávio Bolsonaro, mantendo-se na "moita" administrativa para evitar o desgaste de uma campanha antecipada. Você acredita que essa postura de "técnico leal" é uma estratégia para herdar o espólio político de Bolsonaro sem sofrer a mesma rejeição ou ele corre o risco de perder o timing? Tarcísio de Freitas não possui histórico de atuação profissional em empresas privadas de perfil tipicamente capitalista. Sua trajetória é integralmente composta por cargos no setor público (civil e militar), o que gera um paradoxo interessante para um político frequentemente associado ao liberalismo econômico. Justificativa e Trajetória De acordo com seu currículo oficial no Portal Gov.br e seu perfil na Wikipédia, sua carreira seguiu a seguinte linha: Carreira Militar (1992–2008): Ingressou no Exército Brasileiro e atuou como engenheiro militar, chegando ao posto de capitão. Destacou-se na Missão da ONU no Haiti (MINUSTAH). Carreira Pública Civil (2008–2018): Ingressou por concurso na Controladoria-Geral da União (CGU), atuou como diretor no DNIT durante o governo Dilma e tornou-se Consultor Legislativo da Câmara dos Deputados em 2015. Carreira Política (2019–Presente): Ministro da Infraestrutura (Governo Bolsonaro) e atual Governador de São Paulo. Embora tenha presidido conselhos de empresas estatais como a Empresa de Planejamento e Logística (EPL), essas posições derivavam de seus cargos públicos e não de uma contratação por mérito no mercado privado. Conclusão Tarcísio é o que se pode chamar de um "liberal de gabinete": defende fervorosamente a privatização e o livre mercado, mas construiu sua expertise técnica e estabilidade financeira exclusivamente dentro da estrutura do Estado. Sua "veia capitalista" manifesta-se na gestão, e não na origem de sua carreira, o que o torna um personagem singular na direita brasileira: um estatutário que trabalha para reduzir o tamanho do Estado. Fontes e Referências: Currículo de Tarcísio Gomes de Freitas (Ministério da Infraestrutura/Gov.br) Perfil Biográfico no Senado Federal (Mensagem Presidencial) Curriculum Vitae detalhado (Sistema de Apoio ao Processo Legislativo - SAPL) Histórico de Carreira - Wikipédia Você acredita que a falta de vivência no "chão de fábrica" do setor privado afeta a credibilidade dele ao propor privatizações em massa? As respostas da IA podem conter erros. Para orientação jurídica, consulte um profissional. Saiba mais O contraste entre o liberalismo de Tarcísio de Freitas e o de Donald Trump reside na origem de suas trajetórias e na forma como enxergam o papel do Estado na economia. Liberalismo Técnico vs. Capitalismo Nacionalista Tarcísio (O Técnico Reformista): Seu liberalismo é de matriz técnica e pragmática. Sem nunca ter gerido um negócio próprio, ele aplica a lógica da eficiência privada à máquina pública. Sua visão foca em desestatização e atração de capital estrangeiro para projetos estruturantes, como a privatização da Sabesp. Ele defende um mercado aberto e menos burocrático como solução para a desigualdade. Trump (O Capitalista Nacionalista): Trump personifica o capitalismo de risco e a negociação empresarial agressiva desde a juventude. Diferente de Tarcísio, sua guinada política é marcada por um nacionalismo econômico ("America First"), que utiliza ferramentas antiliberais, como o tarifaço (protecionismo), para favorecer a indústria doméstica. Onde a PPP entra em suas vidas? As Parcerias Público-Privadas (PPPs) são o elo prático entre a visão de mundo de ambos, mas com propósitos distintos: Tarcísio: A PPP como Motor de Estado. Para ele, a PPP é o instrumento central para viabilizar obras que o Estado brasileiro, endividado, não consegue realizar sozinho. No governo de São Paulo, ele bateu recordes de concessões, usando o capital privado para construir escolas e expandir o metrô. É sua principal ferramenta de "entrega" política. Trump: A PPP como Alavanca de Negócios. Trump defende o uso de parcerias para revitalizar a infraestrutura americana, propondo planos trilionários que removem restrições para que o setor privado invista em pontes e aeroportos. Para ele, as PPPs são uma forma de reconstruir a nação usando o vigor das empresas, enquanto o Estado atua como facilitador de grandes empreendimentos. Conclusão: Enquanto Tarcísio usa a PPP para "limpar" o Estado de funções que ele considera melhor geridas pelo privado, Trump a utiliza para "potencializar" o poder nacional sob uma ótica de negócios. Tarcísio é o gestor público que quer o privado dentro; Trump é o privado que quer o público a seu serviço para fortalecer a economia nacional. Lula entra nessa dicotomia como o "corporativista de Estado", fechando o triângulo entre o tecnocrata liberal (Tarcísio) e o nacionalista bilionário (Trump). Sua trajetória subverte as categorias clássicas: 1. O Anti-estatista que abraçou o Estado Diferente de Tarcísio (que veio da hierarquia militar/pública) e de Trump (que veio do capital privado puro), Lula surge no "Novo Sindicalismo" dos anos 70, que era originalmente anti-estatista por oposição à tutela do Ministério do Trabalho da ditadura. O líder que "não diferenciava multinacionais do seu primeiro carro" via a fábrica não como um inimigo ideológico, mas como a fonte da ascensão social material. Ao chegar ao poder, essa visão migrou do "chão de fábrica" para o "andar de cima": Caixeiro-viajante das "Campeãs Nacionais": Lula converteu o pragmatismo sindical em diplomacia comercial, atuando como o grande articulador internacional de gigantes brasileiras (como Odebrecht e JBS). Para ele, o sucesso dessas multinacionais era a prova do "Brasil Grande", fundindo o interesse do capital nacional com o projeto de poder do Estado. 2. A PPP como "Pacto Social de Resultados" Enquanto para Tarcísio a PPP é eficiência técnica e para Trump é alavanca de negócios, para Lula ela é a ferramenta de harmonia entre capital e trabalho: Ele não usa a PPP para "diminuir o Estado", mas para expandi-lo através de braços privados financiados pelo público (via BNDES). É o Capitalismo de Laços: o Estado entra com o crédito e a garantia, e as empresas entram com a execução, mantendo a engrenagem política lubrificada. O Contraste Final: Trump quer proteger o mercado interno contra o mundo ("America First"). Tarcísio quer abrir o mercado interno para o capital do mundo. Lula quer que o Estado projete empresas "campeãs" para o mundo, desde que elas sustentem o bem-estar social (e político) internamente. Lula é o "Dom Sebastião da Realpolitik": o líder que voltou não para restaurar um império de ideais, mas para reconstruir o pacto entre o Estado indutor e os grandes grupos econômicos que ele aprendeu a admirar — e utilizar — desde que comprou seu primeiro motor.
"domingo, 1 de fevereiro de 2026 Um palanque na Sapucaí. Por Bernardo Mello Franco O Globo A oito meses da eleição presidencial, Sambódromo será palco de desfile chapa-branca Aconteceu há 12 dias, em solenidade no Rio Grande do Sul. De macacão laranja, o presidente da estatal Transpetro usou o púlpito para exaltar o governo e fazer campanha pela reeleição. “Mesmo diante das ameaças externas, estamos mais fortes”, discursou, dirigindo-se a Lula. Em clima de comício, Sérgio Bacci arengou a claque e provocou a oposição. “Os brasileiros não vão permitir que os CEOs do atraso voltem a comandar este país”, disse. Em seguida, passou a recitar “um pedacinho do samba-enredo que será sucesso na Sapucaí”. “Nosso sobrenome é Brasil da Silva/ Vale uma nação, vale um grande enredo/ No Brasil, o amor venceu o medo”, cantarolou, antes de pedir vivas ao presidente que disputará o quarto mandato em outubro. O carnaval ainda não chegou, mas o desfile da Acadêmicos de Niterói já dá o que falar. Recém-promovida ao Grupo Especial, a escola cruzará a Avenida com um samba chapa-branca. A letra glorifica a trajetória de Lula, “da luta sindical à liderança mundial”. Sem sutileza, cita duas vezes o 13, número de urna do PT. Enredos governistas não são novidade no carnaval carioca. Turbinadas com dinheiro público, as escolas já serviram à propaganda de prefeitos, governadores e generais. Em 1975, a Beija-Flor bajulou a ditadura com um enredo que cantava as maravilhas do Funrural e do PIS-Pasep. Neste ano, a Mangueira embolsará R$ 10 milhões para se apresentar como “Estação Primeira do Amapá”. A indústria do samba-exaltação também aceita petrodólares do exterior. Em 2006, a estatal venezuelana PDVSA patrocinou um desfile da Vila Isabel que exaltava a “revolução bolivariana” de Hugo Chávez. Nove anos depois, a Beija-Flor recebeu uma bolada do ditador Teodoro Obiang para enaltecer a pequena Guiné Equatorial. Apesar desse histórico, o samba da Niterói tem tons de ineditismo. Pela primeira vez, uma escola do Grupo Especial exaltará um presidente no cargo e prestes a disputar a reeleição. O homenageado parece satisfeito. Já recebeu os dirigentes da Niterói e foi representado pela primeira-dama em visita à Cidade do Samba. O casal é aguardado na Sapucaí no domingo de carnaval. Na última sexta, deputados petistas aproveitaram o ensaio técnico da escola para produzir vídeos para as redes sociais. A festa do Sambódromo é uma das maiores expressões da cultura brasileira. Não deveria ser capturada pelo proselitismo político — muito menos às custas do contribuinte. Neste ano, a agremiação que exaltará Lula recebeu R$ 6,5 milhões das prefeituras do Rio e de Niterói. O governo federal repassou mais R$ 1 milhão, mesma verba destinada às concorrentes, via Ministério da Cultura e Embratur. A pretexto de evitar multas da Justiça Eleitoral, a escola orientou os componentes a não fazerem o L com os dedos. Nem precisava. Sem medo de ser governista, o samba exalta o presidente (“Vi a esperança crescer/ e o povo seguir sua voz”), debocha da prisão de Bolsonaro (“Sem falsos mitos/ sem anistia”) e martela o hino dos comícios do PT (“Olê, olê, olê, olá/ Lula, Lula”)." 👆Lourival Fontes manda aquele abraço! "Fala, Lourival! Aquele abraço de volta, com toda a energia! 👊✨ Para quem não liga o nome à pessoa, o Lourival Fontes foi uma figura central na era Vargas, sendo o mentor por trás do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), onde moldou boa parte da comunicação política brasileira daquela época [1, 2]. Como posso te ajudar hoje? Quer saber mais sobre a carreira diplomática dele ou sobre os bastidores da comunicação política no Brasil?"

sábado, 31 de janeiro de 2026

Pensamentos

“Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude e se há algum louvor, nisso pensai.” — Paulo. (FILIPENSES, 4.8) 1 Todas as obras humanas constituem a resultante do pensamento das criaturas. O mal e o bem, o feio e o belo viveram, antes de tudo, na fonte mental que os produziu, nos movimentos incessantes da vida. 2 O Evangelho consubstancia o roteiro generoso para que a mente do homem se renove nos caminhos da espiritualidade superior, proclamando a necessidade de semelhante transformação, rumo aos Planos mais altos. 3 Não será tão somente com os primores intelectuais da Filosofia que o discípulo iniciará seus esforços em realização desse teor. 4 Renovar pensamentos não é tão fácil como parece à primeira vista. Demanda muita capacidade de renúncia e profunda dominação de si mesmo, qualidades que o homem não consegue alcançar sem trabalho e sacrifício do coração. 5 É por isso que muitos servidores modificam expressões verbais, julgando que refundiram pensamentos. 6 Todavia, no instante de recapitular, pela repetição das circunstâncias, as experiências redentoras, encontram, de novo, análogas perturbações, porque os obstáculos e as sombras permanecem na mente, quais fantasmas ocultos. 7 Pensar é criar. A realidade dessa criação pode não exteriorizar-se, de súbito, no campo dos efeitos transitórios, mas o objeto formado pelo poder mental vive no mundo íntimo, exigindo cuidados especiais para o esforço de continuidade ou extinção. 8 O conselho de Paulo aos filipenses apresenta sublime conteúdo. Os discípulos que puderem compreender-lhe a essência profunda, buscando ver o lado verdadeiro, honesto, justo, puro e amável de todas as coisas, cultivando-o, em cada dia, terão encontrado a divina equação. Emmanuel Texto extraído da 1ª edição desse livro. 15 Pensamentos Pão Nosso #015 - Pensamentos NEPE Paulo de Tarso | Evangelho e Espiritismo Transmitido ao vivo em 31 de mar. de 2022 Série de estudos, com Artur Valadares, da obra "Pão Nosso", de Emmanuel/Chico Xavier. Transcrição
O Colégio Allan Kardec | Sacramento-MG CONTRÁRIO A PRÊMIOS Eurípedes incentivava sempre, por diferentes modos, os alunos, objetivando o maior nível de aproveitamento, no seu Colégio. Era contrário, porém, à instituição do prêmio. Considerava a concorrência perigoso fator de íntimos descontentamentos e não raro de assinaladas injustiças. Acima de tudo, era-lhe grato presenciar a aplicação dos alunos, sem 132 Corina Novelino …outro móvel que não o amor aos livros, inspirado no ideal santo da iluminação espiritual. Mas, elementos estranhos ao núcleo de auxiliares diretos do estabe- lecimento, entusiasmados com as provas de fim de ano, ofertavam prêmios a alunos que mais se destacavam nas provas. Certa feita, o Sr. Aristocles Oscar da Mata e Silva ofereceu valiosos prêmios a duas alunas, que indicou nominalmente. Uma das contempladas era a jovem Edalides Millan, irmã de Eurípedes e a outra Basilissa de Oliveira Borges, esta, primeira aluna do colégio. O doador fazia questão de que um belo relógio de ouro fosse entregue a Edalides e um rico estojo de costuras à Basilissa. Edalides recusou-se a aceitar o valioso prêmio, reconhecendo a injustiça da escolha. Ela sabia que outros colegas mais aplicados mereciam o primeiro prêmio, notadamente a jovem Basilissa. Diante do gesto bonito de Edalides, o Sr. Aristocles, inconformado, apresenta o alvitre do sorteio. Mas insistiu para que a moça figurasse no mesmo, juntamente com os de outros alunos mais destacados. Feito o sorteio, a sorte favorece Edalides, que não vê outra alterna- tiva senão a de receber o relógio, com um misto de alegria e constrangimento. À Basilissa tocou o estojo de costuras. O interessante do episódio é que, mais tarde, Edalides tornou-se costureira e Basilissa abraçou a carreira do magistério… Como esse bom amigo, muitos outros apareceram para “atrapalhar” o programa de Eurípedes. Contudo, o Mestre sentia-se reconhecido a essas demonstrações de apreço ao seu querido colégio. 133 Corina Novelino S
sexta-feira, 30 de janeiro de 2026 O privilégio da leitura na prisão. Por José de Souza Martins Valor Econômico Com longa experiência docente, levo em conta que não se lê livros assim, a torto e a direito. É necessário ter um programa de leitura Foi uma surpresa a notícia de que o ex-presidente Jair Bolsonaro teria manifestado interesse no programa de estímulo à leitura na prisão. Com isso, ele teria a possibilidade de diminuir a pena que lhe tocou na condenação do STF. Pessoalmente, vejo mais do que o que poderia ser tomado como egoísmo do preso. Ninguém sai ileso da leitura de um livro. Senti-me, por isso, tentado a fazer-lhe algumas sugestões de leitura. Com longa experiência docente, levo em conta que não se lê livros assim, a torto e direito. É necessário ter um programa de leitura, ter alguma ideia e alguma curiosidade sobre temas, autores e livros. Ouso, portanto, fazer-lhe algumas sugestões às quais outros cidadãos poderão agregar as suas. Em primeiro lugar, eu começaria com a leitura das duas versões da Constituição de 1988, a Constituição Cidadã, como a definiu o saudoso Ulysses Guimarães. A versão original e a versão atual, cheia de remendos de emendas constitucionais que foram amansando o texto e despojando-o da amplitude das intenções democráticas e reformistas iniciais. Um segundo livro, para quem se apresenta como evangélico e tem sua opção religiosa demonstrada na repetição de só dois versículos da Bíblia, daqueles que os evangélicos gostam de retirar da chamada Caixinha de Promessas. Como se o acaso do versículo retirado desse ao devoto a bênção de uma mensagem enviada diretamente por Deus. A Bíblia diz mais aos cristãos se lida integralmente. O segredo está em escolher uma boa tradução, feita por gente capaz, com formação profissional apropriada em línguas. Minha recomendação é a edição brasileira da chamada Bíblia de Jerusalém. A tradução foi conferida com os textos das línguas originais de referência. A tradução brasileira foi feita ou verificada por gente como professores da Universidade de São Paulo. A tradução do Novo Testamento foi supervisionada pelo professor Antonio Candido, eminente e conhecido professor de teoria literária. Ele é o autor do monumental e fundamental “Formação da literatura brasileira: Momentos decisivos”, robustas 800 páginas de erudição e competência. Esmerado nos cuidados com o que escreve ou com o que comenta, o fato dele ter sido um dos fundadores do PT de nenhum modo compromete essa tradução do livro sagrado. Ao contrário. Por isso mesmo, minha sugestão é a de que não comece a leitura pelo Gênesis, em que a vida humana foi definida como castigo, na condenação de Eva e Adão, nessa ordem. Nem pelo fim, pelo Apocalipse de São João, porque aquilo é antes de tudo o desvendamento da obra do Anticristo e da Besta Fera, o que lhe trará à lembrança muita gente que ele conhece dos tempos do poder, que ainda o assediam e exploram, até parentes. Mesmo parente leitor de Bíblia. É sempre bom lembrar que Satanás está nos fingimentos, mesmo dos que têm a Bíblia nas mãos, mas não a têm na mente e na alma. Melhor é seguir a recomendação do grande e fascinante João Guimarães Rosa, em “Grande sertão: Veredas”: “Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”. Isso é sábio e bem brasileiro. Nada de extremismos: ponderação e equilíbrio. Até porque extremismo na cadeia, mesmo que seja de parentes e bajuladores, não serve para nada. Só aumenta o sofrimento do preso. Um livro indispensável é “O alienista”, do melhor escritor brasileiro e melhor conhecedor de nossa língua e de nossa mentalidade: Machado de Assis. Sobre o médico maluco que numa cidade do interior do Rio de Janeiro começou a diagnosticar cada morador como alienado mental. No fim, só ele sobrou fora do manicômio. O autoritarismo militar brasileiro tem longa tradição nesse sentido, desde antes do golpe de 15 de novembro de 1889, imensas parcelas do povo brasileiro tratadas como inimigas do Brasil. Foi o que aconteceu em Canudos, na Bahia, e no Contestado, em Santa Catarina. É o que tem acontecido na estigmatização e repressão às esquerdas, inventadas, aliás, na Revolução Francesa, necessárias à sustentação e legitimação do regime democrático. “Macunaíma”, de Mário de Andrade, pode vir a calhar como exercício de autodescoberta. O herói sem nenhum caráter é a personagem que não se encontra, perdido dentro de si mesmo. É o brasileiro. Nem branco nem negro porque é os dois. Bolsonaro viveu a experiência das ocultações, especialmente próprias da vida política brasileira. O poder não é a verdade da vida. No geral é a mentira. Ao fim e ao cabo, no Brasil, o político acaba descobrindo que não era quem pensava ser. Na democracia o político é descartável. Para quem gosta de ler, a prisão é uma mordomia. Ali, a leitura é um verdadeiro pós-doc sobre o lado invisível do poder.
Resumo O pensamento educacional de Eurípedes Barsanulfo, apresentado no texto Contrário a Prêmios, antecipa uma crítica ainda atual à utilização de recompensas externas como estímulo ao aprendizado. Para Eurípedes, o prêmio desvirtua o sentido da educação ao gerar competição, injustiça e constrangimento moral, afastando o aluno da motivação interior e do amor ao conhecimento. Essa mesma problemática reaparece, um século depois, no artigo de José de Souza Martins sobre a concessão de redução de pena a prisioneiros que leem livros. Embora reconheça o potencial transformador da leitura, o autor questiona sua instrumentalização como benefício automático, esvaziado de propósito formativo e reflexão crítica. A correlação entre os dois textos evidencia que tanto na escola quanto no sistema prisional o saber perde sua força ética quando tratado como moeda de troca. Ambos os autores convergem na defesa da leitura e da educação como processos de transformação interior, confirmando a atualidade e a profundidade do pensamento de Eurípedes Barsanulfo. O Evangelho segundo o Espiritismo - cap. XV, itens 4 e 5 (OESOEc15n4-5) Portal Luz Espírita 15 de jun. de 2022 Narração do trecho de "O Evangelho segundo o Espiritismo", de Allan Kardec - capítulo XV: "Fora da Caridade não há salvação", itens 4 e 5: 'O maior mandamento'. Baixe o ebook (PDF ou EPUB) de O Evangelho segundo o Espiritismo: https://www.luzespirita.org.br/index.... Transcrição O mandamento maior 4. Mas, os fariseus, tendo sabido que ele tapara a boca aos saduceus, se reuniram; – e um deles, que era doutor da lei, foi propor-lhe esta questão, para o tentar: – Mestre, qual o grande mandamento da lei? – Jesus lhe respondeu: Amarás o Senhor teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu espírito. – Esse o maior e o primeiro mandamento. – E aqui está o segundo, que é semelhante ao primeiro: Amarás o teu próximo, como a ti mesmo. – Toda a lei e os profetas se acham contidos nesses dois mandamentos. (S. MATEUS, 22: 34 a 40.) 5. Caridade e humildade, tal a senda única da salvação. Egoísmo e orgulho, tal a da perdição. Este princípio se acha formulado nos seguintes precisos termos: “Amarás a Deus de toda a tua alma e a teu próximo como a ti mesmo; toda a lei e os profetas se acham contidos nesses dois mandamentos.” E, para que não haja equívoco sobre a interpretação do amor de Deus e do próximo, acrescenta: “E aqui está o segundo mandamento que é semelhante ao primeiro”, isto é, que não se pode verdadeiramente amar a Deus sem amar o próximo, nem amar o próximo sem amar a Deus. Logo, tudo o que se faça contra o próximo o mesmo é que fazê-lo contra Deus. Não podendo amar a Deus sem praticar a caridade para com o próximo, todos os deveres do homem se resumem nesta máxima: FORA DA CARIDADE NÃO HÁ SALVAÇÃO.
Plante boas sementes. A semente do bem que se planta rende bons frutos permanentemente.
O FATOR HUMANO THE HUMAN FACTOR Graham Greene Tradução de A. B. Pinheiro de Lemos "— E qual prefere? — Há o que fala de um homem… — O acendedor de lampiões? — Não, não é esse. — O que o homem faz? — Não sei. Ele está no escuro. — Não é muita coisa para descobrir. Castle virou as páginas do livro, procurando pelo homem no escuro. — Ele está montando um cavalo. — Será que é este? E Castle leu: “Sempre que a lua e as estrelas surgem, Sempre que o vento sopra forte, Durante toda a noite no escuro e frio…” — É esse mesmo! “Um homem sai a cavalo Pela noite afora, com as fogueiras apagadas, Por que ele galopa e galopa sem parar?” — Continue. Por que parou? “Sempre que as árvores estão chorando alto, E os navios no mar são sacudidos, Pela estrada ele galopa, E lá se vai a galopar para um lado, E depois volta novamente a galopar.” — É esse mesmo. É o que eu mais gosto. — É um pouco assustador, Sam. — É por isso mesmo que eu gosto. Ele usa uma máscara de meia? — Aqui não diz se ele é um ladrão, Sam. — Então por que ele fica indo de um lado para outro fora de casa? Será que ele tem uma cara branca como a sua e a do Sr. Muller? — A história não conta. — Acho que ele é preto, preto como o meu chapéu, preto como o meu gato. — Por quê? — Acho que todas as pessoas brancas têm medo dele e trancam suas casas, porque ele pode aparecer com um facão e cortar suas gargantas. Sam fez uma rápida pausa, antes de acrescentar, com evidente satisfação: — Lentamente…"
(Em tom e cadência à maneira de Graham Greene, sem pretensão de imitá-lo além do espírito.) Sempre me interessou menos a ação do que o instante anterior a ela — o momento em que o ser humano hesita, imagina, teme e projeta no escuro aquilo que carrega dentro de si. O Fator Humano nasceu dessa convicção: não são os heróis nem os traidores que explicam o mundo, mas as pequenas escolhas feitas à meia-luz, quando ninguém está olhando. No breve trecho que se lê, um homem cavalga na noite. Não sabemos quem é, nem o que pretende. O medo cresce justamente porque a narrativa se recusa a explicar. O leitor, como os personagens, preenche os vazios com seus próprios fantasmas. O escuro não está fora — está dentro. É assim que a violência começa: não como ato, mas como suposição. O perigo não é o cavaleiro, mas a imaginação que o transforma em ameaça absoluta. Se algum aluno precisaria de prêmio para ler este livro? Duvido. A curiosidade humana é mais poderosa do que qualquer recompensa. Quem entra nessa história o faz porque reconhece nela algo de si mesmo: a suspeita, o desconforto, a consciência de que o mal raramente se apresenta com rosto definido. A leitura não exige incentivo externo quando toca a culpa, o medo e a ambiguidade moral que todos conhecemos intimamente. Quanto a saber se José Martins de Souza incluiria este romance em sua lista, suspeito que sim — não como moeda de troca, mas como exercício de lucidez. Este não é um livro que consola, mas um livro que adverte. Não ensina virtudes; revela fragilidades. E talvez seja esse o tipo de leitura que mais transforma, porque não promete redenção fácil nem absolvição rápida. Se há algo que aprendi escrevendo, é que a literatura não deve ser prêmio, nem castigo, nem privilégio. Ela é encontro. E, às vezes, confronto. Saúdo, portanto, meus confrades de sensibilidade e consciência: Eurípedes Barsanulfo, que compreendeu cedo demais que o saber não aceita barganhas; José Martins de Souza, que insiste em lembrar que ler é um ato sério; e Corina Novelino, que preservou, com fidelidade e afeto, a memória de um educador que confiava mais no espírito humano do que em recompensas. — Graham Greene