Inspirados já nos ensinamentos de Sófocles, aqui, procurar-se-á a conexão, pelo conhecimento, entre o velho e o novo, com seus conflitos.
As pistas perseguidas, de modos específicos, continuarão a ser aquelas pavimentadas pelo grego do período clássico (séculos VI e V a.C).
quarta-feira, 19 de agosto de 2026
Bombas contra a ABI e a imprensa que a linha-dura não calou, por Luiz Carlos AzedoCorreio BrazilienseO que houve foi um atentado terrorista da linha-dura do regime militar, contra a liberdade de imprensa, e uma advertência a todos os que ousavam questionar aquela ditadura
Há 50 anos, a bomba que explodiu na sede da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), em 19 de agosto de 1976, não tinha como alvo apenas o icônico Edifício Herbert Moses, na Rua Araújo Porto Alegre, 71, no Centro do Rio de Janeiro, simbolo do Modernismo brasileiro. Construído entre 1936 e 1938, e projetado pelos Irmãos Roberto, é uma joia da nossa arquitetura, com funcionalidade e plantas livres, além de uma fachada com quebra-sóis em venezianas de concreto para barrar o sol forte e pilotis sem portaria fechada na entrada.
O que houve foi um atentado terrorista da linha-dura do regime militar contra a liberdade de imprensa e uma advertência a todos os que ousavam questionar aquela ditadura. A explosão atingiu o sétimo andar do prédio da ABI, próximo à presidência da entidade, danificando salas, elevadores e outros pavimentos. Não houve feridos, mas os prejuízos foram estimados em cerca de 1 milhão de cruzeiros. Em panfleto deixado no local, a autodenominada Aliança Anticomunista Brasileira assumiu a autoria e acusou a associação de estar dominada por comunistas.
Naquele mesmo dia, outro artefato foi colocado na sede da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), também no Rio, durante uma solenidade que reunia centenas de pessoas. A bomba não explodiu por uma falha. A escolha simultânea da ABI e da OAB mostrava que a extrema-direita identificava na imprensa e na advocacia dois obstáculos fundamentais à manutenção do regime militar. O general Ernesto Geisel, que presidia o país, havia anunciado uma abertura “lenta, gradual e segura”, mas os órgãos repressivos continuavam operando. A distensão era uma transição controlada, conduzida de cima para baixo, sem que o regime abrisse mão de seus instrumentos autoritários. Mesmo assim, era contestada por dentro das Forças Armadas.
A contradição da abertura havia se tornado evidente em outubro de 1975, com a morte do jornalista Vladimir Herzog nas dependências do DOI-Codi paulista. A reação da sociedade ganhou dimensão histórica no culto ecumênico celebrado na Catedral da Sé por dom Paulo Evaristo Arns, pelo pastor Jaime Wright e pelo rabino Henry Sobel. Em janeiro de 1976, a morte do operário Manoel Fiel Filho, igualmente sob custódia militar, aprofundou a crise e levou Geisel a substituir o comandante do II Exército.
Esses episódios expuseram a resistência da linha-dura à abertura. Setores radicais recorreram aos atentados para espalhar o medo, atribuir a violência à esquerda e justificar novos retrocessos. O ataque à ABI integrou essa escalada. Documentos do Serviço Nacional de Informações (SNI), recuperados pelo Arquivo Nacional e reunidos na edição especial do Boletim ABI, site da entidade, revelam que a associação não era observada apenas por manifestar opiniões inconvenientes, mas porque representava um espaço de articulação da sociedade civil em defesa dos direitos humanos e contra a censura.
Dona Lyda e Riocentro
Nos anos seguintes, gráficas, livrarias, universidades, jornais, sindicatos, entidades profissionais e bancas que distribuíam publicações alternativas entraram na mira. A Comissão Nacional da Verdade registrou uma série de 40 atentados a bomba entre janeiro de 1980 e abril de 1981. A Fundação Getulio Vargas menciona aproximadamente 74 ações terroristas no mesmo contexto ampliado.
A violência atingiu um ponto especialmente grave em 27 de agosto de 1980. Um novo atentado foi feito com êxito contra a OAB: uma carta-bomba matou a secretária Lyda Monteiro da Silva. Outro atentado, na Câmara Municipal do Rio, no gabinete de vereador Antonio Carlos, o Tonico (MDB), deixou vítimas feridas. Não se tratava de episódios isolados, mas de uma estratégia terrorista de militares contra instituições, lideranças e profissionais comprometidos com a redemocratização.
Essa engrenagem começou a ruir na noite de 30 de abril de 1981, durante um espetáculo em comemoração ao Dia do Trabalhador, no Riocentro. Cerca de 20 mil pessoas estavam no local, quando uma bomba explodiu dentro de um automóvel ocupado pelo sargento Guilherme Pereira do Rosário e pelo capitão Wilson Machado, vinculados ao DOI-Codi do Rio. Rosário morreu, Machado ficou ferido. Uma segunda explosão atingiu a área de energia do complexo.
A Comissão da Verdade concluiu que o Riocentro resultou de uma ação planejada por militares ligados ao I Exército e ao SNI. Também apontou que o primeiro inquérito policial militar foi manipulado para apresentar os responsáveis diretos como vítimas, protegendo a cadeia de comando e evitando responsabilizações.
No Superior Tribunal Militar (STM), o almirante Júlio de Sá Bierrenbach se destacou ao contestar o arquivamento do caso. Seu posicionamento mostrou que a defesa da verdade não era incompatível com a condição militar: incompatível com a democracia era utilizar instituições do Estado para acobertar o terrorismo.
Nesta quarta-feira, 19 de agosto, a ABI recordará os 50 anos do atentado com um ato em sua sede, a partir das 17h, e a instalação de uma placa no sétimo andar, que homenageia Ana Arruda Callado, Barbosa Lima Sobrinho, Fernando Segismundo Esteves, Fichel Davit Chargel, Lygia Maria Collor Jobim e Oscar Maurício de Lima Azêdo, alguns postumamente.
O Que É, o Que É?Beth Carvalho
Eu fico com a pureza
Da resposta das crianças
É a vida, é bonita e é bonita
Viver
E não ter a vergonha de ser feliz
Cantar e cantar e cantar
A beleza de ser um eterno aprendiz
Ah, meu Deus, eu sei (eu sei)
Que a vida devia ser bem melhor e será
Mas isso não impede que eu repita
É bonita, é bonita e é bonita
Viver
E não ter a vergonha de ser feliz
Cantar e cantar e cantar
A beleza de ser um eterno aprendiz
Ah, meu Deus, eu sei (eu sei)
Que a vida devia ser bem melhor e será
Mas isso não impede que eu repita
É bonita, é bonita e é bonita
E a vida
E a vida o que é?
Diga lá, meu irmão
Ela é a batida de um coração?
Ela é uma doce ilusão?
E a vida
Ela é maravilha ou é sofrimento?
Ela é alegria ou lamento?
O que é, o que é, meu irmão?
Há quem fale que a vida da gente
É um nada no mundo
É uma gota, é um tempo
Que nem dá um segundo
Há quem fale que é um divino
Mistério profundo
É o sopro do Criador
Numa atitude repleta de amor
Você diz que é luta e prazer
Ele diz que a vida é viver
Ela diz que o melhor é morrer
Pois amada não é e o verbo sofrer
Eu só sei que confio na moça
E na moça, eu ponho a força da fé
Somos nós quem fazemos a vida
Como der ou puder ou quiser
Sempre desejada
Por mais que esteja errada
Ninguém quer a morte
Só saúde e sorte
A pergunta roda
E a cabeça agita
Eu fico com a pureza
Da resposta das crianças
É a vida, é bonita e é bonita
Viver
E não ter a vergonha de ser feliz
Cantar e cantar e cantar
A beleza de ser um eterno aprendiz
Ah, meu Deus, eu sei (eu sei)
Que a vida devia ser bem melhor e será
Mas isso não impede que eu repita
É bonita, é bonita e é bonita
Viver
E não ter a vergonha de ser feliz
Cantar e cantar e cantar
A beleza de ser um eterno aprendiz
Ah, meu Deus, eu sei (eu sei)
Que a vida devia ser bem melhor e será
Mas isso não impede que eu repita
É bonita, é bonita e é bonita
É bonita, é bonita e é bonita
Composição: Gonzaguinha.O HOMEM QUE DESAFIOU OS SOVIÉTICOS
Em agosto de 1968, a cúpula do Partido Comunista da Tchecoslováquia, inclusive o seu secretário-geral Alexandre Dubček, foi sequestrada, levada a Moscou e obrigada a assinar autorização para a invasão do país pelas tropas do Pacto de Varsóvia.
A invasão marcou o fim do processo de democratização e reestruturação econômica conhecido como “A Primavera de Praga”.
A “PRIMAVERA DE PRAGA”
Desde 1948, a Tchecoslováquia havia adotado o modelo político e econômico da então União Soviética, de domínio do Partido Comunista sobre os demais, economia totalmente estatal e de planejamento centralizado.
A Tchecoslováquia, que era uma economia desenvolvida e industrializada e de padrão de vida comparável ao da Áustria e da Alemanha, enfrentava baixa produtividade e estagnação econômica.
Os comunistas reformistas, liderados por Dubček, aprovaram o “Programa de Ação”, que, além de buscar uma democracia pluripartidária, tentava dar maior autonomia às empresas estatais e abria espaço para pequenas empresas privadas, principalmente no setor de serviços, ainda muito longe do que seriam, posteriormente, as reformas econômicas da China, a partir de 1978. Hoje, 70% da economia chinesa é privada.
O SEQUESTRO
Assisti ontem no Prime Vídeo O HOMEM QUE DESAFIOU OS SOVIÉTICOS, filme de 2023 que retrata o sequestro da cúpula do PC tcheco para assinar a autorização da invasão.
Um deles, porém, se recusou a assinar: František Kriegel, médico filiado ao PC desde a juventude, membro das Brigadas Internacionais na Guerra Civil Espanhola (1936–1939) e presidente da Frente Nacional, a frente de partidos democráticos que combateu a ocupação nazista da Tchecoslováquia.
Em 1969, Alexandre Dubček foi substituído por Gustav Husák, que comandou a chamada “normalização”, um processo de repressão política que perseguiu os comunistas reformistas e todos os dissidentes do regime e manteve o modelo econômico soviético, responsável pelo empobrecimento do país.
Dubček, de principal líder do país, caiu em desgraça, sendo obrigado a trabalhar como guarda florestal em um parque na Eslováquia. Em 1989, após a “Revolução de Veludo” que pôs fim ao regime stalinista, Dubček retornou à vida pública, sendo escolhido presidente do Parlamento federal. Filiou-se então ao Partido Social-Democrata e morreu em um acidente de automóvel, em 1992.
Trailler do filme O HOMEM QUE DESAFIOU OS SOVIÉTICOS
https://youtu.be/BS6i_1vqwHU?si=0dRb18AU4_wzH-5wO Homem que Desafiou os Soviéticos (The Man Who Stood in the Way) | Trailer DubladoElite Filmes
7 de nov. de 2025 #trailer #trailerdublado
#trailer #trailerdublado Sinopse: O herói da Primavera de Praga, Frantisek Kriegel, foi preso pelas tropas soviéticas junto de outros cinco líderes políticos. Mesmo sob forte ameaça, ele foi o único que se recusou a assinar o Protocolo de Moscou, que permitiria a ocupação soviética na Tchecoslováquia.
Estreia: 12/11/25
Onde: Prime Video, Apple TV , Claro tv+, Vivo Play, Google TV e YouTube Filmes
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"Eu disse não"No relato do brigadeiro, o telefonema crucial para a 'trincheira antigolpista'MARCELO GODOY
Trincheira Antigolpista: Os Bastidores Militares de 2022
O ex-comandante da Força Aérea Brasileira (FAB), brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Junior, lança em setembro o livro "Eu disse não". A obra revela bastidores inéditos da intensa pressão sofrida pelos chefes militares durante o governo de Jair Bolsonaro.
Em depoimento marcante, o militar detalha as dores e os dilemas éticos que cercaram as reuniões de alta patente no fim de 2022. Na imagem, o registro histórico do encontro com o então presidente simboliza o peso institucional carregado pela alma e pela consciência daqueles que escolheram manter as Forças Armadas nos trilhos da legalidade e da harmonia democrática, recusando-se a embarcar em uma aventura golpista.
TeresinhaChico Buarque
O primeiro me chegou
Como quem vem do florista
Trouxe um bicho de pelúcia
Trouxe um broche de ametista
Me contou suas viagens
E as vantagens que ele tinha
Me mostrou o seu relógio
Me chamava de rainha
Me encontrou tão desarmada
Que tocou meu coração
Mas não me negava nada
E, assustada, eu disse: Não
O segundo me chegou
Como quem chega do bar
Trouxe um litro de aguardente
Tão amarga de tragar
Indagou o meu passado
E cheirou minha comida
Vasculhou minha gaveta
Me chamava de perdida
Me encontrou tão desarmada
Que arranhou meu coração
Mas não me entregava nada
E, assustada, eu disse: Não
O terceiro me chegou
Como quem chega do nada
Ele não me trouxe nada
Também nada perguntou
Mal sei como ele se chama
Mas entendo o que ele quer
Se deitou na minha cama
E me chama de mulher
Foi chegando sorrateiro
E antes que eu dissesse não
Se instalou feito um posseiro
Dentro do meu coração
Composição: Chico Buarque.
BEM PENSADO "O que é um homem rebelde? Um homem que diz não" Albert Camus
“Ela é maraVida ou é sofrimento.”
"Mattinha, Da vida é pra viver."
Inexoravelmente
As idades do cronista, por Roberto DaMattaO Estado de S. PauloEm meio aos meus sofrimentos, não abandonei a seara da paz, da harmonia e da esperança
É maravilhado, surpreso e assustado que, pensante e andante, fui vestido por 90 anos no dia 29 do mês passado. Aliás, fui distinguido com uma foto na primeira página e entrevista neste jornal no qual escrevo desde 2001, o que tocou fundo o meu coração.
"Na grande seara dos invejosos, chegar aos 90 falando, andando e pensando teimosamente feliz é, como dizia Tom Jobim, uma ofensa."
"Esse inexorável destino que o envelhecer trata muitas vezes como benefício, pois o velho corpo pode ser mais pesado do que a alma por ele inventada."
"Exceto por meio das imagens pastorais das crenças religiosas, muito embora essa morte seja experimentada todas as noites, quando dormimos, como conceitua um imenso Manuel Bandeira."
"Conheci de perto a velhice casmurra do meu avô e o mais ou menos soturno envelhecimento do meu amado pai."
"Aos 90, você não mais “faz”, “chega”, “completa” ou tem primaveras, pois são as primaveras que têm você."
"P.S.: Ah! Antes que eu me esqueça: na velhice não há futuro ou retornos..."
Aos 90, você não mais “faz”, “chega”, “completa” ou tem primaveras, pois são as primaveras que têm você. Viramos uma espécie de vivente além da conta, pois coisas velhas deveriam estar num porão, mas a vivência insiste em nos manter vivos. Ser um velho mantendo dentro de si um jovem e uma criança, um demônio e um anjo, um mortal e, quem sabe, o desejo amaldiçoado da imortalidade, é um paradoxo. Causa espanto e, nuns poucos, desolação. Na grande seara dos invejosos, chegar aos 90 falando, andando e pensando teimosamente feliz é, como dizia Tom Jobim, uma ofensa.
Sou e estou velho. Vivi enfrentando minhas deficiências, dores e, no meio dos meus sofrimentos, não abandonei a seara da paz, da harmonia e da esperança. Apesar de tudo, permaneci companheiro de mim mesmo. Aprendi as chamadas “idades do homem” num tempo em que o gênero masculino englobava o feminino. Havia infância, juventude, maturidade e velhice. Abafava-se o nascimento para não terminar mencionando o que o nosso progressismo e desencanto reprimem: a morte ou o fim. Esse inexorável destino que o envelhecer trata muitas vezes como benefício, pois o velho corpo pode ser mais pesado do que a alma por ele inventada.
O fato é que as imposições da vida escondem e afugentam a inevitabilidade do fim. Esse fim que uma consciência onipresente e desenhada para a vida é incapaz de imaginar. Exceto por meio das imagens pastorais das crenças religiosas, muito embora essa morte seja experimentada todas as noites, quando dormimos, como conceitua um imenso Manuel Bandeira.
Tenho plena consciência de que cheguei ao término de um ciclo. Não é um fim, é uma fase. Na infância, almejamos a beleza da juventude. Na juventude, experimentamos os becos das escolhas. Maduros, inevitavelmente nos tornamos sérios, quadrados, controladores e, às vezes, sectários. Velhos, temos a suprema felicidade de testemunhar as estradas da vida que criamos. Conheci de perto a velhice casmurra do meu avô e o mais ou menos soturno envelhecimento do meu amado pai. Agiota que sou – como quer o paradoxo da vida –, mais velho que eles, entendo que há muitos estilos de viver e de morrer. O remédio é o amor que nos alegra, nos completa, nos traz prazer e tudo isso que compete de igual para igual com a morte.
P.S.: Ah! Antes que eu me esqueça: na velhice não há futuro ou retornos...
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As idades do cronista: Um ensaio sobre o tempo e a memória
É de se espantar, de se maravilhar e, por que não, de se assustar um pouco quando o calendário nos prega essa peça indescritível: a de nos vestir com noventa casacos de inverno e outras tantas primaveras. Olho-me no espelho desta biblioteca, cercado por fantasmas de papel que me fitam com cumplicidade, e percebo que a vida não é um acúmulo de gavetas que se fecham, mas um fluxo contínuo, uma passarela onde o passado e o presente teimam em dançar a mesma valsa.
O cronista, esse eterno farejador do cotidiano, descobre aos 90 anos uma inversão gramatical e existencial avassaladora: "Aos 90, você não mais 'faz', 'chega', 'completa' ou tem primaveras, pois são as primaveras que têm você." Já não somos donos do tempo; somos por ele habitados, sequestrados por sua cadência sutil. Viramos inquilinos de nossa própria biografia.
O bailado dos termos: Entre a explosão da alma e o peso da carne
Na tempestade de ideias que precede a escrita — esse brainstorm sagrado onde as palavras caem como chuva estrelada sobre a cabeça — alguns termos se agitam, exigindo o seu lugar de direito no texto. Eles não são meros adornos; são o arcabouço, as âncoras que sustentam a leveza e a gravidade de ser:
Maravilhado e maraVida: O choque do envelhecimento é, antes de tudo, um susto estético. Estar vivo, pensante e andante aos 90 é um milagre que flerta com o neologismo. É a constatação de que a existência, apesar de suas dores, continua sendo uma explosão de espanto criativo. Uma verdadeira maraVida que se impõe contra a biologia.
Da vida é pra viver: Há um eco lírico, quase musical, que atravessa essa teimosia em permanecer feliz. É o chamado ancestral à ação, a recusa litúrgica de se recolher ao porão da história antes da hora. A vivência insiste em nos manter vivos porque a vida, afinal, é uma avenida a ser percorrida até o último acorde.
Inexorável e Inexoravelmente: A repetição do termo funciona como o tique-taque de um relógio de parede antigo. É o destino inevitável que o envelhecer traz consigo. Uma força que avança sem pedir licença, transformando o corpo biológico em algo, muitas vezes, mais pesado do que a própria alma que ele inventou.
As âncoras culturais: O diálogo com os mestres
Ninguém cruza as estradas do tempo sozinho. Para compreender o paradoxo de carregar, num mesmo peito, um jovem e um velho, um demônio e um anjo, o cronista convoca os seus pares, os arquitetos da nossa sensibilidade:
Tom Jobim e a Ofensa da Felicidade: Chegar à nona década falando, andando e pensando com lucidez é quase um ato de insurreição. O maestro soberano já advertia, com sua ironia fina, sobre as dificuldades de se destacar no cenário nacional. Manter-se "teimosamente feliz" na grande seara dos descrentes soa, inevitavelmente, como uma provocação.
Manuel Bandeira e a Concreção do Sono: A morte, esse mistério que o progressismo moderno tenta recalcar e abafar, é nossa velha conhecida. O poeta de Pasárgada nos ensinou que a experimentamos todas as noites, deitados na cama, quando fechamos os olhos e nos entregamos ao descanso. O sono é o ensaio geral, a metáfora perfeita para a transição de uma fase para outra.
A Linhagem no Espelho (Casmurra e Soturno): Ao olhar para trás, o cronista reencontra a velhice casmurra do avô — com aquele silêncio machadiano impregnado de memórias recolhidas — e o envelhecimento soturno e melancólico do amado pai. Como um "agiota do tempo", que cobrou juros da vida e viveu mais do que ambos, o autor compreende que cada homem desenha o seu próprio estilo de se despedir do palco.
Post Scriptum: A geometria do instante
Ao fechar as cortinas desta reflexão, resta o realismo nu do antropólogo que aprendeu a ler os mitos e os ritos da existência. Na velhice não há futuro ou retornos... O horizonte diminui de tamanho, as estradas de volta são bloqueadas pelas escolhas que já foram feitas, e o amanhã deixa de ser uma promessa abstrata de longo prazo.
O que sobra, então? Sobra o remédio do amor. Esse sentimento maduro que nos alegra, nos completa, nos traz prazer e compete de igual para igual com a finitude. Não há espaço para o azedume. Diante do inexorável, que a nossa alma permaneça leve, companheira de si mesma, celebrando cada curva da estrada que teimosamente ajudamos a construir.
Use o código com cuidado.
As idades do cronista: Um ensaio sobre o tempo e a memóriaÉ de se espantar, de se maravilhar e, por que não, de se assustar um pouco quando o calendário nos prega essa peça indescritível: a de nos vestir com noventa casacos de inverno e outras tantas primaveras. Olho-me no espelho desta biblioteca, cercado por fantasmas de papel que me fitam com cumplicidade, e percebo que a vida não é um acúmulo de gavetas que se fecham, mas um fluxo contínuo, uma passarela onde o passado e o presente teimam em dançar a mesma valsa.O cronista, esse eterno farejador do cotidiano, descobre aos 90 anos uma inversão gramatical e existencial avassaladora: "Aos 90, você não mais 'faz', 'chega', 'completa' ou tem primaveras, pois são as primaveras que têm você." Já não somos donos do tempo; somos por ele habitados, sequestrados por sua cadência sutil. Viramos inquilinos de nossa própria biografia.O bailado dos termos: Entre a explosão da alma e o peso da carneNa tempestade de ideias que precede a escrita — esse brainstorm sagrado onde as palavras caem como chuva estrelada sobre a cabeça — alguns termos se agitam, exigindo o seu lugar de direito no texto. Eles não são meros adornos; são o arcabouço, as âncoras que sustentam a leveza e a gravidade de ser:Maravilhado e maraVida: O choque do envelhecimento é, antes de tudo, um susto estético. Estar vivo, pensante e andante aos 90 é um milagre que flerta com o neologismo. É a constatação de que a existência, apesar de suas dores, continua sendo uma explosão de espanto criativo. Uma verdadeira maraVida que se impõe contra a biologia.Da vida é pra viver: Há um eco lírico, quase musical, que atravessa essa teimosia em permanecer feliz. É o chamado ancestral à ação, a recusa litúrgica de se recolher ao porão da história antes da hora. A vivência insiste em nos manter vivos porque a vida, afinal, é uma avenida a ser percorrida até o último acorde.Inexorável e Inexoravelmente: A repetição do termo funciona como o tique-taque de um relógio de parede antigo. É o destino inevitável que o envelhecer traz consigo. Uma força que avança sem pedir licença, transformando o corpo biológico em algo, muitas vezes, mais pesado do que a própria alma que ele inventou.As âncoras culturais: O diálogo com os mestresNinguém cruza as estradas do tempo sozinho. Para compreender o paradoxo de carregar, num mesmo peito, um jovem e um velho, um demônio e um anjo, o cronista convoca os seus pares, os arquitetos da nossa sensibilidade:Tom Jobim e a Ofensa da Felicidade: Chegar à nona década falando, andando e pensando com lucidez é quase um ato de insurreição. O maestro soberano já advertia, com sua ironia fina, sobre as dificuldades de se destacar no cenário nacional. Manter-se "teimosamente feliz" na grande seara dos descrentes soa, inevitavelmente, como uma provocação.Manuel Bandeira e a Concreção do Sono: A morte, esse mistério que o progressismo moderno tenta recalcar e abafar, é nossa velha conhecida. O poeta de Pasárgada nos ensinou que a experimentamos todas as noites, deitados na cama, quando fechamos os olhos e nos entregamos ao descanso. O sono é o ensaio geral, a metáfora perfeita para a transição de uma fase para outra.A Linhagem no Espelho (Casmurra e Soturno): Ao olhar para trás, o cronista reencontra a velhice casmurra do avô — com aquele silêncio machadiano impregnado de memórias recolhidas — e o envelhecimento soturno e melancólico do amado pai. Como um "agiota do tempo", que cobrou juros da vida e viveu mais do que ambos, o autor compreende que cada homem desenha o seu próprio estilo de se despedir do palco.Post Scriptum: A geometria do instanteAo fechar as cortinas desta reflexão, resta o realismo nu do antropólogo que aprendeu a ler os mitos e os ritos da existência. Na velhice não há futuro ou retornos... O horizonte diminui de tamanho, as estradas de volta são bloqueadas pelas escolhas que já foram feitas, e o amanhã deixa de ser uma promessa abstrata de longo prazo.O que sobra, então? Sobra o remédio do amor. Esse sentimento maduro que nos alegra, nos completa, nos traz prazer e compete de igual para igual com a finitude. Não há espaço para o azedume. Diante do inexorável, que a nossa alma permaneça leve, companheira de si mesma, celebrando cada curva da estrada que teimosamente ajudamos a construir.
terça-feira, 18 de agosto de 2026
Vila Euclides, São Januário e Pacaembu, palcos da história política do Brasil, por Luiz Carlos AzedoCorreio Braziliense
Os maiores comícios foram os das Diretas Já, que empolgaram o país, mas nem por isso garantiram a aprovação da Emenda Dante de Oliveira. A ditadura caiu no Colégio Eleitoral, com eleição indireta de Tancredo Neves
O primeiro comício a que assisti foi o da Central do Brasil, realizado em 13 de março de 1964, na Praça da República, no Rio de Janeiro, que reuniu entre 150 mil e 200 mil pessoas. O presidente João Goulart (Jango) e Leonel Brizola lideraram o evento para defender as reformas de base e pressionar o Congresso.
Era apenas um menino, levado pelos pais ao ato político no qual Jango anunciou que faria reformas por decreto, entre as quais a agrária. Carrego poucas recordações de criança: pessoas no teto das plataformas de bonde, penduradas nos postes e nas árvores; eu sobre os ombros de meu pai. Aquele comício era um “apelo às massas” para que apoiassem Jango. Talvez seja o mais famoso da nossa história política porque, semanas depois, houve o golpe militar de 1964.
Os maiores foram os das Diretas Já, que empolgaram o país, mas nem por isso garantiram a aprovação da Emenda Dante de Oliveira. A ditadura caiu no Colégio Eleitoral, com a eleição de Tancredo Neves, cuja campanha também promoveu grandes comícios. Tão grandes que, em determinado momento, o velho pessedista resolveu suspendê-los, porque temia perder o controle do povo nas ruas. Dois outros são históricos: o de Getúlio Vargas, em São Januário, e o de Luiz Carlos Prestes, no Pacaembu.
São Januário, estádio do Vasco da Gama e o maior do país até a inauguração do Maracanã, foi um grande palco da política nacional. Getúlio utilizou as comemorações do 1º de Maio para falar diretamente aos trabalhadores e consolidar a liturgia do trabalhismo. Ali anunciou o salário mínimo, em 1940. As arquibancadas lotadas de operários, funcionários públicos e representantes sindicais eram uma cenografia política do Estado Novo. Getúlio se apresentava como mediador dos conflitos entre capital e trabalho, e estabelecia uma relação direta com o povo, à margem das elites políticas tradicionais.
Em 15 de julho de 1945, o Estádio do Pacaembu recebeu cerca de 100 mil pessoas para ouvir Prestes. O “Cavaleiro da Esperança” deixara a prisão depois de nove anos de cárcere durante o Estado Novo e guardara enorme prestígio. Era o fim da Segunda Guerra Mundial e o Brasil voltava à democracia. Com o Partido Comunista na legalidade, defendeu a democracia, os direitos dos trabalhadores e a união nacional. No ato, o poeta chileno Pablo Neruda leu o poema Dito no Pacaembu, dedicado a Prestes, que incluiu no antológico Canto Geral (Bertrand Brasil).
Campanha eleitoral
Essa tradição foi retomada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao iniciar sua atual campanha à reeleição no Estádio Primeiro de Maio, a Vila Euclides, em São Bernardo do Campo. O local foi o palco das grandes assembleias dos metalúrgicos das greves de 1978, 1979 e 1980. As paralisações começaram dentro das fábricas e ganharam o sindicato, as igrejas, as ruas e o estádio. No começo, o som era precário; as frases de Lula eram repetidas em coro pelos trabalhadores para que ecoassem em todo estádio.
Quase meio século depois, o retorno à Vila Euclides busca o reencontro de Lula com seu mito de origem. Aos 80 anos e em sua sétima campanha presidencial, resgata a imagem do operário que enfrentou a ditadura, fundou um partido e chegou à Presidência. Diante de mais de 15 mil pessoas, Lula recordou os velhos tempos de metalúrgico, ao lado de antigos companheiros de sindicato.
Com Geraldo Alckmin, Fernando Haddad, Benedita da Silva, ministros e dirigentes petistas, Lula procurou recompor a imagem de político enraizado no mundo do trabalho e comparou indicadores de emprego, inflação, educação, salário e investimentos de seu governo com os da administração de Jair Bolsonaro. Flávio Bolsonaro (PL) seria o herdeiro do governo do pai, levando a disputa para o confronto de realizações administrativas.
Já Flávio escolheu outro lugar carregado de significado: a Praia de Copacabana, palco dos 18 do Forte, gênese do “Tenentismo” e de grandes manifestações de Bolsonaro. Reproduziu uma gravação do pai, atacou Lula e o Supremo Tribunal Federal (STF) e prometeu combater o “sistema”, as facções criminosas e a corrupção. Depois do comício, Flávio foi ao emblemático São Januário assistir à partida entre Vasco e Santos. Encontrou Neymar, recebeu um autógrafo numa camisa verde-amarela. Deixou o estádio após o terceiro gol do Santos, sob vaias da torcida vascaína.
Os demais presidenciáveis também escolheram lugares com os quais se identificam. Ronaldo Caiado (PSD) começou com uma missa e uma carreata pelo Entorno do Distrito Federal, partindo de Águas Lindas de Goiás. Apresentou a segurança pública como sua principal vitrine e se colocou como alternativa a Lula e a Flávio. A carreata demonstrou a força regional do ex-governador.
Romeu Zema (Novo) abriu a campanha em Montes Claros, no Norte de Minas Gerais. Depois de uma missa, caminhou da Praça da Matriz ao Mercado Municipal e conversou com comerciantes e produtores rurais. Ao começar pelo interior, procurou ressaltar sua identidade mineira, o discurso de austeridade e a experiência administrativa.
Renan Santos (Missão) escolheu o Largo São Francisco, diante das Arcadas da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, onde foi lida, em 1977, a famosa Carta em defesa do Estado democrático de direito. Perante um público majoritariamente jovem, atacou Lula e Flávio, recusou o rótulo de terceira via e apresentou-se como representante de um projeto próprio. Sua presença provocou protestos de estudantes e movimentos de esquerda.
Morte de Getúlio Vargas
A morte de Getúlio Dornelles Vargas, então 17.º presidente do Brasil, ocorreu em 24 de agosto de 1954, quando ele cometeu suicídio com um disparo de um revólver calibre 32 no coração, em seu próprio quarto, no Palácio do Catete, na cidade do Rio de Janeiro, então capital federal.
O episódio aconteceu em um dos períodos mais turbulentos da história política brasileira e marcou profundamente a sociedade da época.
A crise política que antecedeu o suicídio
Getúlio Vargas havia retornado ao poder em 1951, desta vez por meio do voto popular, após anos afastado da Presidência da República.
Durante o seu segundo governo, enfrentou uma oposição cada vez mais intensa, sendo alvo de acusações de corrupção e de uma forte campanha política conduzida por setores da imprensa e da oposição.
A crise atingiu o seu ponto máximo após o chamado Atentado da Rua Tonelero, ocorrido em 5 de agosto de 1954. O atentado tinha como alvo o jornalista e político Carlos Lacerda, um dos maiores adversários do presidente.
Embora Lacerda tenha sobrevivido, o major da Aeronáutica Rubens Vaz morreu durante o ataque. As investigações acabaram envolvendo integrantes da guarda pessoal do presidente, agravando ainda mais a crise política.
Poucos meses antes, um pedido de impeachment contra Vargas havia sido apresentado à Câmara dos Deputados, aumentando a pressão sobre o governo.
"Só morto sairei do Catete"
A frase estampada nos jornais tornou-se um dos maiores símbolos da história política brasileira:
"Só morto sairei do Catete."
Na madrugada de 24 de agosto de 1954, Getúlio Vargas escreveu a sua famosa Carta-Testamento, um documento que transformaria a sua morte em um dos acontecimentos mais impactantes da história nacional.
Em um dos trechos mais conhecidos, escreveu:
"Saio da vida para entrar na História."
Outro trecho da carta dizia:
"Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História."
A reação popular
Após o anúncio da morte do presidente, o Brasil foi tomado por uma enorme comoção popular.
Milhares de pessoas saíram às ruas para prestar homenagens. Também ocorreram ataques contra sedes de jornais identificados como opositores do governo.
A situação tornou-se tão tensa que Carlos Lacerda precisou deixar o país temporariamente.
O enterro de Vargas reuniu multidões e demonstrou o tamanho da sua influência política e do apoio popular que ainda possuía.
O legado de Getúlio Vargas
A figura de Getúlio Vargas continua sendo objeto de debates até os dias atuais.
Para muitos brasileiros, ele foi um líder nacionalista responsável por importantes avanços sociais, como:
A consolidação das leis trabalhistas;
A criação de direitos para os trabalhadores;
O fortalecimento da industrialização brasileira;
A modernização do Estado.
Por outro lado, os críticos destacam aspectos autoritários do seu governo, especialmente durante o período do Estado Novo (1937-1945), marcado pela censura, pela perseguição política e pela concentração de poder.
Independentemente das interpretações políticas, a morte de Getúlio Vargas representa um dos acontecimentos mais marcantes da história do Brasil no século XX.
"Quem nasce para o oportunismo não chega ao estaditismo e morre no ostracismo."
Fonte:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Morte_de_Get%C3%BAlio_Vargas
relato de prisão, por Eurídice Figueiredo
Resenha | Maria Werneck: relato de prisão, por Eurídice Figueiredoblogbvps10.12.2025ResenhaSala 4: a primeira prisão política feminina do Brasil, livro de Maria Werneck, reeditado pela casa matinas depois de quase 40 anos de sua primeira publicação, é resenhado hoje por Eurídice Figueiredo (UFF).
O livro reconstrói, a partir das memórias de Maria Moraes Werneck de Castro, o cotidiano do grupo de mulheres encarceradas na antiga Casa de Detenção do Rio de Janeiro durante o governo Vargas. Na pequena cela coletiva feminina, a chamada “sala 4”, conviviam figuras que se tornariam algumas das maiores referências na luta contra o autoritarismo no Brasil, como Olga Benário, Nise da Silveira, Eugênia Moreyra, Noêmia Mourão, Eneida de Moraes, Sabo Berger, entre tantas outras. Ao aproximar os relatos de Maria Werneck dos testemunhos das militantes presas durante outra ditadura, a de 1964, Eurídice Figueiredo ressalta a natureza sempre em disputa da memória, enxergando, no ato de rememoração e escrita dessas mulheres, uma forma própria de resistência.
Confira aqui outras resenhas publicadas ao longo do ano.
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Maria Werneck: relato de prisão
Por Eurídice Figueiredo (UFF)
Publicado originalmente em 1988 pelo Centro de Estudos e Solidariedade Amílcar Cabral (CESAC), Sala 4: a primeira prisão política feminina no Brasil, de Maria Werneck (1909-1994), acaba de ser reeditado pela casa matinas, que funciona no regime print on demand (POD), ou seja, é preciso acessar o catálogo no site para comprar o livro, que só então será impresso e enviado ao interessado. A introdução é de Elvia Bezerra, que indicou o livro para publicação, fez a preparação e escreveu as notas. Elvia estava presente quando Maria Werneck entregou um exemplar para a Dra. Nise da Silveira, uma de suas companheiras de cela. O livro foi lançado em novembro de 2025, no marco dos 90 anos da Intentona Comunista (1935).
Maria Werneck, uma das fundadoras da União Feminina do Brasil (UFB), participante da Liga Antifascista (criada em 1934) e do Movimento Unitário dos Trabalhadores (MUTI), foi presa em 19 de dezembro de 1935. Em 3 de janeiro de 1936, o jornal O Globo publicou matéria que mencionava sua demissão do cargo de procuradora da Caixa Econômica Federal (CEF). Libertada em 1937, foi julgada e absolvida, sendo, posteriormente, reintegrada à CEF. Filiou-se ao Partido Comunista do Brasil (PCB) em 1945. Em 1937, às vésperas da decretação do Estado Novo, ela e o marido fugiram para a Argentina porque sabiam que uma ordem de prisão contra eles já estava assinada.
Ela ficou presa na Casa de Detenção, que, ao lado de outras dependências, posteriormente seria chamado de Complexo Penitenciário da Frei Caneca, demolido em 2010, dando lugar ao projeto habitacional do governo Minha Casa Minha Vida; numa parte preservada, foi instalado o Museu Penitenciário do Rio de Janeiro. A autora relembra que o ambiente do prédio era escuro, muito sujo e degradante; ao mostrar as celas para os presos, os delegados as chamavam de “apartamentos” com ar de deboche.
É necessário entender o contexto histórico em que se situa a prisão de Maria Werneck. De maneira muito sucinta, a chamada Era Vargas tem três fases: o Governo Provisório (1930-1934), o Governo Constitucional (1934-1937) e o Estado Novo (1937-1945). Getúlio assume o poder no bojo da Revolução de 1930, na verdade um golpe militar que depôs o presidente Washington Luís e impediu a posse de Júlio Prestes, sob a alegação de que houvera fraude. Esse golpe se justificou porque até 1930 predominava a Política do Café com Leite, na qual São Paulo e Minas Gerais se alternavam no poder. No entanto, os paulistas impuseram o nome de Júlio Prestes, o que detonou a revolta.
Getúlio, desde o início, procurou centralizar o poder e enfraquecer as oligarquias estaduais. A eliminação dos órgãos legislativos, a nível federal, estadual e municipal, a imposição de interventores e a falta de eleições provocaram o descontentamento dos estados, em especial de São Paulo, que pegou em armas contra Getúlio na chamada Revolução Constitucionalista de 1932. Apesar da derrota dos paulistas, Vargas convocou eleições para estabelecer uma Constituinte.
Em 1934 foi promulgada a Constituição, porém Vargas não se atinha às disposições constitucionais, aproveitando-se dos conflitos gerados por comunistas e integralistas para exercer um governo autoritário. Já em 1937 ele deu um golpe, com nova Constituição que suprimia as liberdades civis, promovia enorme repressão e censura à imprensa exercida pelo Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP). O pretexto para o fechamento do Congresso, o cancelamento das eleições e a anulação da Constituição foi o chamado Plano Cohen, uma falsa ameaça comunista, escrita pelo então capitão Olímpio Mourão Filho (1900-1972), o mesmo personagem, já general, que desceu com suas tropas de Juiz de Fora para o Rio de Janeiro em 31 de março de 1964 para dar o golpe. A nova Constituição de 1937 extinguiu os partidos políticos e acabou com a independência dos três poderes.
O encarceramento de muitas pessoas, mais ou menos identificadas pelo regime como sendo antifascistas ou comunistas, se deu depois do levante militar, liderado pela Aliança Nacional Libertadora (ANL) e que ficou conhecido como a Intentona Comunista, em 1935. O movimento, que se deu no Rio Grande do Norte, em Pernambuco e no Rio de Janeiro, foi rapidamente reprimido. Ele teve consequências bem negativas: naquele momento, serviu de justificativa para a instauração do Estado Novo em 1937 e, nos anos subsequentes, provocou o expurgo de oficiais progressistas, reforçou o anticomunismo no seio das Forças Armadas e instalou uma ideologia de direita, que culminou no golpe de 1964. Em 1938, houve uma tentativa de golpe da Ação Integralista Brasileira, liderada por Plínio Salgado (1895-1975), reprimida rapidamente. Nos primeiros anos da Segunda Guerra (1939-1945), o governo Vargas, por seu caráter fascista, tendia a apoiar as Forças do Eixo (Alemanha, Itália, Japão), mas, por pressão dos Estados Unidos, o Brasil declarou guerra à Alemanha e se juntou às Forças Aliadas.
É nesse período conflituoso que se dá a prisão de Maria Werneck e Graciliano Ramos. A notar que ambos eram antifascistas, porém nenhum dos dois era membro do PCB quando foram detidos. Graciliano Ramos, encarcerado no Pavilhão dos Primários, vizinho da sala 4, fala em diversos momentos das mulheres no seu livro Memórias do cárcere, publicado em 1953. Ele as via no banho de sol, jogando uma bola de borracha para desenferrujar os braços. Na volta, paravam e conversavam com os homens.
Sinais de relance percebidos serviram-me para distinguir várias delas: os lábios sangrentos de Valentina, a cabeça grisalha de Elisa Berger, os olhos verdes de Eneida. Olga Prestes era branca e serena. Rosa Meireles, forte e enérgica, tinha voz rija, decidida. No rosto ardente de Maria Werneck, no corpo magro, adivinhava-se de longe intensa vibração. A figura de Nise entrava-me fundo no espírito (Ramos, 2025: 242).
Outras mulheres se referiram à prisão, mas o único livro que trata com detalhes da sala 4 é o de Maria Werneck. Segundo Elvia Bezerra, são elas: Beatriz Bandeira Ryff, que pediu asilo político à Iugoslávia em 1964, lançou o livro A resistência: anotações do exílio em Belgrado e Eneida Costa de Moraes, que publicou um livro de crônicas, Aruanda. Eneida descreve o grupo de presas na sala 4 da Casa de Detenção: “Vinte e cinco mulheres, vinte e cinco camas, vinte e cinco milhões de problemas. Havia louras, negras, mulatas, morenas, de cabelos escuros e claros, de roupas caras e trajes modestos” (Moraes apud Vianna, 2002: 30).
A criação do Partido Comunista em 1922 exerceu uma influência nos rumos do movimento operário, assim como entre os intelectuais. A militância das mulheres sofreu esse influxo, ainda que nem todas comungassem do credo marxista. Como afirma Lúcia Helena Vianna, essa década
marca um avanço significativo das mulheres no espaço público, filiadas a partidos, organizadas em frentes e associações, intervindo diretamente na ação política e construindo um feminismo distinto daquele que se havia manifestado no século anterior, geralmente através de posições e personalidades individuais (Vianna, 2002: 28).
Uma figura de destaque no posicionamento político na década de 1930, que também escreveu sobre sua militância e suas prisões, foi Patrícia Galvão, a Pagu. Filiada ao PCB, foi presa pela primeira vez em 1931, pela participação numa greve operária em Santos; ela foi novamente presa em 1935, após voltar de uma viagem pela Europa e China, ficando detida durante cinco anos na Casa de Detenção de São Paulo, mais conhecida como Carandiru, prisão que foi parcialmente demolida em 2002.
Paixão Pagu, a carta-autobiografia da autora é, ao contrário da autobiografia clássica, precoce e íntima, já que foi escrita em 1940, aos 30 anos de idade, como “relatório” (como ela o chama); é íntima porque tem o caráter de uma carta, dirigida a seu marido, Geraldo Ferraz, não destinada à publicação. Essa autobiografia só saiu em 2005, numa decisão de seus filhos, Rudá e Geraldo Ferraz Filho.
Dois fragmentos têm a data em que foram escritos, à maneira de um diário: 1o de novembro de 1940 e 12 de novembro de 1940. Um pequeno fragmento teria sido escrito anteriormente, na Casa de Detenção, portanto, antes de Pagu começar a escrever o “relatório” propriamente dito. Por vezes, afirma que não é uma autobiografia, não é tampouco um relato de viagem, apesar de contar algumas de suas viagens; ela interrompe a narrativa, deixando muitos pontos em suspenso. É, antes, um texto confessional de alguém que quer revelar a seu companheiro os principais acontecimentos de sua vida. No momento em que escrevia, estava grávida.
Se Graciliano levou 11 anos para escrever sobre o período em que ficou preso, Maria Werneck demorou 50 anos, tendo publicado o livro com quase 80 anos de idade. A autobiografia de Pagu só veio à luz 65 anos depois de escrita. Maria Werneck afirma que foi estimulada tanto por Memórias do cárcere quanto pelo livro Olga, de Fernando Morais, de 1985. Como afirmei no meu livro Mulheres contra a ditadura: escrever é (também) uma forma de resistência (2024), as antigas militantes das organizações de esquerda das décadas de 1960-1970 demoraram muito tempo para escrever. O primeiro livro que saiu foi Eu, Zuzu Angel, procuro meu filho, organizado por sua irmã, Virgínia Valli, publicado em 1986, após a morte da estilista. Em seguida, vem o de Maria Prestes, Meu companheiro: 40 anos ao lado de Luiz Carlos Prestes, de 1992, que é uma biografia do líder comunista e secundariamente uma autobiografia. Todos os outros livros de relatos testemunhais foram publicados depois do ano 2000. Como o livro de Maria Werneck, que teve tiragem pequena e rapidamente estava indisponível, grande parte do material que analisei, lançado por pequenas editoras, teve pouca repercussão e só é encontrado atualmente em sebos, o que comprova que, mesmo quando publicam, as mulheres são pouco lidas. Como observa Michelle Perrot (2019: 151), a política é uma área quase inacessível às mulheres porque é “o centro da decisão e do poder”.
Na sala 4 havia cerca de 16 companheiras (era variável porque umas saíam, outras entravam). Dentre as mulheres presas devemos lembrar o caso da Dra. Nise da Silveira, médica psiquiatra alagoana (como Graciliano Ramos), que ficou presa durante um ano e quatro meses, tendo sido libertada em junho de 1937; em 1944 foi readmitida no serviço público e lotada no Centro Psiquiátrico Nacional, onde criaria o Museu de Imagens do Inconsciente. Em Memórias do cárcere, Graciliano Ramos escreve sobre o encontro que teve com ela:
Noutro lugar o encontro me daria prazer. O que senti foi surpresa, lamentei ver a minha conterrânea fora do mundo, longe da profissão, do hospital, dos seus queridos loucos. Sabia-a culta e boa, Rachel de Queiroz me afirmara a grandeza moral daquela pessoinha tímida, sempre a esquivar-se, a reduzir-se, como a escusar-se de tomar espaço. Nunca me havia aparecido criatura mais simpática. O marido, também médico, era o meu velho conhecido Mário Magalhães. Pedi notícias dele: estava em liberdade. E calei-me, num vivo constrangimento (Ramos, 2025: 230).
Graciliano Ramos fica constrangido pela situação, sente-se ridículo, de pijama, sem sapatos, imagina ter causado péssima impressão. E continua dizendo: “Nise, acanhada, tinha um sorriso doce, fitava-me os bugalhos enormes, e isto me agravava a perturbação, magnetizava-me” (Ramos, 2025: 231).
A história mais sórdida se dá com Olga Benário, esposa de Luís Carlos Prestes, uma judia alemã que fora enviada pela Internacional para ser segurança do líder comunista e acabou se casando com ele. A polícia política comandada pelo então capitão Filinto Müller[1] (1900-1973) deportou Olga para a Alemanha, quando ela estava grávida de sete meses. Maria Werneck conta que todos os presos estavam temerosos quando vieram buscar Olga, por causa dos riscos que ela corria. Para acalmá-los, os guardas inventaram uma mentira, de que estavam levando-a ao hospital, para que recebesse o devido acompanhamento médico. Convidaram Maria Werneck para acompanhá-la, porém, ao se aproximarem do hospital Gaffrée e Guinle, o carro parou e Olga foi conduzida para um camburão, não para o hospital; dali ela seria encaminhada para a deportação; Maria foi levada de volta à prisão. Outra judia alemã, Elise Ewert, tremendamente torturada, foi também deportada para a Alemanha nazista. Ambas morreram no campo de concentração. O marido de Elise (Sabo), Arthur Ewert (Harry Berger), enlouqueceu devido ao excesso de torturas. O dr. Sobral Pinto invocou a Lei de Proteção dos Animais em favor de seus clientes devido ao tratamento desumano a que eram submetidos.
Quando o livro de Graciliano foi publicado, em 1953, Eneida de Moraes o resenhou no Diário de Notícias, recomendando sua leitura, porém fazendo algumas ressalvas:
Se algum dia eu escrevesse lembranças daquela prisão, também seriam diferentes meus personagens. Falaria, por exemplo, de Rosa Meireles, cujas olheiras aumentavam dia a dia pela saudade dos filhos de quem lhe negavam qualquer notícia; em Júlia, que, apenas por ser empregada do casal Prestes, teve seus óculos grossos propositalmente arrancados e quebrados para que ela ficasse, propositalmente, na mais completa escuridão. Falaria com ternura enorme em Sabo Berger, a maior mulher que jamais conheci em toda minha vida e que G. Vargas entregou a Hitler, para matar. Sabo Berger, e em seus seios dez dedos impressos: amarrada no alto de uma escada, de tronco para baixo, dois fortes homens da Polícia Especial, durante dois meses, espremiam-lhe os seios para que ela delatasse. […] Falaria em muitos outros e naturalmente na minha queridíssima Nise da Silveira, também personagem de Graciliano (Moraes apud Zilberman, 2019: 58).
Se compararmos tanto a organização das estruturas do Estado (fechamento do Congresso, supressão de eleições livres, censura, centralização do poder) quanto o nível da repressão do governo Vargas com a ditadura militar, não há muita diferença: arbitrariedades, prisão de pessoas não envolvidas com a militância, torturas, mortes, desaparecimentos. Tanto numa ditadura quanto na outra, havia uma Lei de Segurança Nacional que visava reprimir os “comunistas”. Em 1935, o Tribunal de Segurança Nacional estava instalado na escola Alberto Barth, na rua Oswaldo Cruz, em Botafogo.
Maria Werneck (2025: 28) menciona um caso: “Julgado seu processo no Tribunal de Segurança Nacional, foi Silveira Martins Ramos absolvido por unanimidade, depois de dois anos de tortura e de prisão. Que ocorreu aos seus algozes? Contra eles não foi instaurado nem um simples processo…” Da mesma maneira, os torturadores e os assassinos da ditadura militar não foram punidos. Maria Werneck afirma que os “suicídios” acontecem desde os tempos das revoltas tenentistas e cita os casos de Conrado Niemeyer, do estadunidense Barron em 1936 e de Vladimir Herzog em 1975. A história quase se repete em 2022, quando houve nova tentativa de golpe, comandado pelo presidente derrotado na eleição, Jair Bolsonaro.
Maria Werneck conta que participou da cerimônia de tombamento do prédio do DOPS, situado na rua da Relação, esquina com a rua dos Inválidos, no governo de Leonel Brizola, que queria transformar o local em Centro da Democracia. No entanto, o tombamento definitivo do prédio só foi feito agora. O Instituto do Patrimônio Histórico Nacional (IPHAN) anunciou, em 26 de novembro de 2025, o tombamento do prédio que abrigou o DOPS de 1962 a 1975, onde se praticou tortura contra presos políticos. O Ministério Público Federal e o Movimento Tortura Nunca Mais querem que aí seja instalado um centro de memória e de direitos humanos.
Maria Werneck foi pioneira com seu Sala 4 ao narrar o cotidiano das prisioneiras nessa primeira prisão política feminina; outras ex-militantes da ditadura militar também trataram das prisões em que estiveram detidas. Dentre todos os locais de detenção de mulheres, é o Presídio Tiradentes, em São Paulo, que suscitou mais textos, além de um documentário, Torre das donzelas, dirigido por Susanna Lira, lançado em 2019.
A torre das guerreiras e outras memórias (2021), de Ana Maria Ramos Estevão, é um relato testemunhal da autora, que coloca no título uma correção ao nome que era dado à ala feminina do presídio, “torre das donzelas”, apelido dado pelos presos para brincar com as companheiras que ali estavam. A autora contesta essa visão um tanto machista, considerando que elas eram guerreiras. “Cada uma que lá esteve pagou caro por sua luta. Fomos torturadas, muitas morreram. Algumas ficaram presas durante anos, outras foram exiladas, separadas de seus pais, de seus amores, de seus filhos” (Estevão, 2021: 27). O título aparece rasurado na capa, com a palavra “donzelas” riscada, substituída por “guerreiras”, ainda que o mesmo não aconteça na folha de rosto, nem na ficha catalográfica.
Ana Maria Estevão afirma que o “registro da memória ainda é um terreno em disputa, não delimitado, que deve ser escrito, e não é à toa que ainda há segmentos do Estado que se opõem à abertura dos documentos da ditadura civil-militar brasileira”. Por essa razão, sente-se no dever moral de relatar suas lembranças, concebendo sua memória como “uma pequenina cápsula do tempo ressoando” (Estevão, 2021: 25). Apesar dessa injunção de seu espírito de cidadania para que escrevesse, ela demorou muitos anos para conseguir levar a cabo seu projeto porque a dor que emergia a emudecia de escrita. “Como escrever sobre essa vivência tão dilaceradora?” (Estevão, 2021: 26). O que ela afirma pode-se aplicar tanto a Maria Werneck quanto às outras tantas que narraram suas experiências de militância, prisão, tortura e exílio.
Nota
[1] Segundo Maria Werneck, Filinto Müller participara da Coluna Prestes e fugira em situação pouco honrosa.
Referências
ESTEVÃO, Ana Maria Ramos. (2021). Torre das guerreiras e outras memórias. Prefácio de Dilma Rousseff. São Paulo: Editora 106; Fundação Rosa Luxemburgo.
FERRAZ, Geraldo Galvão (Org.). (2005). Paixão Pagu: a autobiografia precoce de Patrícia Galvão. Rio de Janeiro: Agir.
FIGUEIREDO, Eurídice. (2024). Mulheres contra a ditadura: escrever é (também) uma forma de resistência. Porto Alegre: Zouk.
FREIRE, Alípio & ALMADA, Izaías & PONCE, J. A. de Granville (org.). (1997). Tiradentes, um presídio da ditadura: memórias de presos políticos. Ilustrações de Sérgio Ferro. São Paulo: Scipione.
PERROT, Michelle. (2019). Minha história das mulheres. Tradução de Ângela M. S. Corrêa. São Paulo: Contexto.
RAMOS, Graciliano. (2025). Memórias do cárcere. Estabelecimento de texto de Ieda Lebensztayn. Posfácio de Rodrigo Jorge Neves. São Paulo: Penguin-Companhia.
VIANNA, Lúcia Helena. (2022). Mulheres revolucionárias de 30. Gênero, Niterói, v. 2, n. 2, p. 27-34. Disponível em: http:///periodicos.uff.br/revistagenero/article/vieuw/31161. Acesso em: 27 out. 2022.
WERNECK, Maria. (2025). Sala 4; a primeira prisão política feminina no Brasil. São Paulo: casa matinas.
ZILBERMAN, Regina. (2019). “Companheiras” – as mulheres nas prisões do Estado Novo: diálogo entre Graciliano Ramos e Eneida. Brasil/Brazil, [s. l.], v. 32, n. 59. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/brasilbrazil/article/view/95008/53508. Acesso em: 22 fev. 2023.
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A Psicologia do Poder: Estabilidade Emocional e Coragem como Vetores Críticos do Estadismo Contemporâneo
Resumo: Este artigo analisa a interseção entre traços psicológicos individuais e o desempenho institucional na ciência política moderna. Examina-se como a estabilidade emocional e a coragem moral operam como variáveis independentes cruciais para a consolidação do estadismo, contrapondo-se ao oportunismo tático e ao populismo polarizador que frequentemente resultam em ostracismo político e erosão democrática.
1. Introdução: O Retorno do Ator na Análise Institucional
Embora a ciência política contemporânea priorize frequentemente análises macroestruturais e arranjos institucionais, a literatura recente de psicologia política reinsere a agência individual e o perfil psicopolítico do líder como variáveis determinantes em conjunturas de crise econômica, social e de governabilidade. O hiato entre o "oportunismo" e o "estadismo" — conceitos historicamente debatidos desde Maquiavel e Max Weber — pode ser operacionalizado empiricamente através de duas dimensões psicológicas: a estabilidade emocional e a coragem moral.
2. Estabilidade Emocional vs. Oportunismo Tático
A estabilidade emocional (associada ao baixo neuroticismo no modelo Big Five) define a capacidade de um tomador de decisão de processar informações sob alto estresse sem recorrer a mecanismos de defesa desadaptativos, como o tensionamento institucional constante ou a reatividade impulsiva.
[Alta Estabilidade Emocional] ➔ Visão de Longo Prazo ➔ Resiliência/Estadismo ➔ Legado Histórico
O Cálculo Oportunista: Líderes com baixa estabilidade emocional tendem a adotar estratégias populistas de curto prazo. A governabilidade baseia-se na identificação de bodes expiatórios e na manutenção de uma retórica de conflito permanente para blindar o capital político imediato.
A Disfuncionalidade Sistêmica: Essa reatividade fragmenta o debate público e paralisa reformas estruturais, cujo retorno político é difuso e intertemporal. O oportunismo exibe incapacidade crônica de estabelecer pactos de coalizão duradouros, resultando no declínio acelerado do apoio político e no posterior ostracismo quando o ambiente macroeconômico ou social se deteriora.
3. A Operacionalização da Coragem na Liderança Atual
No escopo da ciência política moderna, a "coragem" deixa de ser uma virtude romântica e passa a ser mensurada como coragem moral e institucional: a disposição de assumir custos políticos e eleitorais de curto prazo em troca da estabilidade sistêmica de longo prazo.
O Ônus da Conciliação: Em ambientes hiperpolarizados, a verdadeira coragem reside na desescalada de conflitos. Sentar-se à mesa com opositores ideológicos para costurar a governabilidade exige maior capital político e resiliência do que alimentar as bases radicais por meio de câmaras de eco digitais.
O Respeito às Regras do Jogo: A coragem institucional manifesta-se no autocontrolado respeito aos freios e contrapesos democráticos (checks and balances). O estadista aceita as limitações constitucionais do cargo, compreendendo que a perenidade das instituições sobrepuja a sua vontade individual ou o seu projeto de permanência no poder.
4. Conclusão: O Tribunal da História e a Longevidade Política
A dinâmica do poder contemporâneo demonstra que lideranças moldadas pelo oportunismo rasteiro falham em transitar para o estadismo. Sem estabilidade emocional para absorver crises e sem coragem moral para contrariar os incentivos imediatistas do populismo, o actor político precipita sua própria obsolescência.
Em suma, a ciência política valida a premissa de que a sustentabilidade do legado e a relevância histórica de um líder dependem diretamente de sua capacidade de guiar o Estado com base na previsibilidade psicológica e na responsabilidade institucional, sob pena de ver sua trajetória encerrada no isolamento do ostracismo político.
Use o código com cuidado.
Desta vez, quem trouxe o livro foi Pedro Doria.
No Livro da Cora desta semana, Pedro apresenta "Sala Quatro", de Maria Werneck, sua tia-avó. Publicado originalmente em 1988 e agora em nova edição, o livro recupera a história das mulheres presas após a Intentona Comunista de 1935 e reunidas na cela que dá nome à obra. #Meio #Leitura #História #LivrosDaCora
O que que é a Sala 4?
Quando houve a Intentona Comunista em 1935
Uma tentativa de Revolução Comunista absolutamente desastrada
E quem estava no Comitê Central foi todo mundo preso, quem estava no comando.
Eram, em grande parte, homens, mas havia um pequeno grupo de mulheres que, como não eram tantas assim, ficaram todas presas na mesma cela, a Sala 4.
Maria WerneckMemórias do Cárcere / Graciliano Ramos | FILME COMPLETOFilosofando Ciências humanas em debate
23 de out. de 2016
Memórias do cárcere é um filme baseado no livro de Graciliano Ramos publicado postumamente em 1953, o filme relata as experiências do escritor na cadeia, preso em 1936 por conta de seu envolvimento político, ainda que, a acusação formal nunca tenha sido feita...Neste período Graciliano descreve, entre outros acontecimentos, a entrega de Olga Benário para a Gestapo, além de sua convivência com outros presos políticos, abordando também o processo de realização e publicação de Angústia, uma de suas melhores obras.Direção: Nelson Pereira dos Santos | Ano: 1984 | Duração: 3hs
Para mais filmes e documentários, acesse: http://bit.ly/1OYKE68
“O fato racha o bloco; a história esculpe o mito.”
(Na fresta do tempo, onde a memória inventa o que a verdade cala)
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O CANTO DO RETORNO: DA HISTÓRIA AO MITO
Crônica do Tempo Partido e as Sombras no Espelho do Poder
“Não há fatos, existe história. E o segredo da verdade dorme na memória de quem a inventa.” — Adaptado de João Ubaldo Ribeiro
Introdução: A Arte de Ver Além dos Atos
O presente ensaio poético-literário propõe uma arqueologia dos discursos contemporâneos à luz da rigorosa tradição estética de Mário Faustino. Cruzando a análise política militante de Reinaldo Azevedo com a fúria imagética do cinema de Glauber Rocha, o texto transcende a mera crônica dos fatos cotidianos. O que se encena aqui não é apenas o teatro do poder — com suas liminares, pareceres e sigilos devassados —, mas a engrenagem profunda que transforma o ruído da imprensa e as fraturas da história em permanência literária.
Sumário do Fluxo
A Farsa do Templo: A simbiose entre o Judiciário e a imprensa, e a conversão das antigas ideologias em proteção mútua.
A Linhagem dos Escombros: A herança política que conecta ditaduras latino-americanas e o jogo de espelhos geracional.
O Cinema da Realidade: A intersecção estética entre a poesia de Mário Faustino e as telas sob a sombra eterna do AI-5.
A Inquisição Socrática: O método de investigação do Estado confrontado e desarmado pela simplicidade lírica do samba.
O POEMA DA RAZÃO CÍNICA
I. O Altar da Notícia
Vê-la gozar o espelho que a notícia deforma:
Cármen em sua lúcia tribuna, ninfa da ordem,
que atrai o afago da tinta e o aplauso da norma,
enquanto nas ondas da banda as vozes se mordem.
Diz o analista na arena, cético e romano,
que a quebra do sigilo é farsa, sordidez exposta;
e a imprensa, meretriz do erro humano,
ao vício de aliar-se à lama se dispõe disposta.
O convertido de ontem absolve o de agora:
trotskista de antanho em prece pelo stalinista,
enquanto o neto velho do tirano chora
a sombra de Trump na calçada paulista.
II. Os Escombros e a Forma
Stroessner assombra o teuto-guarani Paraguai,
onde João buscou o Alfredo que Totó perdera.
Do escombro da memória, a imagem não sai:
o fantasma que o sangue do século elegera.
Sejamos, pois, o canto estrito e rigoroso,
como queria Faustino na página exata,
sem o parentesco do tio astucioso
que na província da dotação se retrata.
Eis a Terra em Transe, o letreiro do abismo,
um ano antes que o cinco de Atos nos calasse;
o gaúcho de Bagé subia em seu cinismo,
com pegadas de Costa a cobrir-lhe a face.
III. A Fábula da Memória
O caçador de marajás virou maracujá na crônica,
azedo fruto do Pasquim que a ditadura engole.
A história absolverá a todos? Pergunta irônica,
se a verdade é só o vento que a memória bole.
Não há fatos, repete o mestre de Itaparica,
nascido sob as teses que o império engendra;
há apenas a crônica que o tempo edifica,
a narrativa espessa que o destino fende.
IV. A Balança Menor
No arquivo do silêncio, a espionagem socrática:
saber o que o homem tramava aos dezessete anos.
Gênese da suspeita, inquisição programática,
pesando na balança os juvenis enganos.
Mas o samba de Paulinho, em sua modesta graça,
reduz a escala do monstro com terna vaidade.
A melodia desarma a farda que passa:
— “Vejam que eu tinha só quatorze anos de idade!”
Desfecho: Epitáfio para um Século em Transe
EPITÁFIO
Aqui jaz quem mediu o vento e a liminar do mundo,
No mérito do saber que o próprio tempo gasta.
Causal foi seu fazer, no erro mais profundo,
Parecer ser foi muito; ser si mesmo, basta.
A terra que o sepulta é a transe que ele fez:
Teve catorze anos, mas morreu de lucidez.
Use o código com cuidado.
JORNAL DA CULTURA | 17/08/2026Jornalismo TV Cultura
Jornal da Cultura | 2026
No Jornal da Cultura desta segunda-feira (17), você vai ver: presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques defende urnas eletrônicas em reunião com embaixadores; Petrobras confirma petróleo na Foz do Amazonas mas diz que ainda não sabe quantidade; e candidatos à presidência focam em segurança pública em atos pelo Brasil.
Para comentar essas e outras notícias, Rita Lisauskas recebe a jornalista Patricia Campos Mello, da Folha de S. Paulo, e o cientista político Sérgio Fausto, diretor executivo da Fundação FHC.
#JornalDaCultura #TVCultura #SomosCultura
Cármen Lúcia: “O povo está cansando de brigar” - ÉPOCA | Tempo
Glauber Rocha emprega a imagem que o poema projeta, para representar o ambiente de “vitória do caos sobre a vontade augusta” durante os chamados “anos de chumbo” brasileiros.Mário Faustino – Balada
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Não conseguiu firmar o nobre pacto
Entre o cosmos sangrento e a alma pura.
Porém, não se dobrou perante o fato
Da vitória do caos sobre a vontade
Augusta de ordenar a criatura
Ao menos: luz ao sul da tempestade.
Gladiador defunto mais intacto
(Tanta violência, mas tanta ternura),
Jogou-se contra um mar de sofrimentos
Não para pôr-lhes fim, Hamlet, e sim
Para afirma-se além de seus tormentos
De monstros cegos contra só um delfim,
Frágil porém vidente, morto ao som
De vagas de verdade e de loucura.
Bateu-se delicado e fino, com
Tanta violência, mas tanta ternura!
Cruel foi teu triunfo, torpe mar.
Celebrara-te tanto, te adorava
De fundo atroz à superfície, altar
De seus deuses solares – tanto amava
Teu dorso cavalgado de tortura!
Com que fervor enfim te penetrou
No mergulho fatal com que mostrou
Tanta violência, mas tanta ternura!
Mário Faustino, Poesia completa e traduzida"Cármen Lúcia gosta de uma certa imprensa que gosta dela."
Reinaldo Azevedo. Dino - STF:
a farsa da quebra de sigilo leva parte da imprensa a se aliar a sordidez.
Rádio BandNews FM.
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De um católico ex-Trotskista em defesa de outro católico ex-Stalinista.
O ditador avô do neto velho associado a Trump, como o jovem velho se ligou a Stroessner, no Paraguai do teuto-guarani Alfredo. O jovem joão encontrou em Alfredo, o que Totó também buscou em seu Alfredo. João trouxe Alfredo para perto depois de morto.
Totó buscou Alfredo em escombros de sua memória.
1
Desenvolver esse fluxo no estilo do único poeta brasileiro considerado como o maior para Reinaldo Azevedo - nas sendas da mesma opinião mais moderada de Gláuber Rocha, que declarou considerar Mario Faustino o maior poeta da sua geração, sem desprezar o parentesco do tio com o sobrinho Ciro Nogueira.
Faustino aparece nos créditos do letreiro de créditos de Terra em Transe de Glauber Rocha, de 1967, um ano antes do 1968, do AI-5. João era "belle enfant" do gaúcho de Bagé que ascenderia em 1970 com as pegadas de Costa, marido da fã do modelo que ficaria famoso como o caçador de Marajá? que o maledicente cronista do jornal o Pasquim trocaria para "Caçador de Maracujá".
2
A história absolverá a todos.
Desde que se entenda o segredo da verdade; epígrafe de 'Viva o Povo Brasileiro', de João Ubaldo Ribeiro, com mestrado em Ciência Política nas terras do pai de Stroessner:
"O segredo da verdade: não há fatos, existe história."
3
Alguém vinculado a informações e contrainformações, certa vez, teria afirmado que seu método de investigação no SNI tinha sua gênese em uma única e socrática questão socrática? Qual seria!O que esse pensava e fazia aos 17 anos de idade.Paulinho da Viola reduziu a escala do autoritário paradigma para uma modesta e simples frase melódica:"Tinha eu 14 anos de idade!!"
4
Morte de Getúlio VargasMorte de Getúlio Vargas, então 17.º presidente do Brasil, ocorreu em 24 de agosto de 1954, quando o mesmo cometeu suicídio com o disparo de um revólver calibre 32 no coração em seu próprio quarto, no Palácio do Catete, na cidade do Rio de Janeiro, então capital federal. A morte de Vargas ocorreu em um momento de grande instabilidade política no Brasil.[1]
O presidente, que havia retornado ao poder em 1951 após um período de exílio, enfrentava fortes oposições e acusações de corrupção em seu segundo governo, após o processo de impeachment ocorrido em junho do mesmo ano, rejeitado na Câmara dos Deputados, e o atentado da rua Tonelero, ocorrido no em 5 de agosto que visava matar o seu principal adversário, o jornalista Carlos Lacerda.[2][3]
Após o anúncio da morte do presidente, houve uma grande comoção nacional que envolveu ataques a sedes de jornal e a necessidade de Carlos Lacerda sair do país.[2]
A morte de Vargas marcou profundamente a história do Brasil, deixando um legado complexo e controverso. O presidente é considerado por muitos como um nacionalista que promoveu o desenvolvimento industrial do país e a defesa dos direitos dos trabalhadores. No entanto, seu governo também foi marcado por autoritarismo e repressão, especialmente durante o Estado Novo.[4]
"QUEM NASCE PRA OPORTUNISMO NÃO CHEGA AO ESTADITISMO, E MORRE NO OSTRACISMO."
“E Jesus, respondendo, disse-lhes: — Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.” — (MARCOS, 12.17)
1 Em todo lugar do mundo, o homem encontrará sempre, de acordo com os seus próprios merecimentos, a figura de César, simbolizada no governo estatal.
2 Maus homens, sem dúvida, produzirão maus estadistas.
3 Coletividades ociosas e indiferentes receberão administrações desorganizadas.
4 De qualquer modo, a influência de César cercará a criatura, reclamando-lhe a execução dos compromissos materiais. É imprescindível dar-lhe o que lhe pertence.
5 O aprendiz do Evangelho não deve invocar princípios religiosos ou idealismo individual para eximir-se dessas obrigações.
6 Se há erros nas leis, lembremos a extensão de nossos débitos para com a Providência Divina e colaboremos com a governança humana, oferecendo-lhe o nosso concurso em trabalho e boa vontade, conscientes de que desatenção ou revolta não nos resolvem os problemas.
7 Preferível é que o discípulo se sacrifique e sofra a demorar-se em atraso, ante as leis respeitáveis que o regem, transitoriamente, no Plano físico, seja por indisciplina diante dos princípios estabelecidos ou por doentio entusiasmo que o tente a avançar demasiadamente na sua época.
8 Há decretos iníquos?
Recorda se já cooperaste com aqueles que te governam a paisagem material.
9 Vive em harmonia com os teus superiores e não te esqueças de que a melhor posição é a do equilíbrio.
10 Se pretendes viver retamente, não dês a César o vinagre da crítica acerba. Ajuda-o com o teu trabalho eficiente, no sadio desejo de acertar, convicto de que ele e nós somos filhos do mesmo Deus.
Emmanuel
Texto extraído da 1ª edição desse livro.
Pão Nosso #102 - Nós e CésarNEPE Paulo de Tarso | Evangelho e Espiritismo
Transmitido ao vivo em 9 de mai. de 2023
Série de estudos, com Artur Valadares, da obra "Pão Nosso", de Emmanuel/Chico Xavier.
102
Nós e César
ESTETA DA EXPRESSÃO
Garret, nos Grandes Experimentos da Psicologia, afirma que "a personalidade é um estilo ou uma forma de comportamento", e acentua: "o que faz de um indivíduo uma personalidade distinta é a organização de seus comportamentos, hábitos, atitudes e não a existência de certos traços específicos."
Podemos concluir a conceituação de Garret com o princípio difundido por Woodworth, quando define a personalidade como a "qualidade total do comportamento do indivíduo, indicado por seus hábitos de pensamento e de expressão, suas atitudes e interesses, maneiras de agir e filosofia pessoal".
Eurípedes enquadra-se como esteta autêntico, no acrisolamento mental, que influencia poderosamente suas atitudes e interesses, suas ações no dia-a-dia cheio de luz, levando-o à filosofia do esforço, na rota da Perfeição.
No Colégio, no lar, na rua, em toda parte, exprime-se com elegância.
As expressões saem-lhe corretas e fluentes.
Quando fala ou quando escreve faz questão de não cometer erros comezinhos de regência ou de concordância. Evita os galicismos e outros tipos de estrangeirismos. Propõe-se a amputar o Que, sempre que este se constitua em muletas desnecessárias. O possessivo de terceira pessoa é outro empeço, que o mestre corta todas as vezes que surja como elemento de dubiedade.
Eminentemente cuidadoso na expressão – falada ou escrita – Eurípedes tornara-se um padrão de estética, no seio da Língua mais bordada de sutilezas e crivada de dificuldades do globo e, que ele soube valorizar com profundo sentido de Beleza.
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Eurípedes – o Homem e a MissãoOs bons espíritas - Artur ValadaresNEPE Paulo de Tarso | Evangelho e Espiritismo
3 de jan. de 2019
Palestra realizada no Centro Espírita Eurípedes Barsanulfo Tia Nêga, em Perdizes/MG (zona rural), no dia 30/12/2018.
O Evangelho segundo o Espiritismo > Capítulo XVII — Sede perfeitos > Os bons espíritas. > 44. Bem compreendido, mas sobretudo bem sentido, o Espiritismo leva aos resultados acima expostos, que caracterizam o verdadeiro espírita, como o cristão verdadeiro, pois que um o mesmo é que outro. O Espiritismo não institui nenhuma nova moral; apenas facilita aos homens a inteligência e a prática da do Cristo, facultando fé inabalável e esclarecida aos que duvidam ou vacilam.
Muitos, entretanto, dos que acreditam nos fatos das manifestações não lhes apreendem as consequências, nem o alcance moral, ou, se os apreendem, não os aplicam a si mesmos. A que atribuir isso? A alguma falta de clareza da doutrina? Não, pois que ela não contém alegorias nem figuras que possam dar lugar a falsas interpretações. A clareza é da sua essência mesma e é donde lhe vem toda a força, porque a faz ir direto à inteligência. Nada tem de misteriosa e seus iniciados não se acham de posse de qualquer segredo, oculto ao vulgo.
Será então necessária, para compreendê-la, uma inteligência fora do comum? Não, tanto que há homens de notória capacidade que não a compreendem, ao passo que inteligências vulgares, moços mesmo, apenas saídos da adolescência, lhes apreendem, com admirável precisão, os mais delicados matizes. Provém isso de que a parte por assim dizer material da ciência somente requer olhos que observem, enquanto a parte essencial exige um certo grau de sensibilidade, a que se pode chamar maturidade do senso moral, maturidade que independe da idade e do grau de instrução, porque é peculiar ao desenvolvimento, em sentido especial, do Espírito encarnado.
Nalguns, ainda muito tenazes são os laços da matéria para permitirem que o Espírito se desprenda das coisas da Terra; a névoa que os envolve tira-lhes a visão do infinito, donde resulta não romperem facilmente com os seus pendores, nem com seus hábitos, não percebendo haja qualquer coisa melhor do que aquilo de que são dotados. Têm a crença nos Espíritos como um simples fato, mas que nada ou bem pouco lhes modifica as tendências instintivas. Numa palavra: não divisam mais do que um raio de luz, insuficiente a guiá-los e a lhes facultar uma vigorosa aspiração, capaz de lhes sobrepujar as inclinações. Atêm-se mais aos fenômenos do que à moral, que se lhes afigura cediça e monótona. Pedem aos Espíritos que incessantemente os iniciem em novos mistérios, sem procurar saber se já se tornaram dignos de penetrar os arcanos do Criador. Esses são os espíritas imperfeitos, alguns dos quais ficam a meio caminho ou se afastam de seus irmãos em crença, porque recuam ante a obrigação de se reformarem, ou então guardam as suas simpatias para os que lhes compartilham das fraquezas ou das prevenções. Contudo, a aceitação do princípio da doutrina é um primeiro passo que lhes tornará mais fácil o segundo, noutra existência.
Aquele que pode ser, com razão, qualificado de espírita verdadeiro e sincero, se acha em grau superior de adiantamento moral. O Espírito, que nele domina de modo mais completo a matéria, dá-lhe uma percepção mais clara do futuro; os princípios da doutrina lhe fazem vibrar fibras que nos outros se conservam inertes. Em suma: é tocado no coração, pelo que inabalável se lhe torna a fé. Um é qual músico que alguns acordes bastam para comover, ao passo que outro apenas ouve sons. Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que emprega para domar suas inclinações más. Enquanto um se contenta com o seu horizonte limitado, outro, que apreende alguma coisa de melhor, se esforça por desligar-se dele e sempre o consegue, se tem firme a vontade.
O Livro dos Espíritos > Parte terceira — Das leis morais > Capítulo I — Da lei divina ou natural > Conhecimento da lei natural. > 619
II – Conhecimento da Lei Natural (Perguntas 619 a 628) – O Livro dos Espíritos
(LIVRO TERCEIRO - AS LEIS MORAIS) - Cap. 1 - A Lei Divina ou Natural
619. Deus proporcionou a todos os homens os meios de conhecerem a sua lei?
— Todos podem conhecê-la; mas nem todos a compreendem; os que melhor a compreendem são os homens de bem e os que desejam pesquisá-la. Não obstante, todos um dia a compreenderão, porque é necessário que o progresso se realize.
Comentário de Kardec: A justiça da multiplicidade de encarnações do homem decorre deste princípio, pois a cada nova existência sua inteligência se torna mais desenvolvida e ele compreende melhor o que é o bem e o que é o mal. Se tudo tivesse de se realizar numa só existência, qual seria a sorte de tantos milhões de seres que morrem diariamente no embrutecimento da selvageria ou nas trevas da ignorância, sem que deles dependa o próprio esclarecimento? (Ver os itens 171 a 222).
620. A alma, antes de sua união com o corpo, compreende melhor a lei de Deus do que após a encarnação?
— Ela a compreende segundo o grau de perfeição a que tenha chegado e conserva a sua lembrança intuitiva após a união com o corpo; mas os maus instintos do homem frequentemente fazem que ela a esqueça.
621. Onde está escrita a lei de Deus?
— Na consciência*.
621-a. Desde que o homem traz na consciência a lei de Deus, que necessidade tem de que lha revelem?
— Ele a havia esquecido e desprezado: Deus quis que ela lhe fosse lembrada.
622. Deus deu a alguns homens a missão de revelar a sua lei?
— Sim, certamente; em todos os tempos houve homens que receberam essa missão. São Espíritos superiores, encarnados com o fim de fazer progredir a Humanidade.
623. Esses que pretenderam instruir os homens na lei de Deus não se enganaram algumas vezes, e não os fizeram transviar-se muitas vezes, através de falsos princípios?
— Os que não eram inspirados por Deus e que se atribuíram a si mesmos, por ambição, uma missão que não tinham, certamente os fizeram extraviar; não obstante, como eram homens de gênio, em meio aos próprios erros ensinaram frequentemente grandes verdades.
624. Qual é o caráter do verdadeiro profeta?
— O verdadeiro profeta é um homem de bem, inspirado por Deus. Podemos reconhecê-lo por suas palavras e por suas ações. Deus não se serve da boca da mentiroso para ensinar a verdade.
625. Qual o tipo mais perfeito que Deus ofereceu ao homem, para lhe servir de guia e modelo?
— Vede Jesus.
Comentário de Kardec: Jesus é para o homem o tipo de perfeição moral a que pode aspirar a Humanidade na Terra. Deus no-lo oferece como o mais perfeito modelo e a doutrina que ele ensinou é a mais pura expressão de sua lei, porque ele estava animado do Espírito divino e foi o ser mais puro que já apareceu na Terra.
Se alguns dos que pretenderam instruir os homens na lei de Deus algumas vezes os desviavam para falsos princípios, foi por se deixarem dominar por sentimentos demasiado terrenos e por terem confundido as leis que regem as condições da vida da alma com as que regem a vida do corpo. Muitos deles apresentaram como leis divinas o que era apenas leis humanas, instituídas para servir às paixões e dominar os homens.
626. As leis divinas e naturais só foram reveladas aos homens por Jesus e antes dele só foram conhecidas por intuição?
— Não dissemos que elas estão escritas por toda parte? Todos os homens que meditaram sobre a sabedoria puderam compreendê-las e ensiná-las desde os séculos mais distantes. Por seus ensinamentos, mesmo incompletos, eles prepararam o terreno para receber a semente. Estando as leis divinas escritas no livro da Natureza, o homem pôde conhecê-las sempre que desejou procurá-las. Eis porque os seus princípios foram proclamados em todos os tempos pelos homens de bem, e também porque encontramos os seus elementos na doutrina moral de todos os povos saídos da barbárie, mas incompletos ou alterados pela ignorância e a superstição.
627. Desde que Jesus ensinou as verdadeiras leis de Deus, qual é a utilidade do ensinamento dado pelos Espíritos? Têm eles mais alguma coisa para nos ensinar?
— O ensino de Jesus era frequentemente alegórico e em forma de parábolas, porque ele falava de acordo com a época e os lugares. Faz-se hoje necessário que a verdade seja inteligível para todos. É preciso, pois, explicar e desenvolver essas leis, tão poucos são os que as compreendem e ainda menos os que as praticam. Nossa missão é a de despertar os olhos e os ouvidos, para confundir os orgulhosos e desmascarar os hipócritas: os que afetam exteriormente a virtude e a religião para ocultar as suas torpezas. O ensinamento dos Espíritos deve ser claro e sem equívocos, a fim de que ninguém possa pretextar ignorância e cada um possa julgá-lo e apreciá-lo com a sua própria razão. Estamos encarregados de preparar o Reino de Deus anunciado por Jesus, e por isso é necessário que ninguém venha a interpretar a lei de Deus ao sabor das suas paixões, nem falsear o sentido de uma lei que é toda amor e caridade**.
628. Por que a verdade não esteve sempre ao alcance de todos?
— É necessário que cada coisa venha a seu tempo. A verdade é como a luz: é preciso que nos habituemos a ela pouco a pouco, pois de outra maneira nos ofuscaria.
Jamais houve um tempo em que Deus permitisse ao homem receber comunicações tão completas e tão instrutivas como as que hoje lhe são dadas. Havia na Antiguidade, como sabeis, alguns indivíduos que estavam de posse daquilo que consideravam uma ciência sagrada, e da qual faziam mistério para os que consideravam profanos. Deveis compreender, com o que conheceis das leis que regem esses fenômenos, que eles recebiam apenas verdades esparsas no meio de um conjunto equívoco e na maioria das vezes alegórico. Não há, entretanto, para o homem de estudo, nenhum antigo sistema filosófico, nenhuma tradição, nenhuma religião a negligenciar, porque todos encerram os germens de grandes verdades, que embora pareçam contraditórias entre si, espalhadas que se acham entre acessórios sem fundamento, são hoje muito fáceis de coordenar, graças à chave que vos dá o Espiritismo de uma infinidade de coisas que até aqui vos pareciam sem razão, e cuja realidade vos é agora demonstrada de maneira irrecusável. Não deixeis de tirar temas de estudo desses materiais. São eles muito ricos e podem contribuir poderosamente para a vossa instrução***.
NOTAS:
* Descartes na terceira de suas Meditações Metafísicas, declara que a ideia de Deus está impressa no homem “como a marca do obreiro na sua obra”. Essa ideia de Deus é inata no homem e o impele à perfeição. Embora as escolas modernas de Psicologia neguem a existência de ideias inatas, o Espiritismo a sustenta. Ela decorre do princípio da reencarnação, que foi provado pelo Espiritismo através de pesquisas. Por outro lado, as ideias de Deus, da sobrevivência e do bem e do mal existem e sempre existiram entre todos os povos. A lei de Deus está escrita na consciência do homem, como a assinatura do artista na sua obra. (N. do T.).
** Comparar esta resposta com a mensagem do Espírito da Verdade colocada por Kardec como prefácio de “O Evangelho segundo o Espiritismo”. Como se vê, desde os primeiros momentos os Espíritos anunciaram que a finalidade da doutrina era o restabelecimento do Cristianismo. (N. do T.)
*** Os textos sagrados das grandes religiões, como a Bíblia e os Vedas, os sistemas de antigos filósofos, as doutrinas de velhas ordens ocultas ou esotéricas, todos encerram grandes verdades, nas suas contradições aparentes. Os espíritas não devem recuar diante desses sistemas ou ver-lhes apenas as contradições, quando possuem a chave do Espiritismo, com a qual estão aptos a decifrar-lhes os enigmas, descobrindo poderosos motivos de esclarecimento. Também nos sistemas modernos de Filosofia ou de Ciência, por mais contrários que pareçam aos princípios espíritas, uma análise verdadeiramente espírita poderá revelar a existência de grandes verdades. (comparar com II Timóteo, 3:l6 e 17). (N. do T.)
LE: A lei divina ou naturalO livro dos espíritos online
Conhecimento da Lei Natural - Livro dos Espíritos - Questões 619 a 628TV CEAHA
8 de mar. de 2022
Vídeos (Semanal) sobre o Livro dos Espíritos - Estudo - |92|
Apresentação: Elizabeth Soares de Paula
Centro Espírita Amor e Humildade do Apóstolo - Florianópolis-SC
Afaste a tristeza.
A aldgria do seu coração
mostra o seu pensar positiva.
Taças VaziasPapel de Narcisa na EspiritualidadeTrabalho no Bem: Atua na colônia espiritual Nosso Lar, ajudando com dedicação em alas de atendimento e limpeza.
Acolhimento a André Luiz: Foi uma das primeiras companheiras a guiar André Luiz no início de sua recuperação no plano espiritual.
Lição da Taça Vazia: Ficou famosa pelo ensinamento de que o coração humano não pode ficar vazio de sentimentos mundanos sem ser preenchido pela vivência do bem, assemelhando-se a uma taça iluminada mas sem conteúdo real.