sexta-feira, 24 de julho de 2026

RETRATO

Retrato Sueli Costa Eu não tinha esse rosto de hoje Assim calmo, assim magro, assim triste Nem esses olhos tão vazios Nem o lábio amargo Eu não tinha essas mãos tão sem forças Tão paradas e frias e mortas Eu não tinha esse coração Que não se mostra E eu não dei por esta mudança Tão simples, tão certa, tão fácil Em que espelho ficou perdida A minha face Composição: Sueli Costa.
sexta-feira, 24 de julho de 2026 Pesquisa ou adivinhação? Por José de Souza Martins* Valor Econômico A proposta do presidente do TSE é apenas um gesto de policiamento indireto, que nem aponta os problemas estatísticos nem os resolve O presidente do Tribunal Superior Eleitoral convocou dirigentes de institutos de pesquisa de opinião para discutir procedimentos de investigação que neutralizem a interferência das pesquisas nos resultados da eleição. Criou um prêmio para as pesquisas que sejam confirmadas no resultado eleitoral. Provavelmente o correto e seguro teria sido convocar um seminário de especialistas em matemática e estatística das boas universidades. E ouvi-los. Conhecedores que são das várias e diferentes mediações da pesquisa científica baseada em quantificação e das interferências que podem intencional ou acidentalmente sofrer. Esses pesquisadores poderiam explicar que o conhecimento quantitativo nessa área não é adivinhação, nem é loteria ou aposta. Não expressa o acaso e o fortuito, mas o provável. Diversamente do que supõe o ministro, a função de pesquisas desse tipo não é buscar informações objetivas sobre a certeza de resultados prováveis. Mas, principalmente, resultados improváveis, que revelem o nível de risco decorrente de fatores intervenientes na formação da opinião eleitoral. Os que permitam aos partidos e candidatos dirigirem-se aos eleitores para informá-los do que, nos seus respectivos programas, corresponde a suas expectativas sociais e políticas e a suas concepções do que deve ser a composição doutrinária de orientação de um novo governo. A função das pesquisas eleitorais é a de dotar o eleitorado de condições de agir racionalmente, durante a campanha, nas escolhas que fizer. Não entre diferentes pessoas, que é o que equivocadamente se faz aqui, mas entre diferentes doutrinas e diferentes programas de concretização dos valores e concepções dessas doutrinas. Que os candidatos, no regime democrático, devem personificar. De modo a não serem eles mesmos na disputa eleitoral a sua vontade pessoal, mas personificação e expressão da necessidade social e da vontade política coletiva. Na função política do político, na sociedade democrática, deve haver necessariamente uma certa renúncia a ser ele mesmo para ser a personificação do ser coletivo que a política é. O próprio eleitor há de ser conscientizado de que deve impessoalizar-se para ser o outro na política, e não ele mesmo enquanto ser vulgar e cotidiano, no momento solene do registro do voto na urna eletrônica. Para que o faça em nome do todo de que é parte e protagonista, o sujeito coletivo do processo político. Desse modo, avaliando e racionalmente decidindo seu voto para que tenha a maior probabilidade possível de contribuir para a formação de um governo democrático e representativo. Esse momento do processo político só pode existir como instrumento e expressão de uma vontade sociologicamente crítica. A maioria dos nossos políticos e a dos agentes de nossas instituições políticas não sabe o que é isso. Não sabe qual é a enorme diferença entre a eleição de um governo e a eleição de miss. No Brasil, a vontade política é nivelada por baixo. A proposta do ministro passa muito longe dessas premissas e dos problemas e dificuldades científicos da pesquisa de opinião eleitoral. É apenas um gesto de policiamento indireto da pesquisa. São tantos os fatores que enviesam a pesquisa eleitoral que esse policiamento nem aponta os problemas nem os resolve. As pesquisas eleitorais são geralmente feitas de viva voz, no mínimo com a mediação de um intermediário que fala, cujo tom de voz, cujo timbre, cuja entonação pode involuntariamente induzir a resposta. O que discrepa da realidade da urna na hora de votar, que não tem um intermediário de voz. Essa discrepância invalida a possibilidade de que a resposta na pesquisa seja equivalente à resposta no voto. Mas não anula a interferência da pesquisa no voto. Nas ciências sociais, mesmo com todas as cautelas do pesquisador competente, a pesquisa é indutora de resposta e sobretudo de mudança de comportamento e de consciência em relação ao tema investigado. É claro que a escolha da região, da localidade, da categoria social, etária, racial, religiosa, de gênero de referência pode resultar em pesquisas discrepantes quanto ao mesmo objeto. Em resultados não generalizáveis. É óbvio, para qualquer conhecedor dessas técnicas, que instituições de pesquisa podem receber encomendas de informações de opinião eleitoral tendo em conta determinado setor da sociedade e, ao divulgá-los, não divulgam, exatamente, quais as características da população estudada. Divulga-se obrigatoriamente o tamanho da amostra e o erro amostral, mas nunca é divulgado o viés investigativo intencional, o que já sugere antecipadamente a interpretação, que é o que afeta o resultado da pesquisa e até mesmo afeta a decisão eleitoral. *José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar, da Universidade de Cambridge e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador Emérito do CNPq. Membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de Escravidão, em Genebra (1996-2007. Entre outros livros, é autor de “Desavessos” (Editora Com Arte).
perfeito.html

TÍTULO: O REBOTE DA URNA E O CADEADO DE TRINITY HALL

PERSONAGENS:
MINISTRO KASSIO NUNES MARQUES: Elegante, polido, o piauiense que domina a liturgia de Brasília. Usa um terno impecável, mas carrega nos olhos a eterna vigília de quem sabe que o poder no Brasil é um edifício construído sobre areia movediça. Ri amarelo quando a técnica desmonetiza a burocracia.
O PROFESSOR CONSULTOR (ZÉ DA USP): Sociólogo, Professor Emérito da USP, com a estampa clássica dos corredores de Cambridge. Usa um paletó de tweed cotovelado e óculos pendurados no peito. Fala com a ironia cirúrgica da paulistânia acadêmica, misturando o rigor de Trinity Hall com um deboche fino e de quem já viu muitas repúblicas caírem. Abriu mão dos honorários pelo prazer quase erótico da liberdade de cátedra.

CENÁRIO:
O gabinete do Ministro no TSE. A lousa do encontro anterior ainda está no canto, com a rapadura desenhada, mas agora o Professor empilhou livros de Karl Marx, compêndios de amostragem estatística e recortes do Valor Econômico. Na parede, um mapa do Amapá destaca a Usina Hidrelétrica de Coaracy Nunes — o velho "Paredão".

(O Professor entra quebrando a quarta parede, olhando fixamente para o leitor. Ele segura um giz e uma edição antiga de "O Capital")

PROFESSOR: (Ao público) Pirandello sabia que um personagem à procura de um autor é fichinha perto de um eleitor brasileiro à procura de uma doutrina. O Tribunal acha que gerencia uma eleição; eu sei que eles gerenciam um hospício estatístico. Chamar donos de institutos de pesquisa para regular o viés é como chamar as raposas para projetar a fechadura do galinheiro. E de graça! Vim aqui de graça porque a onomástica desse país me fascina. (Aponta para a porta do gabinete) Kassio... Nunes... Marques. Um nome que é uma usina hidrelétrica, um manifesto comunista e uma herança ibérica, tudo batido no liquidificador do cartório!

(O Ministro Kassio entra, segurando uma portaria do TSE sobre premiação para institutos de pesquisa que "acertarem" o resultado. Ele vê o Professor e tenta manter a pose de Excelência).

MINISTRO KASSIO: (Tossindo com elegância jurídica) Professor... Que bom que aceitou o convite após ler seu artigo no jornal. Mas, por favor, guarde esse volume de Marx na gaveta. Se um assessor passa e vê isso na minha mesa nesta semana, o mercado financeiro tem um colapso e a oposição pede meu impeachment antes do café da tarde.

PROFESSOR: (Dá uma risada seca, tipicamente paulistana) Ah, Ministro! O mercado tem medo do Marx de papel, mas engole o "Marques" de carne e osso que regula a soberania popular! Fique tranquilo. Seu pai, no batismo, ou o escrivão de ofício, num rasgo de genialidade futurista, fez a síntese perfeita: juntou o determinismo econômico do velho Karl com a força bruta do "Paredão" do Amapá. O senhor não é um juiz, Kassio; o senhor é uma hidrelétrica dialética! E é por isso que vim sem cobrar um tostão. O direito à heresia científica não tem preço.

MINISTRO KASSIO: (Senta-se, soltando um riso amarelo que vai da bochecha à orelha) Menos, Professor, bem menos. Vamos focar em 2026. O senhor criticou minha ideia de premiar as pesquisas que chegarem mais perto do resultado real da urna. Ora, queremos acurácia e precisão! Queremos que a pesquisa seja o espelho da alma social.

PROFESSOR: (Bate com o livro na mesa, fazendo subir uma leve poeira jurídica) Pois a "alma social" não tem espelho, Ministro, ela tem ressaca! O senhor está confundindo eleição de governo com concurso de Miss Brasil. Achar que a pesquisa serve para adivinhar quem vai ganhar na loteria do domingo é o primeiro erro da tecnocracia. A pesquisa de opinião existe para mapear o improvável, o risco, a margin onde o eleitor deixa de ser um bicho vulgar que consome fake news para se tornar um sujeito coletivo.

MINISTRO KASSIO: Mas se a pesquisa diverge radicalmente do resultado da urna, o povo perde a fé nas instituições. Eles acham que é manipulação, que há um "viés intencional".

PROFESSOR: E há! Mas não o viés que o senhor quer policiar com a sua portaria. Vamos à precisão da aleatoriedade social. (Caminha até a lousa) O pesquisador vai à rua. Ele fala de viva voz. O tom de voz dele, o sotaque — seja o seu piauiense da paróquia ou o meu paulista do mundo —, o timbre, o milissegundo de hesitação induz a resposta. O eleitor, com medo ou querendo agradar, responde o que o intermediário quer ouvir.

MINISTRO KASSIO: E na urna?

PROFESSOR: Na urna não tem voz, Kassio! A urna eletrônica é um confessionário mudo, um túmulo de silício. O eleitor se impessoaliza. Ele entra na cabine como um indivíduo e sai de lá como parte do todo. A discrepância entre a pesquisa de rua e o voto digital não é erro matemático; é a metamorfose da consciência social no momento solene do registro! O senhor quer policiar o comportamento do vento!

MINISTRO KASSIO: (Preocupado, olhando para o papel da portaria) Então... o erro amostral divulgado pelos institutos é uma illusions?

PROFESSOR: É uma meia verdade, o que na sociologia é pior que uma mentira inteira. Eles divulgam o tamanho da amostra e a margem de erro. Mas o senhor sabe o que eles nunca divulgam? O viés investigativo encomendado. Se eu quero pesquisar a intenção de voto num setor específico, eu calibro a amostragem para aquela categoria social, etária ou religiosa. Quando divulgo o resultado geral, eu omito a especificidade do corte. Isso afeta a decisão do eleitor durante a campanha. A pesquisa não apenas mede a realidade, ela induz a mudança de comportamento.

MINISTRO KASSIO: (Ajeita os óculos, pensativo) Se a pesquisa induz o voto, então o policiamento indireto que propus...

PROFESSOR: ...É inútil! Nem aponta os problemas reais da estrutura, nem os resolve. O senhor está tentando consertar uma fissura na fundação de um prédio pintando a parede com tinta fresca. Em Cambridge, a gente aprende que para entender o provável, é preciso respeitar as mediações do acaso. O eleitor brasileiro não vota com a cabeça de Gauss; ele vota com o estômago, com o bolso e, muitas vezes, com o fígado.

MINISTRO KASSIO: (Suspira profundamente, olhando para o mapa do Amapá na parede) É... o "Paredão" segura muita água, mas quando a represa da insatisfação social enche, não há engenharia que segure.

PROFESSOR: (Sorri, guardando o giz no bolso do paletó de tweed) Exatamente, meu caro Kassius com K. Sua dialética ativa com a realidade nacional é mais viva do que supõe a vã filosofia dos críticos de plantão. Esqueça os prêmios para adivinhos. Se o senhor quer precisão e acurácia na aleatoriedade de 2026, garanta apenas que o confessionário mudo da urna continue impessoal. Deixe que os institutos errem suas profecias, porque no final, a sociologia sempre sobrevive ao espetáculo.

MINISTRO KASSIO: (Levanta-se, estendendo a mão com um sorriso já menos amarelo e mais resignado) Obrigado, Professor. Sua liberdade de cátedra me custou caro em paciência, mas economizou os cofres do Tribunal.

PROFESSOR: (Olha para o público uma última vez antes de sair) De nada, Ministro. A ciência, quando é livre, não emite nota fiscal. Ela apenas deixa a pulga atrás da orelha do poder.

(O Professor sai de cena a passos firmes. O Ministro Kassio olha para a portaria sobre as pesquisas, amassa-a lentamente e a joga no lixo, voltando a olhar para o desenho da rapadura na lousa).

FIM DO ESQUETE 2

Use o código com cuidado.Se precisar Meaning of "Margin" with example sentences | Learn Por que a direita está fugindo de Flávio Bolsonaro? | Não é Bem Assim Meio Estreou há 18 horas #flaviobolsonaro #eleições2026 #michellebolsonaro No Não é Bem Assim, Dora Kramer, Marcelo Madureira, Pedro Paulo Magalhães e Ronaldo Cezar Coelho analisam por que a candidatura de Flávio Bolsonaro balança, mas ainda não caiu. Apesar de manter um eleitorado fiel e aparecer competitivo nas pesquisas, o senador enfrenta dificuldades crescentes para consolidar apoios dentro da própria direita. O programa debate o isolamento político de Flávio, a disputa de espaço com Michelle Bolsonaro, a resistência de partidos aliados em embarcar na candidatura e o impacto das investigações e desgastes recentes sobre seu projeto presidencial. _
html
Capa Pelo Buraco da Fechadura - Spazio Pirandello

Sinopse: Em um relato nostálgico e bem-humorado extraído de "Pelo Buraco da Fechadura", o autor resgata a efervescência política dos anos 1980 a partir do icônico Spazio Pirandello. O texto revive o antológico comício das Diretas Já das janelas do restaurante paulistano, revela bastidores divertidos com Ulysses Guimarães e traz o registro histórico com os números exatos do primeiro turno das marcantes eleições presidenciais de 1989.

AMARELO NO

SPAZIO PIRANDELLO

Voltando ao Pirandello.

Quatro anos depois de sua trauma.

O lançamento do Diretas Já, um dos movimentos mais democráticos que vi na minha vida, aconteceu lá, com o povo na rua, todos de amarelo, e nas quatro janelas que davam para as calçadas, eles:

Tancredo Neves, Leonel Brizola, Miguel Arraes, Ulysses Guimarães, Franco Montoro, Dante de Oliveira, Mário Covas, Orestes Quércia, Luiz Inácio Lula da Silva, Eduardo Suplicy, Roberto Freire, Luís Carlos Prestes, Fernando Henrique Cardoso, Sobral Pinto, Sócrates, Mário Lago, Gianfrancesco Guarnieri, Fafá de Belém, Taiguara, Beth Carvalho, Martinho da Vila, Osmar Santos, Juca Kfouri.

Eu, na calçada oposta, olhando, comovido, vibrando. O primeiro a falar foi Ulysses Guimarães, que, como eu, tinha vivido parte da vida em Lins:

— Aqui, desta janela, onde Oswald de Andrade curtia a sua pauliceia desvairada a caminho da Semana de Arte Moderna de 1922, aqui, desta mesma janela, hoje iniciamos o movimento Diretas Já! — (Ovacionado)

Eu, só olhando.

No fim dos anos 1980, fui apresentado ao Ulysses — em plena campanha para presidente — pelo Fernando Morais. Contei duas coisas para ele.

Uma:

— Tenho uma foto de quando tinha dez anos, desfilando com o grupo escolar, segurando uma faixa junto com um japonesinho!

A faixa:

"Ulysses Guimarães estudou neste grupo".

E ele:

— Grupo Escolar D. Henrique Mourão... Quero essa foto!

Duas:

Contei a história verdadeira do Oswald de Andrade no Spazio Pirandello. Morremos de rir.

Aproveito o espaço para registrar os mais votados para presidente da República em 1989, com cinco anos depois daquele fundamental movimento Diretas Já. Concorreram vinte e dois ambiciosíssimos políticos. Primeiro turno, os dez primeiros colocados:

  • Fernando Collor – PRN: 32,47% – direita
  • Luiz I. Lula da Silva – PT: 16,69% – esquerda
  • Leonel Brizola – PDT: 16,04% – extrema-esquerda
  • Mário Covas – PSDB: 11,19% – centro
  • Paulo Maluf – PDS: 8,60% – direita
  • Guilherme Afif – PL: 4,70% – direita
  • Ulysses Guimarães – PMDB: 4,60% – centro
  • Roberto Freire – PC: 1,10% – esquerda
  • Aureliano Chaves – PFL: 0,86% – direita
  • Ronaldo Caiado – PSD: 0,70% – extrema-direita
  PELO BURACO DA FECHADURA

De Anjos, Tiranos e Ondas Curtas

Rui Raul Castro

Dia desses, o ministro Cristiano Zanin, do Supremo, autorizou a Polícia Federal a dar uma espiada nos livros de partitura do gabinete de um colega do Superior Tribunal de Justiça, o ministro Moura Ribeiro. Suspeita-se que por ali andaram vendendo facilidades, essas coisas que o jargão forense chama de "venda de sentenças", mas que no balcão do bicho atende por puro suborno.

O episódio me fez lembrar de James Madison. No ensaio nº 51 de O Federalista, ele anotou aquela máxima que todo estudante de direito decora para esquecer no primeiro concurso: se os homens fossem anjos, governos não seriam necessários. Madison, que não era bobo e sabia que o bicho homem está mais para o manual de zoologia do que para o hagiógrafo, sabia que a grande enrascada da democracia não é fazer o governo controlar o cidadão. Isso a polícia faz com três notas de radiopatrulha. O drama é fazer o governo controlar a si mesmo.

No Brasil, quando a toga escorrega na maionese, o castigo costuma ser exemplar: a aposentadoria compulsória. O sujeito mantém o subsídio, o plano de saúde e vai curtir o tédio das tardes em Miami ou Angra. Uma punição que faria qualquer operário de fábrica chorar de inveja.

O poder, quando não encontra freio, embriaga mais que cachaça de alambique. E não é privilégio da nossa República de bacharéis. Voltemos aos anos 1960. No auge da Guerra Fria, enquanto o mundo roía as unhas com medo do cogumelo atômico, os irmãos Castro, lá em Cuba, discutiam que rumo tomar após despacharem o sargento Fulgêncio Batista para o exílio. Fidel queria o aplauso do mundo; Raul Castro, o irmão de têmpera mais militar, preferia a segurança do uniforme verde-oliva. Raul resistiu ao alinhamento automático com o Kremlin, mas a economia, esse detalhe teimoso, falou mais alto. Acabaram todos sob o guarda-chuva de Moscou, trocando o açúcar caribenho pelo petróleo siberiano.

Por aqui, a nossa esquerda, privada da liberdade de comércio e de imprensa pelos generais de plantão, buscava a salvação da lavoura nas ondas curtas do rádio. Havia um punhado de românticos — ou de teimosos — que sintonizava a Rádio Tirana. Tirana, para quem não se lembra ou prefere esquecer, era a capital da Albânia, um naco de terra isolado do mundo, governado com mão de ferro por Enver Hoxha.

Para os rapazes do PCdoB daquela época, a Albânia era o farol da humanidade. Ignoravam o fato de que Hoxha era um tirano de primeira grandeza, daqueles que viam espiões até atrás do sofá e mandavam construir fuzis em vez de escolas. No dial do rádio clandestino, o autoritarismo de lá virava "verdade eterna". Havia uma deliciosa ironia fonética que ninguém notava: para aquela militância convicta, o tirano não era tirano; era apenas a voz que vinha de Tirana.

Seja na planície balcânica de Hoxha, na Sierra Maestra dos Castro ou nos tapetes escarlates de Brasília, o roteiro é o mesmo. Sem o controle de que falava Madison, o homem forte da vez — de farda ou de capa preta — acaba achando que a sua vontade é a própria lei. E a história, essa velha senhora bem-humorada, segue registrando tudo, com o rigor que falta aos homens e a paciência que sobra aos anjos.

Dicas Mário Prata, Pelo Buraco da Fechadura, Spazio Pirandello, Diretas Já, Ulysses Guimarães, Eleições 1989, História do Brasil, Crônica Brasileira, Anos 80, Cultura Paulistana, Ditadura Militar, Democracia, Fernando Collor, Lula 1989, Leonel Brizola
Zanin autoriza PF a investigar suposta venda de sentenças no STJ Publicado em 24/07/2026 - 09:00 Luiz Carlos Azedo Brasília, Ética, Governo, Literatura, Memória, Política, Política Decisões atribuídas ao gabinete de Moura Ribeiro supostamente favoreceram interesses ligados ao lobista Andreson Gonçalves e à advogada Miriam Ribeiro A advertência de James Madison de que “se os homens fossem anjos, não seria necessário haver governos” não se destinava apenas a justificar a existência de um poder central para as antigas 13 colônias inglesas, mas estabelecer um princípio que viria ser essencial para a democracia ocidental: todo poder exercido por seres humanos precisa ser submetido a controles. No ensaio nº 51 de “O federalista”, Madison mostrou a dificuldade de habilitar o governo a controlar os governados; depois, obrigá-lo a controlar a si mesmo. É mais ou menos esse o sentido da insistência com que o presidente do Supremo Tribunal federal, ministro Édson Fachin, adverte sobre a necessidade de autocontenção do Judiciário. O poder dos ministros dos tribunais superiores é imenso e a responsabilidade deles maior ainda. Magistrados não dependem diretamente do voto popular, contam com garantias funcionais e têm a prerrogativa de decidir sobre a liberdade, o patrimônio e os direitos dos cidadãos. Mas para isso precisam conquistar a liderança moral da sociedade. No Brasil, o Supremo Tribunal Federal ocupa o vértice do sistema judiciário, com enorme concentração de poder. É guardião da Constituição, tribunal de recursos, árbitro dos conflitos entre os Poderes e instância penal para autoridades com prerrogativa de foro. A Corte também tem obrigação de prestar contas, fundamentar suas decisões com clareza e submeter seus próprios integrantes e os magistrados dos tribunais superiores aos mesmos padrões impostos aos demais cidadãos. Leia também: STF autoriza abertura de inquérito sobre filme de Bolsonaro É aí que a autorização concedida pelo ministro Cristiano Zanin para que a Polícia Federal investigue formalmente o ministro Paulo Dias de Moura Ribeiro, do Superior Tribunal de Justiça, representa um divisor de águas. Relator da Operação Sisamnes no STF, Zanin acolheu pedido da PF e parecer favorável da Procuradoria-Geral da República para que sejam investigadas decisões atribuídas ao gabinete de Moura Ribeiro, que supostamente favoreceram interesses ligados ao lobista Andreson de Oliveira Gonçalves e à advogada Miriam Ribeiro. Entre as diligências autorizadas estão a quebra dos sigilos bancário e fiscal de servidores, familiares e pessoas relacionadas aos processos examinados. A investigação não significa condenação. A própria Polícia Federal reconheceu que ainda não há prova da participação direta do ministro Moura Ribeiro, que declarou desconhecer a existência de investigação sobre decisões por ele proferidas. O devido processo legal exige rigor na apuração, porém, respeito à presunção de inocência. Rosário de casos Desde a deflagração da Operação Sisamnes, em novembro de 2024, o gabinete do ministro do STJ se tornou alvo direto da investigação. A apuração nasceu de informações encontradas após o assassinato do advogado Roberto Zampieri, em Cuiabá, e revelou uma possível rede de lobistas, advogados e servidores que teria negociado minutas de votos, informações sigilosas e decisões judiciais entre 2019 e 2023. A Procuradoria-Geral da República já denunciou nove pessoas por crimes como organização criminosa, corrupção, lavagem de dinheiro, exploração de prestígio e violação de sigilo. Segundo a acusação, ao menos R$ 4 milhões teriam sido transferidos por empresa ligada a Andreson Gonçalves para uma firma pertencente à mulher de um servidor do STJ. As responsabilidades deverão ser definidas judicialmente. Leia mais: STF institui estatuto de auditoria interna para reforçar governança da Corte A venda de sentenças no Judiciário não é uma novidade. Levantamento divulgado em 2025 já apontou invesVale a tigações e processos relacionados à venda de decisões em 14 tribunais. A Operação Última Ratio atingiu magistrados do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul; a Operação 18 Minutos apurou suspeitas de manipulação de processos e desvios no Tribunal de Justiça do Maranhão; e a Operação Inauditus aprofundou essas investigações, com afastamentos e bloqueio de bens. Em Mato Grosso, a própria Sisamnes alcançou desembargadores, advogados e agentes políticos. Em São Paulo, a PGR denunciou o desembargador Ivo de Almeida sob suspeita de corrupção e manipulação da distribuição de processos. No Piauí, a Polícia Federal investigou o desembargador José James Gomes Pereira por um possível esquema relacionado a disputas agrárias. Há casos mais antigos. A Operação Faroeste, deflagrada em 2019, apurou a negociação de decisões relacionadas à grilagem e às disputas por terras no oeste da Bahia e atingiu desembargadores, juízes, advogados e empresários. Em 2015, a Operação Expresso 150 investigou a suposta comercialização de habeas corpus e alvarás de soltura no Ceará. A Operação Asafe, de 2010, examinou fraudes em julgamentos no Tribunal de Justiça e no Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso. A Operação Naufrágio investigou uma rede no Judiciário do Espírito Santo. Em 2007, a Operação Hurricane alcançou o então ministro do STJ Paulo Medina, posteriormente aposentado compulsoriamente, por suspeitas relacionadas à negociação de uma liminar. No mesmo período, a Operação Têmis investigou magistrados federais em São Paulo, embora a denúncia tenha sido rejeitada pelo STJ por falta de provas. Antes disso, a Operação Anaconda, de 2003, revelou um balcão de negócios na Justiça Federal paulista e resultou na condenação do ex-juiz João Carlos da Rocha Mattos. Na maioria dos casos, a punição dos magistrados envolvidos foi a aposentadoria compulsória. Vale a pena ler de novo: A Revolução Americana explica sobrevência da democracia nos EUA O conto noir, o detetive durão, os negócios da política e o caso Master Nas entrelinhas: todas as colunas no Blog do Azedo Compartilhe: Clique para compartilhar no Facebook(abre em nova janela)Clique para compartilhar no Twitter(abre em nova janela)Compartilhe no Google+(abre em nova janela)Clique para compartilhar no Pinterest(abre em nova janela) #Justiça, #Lobbyu, #Ribeiro, #Sentenças, #Supremo, #Zanin

quinta-feira, 23 de julho de 2026

FEIRA DE ACARI NA FLIP 2026, SEM FANTASIA

quinta-feira, 23 de julho de 2026 Política desautoriza especialistas apressados, por Carlos Melo* O Globo Há semanas, Flávio Bolsonaro movia-se leve e solto, e as pesquisas indicavam seu ligeiro favoritismo A política é soberana, desafia o senso comum, desautoriza especialistas apressados e oráculos de botequim. Compreende uma vertiginosa associação de variáveis distintas, além da imprevisível conduta dos atores. Nada sendo constante, não permite antecipar resultados. É produto da ação social. Há semanas, Flávio Bolsonaro movia-se leve e solto, e as pesquisas indicavam seu ligeiro favoritismo. Já o presidente Lula vivia novo ciclo de desgaste; dúvidas sobre sua candidatura pairavam no ar seco de Brasília. Mas a revelação das relações perigosas de Flávio iniciou uma inflexão nas curvas dos gráficos das pesquisas. Para piorar, a imprudência de sua trupe, nos Estados Unidos, disparou um tiro de bazuca nos pés do senador. A comédia de erros, associada aos ressentimentos familiares, despertou a sensação de que, sem controle, a hemorragia pode se agravar. O processo abalou as esperanças do bolsonarismo. Fora dele, fica o sentimento de que, se a ação presente o condena, o zelo com o futuro não pode recomendá-lo. Hoje, o filho de Jair Bolsonaro cai nas pesquisas, sem despencar. É o suficiente para que o Centrão o abandone, mas pouco para ser substituído no campo conservador, com menor comprometimento político e moral. O bolsonarismo é fenômeno consolidado tanto quanto o lulismo. Seu teto é baixo, mas o piso permanece elevado. O sobrenome natural foi patenteado como patrimônio eleitoral e não será repassado a terceiros. A perspectiva de vitória de Lula mostra-se mais robusta do que há alguns meses. Não fossem a autonomia da política e sua mania de conduzir ao erro, a reeleição já estaria definida. Mas qual lance genial, estratégia ou projeto de governo contribuiu para mudar o quadro? Há políticas públicas e medidas emergenciais importantes; o controle sobre a máquina pública é sempre uma vantagem. No entanto não configuram um projeto articulado política, econômica e socialmente. A ação do governo nem sequer resvala nisso. Resta a percepção de que Lula é um sujeito de sorte, favorecido, sobretudo, pelos erros do adversário. A equivalência entre as duas gestões é injusta, mas Lula se diferencia, basicamente, por não ser Jair Bolsonaro. Já é um ativo eleitoral, pouco, no entanto, para dissipar desconfianças, expressar sonhos ou esperanças em períodos de desalento. Não aponta para novo mandato com governabilidade, capacidade de agenda e transformações necessárias. Na limitação dos horizontes políticos, governo e partido parecem perdidos e sem imaginação. Como Bolsonaro, Lula tem um alto piso de votos. Seu teto se eleva menos por mérito do governo do que por danos causados ao país (e a si mesmos) pelos adversários. Nesse ambiente de volatilidade, uma parcela — menor, mas decisiva — do eleitorado também oscila na vibração das ondas de comunicação, qual plumas ao vento. Mesmo com o bônus do caos bolsonarista, o governo não está livre de constrangimentos e desgastes que agudizem o mau humor e a dúvida nesse perfil de eleitor. A reta final de campanha, sempre perigosa, pode redefinir o placar, sem chances de reação. Vantagens obtidas apenas pelos erros do adversário iludem. O antipetismo, circunstancialmente minoritário, aposta nas viradas de jogo por meio de escorregões do presidente; comprometimento de aliados; soberba do “já ganhou” e a perspectiva de poder continuado, que potencializa vaidades. E, claro, pela ingenuidade dos que se encantam com holofotes. O sábio cresce na observação. Prudente, assimila lições no leite derramado pelos outros; antecipa-se às armadilhas e torna sua ação política soberana. Tolo é aquele que só aprende com os próprios erros. *Carlos Melo, cientista político, é professor e coordenador do Observatório da Política do Insper samllusions Historiadora Mary Del Priore lança ‘Uma história da velhice no Brasil’ | Diálogos
2 d Mary Del Priore é uma das principais historiadoras brasileiras, especializada em história social e do cotidiano. (@marydelpriore.ofc )⏳🔥 Em Uma História da Velhice no Brasil (2025), ela investiga como a velhice foi percebida e vivida no país desde o período colonial até a atualidade. A autora mostra que os idosos oscilaram entre o respeito, como símbolos de experiência e sabedoria, e o abandono, marcados por preconceitos e exclusão. A obra evidencia que a forma de tratar a velhice é resultado de transformações culturais, sociais, políticas e econômicas, convidando o leitor a refletir sobre o envelhecimento e a dignidade das pessoas idosas na sociedade contemporânea. #historia #idosos #brasil #viral #pesquisa Feira do Acari Zeca Pagodinho flip 2026 | mesa 4 – mas para que serve o pássaro? o pássaro não serve (áudio original) Flip - Festa Literária Internacional de Paraty Bloco 1: O Artigo Jornalístico (Para a primeira postagem)html

A GEOGRAFIA DOS TRILHOS: Vg É BAIXADA OU JÁ ALCANÇOU A "CIVILIZAÇÃO"?

Por Tribuna do Povo da Baixada Civilizada

DA REDAÇÃO – Quem acorda antes do sol nascer na Baixada Fluminense conhece bem o compasso do jingle ferroviário. O sacolejo do ramal Japeri dita o ritmo da vida. Entre um empurra-empurra na plataforma e a caça a um assento no vagão, o trabalhador equilibra a marmita e o cansaço. Nas rodas de conversa que se formam entre as estações, uma dúvida geográfica — quase filosófica — ecoou pelos trilhos nesta semana: afinal, o bairro de Vg, em Mesquita, fica mais perto da Baixada ou da tão sonhada "Civilização"?

A provocação nasceu de um meme que viralizou nos vagões: "Vg? Duas estações depois de Nilópolis, kkkkk". Mas o que parece piada de fim de expediente esconde uma análise densa sobre o nosso território.

A física dos trilhos: O mapa da jornada

Para o passageiro que embarca na Central do Brasil — o marco zero do que as elites ironicamente chamam de "civilização organizada" —, a viagem rumo ao coração da Baixada é uma contagem regressiva de estações. Deixando o asfalto carioca para trás, o trem cruza Nilópolis, a terra da Beija-Flor.

Duas paradas depois, o freio hidráulico canta: chegamos a Mesquita. É ali que se desenha o nosso esboço geopolítico cotidiano:

[ CENTRAL DO BRASIL ] ---> Linha de Frente da "Civilização"

▼ (Ramal Japeri - SuperVia)
[ NILÓPOLIS ] ------------> O portal da Baixada

[ EDSON PASSOS ] ---------> O meio do caminho

[ VALBERG / MESQUITA ] ---> O epicentro da nossa análise

[ NOVA IGUAÇU ] ----------> A metrópole da Baixada

O veredito da geopolítica ferroviária

O rigor técnico não nos deixa mentir, e o bolso do trabalhador confirma: administrativamente, Vg está 100% fincado na Baixada Fluminense. O bairro pertence a Mesquita — município emancipado de Nova Iguaçu na virada do milênio —, o que o coloca geograficamente no epicentro da identidade cultural da nossa região.

A linha divisória entre a "Baixada" e a "Civilização" não é medida por quilômetros, mas por infraestrutura. Se "civilização" significa ter saneamento básico, asfalto sem buraco, luz que não cai no primeiro temporal e transporte público que respeite a dignidade humana, a distância de Valberg para esse ideal não se calcula em estações de trem, mas em décadas de promessas políticas.

Conclusão: Civilizados, sim, senhor!

A ironia do cotidiano nos ensina que o conceito de civilidade está invertido. Civilizado não é o centro urbano que ignora a periferia. Civilizado é o morador de Vg que, apesar do descaso histórico do poder público, mantém o bom humor no vagão lotado e a solidariedade viva ao ceder o lugar para quem precisa.

Vg está na Baixada. Com muito orgulho e com toda a civilidade que falta a quem administra os nossos trilhos. A jornada é longa, a leitura é densa, mas o nosso direito de sorrir e cobrar melhorias ninguém consegue confiscar.

Use o código com cuidado. flip 2026 | mesa 2 – saber de cor o silêncio (audio original) Flip - Festa Literária Internacional de Paraty Transmissão ao vivo realizada há 6 horas com Edimilson de Almeida Pereira e José Tolentino Mendonça Mediação: Sofia Mariutti english interpretation: https://youtube.com/live/06LSKD38tjU audiodescrição: https://youtube.com/live/4idnR4X_ytE Poetas de uma mesma geração, donos de obra vasta e ambos detentores de grande erudição, o português José Tolentino Mendonça e o brasileiro Edimilson de Almeida Pereira conversam sobre linguagem poética, enigma e identidade. Bloco 2: O Manifesto Literário / FLIP (Para a segunda postagem)html

O NÃO-LUGAR ENTRE OS TRILHOS E O MUNDO

Comunicado Público à FLIP — Festa Literária Internacional de Paraty

Das margens para o centro. Sou Vg. Não o homem, mas a topografia do esquecimento. Existo duas estações de trem após Nilópolis, no ventre de Mesquita, onde a Baixada Fluminense tateia o mapa em busca de contornos.

Perguntam-me, entre o riso e a sociologia de vagão, se pertenço à periferia ou à Civilização. Respondo com o ferro dos trilhos: a distância entre o subúrbio e o ideal civilizatório não se mede em quilômetros, mas em direitos sonegados. Romper o isolamento geográfico e ocupar esta tribuna da alta literatura é, por si só, um ato de profanação e de direito.

Se a civilização é a métrica do centro, nós somos a vanguarda da resistência. A Baixada não aguarda o progresso; ela o carrega nas costas, diariamente, no Ramal Japeri. Minha certidão é literária porque nossa sobrevivência é uma ficção que deu certo.

Use o código com cuidado. @brasildefato Trem pega fogo e caos marca 3º dia de operação tvcomdf 2 h No TERCEIRO DIA SEGUIDO DE FALHAS após a privatização da Linha 12-Safira, houve uma EXPLOSÃO. A vida de quem usa transporte público não vale NADA para Tarcísio. O projeto doente da extrema direita é vender SP inteiro pra iniciativa privada. Daqui a pouco vão privatizar até o ar que a gente respira. E matar quem não pagar pra respirar!!! O voto no bolsonarista Tarcísio traz desgraça. Chico Buarque e Mônica Salmaso | Sem Fantasia | Que Tal Um Samba? (Clipe) Biscoito Fino Estreou em 14 de jun. de 2025 Vídeo oficial da música "Sem Fantasia", interpretada por Chico Buarque e Mônica Salmaso. O show Que Tal um Samba? foi gravado pela Biscoito Fino nos dias 3 e 4 de fevereiro de 2023, no Vivo Rio, com Chico Buarque e participação especial de Mônica Salmaso. A turnê, que leva o mesmo nome, reflete o tempo histórico em uma poética atemporal, unindo canções de forte dimensão social, política e romântica. Ouça em todas as plataformas de música: orcd.co/quetalumsambaaovivo Letra Sem Fantasia (Chico Buarque) Vem, meu menino vadio Vem, sem mentir pra você Vem, mas vem sem fantasia Que da noite pro dia Você não vai crescer Vem, por favor não evites Meu amor, meus convites Minha dor, meus apelos Vou, te envolver nos cabelos Vem perde-te em meus braços Pelo amor de Deus Vem que eu te quero fraco Vem que eu te quero tolo Vem que eu te quero todo meu Ah, eu quero te dizer Que o instante de te ver Custou tanto penar Não vou me arrepender Só vim te convencer Que eu vim pra não morrer De tanto te esperar Eu quero te contar Das chuvas que apanhei Das noites que varei No escuro a te buscar Eu quero te mostrar As marcas que ganhei Nas lutas contra o rei Nas discussões com Deus E agora que cheguei Eu quero a recompensa Eu quero a prenda imensa Dos carinhos teus E agora que cheguei Eu quero a recompensa Eu quero a prenda imensa Dos carinhos teus Ficha Técnica Show Vozes Mônica Salmaso Chico Buarque Banda Direção Musical, Arranjos, Regência, Guitarra e Violão: Luiz Cláudio Ramos Piano e Cavaquinho: João Rebouças Baixo, Violão e Bandolim: Jorge Helder Bateria: Jurim Moreira Percussão: Chico Batera Teclado e Voz: Bia Paes Leme Sopros: Marcelo Bernardes Equipe do Show Cenário: Daniela Thomas Desenho de Luz: Maneco Quinderé Figurinos: Cao Albuquerque Cenógrafos Assistentes: Emilia Merhy, Samuel Antero Assistentes de Figurino: Mariana Correia, Marta Zollinger Operação de Luz: Thomas Hieatt Operação de Monitor: Rogério Gazzaneo Operação de PA: José Carlos Iannacconi Operação de Vídeo: Marcio Vilas Boas, André Marcondes Roadie: Vadinho Prado Técnico de Som: Wallace Carvalho da Silva Administração: Dadá Maia Secretária Executiva: Márcia Leitão Assistente de Secretária Executiva: Graça Brilhante Direção de Comunicação & Marketing: Mario Canivello Assessoria de Imprensa: Alan Diniz Produção Produção Mônica Salmaso: Carla Assis Produção Executiva: Ricardo Tenente Clementino Produção Artística: Marola Edições Musicais Produção: Vinicius França A casa da Música Brasileira.

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Duas Estéticas, O Mesmo Sol

Luiz Carlos Barreto provou ter luz própria ao revolucionar o Cinema Novo através de uma ousada subversão técnica: o uso exclusivo da luz natural. Atuando como diretor de fotografia para dois diretores de estéticas opostas, ele demonstrou uma impressionante capacidade de adaptação, moldando o sol a favor de cada narrativa. Originais do Samba -Tenha Fé - Mussum ENSAIO ORIGINAIS DO SAMBA TV CULTURA Trecho do Filme "Vidas Secas", de Nelson Pereira dos Santos Luiz Carlos Barreto, conhecido como Barretão, foi o aclamado diretor de fotografia do clássico Vidas Secas, lançado em 1963 (e não em 1960). Ele ajudou a definir a estética crua e documental do Cinema Novo, usando luz natural intensa e sem filtros para transmitir o calor e a aridez do sertão. A fotografia do filme tornou-se uma lenda no cinema nacional e internacional. Suas principais características incluem: Ausência de luz artificial: A gravação foi feita inteiramente com a luz do sol, entrando pelas portas e janelas das locações. Sem filtros: Barretão dispensou filtros de lente para diminuir a intensidade do contraste, permitindo que a luz natural chapada e ofuscante do sertão nordestino dominasse a tela. Estética Neorrealista: O uso de câmera na mão e cenários reais ajudou a traduzir visualmente a miséria, a seca e a luta por sobrevivência da família de Fabiano e da cadela Baleia. A obra marcou a estreia de Barretão como diretor de fotografia, consolidando sua trajetória que o tornaria um dos maiores produtores da história do audiovisual brasileiro. Glauber Rocha- Terra em Transe (1967)- [Multi Subs] Clássicos da Sétima Arte 22 de nov. de 2015 Gênero: Drama. País: Brasil. Estrelas: Jardel Filho, Paulo Autran, José Lewgoy. Direção: Glauber Rocha. Sinopse: Terra em Transe é um espetáculo poético, sobre o transe político pelo qual passavam os países da América Latina. Considerado o mais importante e polêmico filme de Glauber Rocha e um dos percursores do Cinema Novo e do movimento tropicalista, Terra em Transe tornou-se um clássico do cinema moderno, tendo conquistado, entre outros, o Prêmio da Crítica Internacional no Festival de Cannes de 1967. Legendas em Espanhol, Francês, Inglês e Português. html

Espaço Amplo

Direito Penal da Democracia?

Por Justo S. Justino

A democracia contemporânea opera a partir de um sistema complexo de mediações institucionais. O conflito político, longe de ser extirpado, deve ser absorvido e transformado por meio de mecanismos normativos e deliberativos. Contudo, quando tais mediações se fragilizam no tecido social, observa-se uma alarmante tendência de deslocamento desses dissensos para as esferas mais rígidas de controle social. Dentre elas, o Direito Penal desponta não mais como último recurso, mas como ator principal.

No Brasil recente, essa dinâmica assume contornos expressivos e preocupantes. A vertiginosa ruptura entre dois senadores de um mesmo estado nordestino, originalmente eleitos sob a mesma chapa majoritária e coalizão partidária, é paradigmática. Evidencia a dissolução da solidariedade intrapolítica e a ascensão de uma lógica de antagonismo absoluto. O episódio, marcado por acusações mútuas de instrumentalização e "vingança" na condução de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) contra o crime organizado, revela a mutação da política em uma arena de deslegitimação estritamente simbólica e pessoal.

Simultaneamente a essa degradação paroquial das relações partidárias, o ordenamento jurídico brasileiro passou por uma inflexão estrutural relevante. A promulgação da Lei nº 14.197/2021 revogou a entulhada Lei de Segurança Nacional, inserindo no Código Penal novos dispositivos voltados especificamente à tutela do Estado Democrático de Direito. Tipificaram-se as condutas de abolição violenta da ordem democrática e de golpe de Estado. Tal movimento representa uma atualização legislativa, mas também uma perigosa reconfiguração do papel do Direito Penal na órbita pública.

Sob a perspectiva do garantismo clássico, formulado pelo jurista Luigi Ferrajoli, a intenção punitiva deve limitar-se à proteção de bens jurídicos fundamentais, balizada pela estrita legalidade. Nesse sentido, proteger a democracia das garras do autoritarismo violento pareceria um avanço civilizatório incontestável. Entretanto, a expansão penal sobre a atividade política demanda cautela extrema. Conforme a advertência clássica de Michel Foucault, o Direito Penal constitui uma refinada tecnologia de poder. Possui a capacidade imanente de produzir efeitos disciplinares que transcendem a letra da lei.

Na ausência de cultura institucional, o Direito Penal deixa de ser um escudo protetor e passa a operar como arma de destruição do adversário

Essa expansão flerta perigosamente com o fenômeno da judicialização da política. Como aponta a teoria da ação comunicativa de Jürgen Habermas, a transferência de decisões essencialmente políticas para o âmbito estrito do Judiciário esvazia a esfera pública deliberativa. Substitui-se o embate de ideias e projetos por provimentos tecnocráticos e sentenças condenatórias. No varejo da disputa pelo poder, a utilização de categorias criminais no discurso político funciona apenas como blindagem ou aniquilação reputacional. É o uso instrumental daquilo que Pierre Bourdieu conceituou como capital simbólico.

O caso da bancada sergipana ilustra perfeitamente a convergência entre a fragmentação partidária e a expansão da lógica punitiva. A desavença sobre os rumos de investigações parlamentares expõe o esgotamento dos pactos e a prevalência de vendetas individuais travestidas de legalidade. A atuação comunicacional dos agentes públicos, eivada de discursos de diferença identitária e alfinetadas indiretas nas redes sociais, soterrou o debate programático. Quando a política abdica de sua função mediadora, ela se aproxima do confronto policial permanente.

A incorporação da defesa democrática ao Código Penal pressupõe, para sua eficácia virtuosa, um ecossistema político comprometido com a própria institucionalidade. Caso contrário, a tipificação criminal servirá apenas como vocabulário de ódio e ferramenta de perseguição de maiorias ocasionais. A democracia não se sustenta de forma exclusiva ou duradoura por meio de normas proibitivas ou ameaças de cárcere. Sua preservação exige, fundamentalmente, práticas éticas responsáveis, cultura institucional sólida e um compromisso inegociável com o diálogo plural. Tratar a política habitual como caso de polícia, ainda que sob o manto de boas intenções, é o primeiro passo para asfixiar a racionalidade democrática.


Use o código com cuidado. O fantasma da fraude eleitoral está de volta | Meio-Dia em Brasília - 22/07/2026 O Antagonista Transmissão ao vivo realizada há 3 horas Meio-Dia em Brasília | 2026 O programa Meio-Dia em Brasília desta quarta-feira, 22, aborda a fala do pré-candidato Flávio Bolsonaro durante reunião com embaixadores na qual ele fez alertas sobre eventuais fraudes eleitorais no país. Além disso, o jornal também aborda o périplo bolsonarista em busca de um vice para o filho do ex-presidente da República e aborda o mais novo embate entre Michelle Bolsonaro e seus enteados. Assista:
quarta-feira, 22 de julho de 2026 O fantasma de Cristiano e a sombra de futuro dos líderes de oposição, por Luiz Carlos Azedo Correio Braziliense Está em curso uma operação de cristianização do candidato do PL, Flávio Bolsonaro, que até agora se mantém como principal candidato de oposição O mineiro Cristiano Machado (1893-1953) era advogado e diplomata quando se aventurou na política na disputa presidencial. Ex-prefeito de Belo Horizonte antes da Revolução de 1930, nas eleições de 1950 seu nome saiu da cartola dos caciques do PSD para enfrentar o candidato da UDN, Eduardo Gomes. Durante a campanha, porém, perdeu o apoio em seu próprio partido e de aliados para a candidatura de Getúlio Vargas. Essa traição recebeu um nome hoje consagrado na política brasileira: “cristianização”. Foi uma espécie de conto da carochinha. Em 15 de maio de 1950, reunidos na casa de Cirilo Júnior (presidente do partido), os caciques do PSD indicaram Cristiano à Presidência. O político mineiro ficou de procurar Getúlio Vargas (PTB) e Ademar de Barros (PSP), oferecendo a vice-presidência na chapa. O general Góis Monteiro transmitiria essa escolha ao presidente Eurico Gaspar Dutra. Vargas não fez objeção. Entretanto, a ala getulista do PSD do Rio Grande do Sul recusou-se a aceitar a candidatura de Cristiano. Membros do PSP comunicaram que também não apoiariam o nome de Cristiano, já que a candidatura de Vargas seria apoiada por Ademar. Mesmo assim, o nome de Cristiano Machado foi aclamado no dia 9 de junho. A convenção do partido não contou com a presença da maioria dos representantes gaúchos. Vargas venceu as eleições de 3 de outubro de 1950 com 3.849.040 votos, grande parte de redutos do PSD. Seus caciques promoveram um processo de esvaziamento eleitoral que ficou conhecido no jargão político como “cristianização”. Com 1.697.193 votos, Cristiano ficou atrás de Eduardo Gomes, que teve apoio de 2.342.384 de eleitores. Está em curso uma operação de cristianização do candidato do PL, Flávio Bolsonaro, que até agora se mantém como principal candidato de oposição, graças à força do bolsonarismo nas redes sociais. No mundo político e empresarial, entretanto, Flávio está sendo abandonado; em determinados segmentos evangélicos, também. A tese é de que não será capaz de vencer Lula no segundo turno, e um candidato conservador mais experiente e moderado teria o perfil ideal para derrotar o atual preesidente da República. Quem pretende vestir esse figurino é o ex-governador Ronaldo Caiado (PSD), que também corre risco de “cristianização”, mas ganhou novo fôlego. A escolha do ex-prefeito de São Paulo Gilberto Kassab, presidente do PSD, para vice reanimou sua candidatura, que busca o apoio do Centrão. Remanescente das eleições de 1989, como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Caiado saiu do governo de Goiás com grande aprovação e sempre teve muito trânsito entre lideranças do agronegócio e da área médica mais conservadora. Caiado agora disputa o apoio do União Brasil e do Progressistas, de Ciro Nogueira e Arthur Lira, que sempre foram contra a candidatura de Flávio, por achar que não seria páreo para Lula. Com apoio de Kassab, também costeia o alambrado do Progressistas, partido do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, aliado natural de Flávio Bolsonaro, mas que até agora não indicou a vice do candidato do PL. Egoístas e altruístas Para o neodarwinista Richard Dawkins, autor de Deus, um delírio, somos uma “máquina de sobrevivência” de um gene cujo objetivo é a autorreplicação, isto é, a perpetuação da espécie. No livro O gene egoísta ( Companhia das Letras), ao analisar a reprodução sexuada dos animais, Dawkins buscou uma explicação para a convivência entre o egoísmo dos genes e o altruísmo das espécies: uma espécie de “cluster” biológico garantiria a sobrevivência e replicação de ambos. O cuco é uma das espécies mais egoístas: procria, mas não educa os filhos; põe os ovos no ninho de outras aves, aproveitando sua ausência. Quando o danado do cuco nasce, joga os demais ovos para fora do ninho, matando os filhotes legítimos para ser criado no lugar deles. Quando cresce, bate asas e vai embora. A analogia serve para muitos políticos. Como no beisebol, na política é muito comum o sujeito achar que o bom rapaz terminará por último. O ardil, a dissimulação, a esperteza e a falta de escrúpulos parecem ser a regra do jogo. Mas a política também exige altruísmo, ou seja, a cooperação com os demais integrantes da espécie para não entrar em extinção. É aí que os bons rapazes podem virar o jogo e acabar em primeiro. E a “sombra de futuro”? O conceito é dos militares britânicos, refere-se à estratégia de sobrevivência dos soldados ingleses, franceses e alemães no final da Primeira Guerra Mundial, quando eles começaram a cooperar tacitamente no front, em alguns casos abertamente. Esperavam os políticos e generais acabarem com a guerra. Como eram jovens, tinham uma expectativa de vida civil muito maior do que a deles. Até que ponto Tarcísio e Michelle Bolsonaro querem que Flávio ganhe as eleições? São potenciais candidatos em 1930. Caiado e Kassab estão se movimentando em busca dessa resposta.
Entrevista com Eduardo Giannetti | Warren Política | Episódio 26 Warren Investimentos 22 de jul. de 2026 Warren Política O Brasil ainda pode voltar a crescer de forma sustentável? Neste episódio do Warren Política, Felipe Salto recebe o economista, sociólogo, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras Eduardo Giannetti para uma conversa sobre os desafios econômicos e políticos do Brasil. Uma conversa que combina economia, filosofia, política e história para entender os caminhos que o país pode seguir nos próximos anos. Entre os temas abordados: 00:00-04:53 | Introdução 04:53-10:28 | Fim da hiperglobalização 10:28-14:03 | Os desafios da economia brasileira 14:03-17:32 | Ajuste fiscal 17:32-23:36 | Gastos públicos e previdência 23:36-26:28 | Juros no Brasil 26:28-32:48 | Polarização política 32:48-34:09 | A realidade fiscal 34:09-35:25 | Complexo de vira-lata 35:25-39:25 | Lula, Bolsonaro e liderança 39:25-42:29 | Reforma política 42:29-46:30 | Inteligência artificial e mercados 46:30-48:33 | Indicações de leitura
quarta-feira, 22 de julho de 2026 O sincericídio de Gabrielli, por Vera Rosa O Estado de S. Paulo Coordenador do programa de Lula, ex-presidente da Petrobras cita controle de capitais e é enquadrado A disputa pelos rumos de um eventual quarto mandato do presidente Lula tem provocado atritos na cúpula da campanha petista. As principais divergências estão na seara econômica e há mal-estar no PT e na Fazenda com declarações de José Sérgio Gabrielli, ex-presidente da Petrobras e coordenador do programa de governo de Lula. Na sexta-feira, por exemplo, Gabrielli se reuniu com representantes do mercado financeiro, em São Paulo, e defendeu o controle de capitais, além do aumento do salário mínimo para estimular a saída dos beneficiários do Bolsa Família. Nada que o PT não pregasse antes, mas que, numa campanha agressiva como a atual, se tornou um “sincericídio”. Não é só: serviu para deixar a Faria Lima – mesmo aquele pedaço que rejeita a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) – com a pulga cada vez mais atrás da orelha. Antes desse encontro, Gabrielli já havia destacado, em entrevistas, temas incômodos para a Fazenda, como a necessidade de mudanças no arcabouço fiscal para ampliar investimentos e gastos sociais. Fernando Haddad, candidato do PT ao governo de São Paulo e ex-ministro da Fazenda, não gostou dessa abordagem. Dario Durigan, atual titular da pasta, também não. Durigan, aliás, terá várias reuniões com o mercado nos próximos dias. De qualquer forma, após o ruído com a Faria Lima, o Palácio do Planalto enquadrou o expresidente da Petrobras. Procurado, ele não quis se manifestar. “Nós não precisamos de uma nova Carta ao Povo Brasileiro”, disse à coluna o advogado Marco Aurélio de Carvalho, coordenador da campanha de Lula em São Paulo, numa referência ao documento lançado pelo então candidato do PT, em 2002, para garantir que não era um bichopapão e acalmar o mercado. Questionado sobre a queda de braço nas fileiras do PT, Marco Aurélio afirmou que Lula não tem porta-voz e só ele fala sobre o seu programa. “Mas nós não daremos um cavalo de pau na economia nem faremos nada pirotécnico”, observou o advogado, que também coordena o grupo Prerrogativas. O embate na cúpula do PT sobre a condução da economia não é de hoje. No primeiro mandato de Lula ficaram famosas as alfinetadas entre José Dirceu, então ministro da Casa Civil, e Antônio Palocci, à época titular da Fazenda. Em 2023, com Gleisi Hoffmann à frente do PT, o partido batizou o arcabouço de “austericídio fiscal”. Nos bastidores, o coro que faz mais barulho no PT ainda assina embaixo dessa avaliação. Mas o Planalto editou a medida provisória do silêncio e nada disso aparecerá na plataforma de Lula. Se o presidente for reeleito, aí, sim, a briga terá novos capítulos. Todos com desfecho imprevisível. Modinha Para Gabriela Gal Costa Gabrielli, iê, meus camarada! Modinha Para Gabriela · Gal Costa Divina, Maravilhosa ℗ 1975 Universal Music Ltda Quando eu vim para esse mundo Eu não atinava em nada Hoje eu sou Gabriela Gabriela, iê, meus camarada! Eu nasci assim, eu cresci assim E sou mesmo assim, vou ser sempre assim Gabriela, sempre Gabriela! Quem me batizou, quem me nomeou Pouco me importou, é assim que eu sou Gabriela, sempre Gabriela! Quando eu vim para esse mundo Eu não atinava em nada Hoje eu sou Gabriela Gabriela, iê, meus camarada! Eu nasci assim, eu cresci assim E sou mesmo assim, vou ser sempre assim Gabriela, sempre Gabriela! Quem me batizou, quem me nomeou Pouco me importou, é assim que eu sou Gabriela, sempre Gabriela! Eu sou sempre igual não desejo o mal Amo o natural, etc e tal Gabriela, sempre Gabriela! Eu nasci assim, eu cresci assim E sou mesmo assim, vou ser sempre assim Gabriela, sempre Gabriela! Quem me batizou, quem me nomeou Pouco me importou, é assim que eu sou Gabriela, sempre Gabriela! Eu sou sempre igual não desejo o mal Amo o natural, etc e tal Gabriela, sempre Gabriela! Composição: Dorival Caymmi.
Duas Estéticas, O Mesmo Sol Vidas Secas (1963) — Direção de Nelson Pereira dos Santos: A estética: Minimalista, crua, documental e de forte teor neorrealista.A luz de Barreto: Para traduzir a miséria e a opressão da seca, Barretão aboliu refletores e filtros de lente. Ele capturou a luz estourada, chapada e ofuscante do sertão, fazendo com que o próprio sol se tornasse o antagonista implacável que castiga a família de retirantes. Terra em Transe (1967) — Direção de Glauber Rocha: A estética: Barroca, operística, caótica, alegórica e expressionista. A luz de Barreto: Na fictícia e delirante Eldorado, a luz natural ganhou contornos completamente diferentes. Barretão explorou o alto contraste, sombras dramáticas e reflexos agressivos da luz do dia para acentuar o transe político, a loucura e a opulência dos palácios, casando perfeitamente com a câmera frenética de Glauber. Em ambos os clássicos, Barretão não apenas iluminou as cenas; ele provou que a luz natural podia ser crua ou dramática, dependendo de como o fotógrafo se adaptava a ela, consolidando-se como o verdadeiro farol estético do movimento.

terça-feira, 21 de julho de 2026

Sobre as engrenagens do mundo

terça-feira, 21 de julho de 2026 As surpresas do inesperado, por Merval Pereira O Globo O ex-presidente Tancredo Neves dizia que Presidência é destino. A História do Brasil está repleta de exemplos da verdade dessa afirmação. O Merval está batendo nesta tecla… 👇 "... pau que dá em Lulinha dá em zero um!" '...longe de serem inesperados, são temidos, e retiram dele o que resta de confiável em sua candidatura.'
Eu E A Brisa Márcia - Tema html

Correspondência do Além: O Olhar de Machado sobre as Engrenagens do Mundo

Por Machado de Assis (direto do conforto de seu novo lar, entre as nuvens)

Do meu atual ponto de vista — esta confortável poltrona moldada em cumulus-nimbos, onde a boa Carolina me serve um refresco sem as amarguras do mundo dos vivos —, miro o emaranhado de notícias humanas com o meu costumado monóculo da ironia. As coisas na Terra, de fato, mudam de roupagem para continuarem exatamente as mesmas. O espetáculo da vaidade e do poder segue o seu roteiro imutável.

Sobre os Donos do Poder e suas Redomas

  • A metamorfose mexicana: O PRI, velho conhecido das massas que nasceu sob o manto da revolução de 1930, agora ensaia trocar de nome. Uma tentativa clássica de mudar a casca para que a polpa não pareça tão apodrecida pelo tempo.
  • O absolutismo de Manágua: Daniel Ortega despacha da sua Casa dos Povos e decreta o fim das eleições. Que inveja não teria o nosso velho Imperador de tamanha ousadia institucional? Ao abolir o voto para "proteger o poder", o governante nicaraguense elimina o incômodo teatro das urnas e assume, de vez, a comédia humana em sua força bruta.
  • O Palácio de Brasília: Por sua vez, Luiz Inácio despacha do moderno Palácio do Planalto. Curioso notar como os homens públicos adoram batizar suas sedes com nomes que evocam a totalidade — "Planalto", "Povos" —, quando, na verdade, governam apenas para as suas próprias facções.

O Teatro da Democracia e o Tempo

O jovem rebelde de 1986: Assisti, pelos fios da memória, ao vídeo em que o jovem operário questionava a nossa redemocratização no programa Roda Viva. Ao fumar na TV e peitar o jornalista, ele denunciava uma "democracia maquiada". A ironia suprema — que só o tempo e a posteridade conseguem lapidar — é que o mesmo crítico de outrora hoje habita o topo desse mesmo sistema, validando as urnas que agora contam com assustadores 158 milhões de eleitores. É a engrenagem engolindo o operário e devolvendo um estadista.

A Minha Própria Parábola

A atualidade de Itaguaí: Fiquei lisonjeado ao ver a menção ao meu caro Dr. Simão Bacamarte. O bom Alienista, com sua rigorosa ciência na Casa Verde, internava os cidadãos de Itaguaí por desvios de conduta mínimos. Olhando para os vossos líderes atuais — uns que proíbem votos, outros que mudam de nome para fugir do passado —, percebo que a ciência de Bacamarte nunca foi tão necessária. A verdade é que a linha entre o hospício e o palácio de governo sempre foi uma mera convenção geográfica.

Esboço Político Metamorfose da Casa Verde

Fig. 1 - Esboço conceitual do próprio punho etéreo, sintetizando as estruturas de imobilidade.

🎵 Paródia: Pra Trás, Itaguaí!

(Métrica baseada na melodia original de "Pra Frente Brasil"Ouça a melodia original aqui)

158 milhões de eleitores, salve a eleição!
Todos num só rumo, quanta ilusão!
De ano em ano, o teatro se refaz,
O povo vota crente de que anda para trás!

De repente, o jovem que gritava lá na mesa,
Hoje veste a faixa com solene realeza!
Mudam-se os nomes, muda o PRI de casca e cor,
Mas o hospício é o mesmo, governado pelo amor!

Braço dado com a loucura,
Simão Bacamarte vai guiar!
Neste palácio de fofura,
Quem é que ele vai internar?

Não tem mais voto lá na terra de Ortega,
Mas aqui a engrenagem roda solta e nunca nega!
Cento e cinquenta e oito milhões a caminhar...
Salva-se a urna, quem vai se salvar?

Todos juntos vamos, para a Casa Verde entrar!
Salve a eleição!

Se me permitem a ancoragem dos meus instrumentos: o mundo continua uma vasta lixeira, onde os homens disputam as coroas de lata. Carolina me chama; o dever celestial me convoca a contemplar o infinito, que é bem mais limpo que a política dos vivos.

Use o código com cuidado. PARTIDO NO PODER PODE MUDAR DE NOME: PRI DOIS PARTIDOS DISPUTAM O ESPÓLIO MEXICANO NASCIDO EM 1930 E BATIZADO EM 1946 NA OPOSIÇÃO INSEPULTO DESDE 2000 O atual presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, é filiado ao partido político de esquerda Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN). Ele despacha a partir da Casa dos Povos (conhecida oficialmente em espanhol como Casa de los Pueblos), que funciona como a sede e palácio de governo da presidência, localizada na capital, Manágua. Partido Político: Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) Sede de Governo: Casa dos Povos (Casa de los Pueblos) O presidente Luiz Inácio Lula da Silva é filiado ao Partido dos Trabalhadores (PT) e despacha do Palácio do Planalto, localizado na Praça dos Três Poderes, em Brasília. Partido Político: Partido dos Trabalhadores (PT) Sede de Governo: Palácio do Planalto Não há próximas eleições marcadas na Nicarágua, pois o atual governante, Daniel Ortega, anunciou oficialmente o fim definitivo dos processos eleitorais no país. Em pronunciamento público, Ortega declarou que o regime não realizará novas eleições para evitar que grupos de oposição tenham qualquer chance de assumir o poder. O vídeo viral que circula no X (antigo Twitter) mostra o jovem Luiz Inácio Lula da Silva acendendo e tragando um cigarro durante uma entrevista ao programa Roda Viva, em 1986, na qual ele afirma que as eleições no Brasil não eram genuinamente democráticas, mas sim uma "democracia mascarada e maquiada". A declaração incomodou o jornalista Boris Casoy, que compunha a bancada de entrevistadores, gerando um embate direto entre os dois. A Fala de Lula Lula questionou a legitimidade do sistema eleitoral da época afirmando que:O processo eleitoral era desigual.Havia disparidade extrema nos recursos financeiros de campanha.O tempo de televisão e a condução dos debates favoreciam apenas os candidatos da elite.Não existia igualdade de condições para os partidos competirem de forma justa. A Contestação de Boris Casoy Incomodado com a tese de que o voto popular estaria inserido em uma farsa institucional, Boris Casoy interveio de forma incisiva, contra-argumentando que:O Brasil estava em pleno processo de consolidação democrática e que as instituições precisavam ser aperfeiçoadas por dentro.Reduzir as eleições daquela forma significava contestar a eficácia e a validade do próprio voto do cidadão e das instituições democráticas recém-conquistadas. A Réplica de Lula Ao responder o jornalista, Lula manteve sua postura e replicou enfatizando a distinção entre a teoria das leis e a realidade prática do país:Argumentou que a mera existência de uma constituição e do direito formal ao voto não garantia uma democracia real.Ressaltou que a democracia institucional coexistia com uma profunda e violenta desigualdade econômica, na qual os cidadãos disputavam o poder em patamares totalmente distantes.Concluiu reafirmando que, para o Brasil viver uma democracia de fato, era mandatório estender os direitos para o campo econômico e social, equalizando as oportunidades de competição política.O registro histórico atrai a atenção dos internautas no X tanto pela estética da época — que permitia aos entrevistados fumar livremente no estúdio de televisão — quanto pela atualidade do debate ideológico sobre os limites da democracia representativa.
Eleitora votando na eleição suplementar de Roraima. Foto: Antonio Augusto/Secom/TSE Mais de 158 milhões de eleitores estão aptos a votar nas Eleições 2026 Crescimento foi de quase de 2,3 milhões de pessoas (1,46%) em comparação com o pleito de 2022 20/07/2026 12:51 - Atualizado em 20/07/2026 13:39 A especialidade médica do Alienista é a Psiquiatria (chamada na época de "médico psiquiatra" ou estudioso da "patologia mental") e ele despachava da Casa Verde, o manicômio fundado por ele na vila de Itaguaí. O protagonista da famosa obra de Machado de Assis se chama Dr. Simão Bacamarte. Detalhes sobre o Personagem e a Obra Especialidade: Dedicou-se inteiramente ao estudo da loucura, sendo um pioneiro da ciência mental no Brasil fictício do livro. Local de Trabalho: A Casa Verde era o casarão onde ele isolava e internava todos os cidadãos que considerava mentalmente instáveis. Confusão no Enunciado: O nome "Ortega" mencionado no final da sua pergunta parece ser um resquício da pergunta anterior sobre Daniel Ortega, não fazendo parte do universo machadiano. Coisas do Mundo, Minha Nega Paulinho da Viola Hoje eu vim minha nega Como venho quando posso Na boca as mesmas palavras No peito o mesmo remorso Nas mãos a mesma viola Onde eu gravei o teu nome Nas mãos a mesma viola Onde eu gravei o teu nome Venho do samba há tempo, nega Venho parando por aí Primeiro achei Zé Fuleiro Que me falou de doença Que a sorte nunca lhe chega Que está sem amor e sem dinheiro Perguntou se não dispunha De algum que pudesse dar Puxei então da viola Cantei um samba pra ele Foi um samba sincopado Que zombou de seu azar Hoje eu vim, minha nega Andar contigo no espaço Tentar fazer em teus braços Um samba puro de amor Sem melodia ou palavra Pra não perder o valor Sem melodia ou palavra Pra não perder o valor Depois encontrei Seu Bento, nega Que bebeu a noite inteira Estirou-se na calçada Sem ter vontade qualquer Esqueceu do compromisso Que assumiu com a mulher Não chegar de madrugada E não beber mais cachaça Ela fez até promessa Pagou e se arrependeu Cantei um samba pra ele Que sorriu e adormeceu Hoje eu vim, minha nega Querendo aquele sorriso Que tu entregas pro céu Quando eu te aperto em meus braços Guarda bem minha viola Meu amor e meu cansaço Guarda bem minha viola Meu amor e meu cansaço Por fim achei um corpo, nega Iluminado ao redor Disseram que foi bobagem Um queria ser melhor Não foi amor nem dinheiro A causa da discussão Foi apenas um pandeiro Que depois ficou no chão Não tirei minha viola Parei, olhei, vim-me embora Ninguém compreenderia Um samba naquela hora Hoje eu vim, minha nega Sem saber nada da vida Querendo aprender contigo A forma de se viver As coisas estão no mundo Só que eu preciso aprender As coisas estão no mundo Só que eu preciso aprender As coisas estão no mundo Só que eu preciso aprender As coisas estão no mundo Só que eu preciso aprender Composição: Paulinho da Viola. WW ESPECIAL - A OLIGARQUIA DOS TRÊS PODERES - 19/07/2026 CNN Brasil Transmitido ao vivo em 19 de jul. de 2026 WW — Programas na íntegra Assista ao WW Especial deste domingo, 19 de julho de 2026. #CNNBrasil Participa deste episódio Joaquim Falcão, advogado e membro da ABL (Academia Brasileira de Letras).
terça-feira, 21 de julho de 2026 O mal-estar da República, por Carlos Andreazza O Estado de S. Paulo Está na praça – sob a categoria tem de ler – o livro-ensaio A Oligarquia dos Poderes, de Joaquim Falcão, um dos intérpretes deste Brasil em que a concertação dissimula o conluio. Parece que Flávio Dino já o leu. Deveria lê-lo – não lhe deixa de ser uma biografia indireta – Gilmar Mendes. Não o lerá Alexandre de Moraes. São 254 páginas de diagramação arejada, fonte generosa para com os de vista cansada e texto papo reto sobre “a crise da democracia”, esse mal-estar social derivado da percepção difusa de que a elite delegada a nos representar terá corrompido a própria existência, um fim em si mesmo, alargado e aprofundo o fosso que a separa do povo. “O mal-estar provoca certo desprezo da sociedade pelo Estado. A maioria popular sente.” O autor trata da violação do contrato social, produto do estabelecimento de um sistema trancado em que os donos da República protegeriam uns aos outros. O Poder instrumentalizado, fachada à constituição autoritária de apropriadores, para além da locupletação simples conforme consagrada neste país. Parece que Flávio Dino já o leu. Em sua tese sobre a perversão das emendas parlamentares, o nosso novo caçador de marajás, aquele que não tolera “penduricalhos” para além do extravasamento do teto constitucional que o tribunal constitucional permitira, escreveu sobre a “oligarquia parlamentar” que controla o orçamento secreto, instrumento – obscuro e autoritário – por meio do qual os detentores do Poder subordinam a prerrogativa parlamentar ao aumento dos próprios poderes. O Poder como fachada; e a prerrogativa parlamentar a serviço da manutenção do poder. Há um fundo eleitoral paralelo. Deveria lê-lo Gilmar Mendes, o garantidor do sistema, aquele que codificou-normalizou os trânsitos – os relacionamentos e as negociações – entre autoridades estatais de que a sociedade desconfia. O decano é quem fecha o estreito de ormuz brasiliense. “Mal-estar além de social: ético. Diante do comportamento de alguns líderes dos três Poderes. Denúncias de corrupção visíveis e não explicadas. Não julgadas nem punidas. Não raramente desmentidas tecnicamente.” Não o lerá – por falta de tempo – Alexandre de Moraes, tomado que está pela aplicação do Direito Xandônico e pela escritura do código que já substitui a Constituição, por meio do qual, sempre em defesa da democracia, vige a censura prévia entre nós. “E se os Poderes Estatais, em nome da democracia, pretenderem ser, eles próprios, oligárquicos?” Sob o 8 de janeiro permanente, à espreita sempre o golpe, Xandão – salvador do estado democrático de direito – não precisa explicar as relações com Vorcaro e o que o sujeito (que lhe contratara a esposa) queria que o ministro do Supremo, aquele que suspendera o X no Brasil, bloqueasse no dia em que seria preso. Se criticar, Bolsonaro volta. • Manhattan Connection 19/07/2026 | com Alvaro Schocair
terça-feira, 21 de julho de 2026 Pequeno glossário gramsciano, por Alvaro Bianchi e Daniela Mussi* Revista Cult Bloco histórico O conceito, inspirado na obra de Georges Sorel (1847-1922), foi utilizado por Gramsci para repensar as relações entre estrutura-superestrutura em uma chave anti-economicista. Expressa a unidade entre estrutura e superestrutura, natureza e espírito. No bloco histórico, as forças materiais são o conteúdo e as ideologias, as formas. Mas essa distinção entre forma e conteúdo é apenas didática, uma vez que na realidade histórica as forças materiais não seriam concebidas sem suas formas e as ideologias não teriam eficácia sem essas forças materiais. O conceito de bloco histórico não designa uma aliança de classes ou partidos políticos. Cultura Tema persistente nos escritos de Antonio Gramsci, cultura adquiria sentido amplo e uma série de desdobramentos em seu pensamento. Nos artigos de juventude, a cultura aparecia associada à atividade intelectual necessária para o fortalecimento “interior” do ambiente socialista, capaz de superar tanto as reduções neopositivistas do marxismo como o neoidealismo que avançava sobre as ideias de Karl Marx, revisando-as e incorporando-as em um paradigma liberal. Nos cadernos redigidos da prisão encontramos essa concepção ampliada e complexificada, resultado do interesse e contato de Gramsci com a experiência soviética desde 1917, além dos demais desdobramentos da crise aberta com a I Guerra Mundial na Europa, especialmente na Itália sob o fascismo. A cultura passava a ser pensada, ainda, como reforma intelectual e moral, ou seja, como o coração de uma estratégia de organização política. Também era investigada como parte de uma nova historiografia que reconhecia na formação do Estado moderno a unidade contraditória entre as formas da vida e atividade de governados e governantes. Estado Nos Cadernos do cárcere o conceito de Estado aparecia de duas maneiras. Primeiro, em um sentido mais usual na linguagem política corrente, o Estado designava a sociedade política, o conjunto dos aparelhos governativos e coercitivos que permitem realizar as funções de domínio. Em sua segunda acepção, o termo adquiria maior complexidade e passava a designar o conjunto de instituições da sociedade civil e da sociedade política, unificando, desse modo, as funções de direção (hegemonia), próprias da sociedade civil, e de dominação, características da sociedade política. Nesta última acepção o conceito de Estado assume, segundo Gramsci, uma dimensão orgânica e mais ampla, integral. Esta maneira de conceber o Estado é, frequentemente, é sintetizada na fórmula de “Estado ampliado”, embora a expressão não apareça nos Cadernos do cárcere e seja da lavra de Christine Buci-Glucksmann . Filosofia da práxis Trata-se de uma expressão emprestada por Gramsci do filósofo italiano Antonio Labriola (1843-1904), mais precisamente do livro Discorrendo di socialismo e di filosofia (1898) onde aparece a ideia de que “a filosofia da práxis é a medula do materialismo histórico”. Nos Cadernos do cárcere, Gramsci usou essa expressão em substituição a termos como “marxismo” e “materialismo histórico”, o que levou muitos intérpretes a considerá-la uma estratégia de escrita para evitar a censura fascista e outros tantos a supor o abandono das ideias de Marx. Esta segunda hipótese não se sustenta e a primeira, embora possua alguma consistência, não dá conta do fato que Gramsci absorveu a fórmula de Labriola em uma agenda de pesquisa da relação estabelecida por Marx com as tradições filosóficas dominantes em seu tempo, particularmente com a filosofia hegeliana. Gramsci valorizava o fato de Labriola ter sido o primeiro intelectual a identificar a “dignidade filosófica” do marxismo e considerá-lo como uma “cultura superior” em relação àquelas tradições. Partindo dessa premissa, o pensamento gramsciano avançou na elaboração de hipóteses de trabalho para estudo da circulação da filosofia da práxis depois da morte de seu criador, identificando dois caminhos principais: o de popularização das ideias de Marx por correntes simpáticas ao seu pensamento (o “marxismo oficial” em sentido restrito), o qual tendeu a subsumir o marxismo na filosofia materialista; e o de absorção das ideias de Marx por correntes intelectuais rivais ao seu pensamento (dentre as quais o neoidealismo era a mais importante). Em relação a esses dois “revisionismos”, por fim, a filosofia da práxis gramsciana era, antes de mais nada, a retomada de uma agenda de trabalho intelectual que apontava para a reunificação entre alta cultura e cultura popular, entre Renascimento e Reforma. Hegemonia O conceito, usual no léxico político do movimento socialista russo desde o início do século 20, era utilizado para designar o papel dirigente do proletariado em uma aliança de classes. Nos Cadernos, Gramsci fez um uso original do conceito no âmbito de sua nova teoria do Estado integral e o utilizou, em primeiro lugar, para estudar o papel do partido moderado na unificação italiana. Afirmou que os moderados haviam exercido uma atividade hegemônica antes de chegar ao poder, ou seja, que haviam sido capazes de dirigir política e culturalmente os grupos sociais aliados. A hegemonia, entretanto, só se realizaria plenamente quando os grupos políticos dirigentes pudessem mobilizar o aparelho estatal e implementar um programa pedagógico que lhes permitissem concentrar as forças intelectuais da nação e afirmar por meio delas uma nova concepção de mundo. Gramsci ora afirmou que hegemonia é igual à direção política e à organização do consenso exercida no âmbito da sociedade civil; ora que a hegemonia se caracteriza por uma combinação de coerção e consenso, ou seja, de dominação e direção, às quais em uma situação “normal”, própria das democracias representativas, se encontrariam em uma relação equilibrada. Intelectuais No pensamento de Gramsci, o conceito de intelectual foi ampliado ao longo do tempo em relação ao sentido habitual (como atividade profissional, formalmente estabelecida, no mundo das letras) e intimamente associado ao desenvolvimento dos conceitos de Estado integral e de hegemonia. Seria especialmente na sociedade civil que os intelectuais operariam e sua principal função seria a de organização e conexão desta com a sociedade política. Objeto de reflexão central nos escritos antes e depois da prisão, os intelectuais sempre estiveram no centro do pensamento de Gramsci. Antes da prisão, apareciam em seus artigos jornalísticos como tema e ponto de partida para a crítica das correntes político-culturais italianas e europeias. Contudo, com o ensaio Alcuni temi della questione meridionale, redigido nos primeiros meses de 1926, pouco antes da prisão, os intelectuais passaram à condição de objeto consciente de investigação. Gramsci desenvolveu a hipótese interpretativa de que na Itália a hegemonia burguesa Setentrional se realizara depois da unificação nacional por meio da formação de um “bloco intelectual” responsável pela coesão do “bloco agrário” apesar da desagregação social da região Meridional nesse processo. Grandes intelectuais meridionais, como o filósofo Benedetto Croce (1866-1952), eram os expoentes desse bloco, formado ainda por intelectuais pequeno-burgueses que passaram a compor o pessoal estatal depois do Risorgimento. Já nos Cadernos do cárcere, a pesquisa sobre os intelectuais foi expandida e diversificada, dando lugar a uma história transnacional das correntes intelectuais na modernidade. Nesse novo momento, o estudo dos intelectuais foi inserido em um plano de estudos sobre as vicissitudes da expansão da experiência de formação dos Estados modernos, os efeitos desagregadores e as tendências de integração global contidas neste processo, bem como sobre as crises resultantes dos choques culturais, políticos e sociais resultantes dessa experiência. Revolução passiva A expressão apareceu originalmente na obra de Vincenzo Cuoco (1770-1823) em sua obra sobre a revolução napolitana de 1799, na qual o povo não teria tomado parte e teria permanecido passivo. Gramsci utilizou o conceito para explicar o Risorgimento, o processo de formação do Estado nacional italiano no século 19, como uma “revolução sem revolução”, a qual, diferentemente da Revolução Francesa, teria ocorrido por meio de mudanças graduais e sem uma ruptura revolucionária. A seguir, expandiu o uso do conceito, primeiro para explicar o processo de formação dos Estados nacionais europeus por meio de uma série de reformas ou de guerras nacionais que teriam ocorrido sem uma fase jacobina; depois para analisar o americanismo e o fascismo, como processos de transformações moleculares nos quais o Estado assumiu a função dirigente. Nas revoluções passivas as transformações políticas e sociais se caracterizariam por processos de conservação e inovação, preservando as antigas relações sociais, ao mesmo tempo que estas eram atualizadas, permitindo seu desenvolvimento sob novas formas. Senso comum Era para Gramsci “a concepção de vida e moral mais difusa” de uma pessoa ou grupo social, ou seja, uma “visão de mundo” de caráter incoerente e fragmentado. Em Gramsci o senso comum não era concebido de maneira imóvel ou rígida, mas sempre como resultado de processos históricos que produzem a fixação temporária de opiniões filosóficas, noções científicas, culturais, econômicas etc. Por esse motivo, com o tempo toda “concepção de vida” seria deslocada por novas concepções com as quais passa a conviver como “sedimentação” de concepções passadas. A expressão “senso comum” acompanhou a pesquisa de Gramsci nos Cadernos do cárcere desde o início. Aqui, encontramos a ideia, análoga à reflexão a respeito dos intelectuais, de que todo estrato social possui o seu senso comum e, portanto, que em uma sociedade muitos sensos comuns convivem entre si. Assim, o conceito de senso comum seria difuso e não se aplicaria apenas a um grupo social, movimento analítico que permitiu a Gramsci realizar uma completa renovação do conceito de ideologia e de sua relação com a política. Assim como a ideologia, o senso comum corresponderia ao momento de reprodução e circulação de uma determinada concepção de mundo e indicaria o funcionamento normal da hegemonia de um grupo dominante. Contudo, apesar de existir nas mais diversas e contraditórias formas, por meio de “tortuosidades” e fragilidades de tipo lógico ou, ainda, como visão de mundo atrasada, o senso comum nada mais seria do que a forma popular das filosofias dominantes passadas. A percepção de uma visão de mundo como “senso comum”, portanto, seria um dado histórico relevante que indicaria não apenas a passagem de uma filosofia para o campo do folclore, mas a presença de outro elemento ativo nos processos de conformação das visões de mundo populares: o bom senso. Sociedade civil Nos Cadernos, Gramsci iniciou sua reflexão sobre a sociedade civil distinguindo o sentido que comumente era encontrado nos escritos dos intelectuais católicos, como sinônimo de Estado, em confronto com a Igreja e a família, do sentido que atribuía a Hegel, e com o qual concordava, no qual a sociedade civil era o conteúdo ético do Estado. Enquanto a sociedade política seria o lugar da violência e da coerção, na sociedade civil ocorreria a organização do consenso por meio dos aparelhos privados de hegemonia política e cultural, tais como partidos, sindicatos, igrejas, escolas, universidades, revistas, jornais, etc. A sociedade civil não era, para Gramsci, um lugar no qual apenas a autonomia dos sujeitos e projetos emancipatórios teriam lugar, nem uma esfera contraposta ao Estado e ao mercado, como em certas leituras contemporâneas. Nos Cadernos, a sociedade civil era um espaço do conflito entre forças hegemônicas antagonistas. Nas sociedades modernas e de capitalismo avançado, esse espaço do conflito seria decisivo, uma vez que o conjunto de aparelhos privados constituiriam um sistema “trincheiras e fortificações” que tornariam o ataque direto aos centros de poder, a guerra de movimento, ou inviável, ou ineficaz. Subalternos As expressões “grupos subalternos” ou “grupos sociais subalternos” apareceram sempre no plural nos Cadernos. Gramsci não utilizou essas expressões como sinônimo de classe operária ou de proletariado. Elas assumiram um sentido mais amplo, abarcando um conjunto de grupos sociais heterogêneos os quais teriam em comum uma posição de subordinação política na sociedade. A história desses grupos, segundo Gramsci, seria marcada pela fragmentação e por episódios de rebelião espontânea. A cultura dominante tenderia a marginalizar e impedir a unificação desses grupos, reafirmando constantemente a subordinação destes. Para superar essa condição subalterna, ou seja, para pôr um fim à subordinação, seria necessário imprimir a essa atividade espontânea uma direção consciente, capaz de afirmar e conquistar a autonomia desses grupos, o que só ocorreria mediante um longo e complexo processo que teria seu início no âmbito da sociedade civil. *Alvaro Bianchi, professor da Unicamp, e Daniela Mussi, professora da UFRJ