...ele quer comprar os nomes dos seus servos mortos. Na Rússia czarista do século XIX, os servos eram chamados de almas.
ALMAS MORTAS, de Nikolai Gógol quarta-feira, 30 de setembro de 2026 O discípulo do Conde Koma, as eleições e a dimensão da crise do Supremo, por Luiz Carlos Azedo Correio Braziliense A poucos dias da eleição, a impressão de que ministros estão à beira do pugilato encobre os fundamentos das decisões. Não há risco de fraude eleitoral, mas há uma crise de confiança Mitsuyo Maeda, o Conde Koma, nasceu no Japão em 1878 e fez da luta uma profissão itinerante. Formado no judô de Jigoro Kano, percorreu países demonstrando técnicas e enfrentando adversários de diferentes modalidades. Chegou ao Brasil em 1914 e passou por Manaus em dezembro de 1915, com apresentações no Teatro Polytheama. Seus desafios ajudavam a divulgar uma arte marcial na qual técnica, equilíbrio e alavancas permitiam superar a força bruta. Foi em Belém que Maeda encontrou Carlos Gracie, responsável por transmitir seus ensinamentos aos irmãos. Hélio, que aprendeu sobretudo no ambiente familiar, tornou-se um dos principais responsáveis pelo aperfeiçoamento e pela divulgação do estilo brasileiro, com ênfase no combate no chão. Carlos organizou o ensino; Hélio projetou a eficácia das técnicas nos desafios. Filhos, sobrinhos e discípulos ampliaram essa escola. Décadas depois, Royce Gracie levou suas finalizações aos primeiros torneios do UFC, enquanto academias espalhavam pelo mundo o jiu-jítsu brasileiro. Entre os praticantes mais ilustres do esporte está Luiz Fux. Discípulo de Osvaldo Alves desde a juventude, o ministro do Supremo Tribunal Federal recebeu em Manaus, em 2019, a faixa vermelha e branca, correspondente ao oitavo grau. Uma graduação que resulta de mais de 50 anos de treinamento. Fux cultiva a disciplina, o autocontrole e os valores transmitidos pelo jiu-jítsu. Agora, porém, trocou o tatame por um octógono institucional: tornou-se protagonista da guerra de liminares que atravessou o Supremo e alcançou a Justiça Eleitoral. A escalada começou com o Banco Master. A investigação conduzida por André Mendonça, as mensagens atribuídas a Daniel Vorcaro e os questionamentos envolvendo Alexandre de Moraes expuseram divisões internas que o tribunal não conseguiu administrar nos colegiados. A abertura de informações e a disputa sobre os limites das apurações converteram divergências processuais em confrontos públicos entre os ministros. Desde então, cada novo processo politicamente sensível passou a ser interpretado à luz desse conflito, mesmo quando possui fundamentos e objeto próprios. O desgaste avançou sobre o reajuste do Bolsa Família e os precatórios do setor sucroalcooleiro. No primeiro caso, Mendonça rejeitou uma iniciativa no TSE por razões processuais; depois, Gilmar Mendes reconheceu a validade do aumento no Supremo. Nos precatórios, referências encontradas no material do Master a pessoas próximas de Nunes Marques ampliaram a tensão. Esses episódios não demonstram, por si, atuação coordenada de facções judiciais. Revelam, entretanto, um ambiente no qual decisões alimentam suspeitas de movimentos entre adversários. Dimensão histórica A crise desembocou diretamente na campanha na sexta-feira. Mendonça determinou, no TSE, a retirada de publicações que atribuíam a Flávio Bolsonaro a intenção de remover de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. No domingo, Flávio Dino permitiu o restabelecimento de conteúdos, invocando a liberdade de expressão. Na segunda-feira, Fux suspendeu os efeitos da decisão do colega e restaurou a ordem eleitoral até a manifestação do plenário. Em quatro dias, as plataformas receberam comandos sucessivos e contraditórios sobre o mesmo assunto. Fux aplicou uma espécie de contragolpe: evocou o rigor empregado pelo próprio Supremo nos inquéritos sobre desinformação para questionar a liberação de uma narrativa considerada falsa pelo TSE. O argumento expõe uma cobrança de coerência. Mas o procedimento reproduz o problema que pretende conter: outra decisão individual neutraliza a anterior, enquanto o colegiado aguarda para estabelecer uma orientação comum. Nunes Marques, presidente do TSE, levou sua reação a Edson Fachin e advertiu para o risco de captura institucional da Corte Eleitoral. A expressão mostra a profundidade da ruptura: o tribunal responsável pela votação passou a reclamar da interferência do Supremo, de onde provêm três de seus integrantes. O ativismo monocrático voltou como um bumerangue. A expansão do poder individual, frequentemente justificada pela urgência de proteger a democracia, abriu caminho para uma disputa sobre quem pode impor sua interpretação aos demais. A poucos dias da eleição, a impressão de que ministros estão à beira do pugilato ameaça encobrir os fundamentos de suas decisões. Não há risco de fraude eleitoral, mas há uma crise de confiança. Quando os árbitros parecem disputar o resultado, oferecem aos derrotados argumentos para contestar as regras e aos observadores internacionais motivos para duvidar da estabilidade institucional brasileira. A Corte precisa recuperar sua autoridade com decisões coletivas fundamentadas e critérios consistentes. A lição da arte suave deveria servir a Fux e aos colegas: dominar a própria força é tão importante quanto vencer um adversário. No octógono do Supremo, a legitimidade das eleições não pode acabar imobilizada. Existe uma dimensão ética e histórica que precisa ser considerada pela Corte neste momento. Simone - Trocando em Miúdos (Áudio Oficial) quarta-feira, 30 de setembro de 2026 O que muda de Jair Bolsonaro em 2018 para Flávio em 2026? Por Wilson Gomes Folha de S. Paulo STF enfraquecido, Trump e aprendizado institucional tornam diferente um eventual novo ciclo bolsonarista Em 2026, o projeto é mais legível e as condições para executá-lo podem ser mais favoráveis Em 2018, a rejeição ao PT, a ojeriza aos partidos e grupos que dominavam a política nacional, a sensação de que a vida havia parado de melhorar, os ventos internacionais favoráveis a um populismo radical de direita e, como decorrência disso tudo, uma vontade quase desesperada de mudança de rumo político levaram milhões de eleitores a conceder praticamente um cheque em branco a Jair Bolsonaro. Um candidato que, sabia-se então como se sabe hoje, exibia poucas, se alguma, das qualidades que normalmente se procuram em alguém a quem se pretende entregar o governo do país. De certa forma, Bolsonaro foi um "poste". Chamamos assim o candidato cuja viabilidade eleitoral provém menos de capital político próprio do que daquele que lhe transfere um patrocinador. A diferença é que Bolsonaro não era o poste de um padrinho determinado, mas de sentimentos políticos urgentes: o antipetismo, o desprezo pela política tradicional, o "não" a tudo o que parecia errado. Era o tapa na cara que se queria desferir no sistema político. Teve fiadores, claro, mas, como candidatura do "não", Bolsonaro não precisava explicar com muita precisão para onde levaria o país. Bastava assegurar que seria para longe daquilo. O resto vinha depois. É curioso que, em 2026, estejamos novamente diante de uma candidatura cuja principal credencial continua a ser apenas a capacidade de derrotar o PT. A pergunta sobre quais qualificações próprias Flávio apresenta para governar o Brasil continua difícil de responder a partir de tudo o que se sabe dele. Nem mesmo a desculpa "pelo menos é honesto", usada em 2018 para justificar o voto em um candidato sem outras qualidades, resiste a um exame atento. Mas há uma diferença decisiva. O voto em Flávio já não pode ser entendido como o mesmo cheque em branco de 2018. Há agora um projeto muito mais legível. Quem escolhe Flávio escolhe também consequências mais previsíveis que aquelas de oito anos atrás: uma inflexão conservadora nas políticas públicas e nas instituições, sim, mas também uma ofensiva para alterar o equilíbrio interno do Judiciário e uma política externa voluntariamente subordinada ao governo Trump. Além disso, um eventual governo Flávio se daria em circunstâncias muito distintas das enfrentadas por seu pai. Há, antes de tudo, uma diferença decisiva no sistema de contenção institucional. Durante o governo Bolsonaro, o Supremo e, particularmente, Alexandre de Moraes, de um jeito ou de outro, transformaram-se nas principais barreiras às sucessivas tentativas de erosão da democracia liberal. Não é preciso canonizar ninguém no STF para reconhecer que foi o poder dissuasivo contra um movimento que nunca demonstrou quaisquer escrúpulos para tentar perpetuar-se no poder ou dominar o Estado sem obstáculos constitucionais. Um novo governo bolsonarista encontraria uma corte em situação muito diferente. E não se trata apenas da queda da confiança no STF. A guerra aberta entre seus ministros tornou perfeitamente plausível a percepção de que eles podem colocar os interesses das facções internas a que pertencem acima da própria instituição. E, para piorar, alguns já parecem ter perdido o antigo cuidado de evitar que suas decisões fossem lidas como extensão das preferências políticas do campo que os indicou. Some-se a isso o fato de que o próximo presidente também terá peso incomum sobre a composição do tribunal —Flávio já anunciou que pretenderia indicar cinco ministros— e teremos uma situação completamente diferente da vivida no passado. Antes, o problema era se o STF teria força suficiente para conter um presidente disposto a testar os limites da democracia; no próximo governo, acrescenta-se a dúvida sobre se terá credibilidade suficiente para fazê-lo. Por fim, também muda o ambiente internacional. Jair Bolsonaro governou entre Trump e Biden. Um eventual Flávio encontraria Trump na Casa Branca durante pelo menos os dois primeiros anos de mandato. Finalmente, existe algo que não havia em 2018: aprendizado. O primeiro governo Bolsonaro foi, em muitos momentos, improvisação, conflito interno, iniciativas mal executadas e recuos diante de obstáculos que seus integrantes pareciam não ter previsto. Trump oferece o exemplo de como uma segunda passagem pelo poder pode ser mais consciente dos obstáculos e, portanto, muito mais eficiente. No Brasil, a analogia sugere ao menos isto: desta vez, haveria menos incerteza sobre o que se pretende fazer, mais clareza sobre meios e metas e, possivelmente, condições mais favoráveis para executar a agenda. "Tem escorregado demais." "Eu nunca vi uma coisa desss." Mônica Bergamo: eleitores-pêndulo se aproximam de Lula Rádio BandNews FM 30 de set. de 2026 Em uma disputa acirrada pela Presidência da República, com a liderança de Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) na corrida, qualquer variação nas pesquisas eleitorais, ainda que pequena, pode ser determinante para a vitória de um candidato ou de outro. A análise é da colunista de política da BandNews FM, Mônica Bergamo. quarta-feira, 30 de setembro de 2026 Eleição descamba para temas aleatórios, por Vera Magalhães O Globo Captura da campanha por assuntos inflados artificialmente, como guerra religiosa que foi parar no STF, mostra falência da política e esgotamento da atual polarização Quando parecia que a eleição deste ano não tinha como ficar mais distante dos problemas reais do país, ela foi dragada por uma escalada sem pé nem cabeça que começou num boato sobre Nossa Senhora Aparecida e terminou, como sempre e como tudo, no plenário do Supremo Tribunal Federal (STF). A guerra santa se fundiu à guerra aberta entre ministros da Corte, num epílogo que nem as mentes mais criativas poderiam imaginar para uma campanha em que as atenções estiveram muito mais voltadas à lista de favorecidos por um banqueiro preso por fraude financeira que às propostas para o futuro do Brasil. De uma hora para outra, uma nova sessão de um STF já conflagrado passa a ter tanta possibilidade de interferir nos rumos do pleito quanto o debate do dia seguinte entre os candidatos à Presidência da República. Esse estado de coisas é prova cabal do esgotamento da polarização entre dois grupos políticos que falharam em acenar ao eleitor com esperança, combustível que costumava guiar o voto antes do ódio e do desejo de aniquilação do outro, sentimentos que se impuseram pelo menos desde 2018. Por mais que indicações dadas por Flávio Bolsonaro de que, se eleito, poderia patrocinar ou incentivar discussões já propostas no passado, sem sucesso, para rever feriados católicos ou a designação de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil, a celeuma em torno disso foi inflada por Lula e pela esquerda de forma absolutamente bizantina. Além de não ser fato que Flávio tenha efetivamente proposto algo nesse sentido, espanta que seja isso, e não um caminhão de outras coisas mais preocupantes que ele já disse efetivamente que fará — como indultar o pai e os demais condenados por tentativa de golpe —, a chocar os eleitores que professam essa ou aquela fé. Outra demonstração alarmante do descolamento em relação à realidade que tem guiado esta corrida eleitoral. Que Lula, que sempre condenou, ao menos no gogó, o uso político da fé, tenha se aferrado a Nossa Senhora como um devoto que nunca foi é mais um indício do grau de desespero que tomou sua campanha e seu governo diante do risco concreto de derrota. É inadmissível que um governante coloque no mesmo caldeirão doses cavalares de populismo fiscal, usando a tinta da caneta até não sobrar uma gota, e um proselitismo religioso indisfarçado para tentar recuperar terreno nos campos da popularidade e da intenção de votos. pratiSe são esses os remédios, resta a pergunta óbvia: o que esse político ainda tem a oferecer a um país com tantas carências? Por que se recusa a debater essas ideias, em vez de recorrer a mandrakarias? E por que o temor de confrontar sua biografia, com três mandatos presidenciais e uma vida política escrutinada — para o bem e para o mal — há décadas, com a de um senador até ontem obscuro, cujas conquistas políticas até aqui derivam apenas e tão somente do sobrenome e com uma ficha corrida que também não foi trazida à luz nesta campanha marcada por obscurantismo e diversionismo. Em vez de travarem esse embate de projetos e trajetórias olho no olho, os dois candidatos que lideram as pesquisas recorrem a ministros do STF cada vez mais alinhados a grupos políticos e a narrativas falsas sobre questões religiosas, que deveriam ficar fora dos palanques, porque não dizem respeito à definição de políticas públicas num Estado laico. É vergonhoso e perigoso ao mesmo tempo. Parecia que o vexame de 15 de setembro seria o degrau mais baixo a que o Supremo desceria para que seus integrantes, entrincheirados, evitassem um mínimo de prestação de contas à sociedade sobre sua conduta e suas relações. Mas não: a guerra santa das redes sociais foi transposta para os tribunais, opondo, de um lado, um ministro “terrivelmente evangélico” e seus aliados e, de outro, um declaradamente católico e seu afã de participar do processo político de que deveria ter se retirado quando foi nomeado para voltar à magistratura. É assim que o país se aproxima do momento de ir às urnas. O grau de imprevisibilidade diante de uma disputa completamente irracional é tal que praticamente só resta clamar: seja o que Deus quiser. CHICO BUARQUE " MORTE E VIDA SEVERINA " Noemia Hime ALMAS VIVAS E ALMAS MORTAS Almas Mortas (publicado em 1842) é um dos romances mais célebres do escritor russo Nikolai Gógol, concebido como uma sátira profunda da sociedade, da burocracia e da moralidade da Rússia czarista do século XIX. Há uma coisa que não se deve fazer com Vera Magalhães: jogar sua lucidez na bacia das almas mortas só porque se pretende discutir uma escolha de palavras sua. Seria uma operação intelectualmente preguiçosa. E, convenhamos, o artigo não é preguiçoso. O que ele faz é mais interessante. Vera parte de uma constatação: a “guerra santa” das redes sociais teria sido transposta para os tribunais. De um lado, aparece um ministro descrito como “terrivelmente evangélico”, acompanhado de seus aliados; de outro, um personagem apresentado como “declaradamente católico”, associado ao afã de participar do processo político de que, na visão da autora, deveria ter-se retirado ao voltar à magistratura. Está tudo aí. E é justamente aí que a colher de pau entra no angu. Não é preciso inventar uma intenção que Vera não declarou para notar que “terrivelmente” e “declaradamente” não fazem o mesmo serviço na frase. “Declaradamente católico” identifica uma posição religiosa assumida. “Terrivelmente evangélico” acrescenta à identificação um qualificativo que produz efeito retórico próprio. Pode-se discutir se esse efeito é deliberado. Pode-se discutir se é justo. Pode-se até discordar dele. O que não se deve fazer é fingir que as duas expressões são semanticamente equivalentes. Não são. E justamente porque não são, o pequeno contraste merece ser observado. Mas daí a transformar Vera numa espécie de caricatura de sua própria inteligência vai uma distância que eu não percorreria. A autora é suficientemente lúcida para que se possa discutir uma frase sua sem precisar desqualificar o conjunto de sua visão. Aliás, é esse o ponto que me parece mais interessante. Uma boa jornalista não precisa acertar cada adjetivo para continuar sendo uma boa jornalista. E uma crítica séria não precisa transformar cada adjetivo discutível em prova de que toda a visão de mundo do autor está comprometida. Gógol talvez ajude aqui. Em Almas Mortas, o século XIX russo ofereceu ao mundo personagens que sobreviviam administrativamente como almas quando já não sobreviviam biologicamente. A ficção tinha lá sua maneira de mostrar a distância entre o que constava no papel e o que existia na realidade. Na política e no jornalismo, há fenômeno inverso: às vezes pretendem vender como vivíssima uma alma que já morreu; outras vezes enterram, por conveniência narrativa, aquilo que ainda está bem vivo. Convém não fazer nenhuma das duas coisas com Vera Magalhães. Nem canonizá-la. Nem enterrá-la. Leia-se o artigo. Examine-se a construção. Veja-se o que os substantivos dizem e, sobretudo, o que os adjetivos fazem. Porque há momentos em que a ideologia não entra pela porta da frente, anunciada com fanfarra. Entra de fininho, como advérbio. E “terrivelmente” é um advérbio que não passa exatamente despercebido. Agora, a colher de pau. Desde Três Córregos — ou “3 Corgos”, na intimidade da geografia afetiva —, o ex-professor de Vera mete sua colher nesse angu, preservando algo que considero intelectualmente mais saudável: admiração não exige concordância. Ainda se pode respeitar uma pessoa de quem se discorda. Ainda se pode admirar uma inteligência e apontar-lhe uma assimetria. Ainda se pode reconhecer a qualidade de um artigo e, ao mesmo tempo, cutucar uma frase. Isso é crítica. O resto é torcida. E aqui aparece a velha palavra: simpatia. Há quem tenha simpatia por alguém; há quem tenha antipatia; há quem não comungue da mesma simpatia — e o bloco carnavalesco “Sovaco de Cobra”, com seu irreverente quase-amor, certamente daria uma boa colherada nessa semântica. Mas não confundamos simpatia com verdade. Nem antipatia com erro. Nem religião com argumento. Nem adjetivo com demonstração. O artigo de Vera continua de pé justamente porque oferece matéria para esse tipo de leitura. Seria uma pena transformá-lo em mera peça de acusação contra sua autora. Melhor fazer o contrário: levar a sério o texto. E levar a sério Vera é poder dizer, sem nenhuma necessidade de excomunhão: a frase é inteligente; a construção é hábil; a distinção é perceptível; e a assimetria dos qualificativos também. A colher de pau, portanto, continua trabalhando. Mas sem jogar a autora fora com o angu. Nem transformar almas vivas em almas mortas apenas porque discordamos da receita. Viva Voz Especial Eleições - 29/09/26 Rádio CBN Transmissão ao vivo realizada há 15 horas #NoArNaCBNEntre Poder e Poder Não Fazer o Poder Tranquilo
Uma crônica satírica em um ato cinematográfico.
O que acontece quando o regionalismo paranaense cruza o caminho da estética de rede social, sob a benção dos clássicos das tardes de matinê e o veredito final do samba de raiz? Quando o silêncio de quem pode tudo colide com o barulho de quem finge muito, abre-se a cortina para o dilema de Arapongas.
Pecadora Grupo RevelaçãoOuça "Pecadora" na voz do Grupo Revelação ou Zeca Pagodinho para entrar no clima.
Abrir no SpotifyCENA 1. GABINETE DO PODER TRANQUILO - INTERIOR / DIA
O ambiente é austero, revestido de imbuia antiga. Janelas do chão ao teto dão vista para as copas das araucárias balançando ao vento frio paranaense. Sentada à mesa central, a PRIMEIRA-DAMA fita o vazio. Em suas mãos, o relatório impresso do Dicionário inFormal aberto na página da expressão local: "Piá de Bosta".
De um lado da sala, sob a luz suave de uma luminária vintage, a projeção de uma antiga matinê de cinema foca no rosto jovem de Tony Ramos, o conterrâneo de Arapongas, simbolizando a infância assistida ao lado da avó protetora. Do outro lado da sala, sob a luz fria de um ring light de 100W, o INFLUENCER ASSESSOR DE PODEROSAS, com sotaque nitidamente carioca, digita freneticamente no celular, caçando engajamento.
INFLUENCER CARIOCA
(Sem tirar os olhos da tela)
Olha só, patroa... Esquece o sotaque do interior. O babado hoje é o hype das redes, o lacre. Se a oposição atacar, a gente solta um Reels expondo a fragilidade deles. Quem com piá fere... hã... como era mesmo aquele ditado brega de vocês?
PRIMEIRA-DAMA
(Sorrindo de canto, com frieza paranaense)
Quem com piá fere, com micadora pode ser ferida, meu caro. Você acha que entende de poder porque tem um milhão de seguidores flutuantes? Aqui em Arapongas a terra é roxa, mas o jogo é de xadrez.
A VOZ DA CONSCIÊNCIA (TONY RAMOS NA MATINÊ)
(Sua voz ecoa das caixas de som antigas, mansa e imponente)
Lembre-se de sua avó, menina. O poder tranquilo não precisa gritar em caixa alta no feed. O conterrâneo sabe quando recuar para ver o oponente tropeçar nas próprias palavras.
O Influencer bufa, gesticulando no ar com o smartphone de última geração. Ele avança dois passos em direção à mesa.
INFLUENCER CARIOCA
Mas a senhora tem a máquina nas mãos! Pode fazer o que quiser! Por que escolher o silêncio quando se pode ter o barulho?
PRIMEIRA-DAMA
(Levanta-se lentamente. Desliga o ring light do assessor com um clique definitivo)
Porque entre o poder fazer o caos e o poder não fazer o poder tranquilo... eu escolho o peso da minha palavra. O seu tempo de assessoria acabou. Vai, pecadora arrependida. Cuidar da tua vida, eu não quero você mais.
O som pesado de um tantã de samba começa a ditar o ritmo no fundo da cena. O ritmo cresce, abafando o som do vento exterior.
PRIMEIRA-DAMA
Me deste um grande desgosto. Me deste um grande desgosto... Eu não quero ver seu rosto. Palavra de rei não volta atrás.
A Primeira-Dama caminha até a janela. O Influencer recolhe seus cabos e seu tripé, derrotado pela calmaria tática da província. A projeção de Tony Ramos pisca uma última vez na parede antes de congelar num frame de serenidade cinematográfica.
FIM DA CENA
Nota do Autor:
O verdadeiro poder não reside no espalhafato de quem precisa performar relevância a cada segundo em busca de curtidas. Às vezes, o maior ato de autoridade está na calmaria de saber segurar as cartas e deixar que a gravidade do tempo faça o mico (ou a micadora) cobrar seu preço. Entre o conterrâneo e o carioca, vence quem sabe a hora exata de cantar o samba da despedida.“MORTE, MORTE MORRIDA E MORTE MATADA: FORTUNA EM DUAS FACES E UMA QUINA FINA CILÍNDRICA - A MORTE E A MORTE DA MORTE”
O seu texto constrói um mosaico filosófico e poético profundo, entrelaçando a sabedoria popular, a grande literatura brasileira e a simbologia mítica do acaso.
A expressão "morte morrida" (aquela natural, que vem com o tempo) e "morte matada" (provocada pela violência, pela mão humana ou pela emboscada) é um patrimônio da nossa língua, eternizado de forma primorosa no poema Morte e Vida Severina de João Cabral de Melo Neto. Na obra, a "morte matada" desenha a dura realidade socioeconômica do sertão, onde a vida frequentemente é interrompida antes da hora.
A inserção da "Fortuna em duas faces e uma quina fina cilíndrica" adiciona um elemento de geometria sagrada e teoria dos jogos a essa dualidade:
- As Duas Faces: Representam o binarismo clássico do destino. Cara ou coroa. Viver ou morrer. A morte morrida (o declínio orgânico inevitável) e a morte matada (o acidente, o crime, a intervenção abrupta).
- A Quina Fina Cilíndrica: É o limiar matemático improvável. É a moeda que cai de pé. No contexto da vida, representa a frágil linha do milagre, o equilíbrio paradoxal onde a morte e a vida coexistem, ou onde ocorre o que você chamou de "a morte da morte" — a superação do fim, seja pela transcendência, pelo nascimento de uma nova vida (como o bebê no final do poema de João Cabral) ou pela eternização da memória.
Essa intersecção entre o fado (a Fortuna) e os tipos de término corpóreo ecoa também em leituras simbólicas e arcanas, onde a foice (o corte abrupto/morte matada) e o caixão (o repouso final/morte morrida) são faces da mesma moeda da impermanência humana.
Para que eu possa responder ou criar algo alinhado com o seu objetivo, você poderia me contar:
- Este texto é parte de um ensaio acadêmico, de um poema ou de um estudo filosófico?
- Você gostaria que eu desenvolvesse um texto literário ou uma análise conceitual a partir desse título?
Referências e Notas de Pesquisa:
colegiocngparanagua.com.br — Morte e Vida Severina
E foi morrida essa morte, irmãos das almas, essa foi morte morrida ou foi matada? — Até que não foi morrida, irmão das almas, esta foi morte matada, numa embosc...
bemditojor.com — Morte morrida e morte matada - Bemdito
22 de mar. de 2021 — Foi morte morrida ou morte matada? Foi em Morte e vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, “E foi morrida essa morte, irmãos foi morte morrida ou foi matada?
YouTube · Trollendo — To Understand | Death and Life of Severina | Unicentro Entrance Exam 2024
30 de ago. de 2024 — Severino se depara com a morte em duas formas: a morte morrida, relacionada à fome e à sede, e a morte matada, ligada às invasões de terra.
YouTube · Explicaê — morte e vida severina somos muitos severinos iguais em tudo (...)
10 de fev. de 2022 — A morte severina é de velhice antes dos 30, de emboscada antes dos 20, ou de fome um pouco por dia. Essa morte é resultado da fome, da violência e da falta de q...
Linguagista — «Morte morrida e morte matada»
25 de out. de 2024 — Morte morrida é a morte natural, morte matada é a que foi provocada — é forma de dizer não apenas rara, como também para lá dos limites da gramática.
Brainly — Qual o sentido da expressão "morte morrida"?
14 de mai. de 2018 — A expressão 'morte morrida' refere-se a uma morte natural, ocorre sem intervenção externa, em oposição à 'morte matada', que indica uma morte causada por fatore...
Use o código com cuidado. “MORTE, MORTE MORRIDA E MORTE MATADA: FORTUNA EM DUAS FACES E UMA QUINA FINA CILÍNDRICA - A MORTE E A MORTE DA MORTE” “O seu texto constrói um mosaico filosófico e poético profundo, entrelaçando a sabedoria popular, a grande literatura brasileira e a simbologia mítica do acaso. A expressão "morte morrida" (aquela natural, que vem com o tempo) e "morte matada" (provocada pela violência, pela mão humana ou pela emboscada) é um patrimônio da nossa língua, eternizado de forma primorosa no poema Morte e Vida Severina de João Cabral de Melo Neto. Na obra, a "morte matada" desenha a dura realidade socioeconômica do sertão, onde a vida frequentemente é interrompida antes da hora. A inserção da "Fortuna em duas faces e uma quina fina cilíndrica" adiciona um elemento de geometria sagrada e teoria dos jogos a essa dualidade: * As Duas Faces: Representam o binarismo clássico do destino. Cara ou coroa. Viver ou morrer. A morte morrida (o declínio orgânico inevitável) e a morte matada (o acidente, o crime, a intervenção abrupta). * A Quina Fina Cilíndrica: É o limiar matemático improvável. É a moeda que cai de pé. No contexto da vida, representa a frágil linha do milagre, o equilíbrio paradoxal onde a morte e a vida coexistem, ou onde ocorre o que você chamou de "a morte da morte" — a superação do fim, seja pela transcendência, pelo nascimento de uma nova vida (como o bebê no final do poema de João Cabral) ou pela eternização da memória. Essa intersecção entre o fado (a Fortuna) e os tipos de término corpóreo ecoa também em leituras simbólicas e arcanas, onde a foice (o corte abrupto/morte matada) e o caixão (o repouso final/morte morrida) são faces da mesma moeda da impermanência humana. Para que eu possa responder ou criar algo alinhado com o seu objetivo, você poderia me contar: * Este texto é parte de um ensaio acadêmico, de um poema ou de um estudo filosófico? * Você gostaria que eu desenvolvesse um texto literário ou uma análise conceitual a partir desse título? colegiocngparanagua.com.br Morte e Vida Severina E foi morrida essa morte, irmãos das almas, essa foi morte morrida ou foi matada? — Até que não foi morrida, irmão das almas, esta foi morte matada, numa embosc... bemditojor.com Morte morrida e morte matada - Bemdito 22 de mar. de 2021 — Foi morte morrida ou morte matada? Foi em Morte e vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, “E foi morrida essa morte, irmãos foi morte morrida ou foi matada? YouTube·Trollendo To Understand | Death and Life of Severina | Unicentro Entrance Exam 2024 30 de ago. de 2024 — Severino se depara com a morte em duas formas: a morte morrida, relacionada à fome e à sede, e a morte matada, ligada às invasões de terra. 1m YouTube·Explicaê morte e vida severina somos muitos severinos iguais em tudo (...) 10 de fev. de 2022 — A morte severina é de velhice antes dos 30, de emboscada antes dos 20, ou de fome um pouco por dia. Essa morte é resultado da fome, da violência e da falta de q... Linguagista «Morte morrida e morte matada» - Linguagista 25 de out. de 2024 — Morte morrida é a morte natural, morte matada é a que foi provocada — é forma de dizer não apenas rara, como também para lá dos limites da gramática. Brainly Qual o sentido da expressão "morte morrida"? - brainly.com.br 14 de mai. de 2018 — A expressão 'morte morrida' refere-se a uma morte natural, ocorre sem intervenção externa, em oposição à 'morte matada', que indica uma morte causada por fatore... Instagram·mariagabisaldanha Engana-se quem pensa que A Morte seja o único Arcano do Tarô a ... - Instagram 22 de out. de 2025 — Engana-se quem pensa que A Morte seja o único Arcano do … na Roda da Fortuna e nA Torre, por exemplo.”Instagram · mariagabisaldanha
22 de out. de 2025 — Engana-se quem pensa que A Morte seja o único Arcano do Tarô a ... na Roda da Fortuna e nA Torre, por exemplo.”















