Inspirados já nos ensinamentos de Sófocles, aqui, procurar-se-á a conexão, pelo conhecimento, entre o velho e o novo, com seus conflitos.
As pistas perseguidas, de modos específicos, continuarão a ser aquelas pavimentadas pelo grego do período clássico (séculos VI e V a.C).
O artigo descreve um cenário de polarização assimétrica na eleição presidencial brasileira: o presidente Lula lidera com vantagem nacional e em simulações de segundo turno, enquanto Flávio Bolsonaro se mantém como principal adversário, apesar de desgastes. As tentativas de uma “terceira via”, representadas por Ronaldo Caiado e Romeu Zema, esbarram na incapacidade de transformar força regional em projeção nacional.
O texto resgata a interpretação histórica de Oliveira Viana, que via o Brasil dividido entre um eixo mais dinâmico (Sul/Sudeste) e outro mais atrasado (Norte/Nordeste), sugerindo que essa clivagem ainda ecoa hoje. As pesquisas citadas reforçam essa divisão: Lula domina amplamente no Nordeste e Norte, enquanto Flávio mostra maior competitividade no Centro-Sul. Minas Gerais aparece como estado-chave, com equilíbrio técnico entre os dois.
Caiado e Zema ficam numa espécie de “faixa de fronteira” entre esses dois blocos, mas sem romper a polarização. Ambos têm desempenho relevante apenas em seus estados de origem e pontuam muito baixo no restante do país, o que limita suas candidaturas a uma dimensão regional.
Ao final, o texto levanta a questão central: a falta de um projeto claro do campo liberal contribui para manter o cenário polarizado. E, diante desse quadro tão definido entre dois polos, surge a dúvida inevitável: onde foram parar os indecisos, os votos em branco e nulos, e as rejeições aos dois líderes destacados nas pesquisas — o gato comeu?
quinta-feira, 30 de julho de 2026
Fortes em GO e MG, Caiado e Zema não conseguem nacionalizar candidaturas, por Luiz Carlos AzedoCorreio BrazilienseQue país queremos? Essa pergunta está posta novamente nas eleições, com o agravante de os liberais não terem um projeto claro
A eleição presidencial mostra uma polarização assimétrica. Candidato à reeleição, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva lidera a disputa nacionalmente e conserva vantagem nas simulações de segundo turno, enquanto Flávio Bolsonaro demonstra resiliência suficiente para permanecer como seu principal adversário. Apesar das denúncias, erros e brigas na campanha de Flávio, as possibilidades de uma terceira via continuam restritas. Os ex-governadores Ronaldo Caiado (GO) e Romeu Zema (MG), apesar da projeção conquistada como governadores, não conseguem transformar seus redutos regionais em alavanca para nacionalizar suas candidaturas.
Os principais colégios eleitorais mostram dois Brasis, o meridional e o setentrional. Essa divisão foi apontada a primeira vez em 1920, Populações Meridionais do Brasil, de Oliveira Viana. Escrito entre 1916 e 1918, levou dois anos para ser publicado, pela livraria José Olympio. O que dizia Viana? Ele definia três arquétipos para o povo brasileiro: o sertanejo, o matuto e o gaúcho, os quais foram sucedidos pela publicação meteórica de mais quatro ensaios: “O idealismo da Constituição” (1920), “Pequenos estudos da psicologia social” (1921), “Evolução do povo brasileiro” (1923) e “O ocaso do Império” (1924). O primeiro volume de “Populações meridionais do Brasil” dedicou aos paulistas, fluminenses e mineiros; o segundo, ao campeador rio-grandense. Partia do homem para criticar as instituições da época.
“O sentimento das nossas realidades, tão sólido e seguro nos velhos capitães gerais, desapareceu, com efeito, das nossas classes dirigentes: há um século vivemos praticamente em pleno sonho (….) O grande movimento democrático da Revolução Francesa; as agitações parlamentares inglesas; o espírito liberal das instituições que regem a república americana, tudo isto exerceu e exerce sobre nossos dirigentes, políticos, estadistas, legisladores, publicistas, uma fascinação magnética que lhes daltoniza completamente a visão nacional dos nossos problemas. Sob esse fascínio inelutável, perdem a noção objetiva do Brasil real e criam para uso deles um Brasil artificial”.
Oliveira Viana atacou frontalmente os liberais brasileiros, corroborado pela iniquidade social que havia sido desnudada por Euclides da Cunha, ao descrever a Guerra de Canudos, em “Os sertões”. Concluía que era preciso “coragem infinita” para “contravir ostensivamente às ideias de liberdade e construir um poderoso Estado centralizado, capaz de impor-se a todo o país pelo prestígio fascinante de uma grande missão nacional”. Ao dizer que era impossível reproduzir aqui no Brasil o parlamentarismo inglês, o liberalismo democrático à francesa, ou o federalismo e descentralização republicana ao estilo americano, Oliveira Viana recomendava uma intervenção radical pelo Estado, destinado a criação de bases sociais aptas a sustentar futuros governos liberais. Para ele, esse “autoritarismo instrumental” da elite agrária e as populações meridionais, de recente imigração europeia, seriam protagonistas do moderno, enquanto o Brasil setentrional, sobretudo o Nordeste, representaria o atraso.
Faixa de fronteira
A consagração das ideias antissistema de Oliveira Viana viria com o Estado Novo, do qual foi o grande ideólogo, e a “Polaca”, a Constituição de 1937, redigida por Francisco Campos e outorgada pelo ditador Getúlio Vargas. Ironicamente, Jorge Caldeira, em “História da riqueza no Brasil” (Estação Brasil), destaca que o colapso político da República Velha interrompe mudanças importantes que estavam em curso, alavancadas por nosso mercado interno e a economia do sertão, como o aumento de rentabilidade da exportação de café, a grande acumulação de capital dos cafeicultores paulistas, que apostaram na industrialização, e não no patrimonialismo, ao contrário das oligarquias rurais que Viana enaltecera.
Que país queremos? Essa pergunta está posta novamente nas eleições, com o agravante de os liberais não terem um projeto claro. Muito da polarização se deve a isso. Segunda as pesquisas regionais divulgadas ontem pela Genial Quaest, Lula domina Bahia e Pernambuco, onde alcança, respectivamente, 52% e 55% no primeiro turno, contra 18% e 21% de Flávio. No segundo, as diferenças aumentam para 56% a 23% na Bahia e 58% a 24% em Pernambuco. O presidente também lidera no Pará por 38% a 31% e vence o candidato do PL por 44% a 37% na disputa direta. São resultados que reafirmam a força do lulismo no Brasil setentrional.
Flávio, entretanto, mostra grande competitividade no Centro-Sul. Lidera no Paraná por 42% a 24% e venceria Lula por 50% a 28% no segundo turno. Aparece numericamente à frente em São Paulo, por 34% a 30%, e no Rio de Janeiro, por 32% a 30%. Nos confrontos diretos, as vantagens seriam de 40% a 35% em São Paulo e de 38% a 35% no Rio. Em Minas Gerais, estado historicamente decisivo, Lula e Flávio estão tecnicamente empatados: 30% a 29% no primeiro turno e 38% a 35% no segundo.
Caiado e Zema estão numa espécie faixa de fronteira entre esses dois brasis. O ex-governador mineiro alcança 12% em Minas, seu único resultado de dois dígitos entre os sete estados pesquisados. Fora de sua base, registra apenas 1% na Bahia, no Pará e em Pernambuco; 2% no Paraná e no Rio; e 3% em São Paulo. Sua candidatura continua sendo uma extensão de sua liderança regional, sem uma identidade nacional. O segundo turno confirma essa limitação. Em Minas, Zema aparece com 37% contra 39% de Lula, em empate técnico, resultado que demonstra sua força estadual. Fora dali, porém, não ameaça a polarização.
Caiado enfrenta o mesmo obstáculo. Estribado nos resultados do governo de Goiás, sobretudo na segurança pública, na educação e na gestão administrativa, entretanto, não atravessa as fronteiras estaduais. Nos sete estados analisados, oscila entre 1% e 4%: chega a 4% em Minas, registra 3% no Pará, no Rio e em São Paulo, 2% no Paraná e somente 1% na Bahia e em Pernambuco. Apesar da trajetória política mais longa e da estrutura do PSD, ainda não conseguiu apresentar uma alternativa nacional ao bolsonarismo. Nas simulações de segundo turno, Caiado alcança resultados melhores: 30% contra 38% de Lula em Minas, 30% contra 45% no Pará, 34% contra 35% em São Paulo e 33% contra 29% no Paraná. Esse crescimento decorre, em boa medida, da transferência do voto contrário a Lula quando Flávio é retirado da disputa.
Canção do SubdesenvolvidoCarlos Lyra
O Brasil é uma terra de amores
Alcatifada de flores
Onde a brisa fala amores
Em lindas tardes de abril
Correi pras bandas do sul
Debaixo de um céu de anil
Encontrareis um gigante deitado
Santa Cruz...hoje o Brasil
Mas um dia o gigante despertou
Deixou de ser gigante adormecido
E dele um anão se levantou
Era um país subdesenvolvido
Subdesenvolvido, subdesenvolvido, etc. (refrão)
E passado o período colonial
O país passou a ser um bom quintal
E depois de dar as contas a Portugal
Instaurou-se o latifúndio nacional, ai!
Subdesenvolvido, subdesenvolvido (refrão)
Então o bravo povo brasileiro
Em perigos e guerras esforçado
Mas que prometia a força humana
Plantou couve, colheu banana..
Bravo esforço do povo brasileiro
Mas não vi o capital lá do estrangeiro
Subdesenvolvido, subdesenvolvido... etc. (refrão)
As nações do mundo para cá mandaram
Os seus capitais tão "desinteressados"
As nações, coitadas, queriam ajudar
E aquela "Ilha Velha" não roubou ninguém
País de pouca terra, só nos fez um bem
Um "big" bem, un "big" bem, bom, bem, bom
Nos deu luz, ah! Tirou ouro, oh!
Nos deu trem, ahhh! Mas levou o nosso tesouro
Subdesenvolvido, subdesenvolvido... etc. (refrão)
Mas data houve que se acabaram
Os tempos duros e sofridos
Pois um dia aqui chegaram os capitais dos..
Paises amigos
País amigo desenvolvido
País amigo, país amigo
Amigo do subdesenvolvido
País amigo, país amigo
E nossos amigos americanos
Com muita fé, com muita fé
Nos deram dinheiro e nós plantamos
Só café!
É uma terra em que plantando tudo dá
Pode se plantar tudo que quiser
Mas eles resolveram que nós iríamos plantar
SÓ CAFÉ! SÓ CAFÉ!
Bento que bento é o frade - frade!
Na boca do forno - forno!
Tirai um bolo - bolo!
Fareis tudo que seu mestre mandar?
Faremos todos, faremos todos...
Começaram a nos vender e nos comprar
Comprar borracha - vender pneu
Comprar madeira - vender navio
Pra nossa vela - vender pavio
Só mandaram o que sobrou de lá
Matéria plástica,
Que entusiástica
Que coisa elástica,
Que coisa drástica
Rock-balada, filme de mocinho
Ar refrigerado e chiclet de bola
E coca-cola...!
Subdesenvolvido, subdesenvolvido... etc. (refrão)
O povo brasileiro tem personalidade
Não se impressiona com facilidade
Embora pense como americano
Embora dance como americano
Embora cante como americano
Lá, lá, la, la, la, la
Êh, êh, meu boi
Êh, roçado bão
O meior do meu sertão, thu, thu, thu
Comeram o boi...
O povo brasileiro embora pense, dance e cante
como americano
Não come como americano
Não bebe como americano
Vive menos, sofre mais
Isso é muito importante
Muito mais do que importante
Pois difere os brasileiros dos demais
Personalidade, personalidade
Personalidade sem igual
Porém... subdesenvolvida, subdesenvolvida
E essa é que é a vida nacional!
Composição: Carlos Lyra, Chico Assis.Trump e Milei podem decidir a eleição de 2026? | Não é Bem AssimMeio
Estreou há 3 horas #trump #eleições2026 #milei
No Não é Bem Assim, Dora Kramer, Marcelo Madureira, Márcio Fortes e Pedro Paulo Magalhães discutem como Trump, Milei e a pauta da soberania entram na disputa presidencial brasileira, além dos impactos para Lula e Flávio Bolsonaro e relembra os temas que mais pesam para o eleitor: segurança, inflação, emprego e serviços públicos.
O ALIENISTA DO STF
Do Analista de Bagé ao Analista Weberiano
PRÓLOGO: PASSOU, MINISTRO! PASSOU...
Dados recentes, oriundos de auditorias divulgadas no final de julho de 2026, apontam que cerca de 82% das chamadas “emendas Pix” apresentam irregularidades ou falhas graves de rastreabilidade.
Diante disso, o ministro do Supremo Tribunal Federal determinou que Executivo e Legislativo estabeleçam, em prazo de 10 dias, uma matriz clara de responsabilidades sobre tais repasses.
A tese é simples — e incômoda:
Quem indica o dinheiro não pode lavar as mãos quando ele evapora.
O magistrado ainda advertiu, com precisão cirúrgica, que indicar uma emenda não equivale a fazer um Pix informal a um conhecido na esquina.
Relatórios de órgãos de controle confirmam o cenário: ausência de convênios, obras inacabadas, sobrepreço e um rastro de dinheiro que termina… onde termina o interesse público.
INTERLÚDIO: O ANALISTA DE BAGÉ (CORREÇÃO NECESSÁRIA)
Convém registrar: a obra clássica de Luís Fernando Veríssimo chama-se “O Analista de Bagé” — e não “O Alienista de Bagé”, confusão recorrente que mistura o autor gaúcho com Machado de Assis.
Seu método terapêutico é célebre: o joelhaço inaugural, aplicado em pacientes homens para “quebrar resistências” do ego e prepará-los, à força, para a sessão analítica sobre o divã de pelego.
Rústico, direto, brutal — e, por isso mesmo, revelador.
ENREDO: O JOELHAÇO WEBERIANO
No palco constitucional, surge a figura da analista de Porto Alegre, que, à luz do artigo 37 da Constituição de 1988, sentencia:
As emendas secretas são, em essência, incompatíveis com os princípios da administração pública.
É o joelhaço institucional: transparência contra opacidade, publicidade contra arranjos subterrâneos.
SURGE O SUCESSOR: O ANALISTA FLAVIANO
O novo analista do STF entra em cena com outro estilo. Menos joelhaço, mais advertência:
“Devagar com o andor… que os analisados são de barro.”
Não abandona o método — apenas o calibra. Onde antes havia impacto imediato, agora há construção gradual do constrangimento jurídico.
ÁPICE: O CONSULTÓRIO SUPREMO
Após herdarem os pacientes da antiga analista, o novo terapeuta constitucional dirige-se aos nobres analisados:
— Vossas Excelências desejam que retomemos a técnica psicoconstitucional weberiana de Porto Alegre?
E, do outro lado do divã, curvados — não mais por ideologia, mas por memória muscular institucional — vem a resposta:
— Por favor, ministro… data vênia… já sentimos saudades do vosso elevado e delicado joelhaçozinho!
EPÍLOGO: A FARSA VEROSSÍMEL
O político entra no consultório. A análise começa. A resistência é grande — mas o método é maior.
Entre a norma e o improviso, entre a Constituição e o jeitinho, encena-se uma comédia densa, culta e mordaz — onde o riso não esconde o diagnóstico.
Porque, no fim, a pergunta permanece:
o problema é a terapia… ou o paciente?
RESUMO
Uma esquete político-constitucional, em chave verissimiana, que expõe com humor refinado e crítica aguda a dinâmica das emendas parlamentares, transformando o STF em consultório e a política em caso clínico.
Técnico na forma, ácido no conteúdo, e absolutamente brasileiro no diagnóstico.
Os Povos Brasileiros e Chineses
Olho para baixo e o azul da Terra continua o mesmo, embora aqui de cima, na face oculta do Além, a distância nos dê a exata dimensão das ironias humanas. Lá embaixo, os homens ainda acreditam que governam os fluxos da história com a ponta de suas canetas e o estofado de suas cadeiras. Ilusão de ótica dos vivos. Daqui da Ilha Azul, o que se vê é uma ópera bufa, encenada em dois palcos distantes, mas sintonizados pela mais perfeita assimetria.
A engenharia do destino é caprichosa. O Brasil, com a generosidade ingênua de um gigante deitado em berço esplêndido, resolveu alimentar a grande caldeira do capitalismo planejado do Extremo Oriente. Enviamos o ferro tirado das entranhas da terra e a soja colhida nos cerrados. Transformamos o suor da nossa lavoura e a riqueza do nosso subsolo naquilo que os economistas chamam de commodities. Do outro lado do globo, a China, com a paciência milenar de quem joga xadrez enquanto o Ocidente joga dados, converteu nossa matéria-prima em chips, painéis solares, baterias e uma frota silenciosa de veículos elétricos.
Enquanto os donos do poder se revezam em tronos temporários — ora ungidos como Messias, ora aclamados como as almas mais honestas do mercado eleitoral —, a engrenagem do mundo real gira sem misticismo. O controle centralizado transmuta o arrocho salarial e o cabresto sindical em superávit tecnológico. O resultado dessa dialética das trocas chega montado em duas rodas elétricas, financiadas pelo próprio Estado brasileiro com o aval de fundos de risco e o subsídio de taxas.
É o trânsito da modernidade: o motor elétrico não faz ruído, o torque é instantâneo, e o tombo, previsível. O Estado que avaliza o crédito na entrada é o mesmo que recolhe os pedaços na saída, arcando com a contabilidade trágica das pensões por morte e das invalidezes precoces no INSS. Uma PPP onde o risco é público e o lucro, intangível.
Imagino, então, uma solenidade idealizada na imensidão da Praça do Povo. Sob o céu de Pequim, entre discursos pragmáticos e bandeiras vermelhas, o bravo povo chinês decide condecorar o solidário povo brasileiro com a “Medalha da Gratidão”. Afinal, fomos nós que abrimos mão do futuro industrial para que eles pudessem desenhá-lo. Seria uma honraria justa, entregue com a reverência de quem sabe exatamente quanto custou o quilo do nosso ferro e quão barato saiu o preço da nossa ilusão.
Do mirante do Além, resta-nos o riso contido e a constatação de que a história é um eterno baile de máscaras onde os convidados pagam pela música, mas apenas os músicos sabem o ritmo da dança. Vivam os povos brasileiros e chineses, cada um cumprindo o seu papel no grande teatro do absurdo.
Notas do Conselho de Confrades & Copydesk
Anotação de Eça de Queiroz: “Meu caro, a ironia sobre os ‘Messias’ e as ‘almas honestas’ capta bem o provincianismo político que já criticávamos no século XIX. O contraste entre a ingenuidade do jeca exportador e o pragmatismo mandarim é de um ridículo deliciosamente trágico. Permita-me apenas aplaudir o desenho dessa ópera onde o figurino é de alta tecnologia, mas a mentalidade continua a da velha colônia.”
Anotação de Machado de Assis: “A analogia da quietude das rodas elétricas com o silêncio da posteridade é fina. O Estado, esse eterno alienista, financia a queda para depois administrar o curativo. A estrutura está equilibrada, a vaidade dos mandatários foi despida com a devida melancolia jurídica. Não altero uma vírgula; o pessimismo está perfeitamente elegante.”
Relatório de Copydesk de Graciliano Ramos: “Cortei os adjetivos gordos. Limpei a fumaça das frases longas. A prosa precisava do osso, como a seca. A passagem sobre o INSS estava redundante; reduzi à crueza do fato: o Estado paga a conta do ferro velho e do caixão. O texto agora está seco, direto e bate onde deve.”
Viola EnluaradaClaudya - Tema
21 de fev. de 2025
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Viola Enluarada · Claudya
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℗ 1999 Companhia de Discos do Brasil
Released on: 1999-05-06
Producer: Laís Pires
Music Publisher: Direto
Composer: Marcos Kostenbader Valle
Lyricist: Paulo Sérgio Kostenbader Valle
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PASSOU MINISTRO! PASSOU...
"Na verdade, o dado correto apontado por auditorias recentes divulgadas no fim de julho de 2026 é de que cerca de 82% (e não 84%) das chamadas "emendas Pix" apresentam irregularidades ou problemas de rastreabilidade. O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou que o governo e o Congresso criem regras de responsabilização para os parlamentares.
Decisão do STFPrazo de 10 dias: O ministro deu um prazo para a Presidência da República, a Câmara e o Senado apresentarem uma matriz de responsabilidades sobre os repasses.
Fim da imunidade: Dino defende que o parlamentar que indica o dinheiro não pode ficar livre de culpa caso o recurso seja mal aplicado.
Frase de destaque: O magistrado pontuou que indicar uma emenda Pix não é o mesmo que fazer uma transferência simples para um conhecido na rua.
Achados dos Órgãos de ControleTCU e CGU: Relatórios apontam que a falta de convênios formais dificulta rastrear o dinheiro enviado diretamente a prefeituras.
Problemas comuns: Foram achadas obras paradas, compras superfaturadas e falta de dados públicos sobre o destino final das verbas.
Nota prévia: cabe corrigir que a obra clássica de Luís Fernando Veríssimo se chama O Analista de Bagé (e não "O Alienista de Bagé", título que mistura a criação dele com o famoso conto O Alienista de Machado de Assis). A famosa "terapia do joelhaço" é o cartão de visitas do personagem para pacientes homens.
A Técnica do JoelhaçoO método inicial: Ao receber um paciente homem novo no consultório, a primeira providência prática do analista é aplicar-lhe um violento joelhaço.
A justificativa: O golpe serve para "quebrar as resistências" do ego e dobrar o cliente ao meio, preparando-o imediatamente para deitar no divã coberto com um pelego.
A exceção de gênero: O próprio analista pondera que o joelhaço é exclusivo para homens, pois em mulheres, segundo a sua ótica machista e rústica, "só se bate pra descarregá energia"."
O ALIENISTA DO STF
Do Analista de Bagé à Analista Weberiana
ENREDO: O “joelhaço” de Rosa Weber — as emendas secretas são inconstitucionais, todas, pelo artigo 37 da CF/1988. Jeitinho do analista sucessor no STF, Flaviano: “Devagar com o andor, analista de Porto Alegre, que os nobres analisados são de barro.”
ÁPICE: De Dino, em papo reto para analisados herdados de Weber, após o seu famoso joelhaço: “Vossas Excelências querem que eu volte a aplicar a técnica psicoconstitucional weberiana de Porto Alegre?” — “Por favor, ministro Dino, data venia, já sentimos saudades de vosso elevado e delicado joelhaçozinho!”
RESUMO: O político se apresenta ao analista do STF, e a farsa desenrola-se em forma de esquete verossímil. Tecnicamente perfeito na forma, ao estilo cômico, hilário, culto, analítico e denso de Luis Fernando Verissimo.
✅ Dicas
JORNAL DA CULTURA | Falta de recursos agrava HIV e Brasil vive tensão com Paraguai | 30/07/2026Jornalismo TV Cultura
Transmissão ao vivo realizada há 2 horas Jornal da Cultura | 2026
No Jornal da Cultura desta quinta-feira (30), você vai ver: Brasil formaliza na OMC repúdio às novas tarifas aplicadas pelos Estados Unidos; decreto prevê expulsão de estrangeiro por discurso de ódio na Argentina; e arrecadação com as “bets” será destinada a fundo da Polícia Federal.
Para comentar essas e outras notícias, Rita Lisauskas recebe o médico sanitarista Gonzalo Vecina Neto, professor da Faculdade de Saúde Pública da USP e o economista e doutor em ciência política, Ricardo Sennes.
O Jornal da Cultura é exibido de segunda a sábado, às 21h, na TV Cultura, no site da emissora e no YouTube.
#JornalDaCultura #TVCultura #SomosCultura
Os Descaminhos da Linha: Infraestrutura e a Poética do Abandono
A superação do secular atraso logístico brasileiro exige maturidade federativa e contratos sólidos, blindando os projetos de Estado contra o palanque efêmero dos governos de ocasião.
Ponta de AreiaMilton Nascimento
Ponta de areia
Ponto final
Da Bahia-Minas
Estrada natural
Que ligava Minas
Ao porto, ao mar
Caminho de ferro
Mandaram arrancar
Velho maquinista
Com seu boné
Lembra o povo alegre
Que vinha cortejar
Maria Fumaça
Não canta mais
Para moças, flores
Janelas e quintais
Na praça vazia
Um grito, um ai
Casas esquecidas
Viúvas nos portais
Maria Fumaça
Não canta mais
Para moças, flores
Janelas e quintais
Na praça vazia
Um grito, um ai
Casas esquecidas
Viúvas nos portais
Composição: Milton Nascimento, Fernando Brant.
Entre ferrugem e silêncio, os trilhos narram um país que interrompeu seus próprios caminhos — não por falta de projeto, mas por ausência de continuidade.
Por Teodoro da Silva-Mello
A história do progresso brasileiro pode ser lida, sem rasuras, pela geografia de seus caminhos. Das picadas indígenas que Mem de Sá converteu no primeiro ensaio de ligação entre o planalto de Piratininga e o Atlântico, passando pelas artérias de ferro que os barões do café estenderam sob o influxo do capital vitoriano, a fixação de nossas fronteiras econômicas sempre dependeu da ousadia da engenharia e do peso do Estado. Todavia, a crônica nacional sobre o deslocamento de cargas e pessoas guarda uma dualidade persistente: oscila entre o pragmatismo cego do asfalto e a melancolia dos trilhos arrancados.
Há meio século, a desativação da mítica Estrada de Ferro Bahia-Minas — imortalizada na sensibilidade musical de Milton Nascimento e Fernando Brant — sepultou mais do que dormentes e bitolas. Deixou atrás de si um rastro de cidades-fantasmas e isolamento, onde viúvas nos portais e velhos maquinistas de boné passaram a testemunhar o êxodo de uma juventude forçada a migrar para os grandes centros urbanos. A “Maria Fumaça que não canta mais” tornou-se a metáfora de um país que, no auge do rodoviarismo desenvolvimentista da era Juscelino Kubitschek, decidiu sabotar a própria integração ferroviária em nome de uma modernidade motorizada.
Esse trauma histórico projeta suas sombras até as primeiras décadas do século XXI. O ciclo de governos do Partido dos Trabalhadores, estendido em cinco mandatos presidenciais, buscou responder ao gargalo logístico por meio do gigantismo dos Programas de Aceleração do Crescimento (PAC). Contudo, a aferição rigorosa das entregas revela o quão tortuoso é o trâmite que separa o plano da realidade no Brasil. Grandes artérias concebidas para a intermodalidade — como a Ferrovia Norte-Sul ou a Transnordestina — cruzaram gestões de sinais trocados e arrastaram-se por décadas até verem seus trechos operacionais concluídos.
No Brasil, projetos atravessam governos, mas raramente chegam inteiros ao destino — dissolvidos entre promessas, revisões e reinaugurações.
Quando se isola o critério estrito de obras idealizadas, iniciadas e totalmente entregues sob o mesmo espectro político, o saldo se desloca para intervenções metropolitanas específicas, como a Linha 1 do Metrô de Salvador, e soluções pontuais como o Aeroporto de Natal.
O século XXI impõe uma nova gramática que o partidarismo tacanho é incapaz de decifrar. A infraestrutura moderna não comporta mais o messianismo governamental e exige, em contrapartida, uma convergência institucional madura. O exemplo contemporâneo mais nítido dessa transição repousa na engenharia política que viabilizou o projeto do Túnel Imerso Santos–Guarujá. Estruturado sob o modelo de Parceria Público-Privada (PPP), com aportes equânimes entre a União e o Estado de São Paulo, o projeto uniu o pragmatismo técnico ao imperativo de coordenação federativa.
Essa convivência institucional madura sinaliza uma mudança de postura. A superação do atraso logístico brasileiro não se faz com disputas paroquiais de paternidade de obras, mas com contratos sólidos, segurança jurídica e atração de capital privado.
Enquanto analistas se ocupam em traçar os destinos políticos de Brasília, a economia real exige que trilhos e estradas sejam assentados sem sobressaltos ideológicos. O Brasil não pode mais se dar ao luxo de assistir ao espetáculo de caminhos interrompidos pela metade. Para que o cidadão comum não termine à espera, na plataforma vazia, de um progresso que partiu para nunca mais voltar, é imperativo tratar a logística nacional como política de Estado.
O governo federal lançou este mês o programa Move Brasil Entregadores e Motoapp.
Por ele, a CEF vai financiar a compra de motos e bicicletas elétricas com juros baixos.
Podem participar entregadores de aplicativos com cadastro ativo há 6 meses e um mínimo de 100 entregas/corridas realizadas.
Logo se vê que o governo quer fingir que está criando empregos que vão colocar mais jovens em risco iminente de vida.
Governos estaduais e prefeituras não foram convidados a integrar o programa. São eles que fiscalizam o trânsito.
No programa, nenhuma menção à educação ou ao treinamento de motoboys, uma "profissão" suicida.
Na verdade, o programa vai estimular o pega-pra-capar em que se transformaram as ruas das grandes cidades brasileiras.
Motoboys ganham por entrega. Então correm como alucinados para fazer muitas delas a cada dia e faturar o jantar.
Muitos faturam uma internação hospitalar. Em muitos casos, a morte. São 475 jovens pobres mortos em São Paulo por ano.
Transformaram o trânsito num caos. É imprudente reclamar do motoboy que levou o seu retrovisor ou arranhou o seu carro.
O Código Nacional de Trânsito é federal. Nele está dito que só ambulâncias, bombeiros e polícia podem furar sinal vermelho.
Pois os motoboys furam sinal em todas as ruas, todo o tempo.
As bicicletas motorizadas são pilotadas, quase sempre, por menores que trafegam pela calçada e pela contramão.
O pedestre que está condicionado a olhar a mão de trânsito para atravessar uma rua, é atropelado por esses jovens despreparados.
Ou seja, o programa não cria nenhum cuidado oficial para a educação, o treinamento e a fiscalização da pilotagem alucinada.
Pensaram em financiar motos e bicicletas para "criar" empregos e, com isso, ganhar votos para a eleição de outubro.
Ninguém pensou que as ruas brasileiras estão virando uma baderna perigosa.
Educação? Dá muito trabalho e demora para aplicar. Civilidade? Que se dane a civilidade nacional.
Carlos Marchi
Tudo certo, menos dizer que um cidadão comum e o presidente da República recebem o mesmo tratamento. Exagero ou mentira pura e simples?
"Enquanto o Banco Central atua para controlar a inflação e atrair capital para financiar a dívida pública — inflada pelas ações do chamado 'Banco Central Paralelo' do governo —, o trabalhador vê seu salário perder poder de compra. É esse o 'Governo para Todos'?"
A urna eletrônica como a grande avenida da democracia
Se Roberto DaMatta pudesse vestir sua fantasia de cidadão-antropólogo para decifrar as eleições de 2026 no Brasil, ele não veria o pleito apenas como uma contagem mecânica de votos. Ele enxergaria um imenso drama ritualístico dividido em dois atos sagrados.
No primeiro turno, o Brasil vive o seu momento Carnaval. É a explosão da fragmentação, o desfile exuberante da diversidade, em que todas as alas da sociedade — representadas por uma infinidade de partidos, cores e discursos — tomam as ruas. Ricos e pobres dividem o mesmo tempo de tela e a mesma fila na seção eleitoral. É o instante em que a rígida estrutura social brasileira se finge horizontal. O cidadão comum, frequentemente invisibilizado pelo clássico “Você sabe com quem está falando?”, transforma-se no herói soberano do enredo nacional. O voto pulverizado reflete a malandragem de um povo que tenta negociar em múltiplas frentes, testando os limites da ordem e da subversão na busca por uma promessa de futuro.
O segundo turno, contudo, opera uma metamorfose drástica no ritual. A folia festiva do primeiro ato é bruscamente suspensa, dando lugar ao rigor e à solenidade de uma procissão quaresmal. O espaço para o meio-termo, para o jeitinho e para a multiplicidade desaparece. A sociedade é forçada a se dividir em uma dualidade quase religiosa, um espelho maniqueísta entre o “Bem” e o “Mal”, o “Nós” e o “Eles”.
A avenida colorida transforma-se em um corredor estreito de purificação e escolha moral definitiva. Ao reduzir as opções a apenas dois caminhos, o segundo turno expõe a ferida aberta do dilema brasileiro: a nossa crônica incapacidade de conciliar visões de mundo divergentes sem que um lado tente anular a existência do outro.
Em 2026, a apoteose dessa procissão não celebra apenas a vitória de um candidato, mas escancara o drama de uma nação que caminha na corda bamba entre o desejo de igualdade universal da urna e o peso sufocante de suas hierarquias cotidianas.
Entre o Carnaval e a Procissão, a democracia brasileira percorre sua grande avenida: da pluralidade festiva do primeiro turno à escolha moral do segundo. No centro, a urna eletrônica — palco onde a igualdade do voto confronta as hierarquias do cotidiano.
quarta-feira, 29 de julho de 2026
Entrevista | O intérprete do ‘jeitinho brasileiro’ chega, produtivo, aos 90, por Roberta JansenO Estado de S. PauloO antropólogo diz que para entender um povo é necessário conhecer os seus ritos e seus mitosO carnaval como ritual que mistura ricos e pobres, suspendendo regras e diferenças, é tema de estudos e de um de seus livros
Entender o Brasil por intermédio de algumas de suas manifestações culturais populares mais arraigadas, como o carnaval, o jogo do bicho e o futebol, foi o desafio que Roberto DaMatta se impôs desde o início de sua carreira, nos idos dos anos 1960. Um dos mais importantes antropólogos do País, colunista do Estadão desde 2001, DaMatta completa 90 anos nesta quarta-feira, 29.
O renomado intelectual revolucionou as ciências sociais do País ao transformar o cotidiano nacional, os festejos religiosos e mesmo os paradoxos culturais em objetos de estudo. DaMatta estudou o carnaval, o futebol e as procissões religiosas não como diversão, mas como rituais que revelam a estrutura da sociedade brasileira.
Foi um dos principais responsáveis por analisar cientificamente e popularizar o termo “jeitinho brasileiro” em seus livros das décadas de 1970 e 1980 (como Carnavais, Malandros e Heróis), consolidando o “jeitinho” como uma estratégia legítima de sobrevivência social, que se equilibra entre o favor e a malandragem.
Uma das principais ideias desenvolvidas na obra de DaMatta é a dialética entre “casa” e “rua”. O antropólogo divide o universo social brasileiro entre a casa (o espaço privado, do afeto, do parentesco, no qual as leis não entram) e a rua (o espaço público, do trabalho, das leis impessoais, do desamparo). Em boa parte de sua obra, DaMatta explora a ideia de que o brasileiro tenta a todo custo transformar a rua em casa, usando laços de amizade e redes de favor, para fugir da frieza das leis. “Como fez (o banqueiro Daniel) Vorcaro”, afirmou em entrevista ao Estadão por ocasião de seu aniversário.
“Você sabe com quem está falando?” A frase clássica do brasileiro virou objeto de estudo de DaMatta, que a apresenta como um rito de exclusão autoritário. Segundo o antropólogo, ela serve para lembrar ao outro que, no Brasil, as relações e os privilégios pessoais valem mais do que as leis universais que deveriam valer para todos os cidadãos.
Formado em história pela Universidade Federal Fluminense (UFF), DaMatta fez uma especialização em antropologia social no Museu Nacional da UFRJ. Depois, cursou mestrado e doutorado na Universidade Harvard, nos Estados Unidos. Seus estudos sempre foram voltados para o País. Entre suas obras mais importantes, estão Um Mundo Dividido: A Estrutura Social dos Índios Apinayé; Carnavais, Malandros e Heróis; Águias, Burros e Borboletas: Um Ensaio Antropológico Sobre o Jogo do Bicho; A Bola Corre Mais Que os Homens: Duas Copas; além do ensaio Você Sabe com Quem Está Falando?
Em sua obra, DaMatta mostrou especial interesse pelas peculiaridades brasileiras. Entre elas, a hierarquização da sociedade, disfarçada de proximidade; o carnaval como ritual que mistura ricos e pobres, suspendendo regras e diferenças; a dicotomia entre o coletivo, simbolizado na rua, e o privado, sintetizado no lar; o fascínio pela esperteza da malandragem. Segundo DaMatta, para entender um povo é necessário conhecer os seus ritos e seus mitos.
Em Carnavais, Malandros e Heróis, escreveu que pretendia abordar “esse povo nas suas esperanças e perplexidades, pois sempre me impressionou a conjunção de um povo tão achatado junto a um sistema de relações pessoais tão preocupado com personalidades e sentimentos; uma multidão tão sem rosto e sem voz, junto a uma elite tão rouca de gritar por suas prerrogativas e direitos; uma intelectualidade tão preocupada com o coração do Brasil e, no entanto, tão voltada para o último livro francês; uma criadagem que passa tão despercebida e patrões tão egocêntricos (...)”. Ele diz que o povo brasileiro o intriga “na sua generosidade, sabedoria e, sobretudo, esperança”.
Ao voltar ao Brasil depois do mestrado e doutorado nos Estados Unidos, o antropólogo trabalhou no Museu Nacional até 1986, quando aceitou um convite da Universidade de Notre Dame, em Indiana, nos EUA, para lecionar. Ele só voltou ao País em meados dos anos 2000, quando começou a dar aulas na PUC-RJ. Agora, diz, encerrou sua carreira acadêmica e pensa seriamente em começar a escrever ficção.
Abaixo, leia a entrevista com Roberto DaMatta.
O senhor acompanhou a Copa do Mundo? Os brasileiros deixaram um pouco de lado a divisão política que vem caracterizando o País nos últimos anos para torcer pela seleção?
O Brasil, que é o tempo todo criticado, na Copa vira objeto de afeto, uma solidariedade absolutamente impressionante. A partir da classificação, o time brasileiro se apresenta como uma unidade brasileira na qual, inevitavelmente, o Brasil inteiro projeta os nossos afetos, a língua que falamos, a maneira como somos. O futebol brasileiro sempre se caracterizou pelo drible, pela malandragem, pelos negros, pelos pobres, pelos artistas da pelota.
Artistas de um esporte que chegou com os colonizadores; e justamente os mais pomposos, os mais distantes, os ingleses, aqueles que não se misturavam. Além disso, é um esporte em que não sabemos qual será o resultado; estamos entregues ao destino. Pode haver preferências, mas não sabemos o resultado; certezas absolutas não funcionam.
O segundo ponto é que no futebol temos a experiência da igualdade absoluta. Não tem jeitinho, compadrio, corrupção. E todos nós conhecemos as regras do jogo. O que é bem diferente da nossa burocracia aristocrática, tão difícil de administrar, em que sempre existe uma regra
“Uma democracia exige imparcialidade. Como fazer isso dentro de uma sociedade familística? Se você virar governador, não vai dar um emprego ao seu amigo de infância que está desempregado? Ao primo que está passando necessidade? Ao irmão que tem um emprego sazonal, arriscado? As obrigações do parentesco corroem a imparcialidade da administração pública do Brasil há séculos”
“Em ‘Carnavais, Malandros e Heróis’, queria abordar o povo brasileiro, essa multidão tão sem rosto e sem voz, junto a uma elite tão rouca de gritar por suas prerrogativas e seus direitos” que desconhecemos.
O sr. está chegando aos 90 anos. Como se sente?
Cheguei a uma idade em que não há nada completamente ruim, nem completamente bom; é tudo mais ou menos. Mas, olha, o que queria fazer eu fiz. Fui um dos primeiros a fazer doutorado em Antropologia em Harvard, consegui sobreviver à minha timidez, morei nos Estados Unidos, fui contratado por uma universidade americana. Consegui olhar para a sociedade brasileira com um olhar diferenciado, que é fundamental para a antropologia social, enxergar o que acontece com uma certa distância.
Sobre o envelhecimento, até os 50 anos ninguém morre, né? Ninguém acha que vai morrer. Só depois os problemas começam a aparecer, tive um enfarte, tive de colocar um stent. Mas o mais chato foi o AVC (há três anos), quando tive certeza de que iria morrer, acabei ficando com o lado esquerdo paralisado (a fisioterapia o tem ajudado bastante e já está praticamente recuperado), tomo uma batelada de remédio. O maior sofrimento é nos conformarmos com a ideia de que somos finitos. E enxergar esse contraste maravilhoso entre a nossa consciência da finitude e as artes, o cinema, a pintura, o teatro, os romances. O criador é finito – e ter consciência disso é o ponto central da nossa existência –, mas há um outro lado que se perpetua. O que está perpetuando é finito, mas o que é perpetuado é infinito.
Como a figura do banqueiro Daniel Vorcaro – que, aparentemente, conseguiu comprar praticamente toda a República, à esquerda e à direita – pode ser analisada do ponto de vista da antropologia?
O universo doméstico e o universo público têm muitas oposições; o que fazemos em casa, não podemos fazer na rua; e o que fazemos na rua, não podemos fazer com nossos parentes. Vorcaro entendeu isso intuitivamente. Como explica muito bem o antropólogo Marcel Mauss, quando recebemos um presente, nos sentimos obrigados a devolver com outro presente. É assim que o sistema público funciona. Você não vai deixar de dar um emprego para o seu cunhado que está precisando, fazer um favor para um amigo. As oposições ideológicas e de classe existem, mas são rompidas pelas relações pessoais; é aí que entra em jogo a corrupção. Vorcaro deu dinheiro para todo mundo, da direita e da esquerda, porque ele sabia que a gente não esquece o tratamento afetuoso, o presente, a gentileza, a simpatia.
O sr. falou há pouco em consciência humana. Há todo um debate acadêmico a respeito da inteligência artificial. Acredita que um dia a IA poderá ter consciência?
Nós temos uma coisa que ninguém tem, a consciência, um dos maiores mistérios do mundo. (O filósofo Friedrich) Nietzsche dizia que quem inventou a alma foi o corpo, como uma forma de poder lidar com a consciência. Sabemos que funcionamos com base na eletricidade. Nosso cérebro funciona por impulsos elétricos. Os literatos, com suas imaginações fantásticas, como Isaac Asimov, criam robôs com consciência. Será que conseguiremos criar uma máquina que tenha consciência de si própria e do mundo? Olha, acho que isso não vai acontecer por uma razão trivial. Nossa consciência é agasalhada por uma máquina chamada corpo humano. E são as experiências com esse corpo, essas várias consciências, esses vários tipos de memória, que fazem a nossa consciência.
Como o sr. vê essa disputa entre as políticas identitárias e o radicalismo da extrema direita?
Acho que melhoramos e pioramos ao mesmo tempo. Existe uma questão moral, filosófica, sociológica muito importante que é o fato de convivermos todos os dias com coisas positivas e negativas. Os avanços criam outras dificuldades. É curioso, mas os extremos que levam ao progresso também são motivo de resistência e atraso. Os limites são puxados para cima e para baixo, à direita e à esquerda. Sempre que pensamos em progredir, em crescer, pensamos no lado positivo. Mas devemos pensar também no lado negativo desse crescimento.
Todo movimento provoca alguma reação, mas sou absolutamente contrário à desonestidade e à violência. Uma democracia exige imparcialidade. Como fazer isso dentro de uma sociedade familística? Se você virar governador, não vai dar um emprego ao seu amigo de infância que está desempregado? Ao primo que está passando necessidade? Ao irmão que tem um emprego sazonal, arriscado? As obrigações do parentesco corroem a imparcialidade da administração pública do Brasil há séculos.
Indígenas ou índios?
Índios, claro. Essa discussão é muito boboca. Índio é apenas um nome. Todo mundo sabe que eles foram chamados de índios porque os navegadores acharam que estavam chegando às Índias.
Como o senhor vê a ascensão dos evangélicos no Brasil nas últimas décadas?
O que caracteriza o protestantismo em geral, seguindo aqui, mais ou menos, Max Weber em A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, é o individualismo, a ideia de se desvencilhar das relações pessoais, da dependência que caracteriza a sociedade moderna, em que o todo é mais importante do que a parte.
As igrejas evangélicas entenderam e abraçaram as dinâmicas do capitalismo e do mercado moderno de forma muito melhor que a Igreja Católica, oferecendo uma justificativa espiritual e moral para a ascensão social. Mas é uma transição dramática, que envolve rupturas, abala pilares da sociedade. Há um conjunto de impulsos, tendências, eventos e fatos que rompem com tradições do Brasil de forma muito acelerada e podem passar essa impressão errada de fim do mundo.
Mas esse movimento pode estar por trás da nova onda conservadora?
Do ponto de vista da ética, somos reacionários, seguimos um sistema ético do século 19. O evangelismo surpreende porque não tem uma igreja, são templos, grupos, uma multiplicidade maior de vozes, que acabou aparecendo com mais nitidez na direita ou na centro-direita, com tendência a radicalismos e posições extremadas. Mas o evangelismo pode ser libertador no sentido de que permite a emergência e a elaboração de certos problemas humanos e sociais muito importantes. É libertador no sentido de que nos tira de uma situação em que há uma religião dominante; precisamos ter visões alternativas, críticas. Mas tudo depende das lideranças. No caso do Brasil, eu não entraria na igreja do bispo (Edir) Macedo.
CENÁRIOS DE 1º TURNOA pesquisa também realizou 1 cenário de 1º turno.
Intenção de voto espontânea para presidenteVocê já escolheu em quem vai votar? (Se sim) Em quem?Intenção de voto estimulada para presidente (1º turno)Em quem você votaria se o primeiro turno fosse disputado entre os seguintes candidatos:
https://static.poder360.com.br/uploads/2026/07/quaest-mg-28jul2026.pdf
Pesquisa Genial/Quaest entrevistou 1.482 pessoas de 22 a 26 de julho...
PODER360
28.jul.2026 (terça-feira) - 8h52
Levantamento da Genial/Quaest, divulgado nesta 3ª feira (28.jul.2026), mostra que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) empata tecnicamente com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e com o ex-governador Romeu Zema (Novo), em diferentes cenários para uma eventual disputa de 2º turno em Minas Gerais.
No cenário entre o presidente e o ex-governador de Minas Gerais, Zema soma 39% das intenções de voto e fica numericamente à frente de Lula, que tem 37%. Contra o filho de Jair Bolsonaro (PL), o petista tem 38%, ante 35% de Flávio. A margem de erro é de 3 pontos percentuais, para mais ou para menos.
REJEIÇÃO
A Quaest também levantou o cenário de rejeição. Eis os resultados:
AVALIAÇÃO
O levantamento também mediu como os eleitores avaliam o desempenho do presidente Lula. Eis os resultados:
A engrenagem nacional em curto-circuito: quando os vagões de cauda juram que guiam a viagem, a massa descobre que está empurrando uma máquina sem carcaça.
🚂 APERTE O PLAY PARA DAR A PARTIDA NA COMPOSIÇÃO:
"Primeira Linha" (1930) - Benedicto Lacerda e Grupo Gente do Morro (Comp. Heitor dos Prazeres)
No balanço das bitolas, a fumaça da locomotiva redesenha o céu da Central. Quem dita a marcha? É a máquina que arrasta a massa ou a massa que empurra a máquina? Entre a goela seca da nossa gente e o cheiro do churrasquinho de gato que tomou o lugar da prometida picanha, a fumaça da Maria — datilógrafa fiel deste pasquim — registra no ritmo dos pistões. Olhamos para o horizonte como quem olha para o balcão daquela velha churrascaria de Ipanema onde Tom Jobim costumava dedilhar notas flutuantes no colarinho do chope.
Use o código com cuidado.
A História com Odisseu
Odisseu e CalipsoO cativeiro: Calipso apaixonou-se por Odisseu (Ulisses) quando ele naufragou em sua ilha. Ela o deteve por sete anos, prometendo-lhe a imortalidade se ele ficasse com ela.
A libertação: Odisseu chorava todos os dias sentindo saudades de sua esposa Penélope e de sua casa em Ítaca. A deusa Atena pediu a Zeus que interviesse, e o deus enviou Hermes para ordenar que Calipso libertasse o herói.
A partida: A contragosto, Calipso ajudou Odisseu a construir uma jangada, forneceu provisões e enviou ventos favoráveis para que ele pudesse continuar sua viagem de retorno.
Aliado a Rubio, Milei e Netanyahu, Flávio dobra aposta na crise externa
Publicado em 28/07/2026 - 07:57 Luiz Carlos Azedo
Argentina, Brasília, China, Comunicação, Eleições, EUA, Governo, Israel, Itamaraty, Justiça, Partidos, Política, Política, Trump
Senador aposta que o colapso da política externa poderá ser atribuído a Lula e convertido em votos para a oposição, ao provocar crise econômica
Flávio Bolsonaro transformou a convenção que oficializou sua candidatura à Presidência numa tribuna para líderes estrangeiros atacarem o governo brasileiro e o Supremo Tribunal Federal (STF). Dobrou uma aposta de alto risco na crise externa. O candidato do PL se apresenta como representante nacional de uma onda conservadora internacional, mas fomenta a deterioração das relações diplomáticas e comerciais do Brasil com Estados Unidos, Argentina e Israel.
A operação pode até mobilizar o eleitorado bolsonarista mais radical, porém ameaça interesses econômicos do país e expõe Flávio à acusação de colocar a estratégia eleitoral de sua família acima do interesse nacional. Convidado de honra da convenção do PL, em São Paulo, o presidente argentino Javier Milei chamou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva de “ladrão” e “presidiário” e dirigiu ao ministro Alexandre de Moraes uma ofensa incompatível com o cargo que ocupa: “lixo careca”.
Foi um discurso truculento, realizado num evento partidário brasileiro. Por isso, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, classificou a manifestação como interferência nos assuntos internos do Brasil e uma agressão ao Executivo, ao Judiciário, ao Congresso e ao povo brasileiro. Lula tentou tirar por menos: “Eu? Quem é esse cara?”, mas a reação de alguns ministros foi no mesmo diapasão. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, abandonou o estilo diplomático e chamou Milei de “palhaço”.
Leia também: Lula evita escalada com Milei após ataques contra governo brasileiro
Essa escalada verbal não interessa aos dois países. Brasil e Argentina construíram, desde o governo José Sarney, uma parceria que permitiu superar a antiga rivalidade estratégica, criar o Mercosul e integrar cadeias produtivas fundamentais, principalmente na indústria automobilística. A Argentina é o terceiro maior destino das exportações brasileiras. Pelos dados apresentados, comprou US$ 9,12 bilhões em produtos do Brasil, atrás apenas da China, com US$ 47,68 bilhões, e dos Estados Unidos, com US$ 20,02 bilhões.
A pauta destinada à China é concentrada em commodities, sobretudo soja, petróleo e minério de ferro. Estados Unidos e Argentina absorvem uma parcela proporcionalmente maior de bens industrializados, de maior valor agregado e com capacidade de gerar empregos qualificados no Brasil. Automóveis, autopeças, máquinas, equipamentos elétricos, produtos químicos, aeronaves, combustíveis processados e outros manufaturados ocupam espaço relevante nas vendas aos mercados norte-americano e argentino. A retração das exportações pode reduzir a produção industrial, interromper cadeias de fornecedores, adiar investimentos, afetar a arrecadação e eliminar empregos
Eixo de alianças
A presença de Milei na convenção não foi um acaso, reflete o eixo das alianças internacionais de Flávio Bolsonaro, ao lado da mensagem de Benjamin Netanyahu exibida no evento e da atuação do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio. As relações entre Brasil e Israel chegaram ao nível mais baixo desde 1949. Os dois países deixaram suas representações sob encarregados de negócios, sem embaixadores. Ao gravar uma mensagem para a convenção do PL, o primeiro-ministro israelense ingressou diretamente no ambiente eleitoral brasileiro e reforçou a identificação do bolsonarismo com seu governo.
Leia mais: Itamaraty vê agravamento inédito da crise entre Brasil e Argentina
Forma-se uma conexão internacional de extrema direita: Milei representa o ultraliberalismo econômico e a guerra cultural contra a esquerda; Netanyahu é um senhor da guerra marcado pela prolongada ofensiva militar em Gaza; e Rubio executa uma política externa voltada para conter a expansão chinesa e alinhar governos da América do Sul às prioridades de Washington.
Com os Estados Unidos, o problema é economicamente mais grave. A imposição de tarifas pelo governo Donald Trump já interferiu na eleição brasileira e atingiu setores exportadores. Rubio tornou-se um dos principais formuladores dessa pressão, associando medidas diplomáticas, comerciais e políticas a críticas ao Supremo e aos processos contra Jair Bolsonaro.
Flávio procura transformar essa ofensiva numa prova de que Lula isolou o país. O efeito pode ser aumentar as tensões com dois dos três maiores compradores dos produtos brasileiros, ampliar a insegurança dos empresários e criar dificuldades para os setores industriais. Uma ruptura mais profunda elevaria custos, pressionaria preços e prejudicaria a renda e o emprego.
Vale a pena ler de novo:
Quando a distopia americana de Trump vai além do gênero literário
Lula pode jogar parado porque o maior adversário de Flávio é ele mesmo
Nas entrelinhas: todas as colunas no Blog do Azedo
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BOLETIM DA PLATAFORMA
O Tabloide da Planície e Central do Brasil
Diretor-Geral: Zé do Trem | Datilografia e Inspiração: A Musa da Maria Fumaça
Ano LXXVI – Edição das Seis da Matina – Sob o Nevoeiro do Progresso
📰 A MANCHETE DA CAPA
O RABO COMANDA O CACHORRO OU O CACHORRO COMANDA O RABO?
No balanço das bitolas, a fumaça da locomotiva redesenha o céu da Central. Quem dita a marcha? É a máquina que arrasta a massa ou a massa que empurra a máquina? Entre a goela seca da nossa gente e o cheiro do churrasquinho de gato que tomou o lugar da prometida picanha, a fumaça da Maria — datilógrafa fiel deste pasquim — datilografa no ritmo dos pistões. Olhamos para o horizonte como quem olha para o balcão daquela velha churrascaria de Ipanema onde Tom Jobim costumava dedilhar notas flutuantes no colarinho do chope.
🌐 CADERNO DE GEOPOLÍTICA: DA PLANÍCIE AO MUNDO
As declarações do presidente argentino Javier Milei contra Lula geraram forte crise diplomática e a convocação do embaixador brasileiro, mas o governo adota cautela e descarta declarar Milei persona non grata. Sobre os EUA, embora o Brasil repudie o "tarifaço" comercial imposto pelo governo Trump, o setor produtivo e o alto escalão evitam uma retaliação direta via Lei de Reciprocidade para não agravar o cerco econômico, preferindo negociações e o contencioso na OMC.
🌍 COLUNA DO CORRESPONDENTE INTERNACIONALISTA
O "Três em Um" de Lula em 2026: Milei, Bolsonaro e Netanyahu Apertados no Gabinete de Trump
Em 1989, Fernando Collor de Mello subiu ao palanque para acusar pateticamente que o operário guardava na sala um moderno aparelho de som "Três em Um". Naquele mesmo ano, apontou o dedo para as nossas indústrias, chamando as carroças nacionais (da Villares et tal) de lixo tecnológico. Passaram-se quase quarenta anos. A grande ironia da conjuntura eleitoral é que Lula encontrou o seu próprio "Três em Um" retórico: elegeu Donald Trump como o seu adversário universal, fundindo Javier Milei, Jair Bolsonaro e Benjamin Netanyahu dentro de uma única carcaça americana para não ter que explicar os desvios da nossa própria plataforma.
📜 O ÚLTIMO DESVIO: ULYSSES À DERIVA
A verdade nua é que nem Lula e nem Bolsonaro carregam em suas bagagens a têmpera ou a estatura de Ulysses Guimarães. Se há alguém que caminhou nos mesmos trilhos de Ulysses, esse alguém foi Fernando Henrique Cardoso. FHC foi com o "Velho de Guerra" quase até o fim da linha. Mas o ano de 1989 foi o pátio de manobras onde a ambição individual descarrilou a gratidão. Deixaram Ulysses Guimarães à deriva, isolado na plataforma, vendo as naus e as modernas embarcações do marketing político zarparem em direção ao poder. O resto é história e mito.
Gravura II: O Naufrágio da Nova República e os desvios no fundo do mar de Angra. Traço do Boletim.
🎨 VAGÃO INAUGURAL: A HOMENAGEM A HEITOR DOS PRAZERES
Para abrir as alas da nossa composição nas paredes dos caixotes de ferro da Central, a nossa rotativa rodou o traço imorredouro do mestre do samba. O orvalho vem caindo e a malandragem pede passagem na gare!
Gravura I: O samba toma conta dos trilhos da Central. Estilo Heitor dos Prazeres.
📻 A CAIXA DE SOM: "VELHA ROUPA COLORIDA" E AS LÁGRIMAS NA GARE
O Zé do Trem assumiu as carrapetas da estação e soltou a agulha no peito de Sobral. Quando Belchior começou a berrar que o passado é uma roupa que não nos serve mais, os cabras cearenses pararam com as malas na mão. O choro correu solto e a nossa datilógrafa Maria teve que correr com o pano de estopa para secar o pranto que inundou a plataforma.
🎵 AGORA TOCANDO NA VITROLA DO ZÉ:
Belchior - Velha Roupa Colorida (Ao Vivo)
📌 FUNDAMENTAÇÃO E FONTES JORNALÍSTICAS
Agência Estado / UOL: Registro oficial sobre a crise diplomática e a convocação do embaixador brasileiro na Argentina após os ataques de Milei.
Folha de S.Paulo (Painel): Análise de bastidores do Itamaraty sobre a adoção de cautela e a rejeição à declaração de persona non grata.
BBC News Brasil & Correio Braziliense: Dados econômicos e técnicos sobre o "tarifaço" comercial de Donald Trump e a abstenção de retaliação imediata pelo governo brasileiro.
(Fim da Transmissão da Boneca – Rodar as Rotativas antes que o dia clareie de vez)
Use o código com cuidado.
Pierrô ApaixonadoHeitor dos Prazeres
Pierrô Apaixonado
Heitor dos Prazere
Composição: Noel Rosa-Heitor dos Prazeres
Um pierrô apaixonado
Que vivia só cantando
Por causa de uma colombina
Acabou chorando, acabou chorando
A colombina entrou num butiquim
Bebeu, bebeu, saiu assim, assim
Dizendo: pierrô cacete
Vai tomar sorvete com o arlequim
Um grande amor tem sempre um triste fim
Com o pierrô aconteceu assim
Levando esse grande chute
Foi tomar vermute com amendoim
Conflito InteriorMartinho da Vila
Eu não sei mais o que fazer
Pra você não ir embora
O nosso amor não acabou
Mas há uma agonia
É um conflito interior
Comum na nossa geração
Dá uma vontade de sumir
Romper o laço umbilical
Mas destransar eu sei
É tão difícil amor
Se ainda existe
Uma atração carnala
E agora já nem sei
Se é bom você ficar
Se eu constatei
Vontades de voar
Composição: Joao de Aquino, Martinho da Vila.
A charge mostra Brizola chegando ao aeroporto sob ataques agressivos, enquanto Mafalda comenta com ironia a hipocrisia política, cercada por “gatos esfomeados” como metáfora.
O presidente da Argentina, Javier Milei, limitou-se a referir-se ao presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, como “ladrão”. Não avançou para qualificações mais agressivas, como a expressão “ratón”, já utilizada em episódios anteriores da política brasileira.
Há precedentes de embates retóricos mais ásperos, como aqueles dirigidos a Leonel Brizola por setores militantes durante seu retorno do exílio. À época, circularam acusações baseadas em supostas confidências atribuídas ao então presidente de Cuba, sem comprovação documental.
O episódio remete ainda ao entrelaçamento de trajetórias políticas e ideológicas na região, incluindo a proximidade entre Frei Betto — posteriormente assessor de Lula — e movimentos católicos de base no ABC paulista, berço da atuação sindical que projetou o atual presidente brasileiro.
“Cambalache” — Enrique Santos Discépolo
“Que el mundo fue y será una porquería, ya lo sé…”CambalacheEnrique Santos Discépolo
Cambalache
Cambalache
Que o mundo foi e sempre será uma porcaria, já sei
Que el mundo fue y será una porquería, ya lo sé
No quinhentos e seis e no dois mil também
En el quinientos seis y en el dos mil también
Que sempre teve ladrões, maquiavélicos e enganadores
Que siempre ha habido chorros, maquiavélicos y estafadores
Felizes e amargurados, valores e falsidades
Contentos y amargados, valores y dubles
Mas que o século vinte é um espetáculo
Pero que el siglo veinte es un despliegue
De maldade descarada, já não dá pra negar
De maldad insolente, ya no hay quien lo niegue
Vivemos atolados em um merengue
Vivimos revolcados en un merengue
E no mesmo lamaçal todos se sujando
Y en un mismo lodo todos manoseados
Hoje parece que é a mesma coisa ser honesto ou traidor
Hoy resulta que es lo mismo ser derecho que traidor
Ignorante, sábio, ladrão, generoso, enganador
Ignorante, sabio, chorro, generoso, estafador
Tudo é igual, nada é melhor
Todo es igual, nada es mejor
A mesma coisa um burro que um grande professor
Lo mismo un burro que un gran profesor
Não há reprovados, nem hierarquia
No hay aplazados, ni escalafón
Os imorais nos igualaram
Los inmorales nos han igualado
Se um vive na impostura
Si uno vive en la impostura
E outro rouba por ambição
Y otro roba en su ambición
Não faz diferença se é padre
Da lo mismo que si es cura
Torcedor, rei de paus
Colchonero, rey de bastos
Sem vergonha ou clandestino
Caradura o polizón
Que falta de respeito
Que falta de respeto
Que atropelo à razão
Que atropello a la razón
Qualquer um é um senhor
Cualquiera es un señor
Qualquer um é um ladrão
Cualquiera es un ladrón
Misturados com Stavisky
Mezclados con Stavisky
Vão Don Bosco e a Mignón
Van Don Bosco y la Mignón
Carnera e Napoleão
Carnera y Napoleón
Don Chicho e San Martín
Don Chicho y San martín
Igual na vitrine desrespeitosa
Igual que en la vidriera irrespetuosa
Dos cambalaches
De los cambalaches
A vida se misturou
Se ha mezclado la vida
E ferida por uma espada sem remaches
Y herida por un sable sin remaches
Vê a Bíblia chorar junto a um aquecedor
Ves llorar la Biblia junto a un calefón
Século vinte, cambalache, problemático e febril
Siglo veinte, cambalache, problemático y febril
Quem não chora, não mama, e quem não rouba é um otário
El que no llora, no mama, y el que no afana es un gil
Vai, não para, vai que vai
Dale no más, dale que va
Que lá no forno a gente vai se encontrar
Que allá en el horno se vamos a encontrar
Não pense mais, sente-se ao lado
No pienses más, siéntate a un lado
Que a ninguém importa se você nasceu honesto
Que a nadie importa si naciste honrado
Que é a mesma coisa quem trabalha
Que es lo mismo el que labura
Dia e noite como um boi
Noche y día como un buey
Que quem vive dos outros
Que el que vive de los otros
Que quem mata ou quem cura
Que el que mata o el que cura
Ou está fora da lei
O esta fuera de la ley
Vivemos atolados em um merengue
Vivimos revolcaos en un merengue
E no mesmo lamaçal todos se sujando
Y en un mismo lodo todos manoseados
Composição: Enrique Santos Discépolo. Essa informação está errada? Nos avise.
Enviada por Camila.
Retórica, memória política e os limites do debate público
O presidente da Argentina, Javier Milei, limitou-se recentemente a referir-se ao presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, como “ladrão”. A escolha do termo, ainda que contundente, manteve-se dentro de um padrão retórico que, embora agressivo, não alcança níveis mais extremos já observados em outros momentos da política latino-americana.
A história política brasileira oferece exemplos de embates muito mais ásperos. Durante o retorno de Leonel Brizola do exílio, não foram raras as manifestações de setores militantes que recorreram a qualificações pejorativas baseadas em alegações frágeis ou não comprovadas. À época, circularam acusações atribuídas a supostas confidências do então presidente de Cuba, sem que houvesse documentação que lhes conferisse credibilidade. O episódio ilustra como a retórica política pode, em determinados contextos, ultrapassar os limites do debate público responsável.
Esse tipo de linguagem não surge no vácuo. Ele se insere em um tecido histórico marcado por relações ideológicas, trajetórias pessoais e redes de influência que atravessam fronteiras nacionais. A proximidade entre figuras como Frei Betto — posteriormente assessor de Lula — e os movimentos católicos de base no ABC paulista ajuda a compreender a formação política de lideranças que emergiram do sindicalismo e alcançaram o poder institucional.
Ainda assim, reconhecer o contexto histórico não implica legitimar o uso de acusações sem comprovação como instrumento de disputa política. Ao contrário, reforça a necessidade de distinguir entre crítica fundamentada e retórica inflamatória. Democracias maduras dependem de um debate público que privilegie fatos verificáveis, argumentos consistentes e respeito institucional.
Ao se observar o episódio recente à luz dessa trajetória, percebe-se que, embora a linguagem empregada por Milei seja criticável, ela se insere em uma tradição mais ampla de tensionamentos retóricos na política regional. O desafio contemporâneo permanece o mesmo de outrora: elevar o nível do debate público, evitando que ele se degrade em acusações vazias ou narrativas desprovidas de lastro factual.
Em última instância, o que está em jogo não é apenas a relação entre líderes ou países, mas a qualidade do discurso político que sustenta as instituições democráticas.
Manhattan Connection 26/07/2026
domingo, 26 de julho de 2026
A América contra si mesma, por Luiz Sérgio HenriquesO Estado de S. PauloO grande país demite-se em cena aberta da sua história e declina da sua parte de responsabilidade pelo destino do mundo
A comemoração dos 250 anos da Declaração de Independência dos Estados Unidos da América, evento revolucionário com repercussões globais em sua época, transcorre numa atmosfera pesada por conta de Trump e do trumpismo. Fácil constatar que há luzes e sombras por toda parte, no passado e no presente. Por isso, mesmo que aos tropeços, damo-nos conta da complexidade daquela sociedade e do seu percurso, bem como da sua relevância para a sorte geral das liberdades. Esta percepção, naturalmente, vai muito além das palavras de ordem que herdamos, calcificadas, do conflito particular que findou em 1989.
Para os que se colocam à esquerda, a hora é boa para revisitar os próprios clássicos e reavaliar o experimento norte-americano. Nada melhor do que partir de Karl Marx, quando menos por ser o autor da primeira visão histórico-sistemática da modernidade capitalista.
Há quem afirme que as relações entre Europa e América, o velho e o novo mundo, não foram aspecto secundário das cogitações do founding father do comunismo. No século 18, a independência das 13 colônias rebeldes seria o sinal para o movimento revolucionário da classe média europeia. No século seguinte, a guerra civil americana, com a vitória dos yankees, significaria não só a derrota do Sul escravista, mas também um impulso para o amadurecimento do movimento operário europeu em busca de uma nova ordem. Os incrédulos talvez duvidem, mas esta associação de ideias, forte e inesperada, está num lugar de honra, o prefácio da primeira edição de O Capital.
Também pode surpreender, pouco tempo antes, a ilustrada troca de mensagens entre Marx e o presidente Lincoln, reconduzido ao cargo nos meses finais da guerra civil. O primeiro saúda a reeleição em nome da Associação Internacional dos Trabalhadores – a temida Internacional, que fazia tremer tronos e potestades –, o segundo responde por meio do seu embaixador em Londres. Firula diplomática, dirão alguns. Signo expressivo, acreditamos, de que a política moderna é o resultado da convergência de forças e tradições das mais diferentes orientações, que convém tentar compreender na relação de umas com as outras, sem estigmatizar nenhuma.
Décadas depois, já inteiramente constituída a arena política do século 20, um pensador como Antonio Gramsci recusa-se a encerrar a questão americana na categoria do “imperialismo”. Para ele, há nesta parte do mundo uma possibilidade de mudança que não podia nascer na velha Europa. A demografia racionalizada, a ausência de classes parasitárias e as inovações na produção – referência explícita ao fordismo – marcam uma nova forma de produção e de vida social. O capitalismo uma vez mais se reinventa e faz sua específica “revolução passiva”, cujos resultados o “antagonista” – a classe operária – tem a obrigação de levar seriamente em conta, em vez de propor um mítico combate definitivo entre classes concebidas como blocos de granito.
Estes pontos de vista alternativos ajudam a entender o que se seguiria – tanto o dinamismo interno de uma sociedade inovadora quanto sua capacidade expansiva global. Quando o segundo pós-guerra trouxe a Organização das Nações Unidas (ONU) e todo um inédito sistema de organizações multilaterais, a presença norte-americana seria mais marcante do que a do desafiante soviético. A Declaração Universal dos Direitos Humanos, longe de ser um documento americano ou ocidental, se tornaria um marco civilizatório, uma espécie de “dever ser” acima das partes e apesar de desrespeitos flagrantes – frequentemente, aliás, por parte dos Estados Unidos. O fato fundamental é que regimes autoritários, como os do socialismo real, tiveram dificuldades insuperáveis para cumprir a agenda plural de direitos e liberdades gravada naquela declaração. Também por isso, e não só pelo relativo atraso econômico, trilharam o caminho da subalternidade e da autodissolução.
Este quadro sumário explica a razão pela qual os fenômenos de degradação em curso na sociedade e na política norte-americana são especialmente graves. A face interna do problema é o fim que se pretende dar ao sonho americano, tal como representado pelo compromisso rooseveltiano há quase cem anos. Uma combinação perversa de darwinismo social e poder central autoritário, com forças contrapostas progressivamente debilitadas, tem o condão de lesar liberdades, acirrar desigualdades e, se não for impedida, pôr em marcha forçada a autocratização da América.
A face externa do problema tem dimensão assombrosa. A presidência imperial de Trump é o principal núcleo disseminador da ilusão dos strongmen por todo o Ocidente político – com traços de cesarismo regressivo, no léxico gramsciano. Na América Latina, oficialmente reduzida a província, aquela presidência é farol e apoio de toda uma sequência de trumpitos, para recorrer ao termo mordaz da The Economist – o que em nada lembra o sentido libertador da Declaração de 1776. Há mais: de um modo geral, nesta turbulenta passagem de época, o grande país demite-se em cena aberta da sua história e declina da sua parte de responsabilidade pelo destino do mundo.
*Tradutor e ensaísta, coeditor das ‘Obras’ de Gramsci no Brasil
Em artigo para o O Estado de S. Paulo, Luiz Sérgio Henriques analisa a crise do trumpismo nos 250 anos da Independência dos EUA, contrastando a visão realista de Marx e Gramsci sobre o país com o atual declínio democrático. O autor argumenta que os EUA vivem uma "autocratização" interna e se demitem de sua responsabilidade global, promovendo o cesarismo regressivo com o "trumpismo". Mais detalhes podem ser conferidos no artigo original de Luiz Sérgio Henriques no O Estado de S. Paulo.
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Charge satírica exposta temporariamente no Museu de Arte Murilo Mendes (MAMM), em Juiz de Fora, ironizando a ignorância provinciana.
O PHAROL DAS MINAS E DOS CAMPOS GERAES
Seção: Espaço Aberto às Cabeças Fechadas (Edição Inaugural) Por L. S. Mendes
A acusação leviana de que figuras tão díspares quanto Joaquim Nabuco, Karl Marx, Antonio Gramsci e Roberto Campos seriam meros "capachos do imperialismo" é o sintoma manifesto de uma persistente patologia teórica: o reducionismo ideológico. Essa visão petrifica a história, substitui o método dialético pelo preconceito doutrinário e transforma o debate público em um tribunal de inquisição alimentado por cartilhas obsoletas.
Romper com esse maniqueísmo de blocos de granito não significa endossar as escolhas políticas ou os caminhos econômicos de cada um desses personagens. Significa, antes de tudo, resgatar o rigor e reconhecer a densidade do processo histórico.
1. O Rigor Dialético contra o Dogmatismo: Marx e Gramsci
Certas correntes, ao se fecharem em um nacionalismo abstrato ou em um anti-americanismo puramente retórico, cometem o pecado capital de ignorar os seus próprios clássicos.
Karl Marx nunca operou com moralismos baratos. Como fundador da primeira visão histórico-sistemática da modernidade capitalista, ele viu na vitória do Norte industrial e ianque na Guerra Civil Americana um impulso progressista essencial para a derrocada do Sul escravista e o consequente amadurecimento do movimento operário global.
Existe uma ironia histórica profunda que os dogmáticos preferem esquecer: para sobreviver à miséria absoluta no exílio londrino — onde perdeu filhos para a fome e a insalubridade —, Marx vendeu sua força de trabalho intelectual como correspondente do New-York Daily Tribune. Não se vendeu ao "imperialismo", mas sim ao maior jornal abolicionista e progressista da época, ligado à ala radical do partido de Abraham Lincoln. Usou o dinheiro americano para financiar O Capital e as páginas do jornal para denunciar o colonialismo britânico na Índia e a Guerra do Ópio na China.
Décadas depois, Antonio Gramsci, detido nos cárceres do fascismo italiano, recusou-se terminantemente a encerrar o fenômeno americano no rótulo estéril do "imperialismo". Ele enxergou no fordismo e na ausência de classes parasitárias na América uma "revolução passiva" que transformava radicalmente as bases da produção e da vida social. Gramsci compreendeu que o capitalismo se reinventava e que a classe trabalhadora precisava encarar esse dynamism de frente, em vez de sonhar com um mítico combate definitivo.
2. O Pragmatismo da Linha de Frente: Nabuco e Campos
Quando olhamos para a história do Estado brasileiro, o mundo gira e a "Lusitana roda" de forma ainda mais complexa, deixando tonta a esquerda que delira em purismos. A montagem da nossa diplomacia e da infraestrutura econômica sempre exigiu realismo geopolítico, operando muito acima das paixões partidárias.
Joaquim Nabuco, monarquista convicto e amigo pessoal de Dom Pedro II, não hesitou em aceitar o chamado da jovem República brasileira. Foi nomeado pelo governo republicano como ministro plenipotenciário na Casa de Rio Branco. O Barão do Rio Branco e os governantes da época sabiam que o prestígio internacional, a erudição e o trânsito de Nabuco em Washington eram ativos indispensáveis para consolidar nossas fronteiras. O interesse do Estado e a soberania moral do país prevaleceram sobre as divergências de regime.
O mesmo pragmatismo institucional se repete no século XX com Roberto Campos. Caricaturado por críticos extremistas sob o apelido jocoso de "Bob Fields", este diplomata de escol e economista liberal-conservador foi peça-chave na formulação do Plano de Metas de Juscelino Kubitschek e participou ativamente de missões financeiras no governo de João Goulart.
Campos foi convocado por esses presidentes progressistas não por alinhamento ideológico, mas por ser um operador técnico de primeira linha, capaz de dialogar com os centros financeiros internacionais. Pode-se e deve-se criticar os custos sociais de suas políticas e sua posterior atuação na ditadura militar; contudo, reduzi-lo a um lacaio estrangeiro impede a compreensão de como funciona o capitalismo periférico.
Conclusão: A Urgência da Lucidez
A história não é um desfile de almas santificadas ou de vilões de desenho animado. Ela se move por contradições e acomodações pragmáticas. O verdadeiro perigo contemporâneo não está no cosmopolitismo do debate, mas sim na autocratização e no "cesarismo regressivo" que vemos ressurgir globalmente através de figuras autoritárias.
Se o pensamento crítico deseja ter relevância neste século, precisa abandonar urgentemente o tribunal dos rótulos fáceis. O compromisso com a emancipação humana e com o desenvolvimento nacional exige o abandono dos espantalhos ideológicos e o resgate urgente da lucidez crítica.
Use o código com cuidado.
Arminio Fraga: “O quadro é desastroso”
Dívidas acumuladas pelas famílias, pelas empresas e pelo governo são um alerta de que a economia requer ajustes urgentes, segundo o ex-presidente do BC
Por Márci...
Leia mais em: https://veja.abril.com.br/paginas-amarelas/arminio-fraga-o-quadro-e-desastroso/
Dica de leitura: As leis secretas da economia, de Gustavo FrancoComunicação Millenium
23/04/2021
2 min de leitura
A sugestão do Instituto Millenium para esta semana é o livro “As leis secretas da economia: Revisitando Roberto Campos e as leis do Kafka”, do economista Gustavo Franco.
A obra questiona a obediência da economia brasileira em relação às leis conhecidas. Em busca de possíveis respostas, Gustavo Franco começou a investigar as práticas que envolvem as políticas financeiras no país.
O autor teve como inspiração algumas das leis elaboradas nos anos 60 por Roberto Campos e Alexandre Kafka. O livro aborda temas como o Plano Real, a privatização e a política monetária com uma linguagem bem-humorada e tendo como base a análise de personalidades importantes da cultura e da política, como Maquiavel e Machado de Assis.
A leitura é indicada para quem deseja entender de forma prática um pouco mais sobre economia sem deixar o humor de lado.
Sobre o autor
Gustavo H.B. Franco é bacharel e mestre em economia pela PUC do Rio de Janeiro e Ph.D (1986) pela Harvard University. Foi presidente do Banco Central do Brasil, e também diretor da Área Internacional do Banco Central e Secretário Adjunto de Política Econômica do Ministério da Fazenda, entre 1993 e 1999. Gustavo Franco participa de diversos conselhos consultivos e de administração e escreve regularmente para jornais e revistas. É professor do Departamento de Economia da PUC desde 1986. Tem 14 livros publicados e mais de uma centena de artigos em revistas acadêmicas.
"Eu sou Fernando Henrique. Vou morrer com ele. Continuar como está é perda de tempo. Vamos torcer para que apareça um outro Fernando Henrique." Gustavo Franco, há 1 mês.
Zé Lourenço & Jamil Joanes - Fla X FluExemplo Prático: Aplicação no Samba (Estilo Vanzolini)
Vanzolini gostava de narrar crônicas urbanas. Veja como a métrica do verso abaixo se mantém exata para os instrumentistas não perderem a cabeça do compasso:
"O Estado cede ao mercado / Nesse jogo eu não me estancoO plano foi desenhado / Pelas mãos de Gustavo Franco.Mas a crise que bate à porta / Deixa o povo com o bolso em branco."AO VIVO: FORA DA ORDEM - 26/07/2026CNN BrasilTransmissão iniciada há 68 minutos
Os Estados Unidos confirmaram uma sobretaxa de 12,5% sobre produtos brasileiros, sob a justificativa de suposto trabalho forçado. A medida atinge produtos de 86 países e reacende, no governo Lula, o debate sobre reciprocidade e possíveis respostas às novas tarifas impostas por Donald Trump.
A live também analisa a escalada do conflito no Oriente Médio, com ataques dos Houthis no Mar Vermelho e ameaças à navegação pelo Estreito de Bab el-Mandeb, rota responsável por 7% do petróleo global. As mortes de militares aumentam a pressão sobre o governo Trump, que responsabiliza o Irã pelo agravamento da tensão.
Outro destaque é o futuro do acordo nuclear entre Estados Unidos e Arábia Saudita. Trump exige que o reino reconheça Israel e nega a possibilidade de enriquecimento de urânio pelos sauditas.
Assista ao vivo, toda sexta-feira, a partir das 13h (horário de Brasília) com apresentação de analista de Internacional Lourival Sant’Anna, o analista sênior de Internacional Américo Martins, direto de Londres, e o professor da Universidade George Washington, Maurício Moura.
O público também poderá enviar dúvidas e comentários, que serão incorporados ao debate. Participe com a gente! O Fora da Ordem vai ao ar toda sexta-feira a partir das 13h.
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