Mundo em Mutação
Inspirados já nos ensinamentos de Sófocles, aqui, procurar-se-á a conexão, pelo conhecimento, entre o velho e o novo, com seus conflitos. As pistas perseguidas, de modos específicos, continuarão a ser aquelas pavimentadas pelo grego do período clássico (séculos VI e V a.C).
sexta-feira, 31 de julho de 2026
Aldrabão de plantão
quinta-feira, 30 de julho de 2026
Passou ministro! Passou...
O ALIENISTA DO STF
Do Analista de Bagé ao Analista Weberiano
PRÓLOGO: PASSOU, MINISTRO! PASSOU...
Dados recentes, oriundos de auditorias divulgadas no final de julho de 2026, apontam que cerca de 82% das chamadas “emendas Pix” apresentam irregularidades ou falhas graves de rastreabilidade.
Diante disso, o ministro do Supremo Tribunal Federal determinou que Executivo e Legislativo estabeleçam, em prazo de 10 dias, uma matriz clara de responsabilidades sobre tais repasses.
A tese é simples — e incômoda:
Quem indica o dinheiro não pode lavar as mãos quando ele evapora.
O magistrado ainda advertiu, com precisão cirúrgica, que indicar uma emenda não equivale a fazer um Pix informal a um conhecido na esquina.
Relatórios de órgãos de controle confirmam o cenário: ausência de convênios, obras inacabadas, sobrepreço e um rastro de dinheiro que termina… onde termina o interesse público.
INTERLÚDIO: O ANALISTA DE BAGÉ (CORREÇÃO NECESSÁRIA)
Convém registrar: a obra clássica de Luís Fernando Veríssimo chama-se “O Analista de Bagé” — e não “O Alienista de Bagé”, confusão recorrente que mistura o autor gaúcho com Machado de Assis.
Seu método terapêutico é célebre: o joelhaço inaugural, aplicado em pacientes homens para “quebrar resistências” do ego e prepará-los, à força, para a sessão analítica sobre o divã de pelego.
Rústico, direto, brutal — e, por isso mesmo, revelador.
ENREDO: O JOELHAÇO WEBERIANO
No palco constitucional, surge a figura da analista de Porto Alegre, que, à luz do artigo 37 da Constituição de 1988, sentencia:
As emendas secretas são, em essência, incompatíveis com os princípios da administração pública.
É o joelhaço institucional: transparência contra opacidade, publicidade contra arranjos subterrâneos.
SURGE O SUCESSOR: O ANALISTA FLAVIANO
O novo analista do STF entra em cena com outro estilo. Menos joelhaço, mais advertência:
“Devagar com o andor… que os analisados são de barro.”
Não abandona o método — apenas o calibra. Onde antes havia impacto imediato, agora há construção gradual do constrangimento jurídico.
ÁPICE: O CONSULTÓRIO SUPREMO
Após herdarem os pacientes da antiga analista, o novo terapeuta constitucional dirige-se aos nobres analisados:
— Vossas Excelências desejam que retomemos a técnica psicoconstitucional weberiana de Porto Alegre?
E, do outro lado do divã, curvados — não mais por ideologia, mas por memória muscular institucional — vem a resposta:
— Por favor, ministro… data vênia… já sentimos saudades do vosso elevado e delicado joelhaçozinho!
EPÍLOGO: A FARSA VEROSSÍMEL
O político entra no consultório. A análise começa. A resistência é grande — mas o método é maior.
Entre a norma e o improviso, entre a Constituição e o jeitinho, encena-se uma comédia densa, culta e mordaz — onde o riso não esconde o diagnóstico.
Porque, no fim, a pergunta permanece:
o problema é a terapia… ou o paciente?
RESUMO
Uma esquete político-constitucional, em chave verissimiana, que expõe com humor refinado e crítica aguda a dinâmica das emendas parlamentares, transformando o STF em consultório e a política em caso clínico.
Técnico na forma, ácido no conteúdo, e absolutamente brasileiro no diagnóstico.
Os Povos Brasileiros e Chineses
Olho para baixo e o azul da Terra continua o mesmo, embora aqui de cima, na face oculta do Além, a distância nos dê a exata dimensão das ironias humanas. Lá embaixo, os homens ainda acreditam que governam os fluxos da história com a ponta de suas canetas e o estofado de suas cadeiras. Ilusão de ótica dos vivos. Daqui da Ilha Azul, o que se vê é uma ópera bufa, encenada em dois palcos distantes, mas sintonizados pela mais perfeita assimetria.
A engenharia do destino é caprichosa. O Brasil, com a generosidade ingênua de um gigante deitado em berço esplêndido, resolveu alimentar a grande caldeira do capitalismo planejado do Extremo Oriente. Enviamos o ferro tirado das entranhas da terra e a soja colhida nos cerrados. Transformamos o suor da nossa lavoura e a riqueza do nosso subsolo naquilo que os economistas chamam de commodities. Do outro lado do globo, a China, com a paciência milenar de quem joga xadrez enquanto o Ocidente joga dados, converteu nossa matéria-prima em chips, painéis solares, baterias e uma frota silenciosa de veículos elétricos.
Enquanto os donos do poder se revezam em tronos temporários — ora ungidos como Messias, ora aclamados como as almas mais honestas do mercado eleitoral —, a engrenagem do mundo real gira sem misticismo. O controle centralizado transmuta o arrocho salarial e o cabresto sindical em superávit tecnológico. O resultado dessa dialética das trocas chega montado em duas rodas elétricas, financiadas pelo próprio Estado brasileiro com o aval de fundos de risco e o subsídio de taxas.
É o trânsito da modernidade: o motor elétrico não faz ruído, o torque é instantâneo, e o tombo, previsível. O Estado que avaliza o crédito na entrada é o mesmo que recolhe os pedaços na saída, arcando com a contabilidade trágica das pensões por morte e das invalidezes precoces no INSS. Uma PPP onde o risco é público e o lucro, intangível.
Imagino, então, uma solenidade idealizada na imensidão da Praça do Povo. Sob o céu de Pequim, entre discursos pragmáticos e bandeiras vermelhas, o bravo povo chinês decide condecorar o solidário povo brasileiro com a “Medalha da Gratidão”. Afinal, fomos nós que abrimos mão do futuro industrial para que eles pudessem desenhá-lo. Seria uma honraria justa, entregue com a reverência de quem sabe exatamente quanto custou o quilo do nosso ferro e quão barato saiu o preço da nossa ilusão.
Do mirante do Além, resta-nos o riso contido e a constatação de que a história é um eterno baile de máscaras onde os convidados pagam pela música, mas apenas os músicos sabem o ritmo da dança. Vivam os povos brasileiros e chineses, cada um cumprindo o seu papel no grande teatro do absurdo.
Notas do Conselho de Confrades & Copydesk
Anotação de Eça de Queiroz:
“Meu caro, a ironia sobre os ‘Messias’ e as ‘almas honestas’ capta bem o provincianismo político que já criticávamos no século XIX. O contraste entre a ingenuidade do jeca exportador e o pragmatismo mandarim é de um ridículo deliciosamente trágico. Permita-me apenas aplaudir o desenho dessa ópera onde o figurino é de alta tecnologia, mas a mentalidade continua a da velha colônia.”
Anotação de Machado de Assis:
“A analogia da quietude das rodas elétricas com o silêncio da posteridade é fina. O Estado, esse eterno alienista, financia a queda para depois administrar o curativo. A estrutura está equilibrada, a vaidade dos mandatários foi despida com a devida melancolia jurídica. Não altero uma vírgula; o pessimismo está perfeitamente elegante.”
Relatório de Copydesk de Graciliano Ramos:
“Cortei os adjetivos gordos. Limpei a fumaça das frases longas. A prosa precisava do osso, como a seca. A passagem sobre o INSS estava redundante; reduzi à crueza do fato: o Estado paga a conta do ferro velho e do caixão. O texto agora está seco, direto e bate onde deve.”
O ALIENISTA DO STF
Do Analista de Bagé à Analista Weberiana
ENREDO: O “joelhaço” de Rosa Weber — as emendas secretas são inconstitucionais, todas, pelo artigo 37 da CF/1988. Jeitinho do analista sucessor no STF, Flaviano: “Devagar com o andor, analista de Porto Alegre, que os nobres analisados são de barro.”
ÁPICE: De Dino, em papo reto para analisados herdados de Weber, após o seu famoso joelhaço: “Vossas Excelências querem que eu volte a aplicar a técnica psicoconstitucional weberiana de Porto Alegre?” — “Por favor, ministro Dino, data venia, já sentimos saudades de vosso elevado e delicado joelhaçozinho!”
RESUMO: O político se apresenta ao analista do STF, e a farsa desenrola-se em forma de esquete verossímil. Tecnicamente perfeito na forma, ao estilo cômico, hilário, culto, analítico e denso de Luis Fernando Verissimo.
✅ Dicas JORNAL DA CULTURA | Falta de recursos agrava HIV e Brasil vive tensão com Paraguai | 30/07/2026 Jornalismo TV Cultura Transmissão ao vivo realizada há 2 horas Jornal da Cultura | 2026 No Jornal da Cultura desta quinta-feira (30), você vai ver: Brasil formaliza na OMC repúdio às novas tarifas aplicadas pelos Estados Unidos; decreto prevê expulsão de estrangeiro por discurso de ódio na Argentina; e arrecadação com as “bets” será destinada a fundo da Polícia Federal. Para comentar essas e outras notícias, Rita Lisauskas recebe o médico sanitarista Gonzalo Vecina Neto, professor da Faculdade de Saúde Pública da USP e o economista e doutor em ciência política, Ricardo Sennes. O Jornal da Cultura é exibido de segunda a sábado, às 21h, na TV Cultura, no site da emissora e no YouTube. #JornalDaCultura #TVCultura #SomosCulturaquarta-feira, 29 de julho de 2026
Os Descaminhos da Linha
Os Descaminhos da Linha: Infraestrutura e a Poética do Abandono
A história do progresso brasileiro pode ser lida, sem rasuras, pela geografia de seus caminhos. Das picadas indígenas que Mem de Sá converteu no primeiro ensaio de ligação entre o planalto de Piratininga e o Atlântico, passando pelas artérias de ferro que os barões do café estenderam sob o influxo do capital vitoriano, a fixação de nossas fronteiras econômicas sempre dependeu da ousadia da engenharia e do peso do Estado. Todavia, a crônica nacional sobre o deslocamento de cargas e pessoas guarda uma dualidade persistente: oscila entre o pragmatismo cego do asfalto e a melancolia dos trilhos arrancados.
ENCONTROS E DESPEDIDAS (letra e vídeo) com MILTON NASCIMENTO, vídeo MOACIR SILVEIRAHá meio século, a desativação da mítica Estrada de Ferro Bahia-Minas — imortalizada na sensibilidade musical de Milton Nascimento e Fernando Brant — sepultou mais do que dormentes e bitolas. Deixou atrás de si um rastro de cidades-fantasmas e isolamento, onde viúvas nos portais e velhos maquinistas de boné passaram a testemunhar o êxodo de uma juventude forçada a migrar para os grandes centros urbanos. A “Maria Fumaça que não canta mais” tornou-se a metáfora de um país que, no auge do rodoviarismo desenvolvimentista da era Juscelino Kubitschek, decidiu sabotar a própria integração ferroviária em nome de uma modernidade motorizada.
Esse trauma histórico projeta suas sombras até as primeiras décadas do século XXI. O ciclo de governos do Partido dos Trabalhadores, estendido em cinco mandatos presidenciais, buscou responder ao gargalo logístico por meio do gigantismo dos Programas de Aceleração do Crescimento (PAC). Contudo, a aferição rigorosa das entregas revela o quão tortuoso é o trâmite que separa o plano da realidade no Brasil. Grandes artérias concebidas para a intermodalidade — como a Ferrovia Norte-Sul ou a Transnordestina — cruzaram gestões de sinais trocados e arrastaram-se por décadas até verem seus trechos operacionais concluídos.
Quando se isola o critério estrito de obras idealizadas, iniciadas e totalmente entregues sob o mesmo espectro político, o saldo se desloca para intervenções metropolitanas específicas, como a Linha 1 do Metrô de Salvador, e soluções pontuais como o Aeroporto de Natal.
O século XXI impõe uma nova gramática que o partidarismo tacanho é incapaz de decifrar. A infraestrutura moderna não comporta mais o messianismo governamental e exige, em contrapartida, uma convergência institucional madura. O exemplo contemporâneo mais nítido dessa transição repousa na engenharia política que viabilizou o projeto do Túnel Imerso Santos–Guarujá. Estruturado sob o modelo de Parceria Público-Privada (PPP), com aportes equânimes entre a União e o Estado de São Paulo, o projeto uniu o pragmatismo técnico ao imperativo de coordenação federativa.
Essa convivência institucional madura sinaliza uma mudança de postura. A superação do atraso logístico brasileiro não se faz com disputas paroquiais de paternidade de obras, mas com contratos sólidos, segurança jurídica e atração de capital privado.
Enquanto analistas se ocupam em traçar os destinos políticos de Brasília, a economia real exige que trilhos e estradas sejam assentados sem sobressaltos ideológicos. O Brasil não pode mais se dar ao luxo de assistir ao espetáculo de caminhos interrompidos pela metade. Para que o cidadão comum não termine à espera, na plataforma vazia, de um progresso que partiu para nunca mais voltar, é imperativo tratar a logística nacional como política de Estado.
A urna eletrônica como a grande avenida da democracia
Se Roberto DaMatta pudesse vestir sua fantasia de cidadão-antropólogo para decifrar as eleições de 2026 no Brasil, ele não veria o pleito apenas como uma contagem mecânica de votos. Ele enxergaria um imenso drama ritualístico dividido em dois atos sagrados.
No primeiro turno, o Brasil vive o seu momento Carnaval. É a explosão da fragmentação, o desfile exuberante da diversidade, em que todas as alas da sociedade — representadas por uma infinidade de partidos, cores e discursos — tomam as ruas. Ricos e pobres dividem o mesmo tempo de tela e a mesma fila na seção eleitoral. É o instante em que a rígida estrutura social brasileira se finge horizontal. O cidadão comum, frequentemente invisibilizado pelo clássico “Você sabe com quem está falando?”, transforma-se no herói soberano do enredo nacional. O voto pulverizado reflete a malandragem de um povo que tenta negociar em múltiplas frentes, testando os limites da ordem e da subversão na busca por uma promessa de futuro.
O segundo turno, contudo, opera uma metamorfose drástica no ritual. A folia festiva do primeiro ato é bruscamente suspensa, dando lugar ao rigor e à solenidade de uma procissão quaresmal. O espaço para o meio-termo, para o jeitinho e para a multiplicidade desaparece. A sociedade é forçada a se dividir em uma dualidade quase religiosa, um espelho maniqueísta entre o “Bem” e o “Mal”, o “Nós” e o “Eles”.
A avenida colorida transforma-se em um corredor estreito de purificação e escolha moral definitiva. Ao reduzir as opções a apenas dois caminhos, o segundo turno expõe a ferida aberta do dilema brasileiro: a nossa crônica incapacidade de conciliar visões de mundo divergentes sem que um lado tente anular a existência do outro.
Em 2026, a apoteose dessa procissão não celebra apenas a vitória de um candidato, mas escancara o drama de uma nação que caminha na corda bamba entre o desejo de igualdade universal da urna e o peso sufocante de suas hierarquias cotidianas.
Entre o Carnaval e a Procissão, a democracia brasileira percorre sua grande avenida: da pluralidade festiva do primeiro turno à escolha moral do segundo. No centro, a urna eletrônica — palco onde a igualdade do voto confronta as hierarquias do cotidiano. quarta-feira, 29 de julho de 2026 Entrevista | O intérprete do ‘jeitinho brasileiro’ chega, produtivo, aos 90, por Roberta Jansen O Estado de S. Paulo O antropólogo diz que para entender um povo é necessário conhecer os seus ritos e seus mitos O carnaval como ritual que mistura ricos e pobres, suspendendo regras e diferenças, é tema de estudos e de um de seus livros Entender o Brasil por intermédio de algumas de suas manifestações culturais populares mais arraigadas, como o carnaval, o jogo do bicho e o futebol, foi o desafio que Roberto DaMatta se impôs desde o início de sua carreira, nos idos dos anos 1960. Um dos mais importantes antropólogos do País, colunista do Estadão desde 2001, DaMatta completa 90 anos nesta quarta-feira, 29. O renomado intelectual revolucionou as ciências sociais do País ao transformar o cotidiano nacional, os festejos religiosos e mesmo os paradoxos culturais em objetos de estudo. DaMatta estudou o carnaval, o futebol e as procissões religiosas não como diversão, mas como rituais que revelam a estrutura da sociedade brasileira. Foi um dos principais responsáveis por analisar cientificamente e popularizar o termo “jeitinho brasileiro” em seus livros das décadas de 1970 e 1980 (como Carnavais, Malandros e Heróis), consolidando o “jeitinho” como uma estratégia legítima de sobrevivência social, que se equilibra entre o favor e a malandragem. Uma das principais ideias desenvolvidas na obra de DaMatta é a dialética entre “casa” e “rua”. O antropólogo divide o universo social brasileiro entre a casa (o espaço privado, do afeto, do parentesco, no qual as leis não entram) e a rua (o espaço público, do trabalho, das leis impessoais, do desamparo). Em boa parte de sua obra, DaMatta explora a ideia de que o brasileiro tenta a todo custo transformar a rua em casa, usando laços de amizade e redes de favor, para fugir da frieza das leis. “Como fez (o banqueiro Daniel) Vorcaro”, afirmou em entrevista ao Estadão por ocasião de seu aniversário. “Você sabe com quem está falando?” A frase clássica do brasileiro virou objeto de estudo de DaMatta, que a apresenta como um rito de exclusão autoritário. Segundo o antropólogo, ela serve para lembrar ao outro que, no Brasil, as relações e os privilégios pessoais valem mais do que as leis universais que deveriam valer para todos os cidadãos. Formado em história pela Universidade Federal Fluminense (UFF), DaMatta fez uma especialização em antropologia social no Museu Nacional da UFRJ. Depois, cursou mestrado e doutorado na Universidade Harvard, nos Estados Unidos. Seus estudos sempre foram voltados para o País. Entre suas obras mais importantes, estão Um Mundo Dividido: A Estrutura Social dos Índios Apinayé; Carnavais, Malandros e Heróis; Águias, Burros e Borboletas: Um Ensaio Antropológico Sobre o Jogo do Bicho; A Bola Corre Mais Que os Homens: Duas Copas; além do ensaio Você Sabe com Quem Está Falando? Em sua obra, DaMatta mostrou especial interesse pelas peculiaridades brasileiras. Entre elas, a hierarquização da sociedade, disfarçada de proximidade; o carnaval como ritual que mistura ricos e pobres, suspendendo regras e diferenças; a dicotomia entre o coletivo, simbolizado na rua, e o privado, sintetizado no lar; o fascínio pela esperteza da malandragem. Segundo DaMatta, para entender um povo é necessário conhecer os seus ritos e seus mitos. Em Carnavais, Malandros e Heróis, escreveu que pretendia abordar “esse povo nas suas esperanças e perplexidades, pois sempre me impressionou a conjunção de um povo tão achatado junto a um sistema de relações pessoais tão preocupado com personalidades e sentimentos; uma multidão tão sem rosto e sem voz, junto a uma elite tão rouca de gritar por suas prerrogativas e direitos; uma intelectualidade tão preocupada com o coração do Brasil e, no entanto, tão voltada para o último livro francês; uma criadagem que passa tão despercebida e patrões tão egocêntricos (...)”. Ele diz que o povo brasileiro o intriga “na sua generosidade, sabedoria e, sobretudo, esperança”. Ao voltar ao Brasil depois do mestrado e doutorado nos Estados Unidos, o antropólogo trabalhou no Museu Nacional até 1986, quando aceitou um convite da Universidade de Notre Dame, em Indiana, nos EUA, para lecionar. Ele só voltou ao País em meados dos anos 2000, quando começou a dar aulas na PUC-RJ. Agora, diz, encerrou sua carreira acadêmica e pensa seriamente em começar a escrever ficção. Abaixo, leia a entrevista com Roberto DaMatta. O senhor acompanhou a Copa do Mundo? Os brasileiros deixaram um pouco de lado a divisão política que vem caracterizando o País nos últimos anos para torcer pela seleção? O Brasil, que é o tempo todo criticado, na Copa vira objeto de afeto, uma solidariedade absolutamente impressionante. A partir da classificação, o time brasileiro se apresenta como uma unidade brasileira na qual, inevitavelmente, o Brasil inteiro projeta os nossos afetos, a língua que falamos, a maneira como somos. O futebol brasileiro sempre se caracterizou pelo drible, pela malandragem, pelos negros, pelos pobres, pelos artistas da pelota. Artistas de um esporte que chegou com os colonizadores; e justamente os mais pomposos, os mais distantes, os ingleses, aqueles que não se misturavam. Além disso, é um esporte em que não sabemos qual será o resultado; estamos entregues ao destino. Pode haver preferências, mas não sabemos o resultado; certezas absolutas não funcionam. O segundo ponto é que no futebol temos a experiência da igualdade absoluta. Não tem jeitinho, compadrio, corrupção. E todos nós conhecemos as regras do jogo. O que é bem diferente da nossa burocracia aristocrática, tão difícil de administrar, em que sempre existe uma regra “Uma democracia exige imparcialidade. Como fazer isso dentro de uma sociedade familística? Se você virar governador, não vai dar um emprego ao seu amigo de infância que está desempregado? Ao primo que está passando necessidade? Ao irmão que tem um emprego sazonal, arriscado? As obrigações do parentesco corroem a imparcialidade da administração pública do Brasil há séculos” “Em ‘Carnavais, Malandros e Heróis’, queria abordar o povo brasileiro, essa multidão tão sem rosto e sem voz, junto a uma elite tão rouca de gritar por suas prerrogativas e seus direitos” que desconhecemos. O sr. está chegando aos 90 anos. Como se sente? Cheguei a uma idade em que não há nada completamente ruim, nem completamente bom; é tudo mais ou menos. Mas, olha, o que queria fazer eu fiz. Fui um dos primeiros a fazer doutorado em Antropologia em Harvard, consegui sobreviver à minha timidez, morei nos Estados Unidos, fui contratado por uma universidade americana. Consegui olhar para a sociedade brasileira com um olhar diferenciado, que é fundamental para a antropologia social, enxergar o que acontece com uma certa distância. Sobre o envelhecimento, até os 50 anos ninguém morre, né? Ninguém acha que vai morrer. Só depois os problemas começam a aparecer, tive um enfarte, tive de colocar um stent. Mas o mais chato foi o AVC (há três anos), quando tive certeza de que iria morrer, acabei ficando com o lado esquerdo paralisado (a fisioterapia o tem ajudado bastante e já está praticamente recuperado), tomo uma batelada de remédio. O maior sofrimento é nos conformarmos com a ideia de que somos finitos. E enxergar esse contraste maravilhoso entre a nossa consciência da finitude e as artes, o cinema, a pintura, o teatro, os romances. O criador é finito – e ter consciência disso é o ponto central da nossa existência –, mas há um outro lado que se perpetua. O que está perpetuando é finito, mas o que é perpetuado é infinito. Como a figura do banqueiro Daniel Vorcaro – que, aparentemente, conseguiu comprar praticamente toda a República, à esquerda e à direita – pode ser analisada do ponto de vista da antropologia? O universo doméstico e o universo público têm muitas oposições; o que fazemos em casa, não podemos fazer na rua; e o que fazemos na rua, não podemos fazer com nossos parentes. Vorcaro entendeu isso intuitivamente. Como explica muito bem o antropólogo Marcel Mauss, quando recebemos um presente, nos sentimos obrigados a devolver com outro presente. É assim que o sistema público funciona. Você não vai deixar de dar um emprego para o seu cunhado que está precisando, fazer um favor para um amigo. As oposições ideológicas e de classe existem, mas são rompidas pelas relações pessoais; é aí que entra em jogo a corrupção. Vorcaro deu dinheiro para todo mundo, da direita e da esquerda, porque ele sabia que a gente não esquece o tratamento afetuoso, o presente, a gentileza, a simpatia. O sr. falou há pouco em consciência humana. Há todo um debate acadêmico a respeito da inteligência artificial. Acredita que um dia a IA poderá ter consciência? Nós temos uma coisa que ninguém tem, a consciência, um dos maiores mistérios do mundo. (O filósofo Friedrich) Nietzsche dizia que quem inventou a alma foi o corpo, como uma forma de poder lidar com a consciência. Sabemos que funcionamos com base na eletricidade. Nosso cérebro funciona por impulsos elétricos. Os literatos, com suas imaginações fantásticas, como Isaac Asimov, criam robôs com consciência. Será que conseguiremos criar uma máquina que tenha consciência de si própria e do mundo? Olha, acho que isso não vai acontecer por uma razão trivial. Nossa consciência é agasalhada por uma máquina chamada corpo humano. E são as experiências com esse corpo, essas várias consciências, esses vários tipos de memória, que fazem a nossa consciência. Como o sr. vê essa disputa entre as políticas identitárias e o radicalismo da extrema direita? Acho que melhoramos e pioramos ao mesmo tempo. Existe uma questão moral, filosófica, sociológica muito importante que é o fato de convivermos todos os dias com coisas positivas e negativas. Os avanços criam outras dificuldades. É curioso, mas os extremos que levam ao progresso também são motivo de resistência e atraso. Os limites são puxados para cima e para baixo, à direita e à esquerda. Sempre que pensamos em progredir, em crescer, pensamos no lado positivo. Mas devemos pensar também no lado negativo desse crescimento. Todo movimento provoca alguma reação, mas sou absolutamente contrário à desonestidade e à violência. Uma democracia exige imparcialidade. Como fazer isso dentro de uma sociedade familística? Se você virar governador, não vai dar um emprego ao seu amigo de infância que está desempregado? Ao primo que está passando necessidade? Ao irmão que tem um emprego sazonal, arriscado? As obrigações do parentesco corroem a imparcialidade da administração pública do Brasil há séculos. Indígenas ou índios? Índios, claro. Essa discussão é muito boboca. Índio é apenas um nome. Todo mundo sabe que eles foram chamados de índios porque os navegadores acharam que estavam chegando às Índias. Como o senhor vê a ascensão dos evangélicos no Brasil nas últimas décadas? O que caracteriza o protestantismo em geral, seguindo aqui, mais ou menos, Max Weber em A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, é o individualismo, a ideia de se desvencilhar das relações pessoais, da dependência que caracteriza a sociedade moderna, em que o todo é mais importante do que a parte. As igrejas evangélicas entenderam e abraçaram as dinâmicas do capitalismo e do mercado moderno de forma muito melhor que a Igreja Católica, oferecendo uma justificativa espiritual e moral para a ascensão social. Mas é uma transição dramática, que envolve rupturas, abala pilares da sociedade. Há um conjunto de impulsos, tendências, eventos e fatos que rompem com tradições do Brasil de forma muito acelerada e podem passar essa impressão errada de fim do mundo. Mas esse movimento pode estar por trás da nova onda conservadora? Do ponto de vista da ética, somos reacionários, seguimos um sistema ético do século 19. O evangelismo surpreende porque não tem uma igreja, são templos, grupos, uma multiplicidade maior de vozes, que acabou aparecendo com mais nitidez na direita ou na centro-direita, com tendência a radicalismos e posições extremadas. Mas o evangelismo pode ser libertador no sentido de que permite a emergência e a elaboração de certos problemas humanos e sociais muito importantes. É libertador no sentido de que nos tira de uma situação em que há uma religião dominante; precisamos ter visões alternativas, críticas. Mas tudo depende das lideranças. No caso do Brasil, eu não entraria na igreja do bispo (Edir) Macedo.terça-feira, 28 de julho de 2026
A Linha de Frente
📰 A CHAMADA DA ESTAÇÃO
O CACHORRO, O RABO E OS TRILHOS TROCADOS DA NAÇÃO
A engrenagem nacional em curto-circuito: quando os vagões de cauda juram que guiam a viagem, a massa descobre que está empurrando uma máquina sem carcaça.
🚂 APERTE O PLAY PARA DAR A PARTIDA NA COMPOSIÇÃO:
"Primeira Linha" (1930) - Benedicto Lacerda e Grupo Gente do Morro (Comp. Heitor dos Prazeres)
Clique aqui para ouvir diretamente no YouTube se o player falhar na plataforma.
No balanço das bitolas, a fumaça da locomotiva redesenha o céu da Central. Quem dita a marcha? É a máquina que arrasta a massa ou a massa que empurra a máquina? Entre a goela seca da nossa gente e o cheiro do churrasquinho de gato que tomou o lugar da prometida picanha, a fumaça da Maria — datilógrafa fiel deste pasquim — registra no ritmo dos pistões. Olhamos para o horizonte como quem olha para o balcão daquela velha churrascaria de Ipanema onde Tom Jobim costumava dedilhar notas flutuantes no colarinho do chope.
BOLETIM DA PLATAFORMA
O Tabloide da Planície e Central do Brasil
Diretor-Geral: Zé do Trem | Datilografia e Inspiração: A Musa da Maria Fumaça
Ano LXXVI – Edição das Seis da Matina – Sob o Nevoeiro do Progresso
📰 A MANCHETE DA CAPA
O RABO COMANDA O CACHORRO OU O CACHORRO COMANDA O RABO?
No balanço das bitolas, a fumaça da locomotiva redesenha o céu da Central. Quem dita a marcha? É a máquina que arrasta a massa ou a massa que empurra a máquina? Entre a goela seca da nossa gente e o cheiro do churrasquinho de gato que tomou o lugar da prometida picanha, a fumaça da Maria — datilógrafa fiel deste pasquim — datilografa no ritmo dos pistões. Olhamos para o horizonte como quem olha para o balcão daquela velha churrascaria de Ipanema onde Tom Jobim costumava dedilhar notas flutuantes no colarinho do chope.
🌐 CADERNO DE GEOPOLÍTICA: DA PLANÍCIE AO MUNDO
As declarações do presidente argentino Javier Milei contra Lula geraram forte crise diplomática e a convocação do embaixador brasileiro, mas o governo adota cautela e descarta declarar Milei persona non grata. Sobre os EUA, embora o Brasil repudie o "tarifaço" comercial imposto pelo governo Trump, o setor produtivo e o alto escalão evitam uma retaliação direta via Lei de Reciprocidade para não agravar o cerco econômico, preferindo negociações e o contencioso na OMC.
🌍 COLUNA DO CORRESPONDENTE INTERNACIONALISTA
O "Três em Um" de Lula em 2026: Milei, Bolsonaro e Netanyahu Apertados no Gabinete de Trump
Em 1989, Fernando Collor de Mello subiu ao palanque para acusar pateticamente que o operário guardava na sala um moderno aparelho de som "Três em Um". Naquele mesmo ano, apontou o dedo para as nossas indústrias, chamando as carroças nacionais (da Villares et tal) de lixo tecnológico. Passaram-se quase quarenta anos. A grande ironia da conjuntura eleitoral é que Lula encontrou o seu próprio "Três em Um" retórico: elegeu Donald Trump como o seu adversário universal, fundindo Javier Milei, Jair Bolsonaro e Benjamin Netanyahu dentro de uma única carcaça americana para não ter que explicar os desvios da nossa própria plataforma.
📜 O ÚLTIMO DESVIO: ULYSSES À DERIVA
A verdade nua é que nem Lula e nem Bolsonaro carregam em suas bagagens a têmpera ou a estatura de Ulysses Guimarães. Se há alguém que caminhou nos mesmos trilhos de Ulysses, esse alguém foi Fernando Henrique Cardoso. FHC foi com o "Velho de Guerra" quase até o fim da linha. Mas o ano de 1989 foi o pátio de manobras onde a ambição individual descarrilou a gratidão. Deixaram Ulysses Guimarães à deriva, isolado na plataforma, vendo as naus e as modernas embarcações do marketing político zarparem em direção ao poder. O resto é história e mito.
Gravura II: O Naufrágio da Nova República e os desvios no fundo do mar de Angra. Traço do Boletim.
🎨 VAGÃO INAUGURAL: A HOMENAGEM A HEITOR DOS PRAZERES
Para abrir as alas da nossa composição nas paredes dos caixotes de ferro da Central, a nossa rotativa rodou o traço imorredouro do mestre do samba. O orvalho vem caindo e a malandragem pede passagem na gare!
Gravura I: O samba toma conta dos trilhos da Central. Estilo Heitor dos Prazeres.
📻 A CAIXA DE SOM: "VELHA ROUPA COLORIDA" E AS LÁGRIMAS NA GARE
O Zé do Trem assumiu as carrapetas da estação e soltou a agulha no peito de Sobral. Quando Belchior começou a berrar que o passado é uma roupa que não nos serve mais, os cabras cearenses pararam com as malas na mão. O choro correu solto e a nossa datilógrafa Maria teve que correr com o pano de estopa para secar o pranto que inundou a plataforma.
🎵 AGORA TOCANDO NA VITROLA DO ZÉ:
Belchior - Velha Roupa Colorida (Ao Vivo)
📌 FUNDAMENTAÇÃO E FONTES JORNALÍSTICAS
- Agência Estado / UOL: Registro oficial sobre a crise diplomática e a convocação do embaixador brasileiro na Argentina após os ataques de Milei.
- Folha de S.Paulo (Painel): Análise de bastidores do Itamaraty sobre a adoção de cautela e a rejeição à declaração de persona non grata.
- BBC News Brasil & Correio Braziliense: Dados econômicos e técnicos sobre o "tarifaço" comercial de Donald Trump e a abstenção de retaliação imediata pelo governo brasileiro.
(Fim da Transmissão da Boneca – Rodar as Rotativas antes que o dia clareie de vez)
























