sexta-feira, 23 de outubro de 2026

“AS ÁGUAS BARRENTAS DO PARAIBUNA: ENTRE A TRADIÇÃO DOS POETAS E AS TEMPESTADES DA NOSSA JOVEM DEMOCRACIA”

Crônica da antevéspera de 25 de outubro de 2026: do caralho da gávea jesuíta aos coadores de sigilo na Zona da Mata
Zeca Pagodinho - Beija-Me (Video Clip) html

DAS GÁVEAS DE PORTUGAL AO PORTÃO 1.600: UMA CRÔNICA SAPECA NA ANTEVÉSPERA DO DOUS DE OUTUBRO

Postado na antevéspera de 25 de outubro de 2026 — Sob o olhar atento da memória de Juiz de Fora

Mar agitado na Baía de Guanabara com cargueiros modernos

O mar revolto da história: a Baía testemunha a passagem do tempo e das frotas.

Diz-se na boa cartilha da história pátria que o Iluminismo, quando desceu as encostas do Douro pelas mãos de Sebastião José de Carvalho e Melo, o temido Marquês de Pombal, trazia uma obsessão quase cirúrgica pelo ordenamento. Pombal queria o império alinhado à régua, os jesuítas banidos em 1759 e a instrução pública livre de silogismos religiosos. Mas o que o austero ministro nunca previu é que, séculos depois, no exato metro linear número 1.600 da Avenida Presidente Itamar Franco (a eterna Independência, em Juiz de Fora), a geometria urbana e a carne estudantil haveriam de pregar-lhe uma peça de fina e doce malícia.

Corta a cena para esta sexta-feira fria de outubro de 2026. A nossa breve, atribulada e curta democracia ferve na antevéspera do segundo turno das eleições presidenciais, marcado para este domingo, 25 de outubro. No portão do Colégio dos Jesuítas, instituição plantada na antiga Chácara das Palmeiras na década de 1950, o ar está carregado de promessas e de exaustão. Foi ali, naquele limiar de ferro e asfalto, que uma jovem parzinha de seus doze para treze anos proferiu a sentença que paralisou o tempo: "Tenho uma caralhada de matéria para estudar. Tenho que viajar."

A frase, capturada pelo ouvido atento e anotada no caderno de um elegante senhorzinho de quase 81 anos, uniu dois mundos separados por sete décadas de travessuras coloniais e contemporâneas. Esse nobre ancião, que ali frequentou o mesmo chão nos idos em que a disciplina era rígida e a batina preta impunha respeito, sorriu de canto de boca. Na sua época, o reitor e xerife da moral era o temido Padre Benjamim — a quem a malandragem dos pares de calças curtas, longe dos ouvidos sacros, apelidara carinhosamente de "Picão". Pode isso, Arnaldo? A regra é clara: a irreverência escolar é a única instituição que nunca racha.

Mastro de caravela antiga com destaque para o cesto da gávea

A gávea isolada: o "caralho" náutico onde o estudante cumpre seu castigo pré-férias.

Se Pombal exigia o rigor das posturas, o poeta Manuel Maria Barbosa du Bocage, lá do seu confessionário profano e libertino, assinaria embaixo da exclamação da menina com um soneto obsceno de aplausos. Pois a etimologia, essa ciência despudorada, não nos deixa mentir: a "caralhada" de apostilas que a jovem carrega nos braços remete, textualmente, ao mastro principal das antigas naus portuguesas. O caralho era a cestinha da gávea, aquele posto alto e isolado onde o marujo rebelde pagava seus pecados ao vento congelante, tonto de tanto balançar, tentando avistar o contorno de uma terra prometida.

Caravela antiga enfrentando tempestade violenta com a Cruz de Cristo nas velas

Hastes ao vento: a cruz colonial rasgando o mar sob o peso das obrigações.

Assim viaja a mente do estudante moderno: empurrado para a gávea pelo peso dos exames, com hastes e carajos ao vento, olhando o horizonte urbano e sonhando com a fuga do final de semana. Enquanto isso, o noticiário de outubro de 2026 nos sobra que, em outra embarcação bem menos sacra flutuando na Baía de Guanabara, as elites políticas e os banqueiros de terno caro — o elo contemporâneo de Flávio e Vorcaro, cujos ecos da investigação bizarramente cruzaram as mesas da Delegacia da Polícia Federal da própria Juiz de Fora — celebram seus acordos sigilosos em um verdadeiro bacaba de influências, regado a vinhos densos, mimos de luxo e iates de alta linhagem.

Iate de luxo moderno na Baía de Guanabara durante o entardecer

A nau dos privilegiados: a bizarra apoteose moderna que esbarra no interior mineiro.

Passa-se a régua, portanto, na calçada do número 1.600. O número, que a engenharia urbana jura ser apenas a distância métrica até o marco zero, finge homenagear o século XVI da chegada dos padres de Nóbrega e Anchieta. Mas a verdade que se estampa na fresta do portão é outra, puramente boccagiana: o colégio jesuíta continua a ser a nau que cruza o mar revolto da nossa história. Entre a memória do Padre Benjamim, o "Picão", e o desabafo libertador da menininha de 2026, a juventude juiz-forana segue firme, despachando as obrigações para a gávea e cruzando os portões em busca da estrada, antes que as urnas de domingo decidam o rumo da tempestade.

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Eleições 2026: confira as principais datas do calendário eleitoral Resolução informa que cidadãs e cidadãos devem solicitar o título de eleitor até 6 de maio para participar do pleito 06/03/2026 11:35 - Atualizado em 14/10/2026 12:03 Compartilhar página por e-mail Compartilhar pagina via Facebook Compartilhar página no WhatsApp Foto: Luiz Roberto/TSE Edifício-sede do TSE, em Brasília. Foto: Luiz Roberto/Secom/TSE O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aprovou, em sessão extraordinária administrativa realizada no dia 2 de março de 2026, a Resolução nº 23.760, que estabelece o calendário oficial das Eleições Gerais de 2026. Cidadãs e cidadãos que necessitam solicitar o primeiro título de eleitor, realizar transferências de domicílio ou revisar dados cadastrais têm até o dia 6 de maio de 2026 para fazê-lo de forma presencial. A partir do dia 7 de maio de 2026, o cadastro eleitoral estará oficialmente fechado para novos pedidos, reabrindo apenas após o término do pleito. As Eleições de 2026 ocorrerão no dia 4 de outubro de 2026 (1º turno), oportunidade em que serão eleitos os cargos de presidente da República, governadores, senadores e deputados federais, estaduais e distritais. Nos casos em que houver necessidade de 2º turno, a votação ocorrerá no dia 25 de outubro de 2026. Abaixo, confira cronologicamente as principais datas do calendário eleitoral: Janeiro de 2026 1º de janeiro: Início do registro obrigatório na Justiça Eleitoral de pesquisas de opinião pública que venham a ser divulgadas sobre o pleito ou sobre possíveis candidatos. Passam a valer também os limites de gastos com publicidade dos órgãos públicos e a proibição da distribuição gratuita de bens, valores ou benefícios pela administração pública (salvo emergências ou programas sociais preexistentes). Março de 2026 5 de março a 3 de abril: Período da janela partidária, prazo no qual deputadas e deputados federais, estaduais e distritais podem trocar de partido para concorrer às eleições sem risco de perda do cargo eletivo por infidelidade partidária. 5 de março: Data-limite para que o TSE publique todas as instruções e resoluções aplicáveis às Eleições de 2026. Abril de 2026 4 de abril (6 meses antes do 1º turno): Prazo final para que partidos políticos e federações obtenham o registro de seus estatutos junto ao TSE. Data-limite para que futuros candidatos fixem seu domicílio eleitoral na circunscrição em que desejam concorrer e estejam com a filiação partidária devidamente aprovada. Prazo final para que o presidente da República, governadores e prefeitos que queiram disputar outros cargos renunciem aos seus respectivos mandatos executivos (desincompatibilização). 7 de abril: Último dia para que eleitoras e eleitores que não possuem cadastro biométrico na Justiça Eleitoral solicitem serviços de alistamento, transferência ou revisão cadastral pela internet, utilizando o Autoatendimento Eleitoral. Maio de 2026 6 de maio: Prazo limite para que eleitores com biometria ou que necessitem de atendimento presencial solicitem emissão do primeiro título, transferência de local de votação ou revisão de dados cadastrais. 7 de maio: O cadastro eleitoral é suspenso (fechado) para novas solicitações. 13 a 15 de maio: Realização, na sede do TSE, do Teste de Confirmação para verificar a efetividade das correções implementadas após o Teste Público de Segurança (TPS 2025). 15 de maio: Pré-candidatas e pré-candidatos estão autorizados a iniciar a arrecadação de recursos financeiros por meio de plataformas homologadas de financiamento coletivo (crowdfunding), desde que não haja pedido explícito de voto. Junho de 2026 1º de junho: Limite para que a União repasse as dotações orçamentárias relativas ao Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) ao TSE. 16 de junho: Prazo final para que o TSE divulgue o montante total disponível do Fundo Eleitoral a ser distribuído aos partidos. 30 de junho: Início da vedação para que emissoras de rádio e TV transmitam programas apresentados ou comentados por pessoas que se apresentem como pré-candidatas ou pré-candidatos. Julho de 2026 4 de julho (3 meses antes do 1º turno): Passam a vigorar restrições severas a agentes públicos, como a proibição de nomeações, demissões sem justa causa, contratações e participação em inaugurações de obras públicas. 20 de julho a 20 de agosto: Período para que eleitores com deficiência ou mobilidade reduzida solicitem transferência para seções eleitorais adaptadas ou facilidades para votação em trânsito. 20 de julho a 5 de agosto: Período oficial para a realização de convenções partidárias destinadas a deliberar sobre coligações e escolher formalmente candidatas e candidatos. Agosto de 2026 5 de agosto: Prazo final para a realização das convenções partidárias. 15 de agosto: Último dia para que partidos políticos, federações e coligações registrem formalmente as suas candidaturas junto à Justiça Eleitoral. 16 de agosto: Início da propaganda eleitoral geral nas ruas e na internet. 28 de agosto a 1º de outubro: Período de exibição do horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão correspondente ao primeiro turno. 6 de agosto: Início do período de proibições severas à programação diária de emissoras de rádio e TV. Fica vedado às emissoras: Transmitir imagens de pesquisas em formatos que identifiquem participantes ou manipulem dados. Veicular qualquer tipo de propaganda política fora do horário reservado por lei. Dar tratamento privilegiado a candidatos, partidos ou coligações. Exibir filmes, novelas ou programas satíricos que contenham alusões negativas ou positivas a candidatos. Setembro de 2026 14 de setembro (20 dias antes do 1º turno): Data limite para a conclusão da Cerimônia de Assinatura Digital e Lacração dos Sistemas Eleitorais pelo TSE. Também se encerra o prazo para solicitações de apoio de transporte por comunidades indígenas e quilombolas. 19 de setembro (15 dias antes do pleito): Candidatas e candidatos não podem ser detidos ou presos, a não ser em flagrante delito. 29 de setembro a 6 de outubro: Eleitoras e eleitores não podem ser presos ou detidos, salvo em flagrante delito, em decorrência de sentença criminal condenatória por crime inafiançável ou por desrespeito a salvo-conduto. Outubro de 2026 3 de outubro: Realização da Cerimônia de Verificação do Sistema de Gerenciamento da Totalização dos resultados eleitorais. 3 a 5 de outubro: Proibição total de transporte de armas e munições por parte de colecionadores, atiradores e caçadores (CACs) em todo o território nacional. 4 de outubro (Primeiro Domingo): Dia das Eleições (1º Turno). A votação inicia às 8h e encerra às 17h, uniformizada em todo o país de acordo com o horário oficial de Brasília. 25 de outubro (Último Domingo): Dia das Eleições (Eventual 2º Turno). Em caso de 2º turno: 9 a 23 de outubro: Veiculação da propaganda eleitoral gratuita no rádio e na TV. 10 de outubro: Candidatos participantes do 2º turno não podem ser presos, exceto em flagrante. 20 de outubro: Eleitores não podem ser presos, exceto em flagrante, por crime inafiançável ou quebra de salvo-conduto. 24 a 26 de outubro: Nova restrição de porte e transporte de armas de fogo para CACs em território nacional. Novembro de 2026 3 de novembro: Reabertura do cadastro eleitoral. Retomam-se os atendimentos presenciais nos cartórios, serviços online de alistamento e transferências pela internet, além da emissão de certidões de quitação eleitoral. Dezembro de 2026 3 de dezembro: Prazo final para que eleitores que deixaram de votar no 1º turno apresentem a justificativa de ausência sem penalidade. 18 de dezembro: Data limite estabelecida para a diplomação das eleitas e dos eleitos pela Justiça Eleitoral. Janeiro de 2027 5 de janeiro de 2027: Posse oficial do presidente da República e do vice-presidente da República eleitos. 6 de janeiro de 2027: Posse oficial dos governadores e vice-governadores estaduais eleitos. 8 de janeiro de 2027: Prazo final para a entrega de justificativa de ausência no 2º turno das eleições ocorridas em outubro. MC/EM/DB GRES Tradição Hoje É Domingo, É Alegria, Vamos Sorrir E Cantar! 2001 Rogério Cardoso 29 de nov. de 2014 Enredo: Hoje É Domingo, É Alegria, Vamos Sorrir E Cantar! Ano: 2001 Autores: Lourenço e Adalto Magalha samba na voz de Celino Dias
Hoje É Domingo, É Alegria. Vamos Sorrir e Cantar! ('01) G.R.E.S. Tradição Os Sambas da Tradição

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

O Ser, o Parecer e a Palavra

Tom Jobim | Sabiá | Inédito Biscoito Fino Áudio oficial da música "Sabiá ", interpretada por Tom Jobim. Tom Jobim foi, sem dúvida, um dos grandes poetas da música brasileira. As gravações de "Inédito" são de 1987 e foram lançadas em álbum duplo em 1995, um ano depois da morte do artista. Todas as músicas foram gravadas em estúdio adaptado na casa de Tom. Perfeito para os amantes da boa música. Ouça o álbum completo em todas as plataformas de música. Letra Sabiá (TOM JOBIM / CHICO BUARQUE) Jack Nicholson BR The Bucket List - Never Trust A Fart "Quase no final do maravilhoso filme Antes de Partir (The Bucket List) de 2007, Jack chega à sua sala, saindo de um lavabo (creio eu) diz para seu jovem gerente que está sentado na poltrona, revisando os papéis:" eu vi um baile de debutantes p.327 html

O Ser, o Parecer e a Palavra:
Uma Jornada do Conceito à Performance

A existência humana oscila entre o que guardamos no íntimo e o que projetamos para o mundo. O dilema entre essência e aparência não é apenas um debate filosófico estéril; ele se manifesta na desconstrução da linguagem, na literatura e na entrega absoluta da performance artística. Este ensaio costura essas três frentes, unindo o conceito original, a arquitetura da palavra e o ápice da expressão humana.

I. A Dialética do Ser e do Parecer

O ponto de partida da nossa reflexão repousa na máxima "ser é parecer". Historicamente, a filosofia tentou separar a essência (a verdade interna) da aparência (a projeção externa). No entanto, a modernidade e a era da performance borraram essas fronteiras.

A aparência deixou de ser apenas um simulacro da verdade para se tornar a própria moeda de troca social. Como antecipou Maquiavel na política e como escancaram as redes sociais contemporâneas, o "parecer" frequentemente dita a realidade prática. O desafio humano reside em equilibrar essa balança: como habitar um palco social sem perder a coerência e a autenticidade do próprio ser?

II. A Arquitetura Fractal da Palavra

Se o ser e o parecer duelam na vida, eles encontram uma trégua na linguagem. A palavra tem o poder de quebrar as aparências para revelar novas essências. Demonstramos isso ao desestruturar três substantivos próprios profundamente enraizados na identidade e na geografia brasileira:

  • Sabiá transmutado em Sá Bia (A transformação da natureza na figura humana e caipira).
  • Delfim transmutado em Del Fim (A transição de um título de nobreza para uma condição existencial e teleológica).
  • Suassuna transmutado em Sua Suma (A fusão de um sobrenome histórico com a ideia de um compêndio de totalidade).

Ao quebrar a casca fonética desses termos, criamos um substantivo composto triplo estruturado de forma fractal. A linguagem aqui opera no nível da essência: ela desconstrói o que a palavra "parece" ser na superfície para criar um novo "ser" poético, um enigma metalinguístico que homenageia a sonoridade e a literatura armorial.

III. A Performance como Fusão da Essência

O ápice desse encontro entre o conceito e a forma se materializa na arte. Na crônica dedicada a Jack Nicholson no livro Pelo Buraco da Fechadura: Eu Vi um Baile de Debutantes, o cronista Mario Prata capta o momento exato em que a técnica e a alma se fundem.

Na cena final do funeral no filme The Bucket List (Antes de Partir), Nicholson "parece improvisar". Ali, o ator quebra a barreira do roteiro (a aparência do personagem) e entrega a sua própria vulnerabilidade diante da finitude (a essência do ser). É o instante em que o parecer se torna tão genuíno que se transforma em ser. O grande artista é aquele que usa a simulação para revelar a verdade mais nua e crua da experiência humana.

[ FILOSOFIA ] Ser vs. Parecer
(Dilema Essencial)
>> [ LINGUAGEM ] Sá Bia, Del Fim
Sua Suma
(Quebra Fractal)
>> [ ARTE / PERFORMANCE ] O Improviso de Nicholson
(A fusão da técnica com a verdade nua)

Conclusão: A Suma de Tudo

Partindo da abstraction filosófica, passando pela desconstrução cirúrgica da palavra, até desaguar na crônica da performance cinematográfica, percebemos que o ser e o parecer não são inimigos excludentes. Eles são as duas faces da mesma moeda existencial. A palavra dita o ritmo, a filosofia provoca o pensamento, e a arte — seja na crônica de Prata ou no olhar de Nicholson — executa a síntese final: parecer, com tanta entrega, até que não reste outra opção a não ser ser.

Nota de encerramento: Com produtividade embutida todos a tinham como premissa implícita, que levavam a trincar e ranger de dentes com as embalagens de crescimento, desenvolvimento e prosperidade: Delfim, Meirelles e Paulo Guedes.
Use o código com cuidado. Antes de Partir - filme completo dublado em portugues Mut tia 1 / 79 html

Amigos do Blog,

Aqui é o Pedro Silveira. Sentem-se confortáveis nas poltronas das suas cabines, pois o mar da economia brasileira nunca é calmo. Para cruzar esse oceano de números herméticos e teses que parecem mais nós táticos de técnicos de gabinete, convidei para sentar aqui na cabine de transmissão o nosso eterno comandante, o homem que já esteve no timão das naus de Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso. Ele que desenhou a jogada ensaiada do Real, da sua gênese nos treinos até os versículos da consagração no gramado. Fala, meu garoto, João Saldanha! Decodifica esse jogo para a moça que está nos ouvindo e pro rapaz que não quer trincar os dentes com o economês.

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Pedro, meus amigos. O negócio é o seguinte, e não tem mistério. Economia é que nem futebol: se você joga para a torcida e esquece de arrumar a defesa, toma de goleada no contra-ataque. E o que a gente viu nessas últimas décadas foi muito técnico de prancheta bonita, metido a sabichão, prometendo o título do "desenvolvimento" sem saber o básico do feijão com arroz.

Vamos botar a bola no chão e olhar o campo por setores, sem borrar a tática.

A Pré-História do Nosso Meio-Campo

Primeiro, vieram os caras que a crônica gosta de incensar. O Delfim jogava naquele estilo antigo, do "deixa o bolo crescer que depois a gente divide". O resultado? O bolo cresceu, os cartolas comeram tudo na tribuna de honra e a geral ficou com fome, na base do arrocho. Anos depois, o Meirelles entrou com aquela retranca italiana, o tal do Teto de Gastos. Trancou o time lá atrás, proibiu o apoio dos laterais e o povo ficou sem saúde e sem educação. Aí veio o Paulo Guedes, o ultraliberal da praia, prometendo um "boom" de investimentos que parecia aquele ponta-esquerda cisca-cisca: corre, faz fumaça, pedala, mas não cruza uma bola na área. Vendeu os anéis e os dedos do Estado e entregou a inflação no preço do arroz e do feijão.

Aí o torcedor me pergunta: "E os governos que vieram depois, João?" Vamos por partes.

2003 a 2006: O Palocci jogando na segurança

Quando o Lula assumiu em 2003, todo mundo achava que o time ia partir para o ataque desordenado. Que nada. O Antonio Palocci pegou o esquema tático que a gente tinha deixado redondinho no governo do Fernando Henrique — o Tripé Macroeconômico — e não mexeu em time que está ganhando. Manteve o superávit, garantiu a defesa e o mercado se acalmou. Com a casa arrumada, sobrou espaço para o passe curto: o Bolsa Família e o aumento real do salário mínimo. Foi um feijão com arroz bem temperado. O time não deu espetáculo de cara, mas ganhou os três pontos.

2007 a 2014: O Mantega e o ataque total (que virou chuveirinho)

Aí o Palocci saiu e o Guido Mantega assumiu a camisa 10. No começo, de 2007 a 2010, pegou o vento a favor das commodities — o nosso atacante de área que estava iluminado. O Mantega olhou pro banco e falou: "Vamos pro ataque!". Lançou o PAC, botou o BNDES e os bancos públicos para tabelar no ataque, injetando crédito na praça. O consumo explodiu, a torcida fez a festa.

Só que o sujeito se empolgou, Pedro. De 2011 a 2014, já no governo Dilma, o jogo mudou lá fora, mas o Mantega continuou querendo jogar no ataque total. Inventou a tal da "Nova Matriz Econômica". Forçou a queda dos juros no grito do treinador, deu desoneração fiscal para a indústria como quem distribui bicho adiantado e tabelou o preço da gasolina e da energia na marra. O que aconteceu? O meio-campo desguarneceu, as contas públicas estouraram e o time cansou. Foi o início do sufoco.

2015 a 2016: O Ajuste no Desespero

O segundo tempo da Dilma foi uma bagunça tática tremenda. Ela viu que o esquema do Mantega tinha falido e chamou o Joaquim Levy, o "Mãos de Tesoura", que jogava na escola do Meirelles. O cara quis dar um cavalo de pau no time no meio do campeonato. Cortou tudo, travou as jogadas, mas o vestiário já estava rachado com o Congresso. Não teve esquema tático que salvasse. O Nelson Barbosa ainda tentou entrar no finalzinho para acalmar os ânimos, mas a nau já tinha colidido com o iceberg do impeachment.

2023 a 2026: O Haddad e o esquema do "Novo Arcabouço"

E agora, meus amigos, nessa última temporada de 2023 a 2026, quem assumiu a prancheta foi o Fernando Haddad. O homem pegou o time destroçado depois do Guedes e teve que inventar um esquema novo porque o Teto de Gastos do Temer e do Meirelles já tinha estourado faz tempo.

O que o Haddad fez? Criou o "Novo Arcabouço Fiscal". Em vez de prender o time na zaga que nem o Meirelles, ou de abrir as pernas e privatizar tudo que nem o Guedes, ele propôs um equilíbrio: o gasto do governo só cresce se a receita crescer. É o legítimo esquema 4-4-2 moderno. Para financiar o social e os investimentos públicos, ele foi buscar receita onde os outros técnicos não tinham coragem de mexer: foi taxar as apostas esportivas, as compras dos ricaços no exterior, as grandes empresas. Buscou o equilíbrio fiscal não cortando a perna do trabalhador, mas cobrando de quem estava assistindo ao jogo de camarote. Foi pragmático. Não é o futebol arte que a ala mais radical queria, mas manteve a inflação sob controle e o PIB rodando sem a torcida quebrar as cadeiras do estádio.

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É isso, meus amigos do Blog. João Saldanha matou a bola no peito e colocou no ângulo. A economia brasileira é um campeonato longo, cheio de técnicos que prometem a taça da prosperidade na base do gogó, mas a verdade é que só ganha quem equilibra a responsabilidade no bolso com a comida no prato do povo. Um abraço e até a próxima viagem!

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Antes de partir – um filme sobre tudo o que é importante na vida Um diagnóstico de câncer é sempre algo assustador, que nos coloca sob a perspectiva da nossa própria morte. Foi isso que aconteceu com Carter Chambers (Morgan Freeman), um mecânico que é levado ao hospital após passar mal durante um tratamento experimental para combater o câncer, e com Edward Cole (Jack Nicholson), o dono do hospital, que também está internado por causa da doença. O contraste entre os dois homens de meia idade é interessante: dividem o quarto do hospital um humilde trabalhador casado e pai de família, e um rico administrador, que apesar de achar incômodo dividir o quarto com um estranho nada pode fazer, pois foi ele mesmo quem criou a política de dois leitos por quarto, para ganhar mais dinheiro com o hospital. Eleição dos rejeitados: Lula pressiona por erro de Flávio Bolsonaro | Estadão Analisa Estadão Analisa 2 / 1.032
quinta-feira, 22 de outubro de 2026 Volatilidade do voto sobe e TSE discute proibir canais do "zap", por Luiz Carlos Azedo Correio Braziliense Enquanto aguarda explicações da Meta, o Tribunal Superior Eleitoral admite restringir canais políticos de WhatsApp com mais de 200 mil seguidores nas 48 horas anteriores à votação Na reta de chegada da campanha presidencial, aumentaram o contingente e a volatilidade dos indecisos, talvez porque a dureza dos ataques entre os candidatos tenha também provocado mais rejeição. Flávio Bolsonaro mantém o favoritismo numérico nas cinco pesquisas divulgadas ontem, mas sua vantagem sobre Luiz Inácio Lula da Silva é estreita. O aumento dos indecisos gera instabilidade nas campanhas e mostra que, agora, sim, a maioria dos eleitores entrou no debate eleitoral. Lula e Flávio também intensificam a presença nas redes e a mobilização dos apoiadores. Nesse ambiente, decisões do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre o funcionamento das plataformas podem interferir na capacidade de cada candidatura alcançar justamente quem ainda hesita. A Quaest registra de forma clara a mudança. Na pergunta espontânea, sem apresentação dos nomes dos candidatos, os indecisos passaram de 7% para 14% em uma semana. Flávio recuou de 43% para 40%, enquanto Lula passou de 42% para 40%. Na pesquisa estimulada, porém, quando os nomes são apresentados, a indefinição fica em 2%, ante 1% anteriormente. Ou seja, a hesitação é maior do que aquela captada pela escolha direta entre os dois concorrentes. A alteração é especialmente significativa entre mulheres e independentes. No eleitorado feminino, as indecisas passaram de 8% para 17% — Lula perdeu quatro pontos e Flávio, cinco. Entre os homens, a indefinição cresceu três pontos. Entre os independentes, o salto foi ainda maior: de 13% para 31%, acompanhado de recuos de 10 pontos para Lula e cinco para Flávio. Na direita não bolsonarista, o candidato do PL caiu de 89% para 82%, enquanto os indecisos chegaram a 9%. São segmentos nos quais as fidelidades políticas oferecem menor proteção contra o desgaste da campanha. O debate de domingo passado, marcado por acusações recíprocas, ajuda a analisar esse desconforto, embora a pesquisa não permita atribuir toda a mudança ao confronto: as entrevistas ocorreram entre os dias 17 e 20, abrangendo momentos anteriores e posteriores ao encontro. Na prática, com o confronto direto, os candidatos mobilizaram suas campanhas, mas deixaram parte do público sem resposta para preocupações concretas. A circulação incessante de cortes nas imagens do debate, para atacar os adversários, prolongou as polêmicas nos celulares e pode ampliar tanto a rejeição quanto a disposição de reconsiderar o voto. Nos votos válidos, Flávio aparece com 50,7% na Veritá, cerca de 50,6% na Quaest, 51,1% na Futura, aproximadamente 51% na Palver e 51,1% na Ideia. Todas lhe dão vantagem numérica, dentro das respectivas margens de erro. A distância para Lula diminuiu nas séries Veritá e Quaest, mas aumentou na Futura e na Palver. O favoritismo permanece sendo de Flávio, mas a disputa continua aberta e não se pode descartar uma virada de Lula. Mordaça É nesse cenário que a atuação do TSE preocupa. O Conselho de Supervisão da Meta, órgão independente, reconheceu falhas na aplicação das políticas antifraude às contas de anúncios de Lula e cobrou revisão especializada. A manifestação dá substância às reclamações de tratamento desigual. A empresa, por sua vez, nega interferência política e atribui os episódios a problemas técnicos. O reconhecimento das falhas exige apuração de seus efeitos e se houve favorecimento deliberado. Os episódios apontados como interferência ao impulsionamento de publicações de Lula e diferenças na geração de imagens pela inteligência artificial. A Meta admitiu que seus filtros nem sempre reconheciam candidatos identificados pela combinação de prenome e número eleitoral. O TSE determinou correções e comprovação de tratamento igualitário e, ontem, deu prazo de 24 horas ao Ministério Público Eleitoral para avaliar as medidas. Houve providências, mas a demora é injustificável. Numa campanha tão curta, uma oportunidade de comunicação perdida dificilmente pode ser restituída depois. Enquanto aguarda explicações da plataforma, a cúpula do tribunal discute restringir canais políticos de WhatsApp com mais de 200 mil seguidores nas 48 horas anteriores à votação. O alcance formal seria geral, mas o impacto político da mordaça seria desigual: o Exército do Lula, com mais de 7 milhões de inscritos, tornou-se instrumento central da reação petista nas redes e nas ruas, enquanto o canal Tropa do Flávio tem 2,5 milhões. Após a repercussão negativa da iniciativa, Nunes Marques afirmou rejeitar mudanças de última hora; Mendonça sustentou que a minuta resultou de discussão coletiva. A Corte deverá tomar uma decisão ainda hoje. Os precedentes são preocupantes. Nunes Marques suspendeu o canal a pedido da campanha de Flávio. O relator Ricardo Villas Bôas Cueva restabeleceu seu funcionamento diante da insuficiência de provas. A análise técnica não localizou os conteúdos apontados, embora registrasse lacunas decorrentes de mensagens apagadas ou editadas. Depois de novo bloqueio, o registro formal pela campanha permitiu sua liberação. Combater ilícitos exige provas, rapidez e proporcionalidade. Discutir uma restrição geral às vésperas da votação, depois desse vaivém, abala a previsibilidade que a Corte deve assegurar. Com indecisos em alta e diferenças mínimas nas pesquisas, a paridade de armas precisa ser demonstrada em decisões coerentes. A confiança no resultado também depende da confiança nas condições da disputa.
quinta-feira, 22 de outubro de 2026 Flávio promete a volta de programa que abriu brechas para lavagem de dinheiro pelo PCC, por Adriana Fernandes Folha de S. Paulo Perse é o pior benefício tributário de todos os tempos Não é mera coincidência que no mesmo dia o candidato tenha se reunido com mais de 30 sertanejos em Goiânia; eles foram os grandes beneficiários dessa farra tributária O Perse é o maior programa de lavagem de dinheiro e sonegação do país. Não é a coluna quem afirma. São os investigadores que há pelo menos três anos apuram as irregularidades possibilitadas pelas brechas nas regras do benefício tributário, criado pelo governo Jair Bolsonaro para socorrer o setor de eventos dos prejuízos com a pandemia da Covid-19. Em 2024, a Folha revelou que fiscais da Receita tinham encontrado no programa indícios de operações de lavagem de dinheiro de atividades ilícitas no país, após o custo do benefício tributário explodir no ano anterior. Em março daquele mesmo ano, a Polícia Federal e a Receita Federal lançaram uma ofensiva para fechar o cerco contra os crimes cometidos por empresas beneficiárias do Perse. Empresas investigadas na operação Latus Actio eram suspeitas de integrar um esquema de lavagem de dinheiro para o PCC. As empresas utilizadas para lavagem de dinheiro se valeram do Perse para não pagar imposto. O benefício se tornou um atrativo para que firmas do setor de eventos, ou registradas como se fossem atuantes na área, fossem utilizadas para ilegalidades. As operações Jogo de Sombras, Arena e Conto da Sorte deste ano apuraram o uso de empresas de eventos para a lavagem de dinheiro de bets. Apesar de o programa ser uma porta aberta para fraudes, o Perse foi renovado com apoio de parlamentares do alto clero do Congresso e ganhou um teto de R$ 15 bilhões de renúncia fiscal. Em abril do ano passado, o programa foi encerrado porque o limite foi atingido rapidamente. Mesmo com todo esse histórico nefasto, Flávio Bolsonaro anunciou que vai ressuscitar o Perse. É mais uma medida na direção oposta à do programa de ajuste fiscal prometido pela sua equipe econômica, de cortar renúncias para reduzir a dívida pública. Não é mera coincidência que no mesmo dia o candidato tenha se reunido com mais de 30 sertanejos em Goiânia. Eles foram os grandes beneficiários dessa farra tributária. Não há privilégio maior: pagar zero de imposto para desfilar por aí em seus jatinhos.

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

J’ouviu

Shemá Israel ("Ouça, Israel")
"E, depois, voltará o sol?"
quarta-feira, 21 de outubro de 2026 Flávio Bolsonaro não consegue dissipar minhas suspeitas, por Wilson Gomes Folha de S. Paulo Defesa da ditadura e promessa de reabilitar o pai suscitam dúvidas sobre seu compromisso democrático Divergências políticas são aceitáveis; o respeito ao Estado de Direito não é negociável Certamente não são pessoas como eu que Flávio Bolsonaro tenta convencer por meio de posts, discursos, sabatinas e debates. De resto, com a minha aversão ao gregarismo ideológico e o meu natural ceticismo, não devo mesmo ser o público-alvo de qualquer campanha. Afinal, meu marxismo é mais o de Groucho Marx ("não entro em clubes que aceitem pessoas como eu") que o de Karl, e minha abordagem dos candidatos sempre foi mais parecida com a de um consumidor que com a de um militante apaixonado. E, sim, acredito em coisas que causam repugnância em quem moraliza excessivamente a política, como votar no menos pior disponível —sem guardar meu voto para o candidato ideal como quem se guarda para a mulher da sua vida. Política é outro tipo de negócio. Dito isso, Flávio Bolsonaro tem fracassado completamente em dissipar uma inquietação essencial sobre os anos da sua eventual Presidência: seu compromisso com a ordem liberal-democrática. Não se trata do vago apelo a "salvar a democracia", de que o lulismo tanto abusou, confundindo frequentemente a defesa da democracia com a defesa da sua própria agenda política, como se não pudesse haver democracia fora da esquerda. Sei que cada um tem seus temores diante do futuro do país com Lula ou com os Bolsonaros —sim, no plural, porque eles costumam governar os quatro ao mesmo tempo, como vimos da última vez. Sei também que algumas listas de exigências são feitas sob medida para que só caiba nelas um candidato de esquerda, quando não o próprio Lula. Não é o meu caso. Não tenho dificuldade em aceitar que o Brasil seja governado por alguém de direita, conservador ou adversário daquilo em que acredito. A vontade da maioria eleitoral não tem obrigação de coincidir com a minha. Mas, para confiar a Flávio o governo do país, precisaria de razões para acreditar que ele e seu círculo próximo respeitarão as regras do jogo quando elas contrariarem seus interesses. A democracia liberal não se resume a eleições periódicas. Exige respeito à separação dos Poderes, ao Estado de Direito, aos limites da autoridade presidencial e, sobretudo, à possibilidade de perder eleições e deixar o poder. Não se trata apenas de saber o que Flávio conhecia ou desconhecia dos planos golpistas do pai. Ele mesmo passou anos defendendo, em livro e discursos, o golpe de 1964, celebrando a ditadura militar e exaltando alguns dos seus mais notórios agentes de repressão. Não é um passado que o condene a pensar assim para sempre, mas, com semelhante histórico pessoal e familiar, caberia a ele, mais do que a qualquer outro, convencer-nos de que se converteu às convicções liberal-democráticas. Na campanha, ele chegou a prometer que respeitará o resultado das urnas e que não disputará a reeleição. Promessas não são garantias, naturalmente. Ainda mais quando, ao anunciar que não pretende se reeleger, deixa aberta a possibilidade de ser beneficiado por uma extensão do próprio mandato. Mas o problema maior é outro: como conciliar essas declarações com sua atitude diante da tentativa de golpe de Estado pela qual o pai foi condenado? Flávio não precisaria negar, contra as evidências reconhecidas pela Justiça, o envolvimento de Jair Bolsonaro na tentativa de impedir a alternância de poder. Bastaria convencer-me de que, sob seu governo, não se repetiria coisa semelhante. Em vez disso, trata a condenação do pai como uma injustiça a reparar, promete beneficiá-lo com o perdão presidencial e quer receber dele a faixa na posse. Como símbolo inaugural do novo governo, imagina receber a transmissão da autoridade republicana justamente de quem foi condenado por tentar subvertê-la. Um tapa na cara da democracia. Não estamos falando de uma divergência sobre decisões do STF, mas de uma tentativa de golpe de Estado que incluiu planos para assassinar o presidente, o vice-presidente e um ministro do Supremo, admitindo até a morte de civis como dano colateral. E de uma ação de sedição, em 8 de janeiro de 2023, que Flávio insiste em tratar como manifestação cívica injustamente punida. Não é uma questão de simpatia pelo Judiciário, mas de compromisso com os limites que nenhuma disputa pelo poder pode legitimamente ultrapassar. Posso aceitar de um candidato quase qualquer divergência política, por mais profunda que seja, mas não posso transigir, sobretudo em tempos tão turbulentos, quanto ao seu compromisso com o Estado de Direito e com os direitos e garantias fundamentais. E Flávio Bolsonaro tem feito muito mais para alimentar minhas suspeitas que para dissipá-las. Elis Regina | Arrastão (TV Excelsior, 1965) Arquivo Elis Regina 2 de fev. de 2022 No dia 30 de março de 1965, Elis Regina se apresentou na segunda eliminatória do I Festival De Música Popular Brasileira, realizado pela TV Excelsior. Elis venceu com a música "Arrastão", de Edu Lobo e Vinícius de Morais. Este festival é considerado um marco na carreira de Elis Regina, e uma inauguração de um novo estilo musical chamado de "música popular brasileira". Este vídeo estava no canal "Vídeo Archives Brasil", porém ele foi desativado do Youtube. Considerando este espaço como um meio de conservação cultural da carreira de Elis Regina, repostamos este vídeo, agradecendo eternamente ao dono do canal por ter resgatado este momento tão importante na carreira de Elis e na música popular brasileira.
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No caminho tinha uma via Tinha uma via no caminho No meio do caminho tinha um meio Tinha um meio no caminho do meio Minhas lentes trocadas jamais esquecerão No meio do caminho tinha uma via.

E agora caminho? O sol? Nas bancas? Barrancas Nos bancos? Cê Sol Cê Sol P?

turvo turvo A via no meio da boca O sol que bate nas bancas de jornal Desaba nas barrancas do rio anil E agora caminho? Por entre a louça da cristaleira E os bancos da praça deserta onde a noite esfriou? Cê Sol Cê sol de são luís Cê sol p? P de pátria, p de pólvora, p de porco

— Olá, como vai? — Eu vou indo correndo pegar meu lugar no futuro Com minhas lentes trocadas, e você? — Me perdoe a pressa, É a poeira das ruas, é o gado, é o esgoto Escorrendo no meio do caminho. Tanta coisa que eu tinha a dizer Mas me foge o foco, me foge a lembrança, O ferro do rock racha o peito do samba, E a gente só anda a cem. Por favor, telefone. Preciso beber. O sol das bancas faliu na contramão. Adeus. Adeus, José. Vermelho. O sinal. Não vai abrir.

Use o código com cuidado. Paulinho da Viola e Lobão: Sinal Fechado (ao vivo) | 1989 Acervo Alex Abreu Estreou em 19 de set. de 2021 #AcervoAlexAbreu #SinalFechado #Homem90 Atualmente às voltas com o lançamento do novo álbum "Canções de Quarentena", concebido a partir do isolamento forçado que aproveitou para mergulhar em sua memória afetiva e nos trazer à tona releituras de pérolas da nossa música , em 1989 Lobão já exibira sua filiação aos clássicos da MPB neste dueto/diálogo com o mestre Paulinho da Viola - valorizado pelo violoncelo de Jaques Morelenbaum - na emblemática "Sinal Fechado", composição lançada 20 anos antes, nos áureos tempos dos festivais da Record (sagrou-se a campeã da 5ª edição), e que até hoje, cinco décadas depois, ainda rende teses acadêmicas por conta da sua rica construção musical e da letra de forte viés filosófico - não por acaso, em 2009 cravou a 18ª posição no ranking das 100 maiores músicas brasileiras de todos os tempos. Sobe o som! #AcervoAlexAbreu #SinalFechado #Homem90
quarta-feira, 21 de outubro de 2026 Depois da anistia, o acordo? Por Marcelo Godoy O Estado de S. Paulo Proposta de perdão aos condenados se renova sob o signo do oportunismo em vez da Justiça Como seria uma “política da justa memória”? Essa preocupação moveu o filósofo Paul Ricoeur a uma reflexão sobre o saber histórico, as manifestações da memória e o esquecimento, ou seja, como representamos o passado. Eis um tema indissociável do presente: como recordar o que se passou na última década? Os erros e abusos da Operação Lava Jato criaram impunidade, mas não apagaram os crimes. O esquecimento e o abuso da memória levaram a Daniel Vorcaro, quando o caráter pedagógico da pena se transferiu à impunidade. Mudaram os personagens, mas a corrupção continua. E as suspeitas também: antes, tudo era dinheiro para campanha eleitoral; agora, é para filme. Operação semelhante envolve a tentativa de golpe em 2022. Generais dão como certo que tudo será anulado. Há quem ache normal um filho querer tirar o pai da cadeia. Pode ser. E se o filho é candidato à Presidência e o pai foi condenado pelo pior crime que se pode cometer na República: aspirar à tirania? Um presidente pode muitas coisas, mas não tudo. Ou não deveria. O poder que submete a Justiça à exceção é o que Carl Schmitt advogou em face da divisão social. Diante do “se eu quero, posso e devo” resta aos súditos a servidão voluntária? É verdade que nenhum fato da década está entre o injustificável, o imprescritível ou o imperdoável, mas também não pode ser apagado. Ricoeur, Hannah Arendt e outros exploraram as similitudes entre o trabalho do juiz e do historiador – e do jornalista – com testemunhos, documentos e a escrita. Eis uma tradição antiga: Shemá (ouve), Israel! A oração é também memória, aquela do Êxodo, uma memória da qual tudo depende, da qual deriva, ao mesmo tempo, a obrigação de escrever a verdade sobre acontecimentos, que se renova no presente. Esse chamado reverbera nos cronistas do pós-guerra. Em artigo no Corriere della Sera, de 25 de abril de 2001, o jornalista Enzo Biagi escreveu: “Há um tempo na vida em que mais do que as esperanças contam as recordações; e não é preciso ter medo disso”. Biagi tratava do tempo em que lutou contra a ocupação alemã, na 2.ª Guerra. E concluiu: “É justo não reacender velhas paixões e rancores, mas sobre princípios não se podem estabelecer tratativas”. Fala-se em anistia como vontade imperial; e, sem reconciliação, apagar o passado. Não há paz, só a força por cima da lei? Ou teremos um acordo em que todos se salvam, até Vorcaro? Karl Jaspers dividiu em quatro as modalidades da culpa: a criminal, a política, a moral, que é individual e ligada às decisões e princípios éticos de cada um, e a metafísica, a falta de solidariedade humana. O pai negava a vacina; o filho, o golpe. Vivemos tempos difíceis. E, depois, voltará o sol? E agora José - Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 20 de outubro de 2026

‘Não dá para tudo ser resolvido no confronto entre lulismo e bolsonarismo’

Chovendo Na Roseira (part. Tom Jobim) Edu Lobo Olha, está chovendo na roseira Que só dá rosa, mas não cheira A frescura das gotas úmidas Que é de Luiza, que é de Paulinho Que é de João, que é de ninguém Pétalas de rosa carregadas pelo vento Um amor tão puro carregou meu pensamento Olha, um tico-tico mora ao lado E passeando no molhado Adivinhou a primavera Olha, que chuva boa, prazenteira Que vem molhar minha roseira Chuva boa, criadeira Que molha a terra, que enche o rio Que lava o céu, que traz o azul Olha, o jasmineiro está florido E o riachinho de água esperta Se lança embaixo do rio de águas calmas Ah, você é de ninguém Ah, você é de ninguém Ah, você é de ninguém Composição: Tom Jobim.
Estadão https://www.estadao.com.br Cúpula do PT quer Lula mais agressivo no tête-à-tête com Flávio no último debate da campanha há 14 horas — As sondagens feitas pelo PT para medir impressões após o debate da Band/Estadão revelaram que eleitores viram... “O trecho completo da matéria intitulada "Cúpula do PT quer Lula mais agressivo no tête-à-tête com Flávio no último debate da campanha" detalha que as sondagens internas do partido revelaram que os eleitores consideraram o desempenho de Luiz Inácio Lula da Silva muito passivo ou contido no debate anterior, promovido pelo pool da Band com o Estadão. Com base nos dados fornecidos pelo portal do jornal, as informações estruturais do cenário são: * O diagnóstico interno: As pesquisas qualitativas e sondagens feitas pelo PT após o debate da Band/Estadão indicaram que os eleitores viram um Lula menos incisivo do que o necessário, permitindo que Flávio Bolsonaro pautasse temas de desgaste contra o governo. * A estratégia para o próximo confronto: Para corrigir essa impressão, a cúpula e os estrategistas da campanha marcharam na direção de exigir uma postura muito mais agressiva e direta no "tête-à-tête" com Flávio, mirando o último debate da corrida eleitoral (tradicionalmente realizado pela Rede Globo). * O foco das discussões: A mudança de rota ocorre em um momento em que a campanha de Flávio Bolsonaro também tenta "recalcular a rota" para focar em propostas, enquanto os bastidores do PT tentam blindar o governo de vidraças econômicas recentes — como as projeções de falta de recursos fiscais a partir de 2028 e o avanço de gastos da ordem de R$ 354 bilhões criticados pela oposição.”
domingo, 18 de outubro de 2026 Entrevista | Marco Aurélio Nogueira: ‘Não dá para tudo ser resolvido no confronto entre lulismo e bolsonarismo’, diz cientista político Por Vera Rosa \ O Estado de S. Paulo Autor do livro ‘Como melhorar a vida que vivemos: pensar, agir, dialogar’, Marco Aurélio Nogueira vê a democracia no Brasil ameaçada e diz que qualquer candidato eleito para a Presidência, seja Lula ou Flávio, terá de ‘descascar um abacaxi’ BRASÍLIA – O cientista político Marco Aurélio Nogueira define o atual momento que vivemos como “uma encruzilhada política paralisante”. No seu diagnóstico, trata-se de uma época na qual a manipulação de algoritmos domina o mundo e ergue muros. Diante deste cenário, construir pontes ficou mais difícil. “Não dá mais para tudo ser resolvido a partir de um confronto eterno entre o lulismo e o bolsonarismo”, diz Nogueira. Professor aposentado da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e articulista do Estadão, o cientista político observa que os democratas precisam reaprender a dialogar. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva errou, na sua avaliação, ao deixar de lado a frente ampla que ajudou a elegê-lo, em 2022. Na outra ponta, o discurso antissistema do senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL, não reflete uma coesão social sustentável. A terceira via, por sua vez, não conseguiu sair do acostamento e “virou recheio de um sanduíche”. Em seu mais novo livro, intitulado Como melhorar a vida que vivemos: pensar, agir, dialogar, Nogueira trata dos muros que nos dividem e observa que o cenário atual, com seu dinamismo frenético, acabou trazendo mal-estar. Questionado se a democracia está sob ameaça, ele não titubeou e encaixou um “sempre” na resposta. “A democracia é aquela planta tenra, que precisa de adubação permanente”, afirmou o professor, citando frase do ex-governador da Bahia Otávio Mangabeira. No livro “Como melhorar a vida que vivemos”, o sr. cita as paredes e os muros que nos dividem e a necessidade de construir pontes. Como fazer isso em um país dividido e com grave crise institucional como o Brasil? Eu acho que isso não é um problema que tenha uma solução de curtíssimo prazo. Ele está sendo decantado na vida brasileira há muito tempo, em parte por conta da briga política que, numa democracia, é inevitável. Mas, por outro lado, essa multiplicação de muros tem a ver também com o modo como a sociedade veio se reorganizando em decorrência da revolução tecnológica digital. Nós vivemos numa época em que tudo está sendo posto em dúvida e tudo é motivo de discussão. Os conflitos funcionam como uma espécie de elixir da democracia. Agora, todas as discussões no Brasil, nos últimos anos, são de temperatura elevada e acabam se resumindo a um choque entre duas posições que, seguramente, não refletem a diversidade política dos brasileiros. Hoje há um estado de indignação geral no país. Nesse cenário, o discurso “antissistema” e a retórica de mudança colam, mesmo quando proferidos por alguém que faz parte do sistema. Estamos num beco sem saída ou numa encruzilhada política? Nós estamos numa encruzilhada política paralisante, que tem a ver com essa época de transição que atravessamos, porque saímos de uma sociedade sólida e entramos em uma sociedade líquida, para falar como Zygmunt Bauman (sociólogo polonês). Beco sem saída, do meu ponto de vista, não existe na história. Alguém sempre encontrará uma porta para sair desse beco escuro e difícil. É uma época de transição? É uma transição, como se nós estivéssemos vivendo num mundo em que sombras de diferentes épocas se cruzam e convivem. A encruzilhada é assim: uma mão vem do passado, a outra de uma nova sociedade. Não dá para apostar numa única direção hoje. Isso explica a confusão das pessoas, a fragmentação, a dose expressiva de indignação que há no mundo. É difícil conversar. E aí você pode transferir isso para aquilo que chamam de mundo da pós-verdade. Cada um tem a sua verdade. Até a ciência está posta em questão. Você lembra a discussão sobre o aquecimento global? (Diziam:) ‘Ah, não. Não tem crise climática nenhuma!’. E aí cada tempestade derruba uma cidade. Então, o que está acontecendo? Os cientistas estão loucos? O que eu chamei no livro de mal-estar tem a ver com isso. Nós não estamos satisfeitos com nada e não sabemos em que direção caminhar porque o nosso mundo não tem utopias. O segundo turno da eleição entre o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro tem sido marcado por um confronto que está atingindo inclusive o Supremo Tribunal Federal e o Tribunal Superior Eleitoral. Qual é a solução? Não dá mais para tudo ser resolvido a partir de um confronto eterno entre lulismo e bolsonarismo. O processo político brasileiro sugere uma porta de saída para essa situação de congelamento do conflito bolsonarismo-lulismo, que é a reativação daquilo que nós, por falta de melhor palavra, costumamos chamar de campo democrático. Ou seja, liberais, socialistas, social-democratas, petistas, conservadores democráticos, precisam receber um choque de advertência de que a dissolução dessa polarização depende deles. A outra parte depende de uma expansão dos círculos de discussão, do diálogo entre as pessoas, de uma maior tolerância com relação à diferença. Mas esse movimento foi tentado na eleição de 2022 por Lula, quando ele convidou Geraldo Alckmin para a chapa. A frente ampla que derrotou Jair Bolsonaro foi abandonada pelo governo? Não tenho dúvida. Foi abandonada de dois modos, inclusive. Um, pela cooptação daqueles que Lula convocou para integrar o seu governo. Penso aí na Simone Tebet, na Marina Silva, que foram ministras, não eram do PT e foram simplesmente apagadas durante o governo. Uma outra parte do problema é que o próprio campo democrático, que teve alguma relevância para impulsionar a vitória do Lula, acabou por não demonstrar maior interesse em permanecer como um campo de oposição, no bom sentido da palavra. Uma boa parte das dificuldades eleitorais da candidatura Lula, hoje, tem a ver com esse desaparecimento da frente democrática que o ajudou em 2022. Não houve candidatos de terceira via, vamos chamar assim, que pudessem se alinhar ao presidente Lula no segundo turno. Os candidatos alternativos eram todos candidatos que estavam mais à direita do que ao centro. E com isso o Lula ficou, no segundo turno, falando sozinho com os seus convertidos, tentando capturar votos. Caso o presidente seja reeleito, o sr. acha que esse resgate da frente ampla será necessário para que ele possa governar? Se o presidente Lula for reeleito, esse resgate vai ser importante para fazer uma oposição inteligente a ele. Nenhum governo no mundo pode sobreviver e governar bem se não tiver uma oposição inteligente. Se a oposição se limitar ao histrionismo bolsonarista, Lula não governará bem porque a maioria da Câmara e a maioria do Senado serão contrárias a ele. As disputas eleitorais no Brasil têm sido cada vez mais ácidas e sem propostas. Por que a chamada terceira via nunca consegue emplacar um nome? O campo democrático brasileiro se fragmentou de 2014 para frente. Um dos elementos que era referência, o PSDB, simplesmente desapareceu. E outros partidos também definharam. O PDT, por exemplo, não atingiu a cláusula de barreira; o próprio PSB não se saiu muito bem. Nas atuais eleições, a chamada terceira via apareceu como uma espécie de dissidência do campo bolsonarista. A polarização cresceu de tal maneira que paralisou os demais atores. Então, a terceira via virou o recheio de um sanduíche. Nós entramos numa fase social em que a marcação de identidade se tornou uma coisa muito forte. É a busca por reconhecimento. E isso também ajudou a colocar antagonismo entre as pessoas. Não é um antagonismo guerreiro, mas um atrito entre os diferentes grupos religiosos, raciais, étnicos, de gênero e assim por diante. O seu livro também trata da manipulação de algoritmos. Ainda nesta semana, a campanha de Lula reclamou da “seletividade algorítmica” da Meta, que daria tratamento desigual a ele em relação a Flávio. A revolução digital está impulsionando um ambiente favorável ao desarranjo social e institucional? Com certeza que está. Eu acho que é como se nós pudéssemos ver nisso uma parte do programa da revolução digital. Hoje nós somos, em boa medida, guiados pelas plataformas. Quando você quer assistir a um filme na TV, você é invadido por uma enxurrada de ofertas que acabam por dificultar a sua escolha. Nós não conseguimos largar o celular, andamos com ele como se fosse um colar de pérolas preciosas. O tema da soberania nacional, hoje, se reconfigurou como soberania digital, ou seja, quem controla os dados tem poder. E nós, seres humanos, não controlamos os dados. A Meta é aliada do Trump (Donald Trump, presidente dos EUA), como são as demais plataformas. Pode não ser uma aliança ideológica, mas é uma aliança pragmática. Qual é o desafio de uma eleição presidencial onde a IA tem dominado e produzido vários cenários inverídicos? Os comandantes da Tropa do Flávio e do Exército do Lula deveriam parar um pouco para pensar e deixar de produzir tanta porcaria. É uma coisa horrorosa, agressiva. Eu não sei como isso pode ser concebido para capturar votos. Apresentar propostas não é uma coisa difícil. O eleitor de direita não é necessariamente um bolsonarista. Na sua avaliação, o bolsonarismo é uma força política que veio para ficar, independentemente da eventual vitória de Flávio Bolsonaro? Eu acho que sim, mas essa força, que é expressiva tem algumas carências e uma delas é um partido. O PL não é propriamente um partido bolsonarista. É uma legenda que está sendo usada pelo bolsonarismo. Pode acontecer de ele ser ocupado inteiramente pelo bolsonarismo e virar o partido bolsonarista, com esse nome ou com outro, mas teremos de ver. A outra coisa é que o bolsonarismo não tem uma coesão social sustentável. O eleitor básico, ou o admirador do bolsonarista, é um cidadão flutuante. Não digo que ele seja indeciso, mas ele dança conforme a música. E a música bolsonarista, que pode ser qualquer coisa com a ideia de mudança conseguiu, nesta eleição, ser sedutora. Se Lula perder esta eleição, qual será a consequência para o PT? O partido ficará obrigado a refletir sobre a sua própria história porque não encontrar um substituto para o Lula é um problema grave. Deveria existir um conjunto de lideranças capazes de desempenhar o papel de candidato tanto aos governos estaduais como ao governo federal. Mas o PT não se renovou. O mundo mudou e o discurso do PT continuou o mesmo. Outra possibilidade é que o partido, numa eventual derrota do Lula, se entregue a um ajuste de contas interno para saber quem foi o culpado pelo fracasso. E isso poderá redundar num estilhaçamento do PT. As esquerdas, em momento de crise, sempre tendem a ter dissidências. Não quer dizer que isso vá acontecer porque o PT também tem a sua própria fortaleza e pode fazer parte daquele campo democrático (da frente ampla), sem querer hegemonizá-lo. O PL terá no ano que vem 121 deputados e 28 senadores. Se Lula for reeleito, como governar com esse Congresso que saiu das urnas, muito mais conservador que o de hoje, e onde ‘influencers’ derrubaram antigos políticos? No governo, Lula conseguiu cooptar alguns integrantes do Congresso que não eram de esquerda. Ele fez uma composição ali meio confusa, distribuindo ministérios ao MDB, PSD, União Brasil, PP e assim foi. É provável que ele tente essa mesma operação no quarto governo, se for reeleito. O problema é que as possibilidades de atração se reduziram e a força do PL, somada a outros partidos ali, faz mais da metade da Câmara. O STF tem responsabilidade por esse cenário político a que chegamos hoje? Eu não acho muito bom trabalhar na análise política com a ideia da culpa. Eu acho que tem responsabilidades, mas não propriamente culpa. O STF foi sendo redefinido pelas escolhas presidenciais. Então, o Michel Temer escolheu Alexandre de Moraes, o Lula escolheu o Flávio Dino, e assim por diante. Esse modo de composição do Supremo é ruim porque os escolhidos pelos presidentes tendem a se comportar no tribunal como aliados deles. Nos últimos meses, o espetáculo dado pelo STF foi trágico e patético. Nunca foi normal na história da Corte um ministro xingar o outro, bater boca, ameaçar, chamar a Polícia Federal... Isso espirrou na opinião pública e serviu de combustível para quem via no tribunal a mão do Lula, através do Moraes. O tribunal acabou fazendo parte do conflito político e influenciou as eleições, com certeza. O sr. defende mandatos fixos para ministros do STF? Eu acho que hoje seria uma medida saudável para o país. Seria mais produtivo para o Brasil se os ministros não durassem tanto tempo, praticamente uma vida inteira, sem nenhum tipo de cerceamento. Nos últimos dias, o presidente anunciou um pacote de bondades para os eleitores. Teve a aprovação do fim da escala 6x1, o perdão da dívida dos microempreendedores individuais, o PIX MEI de até R$ 5 mil. São medidas com impacto fiscal. O que o sr. achou desta iniciativa? Essa do PIX de R$ 5 mil, por exemplo, é uma coisa meio escandalosa. É de um oportunismo eleitoral de deixar qualquer um corado de vergonha. Não sei se isso vai ser transformado em uma palavra solta ao vento ou se vai ser levado à frente. A mesma coisa em relação às canetas emagrecedoras. São coisas que, em campanha, os candidatos falam, muitas vezes no empolgamento do comício, mas que não vão ser levadas à frente pelo absurdo que contêm. Mesmo essa coisa do perdão das dívidas. Tudo isso é muito justo, muito generoso, mas tem consequências. O país já está com uma dívida elevada, com desajuste fiscal complicado. Onde vai parar isso? Como é que se faz uma reversão ou uma acomodação das coisas em termos de gestão econômica? É um desafio enorme. Seja quem for o vencedor das eleições, terá que descascar esse abacaxi. A democracia está ameaçada no Brasil? A democracia sempre esteve ameaçada no Brasil. Ao longo da nossa história republicana ou ela foi escanteada por golpes, ou reprimida por medidas constitucionais, ou esteve em vigor de uma maneira frágil, como se fosse aquela planta tenra, que precisa de adubação permanente, como Mangabeira (Otávio Mangabeira) falou. E, no contexto atual, ela está de mãos dadas com as demais democracias do mundo. As democracias hoje, no mundo, estão todas ameaçadas.

DEMOCRACIA • IGUALDADE POLÍTICA • PARTICIPAÇÃO POPULAR

PEC DO SORTEIO CÍVICO DEMOCRÁTICO

Uma proposta para ampliar a igualdade de acesso à representação política no Brasil


Documento-base para discussão pública

Proposta de Emenda à Constituição — 2026

Nota editorial: este documento apresenta uma proposta de reforma institucional para debate público. Não constitui texto legislativo oficialmente protocolado nem parecer jurídico. A substituição das eleições por sorteios para cargos dos Poderes Executivo e Legislativo suscita questões constitucionais relevantes, especialmente diante do art. 60, § 4º, da Constituição Federal.

1. APRESENTAÇÃO DA PROPOSTA

Como ampliar a igualdade de oportunidades no exercício da representação política? É possível construir instituições nas quais cidadãos comuns participem das decisões públicas sem depender exclusivamente de campanhas eleitorais, estruturas partidárias, recursos financeiros ou notoriedade pessoal?

Essas questões fundamentam a proposta de instituição do Sorteio Cívico Democrático, também denominado, em sentido amplo, estococracia: um modelo de seleção aleatória de cidadãos para determinadas funções públicas de representação, deliberação e fiscalização.

A ideia central consiste em investigar se procedimentos de sorteio, estabelecidos por regras públicas e verificáveis, podem ampliar a participação popular, diversificar os perfis presentes nas instituições e reduzir determinadas barreiras de acesso à vida política.

A proposta parte do princípio constitucional de igualdade perante a lei, previsto no art. 5º da Constituição Federal, e do reconhecimento de que todo poder emana do povo, conforme o art. 1º, parágrafo único.

Esses princípios não determinam, por si sós, a substituição das eleições por sorteios. A adoção de um novo modelo de representação exige fundamentação própria, definição de competências, salvaguardas democráticas e exame de sua compatibilidade com as cláusulas constitucionais.

2. MINUTA DA PROPOSTA DE EMENDA À CONSTITUIÇÃO

PROPOSTA DE EMENDA À CONSTITUIÇÃO Nº ___, DE 2026

Ementa: Institui o Sorteio Cívico Democrático como mecanismo de participação e representação política, mediante seleção aleatória, pública, transparente e auditável de cidadãos, e estabelece princípios para sua eventual aplicação aos órgãos dos Poderes da República.

As Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, nos termos do art. 60 da Constituição Federal, promulgam a seguinte Emenda ao texto constitucional:

Art. 1º — Do princípio da participação cívica por sorteio

O art. 1º da Constituição Federal passa a vigorar acrescido de dispositivo com a seguinte redação:

“Art. 1º ............................................................

§ __. A República promoverá mecanismos de participação e representação cívica por seleção aleatória de cidadãos, segundo critérios objetivos, públicos, inclusivos e auditáveis, como instrumento de realização da igualdade política, de ampliação da participação popular e de prevenção da concentração do poder, na forma desta Constituição e da lei.

Art. 2º — Da instituição do Sorteio Cívico Democrático

O art. 14 da Constituição Federal passa a vigorar acrescido dos seguintes dispositivos:

“Art. 14. A soberania popular será exercida nos termos desta Constituição, mediante o sufrágio universal, o voto direto e secreto, os instrumentos de democracia direta e os mecanismos de participação cívica por sorteio previstos constitucionalmente.

§ 1º O Sorteio Cívico Democrático consiste na seleção aleatória, impessoal, transparente e auditável de cidadãos para o exercício de funções de representação, deliberação ou fiscalização pública, conforme a natureza e as atribuições do órgão correspondente.

§ 2º A instituição de cargos ou órgãos preenchidos por sorteio observará:

I — a igualdade de oportunidade de participação entre os cidadãos elegíveis;
II — a vedação de discriminação incompatível com a Constituição;
III — a representatividade territorial e social, quando compatível com a natureza do órgão;
IV — a publicidade dos procedimentos e a possibilidade de auditoria independente;
V — a capacitação dos cidadãos selecionados e a disponibilização de assessoria técnica independente;
VI — a prestação de contas, a fiscalização dos atos praticados e a responsabilização nos termos da lei;
VII — a proteção da privacidade, dos dados pessoais e dos direitos fundamentais dos participantes.

§ 3º A seleção será realizada a partir de cadastro de elegibilidade mantido pela autoridade competente, mediante procedimentos que assegurem a integridade do universo de participantes e a possibilidade de verificação independente dos resultados.

§ 4º O cadastro e o mecanismo de seleção observarão a legislação eleitoral, a legislação de proteção de dados pessoais e as garantias constitucionais, vedada a utilização de dados biométricos como requisito tecnológico exclusivo para a realização do sorteio.

§ 5º A lei regulamentará a composição, as competências, os mandatos, as incompatibilidades, as hipóteses de impedimento, a remuneração, as substituições e os mecanismos de fiscalização dos órgãos instituídos com participação de cidadãos selecionados por sorteio.

§ 6º A participação cívica por sorteio poderá ser obrigatória ou facultativa, conforme a função, observadas as hipóteses legais de dispensa, os impedimentos legítimos e as garantias de acessibilidade e proteção social.

§ 7º A instituição de órgãos de representação política preenchidos integralmente por sorteio, em substituição às eleições para cargos dos Poderes Executivo ou Legislativo, dependerá de disciplina constitucional específica, que definirá suas competências, os procedimentos de transição e sua compatibilidade com as demais disposições desta Constituição.”

Art. 3º — Da regulamentação e da experiência institucional

A lei regulamentadora estabelecerá mecanismos de implantação progressiva do Sorteio Cívico Democrático, podendo prever projetos-piloto, assembleias cidadãs, conselhos deliberativos e órgãos de participação e fiscalização.

§ 1º A regulamentação assegurará avaliação periódica dos resultados, com indicadores de representatividade, transparência, efetividade deliberativa, custos, integridade e confiança pública.

§ 2º Os resultados das avaliações serão publicados em relatórios acessíveis à sociedade.

§ 3º A implantação de mecanismos experimentais não implicará, por si só, a substituição dos processos eleitorais constitucionalmente vigentes.

Art. 4º — Da vigência

Esta Emenda Constitucional entra em vigor na data de sua publicação, observadas as disposições de regulamentação e transição previstas em lei.

3. JUSTIFICAÇÃO

A presente Proposta de Emenda à Constituição tem por finalidade ampliar as possibilidades de participação popular na República Federativa do Brasil mediante a instituição do Sorteio Cívico Democrático, mecanismo de seleção aleatória de cidadãos para funções públicas de representação, deliberação e fiscalização.

A proposta parte de uma questão fundamental: se a soberania pertence ao povo e todos são iguais perante a lei, de que maneira as instituições políticas podem assegurar que a participação na vida pública não fique excessivamente concentrada entre pessoas dotadas de recursos financeiros, influência partidária, notoriedade ou acesso privilegiado às estruturas de poder?

O modelo eleitoral representativo constitui instrumento essencial da democracia constitucional brasileira. Entretanto, sua aplicação pode conviver com obstáculos à participação política, como os custos das campanhas, a desigualdade de recursos, a profissionalização da atividade política e a distância entre parte da população e os centros de decisão.

O sorteio cívico oferece uma alternativa institucional a ser examinada, capaz de permitir que cidadãos comuns participem diretamente da deliberação pública sem depender exclusivamente de campanhas eleitorais ou da construção de carreiras partidárias.

A experiência histórica demonstra que a seleção aleatória foi empregada em instituições políticas da Antiguidade e em diferentes experiências posteriores. Na democracia ateniense, por exemplo, determinados conselhos, magistraturas e tribunais eram compostos por sorteio, enquanto funções específicas podiam ser preenchidas por eleição.

Na contemporaneidade, assembleias cidadãs e outros processos deliberativos utilizam seleção aleatória, frequentemente combinada com critérios demográficos, para reunir grupos que representem a diversidade social e territorial de uma comunidade.

O objetivo da presente iniciativa é desenvolver esse potencial de participação mediante regras que garantam transparência, igualdade de oportunidade, diversidade, preparação técnica, controle institucional e responsabilidade pública.

O sorteio não elimina automaticamente os riscos de corrupção, incompetência ou influência indevida. Por isso, sua adoção exige procedimentos rigorosos de seleção, formação dos participantes, assessoria técnica plural, fiscalização independente e prestação de contas.

Também se reconhece que a substituição integral das eleições para cargos dos Poderes Executivo e Legislativo suscita questões constitucionais relevantes. A proposta deverá ser examinada à luz dos direitos políticos, do sufrágio universal, do voto direto, secreto e periódico, da separação dos Poderes e das limitações materiais ao poder de reforma constitucional.

Dessa forma, propõe-se a construção de um marco constitucional que permita desenvolver e avaliar o Sorteio Cívico Democrático, preservando as garantias fundamentais e estabelecendo parâmetros para eventual ampliação de suas atribuições.

A finalidade última é contribuir para uma democracia mais inclusiva, plural, transparente e participativa, na qual a igualdade política não seja apenas uma declaração normativa, mas também uma diretriz para o desenho e o aperfeiçoamento das instituições públicas.

Sala das Sessões, 20 de outubro de 2026.

Autor(a): ____________________________________


ANEXO I — MEMÓRIA HISTÓRICA E PRECEDENTES DO SORTEIO CÍVICO

A seleção aleatória para funções públicas possui antecedentes históricos documentados. Essas experiências não foram uniformes nem equivalentes à proposta de substituir integralmente as eleições modernas. Seu estudo permite identificar possibilidades, limites e mecanismos institucionais relevantes.

1. Atenas clássica — séculos V e IV a.C.

A democracia ateniense é um dos precedentes mais importantes para o estudo da seleção aleatória de cidadãos para funções públicas. O sorteio integrava um conjunto de instituições que incluía assembleias populares, conselhos, magistraturas e tribunais.

  • Conselho dos Quinhentos (Boulé): seus integrantes eram selecionados por sorteio entre cidadãos elegíveis, distribuídos pelas tribos atenienses. O conselho preparava matérias para a assembleia e desempenhava funções administrativas.
  • Tribunais populares: cidadãos habilitados eram selecionados por procedimentos de sorteio para participar da administração da justiça.
  • Kleroterion: dispositivo arqueológico utilizado em procedimentos de seleção aleatória de cidadãos. Seu funcionamento integra os estudos sobre as técnicas atenienses de distribuição de funções públicas.
  • Cargos eletivos: nem todas as funções eram sorteadas. A eleição era utilizada para determinadas atribuições, incluindo o comando militar dos estrategos.

A experiência ateniense demonstra que sorteio e eleição podem integrar uma mesma arquitetura institucional, com métodos diferentes conforme as atribuições de cada função.

Limite histórico: Atenas não era uma democracia universal no sentido contemporâneo. Mulheres, pessoas escravizadas e estrangeiros residentes não integravam o corpo político de cidadãos.

2. Florença — república e rotatividade política

Florença empregou procedimentos de seleção por sorteio em diferentes períodos para a composição de magistraturas e conselhos. Em determinadas configurações, nomes de pessoas previamente habilitadas eram incluídos em recipientes, dos quais eram extraídos os designados para funções públicas.

Esses procedimentos integravam sistemas políticos complexos, marcados por disputas entre grupos sociais, corporações, famílias e facções. A seleção aleatória podia contribuir para distribuir cargos e limitar o controle direto de grupos concorrentes, mas não eliminava as desigualdades sociais nem as disputas pelo poder.

Referência acadêmica: Najemy, John M. Corporatism and Consensus in Florentine Politics: 1280–1400. University of North Carolina Press, 1982.

Localizar a obra em catálogo bibliográfico.

3. Veneza — sorteio combinado com votação

A República de Veneza desenvolveu um procedimento complexo para selecionar seu doge, combinando sorteios e votações em etapas sucessivas. A combinação procurava distribuir a influência entre diferentes grupos de eleitores e reduzir a possibilidade de que uma única facção controlasse o processo.

Essa experiência é relevante porque demonstra que o sorteio pode atuar como mecanismo de equilíbrio dentro de um procedimento que também utiliza votação.

Entretanto, Veneza não selecionava todos os seus governantes e representantes por sorteio universal. O processo estava inserido em uma estrutura política restrita, na qual a participação era condicionada pelo pertencimento à elite política veneziana.

Pesquisar estudos acadêmicos sobre a eleição do doge veneziano.

4. Experiências suíças

O sorteio foi empregado em diferentes comunidades e cidades europeias para resolver disputas de precedência, distribuir encargos e selecionar pessoas para determinadas funções.

No caso suíço, é necessário distinguir os usos locais e históricos dos mecanismos de sorteio de uma suposta adoção uniforme por todos os cantões. As formas de governo variaram conforme o território e o período.

Afirmações específicas sobre Berna, Basileia ou Glarus devem ser acompanhadas de estudos históricos que identifiquem o período, o cargo e o procedimento exatos.

5. Fundamentos filosóficos

Montesquieu — O Espírito das Leis (1748). No Livro II, capítulo 2, Montesquieu associa o sorteio à democracia e a escolha eleitoral à aristocracia. Trata-se de uma classificação teórica das formas de designação política, não de uma demonstração de que toda eleição seja oligárquica ou de que todo sorteio seja necessariamente democrático.

Consultar o texto de Montesquieu.

Aristóteles — Política, Livro IV. Aristóteles examina diferentes combinações de sorteio, eleição, requisitos de elegibilidade e distribuição de funções. Sua obra mostra que os antigos discutiam múltiplos desenhos institucionais, em vez de defender um único procedimento para todos os cargos.

Consultar Aristóteles na Perseus Digital Library.

Síntese histórica: o argumento mais consistente em favor do sorteio cívico é que a seleção aleatória pode ampliar a igualdade de acesso às funções públicas, reduzir a dependência de campanhas e criar oportunidades de participação para pessoas que normalmente não ingressariam na política institucional. Esses benefícios dependem do desenho concreto das instituições.

ANEXO II — EXPERIÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS

1. Irlanda — Assembleia de Cidadãos

A Irlanda utiliza assembleias de cidadãos selecionados aleatoriamente para examinar questões públicas complexas. O processo procura obter diversidade de gênero, idade, território e condição socioeconômica. Os participantes recebem informações, discutem alternativas e elaboram recomendações.

A assembleia não substitui o Parlamento nem escolhe o governo por sorteio.

Fonte institucional: Citizens' Assembly of Ireland.

2. Bélgica — Comunidade germanófona de Ostbelgien

O modelo de Ostbelgien combina um conselho cidadão permanente com painéis temporários selecionados por sorteio para discutir temas específicos e formular recomendações às autoridades.

É uma referência relevante para a proposta brasileira porque demonstra como institucionalizar a participação cívica sem abolir automaticamente as eleições.

Fonte: OCDE — instituições deliberativas e participação cidadã.

3. França — Convenção Cidadã para o Clima

A Convenção Cidadã para o Clima reuniu cidadãos selecionados aleatoriamente para estudar políticas climáticas, ouvir especialistas, debater medidas e apresentar propostas.

O caso demonstra a utilidade do sorteio em deliberações sobre questões que exigem conhecimento técnico e ponderação de interesses conflitantes.

Fonte: OCDE — experiências e avaliação de processos deliberativos.

A OCDE analisou numerosas experiências de deliberação cidadã e destaca componentes importantes, como seleção aleatória com critérios de representatividade, deliberação informada e conexão efetiva com as decisões das autoridades públicas.


ANEXO III — PROTOCOLO TÉCNICO PARA O SORTEIO CÍVICO BRASILEIRO

1. Cadastro de elegibilidade

Definir previamente quem pode participar, quais são as condições legais de elegibilidade e como corrigir erros ou omissões cadastrais.

2. Igualdade de oportunidade

Assegurar probabilidades de seleção previamente definidas. Quando houver estratificação por território, idade ou outros critérios legítimos, publicar a metodologia e explicar como ela afeta as probabilidades individuais.

3. Sorteio verificável

Utilizar fontes de aleatoriedade independentes, regras públicas, registros criptográficos e auditoria externa. A blockchain pode ser avaliada como recurso complementar, mas não garante, sozinha, a imparcialidade do processo.

4. Formação e assessoria

Oferecer treinamento, documentação acessível e assessoria técnica plural, com declaração de conflitos de interesse e possibilidade de ouvir diferentes perspectivas.

5. Fiscalização e prestação de contas

Garantir controle judicial e administrativo, divulgação das decisões, auditorias periódicas, canais de denúncia e responsabilização por ilícitos.

6. Condições materiais de participação

Prever remuneração adequada, acessibilidade, apoio a pessoas com deficiência, compensação de despesas e proteção contra prejuízos econômicos decorrentes do exercício da função.


ANEXO IV — QUESTÕES CONSTITUCIONAIS E INSTITUCIONAIS

1. Compatibilidade com as cláusulas pétreas

O art. 60, § 4º, da Constituição Federal impede a deliberação de propostas de emenda tendentes a abolir determinadas matérias, entre elas o voto direto, secreto, universal e periódico, a separação dos Poderes e os direitos e garantias individuais.

A substituição integral das eleições para cargos dos Poderes Executivo e Legislativo por sorteios exige análise constitucional específica. Não é possível concluir que essa mudança seria admissível apenas porque o sorteio foi utilizado em democracias históricas.

2. Elegibilidade e direitos políticos

Os critérios de participação devem ser compatíveis com a Constituição, a legislação eleitoral e as garantias fundamentais. A exclusão automática de pessoas com condenações, sem distinção das hipóteses juridicamente aplicáveis, pode gerar incompatibilidades legais.

3. Identificação e proteção de dados

Um número cívico pode auxiliar a administração do sorteio, mas não precisa ser gerado a partir de dados biométricos. A identificação e a seleção devem ser processos separados, com proteção de dados pessoais e minimização das informações coletadas.

4. Mandatos e responsabilidades

Não se deve presumir que um mandato de quatro anos seja adequado a todas as funções. Um conselho cidadão, um órgão legislativo e a chefia do Executivo possuem responsabilidades e exigências institucionais distintas.

5. Implantação progressiva

Uma alternativa prudente consiste em iniciar com assembleias cidadãs e órgãos deliberativos por sorteio, avaliar seus resultados e examinar separadamente qualquer proposta de substituição integral de eleições.


REFERÊNCIAS E FONTES VERIFICÁVEIS

  1. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Especialmente arts. 1º, 5º, 14, 29 e 60. Texto oficial consolidado — Presidência da República.
  2. ARISTÓTELES. Política, Livro IV. Perseus Digital Library.
  3. MONTESQUIEU. O Espírito das Leis, Livro II, capítulo 2. University of Chicago Press.
  4. NAJEMY, John M. Corporatism and Consensus in Florentine Politics: 1280–1400. University of North Carolina Press, 1982. Catálogo bibliográfico WorldCat.
  5. OCDE. Innovative Citizen Participation and New Democratic Institutions: Catching the Deliberative Wave. 2020. Publicação oficial.
  6. OCDE. OECD Guidelines for Citizen Participation Processes. 2022. Documento oficial.
  7. IRLANDA. Citizens' Assembly. Informações institucionais sobre organização e seleção dos participantes. Página oficial.

CONCLUSÃO

A proposta de Sorteio Cívico Democrático possui antecedentes históricos reais e referências contemporâneas relevantes. Seu mérito potencial está na possibilidade de ampliar a participação política, diversificar os perfis presentes nos espaços de decisão e reduzir algumas barreiras associadas à competição eleitoral.

O passo decisivo é definir se o objetivo é complementar as eleições, substituir a composição do Legislativo ou substituir também a escolha do Executivo. Cada alternativa possui consequências constitucionais, institucionais e democráticas distintas.

Uma reforma consistente precisa combinar igualdade de acesso, transparência, capacitação, independência técnica, fiscalização e responsabilização. A seleção aleatória não deve ser tratada como solução automática para os problemas políticos, mas como um instrumento institucional cuja utilidade depende de regras bem construídas e avaliação pública.

Princípio orientador:
Uma democracia mais participativa exige instituições que ampliem as oportunidades de participação do cidadão comum, preservem os direitos fundamentais e permitam que a sociedade fiscalize de forma efetiva o exercício do poder público.

Documento para estudo, debate e aperfeiçoamento legislativo.

As referências históricas e institucionais devem ser consultadas em suas fontes originais. A minuta não substitui parecer jurídico sobre constitucionalidade, técnica legislativa ou viabilidade de apresentação parlamentar.

© 2026 — Texto-base para discussão pública sobre o Sorteio Cívico Democrático.