Inspirados já nos ensinamentos de Sófocles, aqui, procurar-se-á a conexão, pelo conhecimento, entre o velho e o novo, com seus conflitos.
As pistas perseguidas, de modos específicos, continuarão a ser aquelas pavimentadas pelo grego do período clássico (séculos VI e V a.C).
terça-feira, 21 de julho de 2026
Sobre as engrenagens do mundo
terça-feira, 21 de julho de 2026
As surpresas do inesperado, por Merval PereiraO GloboO ex-presidente Tancredo Neves dizia que Presidência é destino. A História do Brasil está repleta de exemplos da verdade dessa afirmação.O Merval está batendo nesta tecla…
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"... pau que dá em Lulinha dá em zero um!" '...longe de serem inesperados, são temidos, e retiram dele o que resta de confiável em sua candidatura.'
Correspondência do Além: O Olhar de Machado sobre as Engrenagens do Mundo
Por Machado de Assis (direto do conforto de seu novo lar, entre as nuvens)
Do meu atual ponto de vista — esta confortável poltrona moldada em cumulus-nimbos, onde a boa Carolina me serve um refresco sem as amarguras do mundo dos vivos —, miro o emaranhado de notícias humanas com o meu costumado monóculo da ironia. As coisas na Terra, de fato, mudam de roupagem para continuarem exatamente as mesmas. O espetáculo da vaidade e do poder segue o seu roteiro imutável.
Sobre os Donos do Poder e suas Redomas
A metamorfose mexicana: O PRI, velho conhecido das massas que nasceu sob o manto da revolução de 1930, agora ensaia trocar de nome. Uma tentativa clássica de mudar a casca para que a polpa não pareça tão apodrecida pelo tempo.
O absolutismo de Manágua: Daniel Ortega despacha da sua Casa dos Povos e decreta o fim das eleições. Que inveja não teria o nosso velho Imperador de tamanha ousadia institucional? Ao abolir o voto para "proteger o poder", o governante nicaraguense elimina o incômodo teatro das urnas e assume, de vez, a comédia humana em sua força bruta.
O Palácio de Brasília: Por sua vez, Luiz Inácio despacha do moderno Palácio do Planalto. Curioso notar como os homens públicos adoram batizar suas sedes com nomes que evocam a totalidade — "Planalto", "Povos" —, quando, na verdade, governam apenas para as suas próprias facções.
O Teatro da Democracia e o Tempo
O jovem rebelde de 1986: Assisti, pelos fios da memória, ao vídeo em que o jovem operário questionava a nossa redemocratização no programa Roda Viva. Ao fumar na TV e peitar o jornalista, ele denunciava uma "democracia maquiada". A ironia suprema — que só o tempo e a posteridade conseguem lapidar — é que o mesmo crítico de outrora hoje habita o topo desse mesmo sistema, validando as urnas que agora contam com assustadores 158 milhões de eleitores. É a engrenagem engolindo o operário e devolvendo um estadista.
A Minha Própria Parábola
A atualidade de Itaguaí: Fiquei lisonjeado ao ver a menção ao meu caro Dr. Simão Bacamarte. O bom Alienista, com sua rigorosa ciência na Casa Verde, internava os cidadãos de Itaguaí por desvios de conduta mínimos. Olhando para os vossos líderes atuais — uns que proíbem votos, outros que mudam de nome para fugir do passado —, percebo que a ciência de Bacamarte nunca foi tão necessária. A verdade é que a linha entre o hospício e o palácio de governo sempre foi uma mera convenção geográfica.
Fig. 1 - Esboço conceitual do próprio punho etéreo, sintetizando as estruturas de imobilidade.
158 milhões de eleitores, salve a eleição!
Todos num só rumo, quanta ilusão!
De ano em ano, o teatro se refaz,
O povo vota crente de que anda para trás!
De repente, o jovem que gritava lá na mesa,
Hoje veste a faixa com solene realeza!
Mudam-se os nomes, muda o PRI de casca e cor,
Mas o hospício é o mesmo, governado pelo amor!
Braço dado com a loucura,
Simão Bacamarte vai guiar!
Neste palácio de fofura,
Quem é que ele vai internar?
Não tem mais voto lá na terra de Ortega,
Mas aqui a engrenagem roda solta e nunca nega!
Cento e cinquenta e oito milhões a caminhar...
Salva-se a urna, quem vai se salvar?
Todos juntos vamos, para a Casa Verde entrar!
Salve a eleição!
Se me permitem a ancoragem dos meus instrumentos: o mundo continua uma vasta lixeira, onde os homens disputam as coroas de lata. Carolina me chama; o dever celestial me convoca a contemplar o infinito, que é bem mais limpo que a política dos vivos.
Use o código com cuidado.
PARTIDO NO PODER PODE MUDAR DE NOME: PRI
DOIS PARTIDOS DISPUTAM O ESPÓLIO MEXICANO NASCIDO EM 1930 E BATIZADO EM 1946
NA OPOSIÇÃO INSEPULTO DESDE 2000
O atual presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, é filiado ao partido político de esquerda Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN). Ele despacha a partir da Casa dos Povos (conhecida oficialmente em espanhol como Casa de los Pueblos), que funciona como a sede e palácio de governo da presidência, localizada na capital, Manágua.
Partido Político: Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN)
Sede de Governo: Casa dos Povos (Casa de los Pueblos)
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva é filiado ao Partido dos Trabalhadores (PT) e despacha do Palácio do Planalto, localizado na Praça dos Três Poderes, em Brasília.
Partido Político: Partido dos Trabalhadores (PT)
Sede de Governo: Palácio do Planalto
Não há próximas eleições marcadas na Nicarágua, pois o atual governante, Daniel Ortega, anunciou oficialmente o fim definitivo dos processos eleitorais no país.
Em pronunciamento público, Ortega declarou que o regime não realizará novas eleições para evitar que grupos de oposição tenham qualquer chance de assumir o poder.
O vídeo viral que circula no X (antigo Twitter) mostra o jovem Luiz Inácio Lula da Silva acendendo e tragando um cigarro durante uma entrevista ao programa Roda Viva, em 1986, na qual ele afirma que as eleições no Brasil não eram genuinamente democráticas, mas sim uma "democracia mascarada e maquiada".
A declaração incomodou o jornalista Boris Casoy, que compunha a bancada de entrevistadores, gerando um embate direto entre os dois.
A Fala de Lula
Lula questionou a legitimidade do sistema eleitoral da época afirmando que:O processo eleitoral era desigual.Havia disparidade extrema nos recursos financeiros de campanha.O tempo de televisão e a condução dos debates favoreciam apenas os candidatos da elite.Não existia igualdade de condições para os partidos competirem de forma justa.
A Contestação de Boris Casoy
Incomodado com a tese de que o voto popular estaria inserido em uma farsa institucional, Boris Casoy interveio de forma incisiva, contra-argumentando que:O Brasil estava em pleno processo de consolidação democrática e que as instituições precisavam ser aperfeiçoadas por dentro.Reduzir as eleições daquela forma significava contestar a eficácia e a validade do próprio voto do cidadão e das instituições democráticas recém-conquistadas.
A Réplica de Lula
Ao responder o jornalista, Lula manteve sua postura e replicou enfatizando a distinção entre a teoria das leis e a realidade prática do país:Argumentou que a mera existência de uma constituição e do direito formal ao voto não garantia uma democracia real.Ressaltou que a democracia institucional coexistia com uma profunda e violenta desigualdade econômica, na qual os cidadãos disputavam o poder em patamares totalmente distantes.Concluiu reafirmando que, para o Brasil viver uma democracia de fato, era mandatório estender os direitos para o campo econômico e social, equalizando as oportunidades de competição política.O registro histórico atrai a atenção dos internautas no X tanto pela estética da época — que permitia aos entrevistados fumar livremente no estúdio de televisão — quanto pela atualidade do debate ideológico sobre os limites da democracia representativa.
Eleitora votando na eleição suplementar de Roraima. Foto: Antonio Augusto/Secom/TSEMais de 158 milhões de eleitores estão aptos a votar nas Eleições 2026Crescimento foi de quase de 2,3 milhões de pessoas (1,46%) em comparação com o pleito de 202220/07/2026 12:51 - Atualizado em 20/07/2026 13:39
A especialidade médica do Alienista é a Psiquiatria (chamada na época de "médico psiquiatra" ou estudioso da "patologia mental") e ele despachava da Casa Verde, o manicômio fundado por ele na vila de Itaguaí.
O protagonista da famosa obra de Machado de Assis se chama Dr. Simão Bacamarte.
Detalhes sobre o Personagem e a ObraEspecialidade: Dedicou-se inteiramente ao estudo da loucura, sendo um pioneiro da ciência mental no Brasil fictício do livro.
Local de Trabalho: A Casa Verde era o casarão onde ele isolava e internava todos os cidadãos que considerava mentalmente instáveis.
Confusão no Enunciado: O nome "Ortega" mencionado no final da sua pergunta parece ser um resquício da pergunta anterior sobre Daniel Ortega, não fazendo parte do universo machadiano.
Coisas do Mundo, Minha NegaPaulinho da Viola
Hoje eu vim minha nega
Como venho quando posso
Na boca as mesmas palavras
No peito o mesmo remorso
Nas mãos a mesma viola
Onde eu gravei o teu nome
Nas mãos a mesma viola
Onde eu gravei o teu nome
Venho do samba há tempo, nega
Venho parando por aí
Primeiro achei Zé Fuleiro
Que me falou de doença
Que a sorte nunca lhe chega
Que está sem amor e sem dinheiro
Perguntou se não dispunha
De algum que pudesse dar
Puxei então da viola
Cantei um samba pra ele
Foi um samba sincopado
Que zombou de seu azar
Hoje eu vim, minha nega
Andar contigo no espaço
Tentar fazer em teus braços
Um samba puro de amor
Sem melodia ou palavra
Pra não perder o valor
Sem melodia ou palavra
Pra não perder o valor
Depois encontrei Seu Bento, nega
Que bebeu a noite inteira
Estirou-se na calçada
Sem ter vontade qualquer
Esqueceu do compromisso
Que assumiu com a mulher
Não chegar de madrugada
E não beber mais cachaça
Ela fez até promessa
Pagou e se arrependeu
Cantei um samba pra ele
Que sorriu e adormeceu
Hoje eu vim, minha nega
Querendo aquele sorriso
Que tu entregas pro céu
Quando eu te aperto em meus braços
Guarda bem minha viola
Meu amor e meu cansaço
Guarda bem minha viola
Meu amor e meu cansaço
Por fim achei um corpo, nega
Iluminado ao redor
Disseram que foi bobagem
Um queria ser melhor
Não foi amor nem dinheiro
A causa da discussão
Foi apenas um pandeiro
Que depois ficou no chão
Não tirei minha viola
Parei, olhei, vim-me embora
Ninguém compreenderia
Um samba naquela hora
Hoje eu vim, minha nega
Sem saber nada da vida
Querendo aprender contigo
A forma de se viver
As coisas estão no mundo
Só que eu preciso aprender
As coisas estão no mundo
Só que eu preciso aprender
As coisas estão no mundo
Só que eu preciso aprender
As coisas estão no mundo
Só que eu preciso aprender
Composição: Paulinho da Viola.
WW ESPECIAL - A OLIGARQUIA DOS TRÊS PODERES - 19/07/2026CNN Brasil
Transmitido ao vivo em 19 de jul. de 2026 WW — Programas na íntegra
Assista ao WW Especial deste domingo, 19 de julho de 2026. #CNNBrasil
Participa deste episódio Joaquim Falcão, advogado e membro da ABL (Academia Brasileira de Letras).
terça-feira, 21 de julho de 2026
O mal-estar da República, por Carlos AndreazzaO Estado de S. Paulo
Está na praça – sob a categoria tem de ler – o livro-ensaio A Oligarquia dos Poderes, de Joaquim Falcão, um dos intérpretes deste Brasil em que a concertação dissimula o conluio. Parece que Flávio Dino já o leu. Deveria lê-lo – não lhe deixa de ser uma biografia indireta – Gilmar Mendes. Não o lerá Alexandre de Moraes.
São 254 páginas de diagramação arejada, fonte generosa para com os de vista cansada e texto papo reto sobre “a crise da democracia”, esse mal-estar social derivado da percepção difusa de que a elite delegada a nos representar terá corrompido a própria existência, um fim em si mesmo, alargado e aprofundo o fosso que a separa do povo.
“O mal-estar provoca certo desprezo da sociedade pelo Estado. A maioria popular sente.” O autor trata da violação do contrato social, produto do estabelecimento de um sistema trancado em que os donos da República protegeriam uns aos outros. O Poder instrumentalizado, fachada à constituição autoritária de apropriadores, para além da locupletação simples conforme consagrada neste país.
Parece que Flávio Dino já o leu. Em sua tese sobre a perversão das emendas parlamentares, o nosso novo caçador de marajás, aquele que não tolera “penduricalhos” para além do extravasamento do teto constitucional que o tribunal constitucional permitira, escreveu sobre a “oligarquia parlamentar” que controla o orçamento secreto, instrumento – obscuro e autoritário – por meio do qual os detentores do Poder subordinam a prerrogativa parlamentar ao aumento dos próprios poderes. O Poder como fachada; e a prerrogativa parlamentar a serviço da manutenção do poder. Há um fundo eleitoral paralelo.
Deveria lê-lo Gilmar Mendes, o garantidor do sistema, aquele que codificou-normalizou os trânsitos – os relacionamentos e as negociações – entre autoridades estatais de que a sociedade desconfia. O decano é quem fecha o estreito de ormuz brasiliense. “Mal-estar além de social: ético. Diante do comportamento de alguns líderes dos três Poderes. Denúncias de corrupção visíveis e não explicadas. Não julgadas nem punidas. Não raramente desmentidas tecnicamente.”
Não o lerá – por falta de tempo – Alexandre de Moraes, tomado que está pela aplicação do Direito Xandônico e pela escritura do código que já substitui a Constituição, por meio do qual, sempre em defesa da democracia, vige a censura prévia entre nós. “E se os Poderes Estatais, em nome da democracia, pretenderem ser, eles próprios, oligárquicos?”
Sob o 8 de janeiro permanente, à espreita sempre o golpe, Xandão – salvador do estado democrático de direito – não precisa explicar as relações com Vorcaro e o que o sujeito (que lhe contratara a esposa) queria que o ministro do Supremo, aquele que suspendera o X no Brasil, bloqueasse no dia em que seria preso. Se criticar, Bolsonaro volta. •
Manhattan Connection 19/07/2026 | com Alvaro Schocair
terça-feira, 21 de julho de 2026
Pequeno glossário gramsciano, por Alvaro Bianchi e Daniela Mussi*Revista CultBloco histórico
O conceito, inspirado na obra de Georges Sorel (1847-1922), foi utilizado por Gramsci para repensar as relações entre estrutura-superestrutura em uma chave anti-economicista. Expressa a unidade entre estrutura e superestrutura, natureza e espírito. No bloco histórico, as forças materiais são o conteúdo e as ideologias, as formas. Mas essa distinção entre forma e conteúdo é apenas didática, uma vez que na realidade histórica as forças materiais não seriam concebidas sem suas formas e as ideologias não teriam eficácia sem essas forças materiais. O conceito de bloco histórico não designa uma aliança de classes ou partidos políticos.
Cultura
Tema persistente nos escritos de Antonio Gramsci, cultura adquiria sentido amplo e uma série de desdobramentos em seu pensamento. Nos artigos de juventude, a cultura aparecia associada à atividade intelectual necessária para o fortalecimento “interior” do ambiente socialista, capaz de superar tanto as reduções neopositivistas do marxismo como o neoidealismo que avançava sobre as ideias de Karl Marx, revisando-as e incorporando-as em um paradigma liberal. Nos cadernos redigidos da prisão encontramos essa concepção ampliada e complexificada, resultado do interesse e contato de Gramsci com a experiência soviética desde 1917, além dos demais desdobramentos da crise aberta com a I Guerra Mundial na Europa, especialmente na Itália sob o fascismo. A cultura passava a ser pensada, ainda, como reforma intelectual e moral, ou seja, como o coração de uma estratégia de organização política. Também era investigada como parte de uma nova historiografia que reconhecia na formação do Estado moderno a unidade contraditória entre as formas da vida e atividade de governados e governantes.
Estado
Nos Cadernos do cárcere o conceito de Estado aparecia de duas maneiras. Primeiro, em um sentido mais usual na linguagem política corrente, o Estado designava a sociedade política, o conjunto dos aparelhos governativos e coercitivos que permitem realizar as funções de domínio. Em sua segunda acepção, o termo adquiria maior complexidade e passava a designar o conjunto de instituições da sociedade civil e da sociedade política, unificando, desse modo, as funções de direção (hegemonia), próprias da sociedade civil, e de dominação, características da sociedade política. Nesta última acepção o conceito de Estado assume, segundo Gramsci, uma dimensão orgânica e mais ampla, integral. Esta maneira de conceber o Estado é, frequentemente, é sintetizada na fórmula de “Estado ampliado”, embora a expressão não apareça nos Cadernos do cárcere e seja da lavra de Christine Buci-Glucksmann .
Filosofia da práxis
Trata-se de uma expressão emprestada por Gramsci do filósofo italiano Antonio Labriola (1843-1904), mais precisamente do livro Discorrendo di socialismo e di filosofia (1898) onde aparece a ideia de que “a filosofia da práxis é a medula do materialismo histórico”. Nos Cadernos do cárcere, Gramsci usou essa expressão em substituição a termos como “marxismo” e “materialismo histórico”, o que levou muitos intérpretes a considerá-la uma estratégia de escrita para evitar a censura fascista e outros tantos a supor o abandono das ideias de Marx. Esta segunda hipótese não se sustenta e a primeira, embora possua alguma consistência, não dá conta do fato que Gramsci absorveu a fórmula de Labriola em uma agenda de pesquisa da relação estabelecida por Marx com as tradições filosóficas dominantes em seu tempo, particularmente com a filosofia hegeliana. Gramsci valorizava o fato de Labriola ter sido o primeiro intelectual a identificar a “dignidade filosófica” do marxismo e considerá-lo como uma “cultura superior” em relação àquelas tradições. Partindo dessa premissa, o pensamento gramsciano avançou na elaboração de hipóteses de trabalho para estudo da circulação da filosofia da práxis depois da morte de seu criador, identificando dois caminhos principais: o de popularização das ideias de Marx por correntes simpáticas ao seu pensamento (o “marxismo oficial” em sentido restrito), o qual tendeu a subsumir o marxismo na filosofia materialista; e o de absorção das ideias de Marx por correntes intelectuais rivais ao seu pensamento (dentre as quais o neoidealismo era a mais importante). Em relação a esses dois “revisionismos”, por fim, a filosofia da práxis gramsciana era, antes de mais nada, a retomada de uma agenda de trabalho intelectual que apontava para a reunificação entre alta cultura e cultura popular, entre Renascimento e Reforma.
Hegemonia
O conceito, usual no léxico político do movimento socialista russo desde o início do século 20, era utilizado para designar o papel dirigente do proletariado em uma aliança de classes. Nos Cadernos, Gramsci fez um uso original do conceito no âmbito de sua nova teoria do Estado integral e o utilizou, em primeiro lugar, para estudar o papel do partido moderado na unificação italiana. Afirmou que os moderados haviam exercido uma atividade hegemônica antes de chegar ao poder, ou seja, que haviam sido capazes de dirigir política e culturalmente os grupos sociais aliados. A hegemonia, entretanto, só se realizaria plenamente quando os grupos políticos dirigentes pudessem mobilizar o aparelho estatal e implementar um programa pedagógico que lhes permitissem concentrar as forças intelectuais da nação e afirmar por meio delas uma nova concepção de mundo. Gramsci ora afirmou que hegemonia é igual à direção política e à organização do consenso exercida no âmbito da sociedade civil; ora que a hegemonia se caracteriza por uma combinação de coerção e consenso, ou seja, de dominação e direção, às quais em uma situação “normal”, própria das democracias representativas, se encontrariam em uma relação equilibrada.
Intelectuais
No pensamento de Gramsci, o conceito de intelectual foi ampliado ao longo do tempo em relação ao sentido habitual (como atividade profissional, formalmente estabelecida, no mundo das letras) e intimamente associado ao desenvolvimento dos conceitos de Estado integral e de hegemonia. Seria especialmente na sociedade civil que os intelectuais operariam e sua principal função seria a de organização e conexão desta com a sociedade política. Objeto de reflexão central nos escritos antes e depois da prisão, os intelectuais sempre estiveram no centro do pensamento de Gramsci. Antes da prisão, apareciam em seus artigos jornalísticos como tema e ponto de partida para a crítica das correntes político-culturais italianas e europeias. Contudo, com o ensaio Alcuni temi della questione meridionale, redigido nos primeiros meses de 1926, pouco antes da prisão, os intelectuais passaram à condição de objeto consciente de investigação. Gramsci desenvolveu a hipótese interpretativa de que na Itália a hegemonia burguesa Setentrional se realizara depois da unificação nacional por meio da formação de um “bloco intelectual” responsável pela coesão do “bloco agrário” apesar da desagregação social da região Meridional nesse processo. Grandes intelectuais meridionais, como o filósofo Benedetto Croce (1866-1952), eram os expoentes desse bloco, formado ainda por intelectuais pequeno-burgueses que passaram a compor o pessoal estatal depois do Risorgimento. Já nos Cadernos do cárcere, a pesquisa sobre os intelectuais foi expandida e diversificada, dando lugar a uma história transnacional das correntes intelectuais na modernidade. Nesse novo momento, o estudo dos intelectuais foi inserido em um plano de estudos sobre as vicissitudes da expansão da experiência de formação dos Estados modernos, os efeitos desagregadores e as tendências de integração global contidas neste processo, bem como sobre as crises resultantes dos choques culturais, políticos e sociais resultantes dessa experiência.
Revolução passiva
A expressão apareceu originalmente na obra de Vincenzo Cuoco (1770-1823) em sua obra sobre a revolução napolitana de 1799, na qual o povo não teria tomado parte e teria permanecido passivo. Gramsci utilizou o conceito para explicar o Risorgimento, o processo de formação do Estado nacional italiano no século 19, como uma “revolução sem revolução”, a qual, diferentemente da Revolução Francesa, teria ocorrido por meio de mudanças graduais e sem uma ruptura revolucionária. A seguir, expandiu o uso do conceito, primeiro para explicar o processo de formação dos Estados nacionais europeus por meio de uma série de reformas ou de guerras nacionais que teriam ocorrido sem uma fase jacobina; depois para analisar o americanismo e o fascismo, como processos de transformações moleculares nos quais o Estado assumiu a função dirigente. Nas revoluções passivas as transformações políticas e sociais se caracterizariam por processos de conservação e inovação, preservando as antigas relações sociais, ao mesmo tempo que estas eram atualizadas, permitindo seu desenvolvimento sob novas formas.
Senso comum
Era para Gramsci “a concepção de vida e moral mais difusa” de uma pessoa ou grupo social, ou seja, uma “visão de mundo” de caráter incoerente e fragmentado. Em Gramsci o senso comum não era concebido de maneira imóvel ou rígida, mas sempre como resultado de processos históricos que produzem a fixação temporária de opiniões filosóficas, noções científicas, culturais, econômicas etc. Por esse motivo, com o tempo toda “concepção de vida” seria deslocada por novas concepções com as quais passa a conviver como “sedimentação” de concepções passadas. A expressão “senso comum” acompanhou a pesquisa de Gramsci nos Cadernos do cárcere desde o início. Aqui, encontramos a ideia, análoga à reflexão a respeito dos intelectuais, de que todo estrato social possui o seu senso comum e, portanto, que em uma sociedade muitos sensos comuns convivem entre si. Assim, o conceito de senso comum seria difuso e não se aplicaria apenas a um grupo social, movimento analítico que permitiu a Gramsci realizar uma completa renovação do conceito de ideologia e de sua relação com a política. Assim como a ideologia, o senso comum corresponderia ao momento de reprodução e circulação de uma determinada concepção de mundo e indicaria o funcionamento normal da hegemonia de um grupo dominante. Contudo, apesar de existir nas mais diversas e contraditórias formas, por meio de “tortuosidades” e fragilidades de tipo lógico ou, ainda, como visão de mundo atrasada, o senso comum nada mais seria do que a forma popular das filosofias dominantes passadas. A percepção de uma visão de mundo como “senso comum”, portanto, seria um dado histórico relevante que indicaria não apenas a passagem de uma filosofia para o campo do folclore, mas a presença de outro elemento ativo nos processos de conformação das visões de mundo populares: o bom senso.
Sociedade civil
Nos Cadernos, Gramsci iniciou sua reflexão sobre a sociedade civil distinguindo o sentido que comumente era encontrado nos escritos dos intelectuais católicos, como sinônimo de Estado, em confronto com a Igreja e a família, do sentido que atribuía a Hegel, e com o qual concordava, no qual a sociedade civil era o conteúdo ético do Estado. Enquanto a sociedade política seria o lugar da violência e da coerção, na sociedade civil ocorreria a organização do consenso por meio dos aparelhos privados de hegemonia política e cultural, tais como partidos, sindicatos, igrejas, escolas, universidades, revistas, jornais, etc. A sociedade civil não era, para Gramsci, um lugar no qual apenas a autonomia dos sujeitos e projetos emancipatórios teriam lugar, nem uma esfera contraposta ao Estado e ao mercado, como em certas leituras contemporâneas. Nos Cadernos, a sociedade civil era um espaço do conflito entre forças hegemônicas antagonistas. Nas sociedades modernas e de capitalismo avançado, esse espaço do conflito seria decisivo, uma vez que o conjunto de aparelhos privados constituiriam um sistema “trincheiras e fortificações” que tornariam o ataque direto aos centros de poder, a guerra de movimento, ou inviável, ou ineficaz.
Subalternos
As expressões “grupos subalternos” ou “grupos sociais subalternos” apareceram sempre no plural nos Cadernos. Gramsci não utilizou essas expressões como sinônimo de classe operária ou de proletariado. Elas assumiram um sentido mais amplo, abarcando um conjunto de grupos sociais heterogêneos os quais teriam em comum uma posição de subordinação política na sociedade. A história desses grupos, segundo Gramsci, seria marcada pela fragmentação e por episódios de rebelião espontânea. A cultura dominante tenderia a marginalizar e impedir a unificação desses grupos, reafirmando constantemente a subordinação destes. Para superar essa condição subalterna, ou seja, para pôr um fim à subordinação, seria necessário imprimir a essa atividade espontânea uma direção consciente, capaz de afirmar e conquistar a autonomia desses grupos, o que só ocorreria mediante um longo e complexo processo que teria seu início no âmbito da sociedade civil.
*Alvaro Bianchi, professor da Unicamp, e Daniela Mussi, professora da UFRJ
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