segunda-feira, 13 de julho de 2026

 

Como alguém se torna o que é

Dos bondes de burro ao neopatrimonialismo das terras raras



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Figura 1 — Inauguração dos bondes em Juiz de Fora (15 de novembro de 1881).
Contrato de concessão por 60 anos para exploração de transporte urbano por tração animal.
Fonte: Álbum do Município de Juiz de Fora (1915), Albino de Oliveira Esteves. Colorização: Mauricio Lima Corrêa.


1. Uma “ideia de jerico” como ponto de partida

A expressão popular “ideia de jerico” — corruptela de jumento, burro ou asno — designa uma ideia absurda, teimosa ou deslocada da realidade.

Poucas imagens históricas traduzem tão bem essa noção quanto a concessão firmada em 1880, em Juiz de Fora, que garantia 60 anos de exclusividade para um sistema de bondes movidos por tração animal.

Não se trata apenas de uma escolha equivocada. Trata-se de uma mentalidade.


2. A fotografia de 1881: o atraso institucionalizado

A imagem da inauguração dos bondes, em 1881, não é apenas um registro urbano — é um documento estrutural.

Nela vemos:

  • Homens de cartola celebrando a “modernidade”
  • Trilhos urbanos recém-instalados
  • E, no centro de tudo, burros puxando o progresso

O contrato firmado pelos concessionários Félix Schmidt e Eduardo Batista Roquete Franco não previa adaptação tecnológica. Ao contrário: congelava o futuro em termos do passado.


3. O mundo já havia mudado: Faraday e a eletricidade

Enquanto o Brasil consolidava institucionalmente a tração animal, o mundo já havia dado um salto decisivo.

Décadas antes, na Inglaterra, Michael Faraday havia:

  • Descoberto os princípios do eletromagnetismo
  • Lançado as bases do motor elétrico
  • Antecipado a revolução energética moderna

Ou seja:

Quando o Brasil assinava contratos com burros, o futuro já funcionava a eletricidade.


4. O erro não foi técnico — foi estrutural

O problema não está na adoção da tecnologia disponível à época.

O problema está em:

  • Assinar contratos longos demais
  • Blindar modelos produtivos contra mudança
  • Ignorar tendências científicas já em curso

Isso revela um padrão:

A preferência pela segurança do atraso em vez do risco do avanço.


5. A “alforria tecnológica” dos burros

Curiosamente, os burros foram libertados — não por decisão interna, mas pelo avanço externo.

A eletrificação dos transportes:

  • Tornou obsoletos os contratos vigentes
  • Encerrou, na prática, a exploração animal
  • Impôs uma modernização não planejada

O paralelo com a escravidão é inevitável:

  • A abolição também foi acelerada por pressão externa
  • O sistema interno resistiu até o limite

Assim, tanto homens quanto animais foram libertados por forças que vieram de fora.


6. Dom Pedro II: o império da contradição

Dom Pedro II representa um paradoxo profundo:

  • Culto, cientificamente interessado
  • Conectado à tradição intelectual europeia
  • Admirador do progresso técnico

Mas governando um país:

  • Preso a concessões cartoriais
  • Dependente do Estado como mediador econômico
  • Estruturalmente resistente à inovação

O resultado foi um império onde:

A ciência era admirada — mas não transformadora.


7. O padrão persiste: o Estado como eixo de privilégios

A análise contemporânea ajuda a fechar o ciclo.

Como sintetizado por Rogério Werneck:

prosperar, no Brasil, frequentemente significou aproximar-se do Estado

Esse modelo se traduz em:

  • Concessões protegidas
  • Transferência de riscos ao setor público
  • Captura institucional
  • Baixa competição real

O caso dos bondes não é exceção. É a regra em forma histórica.


8. Dos burros às terras raras

Hoje, a lógica permanece — apenas mudou de objeto.

O Brasil:

  • Possui recursos estratégicos (terras raras)
  • Mas frequentemente opta por exportação primária
  • Sem avançar na cadeia tecnológica

Assim:

  • Ontem: burros puxando bondes
  • Hoje: commodities puxando a economia

A estrutura mental é a mesma.


9. Tornar-se o que é

A frase — inspirada em Nietzsche — ganha aqui um sentido histórico:

O Brasil não “deu errado”. Ele se construiu assim.

Cada decisão:

  • Cada concessão longa
  • Cada privilégio blindado
  • Cada recusa em antecipar o futuro

Contribuiu para formar o presente.

A foto de 1881 não é passado.

É diagnóstico.


10. Conclusão: o futuro continua chegando antes do contrato acabar

A história dos bondes de Juiz de Fora revela um padrão duradouro:

  • Protege-se o presente
  • Subestima-se o futuro
  • E institucionaliza-se o atraso

A pergunta final permanece:

Estamos, ainda hoje, assinando contratos de 60 anos com o passado?

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