sábado, 4 de julho de 2026

A Democracia na América

DUAS DATAS. DUAS LUTAS. UMA MESMA BUSCA: LIBERDADE Liberdade! Liberdade! Abre As Asas Sobre Nós Dominguinhos Do Estácio - Tema
(Alexis de Tocqueville) A Democracia na América v
"Promulgada em 1787, a Constituição dos Estados Unidos é um dos documentos políticos mais importantes da história contemporânea. Elaborada após a independência das Treze Colônias, ela estabeleceu as bases de um novo modelo de organização do Estado, fundamentado na separação dos poderes, no federalismo e na limitação da autoridade governamental."
“Religion e morality are the essential pillars of the civil society.” – George Washington (1732-99) Democracia na América de Alexis de Tocqueville “Democracy can not succeed unless those who express their choice are prepared to choose wisely. The real safeguard of democracy, therefore, is education.” – Franklin D. Roosevelt (1882-1945) “Democracy is the worst form of government except all the others that have been tried from time to time.” – Winston Churchill (1974-1965) Democracia na América é um dos mais relevantes livros escritos sobre democracia (e sobre os EUA), operando como um guia na observação e ponderação dos nossos atuais modelos ditos democráticos. Igualdade de condição é apontada por Tocqueville como o mais importante pilar conceitual da democracia – não igualdade econômica, mas a não existência de classes por nascimento (ausência de privilégios pelo sobrenome). O mundo então movia nesta direção e Tocqueville advoga por uma nova ciência política, sendo a democracia não uma forma de governo, mas um modo de vida que engloba nossa existência cívica e privada (traz à memória o conceito aristotélico zoon politikon – sem o convívio cívico não há vida completa – e daí a Política preceder a Ética). Igualdade, e não liberdade, seria a maior aspiração na América, a ideia de que os diretos são os mesmos para todos os cidadãos, a crença de que a sabedoria de muitos supera a de um ao longo do tempo (igualdade aplicada ao intelecto). (A premissa de “equidade aplicada ao intelecto”, ou seja, de que muitas mentes são mais iluminadas e sábias que um único homem é diretamente oposta ao ensinamento deixado pelo sacrifício de Sócrates. Em qualquer sociedade os brâmanes são sempre uma minoria.) Há diferenças entre igualdade e liberdade: (a) a igualdade pode não se estender as instituições políticas; (b) pode haver igualdade sem liberdade (todos baixo um déspota); (c) pode haver liberdade sem igualdade; (d) diferem no que provocam e na forma de manutenção (e.g. igualdade provoca pequenos prazeres diários – não precisar curvar-se a ninguém – e liberdade demanda sacrifícios); (e) igualdade elimina barreiras entre as pessoas; (f) igualdade torna as pessoas mais empáticas; e (f) igualdade inibe revoluções, pois todos têm algo a perder. Tocqueville tenta definir o termos da questão para avaliar igualdade e liberdade na democracia americana. Perigos na busca da igualdade: (a) na busca da miragem de igualdade de condições econômicas acabamos perdendo a possibilidade de igualdade perante a lei e a liberdade; e (b) em um Estado onde todos são iguais fica mais difícil preservar a independência dos cidadãos diante da agressão do Poder. Há uma contradição entre igualdade e liberdade inerente à democracia. A preservação da liberdade implica a limitação de governo – a fórmula de limitar o Estado e manter a liberdade exige o autogoverno de seus cidadãos segundo as normas religiosas e morais.
O vigor da democracia americana Por O Estado de S. Paulo Ao completar 250 anos de independência sem rupturas, os EUA reafirmam ao mundo o valor da estabilidade das instituições democráticas, pilar do seu formidável desenvolvimento Os Estados Unidos completam hoje 250 anos de independência. Como em várias ocasiões ao longo desse período, muitos se apressam hoje a vaticinar sua decadência, sobretudo em razão da presidência errática e irresponsável de Donald Trump, que em vários aspectos afronta os valores fundadores da República americana, a mais antiga da história contemporânea. Trata-se de precipitação. Malgrado as aparências, as instituições americanas são tão sólidas que resistem até mesmo a um niilista como Trump. Eis o exemplo dos Estados Unidos para o mundo: só a autêntica liberdade, valor central do experimento americano, é capaz de construir a couraça que protege a democracia daqueles que gostariam de destruí-la. Foi esse valor que presidiu os debates que resultaram na Constituição americana. É esse acervo de ideias livremente confrontadas que forma o caldo primordial do experimento americano – algo radicalmente novo para o panorama político da época, dominado por reis e nobres com direitos hereditários. A ideia de uma sociedade profundamente igualitária, onde o poder político seria exercido por cidadãos eleitos pelos seus iguais, era algo sem paralelo na história humana, a não ser que voltemos alguns milênios, para a Antiguidade grega. Sem dúvida, a democracia americana nasceu imperfeita, pois apenas uma minoria detinha o direito de eleger e de ser eleito, sendo esse direito estendido somente com muita luta ao longo dos anos. E essa talvez seja a característica mais notável desse experimento: a capacidade de mudar preservando a sua essência. O mais comum na história humana é a revolução e a ruptura. A Revolução Francesa, por exemplo, inspirada pelos mesmos ideais que moveram a Revolução Americana, não foi capaz de estabilizar o sistema político francês. E assim é a história da maioria das nações, presas que são das veleidades e ambições dos governantes. O que chama a atenção no experimento americano é a permanência das instituições. O aspecto mais simbólico dessa permanência é a sucessão de presidentes regularmente eleitos desde 1789. Quando um presidente falta, o vice-presidente assume de acordo com a lei. Não há jeitinhos ou acordos de conveniência. As mudanças de regras são muito raras. Há uma reverência pelas tradições que construíram a nação. Democracia se tornou uma palavra gasta pelo uso. Não custa lembrar que as ditaduras socialistas comumente se autodenominam “democracias”, pois, em tese, é o povo que está no comando, por meio da “vanguarda do proletariado”. Na prática, no entanto, esse mesmo povo só tem o direito de concordar com os regimes revolucionários, sendo submetido a uma feroz censura e a policiamento político. Na democracia americana, a liberdade de expressão e de associação são sagradas, e são elementos constitutivos do sistema político. Pode parecer natural, mas, a julgar pelo pequeno número de verdadeiras democracias no mundo, trata-se de exceção, não de regra. O experimento americano continua soando como uma novidade na história humana. O incrível desenvolvimento econômico alcançado pelos Estados Unidos nesses 250 anos foi fruto, em grande parte, dessa estabilidade institucional. Outros arranjos políticos podem fomentar o crescimento econômico por algum tempo – a União Soviética, por exemplo, chegou a ser uma potência econômica –, mas somente os Estados Unidos passaram pelo teste do tempo. O seu sistema político, que une flexibilidade e estabilidade, conseguiu produzir prosperidade e conhecimento sem paralelo na história humana. Não é coincidência que a fronteira tecnológica esteja sendo desenhada, neste momento, por empresas americanas. Tem sido assim nos últimos cem anos, pelo menos. Não deixa de ser uma ironia que os americanos estejam comemorando os 250 anos de sua independência sob um presidente tão corrupto e inconsequente como Donald Trump, que desafia abertamente os limites institucionais. Mas talvez essa seja precisamente a demonstração cabal da força do experimento americano, que consegue sobreviver apesar, e não por causa, dos seus presidentes.
ENTRE REPÚBLICAS E SOMBRAS DO PODER: BRASIL E ESTADOS UNIDOS NA ENCRUZILHADA DA HISTÓRIA Por entre celebrações nacionais, disputas diplomáticas e paixões esportivas, dois países revisitados pela própria ironia republicana O legado de duas independências A história das repúblicas do Brasil e dos Estados Unidos sempre se desenrolou em paralelo — ora como espelho, ora como distorção. Ambas emergiram de experiências coloniais e construíram projetos de soberania nacional continuamente tensionados por forças internas e externas. A promessa republicana, longe de ser um ponto de chegada, revelou-se um campo permanente de disputa. Os Estados Unidos nasceram sob o signo da ruptura com a monarquia. Ao recusar qualquer forma de poder vitalício, George Washington estabeleceu um gesto fundador: a limitação voluntária do poder como base da legitimidade republicana. Recusou ser rei para tornar-se presidente — e, sobretudo, para deixar de sê-lo. O Brasil, por outro lado, percorreu uma trajetória mais ambígua. Sua independência manteve traços monárquicos, e a proclamação da República, em 1889, carregou continuidades oligárquicas. O nome “Estados Unidos do Brasil” simbolizava a inspiração no modelo norte-americano, mas também evidenciava a dificuldade de traduzir forma em substância democrática. Soberania sob pressão Ao longo do século XX, os caminhos dos dois países seguiram entrelaçados. Os Estados Unidos consolidaram-se como potência global, projetando influência política, econômica e cultural. O Brasil, por sua vez, alternou momentos de afirmação soberana com períodos de alinhamento estratégico, especialmente durante a Guerra Fria. No século XXI, a ironia histórica se acentua. Os Estados Unidos, tradicionalmente associados à abertura e ao universalismo, enfrentam ciclos de retração, marcados por discursos isolacionistas e xenófobos. O Brasil, agora República Federativa, busca consolidar sua democracia em meio a crises políticas, polarização e disputas sobre o sentido da soberania nacional. O poder e a tentação da permanência Nesse cenário emergem lideranças que tensionam os limites republicanos. Luiz Inácio Lula da Silva, Donald Trump e Jair Bolsonaro, cada um à sua maneira, encarnam a disputa entre institucionalidade e personalismo político. A ideia de que o poder deriva de uma legitimidade quase individual reaparece, desafiando os princípios de alternância e limitação. A metáfora da “coroação” simbólica revela uma questão mais profunda: a dificuldade contemporânea de aceitar a transitoriedade do poder. Em contraste com o gesto inaugural de Washington, a política atual frequentemente se aproxima de uma lógica de permanência — seja pela reeleição, pela influência contínua ou pela disputa da memória histórica. Washington, Brasília e os palcos do presente Eventos recentes ilustram essa dinâmica. Celebrações nacionais transformam-se em atos políticos, articulações diplomáticas cruzam fronteiras e até o esporte se insere na narrativa pública. A polarização brasileira ecoa em Washington, enquanto disputas internacionais moldam agendas internas. Nesse ambiente, o simbólico ganha centralidade. Fogos de artifício, discursos oficiais e partidas de futebol deixam de ser apenas eventos isolados e passam a integrar uma mesma trama de poder, identidade e disputa. A ironia da história A história, madrasta irônica, revela que a grandeza e a miséria do poder caminham lado a lado. As repúblicas, concebidas como antídoto ao absolutismo, permanecem vulneráveis às tentações de concentração. De “Estados Unidos do Brasil” à atual República Federativa, e de “Estados Unidos da América” a momentos de introspecção nacionalista, ambos os países enfrentam o mesmo paradoxo: na busca por soberania plena, esbarram nas fragilidades de suas próprias instituições. Entre líderes que aspiram mais do que governar — desejam marcar a história — e sociedades divididas entre memória e futuro, o ideal republicano segue inacabado.
🖼️ Cartum — Síntese Visual da Ironia Republicana Legenda: Três líderes, três coroas imaginárias, um campo gelado que não lhes pertence. Entre a geopolítica e o futebol, a soberania vira espetáculo — e o poder, caricatura. No jogo das nações, a bola é o mundo: disputada por quem se julga rei, mas esquecida por quem deveria ser seu verdadeiro dono. EPÍLOGO — TRÊS COROAS, UM CAMPO, NENHUM REINO No teatro improvável da história, três líderes se encontram — não em tratados, mas na ironia. Unidos não por projeto, mas por conveniência simbólica, projetam na Noruega — no campo e na geopolítica — uma disputa que é, antes de tudo, reflexo de suas próprias ansiedades de poder e soberania. À beira de um campo gelado, entre bandeiras e egos inflados, encena-se uma tragicomédia: reis sem trono, coroados pela própria narrativa, aplaudidos e vaiados pelo mesmo coro. A bola rola como se fosse o próprio mundo — disputado, fragmentado, inflado de significados. A história, essa madrasta sem humor, observa em silêncio. O poder que se imagina eterno tropeça no ridículo do instante. E, entre bravatas e caricaturas, resta o riso — áspero, crítico, necessário — diante do espetáculo recorrente da brutalidade ignorante que insiste em governar o jogo. No fim, entre diplomacia, política e futebol, o que se revela não é apenas o retrato de um tempo, mas a permanência de um enigma: a soberania não se impõe — constrói-se, disputa-se, e, sobretudo, resiste.

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