Inspirados já nos ensinamentos de Sófocles, aqui, procurar-se-á a conexão, pelo conhecimento, entre o velho e o novo, com seus conflitos. As pistas perseguidas, de modos específicos, continuarão a ser aquelas pavimentadas pelo grego do período clássico (séculos VI e V a.C).
sexta-feira, 3 de julho de 2026
MEMORIAL DE AIRES (ADAPTADO)
De um Conselheiro do Império ao Conselheiro dos Ares Rarefeitos do Século XXI
14 de Março
Li, não sem certo enfado decoroso, o memorial de onze páginas que o jovem Conselheiro dos Ares Rarefeitos — este que pontifica do alto de suas tribunas invisíveis na Flórida — protocolou junto aos escrivães da Casa Branca. Dizem que o fez em nome da República do amanhã, ou de um Príncipe herdeiro que aspira ao trono antes da colheita.
Que curioso século este, onde a diplomacia trocou o silêncio das chancelarias pelo ruído das praças públicas! No meu tempo, o barão do Rio Branco pesava cada adjetivo como quem maneja cristais; hoje, despacha-se o destino do comércio nacional entre um copo de refresco e um clique de computador. O jovem patrício foi a Washington para aplacar a fúria do Tarifaço americano — aquela taxa de vinte e cinco por cento que ameaça sangrar nossas exportações. E como resolveu o impasse? Com a finura de um cirurgião que, para curar uma dor de cabeça, propõe a guilhotina.
Pediu a Washington que desista de taxar o aço e o açúcar, e, em troca, aplique a tal Lei Magnitsky contra os magistrados da nossa Suprema Corte. É uma transação mercantil soberba: poupa-se o bolso do usineiro e entrega-se a soberania do Tribunal. A pátria, que antes se defendia com o peito, agora se negocia como um lote de café de qualidade inferior.
16 de Março
O argumento principal do nosso diplomata sem credenciais é de uma candura que beira a crueldade. Ponderou ele aos americanos que o Tarifaço seria um erro tático grave, pois — vejam que profundidade estatística! — acabaria por "fortalecer politicamente o atual inquilino do Catete" em ano eleitoral.
Eis a nossa elite política resumida a um jogo de compadres. Não se defende a indústria nacional por amor ao operário ou ao progresso; defende-se para que o adversário não colha os louros da resistência. Se o Brasil empobrecer sob o peso das tarifas, isso é um detalhe menor; o importante é que o rival não pareça um herói aos olhos da turba. A miséria do povo, quando bem instrumentalizada, sempre foi um excelente cabo eleitoral.
O jovem Conselheiro queixa-se ainda de que os governadores da federação andam a negociar com o "sexto escalão" americano. Julga-se ele, por certo, no topo do Olimpo, privando com os deuses da Seção 301. Esquece-se de que, na corte de Washington, o interlocutor sem pasta é apenas um instrumento sazonal. Usam-no como quem usa um lenço de papel: serve para limpar o suor da geopolítica e, depois, joga-se fora no primeiro cesto da conveniência comercial.
19 de Março
A gravidade da matéria exigiria lágrimas, mas o espetáculo me arranca apenas este sorriso amarelo, meio cético, que o tempo me ensinou a cultivar.
Ao empurrar o estrangeiro para dentro do nosso quintal judiciário, o Conselheiro dos Ares Rarefeitos jura que está salvando a liberdade. Tolice. O que ele faz é acelerar o relógio da nossa própria decadência. Se Washington fechar as portas e congelar os bens dos nossos juízes, o Brasil restará isolado, humilhado e sem alternativas, restando-lhe apenas jogar-se nos braços de Pequim. Deseja-se fugir do chicote do Norte e corre-se para o abraço do dragão do Oriente.
Tudo isso para garantir uma eleição vindoura. Ao final, quando as tarifas forem pagas e as sanções esquecidas, os mesmos personagens se encontrarão nos salões da história, brindando à saúde de um país que teima em sobreviver, apesar dos seus salvadores. Como diria o meu bom Brás Cubas, não tivemos filhos, não transmitimos a nenhuma criatura o legado da nossa nossa pequenez. É o único consolo que resta a este velho diplomata.
Corta Jaca
Chiquinha Gonzaga
Neste mundo de misérias
Quem impera é quem é mais folgazão!
É quem sabe cortar-jaca nos requebros
De suprema perfeição, perfeição
Esta dança é buliçosa, tão dengosa
Que todos querem dançar!
Não há ricas baronesas, nem marquesas
Que não queiram (saibam) requebrar, requebrar
Este passo tem feitiço, tal ouriço
Faz qualquer homem coió!
Não há velho carrancudo, nem sisudo
Que não caía em trololó, trololó
Quem me vir assim alegre no Flamengo
Por certo se há de render!
Não resiste com certeza, com certeza
Este jeito de mexer
Um Flamengo tão gostoso, tão ruidoso
Vale bem meia-pataca!
Dizem todos que na ponta está na ponta
Nossa dança corta-jaca, corta-jaca!
Ai, ai, como é bom dançar, ai!
Corta-jaca assim, assim, olé! - Mexe com o pé!
Ai, ai, tem feitiço tem, ai!
Dança (corta) meu benzinho assim, olé!
O CORTA-JACA PARALELO
Letra atribuída à pena de Machado de Assis, para a música de Chiquinha Gonzaga
(Introdução saltitante ao piano, com toques de cinismo oitocentista)
Neste mundo de misérias
Quem impera é quem é mais folgazão!
É quem sabe o Corta-Jaca das tarifas
Com suprema perfeição, perfeição!
Esta dança em Washington é tão dengosa
Que o sujeito quer dançar!
Não há falsos diplomatas, nem gravatas,
Que não queiram requebrar, requebrar!
Este passo tem feitiço de comício,
Faz da pátria um coió!
Lá na mesa da comarca, a soberania
Já caiu em trololó, trololó!
Quem me vir pedindo multa ao estrangeiro
Por certo há de ceder!
Não resiste o gringo loiro, com certeza,
A este jeito de mexer!
Um tarifaço tão ruidoso e perigoso
Vale bem meia-pataca!
E na ponta da Seção trezentos e um,
Nossa elite corta-jaca, corta-jaca!
Ai, ai, como é bom trair, ai!
Troca o aço por sanção, olé! — Olha o boné!
Ai, ai, tem feitiço tem, ai!
Corta o juiz do meu país assim, olé!
(O piano acelera, simulando o barulho de notificações de celular e a soberba dos salões)
Vejam só o Conselheiro dos Ares
Que o império foi pregar!
Deixa a indústria desabada e na calçada
Para o voto segurar, segurar!
Não há velho carrancudo do Senado
Que não dance o Magnitsky!
Vende o trono do Catete por um brinde
E um copo de bom uísque, de bom uísque!
Ai, ai, como é bom trair, ai!
Troca o aço por sanção, olé! — Olha o boné!
Ai, ai, que vergonha dá, ai!
Dança o Brasil no tribunal assim, olé!
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