Inspirados já nos ensinamentos de Sófocles, aqui, procurar-se-á a conexão, pelo conhecimento, entre o velho e o novo, com seus conflitos. As pistas perseguidas, de modos específicos, continuarão a ser aquelas pavimentadas pelo grego do período clássico (séculos VI e V a.C).
domingo, 5 de julho de 2026
Por Volta da Meia-noite
Bud Powell The Complete Blue Note and Roost Recordings 1994 - cd1
Autour de minuit - Bande-annonce officielle (VF) - François Cluzet
Warner Bros. France
15 de nov. de 2022
Redécouvrez AUTOUR DE MINUIT, de retour au cinéma en version restaurée 4K.
En 1986, Bertrand Tavernier met en scène le jeune François Cluzet et le saxophoniste Dexter Gordon dans un film hommage au jazz, à Bud Powell et à l’emblématique Blue Note. Trésor pour les cinéphiles et amoureux du jazz, le film a obtenu l’Oscar de la meilleure musique pour Herbie Hancock, également interprète au milieu de rôles secondaires étonnants (Martin Scorsese, Philippe Noiret, Eddy Mitchell…)
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O artigo usa o filme Por Volta da Meia-noite como metáfora para refletir sobre a decadência — não só no jazz dos anos 1950, marcado por talento e marginalização, mas também na política contemporânea.
O autor traça um paralelo entre a crise de valores nos EUA da década de 1950 (macarthismo, repressão, racismo e polarização) e o cenário atual, sugerindo que períodos de tensão política e social tendem a enfraquecer a democracia.
No Brasil, ele destaca dados preocupantes: a maioria dos eleitores não lembra em quem votou nem consegue citar parlamentares, evidenciando um distanciamento entre representantes e população. Segundo o texto, o Congresso funciona com pouca transparência, decisões concentradas em lideranças e foco em interesses privados.
Apesar desse afastamento, mecanismos como emendas parlamentares e fundos eleitorais garantem a reeleição dos políticos, dificultando a renovação. Assim, o sistema estaria “blindado”, e a participação popular enfraquecida.
A conclusão sugere preocupação com a qualidade da democracia brasileira, que se mantém principalmente graças ao voto direto nas eleições majoritárias.
domingo, 5 de julho de 2026
Uma história do jazz, a decadência da política e a blindagem eleitoral, por Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense
Poucos cidadãos sabem citar o nome de um parlamentar, há um profundo divórcio entre representantes e representados. Mas as emendas garantem a reeleição
No fim dos anos 50, Dale Turner, um saxofonista negro americano, toca todas as noites no Blue Note, em Saint-Germain. É um alcoólatra. Basta que escape à vigilância dos amigos e ele vai parar no hospital. Como é comum nesses casos, num determinado momento entra em colapso. Francis, apaixonado admirador do músico de vanguarda, assume plena responsabilidade sobre ele e Dale aos poucos volta a tocar. Mas as raízes, a sua solidão e seus medos o levam de volta a Nova York, onde morre.
O filme por Por Volta da Meia-noite (Round Midnight/Autour de minuit, 1986), de Bertrand Tavernier, conta essa história. É inspirado nas vidas de Bud Powell (e Lester Young), interpretado por Dexter Gordon em pessoa, e Francis Paudras, vivido pelo ator francês François Cluzet. Jazz raiz, destaca-se o trabalho de grandes músicos, como Herbie Hancock, que atua no filme como Martin Scorsese. É um filme de decadência, e não de ascensão. Os grandes músicos de jazz dessa era, quase todos negros, a despeito do talento até hoje reconhecido, viveram em condições por vezes degradantes.
Parece que viajei na batatinha. O que isso tem a ver com a nossa política? Na década de 1950, a vida norte-americana foi marcada por graves crises internas de valores e liberdades. O macarthismo promoveu uma “caça às bruxas” que sufocou o debate democrático, enquanto o conservadorismo emergente combateu o liberalismo tradicional. A profunda segregação racial marginalizou milhões de cidadãos.
Liderada pelo senador republicano Joseph McCarthy, a política externa de contenção ao comunismo transformou-se em histeria interna. O medo da “ameaça vermelha” levou à perseguição de funcionários públicos, intelectuais e artistas, minou o respeito às liberdades civis e à Constituição. A imagem de uma democracia exemplar esmaecia no racismo institucionalizado. Apenas na segunda metade da década, com o boicote aos ônibus de Montgomery em 1955 liderado por Rosa Parks, o movimento por direitos civis emergiu.
O sistema bipartidário norte-americano fora reconfigurado com o fortalecimento de alas conservadoras, focadas no combate ao comunismo e na subversão do liberalismo do New Deal. Essa polarização limitou reformas sociais mais amplas. A Doutrina Truman e a Guerra da Coreia (1950-1953) exigiram grandes mobilizações de recursos e expandiram a influência do complexo militar-industrial, o que gerou contestações sobre o papel dos EUA como “polícia do mundo”. Mais ou menos como agora.
Aqui no Brasil, uma pesquisa Datafolha divulgada há poucos dias revelou um cenário alarmante para a democracia brasileira: 68% dos eleitores não conseguem citar o nome de um único deputado federal em exercício, e 75% não se lembram de nenhum senador. Quase 70% dos entrevistados também não se recordam em quem votaram para cargos do Poder Legislativo federal nas eleições de 2022. Por que isso acontece?
Falta de sintonia
A política institucional, como os Poderes republicanos, nunca foi muito popular. Os partidos e os políticos parecem habitar um planeta distante, descolado da realidade brasileira. Com as sessões virtuais, já não há debates acalorados nos plenários da Cãmara e do Senado, tudo é decidido na base da transa, no colégio de líderes e em votações relâmpagos, às vezes por volta da meia-noite (eis a batatinha).
Os tratos e acordos feitos nos corredores do Congresso, dos gabinetes dos ministros e governantes e, às vezes, dos tribunais visam somente o atendimento de interesses privados de quem detém o poder político e/ou econômico. O Congresso virou um balcão de negócios, o paraíso do patrimonialismo. O caso Master e as relações perigosas com o banqueiro Daniel Vorcaro espantam pelos bilhões envolvidos, mas não pelo modus operandi que hoje predomina na Câmara e no Senado, que foram naturalizados.
A maioria dos políticos só se sente vinculada aos cidadãos quando há eleições. Hoje, não se debate mais nada, tudo parece decidido pelas lideranças do Congresso antes de chegar ao plenário, abruptamente, após articulações em reuniões fechadas. Salvo algumas exceções, os parlamentares comparecem ao plenário raramente, votam conforme a orientação de líderes ou de interesses pontuais e usam o tempo de fala não para formular ideias capazes de mobilizar o eleitorado, mas para produzir “cortes” para as mídias sociais. Os cidadãos são deixados de fora da política.
O Datafolha mostrou que apenas meia dúzia de deputados, entre 513, foram citados por ao menos 1% dos entrevistados – e, mesmo assim, em geral por sua capacidade de “engajamento” no ambiente digital. Poucos cidadãos sabem citar o nome de um parlamentar, há um profundo divórcio entre representantes e representados. Mas os fundos partidário e eleitoral e as emendas parlamentares garantem a reeleição. Não existe “paridade de armas” entre quem tem e não tem mandato. O Congresso está blindado contra a renovação. A democracia de massas no Brasil só sobrevive por causa do voto direto nas eleições majoritárias e da urna eletrônica.
Fica a dica de um bom filme na Apple TV Store. Mas, antes, vamos torcer pelo Brasil.
Meus amigos.
O rádio chiava em 1969; hoje, o algoritmo flutua na tela do telefone. O futebol mudou de sintonia, mas o diagnóstico é exatamente o mesmo. Se João Saldanha estivesse hoje no estúdio — ou se Pep Guardiola decidisse transformar o microfone em sua lousa tática pública —, a análise do Brasil que enfrenta a Noruega pelas oitavas de final da Copa do Mundo não seria uma simples resenha. Seria uma autópsia cultural.
Imagine Guardiola, com aquela sua intensidade febril, gesticulando no vazio, publicizando o invisível: "Não se trata de correr menos ou mais. Trata-se de ocupar o espaço com a mente! E este Brasil de Ancelotti... o espaço está cheio de fantasmas!"
A crônica de hoje é um ensaio sobre o que escolhemos não ver.
As Onze Feras contra as Quarenta e Quatro Distrações
Saldanha, em 1969, foi curto e grosso: "Minhas feras são estas. Quem não gostar, que monte o seu time." Havia uma clareza geométrica na crônica daquele futebol. Onze homens. Um objetivo. Nenhuma concessão ao poder de plantão.
Hoje, o ecossistema inflou. Carlo Ancelotti importou para a Seleção o conceito da famiglia: o afeto que acolhe, o abraço que protege, o filho Davide no banco dividindo o peso do sobrenome. Mas essa proteção paternalista esbarra em uma dispersão inédita. Não temos mais um time; temos um condomínio de marcas. São quarenta e quatro craques dispersos entre quatro amores: o clube europeu que paga o bônus, o patrocinador que desenha a chuteira, o staff que valida o ego e, por último, a camisa que um dia foi de Saldanha.
Quando todos são protegidos na "família", ninguém é cobrado pela excelência. Guardiola olharia para isso e diria: "O amor no futebol é o passe correto. O resto é distração de vestiário."
O Menino Ney e o Rei Pelé: O Mal-Entendido da Visão
A grande ironia histórica repousa na palavra que derrubou Saldanha e que hoje explica Neymar: a cegueira.
Início de 1970. João peitou o país ao sugerir que Pelé sofria de miopia, que não enxergava o jogo em velocidade. A crônica da época, literal e rasteira, achou que o técnico chamava o Rei de cego. Não entenderam o subtexto. Saldanha exigia a perfeição física e o foco absoluto; se até o Rei precisava provar que via o jogo, por que os mortais teriam privilégios?
Corta para o mata-mata atual. Neymar Jr., convocado sob o manto protetor de Ancelotti mesmo sem ritmo, é mantido sob cuidados especiais. Ancelotti o mima. E aqui entra a verdadeira cegueira — não a ótica, que os médicos de 1970 tateavam, mas a cegueira de José Saramago, o Nobel que compartilhava com Saldanha o mesmo rigor ideológico.
É a "cegueira branca". O mal de quem, tendo olhos para ver, escolhe fechar-se na bolha do estrelismo. Neymar, isolado em seu próprio clã de parças e patrocinadores, tornou-se o paciente zero do ensaio de Saramago no futebol brasileiro. Ele enxerga o gol, mas não enxerga o companheiro; enxerga o contrato, mas não a urgência histórica do João Saldanha de outrora.
O Veredicto do Tabu
Hoje, no estádio, o Brasil joga contra a Noruega e contra o seu próprio desfoque. O adversário não é apenas Haaland; é o espelho.
Se Ancelotti insistir em governar pelo afeto, permitindo que a comitiva de mimos dite o ritmo das suas feras, o fantasma histórico cobrará o preço. Com a enciclopédia Saldanha viva na mente, fechamos com a lição máxima que Guardiola sussurraria ao velho João:
"Meus amigos, o talento sem ordem é apenas vaidade fantasiada de craque; se o camisa dez insiste em ser cego para o espaço coletivo, o espaço tático se vinga e o engole vivo."
Agora que a crônica está finalizada, você gostaria de simular o pós-jogo imaginando como Saldanha e Guardiola criticariam a atuação real de Neymar após o apito final?
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