Inspirados já nos ensinamentos de Sófocles, aqui, procurar-se-á a conexão, pelo conhecimento, entre o velho e o novo, com seus conflitos.
As pistas perseguidas, de modos específicos, continuarão a ser aquelas pavimentadas pelo grego do período clássico (séculos VI e V a.C).
“Como alguém se torna o que é”
O QUE ESSA GENTE DIZ NÃO SE ESCREVE.
PALAVRAS O VENTO LEVA
PREFÁCIO
Pois bem, no que concerne a essas frases, (...) descobri ser impossível recordar-lhes o enunciado preciso. Assim, a cada orador fiz falar como, em minha opinião, ele o teria feito naquelas circunstâncias, atendo-me o mais estreitamente possível à linha de pensamento que norteou sua fala.
Tucidides
1. "Como alguém se torna o que é" (Nietzsche)Na boca de Riobaldo, o homem não nasce pronto; ele se faz no perigo e na escolha.A versão de Riobaldo: "O humano não nasce inteiro, carece de ir se perfazendo. O correr da vida embrulha tudo, a vida é mutirão de todos, mas a gente carece de firmar o próprio prumo no meio da travessia."A lógica do sertão: Viver é um ato de coragem ("viver é muito perigoso"). Você só se torna quem é quando enfrenta o sertão do seu próprio peito.2. "Palavras o vento leva" (A descrença no discurso)Para o jagunço, o falar sem o agir ou sem o sentir profundo não tem substância.A versão de Riobaldo: "Conversa de boca para fora é poeira que o vento de agosto espalha. O que o homem fala sem o coração dar o aval, o sertão engole e não deixa rastro. Palavra sem sustância é só barulho de chocalho velho."A lógica do sertão: No jagunço, o que vale é o pacto, o gesto e a coragem. A palavra vazia some na imensidão da caatinga.3. O Prefácio de Tucídides (Reconstruir a fala pela essência)Riobaldo passa o livro inteiro tentando lembrar e recontar o que viveu para o seu doutor (o ouvinte). Ele confessa o tempo todo que não lembra as palavras exatas, mas garante a verdade do que sentiu.
1. “Como alguém se torna o que é” (Nietzsche)
Na voz de Riobaldo, o homem não nasce pronto — ele se constrói no risco e na escolha.
A versão de Riobaldo:
“O humano não nasce inteiro; carece de ir se perfazendo. O correr da vida embrulha tudo — a vida é mutirão de todos —, mas a gente carece de firmar o próprio prumo no meio da travessia.”
A lógica do sertão:
Viver é um ato de coragem — “viver é muito perigoso”. Só se torna quem se é quando se enfrenta o sertão do próprio peito.
2. “Palavras o vento leva” (A descrença no discurso)
Para o jagunço, falar sem agir ou sem sentir profundamente não tem substância.
A versão de Riobaldo:
“Conversa de boca para fora é poeira que o vento de agosto espalha. O que o homem fala sem o coração dar o aval, o sertão engole e não deixa rastro. Palavra sem sustância é só barulho de chocalho velho.”
A lógica do sertão:
O que vale é o pacto, o gesto, a coragem. Palavra vazia se perde na imensidão da caatinga.
3. O Prefácio de Tucídides (Reconstruir a fala pela essência)
Riobaldo passa a narrativa tentando rememorar e recontar o vivido a seu interlocutor. Ele admite não guardar as palavras exatas, mas sustenta a verdade do que sentiu.
A versão de Riobaldo:
“Mire e veja, meu senhor: eu não guardo o rastro exato das palavras que aqueles homens verteram no calor do tiroteio ou no cansaço do pouso. A memória da gente é rio que muda de curso. Mas eu puxo pelo miolo e faço eles falarem o que a alma deles pedia naquela hora, certinho com o que o destino deles exigia.”
A lógica do sertão:
A memória de Riobaldo é tucididiana: ele reconstrói as falas não como registro literal, mas pela fidelidade ao espírito e à verdade de cada momento.
Astor Piazzolla "VIOLENTANGO" -1974.
O QUE ESSA GENTE DIZ O VENTO LEVA
Durante entrevista ao jornalista Ricardo Bruno, o ex-governador Ronaldo Caiado afirmou que Flávio Bolsonaro seria um "peru de Natal" do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao comentar o cenário eleitoral. Segundo Caiado, a metáfora significa que Flávio estaria sendo "cuidado" e mantido politicamente "vivo" pelo PT para ser derrotado em um momento mais favorável.
"Estadistas e governantes de turno" é um artigo de opinião escrito pelo economista e ex-ministro da Fazenda, Pedro S. Malan, publicado no jornal O Estado de S. Paulo.
O texto discute a diferença de visão entre líderes que pensam nas futuras gerações (estadistas) e aqueles focados no curto prazo eleitoral (governantes de turno), usando como ponto de partida a trajetória histórica e a formação das nações.
Você pode ler a íntegra e conferir os argumentos do autor visitando o artigo original diretamente no portal do Estadão.
Além deste texto, Malan colabora frequentemente para a seção de colunas e análises, e você pode acompanhar os demais posicionamentos do autor na página dedicada aos textos de Pedro S. Malan no Estadão.
domingo, 12 de julho de 2026
Estadistas e governantes de turno, por Pedro S. MalanO Estado de S. PauloCaberia perguntar como um país se torna o que é, como passo indispensável para vislumbrar seus futuros possíveis ou desejáveis
“Como alguém se torna o que é” foi o subtítulo do livro de Nietzsche, Ecce Homo (1889 e publicado em 1908). Caberia perguntar como um país se torna o que é, como passo indispensável para vislumbrar seus futuros possíveis ou desejáveis. Afinal, como afirmou Eduardo Giannetti, “na vida das nações, não menos que na dos indivíduos, os primeiros momentos imprimem ao que está nascendo traços de teimosa permanência”.
Os norte-americanos comemoraram, poucos dias atrás, os 250 anos de sua Declaração de Independência. Historiadores não deixaram de notar que a Declaração de 1776 não deve ser confundida com a ratificação da Constituição, que só veio a acontecer 13 anos depois, em 1789. Simon Schama escreveu artigo memorável sobre o tema, publicado em caderno especial do Financial Times (FT), em que explora a relação entre a declaração e a Constituição com foco nas visões dos founding fathers, cujos compromissos, conflitos e contradições ainda hoje são relevantes para entender não só como os EUA se tornaram o que são hoje, como também o que pode vir a ser seu futuro.
Na mesma edição do FT, o historiador Francis Fukuyama chama atenção para duas extraordinárias proposições da Declaração da Independência. “Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas: que todos os homens são criados iguais, que são dotados pelo seu Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes estão a vida, a liberdade e a busca da felicidade”. E “os governos derivam os seus justos poderes do consentimento dos governados”.
Fukuyama nota que a Constituição de 1789 não menciona nem igualdade nem democracia, mas prevê uma ampla separação de poderes que impediria um Estado controlador com autoridade tirânica, e um complexo arranjo federalista que conferiu aos 13 Estados iniciais importantes poderes – aptos a permitir a preservação da escravidão nos Estados do sul por mais de oito décadas, até a guerra civil dos anos 1860. Foi um arranjo importante para que o país viesse a “se tornar o que é”, como foram as extraordinárias expansões territoriais para o oeste (até o Pacífico), para o sul até a definição da fronteira atual com o México, para o norte com o Canadá e com a compra do Alasca aos russos em 1867.
O Brasil teve uma espécie de Constituição outorgada, o “Regimento de Tomé de Souza” (1548), na qual o rei Dom João III definia as atribuições do governador-geral do Brasil. Um de seus dispositivos remete às origens, não apenas do patrimonialismo brasileiro, como talvez também do nosso truncado e peculiar tipo de “federalismo” futuro. “Em cada uma das capitanias, praticareis, tanto com o capitão dela, com o provedor-mor de minha fazenda e alguns homens principais da terra, a maneira que se terá na governança e segurança dela”.
Séculos depois, em 2004, um arguto observador da história brasileira assim sintetizou uma marca do passado que veio assumindo “teimosa permanência”, relevância e atualidade entre nós. “Da Colônia à República, é com o governo que quase sempre foram feitos os melhores negócios. Não é de hoje que boa parte da elite vem sendo formada na crença de que o segredo da prosperidade é estabelecer sólidas relações com o Estado. Vender para o Estado, comprar do Estado, ser financiado pelo Estado, apropriar-se de patrimônio do Estado, receber doações do Estado, transferir passivos para o Estado, repassar riscos para o Estado e conseguir favores do Estado”. (Balcão de negócios, Rogério Werneck, Estadão, 07/05/2004).
O texto de Werneck ajuda a entender como o Brasil se tornou o que é, o que inclui fenômenos como: mensalão, petrolão, Lava Jato, o extraordinário desenvolvimento dos tentáculos do narcotráfico para muito além do mundo das drogas. Para não falar do contubérnio da “Vorcarosfera” e suas redes de tenebrosas transações milionárias. Em linguagem nietzschiana, nos tornamos o que somos. Como vislumbrar saídas?
Elas sempre existem. Mas sua viabilidade pressupõe a existência, na sociedade e na política, de pessoas com espírito cívico, postura, compostura, conhecimento da história do País, da região e do mundo. Com visão de longo prazo, e não apenas de um governo da hora, preocupado com as próximas eleições.
Isso se aplica ao Brasil como a qualquer país que pretenda ter protagonismo na cena global. Mas nenhum país consegue ser relevante globalmente se não for considerado como tal em seu tabuleiro regional.
O saudoso Marcos Azambuja ensinou: “Há muito tempo nos atribuímos a condição de global player, ou seja, um país que tem fichas e interesses em todas as mesas. Por anunciar essa pretensão, quando primeiro a formulamos, estávamos sendo fiéis àquele otimismo profético que é parte da retórica brasileira e ingrediente essencial de nossas sempre adiadas, mas nunca abandonadas esperanças”. Para que essas esperanças pudessem um dia tornar-se realidade, Azambuja sempre insistiu que “o Brasil precisaria oferecer garantias de que seu comportamento seria sempre, como norma, responsável e construtivo”. Observação que se aplica a qualquer país de expressão econômica e geopolítica. Inclusive, e, especialmente, nos dias que correm, aos EUA e àquilo que essa grande nação está se tornando, sob a presidência de Donald Trump.
'Seletiva': Valdemar nega desvio de emendas e Flávio Bolsonaro critica atuação da PF🚨 VALDEMAR COSTA NETO NA MIRA: EMENDAS COLOCAM PRESIDENTE DO PL EM SITUAÇÃO COMPLICADA?MyNews
Transmitido ao vivo em 10 de jul. de 2026 #CongressoNacional #PoliticaBrasileira #Direita
Valdemar Costa Neto, presidente nacional do PL, voltou ao centro das discussões políticas em Brasília após novas movimentações envolvendo emendas parlamentares levantarem questionamentos e aumentarem a pressão sobre uma das principais lideranças da direita brasileira.
Neste vídeo, analisamos os bastidores da política nacional, o impacto dessa situação dentro do Partido Liberal (PL), os possíveis reflexos para a oposição e como esse episódio pode influenciar o cenário político brasileiro.
Entenda:
• Qual é a polêmica envolvendo Valdemar Costa Neto e as emendas;
• Como o caso repercute dentro do Congresso Nacional;
• Os impactos para o PL e seus principais aliados;
• O que essa movimentação revela sobre os bastidores de Brasília.
Acompanhe uma análise completa sobre política brasileira, Congresso Nacional, eleições, partidos políticos e os principais acontecimentos que movimentam o Brasil.
#ValdemarCostaNeto #PL #PoliticaBrasileira #CongressoNacional #Brasilia #NoticiasPoliticas #Direita #Eleições2026Maria Christina Caldeira depõe contra Valdemar Costa Neto - parte 3colunadoaugustonunesEm 20 julho de 2005, Maria Christina Mendes Caldeira, ex-mulher do deputado federal Valdemar Costa Neto, foi à Comissão de Ética da Câmara dos Deputados para depor contra o ex-marido e implicá-lo no esquema do mensalão.
domingo, 12 de julho de 2026
Muitos times para um coração, por Ruy CastroFolha de S. PauloPerguntei à IA por qual time torcia o comediante Zé Trindade. Respostas: por nenhum e váriosDependendo da formulação da pergunta, a IA, sem nenhum caráter, responde de modo diferente
Uma das qualidades da IA é que, ao lhe fazer uma pergunta, você terá direito a uma resposta múltipla. Só depende da maneira como formulou a dita pergunta. Outro dia, em meio a uma pesquisa sobre comediantes brasileiros do passado, perguntei à IA qual era o time de coração do genial Zé Trindade. Para quem não se lembra, Zé Trindade (1915-1990) foi um astro do estúdio Atlântida, em chanchadas deliciosas hoje proibitivamente incorretas até nos títulos, como "Mulheres à Vista" (1959), "Mulheres, Cheguei!" (1959), "Marido de Mulher Boa" (1960), várias outras.
Era também contratado dos programas humorísticos da Rádio Mayrink Veiga, um deles "Miss Campeonato", em que os clubes, interpretados cada qual por um comediante, disputavam a cobiçada Miss Campeonato, interpretada pela cobiçabilíssima Rose Rondelli. Enfim, eu precisava saber por qual dos times o baiano Zé Trindade torcia na vida real.
Daí perguntei à IA, e veio a resposta: "Não há registros históricos ou fatos biográficos que documentem o time de coração do comediante Zé Trindade. A imprensa e as biografias sobre o artista focam na sua carreira artística etc.". Para me garantir, resolvi reformular a pergunta: "Qual era o time de coração do comediante Zé Trindade, que interpretava o Flamengo no programa de rádio 'Miss Campeonato'"? Resposta: "Zé Trindade era assumidamente torcedor do Flamengo, daí interpretar o clube no programa assim assado".
Só que, então, a mesma pergunta repetida sem querer foi respondida com "Apesar de interpretar o Flamengo no programa tal, Zé Trindade era assumidamente torcedor do Vasco, o que lhe rendia comentários jocosos dos colegas". Inconformado, voltei a perguntar e a resposta se repetiu palavra por palavra, só que, dessa vez, seu time de coração era o Botafogo. Quando, no limite, exigi que a IA se decidisse, ela me informou que Zé Trindade torcia pelo Esporte Clube Bahia. Mas, em seguida, o Bahia se tornava o Vitória.
Que não se acuse o imortal Zé Trindade de não ter caráter. Sem caráter é a IA.
Análise Jurídico-Política: Caso Valdemar, Emendas e STF
Análise Técnico-Jurídica e Política do Caso das Emendas Parlamentares (STF)
Data: Julho de 2026
Resumo: Esta matéria analisa, sob perspectiva técnica e política, a investigação envolvendo desvio de emendas parlamentares atribuídas a Valdemar Costa Neto, bem como os possíveis desdobramentos jurídicos, estratégias de defesa e acusação, e o papel institucional do STF e do Poder Executivo.
1. Contexto da Investigação
O ministro do STF, Flávio Dino, determinou o bloqueio de até R$ 119 milhões em bens de Valdemar Costa Neto, sob suspeita de desvio de 21 emendas parlamentares. Os recursos foram liberados entre 2024 e 2025 pelo governo federal.
A Polícia Federal aponta a existência de um esquema envolvendo:
Uso de parlamentares como “laranjas institucionais”;
Indicações falsas de autoria de emendas;
Atuação de assessores e operadores políticos;
Manipulação de planilhas internas da Câmara.
Imagem ilustrativa sugerida
2. Estrutura do Suposto Esquema
Segundo a investigação, o esquema funcionava com base em:
Formalização fictícia de emendas por deputados;
Centralização decisória por agente sem mandato;
Intermediação por assessores e operadores;
Encaminhamento técnico por servidores da Câmara.
“Não restam dúvidas de que as ações investigadas causaram prejuízo ao erário [...]” – Flávio Dino
3. Estratégias de Acusação
3.1 Fundamentação Jurídica
Desvio de finalidade das emendas;
Fraude na autoria parlamentar;
Dano ao erário;
Organização estruturada para manipulação orçamentária.
3.2 Instrumentos Probatórios
Planilhas apreendidas;
Mensagens eletrônicas;
Quebras de sigilo;
Rastreamento financeiro.
4. Estratégias de Defesa
Atividade política legítima: articulação de emendas como função partidária;
Transferência de responsabilidade: execução cabe ao Executivo;
Fragilidade probatória: questionamento de indícios;
Narrativa política: alegação de perseguição judicial.
5. Papel do Poder Executivo
O governo federal aparece como agente liberador dos recursos, o que gera dois vetores estratégicos:
Risco: associação política ao escândalo;
Defesa: cumprimento obrigatório de execução orçamentária.
6. Possibilidade de Depoimento Presidencial
Do ponto de vista jurídico, é possível que o Presidente da República seja arrolado como testemunha.
Entretanto:
O STF pode indeferir por irrelevância;
O depoimento pode ocorrer por escrito;
Há forte impacto político na decisão.
7. Comparação: Caso FHC vs. Cenário Atual
FHC depôs como ex-presidente (sem risco institucional);
Lula, como presidente em exercício, enfrenta maior exposição;
O depoimento atual teria maior carga política;
Pode gerar efeito contrário à defesa.
8. Rosa Weber vs. Flávio Dino
8.1 Diferenças Técnicas
Rosa Weber julgou o orçamento secreto (RP9);
Dino analisa fraudes em emendas de comissão (RP8);
Natureza jurídica distinta dos objetos.
8.2 Sobre Prevaricação
Não há base jurídica para acusação de prevaricação, pois:
Não há dolo comprovado;
O relator possui discricionariedade instrutória;
O fatiamento é prática processual legítima.
9. Análise Política
Polarização influencia a interpretação pública do caso;
Oposição aponta seletividade;
Governo busca dissociar execução e desvio;
O caso expõe fragilidades estruturais do sistema orçamentário.
10. Conclusão
Do ponto de vista técnico, a atuação do STF encontra respaldo jurídico e processual, especialmente diante da produção de provas materiais pela Polícia Federal.
Politicamente, o caso se insere em um ambiente de alta tensão institucional, onde decisões judiciais assumem impacto além do jurídico, influenciando diretamente o cenário eleitoral e o equilíbrio entre os poderes.
Vídeo explicativo sugerido
Crônica de uma República Ideal – Moção de Homenagem
Crônica de uma República Ideal
Advertência do Bruxo ao Leitor
Ao estilo de Machado de Assis
Conta-se que as instituições, como certas senhoras da alta sociedade, preferem o silêncio dos mármores ao calor das praças. Todavia, o autor destas linhas pede a vênia necessária para cometer um pecado de imaginação: fez o Plenário falar o que a liturgia formal cala, mas que a justiça ideal aprovaria com um meneio de cabeça.
Esta Moção de Agradecimento não saiu das gavetas secretas da Praça dos Três Poderes, nem carrega o selo de cera da burocracia estatal. É, antes, uma peça de liberdade poética — essa ficção que a própria Carta Magna ainda garante aos homens de letras. Um devaneio dominical.
Que os austeros ministros de ontem e de hoje perdoem a audácia do registro. A Casa não foi violada. Afinal, nas repúblicas da ficção, assim como nas do mundo dos homens, o “republicanismo radical” da verdade e o espírito do velho decano sempre habitarão os mesmos corredores, ainda que seja apenas nas páginas do livro de algum cronista que teima em olhar a vida pela janela do Cosme Velho.
Moção de Homenagem e Agradecimento
O Plenário do Supremo Tribunal Federal, no uso de suas atribuições institucionais e em respeito aos valores fundamentais da República Federativa do Brasil, formula a presente Moção de Reconhecimento ao Ministro Celso de Mello e ao historiador Marco Antonio Villa.
I. Ao Ministro Celso de Mello
O Guardião da Memória e do Dogma Constitucional
Manifestamos o mais profundo reconhecimento ao Ministro Celso de Mello, cuja trajetória consolidou-se como verdadeiro farol hermenêutico da Constituição Cidadã.
Sua atuação histórica, especialmente na condução da Reclamação Constitucional nº 31.542, estancou de forma definitiva as tentativas de sufocamento do debate público e da atividade jornalística por meio do assédio judicial.
“A liberdade de crítica constitui um dos pilares essenciais do regime democrático.”
Ao afirmar que o patrimônio moral dos agentes públicos submete-se ao escrutínio permanente da sociedade, o Ministro ergueu uma barreira sólida contra qualquer forma de censura.
II. Ao Jornalista Marco Antonio Villa
O Exemplo do “Republicano Radical”
Estendemos este reconhecimento ao professor, historiador e jornalista Marco Antonio Villa, cuja postura crítica e independente reafirma o papel essencial da sociedade civil no equilíbrio republicano.
Ao rejeitar rótulos ideológicos simplistas, Villa define-se como um “republicano radical”, evocando a essência da res publica — a coisa pública pertencente a todos.
Defesa da transparência pública
Crítica ao desrespeito ao teto constitucional
Atuação independente de alinhamentos políticos
Resiliência diante de pressões institucionais
Seu posicionamento demonstra que a crítica institucional não enfraquece a República — ao contrário, a fortalece.
III. Conclusão Colegiada
Ao unir, nesta homenagem simbólica, o magistrado que aplicou o direito e o jornalista que exerceu a cidadania, reafirma-se o compromisso com o Estado Democrático de Direito.
A convergência entre magistratura independente e imprensa livre permanece como uma das garantias fundamentais da República.
Brasília, 11 de julho de 2026.
Vídeo sugerido para contextualização
domingo, 12 de julho de 2026
Benedito, por Ignácio Loyola de Brandão*O Estado de S. Paulo
Benedito Ruy Barbosa morreu na semana passada, aos 95 anos. Cinco a mais do que eu. Jovens, nos encontrávamos no jornal Última Hora, do Samuel Wainer. Ele nos esportes, eu na geral e em variedades. Ambos magros, sotaque caipira. O meu, araraquarense; o dele, de Vera Cruz, vizinha a Marília.
Na verdade, depois descobri que ele nasceu em Gália. Este nome me remetia às aulas de latim do professor Luciano, que nos obrigava a decorar De Bello Gallico. Quando me contou de sua cidade, eu disse: Garça, Gália, Vera Cruz, Lácio, Marília. Trajeto que eu fazia nas férias indo para sítios de tios cafeicultores de porte médio em Vera Cruz.
Na UH – como dizíamos –, ele ficava muito perto de mim, graças aos meus contatos com o mundo do cinema e do teatro. Assim, cautelosamente, ele foi chegando ao Oficina e ao Arena, que se contrapunham ao “teatrão”, como se dizia, do TBC, e de Cacilda Becker, Nydia Licia, Sérgio Cardoso e outros figurões.
Mas, quando Benedito estreou no Teatro de Arena com Fogo Frio, foi uma surpresa. Boa. Para mim ele era do esporte, nada mais. Tanto que chegou a escrever uma biografia do Pelé. Lembro que Vera Cruz e Bauru, terra onde Pelé se fez, são próximas. Ali por 1965, Benedito e eu nos encontramos em Vera Cruz, na tarde em que Anselmo Duarte estreou seu Vereda da Salvação, impactante adaptação da peça teatral de Jorge Andrade. Era uma ramificação do Festival de Cinema de Marília, o melhor do interior.
Eu me gabei, como se dizia: “Sabe que fui o primeiro a saltar do trampolim na inauguração da piscina daqui?”. Aliás, mergulhar eu sabia; nadar, não. Rimos, entramos no cinema. Éramos apaixonados pelas palavras e pelas sensações que podíamos provocar com elas.
Aquele domingo em Vera Cruz foi uma sensação, afinal, Anselmo tinha ganho a Palma de Ouro em Cannes com O Pagador de Promessas. Benedito me disse: “Lembra-se de quando estávamos aqui na cidade, jantando aos domingos, e o cinema tocava uma sirene? Todo mundo empurrava o prato, se arrumava e voava para o cinema”. Tínhamos isso em comum: a paixão pelo cinema.
Ele a sublimou com as telenovelas. Foi um sucesso. Como esquecer Pantanal , Terra Nostra, O Rei do Gado e tantas mais? Eu segui pela literatura com romances, contos, infantis, crônicas. Pouco nos vimos por muitos anos. Penso como o Última Hora foi um celeiro: Jô Soares iniciou sua coluna; Walther Negrão, suas telenovelas; Roberto Freire começou no teatro e nas novelas, e depois criou o Sem Tesão Não Há Solução; Ricardo Ramos, filho de Graciliano, editou literatura; Mila Moreira, então Marilda, foi eleita Miss Luzes, tornou-se modelo e atriz famosa. Fiquei devendo sua biografia. E como a redação resplandecia quando Danuza Leão, mulher de Samuel Wainer, chegava para buscar o marido.
*É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR DE 'ZERO' E 'NÃO VERÁS PAÍS NENHUM'
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