O ALIENISTA DO STF
Do Analista de Bagé ao Analista Weberiano
PRÓLOGO: PASSOU, MINISTRO! PASSOU...
Dados recentes, oriundos de auditorias divulgadas no final de julho de 2026, apontam que cerca de 82% das chamadas “emendas Pix” apresentam irregularidades ou falhas graves de rastreabilidade.
Diante disso, o ministro do Supremo Tribunal Federal determinou que Executivo e Legislativo estabeleçam, em prazo de 10 dias, uma matriz clara de responsabilidades sobre tais repasses.
A tese é simples — e incômoda:
Quem indica o dinheiro não pode lavar as mãos quando ele evapora.
O magistrado ainda advertiu, com precisão cirúrgica, que indicar uma emenda não equivale a fazer um Pix informal a um conhecido na esquina.
Relatórios de órgãos de controle confirmam o cenário: ausência de convênios, obras inacabadas, sobrepreço e um rastro de dinheiro que termina… onde termina o interesse público.
INTERLÚDIO: O ANALISTA DE BAGÉ (CORREÇÃO NECESSÁRIA)
Convém registrar: a obra clássica de Luís Fernando Veríssimo chama-se “O Analista de Bagé” — e não “O Alienista de Bagé”, confusão recorrente que mistura o autor gaúcho com Machado de Assis.
Seu método terapêutico é célebre: o joelhaço inaugural, aplicado em pacientes homens para “quebrar resistências” do ego e prepará-los, à força, para a sessão analítica sobre o divã de pelego.
Rústico, direto, brutal — e, por isso mesmo, revelador.
ENREDO: O JOELHAÇO WEBERIANO
No palco constitucional, surge a figura da analista de Porto Alegre, que, à luz do artigo 37 da Constituição de 1988, sentencia:
As emendas secretas são, em essência, incompatíveis com os princípios da administração pública.
É o joelhaço institucional: transparência contra opacidade, publicidade contra arranjos subterrâneos.
SURGE O SUCESSOR: O ANALISTA FLAVIANO
O novo analista do STF entra em cena com outro estilo. Menos joelhaço, mais advertência:
“Devagar com o andor… que os analisados são de barro.”
Não abandona o método — apenas o calibra. Onde antes havia impacto imediato, agora há construção gradual do constrangimento jurídico.
ÁPICE: O CONSULTÓRIO SUPREMO
Após herdarem os pacientes da antiga analista, o novo terapeuta constitucional dirige-se aos nobres analisados:
— Vossas Excelências desejam que retomemos a técnica psicoconstitucional weberiana de Porto Alegre?
E, do outro lado do divã, curvados — não mais por ideologia, mas por memória muscular institucional — vem a resposta:
— Por favor, ministro… data vênia… já sentimos saudades do vosso elevado e delicado joelhaçozinho!
EPÍLOGO: A FARSA VEROSSÍMEL
O político entra no consultório. A análise começa. A resistência é grande — mas o método é maior.
Entre a norma e o improviso, entre a Constituição e o jeitinho, encena-se uma comédia densa, culta e mordaz — onde o riso não esconde o diagnóstico.
Porque, no fim, a pergunta permanece:
o problema é a terapia… ou o paciente?
RESUMO
Uma esquete político-constitucional, em chave verissimiana, que expõe com humor refinado e crítica aguda a dinâmica das emendas parlamentares, transformando o STF em consultório e a política em caso clínico.
Técnico na forma, ácido no conteúdo, e absolutamente brasileiro no diagnóstico.
Os Povos Brasileiros e Chineses
Olho para baixo e o azul da Terra continua o mesmo, embora aqui de cima, na face oculta do Além, a distância nos dê a exata dimensão das ironias humanas. Lá embaixo, os homens ainda acreditam que governam os fluxos da história com a ponta de suas canetas e o estofado de suas cadeiras. Ilusão de ótica dos vivos. Daqui da Ilha Azul, o que se vê é uma ópera bufa, encenada em dois palcos distantes, mas sintonizados pela mais perfeita assimetria.
A engenharia do destino é caprichosa. O Brasil, com a generosidade ingênua de um gigante deitado em berço esplêndido, resolveu alimentar a grande caldeira do capitalismo planejado do Extremo Oriente. Enviamos o ferro tirado das entranhas da terra e a soja colhida nos cerrados. Transformamos o suor da nossa lavoura e a riqueza do nosso subsolo naquilo que os economistas chamam de commodities. Do outro lado do globo, a China, com a paciência milenar de quem joga xadrez enquanto o Ocidente joga dados, converteu nossa matéria-prima em chips, painéis solares, baterias e uma frota silenciosa de veículos elétricos.
Enquanto os donos do poder se revezam em tronos temporários — ora ungidos como Messias, ora aclamados como as almas mais honestas do mercado eleitoral —, a engrenagem do mundo real gira sem misticismo. O controle centralizado transmuta o arrocho salarial e o cabresto sindical em superávit tecnológico. O resultado dessa dialética das trocas chega montado em duas rodas elétricas, financiadas pelo próprio Estado brasileiro com o aval de fundos de risco e o subsídio de taxas.
É o trânsito da modernidade: o motor elétrico não faz ruído, o torque é instantâneo, e o tombo, previsível. O Estado que avaliza o crédito na entrada é o mesmo que recolhe os pedaços na saída, arcando com a contabilidade trágica das pensões por morte e das invalidezes precoces no INSS. Uma PPP onde o risco é público e o lucro, intangível.
Imagino, então, uma solenidade idealizada na imensidão da Praça do Povo. Sob o céu de Pequim, entre discursos pragmáticos e bandeiras vermelhas, o bravo povo chinês decide condecorar o solidário povo brasileiro com a “Medalha da Gratidão”. Afinal, fomos nós que abrimos mão do futuro industrial para que eles pudessem desenhá-lo. Seria uma honraria justa, entregue com a reverência de quem sabe exatamente quanto custou o quilo do nosso ferro e quão barato saiu o preço da nossa ilusão.
Do mirante do Além, resta-nos o riso contido e a constatação de que a história é um eterno baile de máscaras onde os convidados pagam pela música, mas apenas os músicos sabem o ritmo da dança. Vivam os povos brasileiros e chineses, cada um cumprindo o seu papel no grande teatro do absurdo.
Notas do Conselho de Confrades & Copydesk
Anotação de Eça de Queiroz:
“Meu caro, a ironia sobre os ‘Messias’ e as ‘almas honestas’ capta bem o provincianismo político que já criticávamos no século XIX. O contraste entre a ingenuidade do jeca exportador e o pragmatismo mandarim é de um ridículo deliciosamente trágico. Permita-me apenas aplaudir o desenho dessa ópera onde o figurino é de alta tecnologia, mas a mentalidade continua a da velha colônia.”
Anotação de Machado de Assis:
“A analogia da quietude das rodas elétricas com o silêncio da posteridade é fina. O Estado, esse eterno alienista, financia a queda para depois administrar o curativo. A estrutura está equilibrada, a vaidade dos mandatários foi despida com a devida melancolia jurídica. Não altero uma vírgula; o pessimismo está perfeitamente elegante.”
Relatório de Copydesk de Graciliano Ramos:
“Cortei os adjetivos gordos. Limpei a fumaça das frases longas. A prosa precisava do osso, como a seca. A passagem sobre o INSS estava redundante; reduzi à crueza do fato: o Estado paga a conta do ferro velho e do caixão. O texto agora está seco, direto e bate onde deve.”
O ALIENISTA DO STF
Do Analista de Bagé à Analista Weberiana
ENREDO: O “joelhaço” de Rosa Weber — as emendas secretas são inconstitucionais, todas, pelo artigo 37 da CF/1988. Jeitinho do analista sucessor no STF, Flaviano: “Devagar com o andor, analista de Porto Alegre, que os nobres analisados são de barro.”
ÁPICE: De Dino, em papo reto para analisados herdados de Weber, após o seu famoso joelhaço: “Vossas Excelências querem que eu volte a aplicar a técnica psicoconstitucional weberiana de Porto Alegre?” — “Por favor, ministro Dino, data venia, já sentimos saudades de vosso elevado e delicado joelhaçozinho!”
RESUMO: O político se apresenta ao analista do STF, e a farsa desenrola-se em forma de esquete verossímil. Tecnicamente perfeito na forma, ao estilo cômico, hilário, culto, analítico e denso de Luis Fernando Verissimo.
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