Inspirados já nos ensinamentos de Sófocles, aqui, procurar-se-á a conexão, pelo conhecimento, entre o velho e o novo, com seus conflitos. As pistas perseguidas, de modos específicos, continuarão a ser aquelas pavimentadas pelo grego do período clássico (séculos VI e V a.C).
segunda-feira, 27 de julho de 2026
CONFLITO INTERIOR
Conflito Interior
Martinho da Vila
Eu não sei mais o que fazer
Pra você não ir embora
O nosso amor não acabou
Mas há uma agonia
É um conflito interior
Comum na nossa geração
Dá uma vontade de sumir
Romper o laço umbilical
Mas destransar eu sei
É tão difícil amor
Se ainda existe
Uma atração carnala
E agora já nem sei
Se é bom você ficar
Se eu constatei
Vontades de voar
Composição: Joao de Aquino, Martinho da Vila.
A charge mostra Brizola chegando ao aeroporto sob ataques agressivos, enquanto Mafalda comenta com ironia a hipocrisia política, cercada por “gatos esfomeados” como metáfora.
O presidente da Argentina, Javier Milei, limitou-se a referir-se ao presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, como “ladrão”. Não avançou para qualificações mais agressivas, como a expressão “ratón”, já utilizada em episódios anteriores da política brasileira.
Há precedentes de embates retóricos mais ásperos, como aqueles dirigidos a Leonel Brizola por setores militantes durante seu retorno do exílio. À época, circularam acusações baseadas em supostas confidências atribuídas ao então presidente de Cuba, sem comprovação documental.
O episódio remete ainda ao entrelaçamento de trajetórias políticas e ideológicas na região, incluindo a proximidade entre Frei Betto — posteriormente assessor de Lula — e movimentos católicos de base no ABC paulista, berço da atuação sindical que projetou o atual presidente brasileiro.
“Cambalache” — Enrique Santos Discépolo
“Que el mundo fue y será una porquería, ya lo sé…”
Cambalache
Enrique Santos Discépolo
Cambalache
Cambalache
Que o mundo foi e sempre será uma porcaria, já sei
Que el mundo fue y será una porquería, ya lo sé
No quinhentos e seis e no dois mil também
En el quinientos seis y en el dos mil también
Que sempre teve ladrões, maquiavélicos e enganadores
Que siempre ha habido chorros, maquiavélicos y estafadores
Felizes e amargurados, valores e falsidades
Contentos y amargados, valores y dubles
Mas que o século vinte é um espetáculo
Pero que el siglo veinte es un despliegue
De maldade descarada, já não dá pra negar
De maldad insolente, ya no hay quien lo niegue
Vivemos atolados em um merengue
Vivimos revolcados en un merengue
E no mesmo lamaçal todos se sujando
Y en un mismo lodo todos manoseados
Hoje parece que é a mesma coisa ser honesto ou traidor
Hoy resulta que es lo mismo ser derecho que traidor
Ignorante, sábio, ladrão, generoso, enganador
Ignorante, sabio, chorro, generoso, estafador
Tudo é igual, nada é melhor
Todo es igual, nada es mejor
A mesma coisa um burro que um grande professor
Lo mismo un burro que un gran profesor
Não há reprovados, nem hierarquia
No hay aplazados, ni escalafón
Os imorais nos igualaram
Los inmorales nos han igualado
Se um vive na impostura
Si uno vive en la impostura
E outro rouba por ambição
Y otro roba en su ambición
Não faz diferença se é padre
Da lo mismo que si es cura
Torcedor, rei de paus
Colchonero, rey de bastos
Sem vergonha ou clandestino
Caradura o polizón
Que falta de respeito
Que falta de respeto
Que atropelo à razão
Que atropello a la razón
Qualquer um é um senhor
Cualquiera es un señor
Qualquer um é um ladrão
Cualquiera es un ladrón
Misturados com Stavisky
Mezclados con Stavisky
Vão Don Bosco e a Mignón
Van Don Bosco y la Mignón
Carnera e Napoleão
Carnera y Napoleón
Don Chicho e San Martín
Don Chicho y San martín
Igual na vitrine desrespeitosa
Igual que en la vidriera irrespetuosa
Dos cambalaches
De los cambalaches
A vida se misturou
Se ha mezclado la vida
E ferida por uma espada sem remaches
Y herida por un sable sin remaches
Vê a Bíblia chorar junto a um aquecedor
Ves llorar la Biblia junto a un calefón
Século vinte, cambalache, problemático e febril
Siglo veinte, cambalache, problemático y febril
Quem não chora, não mama, e quem não rouba é um otário
El que no llora, no mama, y el que no afana es un gil
Vai, não para, vai que vai
Dale no más, dale que va
Que lá no forno a gente vai se encontrar
Que allá en el horno se vamos a encontrar
Não pense mais, sente-se ao lado
No pienses más, siéntate a un lado
Que a ninguém importa se você nasceu honesto
Que a nadie importa si naciste honrado
Que é a mesma coisa quem trabalha
Que es lo mismo el que labura
Dia e noite como um boi
Noche y día como un buey
Que quem vive dos outros
Que el que vive de los otros
Que quem mata ou quem cura
Que el que mata o el que cura
Ou está fora da lei
O esta fuera de la ley
Vivemos atolados em um merengue
Vivimos revolcaos en un merengue
E no mesmo lamaçal todos se sujando
Y en un mismo lodo todos manoseados
Composição: Enrique Santos Discépolo. Essa informação está errada? Nos avise.
Enviada por Camila.
Retórica, memória política e os limites do debate público
O presidente da Argentina, Javier Milei, limitou-se recentemente a referir-se ao presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, como “ladrão”. A escolha do termo, ainda que contundente, manteve-se dentro de um padrão retórico que, embora agressivo, não alcança níveis mais extremos já observados em outros momentos da política latino-americana.
A história política brasileira oferece exemplos de embates muito mais ásperos. Durante o retorno de Leonel Brizola do exílio, não foram raras as manifestações de setores militantes que recorreram a qualificações pejorativas baseadas em alegações frágeis ou não comprovadas. À época, circularam acusações atribuídas a supostas confidências do então presidente de Cuba, sem que houvesse documentação que lhes conferisse credibilidade. O episódio ilustra como a retórica política pode, em determinados contextos, ultrapassar os limites do debate público responsável.
Esse tipo de linguagem não surge no vácuo. Ele se insere em um tecido histórico marcado por relações ideológicas, trajetórias pessoais e redes de influência que atravessam fronteiras nacionais. A proximidade entre figuras como Frei Betto — posteriormente assessor de Lula — e os movimentos católicos de base no ABC paulista ajuda a compreender a formação política de lideranças que emergiram do sindicalismo e alcançaram o poder institucional.
Ainda assim, reconhecer o contexto histórico não implica legitimar o uso de acusações sem comprovação como instrumento de disputa política. Ao contrário, reforça a necessidade de distinguir entre crítica fundamentada e retórica inflamatória. Democracias maduras dependem de um debate público que privilegie fatos verificáveis, argumentos consistentes e respeito institucional.
Ao se observar o episódio recente à luz dessa trajetória, percebe-se que, embora a linguagem empregada por Milei seja criticável, ela se insere em uma tradição mais ampla de tensionamentos retóricos na política regional. O desafio contemporâneo permanece o mesmo de outrora: elevar o nível do debate público, evitando que ele se degrade em acusações vazias ou narrativas desprovidas de lastro factual.
Em última instância, o que está em jogo não é apenas a relação entre líderes ou países, mas a qualidade do discurso político que sustenta as instituições democráticas.
Manhattan Connection 26/07/2026
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