domingo, 26 de julho de 2026

O Povo como Abstração e o Urubu de Estimação: A Ilusão das Profecias Eleitorais

"791. A civilização se depurará um dia, fazendo desaparecer os males que tenha produzido? — Sim, quando a moral estiver tão desenvolvida quanto a inteligência. O fruto não pode vir antes da flor."
sábado, 25 de julho de 2026 Lula já levou o tetra? Por Thaís Oyama O Globo Os votos que deixaram o candidato do PL parecem estar sendo absorvidos principalmente pelos indecisos A notícia não é boa para Lula. A pesquisa Datafolha divulgada ontem, ao mostrar um cenário inalterado em relação a junho, reforçou uma tendência já detectada por outros institutos. Desde maio, diferentes levantamentos vêm registrando desgaste de Flávio Bolsonaro sem um crescimento correspondente de Lula ou dos demais candidatos. O que a consistência desses dados sugere é que a disputa continua aberta. Os votos que deixaram o candidato do PL parecem estar sendo absorvidos principalmente pelo contingente de indecisos. Para onde eles migrarão a partir de agora é a questão que pode definir a eleição. Para alguns analistas, nem sequer é possível dizer que será Flávio o adversário de Lula num eventual segundo turno. Felipe Nunes, CEO da Quaest, diz que o destino dos votos perdidos pelo candidato do PL dependerá em grande medida do início da campanha, em especial da exposição que Flávio terá nos debates. Isso, naturalmente, se houver debates: até agora, nenhum dos mais bem colocados demonstrou entusiasmo pela ideia. Lula, por não ter nada a ganhar como favorito; Flávio, pela notória dificuldade em enfrentar situações do tipo e porque, quanto mais fica conhecido, maior é sua rejeição. — O brasileiro dá grande importância à performance dos candidatos. Um desempenho muito bom ou muito ruim de um nome pode fazer uma parcela importante do eleitorado mudar seu voto — diz Nunes. O economista Maurício Moura, fundador do Instituto Ideia, é mais cético quanto à possibilidade de Flávio ser ultrapassado na corrida pelo segundo turno. Pelo Datafolha, Ronaldo Caiado, por exemplo, teria de tomar dele 15 pontos percentuais. Considerando os mais de 40% de desconhecimento do ex-governador, seu reduzido tempo de TV e tempo de campanha, Moura avalia que o goiano só chegaria ao segundo turno na hoje improvável hipótese de Flávio sair do páreo. Assim, a situação mais provável continua sendo uma disputa entre Lula e Flávio — uma contenda de assimetria inédita, a começar pelo peso político dos protagonistas. Lula, qualquer que seja o julgamento que se faça dele, pertence ao minúsculo grupo das figuras incontornáveis da história política brasileira. Em larga medida, as disputas nacionais das últimas quatro décadas se organizaram em torno dele, do partido que fundou e das forças que surgiram para enfrentá-lo — sendo o bolsonarismo a mais recente e eloquente delas. É diante dessa dimensão histórica que a pequenez política de Flávio Bolsonaro se revela em sua plenitude. Senador de trajetória medíocre, o primogênito de Jair chega à convenção do partido sem vice, incapaz de atrair aliados, cercado de denúncias e transformado em candidato por decisão exclusiva do pai. A situação escancara a segunda gritante assimetria da disputa: a diferença de capacidade estratégica das campanhas. Para o PT, disputar eleições é um ofício aperfeiçoado ao longo de 40 anos; para Flávio, tem sido um acúmulo de erros primários — de vídeos desfocados e declarações desastrosas à incapacidade de identificar os segmentos decisivos do eleitorado e falar com eles. Flávio já era o adversário preferido de Lula desde quando não se sabia quem seria o candidato do bolsonarismo. Entende-se agora por quê. A dez semanas da eleição, o petista chega à campanha em trajetória ascendente e com a máquina de governo trabalhando a seu favor em voltagem máxima. Flávio chega ao período decisivo no limite de suas dificuldades. Ainda assim — e essa é a notícia ruim para Lula —, se os votos que abandonaram o filho de Bolsonaro dificilmente migrarão para o petista e tampouco serão suficientes para impulsionar um terceiro nome, restam dois destinos possíveis: converter-se em brancos e nulos ou retornar ao próprio Flávio, que, num eventual segundo turno, pode acabar vitaminado pela polarização. Se hoje Lula avança rumo ao quarto mandato, não está sozinho. O antipetismo — como ele, uma sólida força da política brasileira — segue firme ao seu lado.
sábado, 25 de julho de 2026 A violência onipresente, por Marco Aurélio Nogueira* O Estado de S. Paulo Estamos sem saber como reagir a essa mescla diabólica de violências Quando falamos em violência, vem-nos à mente, antes de tudo, a violência explícita, ostensiva, aquela em que o sangue jorra e vidas são destruídas. Guerras, assassinatos, agressões selvagens, armas de fogo, facas, drones e canhões. Nem sempre consideramos as demais formas de violência que se manifestam em nosso cotidiano. A fome é violenta, assim como as desigualdades e a falta de serviços públicos de qualidade. Há outras, aparentemente pequenas. Não as processamos porque estão normalizadas: convivemos com elas como se fossem paisagens ou eventos entranhados no dia a dia. Violências quase invisíveis, às quais nos habituamos a ponto de as desprezarmos como problema. É o caso do barulho. Podemos assimilá-lo, mas não temos como inocentá-lo. Numa cidade como São Paulo, por exemplo, ele causa malefícios silenciosos, que nos perturbam e nos tiram a concentração, além, obviamente, de prejudicar nosso descanso e nosso sono. Já há muitos estudos a respeito, nem é preciso insistir no tema. São Paulo é uma cidade sempre em construção, com prédios sendo erguidos sem parar, com caminhões circulando o tempo todo e obras madrugada adentro. Há o zumbido ininterrupto dos aparelhos de ar-condicionado, as algazarras gratuitas, os shows e cultos, os desfiles e paradas. Tem quem não se incomode, que entra na vibe e segue em frente. Outros vestem fones de ouvido com cancelamento de ruído. Pensemos no tempo que se gasta com deslocamentos. Nos horários de pico em São Paulo, pode-se levar quatro horas para ir de um ponto a outro da cidade. Imaginem chegar em casa depois de trabalhar oito horas e gastar mais quatro no ônibus ou no metrô? A pessoa sofre simplesmente porque precisa circular. Vai brincar com os filhos, relaxar, preparar o jantar? O barulho e o tempo gasto nem sempre são tratados como violência, e sim como um mal necessário, do tipo que não tem como ser controlado ou evitado. Não deveriam ser vistos como algo normal. Falase em São Paulo: se você quer silêncio, mude-se para o interior, vá para uma cidade pequena ou uma casa no campo. A violência ostensiva está mais perto do cotidiano do que imaginamos. Assaltos à mão armada, furtos, assédios, chantagens, acidentes de trânsito, feminicídios, estupro de crianças e adolescentes, brigas de torcedores, gritos racistas ou homofóbicos, balas perdidas. Palavras e gestos também podem agredir. O bullying e o cyberbullying, que são crescentes, entram fácil nesse rol. Todos são atos que compõem a primeira face da violência explícita, igualmente perigosa e repulsiva. Embora possam ser, em parte, atenuados com acréscimos de escolarização, educação cívica e campanhas de conscientização, nenhum deles pode ser normalizado. A segunda face abre-se toda para o mundo do crime. Ele é diversificado, clandestino, mas também anda pelas ruas. As facções criminosas são violentas por definição. Combatem-se umas às outras, matam policiais que as enfrentam, civis e “doleiros” com quem colaboram, fazem pactos de sangue. Usam o território nacional para atravessar armas e drogas trazidas do Paraguai, da Bolívia, da Colômbia e do Peru, para fazê-las chegar à Ásia e à Europa. É um repto à soberania nacional. Violentam o Estado de Direito quando hackeiam sistemas digitais brasileiros. Violentam a população quando ocupam territórios comunitários para neles instalar seus bunkers e suas plataformas de serviços. É inaceitável que tais territórios não sejam desocupados e devolvidos aos verdadeiros donos. O crime organizado também violenta quando corrompe policiais, políticos, juízes, banqueiros. Como o Brasil não dispõe de uma política de segurança pública e de uma força especializada no combate ao crime, ele rola solto. Operando em rede e por células, está sempre a se reproduzir e a desafiar quem o confronta. A violência policial desmedida e seletiva integra essa segunda face, como se fosse cópia do que fazem os criminosos. As diferentes violências devem, evidentemente, ser hierarquizadas. Algumas são mais graves e complexas do que outras. No limite, implicarão o uso da força, um aparato de inteligência e de informações, o apoio das Forças Armadas. As mais corriqueiras passam por ajustes educacionais e pela recomposição de laços sociais desfeitos pelo ritmo alucinante da vida e pelo uso intensivo de telas e redes sociais. Mas todas são violências a serem combatidas pelos meios que estiverem ao nosso alcance. Na verdade, estamos sem saber como reagir a essa mescla diabólica de violências. Num ano eleitoral, seria lógico que os candidatos falassem a respeito de modo substantivo, para esclarecer a opinião pública e sugerir passos concretos para que a segurança tenha um lugar ao sol no futuro próximo. Podemos esperar que o façam? O direito à segurança é básico e essencial. As coisas não podem ser deixadas ao deus dará, porque fazem sangrar a sociedade inteira e conspiram contra o progresso, a produtividade, a tranquilidade, a justiça, o Estado Democrático e republicano. *Professor titular de Teoria Política da Unesp
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TÍTULO: O MESTRE DA CURVATURA DA TERRA E A BALANÇA DA JUSTIÇA

PERSONAGENS:
MINISTRO KASSIO NUNES MARQUES: Juiz piauiense, elegante, terno bem cortado, postura formal, mas com um olhar que entrega a familiaridade com o sotaque da terra. Ri "amarelo" quando a formalidade jurídica bate de frente com a realidade nua e crua.
O CONSULTOR (MISTE CÁ) / O CABEÇA CHATA: Engenheiro estrutural, piauiense da gema, cabeça ligeiramente achatada (“efeito do calor do Trópico”, segundo ele). Veste um paletó de linho amassado sobre uma camisa sem gravata. Olhar faiscante, raciocínio na velocidade da luz e um humor que corta o protocolo como faca em manteiga.

CENÁRIO:
Antecâmara do gabinete do Ministro no TSE. Uma mesa de jacarandá reluzente. De um lado, pilhas de processos eleitorais. Do outro, uma lousa branca improvisada que o Consultor trouxe debaixo do braço, já rabiscada com equações de Gauss e um desenho de uma rapadura.

(A ação começa ao modo pirandelliano: o Consultor entra quebrando a quarta parede, olhando para o público/leitores, ajustando os óculos na ponta do nariz).

CONSULTOR: (Para o público) Vocês olham para esta cabeça ligeiramente achatada no topo e pensam: "Lá vem mais um carregador de piano". Engano de quem confunde volume com densidade! Minha assimetria craniana é contingência geográfica, meu povo. É o peso do Trópico de Capricórnio que esmaga os fracos, mas compacta o cérebro dos fortes. Sou engenheiro de estruturas. Se eu errar o cálculo, o teto cai na cabeça do inocente. Se o Ministro errar a estatística, cai a República. E entre o teto e a República, o peso é quase o mesmo!

(O Ministro Kassio entra, segurando uma pasta. Olha para o Consultor, depois para o público, confuso com a metalinguagem).

MINISTRO KASSIO: (Tossindo discretamente) Hum... Meu caro conterrâneo. O senhor já está despachando com o além? O pleito de 2026 está batendo à porta, a segurança das urnas é o tema da vez, e o senhor conversando com as paredes?

CONSULTOR: (Virando-se, abrindo os braços) Ministro, meu conterrâneo de Teresina! Eu não conversava com as paredes, conversava com a História! Mas venha cá, sente aí na sua cadeira de couro legítimo que o assunto hoje é sério. O senhor me chamou porque quer blindar os números da eleição de 2026, correto? Quer saber se o resultado que sai da urna é "sagrado".

MINISTRO KASSIO: Exatamente. No meio jurídico, buscamos a verdade real. Mas na boca do povo, e na tribuna dos partidos, as palavras voam. Eles confundem tudo. Quero que o senhor me explique, com a solidez da sua engenharia, a diferença exata entre Acurácia e Precisão. O Tribunal precisa dessa distinção técnica para os relatórios.

CONSULTOR: (Dá uma risadinha franca, bate no topo da própria cabeça) Ah, Kassio... posso te chamar de Kassio aqui no privado, né? Lá fora eu te chamo de Excelência. Veja bem, o direito gosta de palavras bonitas que cobrem o vazio. A engenharia gosta de números feios que sustentam o concreto. Vamos ao quadro!

(O Consultor pega um pincel atômico. Desenha um alvo de dardos clássico na lousa. Desenha três pontinhos colados um no outro, bem na borda externa do alvo, longe do centro).

CONSULTOR: Imagine que o senhor vai caçar preá no sertão com uma espingarda velha. O senhor dá três tiros. Os três tiros pegam exatamente no mesmo lugar: na orelha de uma vaca que estava a dez metros do preá. O senhor foi preciso? Foi! Teve uma precisão cirúrgica. Errou o alvo todas as vezes exatamente do mesmo jeitinho, com o mesmo desvio padrão. Isso é Precisão: repetibilidade, consistência no erro!

MINISTRO KASSIO: (Dá um riso amarelo, ajeita a gravata) Deus me livre... Se o TSE for "preciso" desse jeito, nós legitimamos o erro de forma consistente. O tribunal vira uma máquina de errar igual.

CONSULTOR: Exatamente! Agora olhe o outro lado. (Desenha outro alvo. Três pontinhos espalhados: um em cima, um embaixo, um na esquerda, todos longe do centro, mas se você tirar a média geométrica deles, o centro exato do desenho fica no meio).

CONSULTOR: O senhor dá mais três tiros. Um acerta o céu, outro acerta o chão, outro acerta o rabo do jumento. Na média... na média estatística, o preá morreu de susto no centro. Isso é Acurácia sem precisão. Você está perto da verdade na média geral, mas cada tiro individual é uma tragédia!

MINISTRO KASSIO: (Preocupado, coça a testa) Cruzes... Na eleição não pode ter "média de susto". Um voto para o candidato A não pode compensar um erro no candidato B na média final. Onde fica o ideal?

CONSULTOR: (Garante com o dedo indicador para cima) O ideal, meu nobre Ministro, é o que nós fazemos na engenharia de pontes e o que o TSE tem que fazer em 2026: Acurácia E Precisão juntas! (Desenha três pontos cravados exatamente na mosca do alvo). É acertar o preá no olho (acurácia) e fazer isso as cem vezes que o senhor atirar (precisão).

MINISTRO KASSIO: Entendi. A acurácia é a proximidade do valor real, e a precisão é a proximidade dos resultados entre si. Mas e os "outros bichos" que o senhor mencionou na proposta de consultoria?

CONSULTOR: Ah, os outros bichos! O bicho mais perigoso da estatística eleitoral chama-se "Viés" ou Bias, para os íntimos de Harvard. O viés é aquele erro sistemático, a calibração torta. Sabe quando a balança do mercado já começa marcando 100 gramas antes de você botar a carne?

MINISTRO KASSIO: Sei... o famoso "peso do papel de embrulho".

CONSULTOR: Pois é. Se o sistema tiver um viés, não importa si você rodar o algoritmo uma vez ou um milhão de vezes, ele vai errar sempre para o mesmo lado. Por isso, na minha terra, para testar se uma calçada está reta, a gente não confia só no nível de bolha do pedreiro que tomou uma cachaça. A gente joga uma bacia d'água. A água não tem viés ideológico, Kassio! Ela corre para onde a gravidade manda. O nosso trabalho aqui no TSE em 2026 é sermos a bacia d'água.

MINISTRO KASSIO: (Sorri, captando o espírito da coisa, mas mantendo a postura) Uma metáfora hidráulica para o processo eleitoral. Interessante. Mas me diga uma coisa, Consultor... e o fator humano? Como a estatística prevê o imponderável? O eleitor que muda de ideia na cabine, o boato de WhatsApp de última hora?

CONSULTOR: (Gargalha, batendo na mesa de jacarandá) Aí o senhor tocou no cálculo estrutural da alma humana! Na engenharia, a gente usa o Coeficiente de Cagaço... desculpe o termo, Excelência, no relatório eu escrevo "Fator de Segurança". Se uma viga aguenta uma tonelada, a gente projeta ela para aguentar quatro. Por quê? Porque sempre tem um abençoado que vai inventar de fazer uma festa de casamento em cima da viga.

MINISTRO KASSIO: (Dando o maior riso amarelo do dia) Fator de segurança... anotado. Vamos adotá-lo nos sistemas de contingência.

CONSULTOR: (Sério, olhando nos olhos do Ministro) Brincadeiras à parte, meu conterrâneo. A matemática é a única coisa que separa a civilização do caos. O Piauí nos deu a resiliência para aguentar o calor e a cabeça chata para aguentar a pressão. Use a acurácia para garantir que cada voto seja ele mesmo; use a precisão para provar que o sistema funciona hoje, amanhã e sob auditoria; e use o fator de segurança para os dias de tempestade política.

MINISTRO KASSIO: (Levanta-se, estende a mão) Excelente primeira entrevista, Consultor. O senhor me convenceu. Só peço que, nas reuniões plenárias com os outros ministros, o senhor reduza um pouco as menções a preás, jumentos e coeficientes de nomes impublicáveis.

CONSULTOR: (Pega a lousa debaixo do braço, pisca para o público) Fechado, Ministro! No plenário eu falo em Laplace, Gauss e Distribuição de Poisson. Mas aqui no gabinete, a gente sabe que o que segura o teto é o bom e velho cimento armado com uma pitada de malícia piauiense!

(O Consultor sai de cena assobiando. O Ministro Kassio olha para a lousa, suspira, limpa o suor da testa e volta aos processos).

FIM DO ESQUETE

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Rascunho

RASCUNHOS INAUGURAIS

Por Gustavo Franco

"A ilusão fiscal crônica é o ópio de governos que preferem gastar o futuro a enfrentar o presente."
— Armínio Fraga

I. O Real e o Labirinto da Memória: 32 Anos Depois

Recebi o convite da editoria do Valor Econômico para revisitar as origens do Plano Real com a incômoda certeza de que o passado, no Brasil, é um bicho instável. Quando olho para trás, vejo o grupo que se reuniu no Ministério da Fazenda em 1993 não como um panteão de heróis de bronze, mas como uma bancada de operários da teoria econômica, cansados de ver o país naufragar em planos mirabolantes. Fomos chamados de "a turma da PUC-Rio", um rótulo que carregava tanto de elogio técnico quanto de ranço político.

Mas a verdade é que o Real não nasceu em uma torre de marfim acadêmica; ele foi moldado no choque bruto entre a inflação inercial e a engenharia tributária, cambial e monetária.

O Real foi, antes de tudo, um exercício de desobediência civilizada contra o consenso da época. Nós vínhamos de uma sequência trágica de congelamentos de preços e confiscos que destruíram a poupança popular. Nossa premissa — gestada nos debates da PUC com Persio Arida, André Lara Resende, Edmar Bacha e Pedro Malan — era rigorosamente oposta: o preço não era o vilão, o indexador era.

A criação da URV (Unidade Real de Valor) foi a nossa vacina contra a inércia. Ela funcionou como uma moeda paralela e intangível, permitindo que a sociedade brasileira convertesse seus preços voluntariamente, sem o trauma da canetada estatal. Foi um truque de mágica psicológica ancorado em uma disciplina fiscal implacável.

Muitos críticos da época, e alguns historiadores de hoje, gostam de pintar a estabilização como um subproduto do cenário internacional ou de uma âncora cambial excessivamente rígida. Discordo frontalmente. A transição do governo Itamar Franco para a era Fernando Henrique Cardoso exigiu uma blindagem política que poucos economistas operacionais conseguiriam sustentar sozinhos.

Nós operávamos o Banco Central e o Ministério da Fazenda com um olho no balanço de pagamentos e o outro no Congresso Nacional. A estabilidade não é um evento que se encerra no dia da troca da moeda; ela é um processo diário de defesa das instituições monetárias contra o populismo fiscal.

Hoje, três décadas após aquela virada histórica, o Real enfrenta o teste do tempo e a constante tentação do retrocesso. O maior legado daquela equipe da PUC-Rio não foi apenas o fim da hiperinflação, mas a introdução de uma cultura de responsabilidade que o Brasil insiste em tentar esquecer.

Escrever sobre o Real para o público do Valor não é um exercício de nostalgia ou de autoelogio acadêmico. É um alerta sussurrado ao pé do ouvido da história: a moeda forte é o único patrimônio real dos invisíveis e dos vulneráveis. Quem brinca com o equilíbrio fiscal joga fora a maior conquista social da nossa geração.

II. O Povo como Abstração e o Urubu de Estimação

Há um parentesco incômodo entre certas práticas da nossa atual política econômica e as crônicas que Machado de Assis publicava no final do século XIX. O nosso maior bruxo, que conhecia as entranhas da burocracia e as manhas da nossa elite como ninguém, cansou de ver governantes verbalizarem o conceito de “povo” com uma salivação incontrolável, quase mística, enquanto, nos bastidores, os decretos serviam estritamente para consolidar privilégios herdados.

O "povo", nas bocas que hoje comandam o debate público, não é uma soma de indivíduos de carne, osso e bolso castigados; é uma convenção retórica vazia, um biombo moral usado para justificar o injustificável.

Recentemente, em entrevista de fôlego às Páginas Amarelas da revista Veja, disparou-se um alerta ácido que deveria ecoar não apenas nos gabinetes de Brasília, mais ainda nos tapetes escuros das grandes instituições financeiras. Há uma complacência cínica no ar.

Enquanto o discurso oficial se veste com os trapos de um populismo distributivo de mentira, as mesas de operação celebram o beneplácito indiferente de um governo que entrega juros reais estratosféricos e rolagens de dívida confortáveis. É o milagre da multiplicação dos discursos: saliva-se o "social" na tribuna para que as bancas financeiras se locupletem em silêncio no balcão.

O silêncio cúmplice do mercado diante da deterioração fiscal é o preço que se paga pela captura consentida.

Essa dinâmica nos empurrou para uma verdadeira mixórdia administrativa e conceitual. A desordem é tamanha, o pragmatismo fisiológico é tão rasteiro, que no jargão popular — seja no calor das esquinas cariocas ou na malandragem clássica do Bixiga paulistano — o governo já está chamando “urubu de meu louro”.

Passou-se da fase de mascarar os problemas para a fase de adotá-los com orgulho. Déficits crônicos viraram virtude; o inchaço da máquina pública é vendido como investimento; e o teto de gastos, outrora uma âncora, virou uma peça de ficção de mau gosto.

Quando a contabilidade pública passa a tratar a ave de rapina do rombo fiscal como se fosse o papagaio doméstico da responsabilidade, o limite do bom senso já foi ultrapassado.

Machado de Assis entendia de economia política muito mais do que supõe a nossa vã academia. Ele sabia que o pior tipo de elite é aquela que terceiriza a culpa da inflação e do atraso para as forças ocultas do mercado, enquanto extrai até a última gota de suor da classe média e dos vulneráveis por meio do imposto inflacionário e da asfixia tributária.

A história nos ensina que a engenharia monetária do Real não tolerava esse tipo de mistificação. Chamar o urubu da irresponsabilidade fiscal de "meu louro" não muda o seu apetite destruidor.

Cedo ou tarde, a realidade cobra o preço da saliva gasta em falso nome do povo, e o banquete das illusions sempre termina com a conta sendo paga pelos mesmos invisíveis de sempre.

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RascunhoRASCUNHOS INAUGURAISPor Gustavo Franco"A ilusão fiscal crônica é o ópio de governos que preferem gastar o futuro a enfrentar o presente."— Armínio FragaI. O Real e o Labirinto da Memória: 32 Anos DepoisRecebi o convite da editoria do Valor Econômico para revisitar as origens do Plano Real com a incômoda certeza de que o passado, no Brasil, é um bicho instável. Quando olho para trás, vejo o grupo que se reuniu no Ministério da Fazenda em 1993 não como um panteão de heróis de bronze, mas como uma bancada de operários da teoria econômica, cansados de ver o país naufragar em planos mirabolantes. Fomos chamados de "a turma da PUC-Rio", um rótulo que carregava tanto de elogio técnico quanto de ranço político. Mas a verdade é que o Real não nasceu em uma torre de marfim acadêmica; ele foi moldado no choque bruto entre a inflação inercial e a engenharia tributária, cambial e monetária.O Real foi, antes de tudo, um exercício de desobediência civilizada contra o consenso da época. Nós vínhamos de uma sequência trágica de congelamentos de preços e confiscos que destruíram a poupança popular. Nossa premissa — gestada nos debates da PUC com Persio Arida, André Lara Resende, Edmar Bacha e Pedro Malan — era rigorosamente oposta: o preço não era o vilão, o indexador era. A criação da URV (Unidade Real de Valor) foi a nossa vacina contra a inércia. Ela funcionou como uma moeda paralela e intangível, permitindo que a sociedade brasileira convertesse seus preços voluntariamente, sem o trauma da canetada estatal. Foi um truque de mágica psicológica ancorado em uma disciplina fiscal implacável.Muitos críticos da época, e alguns historiadores de hoje, gostam de pintar a estabilização como um subproduto do cenário internacional ou de uma âncora cambial excessivamente rígida. Discordo frontalmente. A transição do governo Itamar Franco para a era Fernando Henrique Cardoso exigiu uma blindagem política que poucos economistas operacionais conseguiriam sustentar sozinhos. Nós operávamos o Banco Central e o Ministério da Fazenda com um olho no balanço de pagamentos e o outro no Congresso Nacional. A estabilidade não é um evento que se encerra no dia da troca da moeda; ela é um processo diário de defesa das instituições monetárias contra o populismo fiscal.Hoje, três décadas após aquela virada histórica, o Real enfrenta o teste do tempo e a constante tentação do retrocesso. O maior legado daquela equipe da PUC-Rio não foi apenas o fim da hiperinflação, mas a introdução de uma cultura de responsabilidade que o Brasil insiste em tentar esquecer. Escrever sobre o Real para o público do Valor não é um exercício de nostalgia ou de autoelogio acadêmico. É um alerta sussurrado ao pé do ouvido da história: a moeda forte é o único patrimônio real dos invisíveis e dos vulneráveis. Quem brinca com o equilíbrio fiscal joga fora a maior conquista social da nossa geração.II. O Povo como Abstração e o Urubu de EstimaçãoHá um parentesco incômodo entre certas práticas da nossa atual política econômica e as crônicas que Machado de Assis publicava no final do século XIX. O nosso maior bruxo, que conhecia as entranhas da burocracia e as manhas da nossa elite como ninguém, cansou de ver governantes verbalizarem o conceito de “povo” com uma salivação incontrolável, quase mística, enquanto, nos bastidores, os decretos serviam estritamente para consolidar privilégios herdados. O "povo", nas bocas que hoje comandam o debate público, não é uma soma de indivíduos de carne, osso e bolso castigados; é uma convenção retórica vazia, um biombo moral usado para justificar o injustificável.Recentemente, em entrevista de fôlego às Páginas Amarelas da revista Veja, disparou-se um alerta ácido que deveria ecoar não apenas nos gabinetes de Brasília, mais ainda nos tapetes escuros das grandes instituições financeiras. Há uma complacência cínica no ar. Enquanto o discurso oficial se veste com os trapos de um populismo distributivo de mentira, as mesas de operação celebram o beneplácito indiferente de um governo que entrega juros reais estratosféricos e rolagens de dívida confortáveis. É o milagre da multiplicação dos discursos: saliva-se o "social" na tribuna para que as bancas financeiras se locupletem em silêncio no balcão. O silêncio cúmplice do mercado diante da deterioração fiscal é o preço que se paga pela captura consentida.Essa dinâmica nos empurrou para uma verdadeira mixórdia administrativa e conceitual. A desordem é tamanha, o pragmatismo fisiológico é tão rasteiro, que no jargão popular — seja no calor das esquinas cariocas ou na malandragem clássica do Bixiga paulistano — o governo já está chamando “urubu de meu louro”. Passou-se da fase de mascarar os problemas para a fase de adotá-los com orgulho. Déficits crônicos viraram virtude; o inchaço da máquina pública é vendido como investimento; e o teto de gastos, outrora uma âncora, virou uma peça de ficção de mau gosto. Quando a contabilidade pública passa a tratar a ave de rapina do rombo fiscal como se fosse o papagaio doméstico da responsabilidade, o limite do bom senso já foi ultrapassado.Machado de Assis entendia de economia política muito mais do que supõe a nossa vã academia. Ele sabia que o pior tipo de elite é aquela que terceiriza a culpa da inflação e do atraso para as forças ocultas do mercado, enquanto extrai até a última gota de suor da classe média e dos vulneráveis por meio do imposto inflacionário e da asfixia tributária. A história nos ensina que a engenharia monetária do Real não tolerava esse tipo de mistificação. Chamar o urubu da irresponsabilidade fiscal de "meu louro" não muda o seu apetite destruidor. Cedo ou tarde, a realidade cobra o preço da saliva gasta em falso nome do povo, e o banquete das illusions sempre termina com a conta sendo paga pelos mesmos invisíveis de sempre.💡
1) "Uma vez USP, uspiano até PUC-Rio renascer como Paloma!" 2) “Em entrevista à Revista Veja, o economista Armínio Fraga contesta a narrativa de austeridade do Ministério da Fazenda, classificando a gestão atual como desastrosa e com forte semelhança ao descontrole fiscal da era Dilma. Fraga argumenta que as ações da equipe econômica, sob liderança de Durigan e Ceron, representam uma maquiagem contábil que ignora sinais de recessão, como o encurtamento da dívida e a asfixia do crédito. Leia a entrevista completa em Revista Veja.” 3) "sábado, 25 de julho de 2026 'Efeito Gabrielli' mostra o velho na política de Lula, por Adriana Fernandes Folha de S. Paulo Durigan foi escalado para atuar como bombeiro após conversas de bastidor de coordenador de programa de governo Mas se quiser convencer, ministro da Fazenda deveria dar pistas mais claras do que pode vir por aí Substituto de Fernando Haddad na Fazenda, Dario Durigan atuou como bombeiro na campanha para a reeleição do presidente Lula, na tentativa de apagar os ruídos provocados por conversas de bastidores de representantes da Faria Lima com Sérgio Gabrielli, coordenador do programa de governo. O ministro buscou consertar o "efeito Gabrielli" ao afirmar que o governo não pretende adotar medidas de controle de capitais. Para completar, disse que vai "melhorar o fiscal, custe o que custar" ao defender medidas para conter as despesas obrigatórias. Só a necessidade de dar explicações para contrapor o que disse Gabrielli sobre questões tão básicas a fim de evitar que o caldo entorne em 2027 mostra que a divisão no governo sobre os rumos da política econômica segue presente. Haddad encarou essa disputa. É por isso que as palavras de Durigan soam vazias para os analistas que buscam respostas sobre como será a economia num eventual quarto mandato de Lula. As declarações revelam o que há de retrógrado no governo: a aposta em medidas que deram errado e que fecham as portas para o novo. Não há espaço nem para discutir inovações com o objetivo de cortar despesas que são ineficientes. É desolador que a essa altura achem que consertar as contas públicas não é prioridade, mas sim submissão ao mercado, e que o problema seja a "centralidade da política de juros", como sugeriu Gabrielli. Faltando poucos meses para as eleições, ninguém acha que Durigan vai dizer o que pretende fazer para corrigir os problemas das contas públicas com medidas amargas. Certamente o ministro não repetirá Paulo Guedes, que nas eleições de 2022 enviou um projeto de Orçamento para o primeiro ano do governo eleito sem recursos para programas importantes, como o Farmácia Popular, e depois avisou que precisaria adotar medidas duras para refazer a peça orçamentária. Se quiser convencer, Durigan deveria dar pistas claras do que pode vir por aí. Para começar, precisa conter o pacote de bondades eleitorais, que não acaba. O alargamento do socorro às empresas afetadas pelo tarifaço é a prova disso." 4) "Congresso em Foco: E-mail Whatsapp Telegram Google News MUDANÇA NA ESPLANADA Quem é Dario Durigan, o "CEO" da Fazenda cotado para suceder Haddad Atual número 2 da equipe econômica e homem de confiança de Haddad, Durigan deve assumir a Fazenda com a missão de manter a política fiscal do governo em ano eleitoral. Congresso em Foco 17/3/2026 13:35 COMPARTILHE ESTA NOTÍCIA Com a saída de Fernando Haddad do Ministério da Fazenda esperada para os próximos dias, Dario Durigan desponta como o nome mais provável para assumir o comando da pasta. O próprio ministro já sinalizou que seu atual secretário-executivo é um nome natural para a sucessão, embora tenha ressaltado que a decisão final cabe ao presidente Lula. Nos bastidores, a eventual troca é tratada como a opção de continuidade da política econômica do terceiro mandato de Lula. A movimentação ocorre no momento em que o PT e o Palácio do Planalto trabalham para lançar Haddad ao governo de São Paulo. O ministro resistiu por meses à ideia de disputar a eleição, mas acabou sendo pressionado por Lula e pelo partido a enfrentar o governador Tarcísio de Freitas, em uma disputa vista como estratégica para garantir ao presidente um palanque forte no maior colégio eleitoral do país. Pelas regras eleitorais, ministros que pretendam concorrer em outubro precisam observar o prazo de desincompatibilização, que vence em 4 de abril. Durigan é homem de confiança de Fernando Haddad. Se for confirmado no ministério, deve dar continuidade ao trabalho do atual ministro. Durigan é homem de confiança de Fernando Haddad. Se for confirmado no ministério, deve dar continuidade ao trabalho do atual ministro.Gabriela Biló/Folhapress O número 2 da Fazenda Se a confirmação vier, Durigan chegará ao cargo como o "copiloto" de Haddad. Ele é secretário-executivo da Fazenda desde junho de 2023, quando substituiu Gabriel Galípolo, então indicado para a diretoria de Política Monetária do Banco Central. Na prática, ocupa o posto de número 2 da pasta e já vinha sendo preparado para assumir mais protagonismo, tanto na gestão interna quanto na interlocução com outras áreas do governo e com o mercado. Dario Durigan é chamado nos bastidores de "CEO" da Fazenda porque, como secretário-executivo, exerce na prática o papel de gestor da engrenagem interna do ministério. É ele quem organiza fluxos, distribui tarefas, cobra entregas, centraliza informações e ajuda a transformar decisões políticas em execução administrativa. O apelido resume a imagem de Durigan como o operador que faz a máquina do ministério funcionar no dia a dia, mesmo sem ser o titular do cargo. Formação fora do figurino clássico O secretário-executivo nasceu em Bebedouro (SP), a 250 km da capital paulista, e tem 41 anos. Sua formação acadêmica foge ao perfil tradicional de ministro da Fazenda. Ele é advogado, formado em Direito pela USP, com mestrado pela UnB. Sua trajetória está mais ligada a políticas públicas, articulação institucional e desenho jurídico de políticas econômicas do que à economia acadêmica ou ao mercado financeiro tradicional. Ainda assim, esse perfil híbrido ajuda a explicar por que ganhou espaço dentro da equipe de Haddad: é visto como operador técnico, gestor e negociador, mais do que como formulador econômico de perfil clássico. Nesse ponto, ele se aproxima de outros ministros da Fazenda que não vinham da formação econômica tradicional. Fernando Henrique Cardoso era sociólogo; Antonio Palocci, médico. Haddad, por sua vez, é advogado e doutor em filosofia, embora tenha também mestrado em economia. Trajetória no setor público e relação com Haddad Antes da Fazenda, Durigan acumulou passagens por postos importantes da burocracia federal e da política paulista. Trabalhou na Casa Civil da Presidência entre 2011 e 2015, no governo Dilma Rousseff, em temas jurídicos e estratégicos. Depois, foi assessor especial de Haddad na Prefeitura de São Paulo, entre 2015 e 2016, em funções ligadas à coordenação entre secretarias e à interlocução com a Câmara Municipal. Também passou pela Advocacia-Geral da União e, fora do governo, chefiou a área de políticas públicas do WhatsApp no Brasil entre 2020 e 2023. Essa trajetória ajuda a desenhar seu perfil político. Durigan é menos eleitoral e menos partidário do que Haddad, mas é profundamente integrado à rede de confiança do ministro e do Planalto. Sua passagem pela prefeitura paulistana consolidou a relação com Haddad; a ida à Fazenda transformou essa confiança em poder de gestão. O que ele pensa No conteúdo das falas públicas, Durigan aparece como defensor de uma linha de continuidade com viés fiscalista moderado. Em março deste ano, afirmou que a situação fiscal do país "melhorou muito" nos últimos três anos e defendeu uma estratégia de "gradualismo" para garantir estabilidade econômica. Na mesma fala, vinculou essa estratégia à revisão de benefícios fiscais, à preservação da trajetória de crescimento e à implementação da reforma tributária. Também há um traço moralizante em suas posições mais recentes. No início de março, Durigan defendeu que a reforma administrativa "deve começar no andar de cima", com regulamentação nacional dos supersalários e limitação de penduricalhos. Na agenda tributária, o secretário-executivo tem sido um porta-voz fiel da linha Haddad. Em outubro de 2025, disse que a gestão da Fazenda queria deixar como legado três pilares: "soberania, combate ao crime organizado e justiça tributária". Nessa formulação, justiça tributária significa tributar melhor a renda e o patrimônio, aliviar o peso sobre salários e sustentar medidas como a tributação de offshores, fundos exclusivos, apostas on-line e a revisão de incentivos fiscais. Nome de continuidade Esse perfil tende a ser bem recebido por parte do mercado justamente por sinalizar previsibilidade. Como Durigan já participa diretamente da implementação do arcabouço fiscal e da reforma tributária, sua eventual nomeação é lida como continuidade, não como ruptura. Ao mesmo tempo, esse pode ser seu principal desafio: se assumir, herdará uma pasta poderosa em ano eleitoral, mas sem o mesmo capital político de Haddad para arbitrar conflitos, negociar impasses com o Congresso e resistir a pressões por gasto. É por isso que, em Brasília, ele costuma ser descrito como o "CEO" do ministério: alguém que conhece a máquina, domina o fluxo decisório e fala a linguagem técnica sem romper com a lógica política do governo." 5) “Essa é uma referência histórica clássica ao debate econômico brasileiro! A menção à USP (Universidade de São Paulo) e à PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro) evoca a tradicional — e muitas vezes acalorada — disputa intelectual entre as duas maiores escolas de pensamento econômico do país, que moldaram as políticas públicas nas últimas décadas.O Embate das EscolasA Tradição Uspiana: Historicamente ligada ao desenvolvimento nacional, à Unicamp e a correntes heterodoxas ou estruturalistas. Formou economistas que olham muito para o papel do Estado na indução do crescimento e na distribuição de renda. É a escola que moldou grande parte do pensamento econômico do PT, de Guido Mantega a Fernando Haddad (embha Haddad transite por uma linha mais pragmática).A Escola da PUC-Rio: O berço da ortodoxia e do liberalismo social no Brasil. Foi lá que se consolidou o pensamento que gerou o Plano Real, com nomes como Armínio Fraga, Pedro Malan, Gustavo Franco e Edmar Bacha. O foco sempre esteve na responsabilidade fiscal, controle da inflação, eficiência de mercado e reformas estruturais."Até PUC-Rio renascer como Paloma!"A metáfora do "renascer como Paloma" carrega uma ironia fina sobre a teimosia dos debates macroeconômicos no Brasil. Ela sugere que, para um autêntico "uspiano" de convicção, as teses ortodoxas e os economistas formados na Gávea (PUC-Rio) só teriam apelo ou validade se passassem por uma metamorfose completa — ou se o próprio cenário econômico mudasse de tal forma que a velha polarização deixasse de fazer sentido.Na prática do Ministério da Fazenda atual, vemos exatamente esse cabo de guerra: os técnicos de formação mais flexível precisando adotar e executar as metas de austeridade que os economistas da PUC-Rio (como Armínio Fraga) cobram do lado de fora, enquanto a militância mais tradicional à esquerda chia contra o que chamam de "ortodoxia disfarçada".” 6) “O que mudou de 2006 para 2026?O cenário político brasileiro passou por transformações profundas que inviabilizam uma repetição exata daquela dinâmica. As principais mudanças estruturais incluem:1. Fim da hegemonia PSDB x PT e a ascensão do BolsonarismoEm 2006: A disputa ocorria entre duas forças tradicionais (PT e PSDB) dentro de uma lógica de centro-esquerda versus centro-direita institucional.Em 2026: O polo opositor mudou totalmente de mãos. O PSDB perdeu protagonismo e a direita passou a ser liderada pela força ideológica do bolsonarismo, hoje representada no cenário nacional por nomes como o senador Flávio Bolsonaro (PL) e o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos).2. Níveis inéditos de polarização e rejeiçãoEm 2006: Havia maior migração e volatilidade de votos entre as rodadas. Lula conseguiu avançar sobre o eleitorado moderado no segundo turno.Em 2026: Os dados do Datafolha mostram um eleitorado cristalizado e altos índices de rejeição cruzada (acima de 45% para os principais líderes), reduzindo o espaço para viradas drásticas.3. Mudança na dinâmica de São PauloEm 2006: O PSDB paulista funcionava de forma independente e buscava uma identidade de eficiência gerencial.Em 2026: O governo do estado de São Paulo está diretamente acoplado à engrenagem da direita nacional, servindo como a principal vitrine executiva e base logística para as candidaturas de oposição ao Palácio do Planalto.A IA pode cometer erros. Por isso, cheque as respostas”

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