domingo, 26 de julho de 2026

A América contra si mesma

2022 Estate SANT ANDREU JAZZ BAND feat ANDREA MOTIS
domingo, 26 de julho de 2026 A América contra si mesma, por Luiz Sérgio Henriques O Estado de S. Paulo O grande país demite-se em cena aberta da sua história e declina da sua parte de responsabilidade pelo destino do mundo A comemoração dos 250 anos da Declaração de Independência dos Estados Unidos da América, evento revolucionário com repercussões globais em sua época, transcorre numa atmosfera pesada por conta de Trump e do trumpismo. Fácil constatar que há luzes e sombras por toda parte, no passado e no presente. Por isso, mesmo que aos tropeços, damo-nos conta da complexidade daquela sociedade e do seu percurso, bem como da sua relevância para a sorte geral das liberdades. Esta percepção, naturalmente, vai muito além das palavras de ordem que herdamos, calcificadas, do conflito particular que findou em 1989. Para os que se colocam à esquerda, a hora é boa para revisitar os próprios clássicos e reavaliar o experimento norte-americano. Nada melhor do que partir de Karl Marx, quando menos por ser o autor da primeira visão histórico-sistemática da modernidade capitalista. Há quem afirme que as relações entre Europa e América, o velho e o novo mundo, não foram aspecto secundário das cogitações do founding father do comunismo. No século 18, a independência das 13 colônias rebeldes seria o sinal para o movimento revolucionário da classe média europeia. No século seguinte, a guerra civil americana, com a vitória dos yankees, significaria não só a derrota do Sul escravista, mas também um impulso para o amadurecimento do movimento operário europeu em busca de uma nova ordem. Os incrédulos talvez duvidem, mas esta associação de ideias, forte e inesperada, está num lugar de honra, o prefácio da primeira edição de O Capital. Também pode surpreender, pouco tempo antes, a ilustrada troca de mensagens entre Marx e o presidente Lincoln, reconduzido ao cargo nos meses finais da guerra civil. O primeiro saúda a reeleição em nome da Associação Internacional dos Trabalhadores – a temida Internacional, que fazia tremer tronos e potestades –, o segundo responde por meio do seu embaixador em Londres. Firula diplomática, dirão alguns. Signo expressivo, acreditamos, de que a política moderna é o resultado da convergência de forças e tradições das mais diferentes orientações, que convém tentar compreender na relação de umas com as outras, sem estigmatizar nenhuma. Décadas depois, já inteiramente constituída a arena política do século 20, um pensador como Antonio Gramsci recusa-se a encerrar a questão americana na categoria do “imperialismo”. Para ele, há nesta parte do mundo uma possibilidade de mudança que não podia nascer na velha Europa. A demografia racionalizada, a ausência de classes parasitárias e as inovações na produção – referência explícita ao fordismo – marcam uma nova forma de produção e de vida social. O capitalismo uma vez mais se reinventa e faz sua específica “revolução passiva”, cujos resultados o “antagonista” – a classe operária – tem a obrigação de levar seriamente em conta, em vez de propor um mítico combate definitivo entre classes concebidas como blocos de granito. Estes pontos de vista alternativos ajudam a entender o que se seguiria – tanto o dinamismo interno de uma sociedade inovadora quanto sua capacidade expansiva global. Quando o segundo pós-guerra trouxe a Organização das Nações Unidas (ONU) e todo um inédito sistema de organizações multilaterais, a presença norte-americana seria mais marcante do que a do desafiante soviético. A Declaração Universal dos Direitos Humanos, longe de ser um documento americano ou ocidental, se tornaria um marco civilizatório, uma espécie de “dever ser” acima das partes e apesar de desrespeitos flagrantes – frequentemente, aliás, por parte dos Estados Unidos. O fato fundamental é que regimes autoritários, como os do socialismo real, tiveram dificuldades insuperáveis para cumprir a agenda plural de direitos e liberdades gravada naquela declaração. Também por isso, e não só pelo relativo atraso econômico, trilharam o caminho da subalternidade e da autodissolução. Este quadro sumário explica a razão pela qual os fenômenos de degradação em curso na sociedade e na política norte-americana são especialmente graves. A face interna do problema é o fim que se pretende dar ao sonho americano, tal como representado pelo compromisso rooseveltiano há quase cem anos. Uma combinação perversa de darwinismo social e poder central autoritário, com forças contrapostas progressivamente debilitadas, tem o condão de lesar liberdades, acirrar desigualdades e, se não for impedida, pôr em marcha forçada a autocratização da América. A face externa do problema tem dimensão assombrosa. A presidência imperial de Trump é o principal núcleo disseminador da ilusão dos strongmen por todo o Ocidente político – com traços de cesarismo regressivo, no léxico gramsciano. Na América Latina, oficialmente reduzida a província, aquela presidência é farol e apoio de toda uma sequência de trumpitos, para recorrer ao termo mordaz da The Economist – o que em nada lembra o sentido libertador da Declaração de 1776. Há mais: de um modo geral, nesta turbulenta passagem de época, o grande país demite-se em cena aberta da sua história e declina da sua parte de responsabilidade pelo destino do mundo. *Tradutor e ensaísta, coeditor das ‘Obras’ de Gramsci no Brasil
Em artigo para o O Estado de S. Paulo, Luiz Sérgio Henriques analisa a crise do trumpismo nos 250 anos da Independência dos EUA, contrastando a visão realista de Marx e Gramsci sobre o país com o atual declínio democrático. O autor argumenta que os EUA vivem uma "autocratização" interna e se demitem de sua responsabilidade global, promovendo o cesarismo regressivo com o "trumpismo". Mais detalhes podem ser conferidos no artigo original de Luiz Sérgio Henriques no O Estado de S. Paulo.
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Charge Satírica - Museu Murilo Mendes

Charge satírica exposta temporariamente no Museu de Arte Murilo Mendes (MAMM), em Juiz de Fora, ironizando a ignorância provinciana.


O PHAROL DAS MINAS E DOS CAMPOS GERAES

Seção: Espaço Aberto às Cabeças Fechadas (Edição Inaugural)
Por L. S. Mendes

A acusação leviana de que figuras tão díspares quanto Joaquim Nabuco, Karl Marx, Antonio Gramsci e Roberto Campos seriam meros "capachos do imperialismo" é o sintoma manifesto de uma persistente patologia teórica: o reducionismo ideológico. Essa visão petrifica a história, substitui o método dialético pelo preconceito doutrinário e transforma o debate público em um tribunal de inquisição alimentado por cartilhas obsoletas.

Romper com esse maniqueísmo de blocos de granito não significa endossar as escolhas políticas ou os caminhos econômicos de cada um desses personagens. Significa, antes de tudo, resgatar o rigor e reconhecer a densidade do processo histórico.

1. O Rigor Dialético contra o Dogmatismo: Marx e Gramsci

Certas correntes, ao se fecharem em um nacionalismo abstrato ou em um anti-americanismo puramente retórico, cometem o pecado capital de ignorar os seus próprios clássicos.

Karl Marx nunca operou com moralismos baratos. Como fundador da primeira visão histórico-sistemática da modernidade capitalista, ele viu na vitória do Norte industrial e ianque na Guerra Civil Americana um impulso progressista essencial para a derrocada do Sul escravista e o consequente amadurecimento do movimento operário global.

Existe uma ironia histórica profunda que os dogmáticos preferem esquecer: para sobreviver à miséria absoluta no exílio londrino — onde perdeu filhos para a fome e a insalubridade —, Marx vendeu sua força de trabalho intelectual como correspondente do New-York Daily Tribune. Não se vendeu ao "imperialismo", mas sim ao maior jornal abolicionista e progressista da época, ligado à ala radical do partido de Abraham Lincoln. Usou o dinheiro americano para financiar O Capital e as páginas do jornal para denunciar o colonialismo britânico na Índia e a Guerra do Ópio na China.

Décadas depois, Antonio Gramsci, detido nos cárceres do fascismo italiano, recusou-se terminantemente a encerrar o fenômeno americano no rótulo estéril do "imperialismo". Ele enxergou no fordismo e na ausência de classes parasitárias na América uma "revolução passiva" que transformava radicalmente as bases da produção e da vida social. Gramsci compreendeu que o capitalismo se reinventava e que a classe trabalhadora precisava encarar esse dynamism de frente, em vez de sonhar com um mítico combate definitivo.

2. O Pragmatismo da Linha de Frente: Nabuco e Campos

Quando olhamos para a história do Estado brasileiro, o mundo gira e a "Lusitana roda" de forma ainda mais complexa, deixando tonta a esquerda que delira em purismos. A montagem da nossa diplomacia e da infraestrutura econômica sempre exigiu realismo geopolítico, operando muito acima das paixões partidárias.

Joaquim Nabuco, monarquista convicto e amigo pessoal de Dom Pedro II, não hesitou em aceitar o chamado da jovem República brasileira. Foi nomeado pelo governo republicano como ministro plenipotenciário na Casa de Rio Branco. O Barão do Rio Branco e os governantes da época sabiam que o prestígio internacional, a erudição e o trânsito de Nabuco em Washington eram ativos indispensáveis para consolidar nossas fronteiras. O interesse do Estado e a soberania moral do país prevaleceram sobre as divergências de regime.

O mesmo pragmatismo institucional se repete no século XX com Roberto Campos. Caricaturado por críticos extremistas sob o apelido jocoso de "Bob Fields", este diplomata de escol e economista liberal-conservador foi peça-chave na formulação do Plano de Metas de Juscelino Kubitschek e participou ativamente de missões financeiras no governo de João Goulart.

Campos foi convocado por esses presidentes progressistas não por alinhamento ideológico, mas por ser um operador técnico de primeira linha, capaz de dialogar com os centros financeiros internacionais. Pode-se e deve-se criticar os custos sociais de suas políticas e sua posterior atuação na ditadura militar; contudo, reduzi-lo a um lacaio estrangeiro impede a compreensão de como funciona o capitalismo periférico.

Conclusão: A Urgência da Lucidez

A história não é um desfile de almas santificadas ou de vilões de desenho animado. Ela se move por contradições e acomodações pragmáticas. O verdadeiro perigo contemporâneo não está no cosmopolitismo do debate, mas sim na autocratização e no "cesarismo regressivo" que vemos ressurgir globalmente através de figuras autoritárias.

Se o pensamento crítico deseja ter relevância neste século, precisa abandonar urgentemente o tribunal dos rótulos fáceis. O compromisso com a emancipação humana e com o desenvolvimento nacional exige o abandono dos espantalhos ideológicos e o resgate urgente da lucidez crítica.

Use o código com cuidado.
Arminio Fraga: “O quadro é desastroso” Dívidas acumuladas pelas famílias, pelas empresas e pelo governo são um alerta de que a economia requer ajustes urgentes, segundo o ex-presidente do BC Por Márci... Leia mais em: https://veja.abril.com.br/paginas-amarelas/arminio-fraga-o-quadro-e-desastroso/
Dica de leitura: As leis secretas da economia, de Gustavo Franco Comunicação Millenium 23/04/2021 2 min de leitura A sugestão do Instituto Millenium para esta semana é o livro “As leis secretas da economia: Revisitando Roberto Campos e as leis do Kafka”, do economista Gustavo Franco. A obra questiona a obediência da economia brasileira em relação às leis conhecidas. Em busca de possíveis respostas, Gustavo Franco começou a investigar as práticas que envolvem as políticas financeiras no país. O autor teve como inspiração algumas das leis elaboradas nos anos 60 por Roberto Campos e Alexandre Kafka. O livro aborda temas como o Plano Real, a privatização e a política monetária com uma linguagem bem-humorada e tendo como base a análise de personalidades importantes da cultura e da política, como Maquiavel e Machado de Assis. A leitura é indicada para quem deseja entender de forma prática um pouco mais sobre economia sem deixar o humor de lado. Sobre o autor Gustavo H.B. Franco é bacharel e mestre em economia pela PUC do Rio de Janeiro e Ph.D (1986) pela Harvard University. Foi presidente do Banco Central do Brasil, e também diretor da Área Internacional do Banco Central e Secretário Adjunto de Política Econômica do Ministério da Fazenda, entre 1993 e 1999. Gustavo Franco participa de diversos conselhos consultivos e de administração e escreve regularmente para jornais e revistas. É professor do Departamento de Economia da PUC desde 1986. Tem 14 livros publicados e mais de uma centena de artigos em revistas acadêmicas. "Eu sou Fernando Henrique. Vou morrer com ele. Continuar como está é perda de tempo. Vamos torcer para que apareça um outro Fernando Henrique." Gustavo Franco, há 1 mês. Zé Lourenço & Jamil Joanes - Fla X Flu Exemplo Prático: Aplicação no Samba (Estilo Vanzolini) Vanzolini gostava de narrar crônicas urbanas. Veja como a métrica do verso abaixo se mantém exata para os instrumentistas não perderem a cabeça do compasso: "O Estado cede ao mercado / Nesse jogo eu não me estancoO plano foi desenhado / Pelas mãos de Gustavo Franco.Mas a crise que bate à porta / Deixa o povo com o bolso em branco." AO VIVO: FORA DA ORDEM - 26/07/2026 CNN Brasil Transmissão iniciada há 68 minutos Os Estados Unidos confirmaram uma sobretaxa de 12,5% sobre produtos brasileiros, sob a justificativa de suposto trabalho forçado. A medida atinge produtos de 86 países e reacende, no governo Lula, o debate sobre reciprocidade e possíveis respostas às novas tarifas impostas por Donald Trump. A live também analisa a escalada do conflito no Oriente Médio, com ataques dos Houthis no Mar Vermelho e ameaças à navegação pelo Estreito de Bab el-Mandeb, rota responsável por 7% do petróleo global. As mortes de militares aumentam a pressão sobre o governo Trump, que responsabiliza o Irã pelo agravamento da tensão. Outro destaque é o futuro do acordo nuclear entre Estados Unidos e Arábia Saudita. Trump exige que o reino reconheça Israel e nega a possibilidade de enriquecimento de urânio pelos sauditas. Assista ao vivo, toda sexta-feira, a partir das 13h (horário de Brasília) com apresentação de analista de Internacional Lourival Sant’Anna, o analista sênior de Internacional Américo Martins, direto de Londres, e o professor da Universidade George Washington, Maurício Moura. O público também poderá enviar dúvidas e comentários, que serão incorporados ao debate. Participe com a gente! O Fora da Ordem vai ao ar toda sexta-feira a partir das 13h. _________________________________________________________________________

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