sexta-feira, 24 de julho de 2026

RETRATO

Retrato Sueli Costa Eu não tinha esse rosto de hoje Assim calmo, assim magro, assim triste Nem esses olhos tão vazios Nem o lábio amargo Eu não tinha essas mãos tão sem forças Tão paradas e frias e mortas Eu não tinha esse coração Que não se mostra E eu não dei por esta mudança Tão simples, tão certa, tão fácil Em que espelho ficou perdida A minha face Composição: Sueli Costa.
sexta-feira, 24 de julho de 2026 Pesquisa ou adivinhação? Por José de Souza Martins* Valor Econômico A proposta do presidente do TSE é apenas um gesto de policiamento indireto, que nem aponta os problemas estatísticos nem os resolve O presidente do Tribunal Superior Eleitoral convocou dirigentes de institutos de pesquisa de opinião para discutir procedimentos de investigação que neutralizem a interferência das pesquisas nos resultados da eleição. Criou um prêmio para as pesquisas que sejam confirmadas no resultado eleitoral. Provavelmente o correto e seguro teria sido convocar um seminário de especialistas em matemática e estatística das boas universidades. E ouvi-los. Conhecedores que são das várias e diferentes mediações da pesquisa científica baseada em quantificação e das interferências que podem intencional ou acidentalmente sofrer. Esses pesquisadores poderiam explicar que o conhecimento quantitativo nessa área não é adivinhação, nem é loteria ou aposta. Não expressa o acaso e o fortuito, mas o provável. Diversamente do que supõe o ministro, a função de pesquisas desse tipo não é buscar informações objetivas sobre a certeza de resultados prováveis. Mas, principalmente, resultados improváveis, que revelem o nível de risco decorrente de fatores intervenientes na formação da opinião eleitoral. Os que permitam aos partidos e candidatos dirigirem-se aos eleitores para informá-los do que, nos seus respectivos programas, corresponde a suas expectativas sociais e políticas e a suas concepções do que deve ser a composição doutrinária de orientação de um novo governo. A função das pesquisas eleitorais é a de dotar o eleitorado de condições de agir racionalmente, durante a campanha, nas escolhas que fizer. Não entre diferentes pessoas, que é o que equivocadamente se faz aqui, mas entre diferentes doutrinas e diferentes programas de concretização dos valores e concepções dessas doutrinas. Que os candidatos, no regime democrático, devem personificar. De modo a não serem eles mesmos na disputa eleitoral a sua vontade pessoal, mas personificação e expressão da necessidade social e da vontade política coletiva. Na função política do político, na sociedade democrática, deve haver necessariamente uma certa renúncia a ser ele mesmo para ser a personificação do ser coletivo que a política é. O próprio eleitor há de ser conscientizado de que deve impessoalizar-se para ser o outro na política, e não ele mesmo enquanto ser vulgar e cotidiano, no momento solene do registro do voto na urna eletrônica. Para que o faça em nome do todo de que é parte e protagonista, o sujeito coletivo do processo político. Desse modo, avaliando e racionalmente decidindo seu voto para que tenha a maior probabilidade possível de contribuir para a formação de um governo democrático e representativo. Esse momento do processo político só pode existir como instrumento e expressão de uma vontade sociologicamente crítica. A maioria dos nossos políticos e a dos agentes de nossas instituições políticas não sabe o que é isso. Não sabe qual é a enorme diferença entre a eleição de um governo e a eleição de miss. No Brasil, a vontade política é nivelada por baixo. A proposta do ministro passa muito longe dessas premissas e dos problemas e dificuldades científicos da pesquisa de opinião eleitoral. É apenas um gesto de policiamento indireto da pesquisa. São tantos os fatores que enviesam a pesquisa eleitoral que esse policiamento nem aponta os problemas nem os resolve. As pesquisas eleitorais são geralmente feitas de viva voz, no mínimo com a mediação de um intermediário que fala, cujo tom de voz, cujo timbre, cuja entonação pode involuntariamente induzir a resposta. O que discrepa da realidade da urna na hora de votar, que não tem um intermediário de voz. Essa discrepância invalida a possibilidade de que a resposta na pesquisa seja equivalente à resposta no voto. Mas não anula a interferência da pesquisa no voto. Nas ciências sociais, mesmo com todas as cautelas do pesquisador competente, a pesquisa é indutora de resposta e sobretudo de mudança de comportamento e de consciência em relação ao tema investigado. É claro que a escolha da região, da localidade, da categoria social, etária, racial, religiosa, de gênero de referência pode resultar em pesquisas discrepantes quanto ao mesmo objeto. Em resultados não generalizáveis. É óbvio, para qualquer conhecedor dessas técnicas, que instituições de pesquisa podem receber encomendas de informações de opinião eleitoral tendo em conta determinado setor da sociedade e, ao divulgá-los, não divulgam, exatamente, quais as características da população estudada. Divulga-se obrigatoriamente o tamanho da amostra e o erro amostral, mas nunca é divulgado o viés investigativo intencional, o que já sugere antecipadamente a interpretação, que é o que afeta o resultado da pesquisa e até mesmo afeta a decisão eleitoral. *José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar, da Universidade de Cambridge e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador Emérito do CNPq. Membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de Escravidão, em Genebra (1996-2007. Entre outros livros, é autor de “Desavessos” (Editora Com Arte).
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TÍTULO: O REBOTE DA URNA E O CADEADO DE TRINITY HALL

PERSONAGENS:
MINISTRO KASSIO NUNES MARQUES: Elegante, polido, o piauiense que domina a liturgia de Brasília. Usa um terno impecável, mas carrega nos olhos a eterna vigília de quem sabe que o poder no Brasil é um edifício construído sobre areia movediça. Ri amarelo quando a técnica desmonetiza a burocracia.
O PROFESSOR CONSULTOR (ZÉ DA USP): Sociólogo, Professor Emérito da USP, com a estampa clássica dos corredores de Cambridge. Usa um paletó de tweed cotovelado e óculos pendurados no peito. Fala com a ironia cirúrgica da paulistânia acadêmica, misturando o rigor de Trinity Hall com um deboche fino e de quem já viu muitas repúblicas caírem. Abriu mão dos honorários pelo prazer quase erótico da liberdade de cátedra.

CENÁRIO:
O gabinete do Ministro no TSE. A lousa do encontro anterior ainda está no canto, com a rapadura desenhada, mas agora o Professor empilhou livros de Karl Marx, compêndios de amostragem estatística e recortes do Valor Econômico. Na parede, um mapa do Amapá destaca a Usina Hidrelétrica de Coaracy Nunes — o velho "Paredão".

(O Professor entra quebrando a quarta parede, olhando fixamente para o leitor. Ele segura um giz e uma edição antiga de "O Capital")

PROFESSOR: (Ao público) Pirandello sabia que um personagem à procura de um autor é fichinha perto de um eleitor brasileiro à procura de uma doutrina. O Tribunal acha que gerencia uma eleição; eu sei que eles gerenciam um hospício estatístico. Chamar donos de institutos de pesquisa para regular o viés é como chamar as raposas para projetar a fechadura do galinheiro. E de graça! Vim aqui de graça porque a onomástica desse país me fascina. (Aponta para a porta do gabinete) Kassio... Nunes... Marques. Um nome que é uma usina hidrelétrica, um manifesto comunista e uma herança ibérica, tudo batido no liquidificador do cartório!

(O Ministro Kassio entra, segurando uma portaria do TSE sobre premiação para institutos de pesquisa que "acertarem" o resultado. Ele vê o Professor e tenta manter a pose de Excelência).

MINISTRO KASSIO: (Tossindo com elegância jurídica) Professor... Que bom que aceitou o convite após ler seu artigo no jornal. Mas, por favor, guarde esse volume de Marx na gaveta. Se um assessor passa e vê isso na minha mesa nesta semana, o mercado financeiro tem um colapso e a oposição pede meu impeachment antes do café da tarde.

PROFESSOR: (Dá uma risada seca, tipicamente paulistana) Ah, Ministro! O mercado tem medo do Marx de papel, mas engole o "Marques" de carne e osso que regula a soberania popular! Fique tranquilo. Seu pai, no batismo, ou o escrivão de ofício, num rasgo de genialidade futurista, fez a síntese perfeita: juntou o determinismo econômico do velho Karl com a força bruta do "Paredão" do Amapá. O senhor não é um juiz, Kassio; o senhor é uma hidrelétrica dialética! E é por isso que vim sem cobrar um tostão. O direito à heresia científica não tem preço.

MINISTRO KASSIO: (Senta-se, soltando um riso amarelo que vai da bochecha à orelha) Menos, Professor, bem menos. Vamos focar em 2026. O senhor criticou minha ideia de premiar as pesquisas que chegarem mais perto do resultado real da urna. Ora, queremos acurácia e precisão! Queremos que a pesquisa seja o espelho da alma social.

PROFESSOR: (Bate com o livro na mesa, fazendo subir uma leve poeira jurídica) Pois a "alma social" não tem espelho, Ministro, ela tem ressaca! O senhor está confundindo eleição de governo com concurso de Miss Brasil. Achar que a pesquisa serve para adivinhar quem vai ganhar na loteria do domingo é o primeiro erro da tecnocracia. A pesquisa de opinião existe para mapear o improvável, o risco, a margin onde o eleitor deixa de ser um bicho vulgar que consome fake news para se tornar um sujeito coletivo.

MINISTRO KASSIO: Mas se a pesquisa diverge radicalmente do resultado da urna, o povo perde a fé nas instituições. Eles acham que é manipulação, que há um "viés intencional".

PROFESSOR: E há! Mas não o viés que o senhor quer policiar com a sua portaria. Vamos à precisão da aleatoriedade social. (Caminha até a lousa) O pesquisador vai à rua. Ele fala de viva voz. O tom de voz dele, o sotaque — seja o seu piauiense da paróquia ou o meu paulista do mundo —, o timbre, o milissegundo de hesitação induz a resposta. O eleitor, com medo ou querendo agradar, responde o que o intermediário quer ouvir.

MINISTRO KASSIO: E na urna?

PROFESSOR: Na urna não tem voz, Kassio! A urna eletrônica é um confessionário mudo, um túmulo de silício. O eleitor se impessoaliza. Ele entra na cabine como um indivíduo e sai de lá como parte do todo. A discrepância entre a pesquisa de rua e o voto digital não é erro matemático; é a metamorfose da consciência social no momento solene do registro! O senhor quer policiar o comportamento do vento!

MINISTRO KASSIO: (Preocupado, olhando para o papel da portaria) Então... o erro amostral divulgado pelos institutos é uma illusions?

PROFESSOR: É uma meia verdade, o que na sociologia é pior que uma mentira inteira. Eles divulgam o tamanho da amostra e a margem de erro. Mas o senhor sabe o que eles nunca divulgam? O viés investigativo encomendado. Se eu quero pesquisar a intenção de voto num setor específico, eu calibro a amostragem para aquela categoria social, etária ou religiosa. Quando divulgo o resultado geral, eu omito a especificidade do corte. Isso afeta a decisão do eleitor durante a campanha. A pesquisa não apenas mede a realidade, ela induz a mudança de comportamento.

MINISTRO KASSIO: (Ajeita os óculos, pensativo) Se a pesquisa induz o voto, então o policiamento indireto que propus...

PROFESSOR: ...É inútil! Nem aponta os problemas reais da estrutura, nem os resolve. O senhor está tentando consertar uma fissura na fundação de um prédio pintando a parede com tinta fresca. Em Cambridge, a gente aprende que para entender o provável, é preciso respeitar as mediações do acaso. O eleitor brasileiro não vota com a cabeça de Gauss; ele vota com o estômago, com o bolso e, muitas vezes, com o fígado.

MINISTRO KASSIO: (Suspira profundamente, olhando para o mapa do Amapá na parede) É... o "Paredão" segura muita água, mas quando a represa da insatisfação social enche, não há engenharia que segure.

PROFESSOR: (Sorri, guardando o giz no bolso do paletó de tweed) Exatamente, meu caro Kassius com K. Sua dialética ativa com a realidade nacional é mais viva do que supõe a vã filosofia dos críticos de plantão. Esqueça os prêmios para adivinhos. Se o senhor quer precisão e acurácia na aleatoriedade de 2026, garanta apenas que o confessionário mudo da urna continue impessoal. Deixe que os institutos errem suas profecias, porque no final, a sociologia sempre sobrevive ao espetáculo.

MINISTRO KASSIO: (Levanta-se, estendendo a mão com um sorriso já menos amarelo e mais resignado) Obrigado, Professor. Sua liberdade de cátedra me custou caro em paciência, mas economizou os cofres do Tribunal.

PROFESSOR: (Olha para o público uma última vez antes de sair) De nada, Ministro. A ciência, quando é livre, não emite nota fiscal. Ela apenas deixa a pulga atrás da orelha do poder.

(O Professor sai de cena a passos firmes. O Ministro Kassio olha para a portaria sobre as pesquisas, amassa-a lentamente e a joga no lixo, voltando a olhar para o desenho da rapadura na lousa).

FIM DO ESQUETE 2

Use o código com cuidado.Se precisar Meaning of "Margin" with example sentences | Learn Por que a direita está fugindo de Flávio Bolsonaro? | Não é Bem Assim Meio Estreou há 18 horas #flaviobolsonaro #eleições2026 #michellebolsonaro No Não é Bem Assim, Dora Kramer, Marcelo Madureira, Pedro Paulo Magalhães e Ronaldo Cezar Coelho analisam por que a candidatura de Flávio Bolsonaro balança, mas ainda não caiu. Apesar de manter um eleitorado fiel e aparecer competitivo nas pesquisas, o senador enfrenta dificuldades crescentes para consolidar apoios dentro da própria direita. O programa debate o isolamento político de Flávio, a disputa de espaço com Michelle Bolsonaro, a resistência de partidos aliados em embarcar na candidatura e o impacto das investigações e desgastes recentes sobre seu projeto presidencial. _
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Capa Pelo Buraco da Fechadura - Spazio Pirandello

Sinopse: Em um relato nostálgico e bem-humorado extraído de "Pelo Buraco da Fechadura", o autor resgata a efervescência política dos anos 1980 a partir do icônico Spazio Pirandello. O texto revive o antológico comício das Diretas Já das janelas do restaurante paulistano, revela bastidores divertidos com Ulysses Guimarães e traz o registro histórico com os números exatos do primeiro turno das marcantes eleições presidenciais de 1989.

AMARELO NO

SPAZIO PIRANDELLO

Voltando ao Pirandello.

Quatro anos depois de sua trauma.

O lançamento do Diretas Já, um dos movimentos mais democráticos que vi na minha vida, aconteceu lá, com o povo na rua, todos de amarelo, e nas quatro janelas que davam para as calçadas, eles:

Tancredo Neves, Leonel Brizola, Miguel Arraes, Ulysses Guimarães, Franco Montoro, Dante de Oliveira, Mário Covas, Orestes Quércia, Luiz Inácio Lula da Silva, Eduardo Suplicy, Roberto Freire, Luís Carlos Prestes, Fernando Henrique Cardoso, Sobral Pinto, Sócrates, Mário Lago, Gianfrancesco Guarnieri, Fafá de Belém, Taiguara, Beth Carvalho, Martinho da Vila, Osmar Santos, Juca Kfouri.

Eu, na calçada oposta, olhando, comovido, vibrando. O primeiro a falar foi Ulysses Guimarães, que, como eu, tinha vivido parte da vida em Lins:

— Aqui, desta janela, onde Oswald de Andrade curtia a sua pauliceia desvairada a caminho da Semana de Arte Moderna de 1922, aqui, desta mesma janela, hoje iniciamos o movimento Diretas Já! — (Ovacionado)

Eu, só olhando.

No fim dos anos 1980, fui apresentado ao Ulysses — em plena campanha para presidente — pelo Fernando Morais. Contei duas coisas para ele.

Uma:

— Tenho uma foto de quando tinha dez anos, desfilando com o grupo escolar, segurando uma faixa junto com um japonesinho!

A faixa:

"Ulysses Guimarães estudou neste grupo".

E ele:

— Grupo Escolar D. Henrique Mourão... Quero essa foto!

Duas:

Contei a história verdadeira do Oswald de Andrade no Spazio Pirandello. Morremos de rir.

Aproveito o espaço para registrar os mais votados para presidente da República em 1989, com cinco anos depois daquele fundamental movimento Diretas Já. Concorreram vinte e dois ambiciosíssimos políticos. Primeiro turno, os dez primeiros colocados:

  • Fernando Collor – PRN: 32,47% – direita
  • Luiz I. Lula da Silva – PT: 16,69% – esquerda
  • Leonel Brizola – PDT: 16,04% – extrema-esquerda
  • Mário Covas – PSDB: 11,19% – centro
  • Paulo Maluf – PDS: 8,60% – direita
  • Guilherme Afif – PL: 4,70% – direita
  • Ulysses Guimarães – PMDB: 4,60% – centro
  • Roberto Freire – PC: 1,10% – esquerda
  • Aureliano Chaves – PFL: 0,86% – direita
  • Ronaldo Caiado – PSD: 0,70% – extrema-direita
  PELO BURACO DA FECHADURA

De Anjos, Tiranos e Ondas Curtas

Rui Raul Castro

Dia desses, o ministro Cristiano Zanin, do Supremo, autorizou a Polícia Federal a dar uma espiada nos livros de partitura do gabinete de um colega do Superior Tribunal de Justiça, o ministro Moura Ribeiro. Suspeita-se que por ali andaram vendendo facilidades, essas coisas que o jargão forense chama de "venda de sentenças", mas que no balcão do bicho atende por puro suborno.

O episódio me fez lembrar de James Madison. No ensaio nº 51 de O Federalista, ele anotou aquela máxima que todo estudante de direito decora para esquecer no primeiro concurso: se os homens fossem anjos, governos não seriam necessários. Madison, que não era bobo e sabia que o bicho homem está mais para o manual de zoologia do que para o hagiógrafo, sabia que a grande enrascada da democracia não é fazer o governo controlar o cidadão. Isso a polícia faz com três notas de radiopatrulha. O drama é fazer o governo controlar a si mesmo.

No Brasil, quando a toga escorrega na maionese, o castigo costuma ser exemplar: a aposentadoria compulsória. O sujeito mantém o subsídio, o plano de saúde e vai curtir o tédio das tardes em Miami ou Angra. Uma punição que faria qualquer operário de fábrica chorar de inveja.

O poder, quando não encontra freio, embriaga mais que cachaça de alambique. E não é privilégio da nossa República de bacharéis. Voltemos aos anos 1960. No auge da Guerra Fria, enquanto o mundo roía as unhas com medo do cogumelo atômico, os irmãos Castro, lá em Cuba, discutiam que rumo tomar após despacharem o sargento Fulgêncio Batista para o exílio. Fidel queria o aplauso do mundo; Raul Castro, o irmão de têmpera mais militar, preferia a segurança do uniforme verde-oliva. Raul resistiu ao alinhamento automático com o Kremlin, mas a economia, esse detalhe teimoso, falou mais alto. Acabaram todos sob o guarda-chuva de Moscou, trocando o açúcar caribenho pelo petróleo siberiano.

Por aqui, a nossa esquerda, privada da liberdade de comércio e de imprensa pelos generais de plantão, buscava a salvação da lavoura nas ondas curtas do rádio. Havia um punhado de românticos — ou de teimosos — que sintonizava a Rádio Tirana. Tirana, para quem não se lembra ou prefere esquecer, era a capital da Albânia, um naco de terra isolado do mundo, governado com mão de ferro por Enver Hoxha.

Para os rapazes do PCdoB daquela época, a Albânia era o farol da humanidade. Ignoravam o fato de que Hoxha era um tirano de primeira grandeza, daqueles que viam espiões até atrás do sofá e mandavam construir fuzis em vez de escolas. No dial do rádio clandestino, o autoritarismo de lá virava "verdade eterna". Havia uma deliciosa ironia fonética que ninguém notava: para aquela militância convicta, o tirano não era tirano; era apenas a voz que vinha de Tirana.

Seja na planície balcânica de Hoxha, na Sierra Maestra dos Castro ou nos tapetes escarlates de Brasília, o roteiro é o mesmo. Sem o controle de que falava Madison, o homem forte da vez — de farda ou de capa preta — acaba achando que a sua vontade é a própria lei. E a história, essa velha senhora bem-humorada, segue registrando tudo, com o rigor que falta aos homens e a paciência que sobra aos anjos.

Dicas Mário Prata, Pelo Buraco da Fechadura, Spazio Pirandello, Diretas Já, Ulysses Guimarães, Eleições 1989, História do Brasil, Crônica Brasileira, Anos 80, Cultura Paulistana, Ditadura Militar, Democracia, Fernando Collor, Lula 1989, Leonel Brizola
Zanin autoriza PF a investigar suposta venda de sentenças no STJ Publicado em 24/07/2026 - 09:00 Luiz Carlos Azedo Brasília, Ética, Governo, Literatura, Memória, Política, Política Decisões atribuídas ao gabinete de Moura Ribeiro supostamente favoreceram interesses ligados ao lobista Andreson Gonçalves e à advogada Miriam Ribeiro A advertência de James Madison de que “se os homens fossem anjos, não seria necessário haver governos” não se destinava apenas a justificar a existência de um poder central para as antigas 13 colônias inglesas, mas estabelecer um princípio que viria ser essencial para a democracia ocidental: todo poder exercido por seres humanos precisa ser submetido a controles. No ensaio nº 51 de “O federalista”, Madison mostrou a dificuldade de habilitar o governo a controlar os governados; depois, obrigá-lo a controlar a si mesmo. É mais ou menos esse o sentido da insistência com que o presidente do Supremo Tribunal federal, ministro Édson Fachin, adverte sobre a necessidade de autocontenção do Judiciário. O poder dos ministros dos tribunais superiores é imenso e a responsabilidade deles maior ainda. Magistrados não dependem diretamente do voto popular, contam com garantias funcionais e têm a prerrogativa de decidir sobre a liberdade, o patrimônio e os direitos dos cidadãos. Mas para isso precisam conquistar a liderança moral da sociedade. No Brasil, o Supremo Tribunal Federal ocupa o vértice do sistema judiciário, com enorme concentração de poder. É guardião da Constituição, tribunal de recursos, árbitro dos conflitos entre os Poderes e instância penal para autoridades com prerrogativa de foro. A Corte também tem obrigação de prestar contas, fundamentar suas decisões com clareza e submeter seus próprios integrantes e os magistrados dos tribunais superiores aos mesmos padrões impostos aos demais cidadãos. Leia também: STF autoriza abertura de inquérito sobre filme de Bolsonaro É aí que a autorização concedida pelo ministro Cristiano Zanin para que a Polícia Federal investigue formalmente o ministro Paulo Dias de Moura Ribeiro, do Superior Tribunal de Justiça, representa um divisor de águas. Relator da Operação Sisamnes no STF, Zanin acolheu pedido da PF e parecer favorável da Procuradoria-Geral da República para que sejam investigadas decisões atribuídas ao gabinete de Moura Ribeiro, que supostamente favoreceram interesses ligados ao lobista Andreson de Oliveira Gonçalves e à advogada Miriam Ribeiro. Entre as diligências autorizadas estão a quebra dos sigilos bancário e fiscal de servidores, familiares e pessoas relacionadas aos processos examinados. A investigação não significa condenação. A própria Polícia Federal reconheceu que ainda não há prova da participação direta do ministro Moura Ribeiro, que declarou desconhecer a existência de investigação sobre decisões por ele proferidas. O devido processo legal exige rigor na apuração, porém, respeito à presunção de inocência. Rosário de casos Desde a deflagração da Operação Sisamnes, em novembro de 2024, o gabinete do ministro do STJ se tornou alvo direto da investigação. A apuração nasceu de informações encontradas após o assassinato do advogado Roberto Zampieri, em Cuiabá, e revelou uma possível rede de lobistas, advogados e servidores que teria negociado minutas de votos, informações sigilosas e decisões judiciais entre 2019 e 2023. A Procuradoria-Geral da República já denunciou nove pessoas por crimes como organização criminosa, corrupção, lavagem de dinheiro, exploração de prestígio e violação de sigilo. Segundo a acusação, ao menos R$ 4 milhões teriam sido transferidos por empresa ligada a Andreson Gonçalves para uma firma pertencente à mulher de um servidor do STJ. As responsabilidades deverão ser definidas judicialmente. Leia mais: STF institui estatuto de auditoria interna para reforçar governança da Corte A venda de sentenças no Judiciário não é uma novidade. Levantamento divulgado em 2025 já apontou invesVale a tigações e processos relacionados à venda de decisões em 14 tribunais. A Operação Última Ratio atingiu magistrados do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul; a Operação 18 Minutos apurou suspeitas de manipulação de processos e desvios no Tribunal de Justiça do Maranhão; e a Operação Inauditus aprofundou essas investigações, com afastamentos e bloqueio de bens. Em Mato Grosso, a própria Sisamnes alcançou desembargadores, advogados e agentes políticos. Em São Paulo, a PGR denunciou o desembargador Ivo de Almeida sob suspeita de corrupção e manipulação da distribuição de processos. No Piauí, a Polícia Federal investigou o desembargador José James Gomes Pereira por um possível esquema relacionado a disputas agrárias. Há casos mais antigos. A Operação Faroeste, deflagrada em 2019, apurou a negociação de decisões relacionadas à grilagem e às disputas por terras no oeste da Bahia e atingiu desembargadores, juízes, advogados e empresários. Em 2015, a Operação Expresso 150 investigou a suposta comercialização de habeas corpus e alvarás de soltura no Ceará. A Operação Asafe, de 2010, examinou fraudes em julgamentos no Tribunal de Justiça e no Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso. A Operação Naufrágio investigou uma rede no Judiciário do Espírito Santo. Em 2007, a Operação Hurricane alcançou o então ministro do STJ Paulo Medina, posteriormente aposentado compulsoriamente, por suspeitas relacionadas à negociação de uma liminar. No mesmo período, a Operação Têmis investigou magistrados federais em São Paulo, embora a denúncia tenha sido rejeitada pelo STJ por falta de provas. Antes disso, a Operação Anaconda, de 2003, revelou um balcão de negócios na Justiça Federal paulista e resultou na condenação do ex-juiz João Carlos da Rocha Mattos. Na maioria dos casos, a punição dos magistrados envolvidos foi a aposentadoria compulsória. Vale a pena ler de novo: A Revolução Americana explica sobrevência da democracia nos EUA O conto noir, o detetive durão, os negócios da política e o caso Master Nas entrelinhas: todas as colunas no Blog do Azedo Compartilhe: Clique para compartilhar no Facebook(abre em nova janela)Clique para compartilhar no Twitter(abre em nova janela)Compartilhe no Google+(abre em nova janela)Clique para compartilhar no Pinterest(abre em nova janela) #Justiça, #Lobbyu, #Ribeiro, #Sentenças, #Supremo, #Zanin

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