Inspirados já nos ensinamentos de Sófocles, aqui, procurar-se-á a conexão, pelo conhecimento, entre o velho e o novo, com seus conflitos. As pistas perseguidas, de modos específicos, continuarão a ser aquelas pavimentadas pelo grego do período clássico (séculos VI e V a.C).
sábado, 28 de fevereiro de 2026
Entre Keynes, o nacionalismo econômico e os mitos políticos
O carnaval brasileiro tem uma peculiaridade: ele nunca termina exatamente quando o calendário manda. Começa antes, prolonga-se depois e deixa no ar uma espécie de ressaca coletiva. Algo parecido ocorre com a política contemporânea. As disputas não se encerram quando deveriam, as narrativas prolongam-se para além dos fatos e os personagens transformam-se em mitos que passam a organizar a percepção da realidade.
Foi nesse clima que Marco Aurélio Nogueira observou, recentemente, que a política brasileira tende a caminhar novamente para um confronto entre dois “mitos”: o lulismo e o bolsonarismo. Em tal cenário, advertiu ele, o debate público tende a perder densidade programática e a transformar-se em um duelo de identidades políticas.
Essa observação ajuda a situar um fenômeno mais amplo, que ultrapassa as fronteiras brasileiras. Em diferentes países, a política contemporânea tem sido dominada por lideranças fortemente personalizadas que mobilizam identidades nacionais, ressentimentos sociais e expectativas econômicas.
Entre essas lideranças encontram-se Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, dois personagens frequentemente apresentados como antípodas ideológicos, mas que compartilham algumas características estruturais de atuação política.
Para compreender melhor esse paradoxo, convém convocar à roda uma terceira figura intelectual: John Maynard Keynes.
A esfinge do dinheiro e a política
No ensaio recente de Luiz Gonzaga Belluzzo e Manfred Back, publicado em CartaCapital, Keynes aparece como o pensador que desafiou a pretensão da economia de prever o futuro com exatidão matemática.
No célebre capítulo XII de The General Theory of Employment, Interest and Money, Keynes argumenta que decisões econômicas são tomadas em um ambiente de incerteza radical. Investidores e empresários não operam com certezas, mas com expectativas frágeis, muitas vezes guiadas por estados de confiança ou por ondas de otimismo e pessimismo.
Essa percepção altera profundamente a forma de compreender o capitalismo. Se o futuro é intrinsecamente incerto, o sistema econômico não pode depender apenas da autorregulação dos mercados. Torna-se necessário algum tipo de coordenação institucional capaz de estabilizar expectativas e sustentar a atividade econômica.
Daí emerge o papel do Estado como agente de estabilização do capitalismo, não como seu substituto.
Trump, a globalização e a ruptura
É nesse ponto que a crítica de Marcus Pestana ganha relevância. Em sua leitura, Trump representa uma ruptura com a ordem econômica liberal construída após a Segunda Guerra Mundial.
Essa ordem foi organizada em torno de instituições multilaterais como:
United Nations
International Monetary Fund
World Trade Organization
Durante décadas, tais instituições sustentaram um modelo de capitalismo baseado na globalização produtiva e na liberalização comercial.
Trump rompe parcialmente com esse paradigma ao defender políticas de nacionalismo econômico, protecionismo comercial e prioridade absoluta aos interesses industriais dos Estados Unidos. A retórica do “America First” expressa precisamente essa tentativa de reorganizar a relação entre Estado, mercado e economia nacional.
Paradoxalmente, embora se apresente como defensor do mercado, Trump questiona elementos centrais do capitalismo global liberal.
Lula e o desenvolvimentismo
O caso brasileiro segue outro caminho.
Desde os anos 2000, os governos liderados por Luiz Inácio Lula da Silva têm sido associados a uma tradição desenvolvimentista que combina mercado, políticas sociais e atuação estatal.
Nesse modelo, o Estado atua como indutor do crescimento econômico por meio de:
investimento público
políticas de crédito
expansão do mercado interno
programas de transferência de renda
Tais instrumentos dialogam diretamente com a tradição keynesiana, pois procuram sustentar a demanda agregada e reduzir as oscilações do ciclo econômico.
Se Trump representa uma contestação nacionalista da globalização, Lula procura reorganizar o capitalismo brasileiro ampliando o papel do Estado na promoção do desenvolvimento e da inclusão social.
Mitos políticos e democracia
Apesar dessas diferenças substantivas, há um ponto de convergência que merece atenção. Tanto Trump quanto Lula operam em sistemas políticos marcados por forte personalização da liderança.
Nos Estados Unidos, o trumpismo transformou-se em uma identidade política que ultrapassa o próprio Partido Republicano. No Brasil, o lulismo tornou-se uma referência simbólica que vai além da estrutura partidária do Partido dos Trabalhadores.
É nesse terreno que a advertência de Marco Aurélio Nogueira ganha força. Quando a política passa a girar em torno de mitos, ela tende a empobrecer o debate programático e a reduzir a disputa democrática a um confronto de identidades.
A democracia deixa então de ser um espaço de deliberação sobre projetos coletivos e transforma-se em um campo de batalha entre narrativas políticas concorrentes.
Conclusão
A comparação entre Trump e Lula revela um quadro mais complexo do que a oposição simplificada entre direita e esquerda costuma sugerir.
Lula apresenta maior afinidade explícita com a tradição keynesiana, tanto em sua retórica quanto em sua prática de governo. Trump, por sua vez, rejeita essa tradição no plano discursivo, mas adota em determinados momentos instrumentos fiscais e industriais que produzem efeitos semelhantes aos previstos pela teoria keynesiana.
Ambos permanecem, contudo, dentro do horizonte do capitalismo contemporâneo.
Suas diferenças dizem respeito sobretudo às formas de organização do capitalismo nacional que cada um procura promover.
Em última análise, Trump e Lula representam variantes distintas de um mesmo fenômeno histórico: o retorno do Estado como instrumento de fortalecimento econômico nacional em um mundo marcado pela incerteza — precisamente a condição que John Maynard Keynes identificou como característica permanente do capitalismo moderno.
E talvez seja justamente essa incerteza que explique por que, em tempos de turbulência, as sociedades tendem a buscar não apenas programas econômicos, mas líderes capazes de personificar suas esperanças e seus medos.
S
Não Tem Solução
O carnaval tem um lado esquecido que define seu paradoxal temperamento de ser, ao mesmo tempo, uma festa profana e sagrada. Se no carnaval as irreverências são possíveis, deve-se lembrar que ele ocorre entre o Advento e a Quaresma – o nascimento e a paixão de Cristo.
O carnaval inventa um intervalo libertino entre dois eventos cruciais da religiosidade católica: o nascimento, a morte e a ressurreição de Deus encarnado em Jesus Cristo. A festa de Momo é um espaço de licenciosidades que invertem o cotidiano – gênero e idade são neutralizados; a rua vira casa e a noite, dia; o bloco voluntário substitui a compulsão da família; o canto malicioso, o discurso e a prece; e a estrutura social fantasiosamente se inverte: pobre vira nobre e negro ganha a liberdade do branco.
Depois dessa liberdade cósmica expressa no abuso do corpo ou carne – pois carnaval (carne levare) significa “abandonar a carne” –, chega a Quaresma, exprimindo uma polaridade comum em todas as sociedades: depois do excesso e da guerra, vêm a disciplina e a paz.
Conforme afirmei nas minhas pesquisas, o papel do carnaval neste Brasil legislado e dominado por gente branca que ocupa altos cargos e, se culpada, escapa da lei pela lei, o carnaval se modernizou. Incorporou dimensões capitalistas, organizando-se em grupos profissionais, com desfiles competitivos, ingressos, tempo regulado e prêmios. Nesses tempos de moderno desencanto, o “brincar” tem sido vencido pela competição que – como no esporte e na vida em geral – determina o campeão e o prêmio. Tudo realizado sob a égide do “progresso” que calcula, racionaliza e, como dizia Max Weber, desencanta.
É dentro desse contexto que ocorre a guinada dos deuses, orixás, fadas e outras figuras encantadas para as celebridades. Tudo se passa, como é típico do capitalismo, no movimento que vai dos céus à crueza do mundo real. A fantasia tem sido absorvida pela voracidade capitalista da luta por dinheiro e, com ela, por uma ameaça ainda mais perversa: a da propaganda político-partidária.
Se houver esse movimento infeliz de abrir o carnaval para a louvação e a adesão política, como fez a Escola de Samba Acadêmicos de Niterói ao petismo e ao presidente Lula, o carnaval será canibalizado pelo que ele sublima: a luta de classes, sem pandeiro, mas com guilhotinas.
Seria o fim do que o carnaval expressa como alternativa simbólica. Será a morte de Dom Carnal pela convencionalidade burra, hipocrisia, mentira e pelas regras que, desde a sua invenção, celebram o lado mais humano da nossa humanidade. O riso pelo riso e a vida mesmo sabendo que se morre.
Nota: Se conservador é simbolizado como lata de conserva, todo canhoto seria esquerdista; e os destros, fascistas.
PS: Expresso aqui meus sentimentos pela morte do prof. João Baptista Borges Pereira, um companheiro profissional afetuoso.
Por Marialva Barbosa*
A célebre frase de Karl Marx na abertura de O 18 de Brumário de Luís Bonaparte, de 1852, ainda que se refira a outros contextos e à conjuntura política da França do século XIX (1), serve como epígrafe do texto que ora apresento e que traz algumas reflexões, a partir da história, sobre o terrível momento em que estamos mergulhados.
* Marialva Barbosa é professora titular da Escola de Comunicação (ECO) da UFRJ e pesquisadora do CNPq
Epílogo na avenida
O carnaval brasileiro sempre foi mais do que festa. Como lembra Roberto DaMatta, ele é uma espécie de laboratório simbólico da sociedade: um momento em que hierarquias se embaralham, papéis se trocam, identidades se reinventam e o cotidiano é suspenso por alguns dias de licença ritual.
Na avenida, o mundo se reorganiza como narrativa.
O pobre vira rei, o rei vira caricatura, a ordem vira brincadeira e a brincadeira revela a ordem. A fantasia não oculta a realidade; ela a ilumina por contraste. No desfile carnavalesco, mito e rito caminham juntos: os personagens tornam-se símbolos e os símbolos passam a organizar a percepção coletiva do mundo.
Algo semelhante acontece na política contemporânea.
Em tempos de incerteza econômica e de turbulência institucional — justamente o tipo de cenário que John Maynard Keynes descreveu como próprio do capitalismo — as sociedades passam a buscar narrativas capazes de dar sentido ao caos. Líderes políticos transformam-se em personagens quase míticos, encarnando expectativas, medos e promessas de redenção coletiva.
Assim, o debate público frequentemente se organiza menos em torno de programas e mais em torno de figuras simbólicas.
No Brasil, o enredo dominante parece girar em torno de personagens como Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro, enquanto no plano internacional a figura de Donald Trump ocupa papel semelhante na política norte-americana.
Cada um deles funciona como um tipo de personagem carnavalesco da política: condensações simbólicas de valores, ressentimentos, projetos e identidades coletivas.
Como nos desfiles de escola de samba, o enredo não é apenas racional. Ele é afetivo, narrativo, imagético. Ele organiza o imaginário social.
Mas, como também ensina DaMatta, o carnaval não destrói a ordem social: ele a revela.
Depois da folia, todos voltam para casa. A fantasia retorna ao armário, os instrumentos silenciam e a vida cotidiana retoma seu curso. O rito termina, mas deixa marcas no modo como a sociedade se percebe.
Talvez a política democrática funcione de maneira semelhante.
Ela precisa de rituais — eleições, debates, manifestações — e também de narrativas capazes de mobilizar cidadãos. O risco surge quando o mito substitui completamente o debate público e quando a política passa a ser vivida apenas como desfile de identidades irreconciliáveis.
Nesse caso, a avenida fica cheia de personagens, mas vazia de projetos.
O desafio democrático consiste justamente em manter aberta a praça pública onde os cidadãos possam conversar para além dos mitos, sem negar a dimensão simbólica que inevitavelmente acompanha a vida política.
Afinal, como no carnaval, a sociedade precisa de enredos que a representem — mas precisa também lembrar que, ao final do desfile, o que permanece não é a fantasia, e sim a realidade comum que todos terão de compartilhar quando a música parar.
E quando isso acontece, talvez a melhor sabedoria seja a mais antiga das escolas de samba da política:
saber celebrar, mas também saber governar depois que a avenida se esvazia. 🎭
S
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