Inspirados já nos ensinamentos de Sófocles, aqui, procurar-se-á a conexão, pelo conhecimento, entre o velho e o novo, com seus conflitos. As pistas perseguidas, de modos específicos, continuarão a ser aquelas pavimentadas pelo grego do período clássico (séculos VI e V a.C).
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026
ENTRE A LEI, O JEITO E A BENÇÃO
Portela 1966 Letra e Samba
Leo Fernandes
G.R.E.S. Portela - Carnaval 1966
Colocação: Campeã do Grupo 1
Enredo: "Memórias de um sargento de milícias"
Autor do Samba: Paulinho da Viola
A Portela contou a história do romance de Manuel Antônio de Almeida, livro publicado no século 19 que narra a vida de Leonardo, filho de Leonardo Pataca e Maria Hortaliça. O autor deste samba é ninguém menos que Paulinho da Viola.
30 de mai. de 2018
Reflexos de alegria e melancolia
ENTRE A LEI, O JEITO E A BENÇÃO
O DILEMA DOS JULGAMENTOS NO BRASIL QUE DESFILA
SINOPSE OFICIAL DE ENREDO
O Brasil desfila entre dois mundos que nunca se separam por completo: o da lei impessoal e o das relações pessoais; o da norma universal e o do jeito particular; o da casa e o da rua. É nesse espaço ambíguo — onde a regra convive com o favor, e a moral pública se negocia nos bastidores da intimidade — que se constrói o nosso modo de julgar, governar e conviver.
Este enredo propõe uma leitura antropológica do país, inspirada na tradição interpretativa que vê o Brasil não como exceção caótica, mas como sistema coerente de valores em tensão. Aqui, julgar nunca foi apenas aplicar a lei: sempre envolveu pessoas, histórias, hierarquias, afetos e contextos. A toga, no Brasil, não elimina o indivíduo; ela o veste.
Desde o século XIX, quando a ordem moderna tentou se impor sobre uma sociedade moldada por laços pessoais, o país vive um dilema permanente: como conciliar igualdade jurídica com desigualdade social, imparcialidade com proximidade, ética da convicção com ética da responsabilidade? O juiz, o governante, o burocrata e o cidadão são chamados a decidir não apenas entre o certo e o errado, mas entre punir ou proteger, expor ou preservar, aplicar a norma ou salvar a instituição.
O desfile avança mostrando que, entre nós, a lei nunca atua sozinha. Ela dialoga com a amizade, com o parentesco, com a reputação, com o medo da desordem e com a obsessão pela harmonia. Assim, conflitos que deveriam ser resolvidos por regras abstratas tornam-se dramas morais, onde a aparência pesa tanto quanto a substância, e onde a legitimidade depende não apenas da decisão, mas do modo como ela é percebida.
Nesse cenário, o poder tende a se personalizar, e a institucionalidade corre o risco de se confundir com protagonismo. Quando isso ocorre, a confiança — esse bem invisível que sustenta tanto a democracia quanto a economia — entra em erosão. Não se trata apenas de legalidade, mas de credibilidade; não apenas de julgamentos corretos, mas de julgamentos reconhecidos como justos.
É então que o enredo encontra o Carnaval — não como festa, mas como metáfora maior da sociedade brasileira. O Carnaval sempre foi o tempo da inversão, da máscara, do fingimento autorizado. Porém, quando a exceção vira regra e a máscara nunca mais cai, o ritual perde sua função. Se todos os dias são Carnaval, já não há Quarta-Feira de Cinzas. A vida pública transforma-se em espetáculo permanente, e o segredo — fundamento da confiança — desaparece.
Mas o samba resiste. Porque o samba, como a própria cultura brasileira, nasce da tristeza que balança, da dor que pensa, da crítica que canta. Ele não zomba da vida: reza. Reúne ética e emoção, razão e corpo, regra e compaixão. O samba lembra que não há justiça sem humanidade, nem instituição forte sem autocontenção.
Este enredo, portanto, não acusa nem absolve. Interpreta. Convida o público a reconhecer-se nesse espelho coletivo, onde todos somos, ao mesmo tempo, cidadãos da lei e personagens da relação. Entre a banca e a benção, entre o rito e o improviso, o Brasil desfila buscando aquilo que sempre lhe faltou e sempre perseguiu: uma forma justa de julgar sem deixar de ser humano.
E assim, ao som do tambor que pensa e da cadência que questiona, a escola leva à avenida a pergunta que atravessa nossa história:
Como julgar num país onde a lei quer ser universal, mas a vida insiste em ser pessoal?
S
SAMBA-ENREDO
Entre a Lei, o Jeito e a Benção
INTRODUÇÃO (CANTO DE CHAMADA)
Saravá, meu Brasil de encruzilhada
Entre a casa e a rua, a fé e o papel
Se a justiça pesa, que venha benzida
Que toda sentença também seja céu
PRIMEIRA PARTE
No risco do tempo, aprendi a julgar
Não é só a regra que ensina a viver
Tem nome, tem rosto, tem mão que aperta
Tem medo do caos, tem medo de perder
Aqui a balança não vive sozinha
Divide o espaço com o coração
A lei quer ser reta, o povo é curva
Entre o certo e o justo, nasce a decisão
REFRÃO PRINCIPAL
🎶 Ô dá licença, pede a benção
Que julgar também é saber esperar
Sem humanidade não há justiça
Sem compaixão não dá pra equilibrar
Ô dá licença, pede a benção
Que a toga não apague o ser
Quando a lei encontra o povo
É o samba que ensina a ver
SEGUNDA PARTE
Tem hora que a norma vira espetáculo
E o rito esquece sua função
Quando a exceção desfila todo dia
A máscara gruda na própria mão
Carnaval sem cinza perde o sentido
Festa sem limite vira prisão
Se todo dia é dia de fantasia
Quem sustenta a fé na instituição?
REFRÃO DO MEIO (CORAL)
🎶 Não é piada, não é brincadeira
A vida pede mais que razão
Quem samba reza com o corpo inteiro
Quem julga carrega a nação
TERCEIRA PARTE – A BENÇÃO
Peço licença aos que vieram antes
À dor que virou canção
Ao negro tambor que ensinou à lei
Que também se escreve com emoção
Benção ao mestre que cantou verdade
Sem nunca fugir da dor
Porque o samba nasce do povo ferido
Mas caminha de pé, cheio de amor
REFRÃO FINAL (APOTEÓTICO)
🎶 Ponha mais alma na balança
Mais silêncio antes de decidir
Que a justiça seja esperança
De um dia o Brasil se ouvir
Ponha mais alma na balança
Mais verdade no ritual
Entre a lei, o jeito e a benção
Desfila o nosso ideal
FINALIZAÇÃO
E quando o surdo parar de bater
Que reste a lição do refrão:
Não há toga forte sem humildade
Nem país de pé sem coração
S
Gaviões da Fiel - Samba-Enredo 1995
Samba-Enredo
Composição: Grego.
Samba da Bênção
Vinicius de Moraes
É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração
Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
É preciso um bocado de tristeza
Senão, não se faz um samba não
Senão é como amar uma mulher só linda
E daí? Uma mulher tem que ter
Qualquer coisa além de beleza
Qualquer coisa de triste
Qualquer coisa que chora
Qualquer coisa que sente saudade
Um molejo de amor machucado
Uma beleza que vem da tristeza
De se saber mulher
Feita apenas para amar
Para sofrer pelo seu amor
E pra ser só perdão
Fazer samba não é contar piada
E quem faz samba assim não é de nada
O bom samba é uma forma de oração
Porque o samba é a tristeza que balança
E a tristeza tem sempre uma esperança
A tristeza tem sempre uma esperança
De um dia não ser mais triste não
Feito essa gente que anda por aí
Brincando com a vida
Cuidado, companheiro!
A vida é pra valer
E não se engane não, tem uma só
Duas mesmo que é bom
Ninguém vai me dizer que tem
Sem provar muito bem provado
Com certidão passada em cartório do céu
E assinado embaixo: Deus
E com firma reconhecida!
A vida não é de brincadeira, amigo
A vida é arte do encontro
Embora haja tanto desencontro pela vida
Há sempre uma mulher à sua espera
Com os olhos cheios de carinho
E as mãos cheias de perdão
Ponha um pouco de amor na sua vida
Como no seu samba
Ponha um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence
A beleza que tem um samba, não
Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração
Eu, por exemplo, o capitão do mato
Vinicius de Moraes
Poeta e diplomata
O branco mais preto do Brasil
Na linha direta de Xangô, saravá!
A bênção, Senhora
A maior ialorixá da Bahia
Terra de Caymmi e João Gilberto
A bênção, Pixinguinha
Tu que choraste na flauta
Todas as minhas mágoas de amor
A bênção, Sinhô, a benção, Cartola
A bênção, Ismael Silva
Sua bênção, Heitor dos Prazeres
A bênção, Nelson Cavaquinho
A bênção, Geraldo Pereira
A bênção, meu bom Cyro Monteiro
Você, sobrinho de Nonô
A bênção, Noel, sua bênção, Ary
A bênção, todos os grandes
Sambistas do Brasil
Branco, preto, mulato
Lindo como a pele macia de Oxum
A bênção, maestro Antonio Carlos Jobim
Parceiro e amigo querido
Que já viajaste tantas canções comigo
E ainda há tantas por viajar
A bênção, Carlinhos Lyra
Parceiro cem por cento
Você que une a ação ao sentimento
E ao pensamento
A bênção, a bênção, Baden Powell
Amigo novo, parceiro novo
Que fizeste este samba comigo
A bênção, amigo
A bênção, maestro Moacir Santos
Não és um só, és tantos como
O meu Brasil de todos os santos
Inclusive meu São Sebastião
Saravá! A bênção, que eu vou partir
Eu vou ter que dizer adeus
Ponha um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence
A beleza que tem um samba, não
Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração
Composição: Baden Powell / Vinícius de Moraes.
CRÉDITOS DE CONTEÚDO
Samba-Enredo e Sinopse Oficial
1. CONCEPÇÃO ANTROPOLÓGICA (EIXO CENTRAL)
Roberto DaMatta
Base conceitual:
dualidade casa × rua
personalismo × impessoalidade
dilemas morais da aplicação da lei no Brasil
leitura do julgamento como drama social
Obra de referência indireta:
O Dilema Brasileiro, Carnavais, Malandros e Heróis (estilo ensaístico, não textual)
2. CONTEXTO INSTITUCIONAL E POLÍTICO-CONTEMPORÂNEO
Luiz Carlos Azedo
Artigo: A institucionalidade da economia, o caso Master e as duas éticas do STF
Veículo: Correio Braziliense
Contribuição temática:
ética da convicção × ética da responsabilidade (Max Weber)
crise de legitimidade institucional
confiança pública como ativo democrático
Supremo Tribunal Federal
Referência institucional indireta, enquanto personagem simbólico do enredo
(sem juízo jurídico, apenas leitura cultural e narrativa)
3. LEITURA SOCIOLÓGICA DO CARNAVAL E DA CULTURA BRASILEIRA
José de Souza Martins
Artigo: Carnaval, a finitude do que éramos
Veículo: Valor Econômico
Contribuição temática:
Carnaval como rito de inversão esvaziado
perda da mediação simbólica da Quaresma
espetacularização da vida cotidiana
fim do segredo, do íntimo e do avesso
4. MATRIZ POÉTICO-MUSICAL (INSPIRAÇÃO ESTÉTICA)
Vinicius de Moraes
Baden Powell
Obra inspiradora: Samba da Bênção
Uso: exclusivamente estético-espiritual, não textual
Elementos assimilados:
samba como oração laica
alegria atravessada pela tristeza
benção como gesto ético e ancestral
crítica à banalização da vida
amor como medida da arte
5. MATRIZ CULTURAL AFRO-BRASILEIRA (FUNDO SIMBÓLICO)
Tradição do samba de terreiro
Ética do axé, da benção e da ancestralidade
Samba como forma de pensamento coletivo
Justiça como equilíbrio entre força, rito e humanidade
(Referências difusas, de domínio cultural coletivo, sem autoria individual)
6. CONTRIBUIÇÃO EDITORIAL E CURATORIAL
Organização, filtragem e concatenação temática realizadas a partir de conteúdos jornalísticos, sociológicos, antropológicos e musicais, sob solicitação do usuário, com finalidade artística, cultural e interpretativa.
CRÉDITO FINAL DE AUTORIA
Samba-Enredo: Entre a Lei, o Jeito e a Benção
Letra: original, inédita, criada para este enredo
Base conceitual: antropologia social brasileira
Natureza: obra autoral inspirada, não derivada
DECLARAÇÃO ÉTICA
Este samba-enredo:
não reproduz versos protegidos,
não adapta melodias existentes,
não atribui falas a autores reais,
e não substitui nem resume obras citadas,
servindo exclusivamente como criação original dialogante com tradições culturais e intelectuais brasileiras.
S
Paulinho da Viola 80 Anos - DVD Completo
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