Inspirados já nos ensinamentos de Sófocles, aqui, procurar-se-á a conexão, pelo conhecimento, entre o velho e o novo, com seus conflitos. As pistas perseguidas, de modos específicos, continuarão a ser aquelas pavimentadas pelo grego do período clássico (séculos VI e V a.C).
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026
O dia mais difícil
Para quem só espera a repetição do que já aconteceu, o acontecimento inédito chega como ruptura — e o deixa, por um instante decisivo, atônito diante do inesperado.
COISAS NOSSAS
Night Lights A
'Nesse sentido, os últimos meses do ano de 1888 têm a força de um exemplo – e de um exemplo completamente demolidor para ele.'
A revolta dos escravos e o fim do Império
1975 - CANTO DO POVO DE UM LUGAR
Todo dia o sol levanta
E a gente canta
Ao sol de todo dia
Fim da tarde a terra cora
E a gente chora
Porque finda a tarde
Quando a noite a lua mansa
E a gente dança
Venerando a noite
Tonada
Música y letra: Caetano Veloso
© 1975 Ed. Gapa/Saturno
Letra:
Queria ser pandeiro
Pra sentir o dia inteiro
A tua mão na minha pele a batucar
Saudade do violão e da palhoça
Coisa nossa, coisa nossa
O samba, a prontidão
E outras bossas,
São nossas coisas,
São coisas nossas!
Malandro que não bebe,
Que não come,
Que não abandona o samba
Pois o samba mata a fome,
Morena bem bonita lá da roça,
Coisa nossa, coisa nossa
O samba, a prontidão
E outras bossas,
São nossas coisas,
São coisas nossas!
Baleiro, jornaleiro
Motorneiro, condutor e passageiro,
Prestamista e o vigarista
E o bonde que parece uma carroça,
Coisa nossa, muito nossa
O samba, a prontidão
E outras bossas,
São nossas coisas,
São coisas nossas!
Menina que namora
Na esquina e no portão
Rapaz casado com dez filhos, sem tostão,
Se o pai descobre o truque dá uma coça
Coisa nossa, muito nossa
O samba, a prontidão
E outras bossas,
São nossas coisas,
São coisas nossas!
Música
Noel Rosa - "São Coisas Nossas" (Noel Rosa Pela Primeira Vez Vol. 3/2002)
Gravadora Galeão
O DIA MAIS DIFÍCIL: LULINHA NA MIRA, O FANTASMA DE FLÁVIO E PALANQUES EMPACADOS
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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026
Quebra de sigilo do filho de Lula mostra cerco da oposição ao governo, por Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense
A CPMI do INSS deixou de ser apenas instrumento de apuração e se converteu em arena de desgaste continuado. Opera em dois tempos: o jurídico e o midiático
A quebra dos sigilos bancário e fiscal de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, pela CPMI do INSS, somada à decisão judicial que já havia autorizado medidas semelhantes no âmbito da investigação criminal, representaram uma típica “bola nas costas” no Palácio do Planalto. O governo vinha administrando a comissão com relativa folga, amparado por maioria circunstancial e pela capacidade de modular convocações incômodas. A votação que atingiu o filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva mudou o eixo político da CPMI.
O fato novo não é apenas a deliberação da comissão parlamentar. O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), já havia autorizado a quebra de sigilos em investigação conduzida pela Polícia Federal. Agora, Lula está diante de um duplo cerco, um na frente política (CPMI), outro na judicial (STF), que vão se apertar e aumentar o desgaste pessoal do presidente da República e do governo.
A CPMI investiga descontos indevidos em benefícios de aposentados e pensionistas do INSS, supostamente operacionalizados por Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”. O prejuízo é estimado em R$ 6,3 bilhões e atinge um segmento social historicamente associado à base eleitoral do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Trata-se de um escândalo com alto potencial simbólico: envolve idosos, renda mínima e confiança no Estado.
Até a citação de Lulinha, o governo se defendia com uma narrativa eficaz: tratava-se de esquema iniciado em 2019, atravessando a gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro. O Palácio do Planalto tomou providências para ressarcimento e apuração rigorosa do escândalo. A entrada do filho do presidente no radar, mesmo que não seja denunciado, altera a equação. Mesmo que não se prove qualquer ilícito, o custo político é sobretudo eleitoral. A oposição ganha uma narrativa fácil para comunicação com o eleitor, associando corrupção bilionária, aposentados prejudicados e possível elo com familiar do presidente.
Como a mulher de Cesar, o dilema dos filhos de presidentes ajuda a ilustrar o problema: não basta ser honesto; é preciso parecer honesto. A situação impõe a Lula uma postura institucionalmente correta, reafirmar autonomia da PF e do Judiciário, mas pessoalmente constrangedora. A comissão deixou de ser apenas instrumento de apuração e se converte em arena de desgaste continuado. Opera em dois tempos: o jurídico e o midiático.
O primeiro depende de provas; o segundo, de fatos políticos e vazamentos seletivos. Mesmo sem indiciamento, a simples manutenção do nome de Lulinha no noticiário por meses já produzirá efeito corrosivo. É nesse ponto que o governo se torna dependente do Centrão. Para evitar convocações mais agressivas, ampliação de diligências ou pautas hostis, o Executivo precisa negociar apoio permanente. Isso significa concessões orçamentárias, espaço político e influência em cargos estratégicos. O custo da governabilidade será muito alto.
Promiscuidade
Em ano eleitoral, qualquer associação entre o presidente e escândalo que atinja aposentados tem peso ampliado. Ainda que Lula tenha afirmado publicamente que “ninguém ficará livre” e que “se tiver filho meu envolvido, será investigado”, a oposição explorará cada etapa da investigação como evidência de fragilidade moral. Um governo eleito com discurso de reconstrução institucional e justiça social passa a depender ainda mais de alianças pragmáticas para conter danos políticos. Escândalos envolvendo familiares têm impacto próprio. Mesmo quando não resultam em condenação, alimentam percepções difusas de promiscuidade entre público e privado. E percepções, nas eleições, são como fatos.
O INSS nasceu em 1990 da fusão do IAPAS com o INPS e convive historicamente com fraudes, desde o caso Jorgina de Freitas nos anos 1990 até os esquemas atuais. O problema é estrutural: fragilidade de controles, volume gigantesco de recursos e capilaridade nacional. O escândalo atual é ainda maior e ocorre em ambiente de hiperexposição digital. Se nada for comprovado contra Lulinha,o governo poderá alegar tentativa de exploração política. Mas até lá, a investigação será uma dor de cabeça permanente. Cada nova fase da Operação Sem Desconto, cada novo depoimento ou planilha apreendida, reacenderá a controvérsia.
O Planalto também subestimou o potencial de convergência entre investigação judicial e iniciativa parlamentar. A quebra de sigilo, tanto na esfera da CPMI quanto na decisão do ministro do STF, cria um corredor institucional difícil de bloquear sem custo político elevado. Para contê-lo, o governo terá que se entender com o Centrão nos termos estabelecidos pelos presidentes do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), e da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB).
Ontem, a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI)do INSS ouviu Paulo Otávio Montalvão Camisotti, filho do empresário Maurício Camisotti, e aprovou a quebra dos sigilos bancário e fiscal de Fabio Luís Lula da Silva, o Lulinha.A sessão foi precedida por confusão e chegou a ser suspensa após bate-boca entre parlamentares. A base governista decidiu recorrer ao presidente do Congresso, Davi Alcolumbre (União-AP), para contestar a votação que aprovou a quebra de sigilo fiscal e bancário de Lulinha, no âmbito da CPMI do INSS. Sua decisão ainda é uma charada.
Entre a investigação e a narrativa: a política como arena de desgaste permanente
A decisão da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que apura irregularidades no Instituto Nacional do Seguro Social de aprovar a quebra de sigilo bancário e fiscal de Fábio Luís Lula da Silva reposicionou o eixo político da investigação. Até então, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva conseguia administrar a comissão dentro de uma margem razoável de previsibilidade, apoiado em articulações parlamentares e na tentativa de circunscrever a apuração a fatos ocorridos em gestões anteriores.
A entrada do filho do presidente no radar da investigação altera substancialmente essa equação. Não apenas pelo seu conteúdo jurídico — ainda sujeito à produção de provas e à verificação de eventuais responsabilidades —, mas sobretudo pelo impacto político inerente à exposição prolongada de familiares de chefes de governo em investigações de grande visibilidade.
Em democracias contemporâneas, comissões parlamentares raramente funcionam exclusivamente como instrumentos técnicos de investigação. Elas operam em dois planos simultâneos: o jurídico e o político-midiático. No primeiro, a comissão exerce poderes constitucionais relevantes — convocação de testemunhas, requisição de documentos e aprovação de medidas investigativas. No segundo, produz fatos políticos capazes de influenciar a agenda pública, mobilizar narrativas e alterar a correlação de forças no debate público.
Esse fenômeno não é exclusivo do Brasil. Parlamentos de diversas democracias utilizam comissões investigativas como instrumentos de fiscalização e também como arenas de disputa política. A diferença reside na intensidade com que essas dimensões se sobrepõem. Em contextos de elevada polarização política e intensa exposição digital, a dimensão simbólica tende a ganhar protagonismo.
No caso brasileiro, a investigação ocorre em um terreno particularmente sensível. O INSS administra recursos destinados a aposentados e pensionistas — um dos pilares do sistema de proteção social do país. Fraudes envolvendo benefícios previdenciários produzem repercussão imediata, não apenas pela dimensão financeira, mas pelo impacto moral associado à vulnerabilidade do público afetado.
Nesse cenário, cada decisão institucional passa a produzir efeitos que transcendem o processo investigativo. A autorização judicial para quebra de sigilos no âmbito de investigações conduzidas pela Polícia Federal — incluindo decisões proferidas por ministros do Supremo Tribunal Federal, como André Mendonça — cria uma convergência entre esferas investigativas que amplia a complexidade do caso.
Essa convergência entre investigação parlamentar e judicial produz aquilo que cientistas políticos descrevem como “corredores institucionais de pressão”: processos paralelos que se retroalimentam, ampliando o alcance e a visibilidade da investigação.
Em paralelo, emergem no debate público especulações recorrentes sobre a existência de jogos políticos previamente calculados — interpretações que sugerem que determinados movimentos institucionais fariam parte de arranjos tácitos entre atores políticos. A metáfora frequentemente mobilizada para ilustrar essa percepção é a das manipulações esportivas, nas quais partidas aparentemente competitivas ocultariam resultados previamente acordados.
Contudo, uma análise institucional mais rigorosa recomenda cautela diante desse tipo de leitura. Sistemas democráticos complexos raramente operam por meio de roteiros previamente definidos. O que prevalece, em geral, é a interação estratégica entre atores com interesses distintos e incentivos institucionais próprios.
A experiência brasileira recente fornece exemplos claros desse dinamismo institucional. Decisões judiciais proferidas por ministros do Supremo, como Dias Toffoli, tiveram impacto profundo em investigações de grande repercussão pública, incluindo processos relacionados à Operação Lava Jato e casos envolvendo autoridades políticas de diferentes espectros ideológicos.
Essas decisões, embora fundamentadas juridicamente na proteção de garantias constitucionais e na legalidade dos procedimentos investigatórios, frequentemente geram interpretações políticas divergentes. Para alguns setores, representam correções necessárias a excessos investigativos; para outros, simbolizam limitações indevidas à responsabilização de agentes públicos.
Essa tensão revela um fenômeno sociológico mais profundo: a crescente dificuldade de separar, no debate público, a análise jurídica da interpretação política. Em ambientes polarizados, decisões institucionais passam a ser lidas menos por seus fundamentos normativos e mais por suas consequências políticas percebidas.
Nesse contexto, investigações que envolvem familiares de governantes adquirem peso simbólico particular. A história política demonstra que, mesmo na ausência de condenações formais, tais episódios frequentemente deixam marcas duradouras na percepção pública de integridade e legitimidade.
O desafio das instituições democráticas, diante desse cenário, é preservar a credibilidade de seus procedimentos. Investigações precisam ser conduzidas com rigor jurídico e transparência, evitando tanto a instrumentalização política quanto a percepção de seletividade.
A política democrática não é um jogo previamente combinado. Mas tampouco é um espaço neutro de apuração técnica. Trata-se, antes, de uma arena permanente de disputa — onde direito, poder e narrativa se entrelaçam de forma inevitável.
O resultado final dessas disputas raramente é determinado por um único ato institucional. Ele emerge, ao longo do tempo, da interação entre investigações, decisões judiciais, disputas parlamentares e, sobretudo, da forma como a sociedade interpreta esses acontecimentos.
Em última instância, é essa interpretação coletiva — construída no espaço público — que define o verdadeiro impacto político de episódios como o que agora mobiliza Brasília.
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026
Quebrado ao meio, Ivan Alves Filho
O filósofo alemão Friedrich Nietzsche, que tanto marcou o pensamento moderno, afirmou certa vez desejar “quebrar ao meio a História da Humanidade”.
Talvez ele não tenha logrado seu intento. Mas pelo menos uma certeza podemos ter: Friedrich Nietzsche quebrou ao meio a sua própria história.
Explico: o filósofo passaria os últimos onze anos de sua existência internado em um asilo de alienados. Morreu em 1900, logo após completar 56 anos. Teve pouco tempo para produzir, como se vê, mas o fez intensamente. Provavelmente por vislumbrar a tragédia, Nietzsche não seria o primeiro na história do pensamento.
Acusado frequentemente de ser um filósofo de propósitos autoritários, Friedrich Nietzsche recorreu por diversas vezes aos aforismos como forma de expressar o seu pensamento. Curiosamente, o aforismo implica a adoção de um sistema aberto por parte do pensador. É seguramente contrário a qualquer rigidez conceitual. Não fica difícil perceber que Nietzsche se recusou a colocar uma grade no que quer que seja. Pensa como vive, ou seja, em liberdade.
Apesar das especulações existentes em torno da sua concepção de Übermensch (ou Super-homem) o termo utilizado por Friedrich Nietzsche tem mais que ver com a ideia de uma superação a que o homem deve buscar sempre, no sentido de ultrapassar suas dificuldades e até limites. Assim, essa concepção nada tem que ver com uma noção de mundo dos nazistas, que dela tentaram se apropriar, transformando-a em algo que apontava para uma Herrenrasse (ou uma raça de mestres, superior às demais).
Seu sistema de raciocínio é flexível, revelando semelhanças com aquele de outro gigante da filosofia europeia, Michel de Montaigne. E talvez seja o caso também de pensarmos em Chamfort e em suas máximas. De qualquer forma, a agilidade mental dos autores de aforismas impressiona ainda hoje. Assim, em um diálogo travado com Ruhlière, o moralista Chamfort, ao ouvir dele que em sua vida só cometeu “uma única maldade”, replicou imediatamente: “E quando ela vai terminar?”
Nietzsche foi influenciado inicialmente por Arthur Schopenhauer, pelo músico Wagner e pela tragédia grega, três constantes em seu trabalho. Depois, romperia com o pessimismo de Schopenhauer. Vive de forma modesta, compõe muito e viaja, sobretudo pela Itália e pela Alemanha.
Na verdade, estamos a mil léguas de um pensamento especulativo meramente abstrato. Nietzsche busca na própria vida a matéria para suas reflexões. Não é nem de longe um acadêmico, um filósofo profissional. Não é pago para pensar. Pelo contrário: paga o preço pelo que pensa. Mesmo sendo esse preço extremamente alto, como de fato o foi. O próprio filósofo apontava para essa característica fundamental de sua obra e em seus últimos escritos pedia que ninguém tomasse “partido” por ela, querendo apenas ser olhado pelas pessoas “com uma dose de curiosidade, como uma planta estranha”.
E uma bela oportunidade de praticar isso nos é dada pela leitura de seus melhores textos filosóficos, publicados na prestigiosa coleção Bibliothèque de la Pléiade, da editora Gallimard, de Paris. Na edição coordenada por Marc de Launay, alguns textos são inéditos inclusive. Trata-se da edição definitiva dos escritos de Friedrich Nietzsche, não resta dúvida. Há ali muitas, mas muitas plantas estranhas mesmo.
Muito se especulou (e se especula até hoje) a respeito da loucura de Nietzsche. Foram levantadas as mais diferentes hipóteses, da sífilis à psicose maníaco-depressiva. Provavelmente ninguém chegará a uma conclusão exata. Até porque o cérebro humano possui cerca de 100 bilhões de neurônios, ultra compactados em uma massa de pouco mais de um quilo e meio, totalmente interligados entre si. Difícil mesmo de entender.
De toda maneira, o próprio Friedrich Nietzsche percebia que algo não ia lá muito bem com ele. Assim, já em 1881, apenas oito anos antes de enlouquecer, o autor de Genealogia da moral escrevia ao seu amigo Peter Gast: “Ah, amigo, tenho por vezes o pressentimento de levar uma vida muito perigosa. Meu espírito me diz que sou uma dessas máquinas que podem explodir de uma hora para outra”.
Dito e feito. E vamos tentar saber por qual razão, independentemente das especulações a respeito de sua saúde mental. Há quem estabeleça ligações, por exemplo, entre a evolução do seu pensamento (ou do próprio ritmo de seu pensamento, melhor dizendo até) e a instalação da loucura em seu cérebro. Poderia ter sido um caso extremo de estafa. Nesse sentido, os últimos meses do ano de 1888 têm a força de um exemplo – e de um exemplo completamente demolidor para ele.
Esses são meses quase emblemáticos, para não dizer mesmo fatais, para esse grande leitor de Stendhal e Dostoiévski. A produção intelectual de Friedrich Nietzsche nesse período impressiona qualquer pessoa. Vejamos então. Em agosto de 1888, ele redigiu O caso Wagner. Em setembro, O crepúsculo dos ídolos. Em outubro, O anticristo. Em novembro, Nietzsche escreveu Ecce Homo. Ou seja, um ritmo simplesmente alucinante.
“Trabalhe em algo, para que o diabo te encontre sempre ocupado”, asseverou São Jerônimo. E Nietzsche parece ter seguido isso à risca, apesar de nunca ter professado muitas simpatias pelo Cristianismo, cuja moral criticava, conforme sabemos. Mas Nietzsche nutria uma grande admiração por Cristo.
O filósofo alemão ainda não se daria por satisfeito, contudo: antes mesmo daquele fatídico ano de 1888 terminar, ele põe um ponto final em dois outros trabalhos ou ensaios, intitulados respectivamente Ditirambos de Dionísio e Nietzsche contra Wagner. Um assombro.
Certa vez, o filósofo escreveu algo que se encaixa perfeitamente em sua trajetória: “Quanta verdade suporta, de quanta verdade é capaz um espírito? Essa sempre foi para mim a mais preciosa e mais valiosa medida...Toda conquista, todo passo adiante na senda do conhecimento é fruto de um ato de valor, de dureza contra si mesmo, de própria depuração”.
Isso posto, é preciso reconhecer os equívocos de Nietzsche em matéria de pensamento, uma vez que, por intermédio da apologia que fez do absurdo e do desespero, contribuiu seguramente para conduzir a filosofia ocidental a alguns impasses sérios.
Seja como for, a 3 de janeiro de 1889 Friedrich Nietzsche mergulhava para sempre na loucura. O seu cérebro certamente não aguentou tamanha carga. Na verdade, cérebro algum talvez suportasse.
*Ivan Alves Filho, historiador
Enem 2023: Caetano Veloso responde questão que o menciona na prova
Enem 2024: questão polêmica sobre Caetano Veloso tem resposta oficial diferente da apontada pelo cantor; veja gabarito
Pergunta aborda o uso reiterado da palavra 'coisa' em uma crônica com referências intertextuais a músicas do artista baiano. Caetano marcaria a "A", mas Inep considerou a "C" como a certa.
Por Redação g1 — São Paulo
14/11/2024 09h58 Atualizado há um ano
Caetano Veloso responde questão do Enem na qual é citado
Os organizadores do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2024 não tiveram a mesma interpretação de Caetano Veloso ao decidirem qual a alternativa correta na questão que citava músicas do artista.
Segundo o gabarito oficial, divulgado nesta quinta-feira (14) pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), a resposta correta é a "C". Caetano, no entanto, em vídeo compartilhado nas redes sociais em 4 de novembro, afirmou que marcaria a "A".
Professores ouvidos pelo g1 chegaram a sugerir que as duas opções fossem consideradas certas. O Inep descartou essa possibilidade.
➡️Qual a questão "polêmica"? Era da prova de Linguagens (33 da prova VERDE 🟢, 20 da AZUL🔵, 8 da BRANCA⚪ e 45 da AMARELA🟡).
➡️Qual era o tema? A pergunta trazia uma crônica em que a autora, Tati Bernardi, menciona seu nervosismo ao notar que já escreveu textos com o termo genérico "coisa".
Em um tom bem-humorado, ela faz uma reflexão de maneira metalinguística: emprega essa palavra 11 vezes, incluindo cognatos (vocábulos que têm etimologicamente uma origem comum), como "coisar" e "coisinha". Em todos os momentos, há referências a versos cantados por Caetano.
Cabia ao candidato decidir qual o recurso usado para garantir a "progressão textual" do trecho. Veja abaixo:
Questão 33 da prova VERDE — Foto: Reprodução
➡️Quais seriam as duas alternativas supostamente corretas? Segundo Eduardo Calbucci, professor do Anglo, o uso reiterado de "coisa" contribui para a progressão textual e para a unidade temática do texto, dando à palavra uma função poética e destacando seu papel como um "termo coringa".
Isso justificaria marcar a alternativa C, que foca na repetição da palavra e no seu impacto na estrutura do texto ("reiteração, marcada pela repetição de um determinada palavra e de seus cognatos").
Contudo, Bernardi também faz referências diretas a quatro canções de Caetano Veloso: "Qualquer Coisa", "Sampa", "Lindeza" e "Samba de Verão". Como essas músicas contêm a palavra "coisa", seu uso na crônica estabelece uma intertextualidade relevante para o desenvolvimento e a coesão temática, justificando também a alternativa A (intertextualidade, marcada pela citação de versos de letras de canções"), apontada por Caetano.
Por isso, Calbuci sugeriu que as duas opções fossem consideradas corretas. O Inep, no entanto, classificou a "C" como a certa.
Enem 2024: correção da questão de Português sobre Coisa de Caetano Veloso
Enem
Inep
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