domingo, 8 de fevereiro de 2026

O racismo como método. Por Lourival Sant’Anna

"A tranquilidade faz com que as palavras não excedam a justa medida." Candidato de esquerda, Seguro vence eleições em Portugal | AGORA CNN CNN Brasil #CNNBrasil O socialista António José Seguro foi eleito o novo presidente de Portugal após o segundo turno das eleições realizado neste domingo (8), vencendo André Ventura, candidato do partido de direita Chega. #CNNBrasil "Ao meu ver, Seguro fez uma campanha correta. Ele é da ala mais moderada do PS. Em Portugal, o candidato a presidente da República não é lançado por partidos, mas por iniciativa individual. Seguro se colocou, desde o primeiro turno, não como um candidato da centro-esquerda, mas como o candidato da democracia portuguesa. Foi fácil atrair o eleitorado tradicional da centro-direita, o PSD, bem como a apoio de seus líderes mais importantes, como o ex-presidente Cavaco Silva. PS e PSD disputam o poder em Portugal, mas estão unidos na defesa da democracia e da integração do país na UE. Em alguns momentos cruciais, quando a extrema-esquerda ameaçava tomar o poder em 1975, logo após a Revolução dos Cravos, o PSD apoiou o socialista Mário Soares, que conduziu Portugal a um modelo democrático parlamentar ocidental. Ao que parece, o debate foi intenso. De todo modo, é preocupante que a extrema-direita, com teses estapafúrdias, ainda consiga sensibilizar 1/3 dos eleitores portugueses."
Capa do Jornal de Notícias: imigração em destaque — imigrantes geram cerca de 3 mil milhões de euros de lucro para a Segurança Social; debate sobre o ICE e a política de Trump; cheias e barragens sob vigilância; e principais notas de política, justiça, cultura e desporto.
Reportagem do Jornal de Notícias: a Segurança Social registou um saldo positivo superior a 3 mil milhões de euros graças às contribuições de imigrantes — mais de 4,1 mil milhões em descontos face a 811 milhões em prestações, com forte peso de trabalhadores do Brasil, Índia e Angola e impacto relevante em setores como agricultura, serviços e construção.
"Atingido por tempestades, Portugal vai às urnas e deve rejeitar ultradireita Segundo turno da eleição presidencial acontece neste domingo (8); centroesquerda tem ampla vantagem Pesquisa aponta que socialista António Seguro tem 56% dos votos, e André Ventura, do Chega, 25% 7.fev.2026 às 23h00 EDIÇÃO IMPRESSA (https://www1.folha.uol.com.br/fsp/fac-simile/2026/02/08/) LISBOA João Gabriel de Lima (https://www1.folha.uol.com.br/autores/joao-gabriel-de-lima.shtml) Kristin, Ingrid, Leonardo, Marta. Os nomes mais repetidos em Portugal (https://www1.folha.uol.com.br/folha-topicos/portugal/) nos dias que antecederam o segundo turno das eleições presidenciais, que acontecem neste domingo (8), não foram os dos candidatos António José Seguro e André Ventura (https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2025/09/lider-da-ultradireita-comete-gafe-ao-criticar-presidente-e-vira-piada-emportugal.shtml), mas das tempestades que castigaram o país (https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/02/agricultores-relatam-danos-catastroficos-com-chegada-da-tempestade-martaa-espanha-e-portugal.shtml) e levaram vários municípios a decretar estado de calamidade pública. (https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/02/chuvas-causam-inundacao-do-rio-douro-em-portugal-epeninsula-iberica-teme-chegada-de-nova-tempestade.shtml) Ventura, o candidato do Chega (https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/01/ultradireitista-lideravotacao-de-portugueses-no-brasil-ele-enfrentara-socialista-no-2o-turno.shtml)–partido que representa a ultradireita em Portugal– pediu ao atual presidente, Marcelo Rebelo de Sousa, o adiamento do pleito em função das chuvas. Recebeu um "não" como resposta. Alguns municípios castigados por enchentes, como Alcácer do Sal, próximo a Setúbal, decidiram postergar a votação para o domingo seguinte, 15 de fevereiro. Outros pretendem seguir o mesmo caminho.
O candidato de ultradireita do partido Chega, André Ventura - Pedro Nunes -6.fev.26/Reuters O adiamento em algumas poucas cidades, no entanto, não impede que o pleito ocorra nem que os votos sejam apurados no resto do país, com a declaração de um vencedor, especialmente se a margem for alta. A julgar pelas pesquisas de intenção de voto, é bem provável que isso aconteça –em favor de António José Seguro. Em levantamento feito nesta semana pela Universidade Católica de Lisboa, o socialista liderava as intenções de voto com 56% contra 25% do ultradireitista. Em votos válidos, 67% a 33%. De cada três portugueses decididos a endossar algum candidato, dois pretendiam votar em Seguro. Um dado relevante da pesquisa é a escolaridade dos entrevistados. Cerca de 70% dos que preferiram Seguro têm curso superior completo, contra 12% de Ventura. "A ultradireita vem crescendo entre a população mais humilde, que se sente desatendida pelo Estado", diz André Santos Pereira, professor de comunicação política na faculdade ISCTE (Instituto Universitário de Lisboa) e diretor-associado da consultoria Political Intelligence.
Atingido por tempestades, Portugal vai às urnas e deve rejeitar ultradireita | Jornal de Brasília Criador: PATRICIA DE MELO MOREIRA | Crédito: AFP Os números confirmam o que é narrado no livro "Por dentro do Chega", bestseller do jornalista Miguel Carvalho sobre a ultradireita portuguesa –a obra, lançada no ano passado, está na oitava edição. "Eu tenho relatos de freguesias [bairros] ao norte de Portugal, um local tradicionalmente operário, que chegaram a dar três mandatos ao Partido Comunista e agora votam majoritariamente no Chega", diz Carvalho à Folha. O livro mapeia a trajetória do Chega desde antes de sua fundação, em 2019, e rastreia, na gestação da sigla, uma influência decisiva do bolsonarismo brasileiro. "Uma das fundadoras do Chega, Lucinda Ribeiro, foi a principal responsável pela difusão do partido nas redes sociais. Ela mantinha contato com setores bolsonaristas que lhe ensinaram técnicas no sentido de propagar mais a mensagem", afirma Carvalho. Logo após o primeiro turno das eleições deste ano, em janeiro, Eduardo Bolsonaro postou nas redes sociais uma foto em que aparece ao lado do presidente do Chega e de Santiago Abascal, líder do Vox, da ultradireita da Espanha (https://www1.folha.uol.com.br/folha-topicos/espanha/). O apoio retribui um vídeo postado por Ventura na campanha brasileira de 2022, em que o líder do Chega endossava Jair Bolsonaro (https://www1.folha.uol.com.br/folha-topicos/jair-bolsonaro/) (PL) contra Lula (https://www1.folha.uol.com.br/folha-topicos/lula/) (PT). A relação entre Ventura e Bolsonaro, no entanto, é marcada por idas e vindas. Quando quer atrair um eleitorado moderado, o líder do Chega tenta se afastar do ex-presidente brasileiro. Na campanha presidencial de 2021, quando também foi candidato, Ventura disse: "Não aprecio muito o estilo do presidente Bolsonaro, embora lhe reconheça algum valor político, mas eu não gostaria de ver esse estilo acontecer em Portugal." O episódio é narrado no livro de Miguel Carvalho. Para Santos Pereira, do ISCTE, a admiração de Ventura por Bolsonaro vem de uma aspiração antiga do presidente do Chega: liderar a direita em Portugal a partir da ultradireita. "É algo que muitos tentaram e poucos conseguiram. Os principais casos são Jair Bolsonaro no Brasil e Giorgia Meloni na Itália", afirma. Na noite de 18 de janeiro, após a divulgação dos resultados do primeiro turno, Ventura conclamou os eleitores de outros candidatos de direita a votarem nele. A estratégia não funcionou. Vários políticos da direita tradicional, entre eles o ex-premiê Aníbal Cavaco Silva, preferiram declarar apoio a Seguro, um socialista moderado. lá fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo "Não é impossível, no entanto, que Ventura saia dessa eleição com algum ganho", diz Santos Pereira. "Se ele atingir os 33% que aparecem nas pesquisas, poderá dizer que teve mais votos que o primeiro-ministro Luís Montenegro (https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2025/05/com-marqueteiro-brasileiro-luis-montenegro-deve-ser-reeleito-em-portugalaponta-boca-de-urna.shtml), que contabilizou 31,2% nas eleições parlamentares. E reivindicará novamente a primazia no campo das direitas". O premiê Montenegro lidera a Aliança Democrática, de centro-direita. No sistema político português é o primeiro-ministro quem governa. O presidente exerce uma espécie de poder moderador, que não é pequeno –pode vetar leis ou dissolver o parlamento em casos de impasse político. sua assinatura pode valer ainda mais" Beija-me Cyro Monteiro De 1944 a 1945, não estou bem certo, mas estou quase certo. Cyro Monteiro E é uma das músicas que Vinicius de Moraes e Carlos Jobim, quando me encontram, querem que eu cante para eles. Rugas Cyro Monteiro VERSÃO PARA IMPRESSO P (Jornal diário – padrão Estado de S. Paulo) O fim da ficção internacional A ordem baseada em regras ruiu. Em seu lugar, emerge um mundo mais duro, transacional e instável — que impõe novos desafios a países como o Brasil
Legenda: Nos trilhos de Nova Iguaçu Crédito: Walbergg Rugas Nelson Cavaquinho de desgosto Se eu for pensar muito na vida Morro cedo, amor. Meu peito é forte, Nele tenho acumulado tanta dor. As rugas fizeram residência no meu rosto Não choro pra ninguém Me ver sofrer de desgosto. Eu que sempre soube Esconder a minha mágoa. Nunca ninguém me viu Com os olhos rasos d'água. Finjo-me alegre Pro meu pranto ninguém ver. Feliz aquele que sabe sofrer. Composição: Nelson Cavaquinho / Augusto Garcez / Ary Monteiro. Recordar é viver Eu ontem, sonhei com você Recordar é viver Eu ontem sonhei com você Eu sonhei Meu grande amor Que você foi embora E nunca mais voltou, meu amor RECORDAR E VIVER bernarda letras LUIZ BARBOSA, O SAMBA DE BREQUE RECORDAR É VIVER Luiz Barbosa Nos trilhos de Nova Iguaçu, o sol se impõe no horizonte e divide a paisagem entre luz e sombra. A fotografia foi feita numa tarde comum, no retorno do centro da cidade, mas carrega uma simbologia que transcende o instante: de um lado, a margem iluminada; do outro, a que permanece na penumbra. Entre ambas, os trilhos — linha de passagem, espera e destino. A cena urbana dialoga com a tradição lírica do samba de Nelson Cavaquinho, marcada por um pessimismo atravessado de esperança. O compositor, que certamente viu muitas alvoradas nascerem à beira de trilhos semelhantes, intuiu que a luz não elimina o sofrimento, mas insiste em retornar — não como promessa ingênua, mas como afirmação ética diante da dureza do mundo. Nova Iguaçu (RJ). Juízo Final Nelson Cavaquinho O Sol há de brilhar mais uma vez A luz há de chegar aos corações Do mal será queimada a semente O amor será eterno novamente É o juízo final A história do bem e do mal Quero ter olhos pra ver A maldade desaparecer O Sol há de brilhar mais uma vez A luz há de chegar aos corações Do mal será queimada a semente O amor será eterno novamente É o juízo final A história do bem e do mal Quero ter olhos pra ver A maldade desaparecer O Sol há de brilhar mais uma vez A luz há de chegar aos corações Do mal será queimada a semente O amor será eterno novamente O amor será eterno novamente Composição: Nelson Cavaquinho / Élcio Soares.
A chamada ordem internacional baseada em regras, embora imperfeita e assimétrica, funcionou por décadas como uma ficção útil. Sustentou instituições multilaterais, garantiu previsibilidade e permitiu a oferta de bens públicos globais. Esse arranjo, porém, se esgotou. O avanço tecnológico e a concentração de poder político e informacional aproximam o presente das distopias antecipadas por Orwell e Huxley, em que controle e propaganda substituem a coerção clássica. Nesse contexto, a nova estratégia de segurança dos Estados Unidos reafirma a “paz por meio da força”, redefinindo alianças, responsabilidades e zonas de influência. Com o colapso dessa ficção funcional, potências médias como o Brasil precisam se adaptar a um mundo mais incerto. Diplomacia flexível, alianças de geometria variável e o fortalecimento da resiliência e da produtividade internas tornam-se centrais. Nostalgia não é estratégia.
Paz por meio da força? Por Pedro S. Malan O Estado de S. Paulo Potências médias, como Canadá e Brasil, terão de encontrar caminhos neste mundo novo com prioridade por uma economia doméstica de maior resiliência e produtividade A edição mais recente da revista Foreign Affairs traz um importante artigo de um brasileiro, Matias Spektor, que merece ser lido com atenção. Seu título e subtítulo falam por si: The World Will Come to Miss Western Hypocrisy: An Overtly Transactional Order Spells Trouble for Everyone. O tema é especialmente relevante para o Brasil. Na primeira metade do século passado, três obras de ficção imperdíveis procuraram vislumbrar o futuro décadas à frente e mostraram-se premonitórias sobre o desenvolvimento tecnológico e suas consequências políticas e sociais. A peça teatral R.U.R, Rossum’s Universal Robots (1920), de Karel Capek, na qual certamente Aldous Huxley se inspirou para escrever seu Admirável Mundo Novo (1932); e 1984, de George Orwell (1949). São clássicos que guardam enorme interesse em tempos de inteligência artificial, robotização e conglomerados privados gigantes que conhecem o que compramos e compartilhamos. Além de governos que se propõem a controlar o que é postado por seus cidadãos, nos quais aplicam técnicas de reconhecimento facial antecipadas pelo Big Brother de Orwell. Na distopia orwelliana, o Ministério da Paz era responsável pela guerra; ao Ministério do Amor cabia manter a lei e a ordem. O Ministério da Pujança era responsável por questões econômicas e o Ministério da Verdade era responsável por notícias, entretenimento, educação e belas artes. Seus nomes em novilíngua eram, respectivamente, MiniPaz, MiniAmor, MiniPuja e MiniVer. O personagem central do livro trabalhava no MiniVer, cujo lema, escavado na parede, era “ignorância é força”. Em carta enviada a Orwell em outubro de 1949, em que agradecia o envio de seu 1984, Huxley reputou o livro “profundamente importante”, mas observa sobre o futuro que, em vez de uma bota oprimindo um rosto humano, as oligarquias dominantes encontrariam meios mais eficientes de satisfazer impulsos por poder, meios dos quais tratou em seus escritos. Em seu Admirável Mundo Novo Revisitado (1958), fez um fundamental exame do problema da liberdade numa era de técnicas avançadas de propaganda, já então à disposição de autocratas para manipular e controlar a população por meio da alteração de seus padrões de pensamento e comportamento. Antecipava em algumas décadas Os Engenheiros do Caos, o importante livro de Giuliano Da Empoli. O governo Trump publicou sua relevante National Security Strategy em novembro de 2025 e, no mês passado, um importante documento que define sua Estratégia Nacional de Defesa e tem como subtítulo “Restaurando a paz por meio da força”. O texto afirma que os EUA haviam desperdiçado sua vantagem militar ao se apegar a “abstrações do tipo castelo nas nuvens”, como a “ordem internacional baseada em regras”. O documento deixa claro que os EUA “must and will” conferir prioridade à defesa de sua homeland e do “Corolário Trump” às doutrinas Monroe (a América para os americanos) e Theodore Roosevelt ( Talk softly and carry a big stick). A Donroe Doctrine seria algo como talk loudly and carry a bigger stick. As principais “linhas de esforço” seriam a defesa da terra natal – e da presença hegemônica no hemisfério ocidental – e a contenção da China. Em seguida, vêm o aumento do burden-sharing com aliados e parceiros e a supercharging da “base industrial de defesa” dos EUA. O documento reitera o direito dos EUA de acessar “áreas-chave”, como o Canal do Panamá e a Groenlândia. Os europeus têm razão em estar preocupados. O documento afirma que os parceiros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) têm capacidade econômica que ultrapassa em muito a da Rússia e cobra o acordado: 3,5% do Produto Interno Bruto (PIB) em dispêndio militar e mais 1,5% em gastos ligados à segurança. Os aliados da Otan deveriam assumir a principal responsabilidade pela defesa da Europa – com o apoio crítico, “porém mais limitado, dos EUA”. Na visão dos Departamentos de Estado e da Guerra, “o presidente Trump está liderando o país para uma nova idade do ouro com a sua visão de paz duradoura por meio da força”. O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, fez importante contraponto em seu discurso em Davos. Referiu-se a uma nova e dura realidade geopolítica em que grandes potências não estão mais submetidas a restrições que, bem ou mal, existiram nas décadas do pós-guerra. Foi realista ao afirmar que sabíamos que a “international rules-based order” era parcialmente falsa, que os mais fortes se eximiriam dessas regras quando isso lhes fosse conveniente e que as regras seriam aplicadas de maneira assimétrica. Ficção que, segundo Carney, era útil: a hegemonia americana, em particular, ajudou a prover bens públicos, linhas marítimas abertas, um sistema financeiro relativamente estável, segurança coletiva e apoio a sistemas de resolução de controvérsias. Essa “ordem” acabou e não voltará. Nostalgia não é estratégia política. Potências médias, como Canadá e Brasil, terão de encontrar caminhos neste mundo novo, caminhos que passam por geometrias variáveis na área externa e pela busca, agora premente e com prioridade, por uma economia doméstica de maior resiliência e produtividade.
domingo, 8 de fevereiro de 2026 O racismo como método. Por Lourival Sant’Anna O Estado de S. Paulo O método consiste em induzir o adversário a uma reação agressiva, para depois retratá-lo como violento O vídeo retratando Michelle e Barack Obama como macacos, compartilhado e depois removido por Donald Trump em sua rede social, não é um ato impensado. É uma arma de guerra psicológica testada, validada e aprimorada. Chamado de “isca e contragolpe”, o método consiste em induzir o adversário à reação agressiva, para então retratá-lo como violento. O autor apaga aquilo que provocou a reação do oponente, deixa visível apenas essa reação, e reposiciona a si mesmo como vítima da violência do outro. A mensagem inicial não visa convencer pelo conteúdo, mas criar um gatilho emocional. Os vestígios da causa da reação desaparecem, graças à engenharia dos algoritmos das redes sociais. Preso em bolhas cognitivas, o público-alvo, no caso a maioria branca, esquece a provocação inicial. A técnica é empregada regularmente pelo time Trump. No dia 22, Nekima Armstrong, negra de 49 anos, foi presa ao protestar em uma igreja cujo pastor é agente do ICE, em Minnesota, onde a polícia anti-imigração matou dois cidadãos americanos à queima-roupa. Armstrong foi fotografada ao ser presa. Estava calma, com olhar determinado, embora algemada e acorrentada pela cintura e pelos pés – “o mais próximo que me senti da escravidão”, disse. Em imagem alterada pela Casa Branca, ela parece desesperada e agressiva, chorando e com a pele escurecida. “É só um meme”, defendeu o governo. Armstrong, mãe de quatro filhos, contou que a manipulação de sua imagem a abalou porque ela se sente responsável por levar adiante o legado de seus antepassados, que mantiveram a dignidade mesmo tendo sido trazidos como escravos da África. Uma sensibilidade que se perde na convulsão das narrativas. Em setembro, Trump compartilhou vídeos gerados por IA que mostravam o líder democrata na Câmara, Hakeem Jeffries, que é negro, com sombrero e bigode mexicanos, ao som de mariachi. A sugestão era que Jeffries está do lado dos imigrantes. Em 2015, Trump lançou-se candidato espalhando que Obama não tinha nascido nos EUA e era muçulmano. Trump ironizou a mistura racial de negra e indiana de sua adversária Kamala Harris. Em 2019, ele tuitou sobre quatro deputadas não brancas, três das quais nascidas nos EUA: “Por que elas não voltam para os lugares de onde vieram?” Durante protestos em 2020 contra a violência policial, Trump tuitou “quando os saques começam, os tiros começam”, frase de um chefe de polícia, em 1967, que remete à repressão de protestos de comunidades negras. Os exemplos são abundantes.
VERSÃO DIGITAL (Site / App / Edição multimídia) O fim da ficção internacional Entre a luz e a sombra, o mundo que emerge exige realismo, resiliência e escolhas difíceis 📷 [FOTO – HERO IMAGE / TOPO DA PÁGINA] Legenda: Nos trilhos de Nova Iguaçu Crédito: Luiz Barbosa RECORDAR É VIVER Luiz Barbosa Nos trilhos de Nova Iguaçu, o sol nasce como linha divisória entre claridade e sombra. A imagem foi captada numa tarde de retorno do centro da cidade, mas evoca mais do que um instante urbano: sugere travessia, persistência e espera. A fotografia dialoga com o samba de Nelson Cavaquinho, cuja obra combina dor, lucidez e esperança contida. Como nas alvoradas que o compositor testemunhou ao longo da vida, a luz não apaga a dureza do mundo — mas insiste em reaparecer. ▶️ VÍDEO | Recordar é Viver — Luiz Barbosa 📎 Link sugerido: (inserir URL do vídeo oficial ou canal do autor) Crédito: Luiz Barbosa Descrição: Reflexão audiovisual sobre memória, cidade e travessia. ▶️ VÍDEO | “Juízo Final” — Nelson Cavaquinho & Élcio Soares 📎 Vídeo com interpretação e letra disponível em: https://www.letras.mus.br/nelson-cavaquinho/juizo-final/ Composição: Nelson Cavaquinho e Élcio Soares Observação editorial: Letra disponível por link externo, conforme direitos autorais. A ordem internacional baseada em regras, ainda que imperfeita, funcionou como uma ficção útil ao longo do pós-guerra. Sua dissolução expõe um mundo mais transacional, no qual o poder volta a se impor sobre normas. Entre trilhos, sombras e luz, o desafio que se impõe a países como o Brasil é claro: compreender a transição, fortalecer a base interna e agir com realismo. O sol pode não eliminar a noite — mas segue nascendo. S

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