sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

O coração do sistema político brasileiro: ninguém tem pressa em unificar no 1º turno

Conheça a Praça dos Três Poderes Introdução A recorrência do segundo turno nas eleições presidenciais brasileiras não é uma anomalia conjuntural, nem resultado exclusivo de polarização política. Trata-se de uma característica estrutural do sistema político-eleitoral, produzida pela combinação específica entre presidencialismo, multipartidarismo, voto proporcional e incentivos estratégicos racionais para partidos e eleitores. Compreender por que o Brasil quase sempre vai ao segundo turno é essencial para entender, em seguida, a fragmentação do Congresso, a dissociação entre vitória presidencial e maioria legislativa e, por fim, os dilemas crônicos da governabilidade. 1. O 1º turno como arena de maximização individual, não de coordenação coletiva O primeiro turno presidencial no Brasil opera menos como uma instância decisória final e mais como uma arena de revelação de forças políticas. 1.1 Multipartidarismo competitivo e dispersão racional O sistema partidário brasileiro, mesmo após cláusulas de barreira e federações, continua altamente fragmentado. Há múltiplos partidos com: Capilaridade regional Identidade ideológica reconhecível Acesso a recursos institucionais (fundo eleitoral, tempo de mídia) Nesse ambiente, lançar candidatura presidencial no 1º turno é estrategicamente racional, mesmo sem expectativa real de vitória. O custo marginal é baixo, e os ganhos potenciais são elevados: visibilidade nacional, fortalecimento de bancadas e poder de barganha posterior. 1.2 O voto “sincero” como comportamento dominante O eleitor brasileiro aprendeu a distinguir claramente as funções dos turnos: 1º turno: expressão de preferência genuína 2º turno: escolha estratégica binária Isso reduz drasticamente a pressão por coordenação antecipada. Diferentemente de sistemas majoritários de turno único, não há punição imediata para a fragmentação no 1º turno. 1.3 A ausência de incentivos à desistência precoce Nada no desenho institucional brasileiro incentiva partidos a: Abrirem mão de candidatura Subordinarem seu projeto ao de um aliado no 1º turno Ao contrário: a expectativa quase consensual de um segundo turno desvaloriza a unificação precoce. Ninguém tem pressa porque ninguém paga um preço imediato por não unificar. 2. O desacoplamento entre eleição presidencial e eleição congressual O ponto central — e frequentemente mal compreendido — é que o Congresso é decidido no 1º turno, sob lógica completamente distinta. 2.1 Eleições simultâneas, lógicas distintas Enquanto a Presidência exige maioria absoluta, o Legislativo é eleito por: Sistema proporcional Distritos estaduais Competição intrapartidária e interpartidária O eleitor não “transfere” automaticamente sua escolha presidencial para o voto legislativo. O chamado coattail effect é fraco no Brasil. 2.2 Racionalidade partidária: preservar bancada, não eleger presidente Diante disso, partidos agem racionalmente: Otimizam desempenho legislativo Investem em candidatos locais fortes Usam a candidatura presidencial como instrumento auxiliar, não como fim Unificar candidaturas presidenciais no 1º turno poderia até reduzir votos proporcionais, ao diluir identidades partidárias e palanques regionais. 2.3 Oposição derrotada no Planalto, mas vencedora no Congresso É perfeitamente possível — e frequente — que o campo derrotado na Presidência: Eleja grandes bancadas Controle agendas temáticas Forme maioria negativa (capaz de bloquear, mesmo sem governar) Assim, o 2º turno presidencial não “corrige” a fragmentação congressual. Ele apenas decide quem ocupa o Executivo. 3. Governabilidade como produto de negociação permanente O resultado combinado desses fatores é um padrão recorrente: presidentes eleitos sem maioria legislativa própria. 3.1 Presidencialismo de coalizão como necessidade, não escolha A formação de coalizões amplas não decorre de traços culturais ou morais, mas de: Um Congresso eleito sob incentivos autônomos Partidos que não se sentem corresponsáveis pela eleição presidencial A coalizão governista, portanto, não é programática, mas funcional. 3.2 Custo político da governabilidade Esse modelo produz efeitos conhecidos: Fragmentação ministerial Diluição de agendas Poder elevado de intermediários parlamentares Instabilidade decisória Governar passa a significar gerir conflitos, não impor direção estratégica. 3.3 Oposição permanente e judicialização Como a oposição: Não é aniquilada eleitoralmente Não depende do Executivo para sobreviver Ela atua desde o primeiro dia com: Capacidade de obstrução Mobilização institucional Recurso frequente ao Judiciário O STF emerge, assim, não por escolha, mas por vácuo funcional entre Executivo e Legislativo. Conclusão O segundo turno presidencial no Brasil não é um acidente nem um defeito isolado. Ele é o sintoma visível de um arranjo institucional no qual ninguém tem incentivos para unificar no 1º turno. Esse mesmo arranjo produz: Presidentes legitimados eleitoralmente Congressos fragmentados Governos estruturalmente dependentes de coalizões instáveis O paradoxo brasileiro é claro: eleições previsíveis, governos difíceis. Enquanto os incentivos fundamentais do sistema permanecerem inalterados, o segundo turno continuará sendo menos uma exceção e mais a regra — e a governabilidade, um exercício constante de engenharia política.
A bandeira da ética e um novo Xandão para a sociedade chamar de seu Publicado em 06/02/2026 - 08:26 Luiz Carlos Azedo Brasília, Comunicação, Congresso, Economia, Eleições, Ética, Governo, Justiça, Partidos, Política, Política Dino faz um dueto com o presidente Edson Fachin, que pretende aprovar um Código de Ética para o Supremo e toda a magistratura, diante do desgaste da instituição, principalmente em relação ao caso Master Desfila hoje, com concentração em frente ao Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, na Avenida Antônio Carlos, 1500, no Centro (antiga a Esplanada do Castelo, que ainda hoje abriga os antigos ministérios da Era Vargas), o mais novo protagonista do carnaval de rua carioca: o Bloco Corta-Penduricalho. Os foliões vão desfilar pelo Aterro do Flamengo, até o bar Belmonte. Dispensável dizer que a motivação do bloco é a aprovação do extra teto dos salários dos funcionários da Câmara e do Senado e outros penduricalhos que afrontam o bom senso e a Constituição. Empoderados pelas emendas ao Orçamento, fundo partidário e fundo eleitoral, deputados e senadores aprovaram os aumentos a toque de caixa, na terça-feira, pegando a imprensa e a opinião pública de surpresa. Na quarta-feira, para esvaziar a reação da sociedade, não houve sessão na Câmara nem no Senado; estão suspensas até depois do carnaval. Como podem legislar de costas para a sociedade, porque estão tão endinheirados que praticamente compraram a reeleição nos seus redutos de origem, a maioria mergulhou. Somente ficaram em Brasília os presidentes da Câmara e do Senado, Hugo Motta (Republicanos-PB) e Davi Alcolumbre (União-AP), respectivamente, e os líderes de bancada, para um jantar com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na Granja do Torto. O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), disse ontem que espera que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sancione o reajuste. O parlamentar paraibano, após a sanção, pretende publicar um ato da Mesa Diretora que eleva a verba de gabinete dos deputados. Esse ato, inclusive, já está pronto. O aumento deve ser de cerca de R$ 30 mil. Atualmente, o valor é de R$133,2 mil por mês. Com o aumento, passará para cerca de R$165 mil mensais. O presidente Lula ainda avalia se vetará ou não os penduricalhos, com um olho nos eleitores e outro nos políticos do Centrão. Entretanto, o ministro Flávio Dino saiu na frente e determinou que os Três Poderes revisem e suspendam “penduricalhos”’ ilegais do serviço público. O ministro deu prazo de 60 dias para que Executivo, Legislativo e Judiciário tomem providências sobre essas verbas, que são valores que ultrapassam o teto do funcionalismo, equivalente ao salário de ministros do Supremo, que é de R$ 46.366,19. Leia também: Dino freia “Império dos Penduricalhos” A decisão vale também para estados e municípios. Aquelas verbas que não foram expressamente previstas em lei “devem ser imediatamente suspensas após o prazo fixado”, determinou Dino, a partir de uma ação apresentada ao Supremo pela Associação dos Procuradores Municipais do Litoral Centro Sul do Estado de São Paulo. Executivo, Legislativo e Judiciário terão de publicar um ato discriminando o valor e fundamento de cada verba remuneratória, indenizatória ou auxílio. Privilégios No momento, a liderança moral do Supremo Tribunal Federal (STF) na sociedade está em xeque, devido ao comportamento, decisões e envolvimento de familiares de vários ministros com os escritórios que advogam no Supremo. Dino faz um dueto com o presidente da Corte, ministro Edson Fachin, que pretende aprovar um Código de Ética para a o STF e toda a magistratura, diante do desgaste da instituição, principalmente em relação ao caso Master. Dino vem resgatando a bandeira da ética em várias de suas decisões. Em contrapartida, está sendo ameaçado de impeachment nos meios políticos, principalmente por causa de sua atuação contra desvios de verbas de emendas ao Orçamento. O ministro critica a ausência de uma lei que regulamente as indenizações e determina ao Congresso Nacional a elaboração de uma legislação para regulamentar quais verbas indenizatórias são efetivamente admissíveis como exceção ao teto. Na decisão, Dino afirma que verbas indenizatórias foram usadas para maquiar o pagamento turbinado de salários, ultrapassando o limite previsto pela Constituição. “Essa situação fática implica o descumprimento generalizado da jurisprudência vinculante do STF acerca do teto, impondo o ônus de que cada caso concreto seja arbitrado pelo Tribunal”. As verbas indenizatórias são destinadas a recompor gastos efetivados pelo desempenho do serviço. Leia ainda: Relator da reforma administrativa critica reajustes e alerta para efeito cascata A “multiplicação anômala” de verbas indenizatórias é impressionante: licença compensatória de 1 dia por cada 3 dias normais de trabalho, que pode ser “vendida” e se acumula com o descanso em sábados, domingos e feriados; gratificações de acervo processual, a premiar quem acumula muitos processos; gratificações por acúmulo de funções, na mesma jornada de trabalho, em dias úteis e no período diurno; auxílio-locomoção, pago inclusive a quem não comprova que se locomove para trabalhar; auxilio-combustível (idem); auxílio-educação (por vezes sem que haja o custeio de qualquer serviço educacional); auxilio-saúde (independentemente da existência ou não de planos de saúde, e dos seus valores); licença-prêmio (também com conversão em pecúnia); acúmulos de férias, por vontade própria e unilateral do servidor, também a serem convertidos em parcelas indenizatórias Enquanto Fachin foca na discussão de um Código de Ética, Dino focou sua atuação nos privilégios. Nas entrelinhas: todas as colunas no Blog do Azedo Compartilhe: Clique para compartilhar no Facebook(abre em nova janela)Clique para compartilhar no Twitter(abre em nova janela)Compartilhe no Google+(abre em nova janela)Clique para compartilhar no Pinterest(abre em nova janela) #Alcolumbre, #congresso, #Dino, #Motta, #Penduricalhos, #Supremo
Proposta de Le Corbusier para o edifício-sede do Ministério da Educação e Saúde Pública, 1936. Site Cronologia do Pensamento Urbanístico Questionamento E Parecer Técnico-jurídico Sobre Atuação Do Stf E Penduricalhos I. Formulação Precisa do Questionamento Jurídico-Institucional Questão jurídica central Diante da decisão proferida pelo ministro Flávio Dino, no âmbito do Supremo Tribunal Federal, que determinou aos Três Poderes da República a revisão e eventual suspensão de verbas remuneratórias e indenizatórias que ultrapassem o teto constitucional previsto no art. 37, XI, da Constituição Federal de 1988, questiona-se: A atuação do ministro Flávio Dino, ao enfrentar administrativamente a proliferação de verbas indenizatórias (“penduricalhos”), limitou-se a um exercício de liderança moral e política institucional — sem eficácia jurídica estrutural suficiente para sanar violações reiteradas ao art. 37 da CF/1988 — ou representou, dentro dos limites do desenho constitucional e do jogo de poder vigente, a estratégia juridicamente possível e institucionalmente responsável para enfrentamento do problema? Corolário do questionamento principal: Haveria instrumentos jurídicos mais eficazes, no âmbito da jurisdição constitucional, que poderiam ter sido acionados pelo STF — e, em especial, pelo relator — para produzir efeitos normativos vinculantes e imediatos, reduzindo o espaço de discricionariedade administrativa e neutralizando a crítica de que a decisão se prestaria apenas a um “jogo de cena” perante a opinião pública? II. Parecer Técnico-Jurídico 1. Delimitação do objeto O presente parecer analisa: a natureza jurídica da decisão proferida pelo ministro Flávio Dino; seus limites constitucionais e institucionais; as alternativas decisórias disponíveis no âmbito do STF; e a decisão tomada à luz da política constitucional, da ética pública e do jogo real de poder entre os Três Poderes. Não se examina apenas a juridicidade estrita do ato, mas sua eficácia sistêmica no contexto do constitucionalismo brasileiro contemporâneo. 2. Marco constitucional aplicável O art. 37, XI, da Constituição Federal estabelece: o teto remuneratório do serviço público; a vinculação do teto ao subsídio dos ministros do STF; e a excepcionalidade das verbas indenizatórias, desde que não remuneratórias, não habituais e destinadas à recomposição de despesas efetivamente realizadas. A jurisprudência do STF consolidou entendimento no sentido de que: a habitualidade descaracteriza a indenização; a ausência de comprovação de despesa real descaracteriza a indenização; e a multiplicação artificial de parcelas configura burla ao teto constitucional. O problema, contudo, não é normativo, mas estrutural e operacional. 3. Natureza e alcance da decisão do ministro Flávio Dino A decisão analisada possui natureza: estrutural (structural injunction), ao impor deveres de revisão sistêmica; administrativa-constitucional, ao exigir transparência, discriminação e revisão de verbas; não autoexecutória em sentido pleno, pois depende da atuação dos próprios órgãos controlados. Ela não declarou, de forma abstrata: a inconstitucionalidade de categorias inteiras de verbas; nem fixou tese vinculante com critérios objetivos exaustivos. Todavia, produziu efeitos jurídicos relevantes: impôs prazo; criou dever de motivação e publicidade; abriu caminho para responsabilização futura por descumprimento; e reposicionou o STF como ator do debate ético-institucional. 4. A crítica do “jogo de cena” e seus fundamentos A crítica sustenta que: a matéria dificilmente chegaria ao STF por recurso ordinário; a pulverização administrativa das verbas impede controle concentrado eficaz; a decisão não rompeu, de imediato, a engrenagem dos privilégios; e, portanto, teria caráter predominantemente simbólico. Sob o ponto de vista estritamente normativo, a crítica tem parcial procedência: a decisão não produz saneamento automático nem imediato. Sob o ponto de vista institucional, contudo, a crítica é incompleta. 5. O que poderia ter sido feito: alternativas jurídicas disponíveis 5.1. Fixação de tese vinculante objetiva O STF poderia ter afirmado, expressamente, que: verbas habituais são, por definição, remuneratórias; indenizações sem comprovação material de despesa são inconstitucionais; e que a nomenclatura administrativa é irrelevante para fins de teto. Tal tese reduziria drasticamente a margem de burla. 5.2. Declaração de inconstitucionalidade por arrastamento Poderia ter sido declarada a inconstitucionalidade: de leis e atos normativos genéricos que autorizam indenizações amplas; sem critérios objetivos, temporais e funcionais. Essa via implicaria confronto direto com: o Judiciário; o Legislativo; e corporações organizadas. 5.3. Imposição de mecanismos de coerção externa Outra alternativa seria: auditoria compulsória e periódica; atuação vinculante do TCU; sanções pessoais por descumprimento. Essa opção transformaria o STF em gestor direto de crise institucional. 6. Política constitucional, ética e jogo de poder A decisão de Dino deve ser lida à luz de três vetores: Crise de legitimidade do STF, já tensionado perante a opinião pública; Reação do sistema político, inclusive com ameaças explícitas de impeachment; Conflito com interesses corporativos do próprio Judiciário. Nesse contexto, uma decisão maximalista poderia: unificar resistências internas e externas; fragilizar a Corte como instituição; e inviabilizar avanços graduais futuros. Optou-se, portanto, por uma estratégia incremental: abertura de agenda; deslocamento do ônus político para os demais Poderes; e construção de capital institucional. 7. Conclusão do parecer Conclui-se que: A decisão não se reduz a mero jogo de cena, pois possui eficácia jurídica real; Também não representa a solução estrutural definitiva do problema; Trata-se de uma atuação estrategicamente contida, orientada pelo realismo institucional; O ministro poderia ter adotado medidas mais duras, mas a custo de alto risco político-institucional; A crítica só se sustentará plenamente caso o STF não avance, em momento posterior, para teses vinculantes ou invalidações normativas. Em síntese, a decisão situa-se no ponto de equilíbrio — instável, mas consciente — entre ética pública, jurisdição constitucional e sobrevivência institucional do Supremo Tribunal Federal.
A Esplanada do Castelo e o Palácio Capanema: Projeto Pax, de Archimedes Memória, 1º colocado no concurso realizado pelo ministro Gustavo Capanema em 1935. Site Cronologia do Pensamento Urbanístico O resultado foi aceito, Capanema pagou o prêmio e desprezou o projeto. Em seguida, convocou Lúcio Costa, autoridade reconhecida como arquiteto, que não aceitou fazer o projeto sozinho e propôs a formação de uma equipe integrada por Carlos Leão, Affonso Reidy, Jorge Moreira, Ernani Vasconcellos e Oscar Niemeyer, todos formados na Escola Nacional de Belas Artes. A fim de conferir maior legitimidade ao projeto, convidou Le Corbusier para prestar consultoria e ministrar palestras ao grupo.
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026 Congresso põe Lula num dilema. Por Dora Kramer Folha de S. Paulo Quando os penduricalhos chegarem à sua mesa, presidente terá escolha difícil entre vetar ou sancionar Mais difícil será explicar o que faziam o PT e companhia no acordo de privilégios que o governo diz ignorar O presidente da República tem pela frente uma escolha difícil. Quando o pacote de privilégios aprovado no Congresso Nacional chegar à sua mesa para sanção ou veto, ele precisará decidir entre se indispor com o Legislativo, além de boa parte do funcionalismo, e ficar mal na foto eleitoral. A dificuldade maior nem é essa. Antes disso, será necessário explicar a presença do PT e companhia no acordo que viabilizou uma votação simbólica —sem a identificação do voto— de surpresa, no meio da tarde do segundo dia do novo ano legislativo, e que, entre outras desigualdades, cria penduricalhos salariais e institui a escala 3x1 de trabalho para uma casta de servidores públicos. Isso enquanto Executivo e Legislativo fazem cara de paisagem à tramitação de uma proposta de reforma administrativa que busca conter privilégios, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, defende o fim dos supersalários e o governo faz da escala de cinco dias de trabalho por dois de folga para o setor privado uma bandeira de campanha. Francamente, Luiz Inácio da Silva (PT) estará diante de um dilema e tanto. Ou bem sanciona a manobra de privilégios, jogando fora o discurso da justiça social, ou veta a pilantragem e quebra o acordo de boa vizinhança que incluiu a oferenda de um instituto federal de educação na cidade de Patos (PB), administrada pelo pai do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos). Será uma boa oportunidade para Lula desvendar ao público o real significado do slogan "Congresso inimigo do povo". Até lá, fica a seguinte impressão: o dito serve para afetar antagonismo nos palanques e exortar as plateias a escolher parlamentares fiéis ao governo. Mas não é para ser levado a sério quando o pragmatismo manda que se alimentem as boquinhas. Seja qual for a saída encontrada por Lula, uma coisa é certa: nem ele nem os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado deram a menor pelota ao que ouviram no dia anterior do presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, sobre a urgência da autocorreção dos Poderes. Não entenderam nada. Matriz ou Filial (part. Marília Mendonça) Fátima Leão Coitado Ele acha que tá enganando a gente Mas tá sendo enganado Ele acha que usa nós duas Mas tá sendo usado Já que ele quer prazer em dobro Nesse jogo vai pagar dobrado Vamos combinar assim Marca com ele Dá a hora e o lugar pra mim Eu quero ver a cara dele como vai ficar Te esperando e me vendo chegar Ele vai passar mal Quando ver que a matriz conhece a filial Tá se fazendo de cordeiro Mas é lobo mal Se ele tentar fugir A gente pega e quebra ele no pau Vamos combinar assim Marca com ele Dá a hora e o lugar pra mim Eu quero ver a cara dele como vai ficar Te esperando e me vendo chegar Ele vai passar mal Quando ver que a matriz conhece a filial Tá se fazendo de cordeiro Mas é lobo mal Se ele tentar fugir A gente pega e quebra ele no pau Matriz ou filial Composição: Chrystopher Pontes.
"A bancada do PT é a matriz, as demais, apenas filiais. Na Sapucaí, com Brasil da Silva, tudo se entende. No maior teatro a céu aberto erguido por Brizola, Niemeyer e Darcy, que voltaram, mas vão ter que engolir quem os engoliu…"
00:00 Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, estava envolvido em atividades frenéticas na segunda-feira, 17 de novembro. Depois de reunir-se com seus advogados pela manhã, marcou uma videoconferência urgente com o diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino, e dois superintendentes da instituição. Na conversa, que começou às 13h30 e durou quarenta minutos, Vorcaro fez uma comunicação surpreendente: o seu quebrado Master, que o BC proibira de ser vendido ao BRB, controlado pelo governo do Distrito Federal, havia encontrado um novo comprador. O interessado era a Fictor, uma holding de investimentos de pouca tradição no mercado que, segundo o banqueiro, se juntara a um fundo de investidores árabes dispostos a participar do negócio. Era a salvação de seu banco. Havia apenas um senão. Para que a transação se realizasse, Vorcaro disse que precisava viajar ainda naquela noite para Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, para assinar o contrato. Era uma notável coincidência. No dia anterior, véspera da videoconferência, o juiz Ricardo Augusto Soares Leite, da 10ª Vara Federal de Brasília, tomara uma decisão sigilosa no âmbito das investigações que vinham revelando uma montanha de irregularidades no Master: autorizara prender Vorcaro e três diretores do banco, confiscar seus passaportes e fazer uma operação de busca e apreensão em seus endereços. Com a decisão do juiz, a Polícia Federal começou a montar a logística da operação, que seria deflagrada na manhã de terça-feira, dia 18, tão logo fossem expedidos os mandados de prisão preventiva dos investigados. Consuelo Dieguez Repórter da piauí, é a autora de O Ovo da Serpente - Nova Direita e Bolsonarismo: Seus Bastidores, Personagens e a Chegada ao Poder (Companhia das Letras) A CONTAMINAÇÃO O Banco Master e a desmoralização da República CONSUELO DIEGUEZ D aniel Vorcaro, dono do Banco Master, estava envolvido em atividades frenéticas na segunda-feira, 17 de novembro. Depois de reunir-se com seus advogados pela manhã, marcou uma videoconferência urgente com o diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino, e dois superintendentes da instituição. Na conversa, que começou às 13h30 e durou quarenta minutos, Vorcaro fez uma comunicação surpreendente: o seu quebrado Master, que o bc proibira de ser vendido ao brb, controlado pelo governo do Distrito Federal, havia encontrado um novo comprador. O interessado era a Fictor, uma holding de investimentos de pouca tradição no mercado que, segundo o banqueiro, se juntara a um fundo de investidores árabes dispostos a participar do negócio. Era a salvação de seu banco. Havia apenas um senão. Para que a transação se realizasse, Vorcaro disse que precisava viajar ainda naquela noite para Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, para assinar o contrato. Era uma notável coincidência. No dia anterior, véspera da videoconferência, o juiz Ricardo Augusto Soares Leite, da 10ª Vara Federal de Brasília, tomara uma decisão sigilosa no âmbito das investigações que vinham revelando uma montanha de irregularidades no Master: autorizara prender Vorcaro e três diretores do banco, confiscar seus passaportes e fazer uma operação de busca e apreensão em seus endereços. Com a decisão do juiz, a Polícia Federal começou a montar a logística da operação, que seria deflagrada na manhã de terça-feira, dia 18, tão logo fossem expedidos os mandados de prisão preventiva dos investigados. Mas coisas esquisitas começaram a acontecer na segunda-feira. Enquanto a logística da ação policial era organizada, o advogado de Vorcaro, Walfrido Warde, pediu acesso ao inquérito policial – do qual, em tese, não deveria nem ter conhecimento, porque se tratava de documento sigiloso. Ao mesmo tempo, a Polícia Federal entrou em alerta. Com a intenção de Vorcaro de viajar às pressas para o exterior, aliada à decretação de sua prisão na véspera, os agentes federais não tiveram dúvida: a operação policial preparada para terça-feira havia vazado e a viagem do banqueiro era, na verdade, uma tentativa de fuga. O juiz Ricardo Leite foi informado sobre a movimentação e não perdeu tempo. Uma hora depois da videoconferência entre o banqueiro e o bc, o magistrado antecipou a emissão dos mandados de prisão e determinou que Vorcaro fosse preso naquela mesma segunda-feira, dia 17. Enquanto ocorria essa mobilização em Brasília, de São Paulo veio uma encenação. Por volta das cinco da tarde, a Fictor distribuiu um comunicado à imprensa anunciando que havia formado um consórcio com investidores árabes para colocar 3 bilhões de reais e salvar o Master. Diante do rombo espetacular do banco, da ordem de 80 bilhões, o valor anunciado foi recebido como piada. A Polícia Federal, que monitorava os movimentos de Vorcaro, já havia rastreado o seu plano de voo, também traçado às pressas. A bordo do seu jato, Vorcaro partiria do Aeroporto de Guarulhos em direção a Dubai, com escala na Ilha de Malta. Às dez da noite, quando se preparava para embarcar, o banqueiro foi preso e levado à carceragem da Polícia Federal. No dia seguinte, às seis da manhã, a pf prendeu mais seis pessoas, entre elas três diretores do Master – Luiz Antonio Bull, Angelo Antonio Ribeiro e Alberto Felix de Oliveira Neto – e um nome central no esquema: o fundador e ex-sócio do banco, o baiano Augusto Ferreira Lima. Quase no mesmo instante, o Banco Central decretou a liquidação do Master. Em 14 de janeiro passado, a Polícia Federal deflagrou uma segunda rodada de operações e apreendeu celulares, joias, dinheiro e bens de outros envolvidos. Entre eles: n O empresário baiano Nelson Tanure, outra figura-chave na estrutura do Master. Desde os anos 1980, Tanure vem aumentando seu patrimônio por meio da compra e desmonte do caixa de empresas em dificuldades – sempre com auxílio da Justiça carioca. n Fabiano Zettel, dono de uma biografia extensa: é gestor de fundos, é casado com a irmã de Vorcaro, foi pastor da Igreja Batista da Lagoinha até o mês passado e grande financiador de campanhas. Em 2022, deu 3 milhões para Jair Bolsonaro e 2 milhões para Tarcísio de Freitas. n João Carlos Mansur, fundador da Reag, administradora responsável por quase todas as operações fraudulentas do Master e que acaba de ser liquidada pelo Banco Central por fraudes e crimes contra o sistema financeiro. A situação é ainda pior: a Reag é suspeita de fazer investimentos para o pcc, a maior organização criminosa do país. n Fechando a lista dos suspeitos, a investigação chegou em um primo, na irmã e no pai do banqueiro. Com a prisão da cúpula do Master e outros envolvidos, começou a autópsia pública do que talvez seja, nas palavras do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, “a maior fraude bancária da história do país”. Não é uma hipérbole. O Master já garantiu destaque na galeria dos grandes escândalos nacionais, não apenas pelo volume bilionário das fraudes, mas, sobretudo, pela extraordinária amplitude de sua rede de influência, cujos tentáculos se infiltraram em todos os poderes da República, capturaram políticos sobretudo de partidos da direita e da extrema direita, desmoralizaram instituições de fiscalização e lesaram mais de 1 milhão de investidores. O Banco Master nasceu, cresceu, pintou e bordou debaixo do nariz do economista Roberto Campos Neto, que presidiu o bc de fevereiro de 2019 a dezembro de 2024. O Master pedia autorização para atuar no mercado desde 2017, mas, durante a presidência de Ilan Goldfajn, nunca conseguiu o sinal verde. Em 2019, sob a administra
ção de Campos Neto, Vorcaro chegou lá. A licença causou alguma surpresa, já que, entre os critérios para autorizar um banqueiro no mercado, está a exigência de “reputação ilibada”. Vorcaro tinha um passado complicado. Quando atuava no mercado imobiliário em Minas Gerais, deu um cano milionário na Prefeitura de Belo Horizonte na construção de um hotel de 37 andares. Entre 2010 e 2017, participou de um esquema que aplicou um golpe em institutos de pensão públicos – um esquema que contou também com a atuação de João Carlos Mansur, da Reag. (Em 2020, quando a Polícia Federal investigou a falcatrua, Vorcaro chegou a receber ordem de prisão.) Por alguma razão, o Banco Central não viu problema em nada disso. O Master entrou no mercado como um foguete. Em 2019, seu primeiro ano de atividade, já tinha 2,5 bilhões de reais em Certificados de Depósito Bancário (cdbs). Em 2022, eram 17, 4 bilhões. Em 2024, o volume saltara para 40 bilhões – soma fabulosa para um banco de pequeno porte. O Master operava com ousadia. Captava dinheiro dos investidores oferecendo até 140% do Certificado de Depósito Interbancário (cdi), quando o mercado não pagava mais que 100%. Para tanto, divulgava que seus investimentos estavam assegurados pelo Fundo Garantidor de Créditos (fgc), que, em caso de quebra ou liquidação de um banco, ressarce os investidores em até 250 mil reais. Era uma estratégia capciosa. O fgc, mantido com dinheiro dos próprios bancos, foi criado para proteger os investidores em caso de colapso, não para servir de alavanca para um banco lançar operações de risco. Como fiscal do mercado, o Banco Central acompanhou o Master e constatou que havia um descompasso nas suas provisões e que suas práticas de gestão eram uma ameaça. No entanto, o bc se limitou a mandar um ofício de alerta. Mandou um segundo. Depois um terceiro. Depois mais um, outro e outro. Na gestão de Campos Neto, o bc mandou nada menos que dezoito ofícios ao Master pedindo um ajuste nas contas e a adoção de boas práticas de gestão. “A pergunta é: um banco que não se enquadra depois de dezoito ofícios do bc ainda tinha chances de se corrigir?”, me disse, em tom irônico, um ex-funcionário do fgc. Afora isso, Vorcaro teve 38 conversas com diretores do bc – uma delas, com Campos Neto, na qual trataram de pleitos do Master e operações de precatórios, com os quais o banqueiro havia entupido o balanço do seu banco. Enquanto ignorava as sucessivas advertências, o Master realizou grandes proezas com ajuda do próprio Banco Central. Conseguiu, por exemplo, até adquirir outros bancos. Em 2024, comprou o Voiter e o Letsbank, além do Will Bank, que, apesar do nome, não é um banco. Mas todos os três, assim que ficaram debaixo do guarda-chuva do Master, se puseram a emitir cdbs, sempre alardeando a garantia do fgc. O então diretor de Fiscalização do bc, Paulo Sérgio Neves de Souza, não ligava para os alertas do mercado, que já eram constantes. Dizia que os grandes bancos tinham “inveja do crescimento do Master”. E garantia que o banco de Vorcaro ainda iria “colocar o ovo em pé”. Então, em março de 2024 a crise de liquidez do Master levou o bc a cogitar alguma medida mais severa. Na prática, tudo continuou como antes. Em novembro, faltando pouco mais de um mês para Campos Neto deixar a presidência do bc, a situação se agravara. Conforme documento do próprio Banco Central, já havia sido detectada “a existência de irregularidades” cometidas pelo banco, incluindo o descumprimento de normas e fornecimento de “informações incorretas”. Então, Campos Neto convocou Vorcaro para uma reunião de emergência em Brasília. No encontro, deu-lhe mais uma chance: um prazo de quatro meses para ajustar o ativo e o passivo do Master, sob pena de ser liquidado. Naquele ponto, o banco não tinha saldo para honrar quase 50 bilhões de reais em dois tipos de títulos. Eram 30 bilhões de cdbs e quase 20 bilhões de reais em cdis, dos quais 12 bilhões venceriam ao longo de 2025. Depois de dar o prazo de quatro meses, Campos Neto deixou o cargo. Meses depois, virou executivo do Nubank, a maior fintech da América Latina, que está respondendo a uma ação judicial sob acusação de vender os cdbs do Master omitindo os riscos e apoiando-se em publicidade enganosa. Em conversas com colegas de mercado, Campos Neto tem dito que só soube do caos promovido pelo Master em 2024, quando foi alertado por banqueiros. A análise da situação de bancos pequenos, que não têm dimensão para causar uma crise sistêmica, raramente chega à presidência do bc. Mas, quando tomou conhecimento do que estava ocorrendo, Campos Neto tomou duas medidas. Primeiro, reduziu o limite de cdbs emitidos pelos bancos pequenos com garantia do fgc. (Na época, o Master tinha 30 bilhões de cdbs nessa condição, mas o total de emissões dos bancos pequenos e médios chegava a 850 bilhões de reais.) Em segundo lugar, limitou o uso de precatórios no balanço dos bancos pequenos. “O bc mandou o Master contratar uma consultoria para avaliar se os precatórios estavam precificados corretamente no balanço”, me disse um diretor do bc. “A kpmg, a auditoria contratada, disse que os preços estavam dentro da realidade.” Ainda assim, o bc preferiu restringir o limite de precatórios nos balanços. “O Banco Central procura minimizar os efeitos de uma quebra de banco sobre o sistema. Tudo era discutido com a diretoria. Gabriel Galípolo fazia parte. As votações são unânimes”, me disse o diretor. O problema da gestão de Campos Neto é que, desde 2023, o fgc vinha alertando a ele próprio e aos diretores da área de fiscalização e supervisão sobre os riscos do Master. A diretoria do fgc chegou a fazer três reuniões com Campos Neto para pedir que a sangria fosse contida. Nada aconteceu. Até meados de 2024, todas as conversas com Campos Neto e diretores e superintendentes giravam em torno do risco que o Master representava. “Nós estamos vendo uma bomba, e vocês?”, diziam os técnicos do fgc. O pessoal do bc respondia: “Achamos que está tudo sob controle.” E assim, em janeiro de 2025, Campos Neto encerrou seu mandato no comando do bc e deixou o pepino na mesa de Gabriel Galípolo, seu sucessor. C om o cerco se fechando, Vorcaro abriu negociações com o brb. Era uma opção natural. O brb era um amigo do Master. O governador do df, Ibaneis Rocha, um bolsonarista filiado ao mdb, tinha relações com Vorcaro. Além disso, havia meses que o brb comprava lotes de créditos consignados (que são descontados na folha de pagamento do tomador) para ajudar o Master. Em dezembro passado, ao depor na pf, Vorcaro admitiu que tratou da negociação Master-brb com o governador. Ibaneis negou. Disse que esteve com Vorcaro quatro vezes, mas nunca tocaram no assunto. (A oposição na Câmara Legislativa do df já apresentou dois pedidos de impeachment do governador.) A pressão política para empurrar o Master pela garganta do brb não se limitou ao governador. Filiado ao pp, o senador Ciro Nogueira, cujo nome aparece com inquietante assiduidade nos escândalos nacionais, é outro que transita bem entre os bancos. Está nas duas pontas. Do lado do brb, apadrinhou a indicação de Paulo Henrique Costa para o comando do banco. Do lado do Master, propôs no Congresso um projeto para aumentar a cobertura do fgc de 250 mil para 1 milhão de reais. O endereço de sua proposta era tão evidente que ganhou o apelido de “emenda Master”. O deputado Arthur Lira, ex-presidente da Câmara e igualmente filiado ao pp, também fez parte do pelotão para salvar o Master. Em vez de recorrer ao brb, os dois, o senador e o deputado, poderiam ter optado pela Caixa Econômica Federal, outro banco no qual têm influência. O presidente da cef, Carlos Antônio Vieira Fernandes, foi indicado por Lira. O vice-presidente de Negócios de Atacado, Tarso Duarte de Tassis, ex-assessor de Vorcaro, foi indicado por Ciro. Tassis era tão simpático ao Master que demitiu três gerentes da Caixa que se recusaram a avalizar a compra de 500 milhões de papéis de longo prazo do Master. Em retrospecto, está claro que certos estavam os gerentes demitidos. Cercado por essa teia de influência de políticos, o brb mergulhou de cabeça no desastroso projeto de salvar o Master. Em março do ano passado, então, o negócio foi oficialmente anunciado. O brb se dispusera a pagar 2 bilhões de reais para comprar 58% das ações do Master. O banco estatal de Brasília ficaria com a parte saudável do Master, do qual Vorcaro se manteria sócio, e o pedaço podre permaneceria com o Master falido, que, por sua vez, trataria de arrumar uma saída. De imediato, hou ve uma grita no mercado e de alguns políticos do Distrito Federal, alarmados com a negociação. Afinal, o Master era um banco quebrado, que certamente contaminaria o balanço do brb. Coube então ao diretor de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução do bc, Renato Gomes, analisar os detalhes do negócio. Como é praxe nessas transações, Gomes pediu ao presidente do brb, Paulo Henrique Costa, que comprovasse a viabilidade financeira da operação. Quando Costa apareceu no bc com seu plano de compra, os técnicos da instituição se assustaram. “Tudo era muito amador. O balanço do brb era uma bagunça”, me disse um analista do bc, que pediu para não ser identificado porque não tem autorização para falar do assunto. “O Paulo Henrique fazia o que queria. Apenas ele e o diretor financeiro, o Dario Oswaldo Garcia Junior, participavam das reuniões. O Conselho de Administração do brb nunca apareceu para opinar. Os conselheiros não tinham a menor ideia do que estava acontecendo”, continuou. “O brb, claramente, era uma instituição sem governança.” Nas reuniões com o bc, Costa não conseguia justificar nem aspectos básicos da operação. Não sabia informar com que ativos do Master o brb pretendia ficar. Não sabia detalhar as operações que interessavam ao brb. O mais grave: não tinha noção do passivo do Master. Ou seja: estava se comprometendo a pagar todas as dívidas do Master, como manda a lei de aquisição bancária, sem, no entanto, ter ideia do tamanho do buraco. “O risco a que o Paulo Henrique estava expondo o brb era imenso. Aquilo não era sério”, me disse outro analista do bc que participou das reuniões. Além de desconhecer informações banais, Costa tentou vender gato por lebre. Um dos ativos que ficariam com o brb eram cártulas do finado Banco do Estado de Santa Catarina (Besc), que foi comprado pelo Banco do Brasil em 2008. As cártulas eram ações do antigo Besc que não haviam sido trocadas pelas ações do bb no momento de sua aquisição – e, esquecidas na gaveta, haviam perdido a validade. Costa e Vorcaro diziam que as tais cártulas valiam 13 bilhões de reais porque seriam cobradas judicialmente do bb. “Era tudo na base do chute”, me disse esse técnico do bc. “Eram tantos erros grosseiros que parecia coisa de estagiário.” Houve, inclusive, operações claramente fajutas. Numa delas, o brb apontou como ativo uma carteira de 3 bilhões de cdbs do Master que, naquela altura, já tinha virado pó. Costa chegou a dizer que algumas operações que garantiam a viabilidade do negócio dependiam do resultado do Will Bank, que pertencia ao próprio Master. Era uma afronta. O Will Bank nunca deu resultado positivo. Pelo contrário. Em meio à barafunda, o bc encontrou a mais tenebrosa de todas as transações entre as duas instituições. Em janeiro de 2025, Master e brb fizeram um negócio no valor de 12,2 bilhões de reais. O brb pagou essa quantia pelas carteiras de créditos do Master – no caso, empréstimos consignados que o banco dizia ter a receber. O bc pediu que as duas instituições comprovassem os recursos das carteiras de crédito. O que recebeu de volta foi uma carrada de mentiras. Primeiro, disseram que se tratava de uma carteira de empréstimos consignados de servidores do estado da Bahia. Ao checar os números com o estado, o bc descobriu que era mentira. “Durante todo o processo de levantamento das fraudes, o Vorcaro e o Paulo Henrique mantinham a calma e diziam não haver nada de errado naquelas operações grosseiras. Mas, quando foram pegos nessa mentira, foi a primeira vez que eles saíram da reunião conosco com as mãos suadas”, disse o analista do bc. Mesmo ao se deparar com o embuste, o bc resolveu dar uma nova chance para que as duas instituições se explicassem. Veio outra impostura. A justificativa, agora, era de que os créditos pertenciam a uma empresa chamada Tirreno Consultoria, Promotoria de Crédito e Participações s.a., que era representada por um ex-funcionário do Master chamado André Felipe de Oliveira Seixas Maia. Falso. Nem a Tirreno e nem os créditos existiam. Estava claro que o brb desembolsara 12,2 bilhões de reais em troca de vento. Diante da evidência de que fora lesado, seria razoável imaginar que o brb exigiria devolução imediata dos 12,2 bilhões. No entanto, o banco propôs ao Master que lhe pagasse em várias prestações. Coisa de pai para filho. Ainda assim, o Master não topou. Sua contraproposta foi ressarcir o brb com cotas de seus fundos no exterior. O brb, sempre generoso com o Master, aceitou. Quando saiu em busca dos fundos, descobriu que, mais uma vez, era tudo cascata. Os fundos tinham sido fechados e o dinheiro, evaporado. Apesar do cardápio de fraudes a que estava sendo apresentado, o Banco Central não desistiu de dar oxigênio ao Master. E, então, encontrou uma alternativa que chocou o mercado. N o dia 15 de abril, o Banco Central de Gabriel Galípolo, por meio do Departamento de Resolução e de Ação Sancionadora, enviou um ofício ao fgc, no qual pedia que o fundo prestasse “assistência financeira” ao banco de Vorcaro. A solicitação vinha assinada por três funcionários: André Maurício Trindade da Rocha, de Monitoramento do Sistema Financeiro; Belline Santana, de Supervisão Bancária; e Climerio Leite Pereira, de Ação Sancionadora. O ofício explicava que o bc estava empenhado em viabilizar a venda do Master ao brb e, para que a negociação saísse, o Master precisava de um empréstimo de 11 bilhões de reais. Assim, o banco poderia deixar o mercado sem causar traumas ao sistema. Em tom sutilmente ameaçador, o bc alertava que, caso o dinheiro não fosse liberado, o Master poderia se inviabilizar a ponto de ser liquidado, o que resultaria em custos muito maiores para o fgc. Nos cálculos do bc, a bancarrota do Master custaria 54,3 bilhões de reais ao fundo. O ofício pintava um quadro tenebroso. Se a liquidação ocorresse em função da negativa do empréstimo, outras instituições que operavam da mesma forma que o Master – ou seja, pagando altas comissões para usar plataformas de investimento para distribuir seus cdbs ao mercado – também poderiam quebrar. Como que para comprovar que não era alarmismo, o documento informava que, em dezembro de 2024, mais de 40% das captações de 25 bancos e 28 financeiras de pequeno porte, além do Master, eram feitas através de plataformas de investimento. Em conjunto, estas instituições tinham 119 bilhões em captações cobertas pelo fgc. Não que houvesse indícios de que estivessem sofrendo uma crise de credibilidade, dizia o ofício do bc, mas “as incertezas envolvendo a solução do Master estavam gerando rumores que poderiam influenciar negativamente as percepções de mercado e impactar a solidez de instituições com as mesmas características do Master”. Enquanto digeriam o ofício, que praticamente jogava a responsabilidade por uma crise sistêmica no colo do fgc, os técnicos do fundo receberam, naquele mesmo dia, outra carta – essa em tom abertamente ameaçador. Vinha assinada por Walfrido Warde, o advogado de Vorcaro. Warde se valia de argumentos idênticos aos do bc, só que os expunha com mais ênfase. Mesmo assim, as cartas eram tão semelhantes que pareciam redigidas pela mesma pessoa. Em seu ofício, Warde afirmava que o fgc tinha o dever de apoiar as soluções privadas, como era o caso da venda do Master ao brb, e solicitava que o fundo desse máxima celeridade à solicitação. Com receio de vir a ser acusado de gerar uma crise bancária, o fgc aquiesceu, mas reduziu o valor do empréstimo. Em vez de 11 bilhões, liberou 5,7 bilhões. Além da pressão e da ameaça, o fgc levou em conta a garantia que recebera do bc segundo a qual, com seu empréstimo, a crise estaria resolvida. O brb compraria o Master, e o fgc estaria livre de um impacto maior em suas contas. E, afinal, quando se trata de ajudar a debelar uma crise para evitar uma crise ainda maior, o fgc tem autorização estatutária para entrar no jogo. Ocorre que, cinco meses depois de ter dado essa garantia por escrito e obtido os 5,7 bilhões de reais, o Banco Central rejeitou a venda do Master ao brb, porque se tratava de uma operação inviável. Sentindo-se ludibriado, o fgc enviou uma carta ao bc lembrando que, no curso da operação de empréstimo, o fundo insistira reiteradamente na necessidade de receber informações e documentos do Master, bem como de se manter atualizado sobre o andamento das tratativas. Reclamava que todos os seus pedidos haviam sido negados pelo bc. O bc não respondeu. “É vergonhoso o que o Banco Central fez”, me disse um irado represen tante do mercado financeiro cujo banco faz pesados aportes ao fgc. “Em abril do ano passado, quando mandaram aquele ofício ao fgc, eles já sabiam da fraude e nem sequer chamaram os técnicos do fundo para buscarem uma saída conjunta. O empréstimo, como está no estatuto do fundo, só se justificaria se houvesse chance de recuperação do banco. E o Banco Central já sabia que essa chance não existia.” E concluiu: “O fgc existe para proteger os investidores e não para salvar criminosos.” O comportamento errático do Banco Central se repetiu, pouco depois, em outra situação também mal digerida pelo mercado. Em julho, o Banco Central autorizou a criação de uma nova instituição – o Banco Pleno, que pertence a ninguém menos que o baiano Augusto Lima, o fundador e ex-sócio do Master. (Quando comprou o Voiter, que pertencia ao Master, Lima trocou seu nome para Pleno.) Naquele mesmo mês de julho, o Banco Central denunciou ao Ministério Público as fraudes que descobrira no Master. “Como é possível isso? O Banco Central autoriza o funcionamento do Pleno logo depois de ter denunciado um de seus donos ao Ministério Público?”, disse o diretor de um banco em tom de perplexidade. Preso pela Polícia Federal na operação de 18 de novembro, a exemplo dos demais executivos do Master, Lima foi solto e hoje usa tornozeleira eletrônica. Mas é dono do Banco Pleno. (Normalmente, o bc leva, pelo menos, um ano para aprovar o funcionamento de uma nova instituição. No caso do Pleno, a autorização saiu em 45 dias.) O argumento do Banco Central para ter aprovado o Banco Pleno é controverso. O primeiro é de que Lima tem um patrimônio de 1 bilhão de reais, que irá colocar no banco. Esses recursos, portanto, voltariam ao “perímetro do caso”, se Lima vier a ser condenado pelas fraudes. O segundo argumento, menos plausível ainda, é de que Lima obedeceu a todos os requisitos do bc para abrir um banco, incluindo a “reputação ilibada”. “Como ele ainda não foi condenado, não tinha como negar a operação”, me disse um técnico do bc. O raciocínio não leva em conta que, ainda que Lima não tenha sido condenado, o próprio Banco Central já havia levantado provas das irregularidades dele. Para completar, antes de dar a autorização em tempo recorde, o Banco Central chegou a perguntar para Lima por que ele queria se meter num negócio tão arriscado. Revela que o próprio bc tinha suas desconfianças, mas a pergunta deveria ser inversa. Por que o bc autorizaria uma pessoa que sabidamente fazia negócios suspeitos a entrar no mercado? A autorização para o funcionamento do Pleno promete causar mais dores de cabeça ao Banco Central. Por duas razões. Quando desfez a sociedade com Vorcaro em 2024 para ficar com o Pleno, Lima levou consigo os ativos mais lucrativos do Master. Com isso, os credores do Master não terão acesso à parte que poderia lhes garantir algum ressarcimento. Segundo: o Pleno, sem dinheiro para operar, já está pedindo um socorro. Para quem? Para o fgc. Em uma carta enviada ao fundo no dia 23 de janeiro passado, o Pleno afirma que o fgc “também tem por finalidade a contribuição para a preservação da estabilidade do sistema financeiro nacional e a mitigação de riscos de natureza sistêmica”. E apresenta seu pleito: uma assistência financeira no valor de 800 milhões de reais. “Esse não foi o maior golpe contra o sistema financeiro”, me disse Antônio Marques de Oliveira Neto, da 369 Capital, empresa que intermedeia compra e venda de instituições financeiras e opera na recuperação de empresas quebradas para oferecê-las de volta ao mercado. “Esse foi o maior golpe contra os credores na história do Brasil.” Com tantas controvérsias, o próprio bc resolveu abrir uma investigação interna para apurar eventuais falhas em relação ao Master, focando principalmente no período de Campos Neto. No âmbito da sindicância, que corre em sigilo, dois diretores entregaram seus cargos. Um é Belline Santana, que assinou o ofício pedindo ao fgc para socorrer o Master com 11 bilhões de reais. O outro é Paulo Sérgio de Souza, que apostava que o Master acabaria colocando o “ovo em pé”. O baiano Augusto Ferreira Lima está na origem do Master. Coube a ele levar para o banco, quando se associou a Vorcaro, em 2019, o Credcesta – um cartão de crédito consignado que opera com servidores públicos e aposentados pelos estados e também pelo inss. A ideia surgiu na Bahia, em 2018, durante o governo de Rui Costa (pt), atual ministro da Casa Civil. Naquela época, Costa estava tentando privatizar a Empresa Baiana de Alimentos (Ebal), dona da rede de supermercados Cesta do Povo, que vendia produtos subsidiados aos funcionários do estado – e só dava prejuízo. O problema é que o estado já havia feito dois leilões e os compradores não apareciam. Augusto Lima, que ainda não operava com o mercado financeiro, fez então uma reunião com Jaques Wagner, na época secretário de Desenvolvimento Econômico do governo da Bahia e hoje líder do governo no Senado. Conseguiu convencê-lo a tornar o leilão mais atraente. Sua ideia: o governo baiano incluiria no edital uma cláusula permitindo que o comprador da Ebal operasse um cartão de crédito consignado para ser oferecido aos 400 mil servidores, pensionistas e aposentados da Bahia. Além de comprometer 30% de sua renda com empréstimos consignados comuns, como prevê a lei, o servidor baiano passaria a poder comprometer mais 10% de sua renda com o tal cartão de crédito, que foi batizado de Credcesta. A proposta vingou. No terceiro leilão, a Ebal foi arrematada por 15 milhões de reais. O comprador? Augusto Lima. O cartão de crédito, por si só, já era um negócio para lá de vantajoso, pois cobrava mais de 5% de juros ao mês. Além disso, operaria sem risco de calote, porque era consignado, e tinha uma clientela garantida, os 400 mil servidores. Dezesseis dias depois, contudo, Lima recebeu mais um presentaço do governador Rui Costa: o Credcesta seria o único a operar naquele mercado durante quinze anos. A exclusividade transformou o Credcesta numa mina de ouro ainda mais apetitosa. Para operá-lo, porém, Lima precisava de um banco. Em São Paulo, procurou o bmg, cuja sede funcionava no Pátio Victor Malzoni, o prédio mais badalado da Avenida Faria Lima. O bmg recusou a proposta. Por sugestão de um investidor que o acompanhava, Lima desceu até o segundo andar do edifício, onde funcionava um banco novo e desconhecido: o Master, que gostou da proposta. Por 25 milhões de reais, Vorcaro tornou-se dono de 50% do Credcesta, que virou um ativo altamente lucrativo para o seu banco. Depois da Bahia, o Rio de Janeiro foi o primeiro estado a aderir ao Credcesta, após uma negociação entre correligionários: Antonio Rueda, o presidente do União Brasil, intermediou o negócio com o governador Cláudio Castro (pl). Com um detalhe: o Credcesta, no Rio, também teve a exclusividade garantida. O Master chegou a operar com o Credcesta em 24 estados. O sucesso do produto atraiu pequenos bancos, que passaram a reclamar o direito de também entrar no mercado. No governo de Jair Bolsonaro, com apoio de Ciro Nogueira e Arthur Lira, o Congresso fez duas mudanças. Numa, permitiu que os empréstimos consignados, antes limitados a 30% da renda do tomador, subissem para 35%. Na outra, abriu o mercado para os bancos pequenos operarem com o cartão consignado, no qual o tomador do dinheiro podia comprometer mais 10% de sua renda, além do limite de 35% do empréstimo consignado. A farra estava cada vez maior. Quando assumiu a Presidência da República, Lula reclamou com o ministro Fernando Haddad que os servidores estavam sendo empurrados a pagar juros extorsivos. Podiam comprometer 35% de sua renda com empréstimo consignado, em que os juros ficam na faixa de 2%, e mais 10% com o cartão consignado, entre eles o pioneiro Credcesta, em que os juros passam de 5%. Por que não dar aos servidores o direito de usar 45% de sua renda com os empréstimos mais baratos? Haddad fez um estudo sobre o assunto. Sua proposta não proibia o cartão de crédito consignado, mas dava ao servidor a opção de usar os 45% de sua renda com os empréstimos de juros de 2%, sem ter que recorrer ao cartão com taxa de 5% – uma vantagem evidente. Assim que concluiu o estudo, a equipe da Fazenda recebeu um recado claro de membros do Congresso: se o governo mexesse no cartão de crédito consignado, não conseguiria aprovar mais nada no Legislativo. A proposta foi engavetada e Lula nunca pediu para ver o estudo. No Ministério da Fazenda, pouca gente tem dúvidas de que Au gusto Lima estava por trás da pressão vinda do Congresso. Afinal, depois de sair do Master no ano retrasado, Lima levou consigo o ativo mais valioso do banco, o Credcesta, e passou a operá-lo com outro banco. Qual? O Banco Pleno, o mesmo que está pedindo uma ajuda de 800 milhões de reais ao fgc. Como Vorcaro, Augusto Lima também é um sujeito muito bem relacionado. Além da amizade com Rui Costa e Jaques Wagner, ele tem boas relações com a dupla Ciro Nogueira e Arthur Lira. Sua mulher, Flávia Peres, é outra que circula bem nas altas esferas. Foi ministra-chefe da Secretaria de Governo da Presidência na gestão de Jair Bolsonaro. No Palácio do Planalto, seu gabinete era vizinho do gabinete de Ciro Nogueira, então ministro da Casa Civil. Flávia Peres, fechando o círculo das relações que explicam o negócio Master-brb, também é próxima do governador Ibaneis Rocha, do df. As digitais de Augusto Lima no rolo Master-brb estão por toda parte. A Polícia Federal descobriu que o baiano controlava duas associações de servidores na Bahia. Eram justamente aquelas duas entidades cujos nomes foram invocados para dar suporte à venda fraudulenta, por 12,2 bilhões, da carteira de crédito consignado. Descobriu também que a Tirreno, a empresa-fantasma, era uma ficção criada por Henrique Peretto. E quem é Henrique Peretto? Ex-parceiro de Lima em vários negócios – entre eles, o consórcio que comprou a Ebal e o Credcesta. Os dois chegaram a dividir um coworking no oitavo andar do edifício Pátio Victor Manzoni. E m que pese a relevância de Augusto Lima, é impossível contar a história do Master sem iluminar o papel de outro baiano: o empresário Nelson Tanure, cuja presença no noticiário dos negócios obscuros é uma constante. Suas ligações com o Master são tantas que o mercado especula se o empresário não era sócio oculto do banco. Com a atuação de Tanure desde os primórdios, o Master prosperou – pelo menos no papel. Seu patrimônio líquido saltou de 219 milhões em 2019 para 4,7 bilhões em 2024. Numa ponta, o Master captava dinheiro com as ousadas operações com cdbs, escorando-se nas garantias do fgc. Na outra, investia o dinheiro captado em fundos atulhados de ativos podres: Light, cvc, Ambipar, Oi, Gafisa, Alliança Saúde, Oncoclínicas, Ligga Telecom, Westwing. Todas empresas em recuperação judicial ou com sérios problemas de caixa. Eram, portanto, ativos baratos – e com uma vantagem adicional: os seus valores eram inflados artificialmente, o que também inflava o balanço do Master, dando ao banco a aparência de uma instituição robusta. Entre essas empresas, havia um ponto em comum: Nelson Tanure era o principal sócio de todas elas. Em 2024, o empresário, através de um dos seus fundos, o Phoenix, fez uma jogada ainda mais ousada, radicalizando seu modo de operar. Mas deu errado. Por 1 bilhão de reais, com financiamento da xp Investimentos, comprou o controle da Empresa Metropolitana de Águas e Energia (Emae), sucessora da Eletropaulo, vendida pelo governador Tarcísio de Freitas. Sua aposta era receber a dívida de cerca de 40 bilhões do estado de São Paulo com a Emae e, com esse dinheiro, pagar o financiamento. O Superior Tribunal de Justiça (stj) suspendeu o pagamento do estado e, sem o dinheiro, Tanure não pagou nem a primeira parcela à xp – que executou a dívida e lhe tirou a Emae. O elo que desperta a suspeita de uma sociedade oculta entre Tanure e Master chama-se Banvox Holding Financeira. A Banvox está no nome de Maurício Quadrado, mas, na verdade, pertence a um fundo chamado Estocolmo – que, por sua vez, pertence a Tanure. É seu modo de atuar. Tanure não costuma colocar seus negócios em seu nome, mas sempre em nome de fundos que ele próprio cria. Não é uma prática rara no mercado. Ao contrário. A maioria dos detentores de fundos usa essa tática: ou para pagar menos impostos, ou para esconder a origem do dinheiro – ou ambos. No caso de Tanure, boa parte de seus investimentos é feita por meio da Aventti Strategic Partners, sua empresa registrada no Reino Unido. É ali que estão abrigados os fundos e empresas que escondem a sua pessoa física. Os nomes vieram a público porque os órgãos britânicos de fiscalização, mais ativos que os brasileiros, exigiram que Tanure prestasse contas, sob pena de perder os investimentos. Graças a isso, agora se sabe que Tanure opera com Modal, Trustee, Banvox, Ilha de Patmos, Estocolmo, Phoenix, Planner... Todos operam com o Master daquele modo: têm ativos podres e precificação artificial, que engordam, na aparência, o balanço do banco. Por meio de seus fundos, Tanure também costuma comprar ações de empresas até se tornar o controlador, o que é perfeitamente legal. Mas, quando isso acontece, a lei manda que o controlador compre, pelo mesmo preço, as ações dos sócios minoritários que quiserem vendê-las. A maior queixa dos minoritários era que Tanure sugava o caixa das empresas e largava o esqueleto sem qualquer valor. Vladimir Timerman, gestor do fundo Esh Theta, de São Paulo, sócio minoritário em uma empresa adquirida por Tanure, a Gafisa, já colocou a boca no trombone para denunciar as práticas predatórias e ilegais. Timerman fez várias denúncias à Comissão de Valores Mobiliários (cvm), órgão que fiscaliza o mercado de valores. Nunca foi ouvido. Chegou a brigar com o então presidente da cvm, João Pedro Nascimento, que foi indicado ao cargo por Flávio Bolsonaro. Nascimento, amigo bastante próximo de um braço direito de Tanure, Pedro Borba, chegou à chefia da cvm sob a desconfiança de que sua proximidade com Borba contaminaria sua atuação. Borba era tão íntimo de Nascimento que, dentro das empresas de Tanure, ganhou o apelido de “Mister cvm”. Em suas investidas, Timerman acusava Nascimento de ignorar deliberadamente as falcatruas de Tanure. Mas, agora, com o escândalo do Master sangrando em público, sente-se aliviado e recompensado por seus anos de denúncias. “Eu fiquei muito tempo brigando sozinho para provar as irregularidades nas empresas de Tanure que lesavam os minoritários. Agora tudo está sendo comprovado.” O escândalo mostrou que uma batelada de operações irregulares do Master e seus parceiros passou pelo meio das pernas da cvm. A lista de irregularidades é longa: desvio de recursos dos fundos, gestão temerária, riscos excessivos, fraudes no mercado de capitais, manipulação de preços. Mas Timerman não se limitou a acionar a cvm. Também recorreu ao Banco Central para denunciar o Master pela quantidade assombrosa de cdbs que o banco mantinha na praça. Depois de um ano de espera, Timerman recebeu um ofício do bc desconsiderando suas denúncias. O bc também não reagia bem quando os agentes do mercado diziam que a maior parte dos ativos do Master não representavam operações bancárias e sim participações em um monte de empresas com dificuldades financeiras. Diante dos questionamentos, o chefe da Supervisão Bancária, Belline Santana, que agora está afastado no âmbito das investigações internas, respondeu, certa vez, candidamente: “Essas empresas existem, nós estivemos lá.” Até que chegou a hora. Q uando já não era mais possível conter o naufrágio do Master, Gabriel Galípolo, comandante do bc, reuniu a diretoria. Queria que todos os diretores votassem em conjunto pela recusa da operação Master-brb. Temia que qualquer divergência fosse usada por grupos de pressão política para forçar o bc a recuar. Na reunião, o diretor de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução, Renato Gomes, que inEM CARTAZ WWW.MUSEUDALINGUAPORTUGUESA.ORG.BR Saiba mais em: UM GRITO DE OUSADIA e vestigou a transação com o brb, avisou que, se a operação fosse aprovada, não teria seu aval. Pediu que, se quisessem levar a operação adiante, que aguardassem o fim do seu mandato, em janeiro. No dia 3 de setembro de 2025, a operação foi rejeitada por unanimidade. Mas o banco só seria liquidado dois meses depois. Enquanto isso, o Master sangrou em praça pública. Até o normalmente discreto advogado Marcelo Trindade, ex-presidente da cvm, abriu o verbo em um artigo no blog Valor Invest, do jornal Valor Econômico. “A demora na solução da situação do Banco Master faz surgir no Brasil um tipo inédito de instituição financeira. Trata-se do ‘banco zumbi’ incapaz de captar recursos de investidores sérios, que sobrevive diariamente à expectativa de sua iminente liquidação pelo Banco Central, mas segue perambulando pelo mercado.” No período em que vagava feito morto-vivo, o Master promoveu o lance mais cênico. Bateu na porta da Fictor e dos investidores árabes, que nunca foram identificados, e anunciou que estava prestes a ser vendido. Um integrante do bc, que esteve envolvido no caso, me disse que a Fictor tampouco apresentou a documentação necessária para fazer o negócio. Especulando sobre a identidade dos árabes, esse funcionário me disse com sarcasmo: “Só se forem árabes de Carnaval.” Enquanto isso, o Banco Central, que temia uma reação contrária à liquidação, andava acuado. Segundo me disse um gestor do mercado financeiro, o bc só teve coragem de liquidar o Master depois de ter a Polícia Federal ao seu lado. “É um Banco Central totalmente de joelhos, acovardado, sem coragem de usar a caneta. Precisa da ajuda da Polícia Federal.” E fez uma analogia médica. “A demora do Banco Central em agir é como um médico que se recusa a aceitar que o paciente está morto. O Banco Central precisou esperar que o cadáver estivesse cheirando mal para aí falar ‘é, realmente acho que agora parece que está morto’”, disse ele. “Foi preciso chegar a ponto de não ter 1 real no caixa do Master para a autoridade monetária decretar a quebra.” O coro que se levantou em favor do Master não justifica a reticência do bc, mas ajuda a explicar o cenário. A pressão chegou às ruas, inclusive. Durante a análise do processo pelo diretor Renato Gomes, o portal de notícias brasiliense Metrópoles, que pertence ao empresário Luiz Estevão, espalhou pelos pontos de ônibus da cidade cartazes divulgando uma reportagem. Tinha a foto de Gomes ampliada e uma pergunta: “Técnico ou político? Renato Gomes decide futuro do Master.” Das ruas, a pressão pulou para os gabinetes dos tribunais. No Tribunal de Contas da União (tcu), Vorcaro encontrou um empenhado defensor de seus interesses. Desde a liquidação do banco, o ministro Jhonatan de Jesus, um ex-deputado pelo Republicanos de Roraima que ganhou a cadeira por indicação do deputado Arthur Lira, entrou numa cruzada em favor de Vorcaro. Querendo reverter o desmonte do banco, Jesus partiu para cima do Banco Central, afirmando que a autoridade monetária deveria ser fiscalizada por ter se “precipitado” na liquidação do Master. Exigiu que fosse feita uma investigação do próprio bc. Por pressão das instituições financeiras, que viam nessa ingerência política o risco de enfraquecer a regulação do sistema bancário, Jesus voltou atrás na decisão e recolheu-se. Antes disso, ministros do tcu já haviam me alertado de que a proposta de investigar o bc não iria para a frente. “Nós não somos o stf. Aqui, não existe decisão monocrática. Tudo é decidido pelo colegiado, e o Jhonatan, apesar de ter o apoio de Aroldo Cedraz e de João Augusto Nardes [ministros do TCU], todos os dois próximos de Arthur Lira, seria derrotado pela outra ala que não é ligada ao ex-presidente da Câmara”, me disse um dos ministros. “Isso foi uma audácia do Jhonatan, que beira a ingenuidade.” Quem mais se enredou na teia do escândalo foi o Supremo Tribunal Federal (stf), onde a estrutura tentacular do Master chegou a dois ministros, Alexandre de Moraes e José Dias Toffoli, e um ex-ministro, Ricardo Lewandowski. O jornal O Globo revelou o contrato que o escritório de advocacia da mulher de Alexandre de Moraes, Viviane Barci de Moraes, mantinha com o Master. Qualquer escritório tem o direito de representar quem quiser, mas havia um problema e tanto: o valor extraordinário do contrato. Eram 129 milhões de reais em três anos – 3,6 milhões por mês – para defender o Master de Vorcaro junto a uma penca de órgãos dos três poderes da República. “Escuta”, me explicou um advogado. “Isso não existe. Quando você pega um caso, você precisa calcular os seus custos, quantos advogados vai precisar, quantas viagens terão que ser feitas, quanto tempo vai durar a causa, coisas assim. Dessa forma, você apresenta para o cliente seus honorários e suas despesas. Como é que você faz um contrato às cegas, pagando 129 milhões de reais?” Para piorar, o mesmo jornal O Globo noticiou que Alexandre de Moraes havia pressionado Gabriel Galípolo para que resolvesse o caso do Master. Moraes admitiu ter tido conversas com o presidente do bc, mas disse que trataram de assuntos relacionados à Lei Magnitsky, com a qual o presidente Donald Trump queria punir o magistrado por seu papel decisivo na condenação de Jair Bolsonaro e demais golpistas. Galípolo confirmou a versão de Moraes. Os dois casos – o inexplicável contrato milionário e o conteúdo da conversa – ficaram por isso mesmo, mas o stf não conseguiu sair da berlinda. Ao contrário. Assim que a liquidação do Master foi decretada, o ministro José Dias Toffoli começou a adotar uma sucessão de medidas estapafúrdias que jogavam dúvidas sobre a legitimidade da ação do bc. De início, aceitou um pedido da defesa do Master para tirar o caso da 10ª Vara Federal de Brasília e levá-lo para o stf. Para tanto, Toffoli concordou com a alegação da defesa de que, na papelada apreendida do Master, havia um contrato assinado por um deputado, que, como todo parlamentar, tem direito a ser julgado diretamente no stf. Era um pretexto. O contrato versa sobre a compra de um terreno que nada tem a ver com a história do Master. Além disso, Toffoli decidiu, sozinho, que ele é o único supervisor do caso. Convocou uma esdrúxula acareação entre Vorcaro e o diretor de Fiscalização do bc, Aílton Aquino, antes mesmo que os dois tivessem prestado seus respectivos depoimentos. Decretou segredo de Justiça sobre o processo – e depois voltou atrás. Impediu que a pf fizesse perícia em parte do material apreendido pela própria polícia – e depois, criticado em público, recuou em privado, autorizando a perícia por meio de um telefonema à pf. Deu prazo de 24 horas para os policiais cumprirem mais de quarenta mandados de busca e apreensão – e depois acusou os agentes de má vontade por não terem cumprido prazo tão exíguo. “O que Toffoli está fazendo é totalmente fora dos padrões, e ninguém o para”, me disse um jurista que acompanha o comportamento da Corte. Como se não bastasse o tumulto que provocou no processo, Toffoli tem relações com Vorcaro, o investigado. O ministro era frequentador das festas do banqueiro e vice-versa. Toffoli ainda viajou no jatinho de um amigo, o empresário Luiz Osvaldo Pastore, onde estava também Augusto Botelho, o advogado de um dos diretores do Master, Luiz Antonio Bull, que foi preso preventivamente pela pf. O objetivo da viagem era assistir à final da Libertadores, no Peru. O advogado Augusto Botelho disse que nada tinha a ver com o ministro. Que, durante a viagem, ficou sentado no banco de trás do avião com seu filho. Que o preço da passagem era caro. Que não havia nada de mais pegar carona no jatinho do amigo. Que, se não puderem estar com os amigos, os advogados não podem ter “vida social”. A situação de Toffoli tornou-se ainda mais embaraçosa depois que o jornal O Estado de S. Paulo revelou que um primo e dois irmãos do ministro – o engenheiro José Eugênio e o padre José Carlos Dias Toffoli – compraram parte do resort Tayayá, no Paraná, com financiamento do fundo Arleen. O principal cotista do Arleen vem a ser Fabiano Zettel, o cunhado de Vorcaro. (Para manter a praxe do esconde-esconde, Zettel, na verdade, não era dono do Arleen diretamente, mas através de outro fundo, o Leal, de modo a dificultar sua identificação como dono real do investimento.) Quando a sociedade foi montada, em 2021, os irmãos de Toffoli não tinham recursos para participar do negócio. Então, receberam um aporte de 20 milhões de reais do Arleen, numa operação triangulada pela Reag, aquela mesma administradora acusada de fazer investimentos para o pcc. Em 2024, o Arleen chegou a fazer um novo aporte no resort. Depois da abertura da investigação pela Polícia Federal, Zettel informou que havia fechado o fundo em 2025. Justamente após a primeira operação da pf. Os rolos de Toffoli pareciam não ter como piorar, mas pioram. O Metrópoles noticiou que, entre 2022 e 2025, o stf pagou mais de uma centena de diárias para seguranças que viajaram para a região do resort Tayayá em feriados, fins de semana e dias de recesso. Como os ministros do stf costumam usar seguranças em seus deslocamentos, ficou evidente que Toffoli fez as viagens. Mas a confirmação de que Toffoli é frequentador do resort não custou a vir a público. O Metrópoles divulgou um vídeo em que o ministro aparece à beira de um gramado no Tayayá, onde pousa um helicóptero trazendo o banqueiro André Esteves, do btg, e o empresário Luiz Osvaldo Pastore, o dono do jatinho que deu carona para Toffoli até o Peru. Quando o helicóptero aterrissa, o ministro, que carregava dois drinques de boas-vindas, caminha na direção dos visitantes para saudá-los. Com seu envolvimento com os personagens do escândalo, seria de supor que Toffoli se sentisse impedido de julgar o assunto. Até o fechamento desta edição, a despeito das pressões para que abandonasse o caso ou devolvesse os autos para a 10ª Vara, Toffoli continuava no jogo. O ministro rejeitou até apelos dos colegas Gilmar Mendes e Flávio Dino. (Quem desistiu foi o advogado Walfrido Warde, que deixou a defesa de Vorcaro no dia 21 de janeiro, sem dar explicações. Sua saída tem sido atribuída a um de seus principais clientes, o Bradesco, que, ao contrário de Vorcaro, não tem nenhum motivo para brigar com o bc.) E então surgiu a conexão Ricardo Lewandowski. Quatro meses depois de deixar o stf em abril de 2023, o escritório de advocacia do ex-ministro foi contratado pelo Master por sugestão do senador Jaques Wagner, líder do governo no Senado. Os termos do contrato não são propriamente esclarecedores. Dizem que, em troca de 250 mil reais mensais, o escritório deveria prestar “consultoria jurídica e institucional de caráter estratégico”. Em janeiro de 2024, ao assumir o Ministério da Justiça, Lewandowski deixou o escritório e suspendeu sua carteira da oab, que lhe dava direito a advogar. O portal Metrópoles, porém, mostrou que os vínculos não foram cortados. Enquanto Lewandowski exercia o cargo de ministro da Justiça, seu escritório, que havia passado para o comando de sua mulher Yara e seu filho Enrique, continuou cumprindo o contrato, cujos termos foram alterados para focar mais em questões tributárias. A cronologia significa que, durante quase todo o tempo em que Lewandowski esteve no Ministério da Justiça, o escritório de sua família trabalhava para Vorcaro e, mais do que isso, com um contrato cujo valor não foi alterado. É curioso. Uma coisa é apostar no Santos com Pelé, outra coisa é apostar o mesmo valor sem Pelé. A conexão Lewandowski fez a crise colocar um pé na rampa do Planalto. Já se sabia que, em dezembro de 2024, o presidente Lula recebera Vorcaro e Augusto Lima. Noticiado originalmente por O Globo ainda no ano passado, o encontro não causou alarme. Afinal, é comum que um presidente da República, ao ser informado de que um conhecido está no palácio, aceite recebê-lo em seu gabinete. Vorcaro e Lima tinham reunião com o chefe de gabinete de Lula e, a certa altura, pediram para ser recebidos por ele. O presidente aceitou e pediu a presença do ministro Rui Costa, aquele que deu a Augusto Lima o presentaço do Credcesta, e de Gabriel Galípolo, que estava a um mês de tomar posse na presidência do bc. Por isso, o encontro ocorreu sem agenda prévia. Agora, porém, examinado à luz dos novos fatos, o encontro ganha outros contornos. Conectando as pontas: enquanto Lula recebia Vorcaro e Lima em seu gabinete, o escritório de advocacia da família de um ministro prestava “consultoria” de “caráter estratégico” ao Master. Naquela altura, dezembro de 2024, já era público e notório que o Master era um banco singularmente enrolado. Uma reportagem da piauí, publicada em outubro daquele ano, já mostrara em detalhes as arriscadíssimas operações do Master, seus problemas de liquidez e seus parceiros explosivos. Não se tem notícia de que essas conexões palacianas tenham enveredado para o pântano, mas mostram que a influência do Master, que tropeçava em dívidas e fraudes grosseiras, chegou ao nível da metástase. Um indignado gestor de um fundo de investimento de São Paulo fez um diagnóstico: “Nunca se viu no país uma rede tão poderosa de proteção a um pequeno banco.” E continuou: “Sabe o que me assusta? É que o Banco Central pegou coisas muito mais difíceis de pegar sem nenhum tipo de demora. Cansou de liquidar, fechar e investigar. Eu nunca vi esse tipo de complacência e de amor à legalidade que o Banco Central teve que demonstrar no caso do Master.” Ele prosseguiu: “O Cruzeiro do Sul foi liquidado num piscar de olhos. O Prosper foi liquidado. O Banco Santos, com toda a confusão que deu, foi liquidado. E alguns tinham muito mais ativos do que o Master.” O pior, diz ele, é que as áreas de fiscalização e de supervisão bancária do Banco Central podiam ter percebido o caso do Master com extrema facilidade. “Era ABRAMOVIĆ · APPIAH · CASTELLS · COMTE-SPONVILLE · DAWKINS · ELBARADEI BRUNDTLAND · LILLA · MACHEL · Mccloskey · MUKHERJEE · MUKWEGE · PIKETTY ROVELLI · SASSEN · SAVATER · SENNETT · SHIVA · SLOTERDIJK · STIGLITZ · ZAMBRA UMA JORNADA COLETIVA PARA COMPREENDER A EXPERIÊNCIA FRENÉTICA DO NOSSO SÉCULO FRONTEIRAS: 21 XXI filmes essenciais para o século APRESENTA P uma história relativamente trivial, até tosca, executada de um jeito totalmente não trivial, numa escala nada trivial.” Em meio a toda confusão, quando se esperava que as pressões políticas sobre o mercado arrefecessem, Lula nomeou o advogado Otto Lobo para comandar a cvm. Lobo chegou à diretoria da autarquia por indicação do ministro Luiz Fux, do stf. Quando João Pedro Nascimento deixou a cvm, Lobo assumiu a presidência interinamente, enquanto se buscava um substituto. Não era o nome do Ministério da Fazenda, que tinha sugestões mais técnicas. Lobo é conhecido por decisões controversas, como a de ter absolvido a jbs num caso de informação privilegiada em operações com derivativos, em 2017, logo depois de ter se reunido com o dono da empresa, Joesley Batista. Com isso, o empresário se livrou de uma multa de 150 milhões de reais. (O mercado especula que a confirmação de Lobo na presidência veio por sugestão de Joesley Batista. Ele nega. Mas Lobo também contava com outro padrinho: Davi Alcolumbre, o presidente do Senado, que, sem nenhuma surpresa, pertence ao União Brasil.) Lobo também é acusado de beneficiar outro barão dos negócios, que violou a lei ao não comprar ações dos minoritários da Ambipar, uma empresa que atua na área de “transformação ecológica”. O beneficiado é ele mesmo: Nelson Tanure, além de seu sócio na empresa, Tércio Borlenghi Junior. A maioria da cvm decidiu que Tanure tinha que comprar as ações dos minoritários, como manda a lei. Na época, João Pedro Nascimento ainda presidia o órgão e também votou contra Tanure e o sócio. Lobo foi voto vencido. Porém, quando assumiu a presidência interina da cvm, Lobo inventou uma jabuticaba: chamou nova votação para que, desta vez, ele se manifestasse “na condição de presidente” – e derrubou o pagamento de 1 bilhão de reais. Essas ingerências políticas na cvm enfraquecem a entidade. Um advogado me fez a seguinte avaliação. “Isso tudo é muito ruim para o mercado brasileiro de fundos, que é o terceiro do mundo”, disse. “Politizar dessa forma a cvm só vai causar desconfiança dos investidores internacionais em relação ao Brasil.” O caso do Master, porém, mostrou que a politização – no seu pior sentido – está em toda a parte. O banco deveria ter sido liquidado de uma penada só pelo Banco Central assim que ficou evidente a sua inviabilidade, mas as pressões se fizeram sentir. “Instituições que não deveriam se envolver na liquidação de um banco interferiram demais. E a instituição que deveria ter atuado com mais agilidade, o Banco Central, se recolheu”, avalia Armínio Fraga, presidente do bc no governo Fernando Henrique Cardoso. Uma das razões para a paralisia é o fato de que o bc deixou de acompanhar, por falta de recursos e de técnicos, os avanços tecnológicos das instituições financeiras. “Acho que o Banco Central é uma instituição que merece proteção. É uma instituição que precisa ser modernizada para poder atuar melhor”, me disse Armínio Fraga. “Mas essas intervenções do stf, do tcu e da classe política fragilizam ainda mais o banco. E isso não é bom para o mercado. Não é bom para o Brasil.” O escândalo do Master já deixou um rastro de destruição considerável, sobretudo quando se leva em conta que era uma instituição classificada como S3, de pequeno porte – um tamborete, como o mercado jocosamente chama as instituições menores. Até agora, estima-se que quase metade do patrimônio do fgc, de 123 bilhões de reais, vai evaporar com os ressarcimentos obrigatórios. Os cálculos atualizados indicam que o fundo poderá perder até 60 bilhões de reais. Em apenas seis anos atuando no mercado, o Master lesou 1,6 milhão de investidores, arrastou para o buraco mais dois bancos, o brb entre eles, e ainda sugou o caixa de dezoito fundos de previdência de estados, municípios e empresas privadas – com destaque para o Rioprevidência do governador Cláudio Castro, que torrou quase 1 bilhão de seu patrimônio aplicando no Master. “Muitos fizeram negócios em dezembro de 2024 com o Master porque não foram alertados nem pelo Banco Central nem pelo Ministério da Previdência Social, de que o Master era um banco de risco”, afirma Antônio Marques de Oliveira Neto, da 369 Capital, que foi chamado para ajudar os dezoito fundos lesados. Além disso, lembra Oliveira Neto, o Master tinha auditoria da kpmg, além de excelente classificação pela Fitch Ratings. O estranho é que a cegueira dos fundos parece ter ideologia. Dos dezoito fundos que aplicaram no Master, dezessete são geridos por governos ou prefeituras de partidos de direita. É evidente que os fundos estão longe de ser inocentes, considerando que o mercado inteiro conhecia a situação do Master, que, aliás, já tinha chegado às páginas da imprensa. Além disso, a Superintendência Nacional de Previdência Complementar recomenda que os fundos façam investimentos seguros e, claramente, esse não era o caso do Master que se encheu de cdbs a taxas altíssimas. No caso do Rioprevidência, os gestores chegaram a ser alertados, inclusive pelo Tribunal de Contas do Estado, mas preferiram insistir no negócio arriscado – sabe-se lá por quê. “Nós vamos na Justiça buscar esse prejuízo que terá que ser coberto pelos Tesouros Federal e Estadual”, me disse Oliveira Neto. Além do Rioprevidência, outras duas entidades já entraram com ações judiciais para serem dispensadas de repassar ao Master os créditos consignados devidos pelos servidores e aposentados. Uma é a Amprev, do Amapá, que aplicou 400 milhões no Master. Um dos conselheiros da Amprev é Alberto Alcolumbre, irmão do presidente do Senado. A outra entidade a recorrer à Justiça é o Instituto Municipal de Previdência de Campo Grande (ms). A prefeita da cidade é Adriane Lopes, do pp. São remotas as chances de sucesso dessas ações judiciais – se é que existem. Os créditos consignados não podem deixar de ser pagos pelo tomador do empréstimo, sob o risco de ser judicialmente penalizado. “Isso é tudo absurdo”, me disse um agente do mercado. “Esses fundos puseram o dinheiro dos aposentados nos cdbs do Master, e, agora, para continuar a confundir e ludibriar os aposentados propõem essas ações judiciais como se fosse possível suspender o repasse dos créditos consignados.” Antônio Oliveira Neto, defensor dos fundos, joga toda a culpa no bc. Sua maior crítica é a forma como a instituição esvaziou o caixa do Master, vendendo seus ativos para outras instituições, quando já sabia que o Master não escaparia da liquidação. Assim, queimou a possibilidade de usar o caixa do banco para pagar os credores. “O André Esteves, desse abutre que é o btg, pagou 1,5 bilhão de reais por ativos do Master que valem mais de 5 bilhões”, me disse Oliveira Neto. “Esteves comprou a participação do Master na Light, no Fasano, na Veste e outras empresas a preço de banana, enquanto os credores não têm agora ativos do banco para ressarci-los.” Para Oliveira Neto, é incompreensível que o Banco Central, em vez de tomar o patrimônio pessoal dos donos do Master, tenha optado justamente por sacar o dinheiro do caixa do banco. “É sabido que Vorcaro tem três jatos no Brasil, um outro lá fora, iates, casas de praia de 280 milhões de reais e mais uma batelada de imóveis”, diz ele. “Só aí o Banco Central arrecadaria 1 bilhão de reais para ajudar a cobrir o rombo.” O Banco Central ainda terá pela frente situações complicadas que envolvem bancos e relações políticas em Brasília. É o caso do Banco Digimais, instituição da Igreja Universal, que opera como o Master: vende cdbs por meio de plataformas, escora-se na garantia do fgc e aplica seus recursos em empresas enredadas, além de estar entupido com ativos podres do próprio Master. Quem levou esses ativos para o banco do bispo Edir Macedo foi um dos fundadores do Master, Maurício Quadrado, aquele mesmo que é sócio de Tanure na Banvox. Quadrado fez parte da gestão do Digimais e planejava fundi-lo com o Letsbank, que pertencia ao Master. O bc proibiu o negócio. Como as contas do Digimais não estão fechando, o Banco Central terá, neste caso, uma nova chance de provar a sua força – ou atestar sua submissão. O outro caso enrolado à frente é o próprio brb, alvejado pelo rombo de 12,2 bilhões de reais. O ministro Fernando Haddad já deixou claro que o Tesouro não vai socorrer o banco. Já o fgc recebeu recentemente a visita de uma comitiva do brb para uma consulta. Qual? Queriam saber as chances de descolar uma ajuda financeira. J
Charge do JCaesar: 6 de fevereiro Humor Por JCaesar 6 fev 2026, 08h57 • Leia mais em: https://veja.abril.com.br/coluna/jose-casado/charge-do-jcaesar-6-de-fevereiro-2/

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