Inspirados já nos ensinamentos de Sófocles, aqui, procurar-se-á a conexão, pelo conhecimento, entre o velho e o novo, com seus conflitos. As pistas perseguidas, de modos específicos, continuarão a ser aquelas pavimentadas pelo grego do período clássico (séculos VI e V a.C).
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026
O coração do sistema político brasileiro: ninguém tem pressa em unificar no 1º turno
Conheça a Praça dos Três Poderes
Introdução
A recorrência do segundo turno nas eleições presidenciais brasileiras não é uma anomalia conjuntural, nem resultado exclusivo de polarização política. Trata-se de uma característica estrutural do sistema político-eleitoral, produzida pela combinação específica entre presidencialismo, multipartidarismo, voto proporcional e incentivos estratégicos racionais para partidos e eleitores.
Compreender por que o Brasil quase sempre vai ao segundo turno é essencial para entender, em seguida, a fragmentação do Congresso, a dissociação entre vitória presidencial e maioria legislativa e, por fim, os dilemas crônicos da governabilidade.
1. O 1º turno como arena de maximização individual, não de coordenação coletiva
O primeiro turno presidencial no Brasil opera menos como uma instância decisória final e mais como uma arena de revelação de forças políticas.
1.1 Multipartidarismo competitivo e dispersão racional
O sistema partidário brasileiro, mesmo após cláusulas de barreira e federações, continua altamente fragmentado. Há múltiplos partidos com:
Capilaridade regional
Identidade ideológica reconhecível
Acesso a recursos institucionais (fundo eleitoral, tempo de mídia)
Nesse ambiente, lançar candidatura presidencial no 1º turno é estrategicamente racional, mesmo sem expectativa real de vitória. O custo marginal é baixo, e os ganhos potenciais são elevados: visibilidade nacional, fortalecimento de bancadas e poder de barganha posterior.
1.2 O voto “sincero” como comportamento dominante
O eleitor brasileiro aprendeu a distinguir claramente as funções dos turnos:
1º turno: expressão de preferência genuína
2º turno: escolha estratégica binária
Isso reduz drasticamente a pressão por coordenação antecipada. Diferentemente de sistemas majoritários de turno único, não há punição imediata para a fragmentação no 1º turno.
1.3 A ausência de incentivos à desistência precoce
Nada no desenho institucional brasileiro incentiva partidos a:
Abrirem mão de candidatura
Subordinarem seu projeto ao de um aliado no 1º turno
Ao contrário: a expectativa quase consensual de um segundo turno desvaloriza a unificação precoce. Ninguém tem pressa porque ninguém paga um preço imediato por não unificar.
2. O desacoplamento entre eleição presidencial e eleição congressual
O ponto central — e frequentemente mal compreendido — é que o Congresso é decidido no 1º turno, sob lógica completamente distinta.
2.1 Eleições simultâneas, lógicas distintas
Enquanto a Presidência exige maioria absoluta, o Legislativo é eleito por:
Sistema proporcional
Distritos estaduais
Competição intrapartidária e interpartidária
O eleitor não “transfere” automaticamente sua escolha presidencial para o voto legislativo. O chamado coattail effect é fraco no Brasil.
2.2 Racionalidade partidária: preservar bancada, não eleger presidente
Diante disso, partidos agem racionalmente:
Otimizam desempenho legislativo
Investem em candidatos locais fortes
Usam a candidatura presidencial como instrumento auxiliar, não como fim
Unificar candidaturas presidenciais no 1º turno poderia até reduzir votos proporcionais, ao diluir identidades partidárias e palanques regionais.
2.3 Oposição derrotada no Planalto, mas vencedora no Congresso
É perfeitamente possível — e frequente — que o campo derrotado na Presidência:
Eleja grandes bancadas
Controle agendas temáticas
Forme maioria negativa (capaz de bloquear, mesmo sem governar)
Assim, o 2º turno presidencial não “corrige” a fragmentação congressual. Ele apenas decide quem ocupa o Executivo.
3. Governabilidade como produto de negociação permanente
O resultado combinado desses fatores é um padrão recorrente: presidentes eleitos sem maioria legislativa própria.
3.1 Presidencialismo de coalizão como necessidade, não escolha
A formação de coalizões amplas não decorre de traços culturais ou morais, mas de:
Um Congresso eleito sob incentivos autônomos
Partidos que não se sentem corresponsáveis pela eleição presidencial
A coalizão governista, portanto, não é programática, mas funcional.
3.2 Custo político da governabilidade
Esse modelo produz efeitos conhecidos:
Fragmentação ministerial
Diluição de agendas
Poder elevado de intermediários parlamentares
Instabilidade decisória
Governar passa a significar gerir conflitos, não impor direção estratégica.
3.3 Oposição permanente e judicialização
Como a oposição:
Não é aniquilada eleitoralmente
Não depende do Executivo para sobreviver
Ela atua desde o primeiro dia com:
Capacidade de obstrução
Mobilização institucional
Recurso frequente ao Judiciário
O STF emerge, assim, não por escolha, mas por vácuo funcional entre Executivo e Legislativo.
Conclusão
O segundo turno presidencial no Brasil não é um acidente nem um defeito isolado. Ele é o sintoma visível de um arranjo institucional no qual ninguém tem incentivos para unificar no 1º turno.
Esse mesmo arranjo produz:
Presidentes legitimados eleitoralmente
Congressos fragmentados
Governos estruturalmente dependentes de coalizões instáveis
O paradoxo brasileiro é claro:
eleições previsíveis, governos difíceis.
Enquanto os incentivos fundamentais do sistema permanecerem inalterados, o segundo turno continuará sendo menos uma exceção e mais a regra — e a governabilidade, um exercício constante de engenharia política.
A bandeira da ética e um novo Xandão para a sociedade chamar de seu
Publicado em 06/02/2026 - 08:26 Luiz Carlos Azedo
Brasília, Comunicação, Congresso, Economia, Eleições, Ética, Governo, Justiça, Partidos, Política, Política
Dino faz um dueto com o presidente Edson Fachin, que pretende aprovar um Código de Ética para o Supremo e toda a magistratura, diante do desgaste da instituição, principalmente em relação ao caso Master
Desfila hoje, com concentração em frente ao Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, na Avenida Antônio Carlos, 1500, no Centro (antiga a Esplanada do Castelo, que ainda hoje abriga os antigos ministérios da Era Vargas), o mais novo protagonista do carnaval de rua carioca: o Bloco Corta-Penduricalho. Os foliões vão desfilar pelo Aterro do Flamengo, até o bar Belmonte. Dispensável dizer que a motivação do bloco é a aprovação do extra teto dos salários dos funcionários da Câmara e do Senado e outros penduricalhos que afrontam o bom senso e a Constituição.
Empoderados pelas emendas ao Orçamento, fundo partidário e fundo eleitoral, deputados e senadores aprovaram os aumentos a toque de caixa, na terça-feira, pegando a imprensa e a opinião pública de surpresa. Na quarta-feira, para esvaziar a reação da sociedade, não houve sessão na Câmara nem no Senado; estão suspensas até depois do carnaval. Como podem legislar de costas para a sociedade, porque estão tão endinheirados que praticamente compraram a reeleição nos seus redutos de origem, a maioria mergulhou. Somente ficaram em Brasília os presidentes da Câmara e do Senado, Hugo Motta (Republicanos-PB) e Davi Alcolumbre (União-AP), respectivamente, e os líderes de bancada, para um jantar com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na Granja do Torto.
O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), disse ontem que espera que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sancione o reajuste. O parlamentar paraibano, após a sanção, pretende publicar um ato da Mesa Diretora que eleva a verba de gabinete dos deputados. Esse ato, inclusive, já está pronto. O aumento deve ser de cerca de R$ 30 mil. Atualmente, o valor é de R$133,2 mil por mês. Com o aumento, passará para cerca de R$165 mil mensais.
O presidente Lula ainda avalia se vetará ou não os penduricalhos, com um olho nos eleitores e outro nos políticos do Centrão. Entretanto, o ministro Flávio Dino saiu na frente e determinou que os Três Poderes revisem e suspendam “penduricalhos”’ ilegais do serviço público. O ministro deu prazo de 60 dias para que Executivo, Legislativo e Judiciário tomem providências sobre essas verbas, que são valores que ultrapassam o teto do funcionalismo, equivalente ao salário de ministros do Supremo, que é de R$ 46.366,19.
Leia também: Dino freia “Império dos Penduricalhos”
A decisão vale também para estados e municípios. Aquelas verbas que não foram expressamente previstas em lei “devem ser imediatamente suspensas após o prazo fixado”, determinou Dino, a partir de uma ação apresentada ao Supremo pela Associação dos Procuradores Municipais do Litoral Centro Sul do Estado de São Paulo. Executivo, Legislativo e Judiciário terão de publicar um ato discriminando o valor e fundamento de cada verba remuneratória, indenizatória ou auxílio.
Privilégios
No momento, a liderança moral do Supremo Tribunal Federal (STF) na sociedade está em xeque, devido ao comportamento, decisões e envolvimento de familiares de vários ministros com os escritórios que advogam no Supremo. Dino faz um dueto com o presidente da Corte, ministro Edson Fachin, que pretende aprovar um Código de Ética para a o STF e toda a magistratura, diante do desgaste da instituição, principalmente em relação ao caso Master. Dino vem resgatando a bandeira da ética em várias de suas decisões. Em contrapartida, está sendo ameaçado de impeachment nos meios políticos, principalmente por causa de sua atuação contra desvios de verbas de emendas ao Orçamento.
O ministro critica a ausência de uma lei que regulamente as indenizações e determina ao Congresso Nacional a elaboração de uma legislação para regulamentar quais verbas indenizatórias são efetivamente admissíveis como exceção ao teto. Na decisão, Dino afirma que verbas indenizatórias foram usadas para maquiar o pagamento turbinado de salários, ultrapassando o limite previsto pela Constituição. “Essa situação fática implica o descumprimento generalizado da jurisprudência vinculante do STF acerca do teto, impondo o ônus de que cada caso concreto seja arbitrado pelo Tribunal”. As verbas indenizatórias são destinadas a recompor gastos efetivados pelo desempenho do serviço.
Leia ainda: Relator da reforma administrativa critica reajustes e alerta para efeito cascata
A “multiplicação anômala” de verbas indenizatórias é impressionante: licença compensatória de 1 dia por cada 3 dias normais de trabalho, que pode ser “vendida” e se acumula com o descanso em sábados, domingos e feriados; gratificações de acervo processual, a premiar quem acumula muitos processos; gratificações por acúmulo de funções, na mesma jornada de trabalho, em dias úteis e no período diurno; auxílio-locomoção, pago inclusive a quem não comprova que se locomove para trabalhar; auxilio-combustível (idem); auxílio-educação (por vezes sem que haja o custeio de qualquer serviço educacional); auxilio-saúde (independentemente da existência ou não de planos de saúde, e dos seus valores); licença-prêmio (também com conversão em pecúnia); acúmulos de férias, por vontade própria e unilateral do servidor, também a serem convertidos em parcelas indenizatórias
Enquanto Fachin foca na discussão de um Código de Ética, Dino focou sua atuação nos privilégios.
Nas entrelinhas: todas as colunas no Blog do Azedo
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#Alcolumbre, #congresso, #Dino, #Motta, #Penduricalhos, #Supremo
Proposta de Le Corbusier para o edifício-sede do Ministério da Educação e Saúde Pública, 1936. Site Cronologia do Pensamento Urbanístico
Questionamento E Parecer Técnico-jurídico Sobre Atuação Do Stf E Penduricalhos
I. Formulação Precisa do Questionamento Jurídico-Institucional
Questão jurídica central
Diante da decisão proferida pelo ministro Flávio Dino, no âmbito do Supremo Tribunal Federal, que determinou aos Três Poderes da República a revisão e eventual suspensão de verbas remuneratórias e indenizatórias que ultrapassem o teto constitucional previsto no art. 37, XI, da Constituição Federal de 1988, questiona-se:
A atuação do ministro Flávio Dino, ao enfrentar administrativamente a proliferação de verbas indenizatórias (“penduricalhos”), limitou-se a um exercício de liderança moral e política institucional — sem eficácia jurídica estrutural suficiente para sanar violações reiteradas ao art. 37 da CF/1988 — ou representou, dentro dos limites do desenho constitucional e do jogo de poder vigente, a estratégia juridicamente possível e institucionalmente responsável para enfrentamento do problema?
Corolário do questionamento principal:
Haveria instrumentos jurídicos mais eficazes, no âmbito da jurisdição constitucional, que poderiam ter sido acionados pelo STF — e, em especial, pelo relator — para produzir efeitos normativos vinculantes e imediatos, reduzindo o espaço de discricionariedade administrativa e neutralizando a crítica de que a decisão se prestaria apenas a um “jogo de cena” perante a opinião pública?
II. Parecer Técnico-Jurídico
1. Delimitação do objeto
O presente parecer analisa:
a natureza jurídica da decisão proferida pelo ministro Flávio Dino;
seus limites constitucionais e institucionais;
as alternativas decisórias disponíveis no âmbito do STF;
e a decisão tomada à luz da política constitucional, da ética pública e do jogo real de poder entre os Três Poderes.
Não se examina apenas a juridicidade estrita do ato, mas sua eficácia sistêmica no contexto do constitucionalismo brasileiro contemporâneo.
2. Marco constitucional aplicável
O art. 37, XI, da Constituição Federal estabelece:
o teto remuneratório do serviço público;
a vinculação do teto ao subsídio dos ministros do STF;
e a excepcionalidade das verbas indenizatórias, desde que não remuneratórias, não habituais e destinadas à recomposição de despesas efetivamente realizadas.
A jurisprudência do STF consolidou entendimento no sentido de que:
a habitualidade descaracteriza a indenização;
a ausência de comprovação de despesa real descaracteriza a indenização;
e a multiplicação artificial de parcelas configura burla ao teto constitucional.
O problema, contudo, não é normativo, mas estrutural e operacional.
3. Natureza e alcance da decisão do ministro Flávio Dino
A decisão analisada possui natureza:
estrutural (structural injunction), ao impor deveres de revisão sistêmica;
administrativa-constitucional, ao exigir transparência, discriminação e revisão de verbas;
não autoexecutória em sentido pleno, pois depende da atuação dos próprios órgãos controlados.
Ela não declarou, de forma abstrata:
a inconstitucionalidade de categorias inteiras de verbas;
nem fixou tese vinculante com critérios objetivos exaustivos.
Todavia, produziu efeitos jurídicos relevantes:
impôs prazo;
criou dever de motivação e publicidade;
abriu caminho para responsabilização futura por descumprimento;
e reposicionou o STF como ator do debate ético-institucional.
4. A crítica do “jogo de cena” e seus fundamentos
A crítica sustenta que:
a matéria dificilmente chegaria ao STF por recurso ordinário;
a pulverização administrativa das verbas impede controle concentrado eficaz;
a decisão não rompeu, de imediato, a engrenagem dos privilégios;
e, portanto, teria caráter predominantemente simbólico.
Sob o ponto de vista estritamente normativo, a crítica tem parcial procedência: a decisão não produz saneamento automático nem imediato.
Sob o ponto de vista institucional, contudo, a crítica é incompleta.
5. O que poderia ter sido feito: alternativas jurídicas disponíveis
5.1. Fixação de tese vinculante objetiva
O STF poderia ter afirmado, expressamente, que:
verbas habituais são, por definição, remuneratórias;
indenizações sem comprovação material de despesa são inconstitucionais;
e que a nomenclatura administrativa é irrelevante para fins de teto.
Tal tese reduziria drasticamente a margem de burla.
5.2. Declaração de inconstitucionalidade por arrastamento
Poderia ter sido declarada a inconstitucionalidade:
de leis e atos normativos genéricos que autorizam indenizações amplas;
sem critérios objetivos, temporais e funcionais.
Essa via implicaria confronto direto com:
o Judiciário;
o Legislativo;
e corporações organizadas.
5.3. Imposição de mecanismos de coerção externa
Outra alternativa seria:
auditoria compulsória e periódica;
atuação vinculante do TCU;
sanções pessoais por descumprimento.
Essa opção transformaria o STF em gestor direto de crise institucional.
6. Política constitucional, ética e jogo de poder
A decisão de Dino deve ser lida à luz de três vetores:
Crise de legitimidade do STF, já tensionado perante a opinião pública;
Reação do sistema político, inclusive com ameaças explícitas de impeachment;
Conflito com interesses corporativos do próprio Judiciário.
Nesse contexto, uma decisão maximalista poderia:
unificar resistências internas e externas;
fragilizar a Corte como instituição;
e inviabilizar avanços graduais futuros.
Optou-se, portanto, por uma estratégia incremental:
abertura de agenda;
deslocamento do ônus político para os demais Poderes;
e construção de capital institucional.
7. Conclusão do parecer
Conclui-se que:
A decisão não se reduz a mero jogo de cena, pois possui eficácia jurídica real;
Também não representa a solução estrutural definitiva do problema;
Trata-se de uma atuação estrategicamente contida, orientada pelo realismo institucional;
O ministro poderia ter adotado medidas mais duras, mas a custo de alto risco político-institucional;
A crítica só se sustentará plenamente caso o STF não avance, em momento posterior, para teses vinculantes ou invalidações normativas.
Em síntese, a decisão situa-se no ponto de equilíbrio — instável, mas consciente — entre ética pública, jurisdição constitucional e sobrevivência institucional do Supremo Tribunal Federal.
A Esplanada do Castelo e o Palácio Capanema: Projeto Pax, de Archimedes Memória, 1º colocado no concurso realizado pelo ministro Gustavo Capanema em 1935. Site Cronologia do Pensamento Urbanístico
O resultado foi aceito, Capanema pagou o prêmio e desprezou o projeto. Em seguida, convocou Lúcio Costa, autoridade reconhecida como arquiteto, que não aceitou fazer o projeto sozinho e propôs a formação de uma equipe integrada por Carlos Leão, Affonso Reidy, Jorge Moreira, Ernani Vasconcellos e Oscar Niemeyer, todos formados na Escola Nacional de Belas Artes. A fim de conferir maior legitimidade ao projeto, convidou Le Corbusier para prestar consultoria e ministrar palestras ao grupo.
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026
Congresso põe Lula num dilema. Por Dora Kramer
Folha de S. Paulo
Quando os penduricalhos chegarem à sua mesa, presidente terá escolha difícil entre vetar ou sancionar
Mais difícil será explicar o que faziam o PT e companhia no acordo de privilégios que o governo diz ignorar
O presidente da República tem pela frente uma escolha difícil. Quando o pacote de privilégios aprovado no Congresso Nacional chegar à sua mesa para sanção ou veto, ele precisará decidir entre se indispor com o Legislativo, além de boa parte do funcionalismo, e ficar mal na foto eleitoral.
A dificuldade maior nem é essa. Antes disso, será necessário explicar a presença do PT e companhia no acordo que viabilizou uma votação simbólica —sem a identificação do voto— de surpresa, no meio da tarde do segundo dia do novo ano legislativo, e que, entre outras desigualdades, cria penduricalhos salariais e institui a escala 3x1 de trabalho para uma casta de servidores públicos.
Isso enquanto Executivo e Legislativo fazem cara de paisagem à tramitação de uma proposta de reforma administrativa que busca conter privilégios, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, defende o fim dos supersalários e o governo faz da escala de cinco dias de trabalho por dois de folga para o setor privado uma bandeira de campanha.
Francamente, Luiz Inácio da Silva (PT) estará diante de um dilema e tanto. Ou bem sanciona a manobra de privilégios, jogando fora o discurso da justiça social, ou veta a pilantragem e quebra o acordo de boa vizinhança que incluiu a oferenda de um instituto federal de educação na cidade de Patos (PB), administrada pelo pai do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos).
Será uma boa oportunidade para Lula desvendar ao público o real significado do slogan "Congresso inimigo do povo". Até lá, fica a seguinte impressão: o dito serve para afetar antagonismo nos palanques e exortar as plateias a escolher parlamentares fiéis ao governo. Mas não é para ser levado a sério quando o pragmatismo manda que se alimentem as boquinhas.
Seja qual for a saída encontrada por Lula, uma coisa é certa: nem ele nem os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado deram a menor pelota ao que ouviram no dia anterior do presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, sobre a urgência da autocorreção dos Poderes. Não entenderam nada.
Matriz ou Filial (part. Marília Mendonça)
Fátima Leão
Coitado
Ele acha que tá enganando a gente
Mas tá sendo enganado
Ele acha que usa nós duas
Mas tá sendo usado
Já que ele quer prazer em dobro
Nesse jogo vai pagar dobrado
Vamos combinar assim
Marca com ele
Dá a hora e o lugar pra mim
Eu quero ver a cara dele como vai ficar
Te esperando e me vendo chegar
Ele vai passar mal
Quando ver que a matriz conhece a filial
Tá se fazendo de cordeiro
Mas é lobo mal
Se ele tentar fugir
A gente pega e quebra ele no pau
Vamos combinar assim
Marca com ele
Dá a hora e o lugar pra mim
Eu quero ver a cara dele como vai ficar
Te esperando e me vendo chegar
Ele vai passar mal
Quando ver que a matriz conhece a filial
Tá se fazendo de cordeiro
Mas é lobo mal
Se ele tentar fugir
A gente pega e quebra ele no pau
Matriz ou filial
Composição: Chrystopher Pontes.
"A bancada do PT é a matriz, as demais, apenas filiais. Na Sapucaí, com Brasil da Silva, tudo se entende. No maior teatro a céu aberto erguido por Brizola, Niemeyer e Darcy, que voltaram, mas vão ter que engolir quem os engoliu…"
00:00
Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, estava envolvido em atividades frenéticas na segunda-feira, 17 de novembro. Depois de reunir-se com seus advogados pela manhã, marcou uma videoconferência urgente com o diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino, e dois superintendentes da instituição. Na conversa, que começou às 13h30 e durou quarenta minutos, Vorcaro fez uma comunicação surpreendente: o seu quebrado Master, que o BC proibira de ser vendido ao BRB, controlado pelo governo do Distrito Federal, havia encontrado um novo comprador. O interessado era a Fictor, uma holding de investimentos de pouca tradição no mercado que, segundo o banqueiro, se juntara a um fundo de investidores árabes dispostos a participar do negócio. Era a salvação de seu banco.
Havia apenas um senão. Para que a transação se realizasse, Vorcaro disse que precisava viajar ainda naquela noite para Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, para assinar o contrato. Era uma notável coincidência. No dia anterior, véspera da videoconferência, o juiz Ricardo Augusto Soares Leite, da 10ª Vara Federal de Brasília, tomara uma decisão sigilosa no âmbito das investigações que vinham revelando uma montanha de irregularidades no Master: autorizara prender Vorcaro e três diretores do banco, confiscar seus passaportes e fazer uma operação de busca e apreensão em seus endereços. Com a decisão do juiz, a Polícia Federal começou a montar a logística da operação, que seria deflagrada na manhã de terça-feira, dia 18, tão logo fossem expedidos os mandados de prisão preventiva dos investigados.
Consuelo Dieguez
Repórter da piauí, é a autora de O Ovo da Serpente - Nova Direita e Bolsonarismo: Seus Bastidores, Personagens e a Chegada ao Poder (Companhia das Letras)
A CONTAMINAÇÃO
O Banco Master e a desmoralização da República
CONSUELO DIEGUEZ
D
aniel Vorcaro, dono do Banco Master, estava envolvido
em atividades frenéticas na
segunda-feira, 17 de novembro. Depois de reunir-se com
seus advogados pela manhã, marcou
uma videoconferência urgente com o
diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino, e dois superintendentes da instituição. Na conversa, que
começou às 13h30 e durou quarenta
minutos, Vorcaro fez uma comunicação
surpreendente: o seu quebrado Master,
que o bc proibira de ser vendido ao brb,
controlado pelo governo do Distrito
Federal, havia encontrado um novo
comprador. O interessado era a Fictor,
uma holding de investimentos de pouca tradição no mercado que, segundo o
banqueiro, se juntara a um fundo de
investidores árabes dispostos a participar
do negócio. Era a salvação de seu banco.
Havia apenas um senão. Para que
a transação se realizasse, Vorcaro disse que precisava viajar ainda naquela
noite para Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, para assinar o contrato.
Era uma notável coincidência. No dia
anterior, véspera da videoconferência,
o juiz Ricardo Augusto Soares Leite,
da 10ª Vara Federal de Brasília, tomara uma decisão sigilosa no âmbito das
investigações que vinham revelando
uma montanha de irregularidades no
Master: autorizara prender Vorcaro e
três diretores do banco, confiscar seus
passaportes e fazer uma operação de
busca e apreensão em seus endereços.
Com a decisão do juiz, a Polícia Federal começou a montar a logística da
operação, que seria deflagrada na manhã de terça-feira, dia 18, tão logo
fossem expedidos os mandados de
prisão preventiva dos investigados.
Mas coisas esquisitas começaram a
acontecer na segunda-feira. Enquanto
a logística da ação policial era organizada, o advogado de Vorcaro, Walfrido
Warde, pediu acesso ao inquérito policial – do qual, em tese, não deveria nem
ter conhecimento, porque se tratava de
documento sigiloso. Ao mesmo tempo,
a Polícia Federal entrou em alerta.
Com a intenção de Vorcaro de viajar às
pressas para o exterior, aliada à decretação de sua prisão na véspera, os agentes
federais não tiveram dúvida: a operação
policial preparada para terça-feira havia
vazado e a viagem do banqueiro era, na
verdade, uma tentativa de fuga.
O juiz Ricardo Leite foi informado
sobre a movimentação e não perdeu
tempo. Uma hora depois da videoconferência entre o banqueiro e o bc, o
magistrado antecipou a emissão dos
mandados de prisão e determinou que
Vorcaro fosse preso naquela mesma
segunda-feira, dia 17. Enquanto ocorria
essa mobilização em Brasília, de São
Paulo veio uma encenação. Por volta
das cinco da tarde, a Fictor distribuiu
um comunicado à imprensa anunciando que havia formado um consórcio
com investidores árabes para colocar
3 bilhões de reais e salvar o Master.
Diante do rombo espetacular do banco, da ordem de 80 bilhões, o valor
anunciado foi recebido como piada.
A Polícia Federal, que monitorava
os movimentos de Vorcaro, já havia
rastreado o seu plano de voo, também
traçado às pressas. A bordo do seu jato,
Vorcaro partiria do Aeroporto de Guarulhos em direção a Dubai, com escala
na Ilha de Malta. Às dez da noite,
quando se preparava para embarcar, o
banqueiro foi preso e levado à carceragem da Polícia Federal. No dia seguinte, às seis da manhã, a pf prendeu mais
seis pessoas, entre elas três diretores do
Master – Luiz Antonio Bull, Angelo
Antonio Ribeiro e Alberto Felix de Oliveira Neto – e um nome central no esquema: o fundador e ex-sócio do banco,
o baiano Augusto Ferreira Lima. Quase no mesmo instante, o Banco Central
decretou a liquidação do Master.
Em 14 de janeiro passado, a Polícia
Federal deflagrou uma segunda rodada de operações e apreendeu celulares,
joias, dinheiro e bens de outros envolvidos. Entre eles:
n O empresário baiano Nelson Tanure, outra figura-chave na estrutura
do Master. Desde os anos 1980, Tanure vem aumentando seu patrimônio
por meio da compra e desmonte do
caixa de empresas em dificuldades –
sempre com auxílio da Justiça carioca.
n Fabiano Zettel, dono de uma biografia extensa: é gestor de fundos, é
casado com a irmã de Vorcaro, foi pastor da Igreja Batista da Lagoinha até o
mês passado e grande financiador de
campanhas. Em 2022, deu 3 milhões
para Jair Bolsonaro e 2 milhões para
Tarcísio de Freitas.
n João Carlos Mansur, fundador da
Reag, administradora responsável por
quase todas as operações fraudulentas
do Master e que acaba de ser liquidada
pelo Banco Central por fraudes e crimes contra o sistema financeiro. A situação é ainda pior: a Reag é suspeita de
fazer investimentos para o pcc, a maior
organização criminosa do país.
n Fechando a lista dos suspeitos, a
investigação chegou em um primo, na
irmã e no pai do banqueiro.
Com a prisão da cúpula do Master
e outros envolvidos, começou a autópsia pública do que talvez seja, nas palavras do ministro da Fazenda, Fernando
Haddad, “a maior fraude bancária da
história do país”. Não é uma hipérbole.
O Master já garantiu destaque na galeria
dos grandes escândalos nacionais, não
apenas pelo volume bilionário das fraudes, mas, sobretudo, pela extraordinária
amplitude de sua rede de influência,
cujos tentáculos se infiltraram em todos
os poderes da República, capturaram
políticos sobretudo de partidos da direita
e da extrema direita, desmoralizaram
instituições de fiscalização e lesaram
mais de 1 milhão de investidores.
O Banco Master nasceu, cresceu,
pintou e bordou debaixo do nariz
do economista Roberto Campos
Neto, que presidiu o bc de fevereiro de
2019 a dezembro de 2024. O Master
pedia autorização para atuar no mercado desde 2017, mas, durante a presidência de Ilan Goldfajn, nunca conseguiu
o sinal verde. Em 2019, sob a administra
ção de Campos Neto, Vorcaro chegou
lá. A licença causou alguma surpresa,
já que, entre os critérios para autorizar
um banqueiro no mercado, está a exigência de “reputação ilibada”.
Vorcaro tinha um passado complicado. Quando atuava no mercado imobiliário em Minas Gerais, deu um
cano milionário na Prefeitura de Belo
Horizonte na construção de um hotel
de 37 andares. Entre 2010 e 2017, participou de um esquema que aplicou um
golpe em institutos de pensão públicos
– um esquema que contou também
com a atuação de João Carlos Mansur,
da Reag. (Em 2020, quando a Polícia
Federal investigou a falcatrua, Vorcaro
chegou a receber ordem de prisão.) Por
alguma razão, o Banco Central não viu
problema em nada disso.
O Master entrou no mercado como
um foguete. Em 2019, seu primeiro ano
de atividade, já tinha 2,5 bilhões de reais
em Certificados de Depósito Bancário
(cdbs). Em 2022, eram 17, 4 bilhões. Em
2024, o volume saltara para 40 bilhões
– soma fabulosa para um banco de pequeno porte. O Master operava com
ousadia. Captava dinheiro dos investidores oferecendo até 140% do Certificado
de Depósito Interbancário (cdi), quando
o mercado não pagava mais que 100%.
Para tanto, divulgava que seus investimentos estavam assegurados pelo Fundo Garantidor de Créditos (fgc), que,
em caso de quebra ou liquidação de um
banco, ressarce os investidores em até
250 mil reais. Era uma estratégia capciosa. O fgc, mantido com dinheiro dos
próprios bancos, foi criado para proteger
os investidores em caso de colapso, não
para servir de alavanca para um banco
lançar operações de risco.
Como fiscal do mercado, o Banco
Central acompanhou o Master e constatou que havia um descompasso nas
suas provisões e que suas práticas de gestão eram uma ameaça. No entanto, o bc
se limitou a mandar um ofício de alerta.
Mandou um segundo. Depois um terceiro. Depois mais um, outro e outro.
Na gestão de Campos Neto, o bc mandou nada menos que dezoito ofícios ao
Master pedindo um ajuste nas contas e
a adoção de boas práticas de gestão.
“A pergunta é: um banco que não se enquadra depois de dezoito ofícios do bc
ainda tinha chances de se corrigir?”, me
disse, em tom irônico, um ex-funcionário do fgc. Afora isso, Vorcaro teve
38 conversas com diretores do bc – uma
delas, com Campos Neto, na qual trataram de pleitos do Master e operações de
precatórios, com os quais o banqueiro
havia entupido o balanço do seu banco.
Enquanto ignorava as sucessivas advertências, o Master realizou grandes
proezas com ajuda do próprio Banco
Central. Conseguiu, por exemplo, até
adquirir outros bancos. Em 2024, comprou o Voiter e o Letsbank, além do Will
Bank, que, apesar do nome, não é um
banco. Mas todos os três, assim que ficaram debaixo do guarda-chuva do Master, se puseram a emitir cdbs, sempre
alardeando a garantia do fgc. O então
diretor de Fiscalização do bc, Paulo
Sérgio Neves de Souza, não ligava para
os alertas do mercado, que já eram
constantes. Dizia que os grandes bancos tinham “inveja do crescimento do
Master”. E garantia que o banco de Vorcaro ainda iria “colocar o ovo em pé”.
Então, em março de 2024 a crise de
liquidez do Master levou o bc a cogitar
alguma medida mais severa. Na prática, tudo continuou como antes. Em
novembro, faltando pouco mais de um
mês para Campos Neto deixar a presidência do bc, a situação se agravara.
Conforme documento do próprio Banco Central, já havia sido detectada “a
existência de irregularidades” cometidas pelo banco, incluindo o descumprimento de normas e fornecimento de
“informações incorretas”. Então, Campos Neto convocou Vorcaro para uma
reunião de emergência em Brasília.
No encontro, deu-lhe mais uma chance: um prazo de quatro meses para
ajustar o ativo e o passivo do Master,
sob pena de ser liquidado.
Naquele ponto, o banco não tinha
saldo para honrar quase 50 bilhões de
reais em dois tipos de títulos. Eram
30 bilhões de cdbs e quase 20 bilhões de
reais em cdis, dos quais 12 bilhões venceriam ao longo de 2025. Depois de
dar o prazo de quatro meses, Campos
Neto deixou o cargo. Meses depois,
virou executivo do Nubank, a maior
fintech da América Latina, que está
respondendo a uma ação judicial sob
acusação de vender os cdbs do Master
omitindo os riscos e apoiando-se em
publicidade enganosa.
Em conversas com colegas de mercado, Campos Neto tem dito que só
soube do caos promovido pelo Master
em 2024, quando foi alertado por banqueiros. A análise da situação de bancos
pequenos, que não têm dimensão para
causar uma crise sistêmica, raramente
chega à presidência do bc. Mas, quando
tomou conhecimento do que estava
ocorrendo, Campos Neto tomou duas
medidas. Primeiro, reduziu o limite de
cdbs emitidos pelos bancos pequenos
com garantia do fgc. (Na época, o
Master tinha 30 bilhões de cdbs nessa
condição, mas o total de emissões dos
bancos pequenos e médios chegava a
850 bilhões de reais.)
Em segundo lugar, limitou o uso de
precatórios no balanço dos bancos pequenos. “O bc mandou o Master contratar uma consultoria para avaliar se
os precatórios estavam precificados
corretamente no balanço”, me disse
um diretor do bc. “A kpmg, a auditoria
contratada, disse que os preços estavam
dentro da realidade.” Ainda assim, o bc
preferiu restringir o limite de precatórios nos balanços. “O Banco Central
procura minimizar os efeitos de uma
quebra de banco sobre o sistema. Tudo
era discutido com a diretoria. Gabriel
Galípolo fazia parte. As votações são
unânimes”, me disse o diretor.
O problema da gestão de Campos
Neto é que, desde 2023, o fgc vinha
alertando a ele próprio e aos diretores
da área de fiscalização e supervisão
sobre os riscos do Master. A diretoria
do fgc chegou a fazer três reuniões
com Campos Neto para pedir que a
sangria fosse contida. Nada aconteceu. Até meados de 2024, todas as conversas com Campos Neto e diretores e
superintendentes giravam em torno
do risco que o Master representava.
“Nós estamos vendo uma bomba, e
vocês?”, diziam os técnicos do fgc.
O pessoal do bc respondia: “Achamos
que está tudo sob controle.”
E assim, em janeiro de 2025, Campos Neto encerrou seu mandato no comando do bc e deixou o pepino na
mesa de Gabriel Galípolo, seu sucessor.
C
om o cerco se fechando, Vorcaro
abriu negociações com o brb. Era
uma opção natural. O brb era um
amigo do Master. O governador do df,
Ibaneis Rocha, um bolsonarista filiado
ao mdb, tinha relações com Vorcaro.
Além disso, havia meses que o brb comprava lotes de créditos consignados (que
são descontados na folha de pagamento
do tomador) para ajudar o Master. Em
dezembro passado, ao depor na pf, Vorcaro admitiu que tratou da negociação
Master-brb com o governador. Ibaneis
negou. Disse que esteve com Vorcaro
quatro vezes, mas nunca tocaram no
assunto. (A oposição na Câmara Legislativa do df já apresentou dois pedidos
de impeachment do governador.)
A pressão política para empurrar o
Master pela garganta do brb não se limitou ao governador. Filiado ao pp, o senador Ciro Nogueira, cujo nome aparece
com inquietante assiduidade nos escândalos nacionais, é outro que transita
bem entre os bancos. Está nas duas pontas. Do lado do brb, apadrinhou a indicação de Paulo Henrique Costa para o
comando do banco. Do lado do Master,
propôs no Congresso um projeto para
aumentar a cobertura do fgc de 250 mil
para 1 milhão de reais. O endereço de
sua proposta era tão evidente que ganhou o apelido de “emenda Master”.
O deputado Arthur Lira, ex-presidente da Câmara e igualmente filiado ao pp,
também fez parte do pelotão para salvar
o Master. Em vez de recorrer ao brb, os
dois, o senador e o deputado, poderiam
ter optado pela Caixa Econômica Federal, outro banco no qual têm influência.
O presidente da cef, Carlos Antônio
Vieira Fernandes, foi indicado por Lira.
O vice-presidente de Negócios de Atacado, Tarso Duarte de Tassis, ex-assessor
de Vorcaro, foi indicado por Ciro. Tassis
era tão simpático ao Master que demitiu
três gerentes da Caixa que se recusaram
a avalizar a compra de 500 milhões de
papéis de longo prazo do Master. Em
retrospecto, está claro que certos estavam os gerentes demitidos.
Cercado por essa teia de influência
de políticos, o brb mergulhou de cabeça no desastroso projeto de salvar o
Master. Em março do ano passado, então, o negócio foi oficialmente anunciado. O brb se dispusera a pagar 2 bilhões
de reais para comprar 58% das ações do
Master. O banco estatal de Brasília ficaria com a parte saudável do Master, do
qual Vorcaro se manteria sócio, e o pedaço podre permaneceria com o Master falido, que, por sua vez, trataria de
arrumar uma saída. De imediato, hou
ve uma grita no mercado e de alguns
políticos do Distrito Federal, alarmados com a negociação.
Afinal, o Master era um banco quebrado, que certamente contaminaria o
balanço do brb. Coube então ao diretor
de Organização do Sistema Financeiro
e de Resolução do bc, Renato Gomes,
analisar os detalhes do negócio. Como é
praxe nessas transações, Gomes pediu
ao presidente do brb, Paulo Henrique
Costa, que comprovasse a viabilidade
financeira da operação.
Quando Costa apareceu no bc com
seu plano de compra, os técnicos da instituição se assustaram. “Tudo era muito
amador. O balanço do brb era uma bagunça”, me disse um analista do bc, que
pediu para não ser identificado porque
não tem autorização para falar do assunto. “O Paulo Henrique fazia o que queria. Apenas ele e o diretor financeiro, o
Dario Oswaldo Garcia Junior, participavam das reuniões. O Conselho de Administração do brb nunca apareceu para
opinar. Os conselheiros não tinham a
menor ideia do que estava acontecendo”, continuou. “O brb, claramente, era
uma instituição sem governança.”
Nas reuniões com o bc, Costa não
conseguia justificar nem aspectos básicos da operação. Não sabia informar com que ativos do Master o brb
pretendia ficar. Não sabia detalhar as
operações que interessavam ao brb.
O mais grave: não tinha noção do passivo do Master. Ou seja: estava se comprometendo a pagar todas as dívidas do
Master, como manda a lei de aquisição
bancária, sem, no entanto, ter ideia do
tamanho do buraco. “O risco a que o
Paulo Henrique estava expondo o brb
era imenso. Aquilo não era sério”, me
disse outro analista do bc que participou das reuniões.
Além de desconhecer informações
banais, Costa tentou vender gato por
lebre. Um dos ativos que ficariam com
o brb eram cártulas do finado Banco
do Estado de Santa Catarina (Besc),
que foi comprado pelo Banco do Brasil
em 2008. As cártulas eram ações do
antigo Besc que não haviam sido trocadas pelas ações do bb no momento de
sua aquisição – e, esquecidas na gaveta,
haviam perdido a validade. Costa e
Vorcaro diziam que as tais cártulas valiam 13 bilhões de reais porque seriam
cobradas judicialmente do bb.
“Era tudo na base do chute”, me disse esse técnico do bc. “Eram tantos erros grosseiros que parecia coisa de
estagiário.” Houve, inclusive, operações
claramente fajutas. Numa delas, o brb
apontou como ativo uma carteira de
3 bilhões de cdbs do Master que, naquela altura, já tinha virado pó. Costa
chegou a dizer que algumas operações
que garantiam a viabilidade do negócio
dependiam do resultado do Will Bank,
que pertencia ao próprio Master. Era
uma afronta. O Will Bank nunca deu
resultado positivo. Pelo contrário.
Em meio à barafunda, o bc encontrou a mais tenebrosa de todas as transações entre as duas instituições. Em
janeiro de 2025, Master e brb fizeram
um negócio no valor de 12,2 bilhões
de reais. O brb pagou essa quantia
pelas carteiras de créditos do Master
– no caso, empréstimos consignados
que o banco dizia ter a receber. O bc
pediu que as duas instituições comprovassem os recursos das carteiras de
crédito. O que recebeu de volta foi
uma carrada de mentiras.
Primeiro, disseram que se tratava de
uma carteira de empréstimos consignados de servidores do estado da Bahia.
Ao checar os números com o estado, o
bc descobriu que era mentira. “Durante todo o processo de levantamento das
fraudes, o Vorcaro e o Paulo Henrique
mantinham a calma e diziam não haver nada de errado naquelas operações
grosseiras. Mas, quando foram pegos
nessa mentira, foi a primeira vez que
eles saíram da reunião conosco com as
mãos suadas”, disse o analista do bc.
Mesmo ao se deparar com o embuste, o bc resolveu dar uma nova chance
para que as duas instituições se explicassem. Veio outra impostura. A justificativa, agora, era de que os créditos
pertenciam a uma empresa chamada
Tirreno Consultoria, Promotoria de
Crédito e Participações s.a., que era
representada por um ex-funcionário do
Master chamado André Felipe de Oliveira Seixas Maia. Falso. Nem a Tirreno e nem os créditos existiam. Estava
claro que o brb desembolsara 12,2 bilhões de reais em troca de vento.
Diante da evidência de que fora
lesado, seria razoável imaginar que o
brb exigiria devolução imediata dos
12,2 bilhões. No entanto, o banco propôs ao Master que lhe pagasse em várias prestações. Coisa de pai para filho.
Ainda assim, o Master não topou. Sua
contraproposta foi ressarcir o brb com
cotas de seus fundos no exterior. O brb,
sempre generoso com o Master, aceitou. Quando saiu em busca dos fundos, descobriu que, mais uma vez, era
tudo cascata. Os fundos tinham sido
fechados e o dinheiro, evaporado.
Apesar do cardápio de fraudes a que
estava sendo apresentado, o Banco
Central não desistiu de dar oxigênio ao
Master. E, então, encontrou uma alternativa que chocou o mercado.
N
o dia 15 de abril, o Banco Central
de Gabriel Galípolo, por meio do
Departamento de Resolução e de
Ação Sancionadora, enviou um ofício
ao fgc, no qual pedia que o fundo prestasse “assistência financeira” ao banco
de Vorcaro. A solicitação vinha assinada
por três funcionários: André Maurício
Trindade da Rocha, de Monitoramento
do Sistema Financeiro; Belline Santana, de Supervisão Bancária; e Climerio
Leite Pereira, de Ação Sancionadora.
O ofício explicava que o bc estava empenhado em viabilizar a venda do Master ao brb e, para que a negociação
saísse, o Master precisava de um empréstimo de 11 bilhões de reais. Assim,
o banco poderia deixar o mercado sem
causar traumas ao sistema.
Em tom sutilmente ameaçador, o bc
alertava que, caso o dinheiro não fosse
liberado, o Master poderia se inviabilizar a ponto de ser liquidado, o que resultaria em custos muito maiores para
o fgc. Nos cálculos do bc, a bancarrota do Master custaria 54,3 bilhões de
reais ao fundo. O ofício pintava um
quadro tenebroso. Se a liquidação ocorresse em função da negativa do empréstimo, outras instituições que operavam
da mesma forma que o Master – ou
seja, pagando altas comissões para usar
plataformas de investimento para distribuir seus cdbs ao mercado – também
poderiam quebrar.
Como que para comprovar que não
era alarmismo, o documento informava que, em dezembro de 2024, mais de
40% das captações de 25 bancos e
28 financeiras de pequeno porte, além
do Master, eram feitas através de plataformas de investimento. Em conjunto,
estas instituições tinham 119 bilhões
em captações cobertas pelo fgc. Não
que houvesse indícios de que estivessem sofrendo uma crise de credibilidade, dizia o ofício do bc, mas “as
incertezas envolvendo a solução do
Master estavam gerando rumores que
poderiam influenciar negativamente
as percepções de mercado e impactar
a solidez de instituições com as mesmas características do Master”.
Enquanto digeriam o ofício, que praticamente jogava a responsabilidade por
uma crise sistêmica no colo do fgc, os
técnicos do fundo receberam, naquele
mesmo dia, outra carta – essa em tom
abertamente ameaçador. Vinha assinada por Walfrido Warde, o advogado de
Vorcaro. Warde se valia de argumentos
idênticos aos do bc, só que os expunha
com mais ênfase. Mesmo assim, as cartas eram tão semelhantes que pareciam
redigidas pela mesma pessoa. Em seu
ofício, Warde afirmava que o fgc tinha
o dever de apoiar as soluções privadas,
como era o caso da venda do Master ao
brb, e solicitava que o fundo desse máxima celeridade à solicitação.
Com receio de vir a ser acusado de
gerar uma crise bancária, o fgc aquiesceu, mas reduziu o valor do empréstimo. Em vez de 11 bilhões, liberou
5,7 bilhões. Além da pressão e da ameaça, o fgc levou em conta a garantia que
recebera do bc segundo a qual, com seu
empréstimo, a crise estaria resolvida.
O brb compraria o Master, e o fgc estaria livre de um impacto maior em suas
contas. E, afinal, quando se trata de ajudar a debelar uma crise para evitar uma
crise ainda maior, o fgc tem autorização estatutária para entrar no jogo.
Ocorre que, cinco meses depois de
ter dado essa garantia por escrito e obtido os 5,7 bilhões de reais, o Banco
Central rejeitou a venda do Master ao
brb, porque se tratava de uma operação
inviável. Sentindo-se ludibriado, o fgc
enviou uma carta ao bc lembrando
que, no curso da operação de empréstimo, o fundo insistira reiteradamente na
necessidade de receber informações e
documentos do Master, bem como de
se manter atualizado sobre o andamento das tratativas. Reclamava que todos
os seus pedidos haviam sido negados
pelo bc. O bc não respondeu.
“É vergonhoso o que o Banco Central fez”, me disse um irado represen
tante do mercado financeiro cujo banco
faz pesados aportes ao fgc. “Em abril
do ano passado, quando mandaram
aquele ofício ao fgc, eles já sabiam da
fraude e nem sequer chamaram os técnicos do fundo para buscarem uma saída conjunta. O empréstimo, como está
no estatuto do fundo, só se justificaria
se houvesse chance de recuperação do
banco. E o Banco Central já sabia que
essa chance não existia.” E concluiu:
“O fgc existe para proteger os investidores e não para salvar criminosos.”
O comportamento errático do Banco Central se repetiu, pouco depois,
em outra situação também mal digerida pelo mercado. Em julho, o Banco
Central autorizou a criação de uma
nova instituição – o Banco Pleno, que
pertence a ninguém menos que o baiano Augusto Lima, o fundador e ex-sócio do Master. (Quando comprou o
Voiter, que pertencia ao Master, Lima
trocou seu nome para Pleno.) Naquele
mesmo mês de julho, o Banco Central
denunciou ao Ministério Público as
fraudes que descobrira no Master.
“Como é possível isso? O Banco
Central autoriza o funcionamento do
Pleno logo depois de ter denunciado um
de seus donos ao Ministério Público?”,
disse o diretor de um banco em tom de
perplexidade. Preso pela Polícia Federal
na operação de 18 de novembro, a exemplo dos demais executivos do Master,
Lima foi solto e hoje usa tornozeleira
eletrônica. Mas é dono do Banco Pleno.
(Normalmente, o bc leva, pelo menos,
um ano para aprovar o funcionamento
de uma nova instituição. No caso do
Pleno, a autorização saiu em 45 dias.)
O argumento do Banco Central para
ter aprovado o Banco Pleno é controverso. O primeiro é de que Lima tem um
patrimônio de 1 bilhão de reais, que irá
colocar no banco. Esses recursos, portanto, voltariam ao “perímetro do caso”,
se Lima vier a ser condenado pelas fraudes. O segundo argumento, menos
plausível ainda, é de que Lima obedeceu a todos os requisitos do bc para
abrir um banco, incluindo a “reputação
ilibada”. “Como ele ainda não foi condenado, não tinha como negar a operação”, me disse um técnico do bc.
O raciocínio não leva em conta
que, ainda que Lima não tenha sido
condenado, o próprio Banco Central
já havia levantado provas das irregularidades dele. Para completar, antes de
dar a autorização em tempo recorde,
o Banco Central chegou a perguntar
para Lima por que ele queria se meter
num negócio tão arriscado. Revela
que o próprio bc tinha suas desconfianças, mas a pergunta deveria ser
inversa. Por que o bc autorizaria uma
pessoa que sabidamente fazia negócios suspeitos a entrar no mercado?
A autorização para o funcionamento do Pleno promete causar mais dores
de cabeça ao Banco Central. Por duas
razões. Quando desfez a sociedade
com Vorcaro em 2024 para ficar com
o Pleno, Lima levou consigo os ativos
mais lucrativos do Master. Com isso,
os credores do Master não terão acesso
à parte que poderia lhes garantir algum ressarcimento. Segundo: o Pleno,
sem dinheiro para operar, já está pedindo um socorro. Para quem? Para o
fgc. Em uma carta enviada ao fundo
no dia 23 de janeiro passado, o Pleno
afirma que o fgc “também tem por
finalidade a contribuição para a preservação da estabilidade do sistema financeiro nacional e a mitigação de riscos
de natureza sistêmica”. E apresenta
seu pleito: uma assistência financeira
no valor de 800 milhões de reais.
“Esse não foi o maior golpe contra o
sistema financeiro”, me disse Antônio
Marques de Oliveira Neto, da 369 Capital, empresa que intermedeia compra
e venda de instituições financeiras e
opera na recuperação de empresas quebradas para oferecê-las de volta ao mercado. “Esse foi o maior golpe contra os
credores na história do Brasil.”
Com tantas controvérsias, o próprio
bc resolveu abrir uma investigação interna para apurar eventuais falhas em
relação ao Master, focando principalmente no período de Campos Neto.
No âmbito da sindicância, que corre
em sigilo, dois diretores entregaram
seus cargos. Um é Belline Santana,
que assinou o ofício pedindo ao fgc
para socorrer o Master com 11 bilhões
de reais. O outro é Paulo Sérgio de
Souza, que apostava que o Master acabaria colocando o “ovo em pé”.
O baiano Augusto Ferreira Lima
está na origem do Master. Coube
a ele levar para o banco, quando
se associou a Vorcaro, em 2019, o
Credcesta – um cartão de crédito consignado que opera com servidores públicos e aposentados pelos estados e
também pelo inss. A ideia surgiu na
Bahia, em 2018, durante o governo de
Rui Costa (pt), atual ministro da Casa
Civil. Naquela época, Costa estava tentando privatizar a Empresa Baiana de
Alimentos (Ebal), dona da rede de supermercados Cesta do Povo, que vendia
produtos subsidiados aos funcionários
do estado – e só dava prejuízo. O problema é que o estado já havia feito dois leilões e os compradores não apareciam.
Augusto Lima, que ainda não operava com o mercado financeiro, fez
então uma reunião com Jaques Wagner, na época secretário de Desenvolvimento Econômico do governo da
Bahia e hoje líder do governo no Senado. Conseguiu convencê-lo a tornar o leilão mais atraente. Sua ideia:
o governo baiano incluiria no edital
uma cláusula permitindo que o comprador da Ebal operasse um cartão de
crédito consignado para ser oferecido
aos 400 mil servidores, pensionistas e
aposentados da Bahia. Além de comprometer 30% de sua renda com empréstimos consignados comuns, como
prevê a lei, o servidor baiano passaria
a poder comprometer mais 10% de
sua renda com o tal cartão de crédito,
que foi batizado de Credcesta.
A proposta vingou. No terceiro leilão, a Ebal foi arrematada por 15 milhões de reais. O comprador? Augusto
Lima. O cartão de crédito, por si só, já
era um negócio para lá de vantajoso,
pois cobrava mais de 5% de juros ao
mês. Além disso, operaria sem risco
de calote, porque era consignado, e
tinha uma clientela garantida, os
400 mil servidores. Dezesseis dias depois, contudo, Lima recebeu mais um
presentaço do governador Rui Costa:
o Credcesta seria o único a operar naquele mercado durante quinze anos.
A exclusividade transformou o
Credcesta numa mina de ouro ainda
mais apetitosa. Para operá-lo, porém,
Lima precisava de um banco. Em São
Paulo, procurou o bmg, cuja sede funcionava no Pátio Victor Malzoni, o prédio mais badalado da Avenida Faria
Lima. O bmg recusou a proposta. Por
sugestão de um investidor que o acompanhava, Lima desceu até o segundo
andar do edifício, onde funcionava um
banco novo e desconhecido: o Master,
que gostou da proposta. Por 25 milhões
de reais, Vorcaro tornou-se dono de
50% do Credcesta, que virou um ativo
altamente lucrativo para o seu banco.
Depois da Bahia, o Rio de Janeiro foi o
primeiro estado a aderir ao Credcesta,
após uma negociação entre correligionários: Antonio Rueda, o presidente do
União Brasil, intermediou o negócio
com o governador Cláudio Castro (pl).
Com um detalhe: o Credcesta, no Rio,
também teve a exclusividade garantida.
O Master chegou a operar com o
Credcesta em 24 estados. O sucesso do
produto atraiu pequenos bancos, que
passaram a reclamar o direito de também entrar no mercado. No governo de
Jair Bolsonaro, com apoio de Ciro Nogueira e Arthur Lira, o Congresso fez
duas mudanças. Numa, permitiu que os
empréstimos consignados, antes limitados a 30% da renda do tomador, subissem para 35%. Na outra, abriu o mercado
para os bancos pequenos operarem com
o cartão consignado, no qual o tomador
do dinheiro podia comprometer mais
10% de sua renda, além do limite de
35% do empréstimo consignado. A farra
estava cada vez maior. Quando assumiu
a Presidência da República, Lula reclamou com o ministro Fernando Haddad
que os servidores estavam sendo empurrados a pagar juros extorsivos. Podiam
comprometer 35% de sua renda com
empréstimo consignado, em que os juros ficam na faixa de 2%, e mais 10%
com o cartão consignado, entre eles o
pioneiro Credcesta, em que os juros passam de 5%. Por que não dar aos servidores o direito de usar 45% de sua renda
com os empréstimos mais baratos?
Haddad fez um estudo sobre o assunto. Sua proposta não proibia o cartão de crédito consignado, mas dava ao
servidor a opção de usar os 45% de sua
renda com os empréstimos de juros de
2%, sem ter que recorrer ao cartão com
taxa de 5% – uma vantagem evidente.
Assim que concluiu o estudo, a equipe
da Fazenda recebeu um recado claro
de membros do Congresso: se o governo mexesse no cartão de crédito consignado, não conseguiria aprovar mais
nada no Legislativo. A proposta foi engavetada e Lula nunca pediu para ver
o estudo. No Ministério da Fazenda,
pouca gente tem dúvidas de que Au
gusto Lima estava por trás da pressão
vinda do Congresso. Afinal, depois de
sair do Master no ano retrasado, Lima
levou consigo o ativo mais valioso do
banco, o Credcesta, e passou a operá-lo
com outro banco. Qual? O Banco Pleno, o mesmo que está pedindo uma
ajuda de 800 milhões de reais ao fgc.
Como Vorcaro, Augusto Lima também é um sujeito muito bem relacionado. Além da amizade com Rui Costa e
Jaques Wagner, ele tem boas relações
com a dupla Ciro Nogueira e Arthur
Lira. Sua mulher, Flávia Peres, é outra
que circula bem nas altas esferas. Foi
ministra-chefe da Secretaria de Governo da Presidência na gestão de Jair Bolsonaro. No Palácio do Planalto, seu
gabinete era vizinho do gabinete de
Ciro Nogueira, então ministro da Casa
Civil. Flávia Peres, fechando o círculo
das relações que explicam o negócio
Master-brb, também é próxima do governador Ibaneis Rocha, do df.
As digitais de Augusto Lima no rolo
Master-brb estão por toda parte. A Polícia Federal descobriu que o baiano controlava duas associações de servidores
na Bahia. Eram justamente aquelas
duas entidades cujos nomes foram invocados para dar suporte à venda fraudulenta, por 12,2 bilhões, da carteira de
crédito consignado. Descobriu também
que a Tirreno, a empresa-fantasma, era
uma ficção criada por Henrique Peretto.
E quem é Henrique Peretto? Ex-parceiro de Lima em vários negócios – entre
eles, o consórcio que comprou a Ebal e
o Credcesta. Os dois chegaram a dividir
um coworking no oitavo andar do edifício Pátio Victor Manzoni.
E
m que pese a relevância de Augusto Lima, é impossível contar a
história do Master sem iluminar
o papel de outro baiano: o empresário
Nelson Tanure, cuja presença no noticiário dos negócios obscuros é uma
constante. Suas ligações com o Master
são tantas que o mercado especula se
o empresário não era sócio oculto do
banco. Com a atuação de Tanure desde os primórdios, o Master prosperou
– pelo menos no papel. Seu patrimônio líquido saltou de 219 milhões em
2019 para 4,7 bilhões em 2024.
Numa ponta, o Master captava dinheiro com as ousadas operações com
cdbs, escorando-se nas garantias do
fgc. Na outra, investia o dinheiro captado em fundos atulhados de ativos
podres: Light, cvc, Ambipar, Oi, Gafisa, Alliança Saúde, Oncoclínicas, Ligga Telecom, Westwing. Todas empresas
em recuperação judicial ou com sérios
problemas de caixa. Eram, portanto,
ativos baratos – e com uma vantagem
adicional: os seus valores eram inflados
artificialmente, o que também inflava
o balanço do Master, dando ao banco a
aparência de uma instituição robusta.
Entre essas empresas, havia um
ponto em comum: Nelson Tanure era
o principal sócio de todas elas. Em
2024, o empresário, através de um dos
seus fundos, o Phoenix, fez uma jogada ainda mais ousada, radicalizando
seu modo de operar. Mas deu errado.
Por 1 bilhão de reais, com financiamento da xp Investimentos, comprou
o controle da Empresa Metropolitana
de Águas e Energia (Emae), sucessora
da Eletropaulo, vendida pelo governador Tarcísio de Freitas. Sua aposta era
receber a dívida de cerca de 40 bilhões
do estado de São Paulo com a Emae e,
com esse dinheiro, pagar o financiamento. O Superior Tribunal de Justiça
(stj) suspendeu o pagamento do estado e, sem o dinheiro, Tanure não pagou nem a primeira parcela à xp – que
executou a dívida e lhe tirou a Emae.
O elo que desperta a suspeita de
uma sociedade oculta entre Tanure e
Master chama-se Banvox Holding Financeira. A Banvox está no nome de
Maurício Quadrado, mas, na verdade,
pertence a um fundo chamado Estocolmo – que, por sua vez, pertence a
Tanure. É seu modo de atuar. Tanure
não costuma colocar seus negócios
em seu nome, mas sempre em nome
de fundos que ele próprio cria. Não é
uma prática rara no mercado. Ao contrário. A maioria dos detentores de
fundos usa essa tática: ou para pagar
menos impostos, ou para esconder a
origem do dinheiro – ou ambos.
No caso de Tanure, boa parte de
seus investimentos é feita por meio da
Aventti Strategic Partners, sua empresa registrada no Reino Unido. É ali
que estão abrigados os fundos e empresas que escondem a sua pessoa física. Os nomes vieram a público porque
os órgãos britânicos de fiscalização,
mais ativos que os brasileiros, exigiram
que Tanure prestasse contas, sob pena
de perder os investimentos. Graças a
isso, agora se sabe que Tanure opera
com Modal, Trustee, Banvox, Ilha de
Patmos, Estocolmo, Phoenix, Planner... Todos operam com o Master
daquele modo: têm ativos podres e
precificação artificial, que engordam,
na aparência, o balanço do banco.
Por meio de seus fundos, Tanure
também costuma comprar ações de empresas até se tornar o controlador, o que
é perfeitamente legal. Mas, quando isso
acontece, a lei manda que o controlador
compre, pelo mesmo preço, as ações dos
sócios minoritários que quiserem vendê-las. A maior queixa dos minoritários
era que Tanure sugava o caixa das empresas e largava o esqueleto sem qualquer valor. Vladimir Timerman, gestor
do fundo Esh Theta, de São Paulo, sócio minoritário em uma empresa adquirida por Tanure, a Gafisa, já colocou a
boca no trombone para denunciar as
práticas predatórias e ilegais.
Timerman fez várias denúncias à
Comissão de Valores Mobiliários (cvm),
órgão que fiscaliza o mercado de valores. Nunca foi ouvido. Chegou a brigar
com o então presidente da cvm, João
Pedro Nascimento, que foi indicado ao
cargo por Flávio Bolsonaro. Nascimento, amigo bastante próximo de um braço direito de Tanure, Pedro Borba,
chegou à chefia da cvm sob a desconfiança de que sua proximidade com
Borba contaminaria sua atuação. Borba
era tão íntimo de Nascimento que, dentro das empresas de Tanure, ganhou o
apelido de “Mister cvm”.
Em suas investidas, Timerman acusava Nascimento de ignorar deliberadamente as falcatruas de Tanure. Mas,
agora, com o escândalo do Master sangrando em público, sente-se aliviado e
recompensado por seus anos de denúncias. “Eu fiquei muito tempo brigando
sozinho para provar as irregularidades
nas empresas de Tanure que lesavam os
minoritários. Agora tudo está sendo
comprovado.” O escândalo mostrou
que uma batelada de operações irregulares do Master e seus parceiros passou
pelo meio das pernas da cvm. A lista de
irregularidades é longa: desvio de recursos dos fundos, gestão temerária,
riscos excessivos, fraudes no mercado
de capitais, manipulação de preços.
Mas Timerman não se limitou a
acionar a cvm. Também recorreu ao
Banco Central para denunciar o Master pela quantidade assombrosa de
cdbs que o banco mantinha na praça.
Depois de um ano de espera, Timerman recebeu um ofício do bc desconsiderando suas denúncias. O bc
também não reagia bem quando os
agentes do mercado diziam que a
maior parte dos ativos do Master não
representavam operações bancárias e
sim participações em um monte de
empresas com dificuldades financeiras.
Diante dos questionamentos, o chefe
da Supervisão Bancária, Belline Santana, que agora está afastado no âmbito
das investigações internas, respondeu,
certa vez, candidamente: “Essas empresas existem, nós estivemos lá.”
Até que chegou a hora.
Q
uando já não era mais possível
conter o naufrágio do Master, Gabriel Galípolo, comandante do
bc, reuniu a diretoria. Queria que todos
os diretores votassem em conjunto pela
recusa da operação Master-brb. Temia
que qualquer divergência fosse usada
por grupos de pressão política para forçar o bc a recuar. Na reunião, o diretor
de Organização do Sistema Financeiro
e de Resolução, Renato Gomes, que inEM CARTAZ
WWW.MUSEUDALINGUAPORTUGUESA.ORG.BR
Saiba mais em:
UM GRITO DE OUSADIA e
vestigou a transação com o brb, avisou
que, se a operação fosse aprovada, não
teria seu aval. Pediu que, se quisessem
levar a operação adiante, que aguardassem o fim do seu mandato, em janeiro.
No dia 3 de setembro de 2025, a
operação foi rejeitada por unanimidade. Mas o banco só seria liquidado
dois meses depois. Enquanto isso, o
Master sangrou em praça pública. Até
o normalmente discreto advogado
Marcelo Trindade, ex-presidente da
cvm, abriu o verbo em um artigo no
blog Valor Invest, do jornal Valor Econômico. “A demora na solução da situação do Banco Master faz surgir no
Brasil um tipo inédito de instituição
financeira. Trata-se do ‘banco zumbi’
incapaz de captar recursos de investidores sérios, que sobrevive diariamente à expectativa de sua iminente
liquidação pelo Banco Central, mas
segue perambulando pelo mercado.”
No período em que vagava feito
morto-vivo, o Master promoveu o lance
mais cênico. Bateu na porta da Fictor e
dos investidores árabes, que nunca foram identificados, e anunciou que estava prestes a ser vendido. Um integrante
do bc, que esteve envolvido no caso,
me disse que a Fictor tampouco apresentou a documentação necessária
para fazer o negócio. Especulando sobre a identidade dos árabes, esse funcionário me disse com sarcasmo: “Só se
forem árabes de Carnaval.”
Enquanto isso, o Banco Central,
que temia uma reação contrária à liquidação, andava acuado. Segundo me
disse um gestor do mercado financeiro,
o bc só teve coragem de liquidar o Master depois de ter a Polícia Federal ao seu
lado. “É um Banco Central totalmente
de joelhos, acovardado, sem coragem de
usar a caneta. Precisa da ajuda da Polícia Federal.” E fez uma analogia médica. “A demora do Banco Central em
agir é como um médico que se recusa
a aceitar que o paciente está morto.
O Banco Central precisou esperar que
o cadáver estivesse cheirando mal para
aí falar ‘é, realmente acho que agora
parece que está morto’”, disse ele. “Foi
preciso chegar a ponto de não ter 1 real
no caixa do Master para a autoridade
monetária decretar a quebra.”
O coro que se levantou em favor do
Master não justifica a reticência do bc,
mas ajuda a explicar o cenário. A pressão chegou às ruas, inclusive. Durante
a análise do processo pelo diretor Renato Gomes, o portal de notícias brasiliense Metrópoles, que pertence ao
empresário Luiz Estevão, espalhou
pelos pontos de ônibus da cidade cartazes divulgando uma reportagem. Tinha a foto de Gomes ampliada e uma
pergunta: “Técnico ou político? Renato Gomes decide futuro do Master.”
Das ruas, a pressão pulou para os
gabinetes dos tribunais. No Tribunal de
Contas da União (tcu), Vorcaro encontrou um empenhado defensor de seus
interesses. Desde a liquidação do banco, o ministro Jhonatan de Jesus, um
ex-deputado pelo Republicanos de Roraima que ganhou a cadeira por indicação do deputado Arthur Lira, entrou
numa cruzada em favor de Vorcaro.
Querendo reverter o desmonte do
banco, Jesus partiu para cima do Banco
Central, afirmando que a autoridade
monetária deveria ser fiscalizada por ter
se “precipitado” na liquidação do Master. Exigiu que fosse feita uma investigação do próprio bc. Por pressão das
instituições financeiras, que viam nessa
ingerência política o risco de enfraquecer a regulação do sistema bancário, Jesus voltou atrás na decisão e recolheu-se.
Antes disso, ministros do tcu já haviam
me alertado de que a proposta de investigar o bc não iria para a frente. “Nós
não somos o stf. Aqui, não existe decisão monocrática. Tudo é decidido pelo
colegiado, e o Jhonatan, apesar de ter o
apoio de Aroldo Cedraz e de João Augusto Nardes [ministros do TCU], todos os
dois próximos de Arthur Lira, seria derrotado pela outra ala que não é ligada ao
ex-presidente da Câmara”, me disse um
dos ministros. “Isso foi uma audácia do
Jhonatan, que beira a ingenuidade.”
Quem mais se enredou na teia do
escândalo foi o Supremo Tribunal Federal (stf), onde a estrutura tentacular
do Master chegou a dois ministros, Alexandre de Moraes e José Dias Toffoli, e
um ex-ministro, Ricardo Lewandowski.
O jornal O Globo revelou o contrato
que o escritório de advocacia da mulher
de Alexandre de Moraes, Viviane Barci de Moraes, mantinha com o Master.
Qualquer escritório tem o direito de
representar quem quiser, mas havia
um problema e tanto: o valor extraordinário do contrato. Eram 129 milhões
de reais em três anos – 3,6 milhões por
mês – para defender o Master de Vorcaro junto a uma penca de órgãos dos
três poderes da República.
“Escuta”, me explicou um advogado. “Isso não existe. Quando você
pega um caso, você precisa calcular os
seus custos, quantos advogados vai
precisar, quantas viagens terão que ser
feitas, quanto tempo vai durar a causa,
coisas assim. Dessa forma, você apresenta para o cliente seus honorários e
suas despesas. Como é que você faz
um contrato às cegas, pagando 129 milhões de reais?”
Para piorar, o mesmo jornal O Globo
noticiou que Alexandre de Moraes havia pressionado Gabriel Galípolo para
que resolvesse o caso do Master. Moraes
admitiu ter tido conversas com o presidente do bc, mas disse que trataram de
assuntos relacionados à Lei Magnitsky,
com a qual o presidente Donald Trump
queria punir o magistrado por seu papel
decisivo na condenação de Jair Bolsonaro e demais golpistas. Galípolo confirmou a versão de Moraes. Os dois casos
– o inexplicável contrato milionário e o
conteúdo da conversa – ficaram por isso
mesmo, mas o stf não conseguiu sair
da berlinda. Ao contrário.
Assim que a liquidação do Master foi
decretada, o ministro José Dias Toffoli
começou a adotar uma sucessão de medidas estapafúrdias que jogavam dúvidas sobre a legitimidade da ação do bc.
De início, aceitou um pedido da defesa
do Master para tirar o caso da 10ª Vara
Federal de Brasília e levá-lo para o stf.
Para tanto, Toffoli concordou com a
alegação da defesa de que, na papelada
apreendida do Master, havia um contrato assinado por um deputado, que,
como todo parlamentar, tem direito a
ser julgado diretamente no stf. Era um
pretexto. O contrato versa sobre a compra de um terreno que nada tem a ver
com a história do Master.
Além disso, Toffoli decidiu, sozinho,
que ele é o único supervisor do caso.
Convocou uma esdrúxula acareação
entre Vorcaro e o diretor de Fiscalização do bc, Aílton Aquino, antes mesmo que os dois tivessem prestado seus
respectivos depoimentos. Decretou
segredo de Justiça sobre o processo – e
depois voltou atrás. Impediu que a pf
fizesse perícia em parte do material
apreendido pela própria polícia – e
depois, criticado em público, recuou
em privado, autorizando a perícia por
meio de um telefonema à pf. Deu prazo de 24 horas para os policiais cumprirem mais de quarenta mandados de
busca e apreensão – e depois acusou
os agentes de má vontade por não terem cumprido prazo tão exíguo.
“O que Toffoli está fazendo é totalmente fora dos padrões, e ninguém o
para”, me disse um jurista que acompanha o comportamento da Corte. Como
se não bastasse o tumulto que provocou
no processo, Toffoli tem relações com
Vorcaro, o investigado. O ministro era
frequentador das festas do banqueiro e
vice-versa. Toffoli ainda viajou no jatinho de um amigo, o empresário Luiz
Osvaldo Pastore, onde estava também
Augusto Botelho, o advogado de um
dos diretores do Master, Luiz Antonio
Bull, que foi preso preventivamente
pela pf. O objetivo da viagem era assistir
à final da Libertadores, no Peru. O advogado Augusto Botelho disse que nada
tinha a ver com o ministro. Que, durante a viagem, ficou sentado no banco de
trás do avião com seu filho. Que o preço da passagem era caro. Que não havia
nada de mais pegar carona no jatinho
do amigo. Que, se não puderem estar
com os amigos, os advogados não podem ter “vida social”.
A situação de Toffoli tornou-se ainda
mais embaraçosa depois que o jornal
O Estado de S. Paulo revelou que um
primo e dois irmãos do ministro – o engenheiro José Eugênio e o padre José
Carlos Dias Toffoli – compraram parte
do resort Tayayá, no Paraná, com financiamento do fundo Arleen. O principal
cotista do Arleen vem a ser Fabiano Zettel, o cunhado de Vorcaro. (Para manter
a praxe do esconde-esconde, Zettel, na
verdade, não era dono do Arleen diretamente, mas através de outro fundo, o
Leal, de modo a dificultar sua identificação como dono real do investimento.)
Quando a sociedade foi montada, em
2021, os irmãos de Toffoli não tinham
recursos para participar do negócio. Então, receberam um aporte de 20 milhões de reais do Arleen, numa operação
triangulada pela Reag, aquela mesma
administradora acusada de fazer investimentos para o pcc. Em 2024, o Arleen
chegou a fazer um novo aporte no resort. Depois da abertura da investigação
pela Polícia Federal, Zettel informou
que havia fechado o fundo em 2025. Justamente após a primeira operação da pf.
Os rolos de Toffoli pareciam não ter
como piorar, mas pioram. O Metrópoles
noticiou que, entre 2022 e 2025, o stf
pagou mais de uma centena de diárias
para seguranças que viajaram para a
região do resort Tayayá em feriados, fins
de semana e dias de recesso. Como os
ministros do stf costumam usar seguranças em seus deslocamentos, ficou
evidente que Toffoli fez as viagens. Mas
a confirmação de que Toffoli é frequentador do resort não custou a vir a público. O Metrópoles divulgou um vídeo
em que o ministro aparece à beira de
um gramado no Tayayá, onde pousa um
helicóptero trazendo o banqueiro André
Esteves, do btg, e o empresário Luiz
Osvaldo Pastore, o dono do jatinho que
deu carona para Toffoli até o Peru.
Quando o helicóptero aterrissa, o ministro, que carregava dois drinques de
boas-vindas, caminha na direção dos
visitantes para saudá-los.
Com seu envolvimento com os personagens do escândalo, seria de supor
que Toffoli se sentisse impedido de
julgar o assunto. Até o fechamento desta edição, a despeito das pressões para
que abandonasse o caso ou devolvesse
os autos para a 10ª Vara, Toffoli continuava no jogo. O ministro rejeitou até
apelos dos colegas Gilmar Mendes e
Flávio Dino. (Quem desistiu foi o advogado Walfrido Warde, que deixou a
defesa de Vorcaro no dia 21 de janeiro,
sem dar explicações. Sua saída tem
sido atribuída a um de seus principais
clientes, o Bradesco, que, ao contrário
de Vorcaro, não tem nenhum motivo
para brigar com o bc.)
E então surgiu a conexão Ricardo
Lewandowski. Quatro meses depois de
deixar o stf em abril de 2023, o escritório de advocacia do ex-ministro foi
contratado pelo Master por sugestão
do senador Jaques Wagner, líder do
governo no Senado. Os termos do contrato não são propriamente esclarecedores. Dizem que, em troca de 250 mil
reais mensais, o escritório deveria prestar “consultoria jurídica e institucional
de caráter estratégico”. Em janeiro de
2024, ao assumir o Ministério da Justiça, Lewandowski deixou o escritório e
suspendeu sua carteira da oab, que lhe
dava direito a advogar.
O portal Metrópoles, porém, mostrou que os vínculos não foram cortados. Enquanto Lewandowski exercia o
cargo de ministro da Justiça, seu escritório, que havia passado para o comando de sua mulher Yara e seu filho
Enrique, continuou cumprindo o contrato, cujos termos foram alterados
para focar mais em questões tributárias. A cronologia significa que, durante
quase todo o tempo em que Lewandowski esteve no Ministério da Justiça, o escritório de sua família trabalhava para Vorcaro e, mais do que isso,
com um contrato cujo valor não foi
alterado. É curioso. Uma coisa é apostar no Santos com Pelé, outra coisa é
apostar o mesmo valor sem Pelé. A conexão Lewandowski fez a crise colocar um pé na rampa do Planalto.
Já se sabia que, em dezembro de
2024, o presidente Lula recebera Vorcaro e Augusto Lima. Noticiado originalmente por O Globo ainda no ano
passado, o encontro não causou alarme.
Afinal, é comum que um presidente da
República, ao ser informado de que um
conhecido está no palácio, aceite recebê-lo em seu gabinete. Vorcaro e Lima
tinham reunião com o chefe de gabinete de Lula e, a certa altura, pediram para
ser recebidos por ele. O presidente aceitou e pediu a presença do ministro Rui
Costa, aquele que deu a Augusto Lima
o presentaço do Credcesta, e de Gabriel
Galípolo, que estava a um mês de tomar
posse na presidência do bc. Por isso, o
encontro ocorreu sem agenda prévia.
Agora, porém, examinado à luz dos
novos fatos, o encontro ganha outros
contornos. Conectando as pontas: enquanto Lula recebia Vorcaro e Lima
em seu gabinete, o escritório de advocacia da família de um ministro prestava “consultoria” de “caráter estratégico”
ao Master. Naquela altura, dezembro
de 2024, já era público e notório que
o Master era um banco singularmente enrolado. Uma reportagem da piauí,
publicada em outubro daquele ano,
já mostrara em detalhes as arriscadíssimas operações do Master, seus problemas de liquidez e seus parceiros
explosivos. Não se tem notícia de que
essas conexões palacianas tenham enveredado para o pântano, mas mostram que a influência do Master, que
tropeçava em dívidas e fraudes grosseiras, chegou ao nível da metástase.
Um indignado gestor de um fundo
de investimento de São Paulo fez um
diagnóstico: “Nunca se viu no país uma
rede tão poderosa de proteção a um pequeno banco.” E continuou: “Sabe o
que me assusta? É que o Banco Central
pegou coisas muito mais difíceis de pegar sem nenhum tipo de demora. Cansou de liquidar, fechar e investigar. Eu
nunca vi esse tipo de complacência e de
amor à legalidade que o Banco Central
teve que demonstrar no caso do Master.” Ele prosseguiu: “O Cruzeiro do
Sul foi liquidado num piscar de olhos.
O Prosper foi liquidado. O Banco Santos, com toda a confusão que deu, foi
liquidado. E alguns tinham muito mais
ativos do que o Master.” O pior, diz
ele, é que as áreas de fiscalização e de
supervisão bancária do Banco Central podiam ter percebido o caso do
Master com extrema facilidade. “Era
ABRAMOVIĆ · APPIAH · CASTELLS · COMTE-SPONVILLE · DAWKINS · ELBARADEI
BRUNDTLAND · LILLA · MACHEL · Mccloskey · MUKHERJEE · MUKWEGE · PIKETTY
ROVELLI · SASSEN · SAVATER · SENNETT · SHIVA · SLOTERDIJK · STIGLITZ · ZAMBRA
UMA JORNADA COLETIVA
PARA COMPREENDER
A EXPERIÊNCIA FRENÉTICA
DO NOSSO SÉCULO
FRONTEIRAS:
21
XXI
filmes
essenciais
para
o século
APRESENTA
P
uma história relativamente trivial, até
tosca, executada de um jeito totalmente não trivial, numa escala nada trivial.”
Em meio a toda confusão, quando se
esperava que as pressões políticas sobre o
mercado arrefecessem, Lula nomeou
o advogado Otto Lobo para comandar
a cvm. Lobo chegou à diretoria da autarquia por indicação do ministro Luiz
Fux, do stf. Quando João Pedro Nascimento deixou a cvm, Lobo assumiu a
presidência interinamente, enquanto se
buscava um substituto. Não era o nome
do Ministério da Fazenda, que tinha
sugestões mais técnicas. Lobo é conhecido por decisões controversas, como a
de ter absolvido a jbs num caso de informação privilegiada em operações com
derivativos, em 2017, logo depois de ter
se reunido com o dono da empresa,
Joesley Batista. Com isso, o empresário
se livrou de uma multa de 150 milhões
de reais. (O mercado especula que a
confirmação de Lobo na presidência
veio por sugestão de Joesley Batista. Ele
nega. Mas Lobo também contava com
outro padrinho: Davi Alcolumbre, o
presidente do Senado, que, sem nenhuma surpresa, pertence ao União Brasil.)
Lobo também é acusado de beneficiar outro barão dos negócios, que violou a lei ao não comprar ações dos
minoritários da Ambipar, uma empresa que atua na área de “transformação
ecológica”. O beneficiado é ele mesmo: Nelson Tanure, além de seu sócio
na empresa, Tércio Borlenghi Junior.
A maioria da cvm decidiu que Tanure
tinha que comprar as ações dos minoritários, como manda a lei. Na época,
João Pedro Nascimento ainda presidia
o órgão e também votou contra Tanure e o sócio. Lobo foi voto vencido.
Porém, quando assumiu a presidência
interina da cvm, Lobo inventou uma
jabuticaba: chamou nova votação para
que, desta vez, ele se manifestasse “na
condição de presidente” – e derrubou
o pagamento de 1 bilhão de reais.
Essas ingerências políticas na cvm
enfraquecem a entidade. Um advogado
me fez a seguinte avaliação. “Isso tudo
é muito ruim para o mercado brasileiro
de fundos, que é o terceiro do mundo”,
disse. “Politizar dessa forma a cvm só
vai causar desconfiança dos investidores
internacionais em relação ao Brasil.”
O caso do Master, porém, mostrou
que a politização – no seu pior sentido
– está em toda a parte. O banco deveria ter sido liquidado de uma penada
só pelo Banco Central assim que ficou
evidente a sua inviabilidade, mas as
pressões se fizeram sentir. “Instituições
que não deveriam se envolver na liquidação de um banco interferiram demais. E a instituição que deveria ter
atuado com mais agilidade, o Banco
Central, se recolheu”, avalia Armínio
Fraga, presidente do bc no governo
Fernando Henrique Cardoso.
Uma das razões para a paralisia é o
fato de que o bc deixou de acompanhar,
por falta de recursos e de técnicos, os
avanços tecnológicos das instituições
financeiras. “Acho que o Banco Central
é uma instituição que merece proteção.
É uma instituição que precisa ser modernizada para poder atuar melhor”,
me disse Armínio Fraga. “Mas essas
intervenções do stf, do tcu e da classe
política fragilizam ainda mais o banco.
E isso não é bom para o mercado. Não
é bom para o Brasil.”
O escândalo do Master já deixou um
rastro de destruição considerável,
sobretudo quando se leva em conta que era uma instituição classificada
como S3, de pequeno porte – um tamborete, como o mercado jocosamente
chama as instituições menores. Até
agora, estima-se que quase metade do
patrimônio do fgc, de 123 bilhões de
reais, vai evaporar com os ressarcimentos obrigatórios. Os cálculos atualizados indicam que o fundo poderá
perder até 60 bilhões de reais.
Em apenas seis anos atuando no
mercado, o Master lesou 1,6 milhão de
investidores, arrastou para o buraco
mais dois bancos, o brb entre eles, e
ainda sugou o caixa de dezoito fundos
de previdência de estados, municípios
e empresas privadas – com destaque
para o Rioprevidência do governador
Cláudio Castro, que torrou quase
1 bilhão de seu patrimônio aplicando
no Master. “Muitos fizeram negócios
em dezembro de 2024 com o Master
porque não foram alertados nem pelo
Banco Central nem pelo Ministério da
Previdência Social, de que o Master
era um banco de risco”, afirma Antônio Marques de Oliveira Neto, da
369 Capital, que foi chamado para ajudar os dezoito fundos lesados. Além
disso, lembra Oliveira Neto, o Master
tinha auditoria da kpmg, além de excelente classificação pela Fitch Ratings.
O estranho é que a cegueira dos fundos parece ter ideologia. Dos dezoito
fundos que aplicaram no Master, dezessete são geridos por governos ou prefeituras de partidos de direita. É evidente
que os fundos estão longe de ser inocentes, considerando que o mercado inteiro
conhecia a situação do Master, que,
aliás, já tinha chegado às páginas da
imprensa. Além disso, a Superintendência Nacional de Previdência Complementar recomenda que os fundos
façam investimentos seguros e, claramente, esse não era o caso do Master
que se encheu de cdbs a taxas altíssimas. No caso do Rioprevidência, os
gestores chegaram a ser alertados, inclusive pelo Tribunal de Contas do Estado,
mas preferiram insistir no negócio arriscado – sabe-se lá por quê.
“Nós vamos na Justiça buscar esse
prejuízo que terá que ser coberto pelos
Tesouros Federal e Estadual”, me disse
Oliveira Neto. Além do Rioprevidência,
outras duas entidades já entraram com
ações judiciais para serem dispensadas
de repassar ao Master os créditos consignados devidos pelos servidores e aposentados. Uma é a Amprev, do Amapá,
que aplicou 400 milhões no Master.
Um dos conselheiros da Amprev é Alberto Alcolumbre, irmão do presidente
do Senado. A outra entidade a recorrer
à Justiça é o Instituto Municipal de Previdência de Campo Grande (ms). A prefeita da cidade é Adriane Lopes, do pp.
São remotas as chances de sucesso
dessas ações judiciais – se é que existem. Os créditos consignados não podem deixar de ser pagos pelo tomador
do empréstimo, sob o risco de ser judicialmente penalizado. “Isso é tudo
absurdo”, me disse um agente do mercado. “Esses fundos puseram o dinheiro dos aposentados nos cdbs do
Master, e, agora, para continuar a
confundir e ludibriar os aposentados
propõem essas ações judiciais como
se fosse possível suspender o repasse
dos créditos consignados.”
Antônio Oliveira Neto, defensor
dos fundos, joga toda a culpa no bc.
Sua maior crítica é a forma como a
instituição esvaziou o caixa do Master,
vendendo seus ativos para outras instituições, quando já sabia que o Master
não escaparia da liquidação. Assim,
queimou a possibilidade de usar o caixa do banco para pagar os credores.
“O André Esteves, desse abutre que é
o btg, pagou 1,5 bilhão de reais por
ativos do Master que valem mais de
5 bilhões”, me disse Oliveira Neto.
“Esteves comprou a participação do
Master na Light, no Fasano, na Veste
e outras empresas a preço de banana,
enquanto os credores não têm agora
ativos do banco para ressarci-los.”
Para Oliveira Neto, é incompreensível que o Banco Central, em vez de
tomar o patrimônio pessoal dos donos
do Master, tenha optado justamente
por sacar o dinheiro do caixa do banco.
“É sabido que Vorcaro tem três jatos no
Brasil, um outro lá fora, iates, casas de
praia de 280 milhões de reais e mais
uma batelada de imóveis”, diz ele. “Só
aí o Banco Central arrecadaria 1 bilhão
de reais para ajudar a cobrir o rombo.”
O Banco Central ainda terá pela
frente situações complicadas
que envolvem bancos e relações
políticas em Brasília. É o caso do Banco Digimais, instituição da Igreja
Universal, que opera como o Master:
vende cdbs por meio de plataformas,
escora-se na garantia do fgc e aplica
seus recursos em empresas enredadas,
além de estar entupido com ativos podres do próprio Master. Quem levou
esses ativos para o banco do bispo
Edir Macedo foi um dos fundadores
do Master, Maurício Quadrado, aquele mesmo que é sócio de Tanure na
Banvox. Quadrado fez parte da gestão
do Digimais e planejava fundi-lo com
o Letsbank, que pertencia ao Master.
O bc proibiu o negócio.
Como as contas do Digimais não
estão fechando, o Banco Central terá,
neste caso, uma nova chance de provar a sua força – ou atestar sua submissão. O outro caso enrolado à frente é
o próprio brb, alvejado pelo rombo de
12,2 bilhões de reais. O ministro Fernando Haddad já deixou claro que o
Tesouro não vai socorrer o banco. Já
o fgc recebeu recentemente a visita de
uma comitiva do brb para uma consulta. Qual? Queriam saber as chances
de descolar uma ajuda financeira. J
Charge do JCaesar: 6 de fevereiro
Humor
Por JCaesar
6 fev 2026, 08h57 •
Leia mais em: https://veja.abril.com.br/coluna/jose-casado/charge-do-jcaesar-6-de-fevereiro-2/
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