Inspirados já nos ensinamentos de Sófocles, aqui, procurar-se-á a conexão, pelo conhecimento, entre o velho e o novo, com seus conflitos. As pistas perseguidas, de modos específicos, continuarão a ser aquelas pavimentadas pelo grego do período clássico (séculos VI e V a.C).
sábado, 7 de fevereiro de 2026
Entre o Carnaval, a Purga e o Espelho
João Cavalcanti - Ivone Rara (Show Online)
João Cavalcanti
Estreou em 16 de dez. de 2022 #ProAC2021 #DonaIvoneLara #IvoneLara
No ano do centenário de Dona Ivone Lara (1922-2018), sua memória permanece viva graças a seus álbuns, a gravações históricas nas vozes de grandes cantores e cantoras e, sobretudo, a tributos prestados por artistas da atualidade que ajudam a levar a obra da "Dama da Melodia" adiante para esta e para as futuras gerações. Como o que faz agora João Cavalcanti neste "Ivone Rara - 100 anos da Dona do Samba". Contemplado no edital ProAC Direto Expresso 2021, o disco foi gravado em março de 2022 no estúdio Gargolândia, no interior de São Paulo, e está disponível nos aplicativos de música.
João Cavalcanti, Lenine e Casuarina - Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua (Sérgio Sampaio)
"Pai e filho dividindo a música e o tempo, Lenine e João Cavalcanti mostram como o dom da arte pulsa em família e atravessa gerações sem perder a essência. Cantando juntos, deixam claro como a música também é aprendizado, troca e continuidade. A canção escolhida é “Eu Quero Botar Meu Bloco na Rua”, composta por Sérgio Sampaio em 1972 e consagrada na voz do próprio autor, em um período de forte repressão no país. Com o passar dos anos, a música virou um clássico da MPB e segue sendo cantada por diferentes artistas justamente por dizer, de forma simples e direta, algo que continua fazendo sentido até hoje."
#Musica #Lenine #Joao
Capa de “Crepúsculo dos Ídolos”, Friedrich Nietzsche — legenda associada: “Bom carnaval”
Ídolos políticos, disciplina e autoconhecimento na modernidade tardia
(Ensaio hermenêutico-crítico)
A imagem de Crepúsculo dos Ídolos, de Friedrich Nietzsche, acompanhada do irônico voto de “Bom carnaval”, inaugura uma crítica que não se dirige apenas a um episódio político, a um sistema específico ou a uma conjuntura nacional. Trata-se de um gesto hermenêutico deliberado, que convoca o leitor a interrogar os valores, práticas e consensos que, embora desgastados, continuam a ser venerados como se ainda fossem portadores de sentido.
Nietzsche escreveu Crepúsculo dos Ídolos no final do século XIX, num contexto de crise das grandes narrativas morais da modernidade europeia. Seus “ídolos” não são ilusões ingênuas, mas valores e instituições caducas, mantidas de pé por hábito, medo ou conveniência. Quando essa imagem é acionada em resposta à constatação de que “ninguém tem pressa em unificar no 1º turno” no sistema político brasileiro, o “carnaval” deixa de ser metáfora festiva e passa a nomear um modo de funcionamento: a política como espetáculo contínuo, onde máscaras, ruídos e alianças provisórias substituem a decisão efetiva.
Nesse carnaval, decide-se não decidir. Governa-se pela encenação prolongada. O adiamento torna-se método, e a estabilidade vazia, virtude.
"The Economist, semana passada. (A conferir, claro). São sistemas diferentes, mas causaria muito barulho em qualquer país “ocidental” o sumiço (temporário?) de 37 dos 205 dirigentes máximos, além da pressão sobre os escalões inferiores. Esse seria o novo padrão aceitável? Um estágio democrático mais avançado?"
Recorte de The Economist sobre purgas no Partido Comunista Chinês — legenda reflexiva em português
A segunda mensagem desloca o eixo da crítica. O texto de The Economist descreve a intensificação das purgas internas no Partido Comunista Chinês: mais de um milhão de investigados em um único ano, dezenas de membros do Comitê Central ausentes, pressão sistemática sobre os escalões inferiores e um clima de medo que paralisa impulsos reformistas.
O elemento decisivo, contudo, não está apenas no texto jornalístico, mas na legenda que o acompanha. Ao afirmar que “são sistemas diferentes” e, ainda assim, perguntar se tal padrão seria aceitável — ou mesmo reinterpretado como “estágio democrático mais avançado” — o comentário rompe a distância confortável entre “eles” e “nós”. O outro deixa de ser apenas objeto de julgamento moral e passa a funcionar como espelho crítico.
Historicamente, purgas não são novidade na tradição leninista. O que muda é seu enquadramento contemporâneo: combate à corrupção, eficiência administrativa, estabilidade política. A exceção deixa de ser provisória e se torna permanente; o medo, técnica de governo; a disciplina, substituto da deliberação pública.
Carnaval e purga: opostos aparentes, função comum
À primeira vista, carnaval e purga parecem fenômenos opostos. Um multiplica vozes; o outro as silencia. Um opera por máscaras; o outro, por desaparecimentos. No entanto, vistos à luz de uma hermenêutica crítico-histórica, ambos cumprem função semelhante: neutralizam a política como espaço vivo de conflito, escolha e responsabilidade.
No carnaval político, tudo se move para que nada mude. Na purga política, tudo se decide para que ninguém questione. Um sistema dispersa o poder em jogo infinito; o outro o concentra em coerção absoluta. Ambos produzem paralisia — um pela saturação do espetáculo, outro pela internalização do medo.
Nietzsche reconheceria nos dois casos a persistência de ídolos modernos: a democracia ritualizada que já não decide e a ordem absoluta que já não convence. Nenhum deles expressa vitalidade política; ambos revelam decadência no sentido filosófico rigoroso do termo.
O ensinamento de Tales de Mileto que explica por que conhecer a si mesmo vem antes de entender o mundo
Referência a Tales de Mileto / Confúcio — citação sobre autoconhecimento e correção do erro
É nesse ponto que o terceiro mensageiro se torna decisivo. A evocação de Tales de Mileto — “conhece-te a ti mesmo antes de entender o mundo” — e a máxima atribuída a Confúcio — “Aquele que comete um erro e não corrige, comete outro erro” — não funcionam como ornamentos morais, mas como chave conclusiva de sentido.
Tanto a tradição grega quanto a chinesa colocam o autoconhecimento como condição da vida pública saudável. Antes de reformar a pólis ou governar o império, é preciso reconhecer limites, ilusões e erros próprios. Sem esse movimento reflexivo, sistemas políticos não aprendem: apenas repetem seus equívocos sob novas justificativas.
Aplicada às mensagens anteriores, a lição é clara. O carnaval político evita o espelho; a purga política o quebra. Nenhum dos dois reconhece o erro como erro. Um o dissolve na festa; o outro o elimina pela força. Em ambos os casos, a correção dá lugar à repetição.
Conclusão
Entre o carnaval e a purga, o perigo maior não está apenas na repressão explícita ou na encenação vazia, mas na normalização de ambas. Quando o adiamento permanente passa por prudência democrática e a exceção permanente passa por eficiência governativa, os ídolos já venceram.
O verdadeiro crepúsculo dos ídolos começa quando o espelho é aceito. Tudo o mais é festa ou silêncio.
Fontes e fundamentos
Este ensaio apoia-se no método crítico-histórico, cujas raízes remontam a Baruch Spinoza, no Tratado Teológico-Político, e a Richard Simon, no desenvolvimento da crítica textual moderna. Ambos insistem que nenhum texto — filosófico, religioso ou político — pode ser compreendido fora de seu contexto histórico, institucional e dos usos que dele se fazem ao longo do tempo.
A referência a Friedrich Nietzsche, especialmente a Crepúsculo dos Ídolos (1889), é utilizada como instrumento diagnóstico, não como licença para iconoclastia vulgar. Nietzsche critica a sobrevivência de valores caducos, não a necessidade de valores em si.
O uso de material jornalístico de The Economist reconhece o papel da imprensa internacional como intérprete de processos políticos contemporâneos, sem atribuir-lhe neutralidade absoluta. O caso chinês é tratado com cuidado histórico, evitando tanto a demonização quanto o relativismo complacente.
A evocação de Tales de Mileto e Confúcio insere o ensaio numa tradição mais ampla de pensamento que reconhece o autoconhecimento e a correção do erro como fundamentos da vida pública. Não se trata de síntese cultural forçada, mas de convergência ética mínima.
Por fim, este texto assume seu caráter provisório e reflexivo. Em respeito aos autores citados, aos contextos históricos mobilizados e ao leitor, evita conclusões totalizantes. Afinal, como lembra Confúcio, persistir no erro é errar novamente — inclusive no exercício da crítica.
S
Tocando em Frente, por Almir Sater
TV Cultura
Composição de Almir Sater e Renato Teixeira, apresentada no Viola, Minha Viola, da TV Cultura.
JORNAL DA CULTURA | 07/02/2026
Jornalismo TV Cultura
#JC #JornalDaCultura
No Jornal da Cultura deste sábado (7), você vai ver: Trump diz que não viu vídeo do casal Obama como macacos; na OMS, Brasil faz alerta sobre impacto dos jogos online; maioria das decisões são tomadas por um só ministro e mais!
Para comentar essas e outras notícias, Rita Lisauskas recebe o doutor em história e youtuber, Marco Antonio Villa e o médico Arnaldo Lichtenstein, clínico geral do Hospital das Clínicas de São Paulo.
#JC #JornalDaCultura
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