segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Foi um Rio que Passou pelo Poder

Haddad analisa aceleração do capitalismo; leia trecho - Aceleração do capitalismo. Por Fernando Haddad Folha de S. Paulo Em 'Capitalismo Superindustrial', autor defende que inovação contínua cria ilusão que transforma superlucros em renda Fenômeno é mais visível na economia digital, mas todas as atividades econômicas estão submetidas à nova lógica
Bolsa de Valores de São Paulo (B3), onde empresas vendem ações com distribuição de dividendos B3/Divulgação CAPITALISMO NÃO ACABOU. APERTOU. O lucro mudou de forma, não de dono Não estamos vivendo o fim do capitalismo. Estamos vivendo o capitalismo levado ao máximo. Antes, a empresa inventava alguma coisa, ganhava mais por um tempo e depois o lucro caía, porque outras copiavam. Hoje é diferente. A inovação virou trabalho de todo dia. As grandes empresas mantêm equipes só para criar o novo sem parar. O lucro alto deixou de ser exceção. Virou rotina. O centro da riqueza também mudou. Não é mais só a máquina, o galpão ou o estoque. É o conhecimento: software, marca, patente, informação. Isso não se gasta com o uso e pode ser vendido milhões de vezes. Quem chega primeiro abre vantagem grande. Quem atrasa fica para trás. Esse dinheiro parece renda fácil, como aluguel ou pedágio. Mas não é feudo. É lucro capitalista, só que acelerado. O que mudou não foi a regra do jogo, foi a velocidade. O lucro extraordinário ficou permanente. Esse modelo concentra poder, empresas e regiões. Onde tem conhecimento protegido, tem mando. Onde não tem, sobra disputa. Esse é o capitalismo de agora: mais rápido, mais concentrado e mais duro. Jornal do Peão Digital dos Jardins Texto para quem vive do trabalho e não de ilusão
Entre a ironia de Haddad, a coreografia do comando e o samba que ensina como a política também arrasta corações — e carreiras — sem pedir licença
domingo, 1 de fevereiro de 2026 Haddad revida com ironia antigas críticas do PT. Por Dora Kramer Folha de S. Paulo Depois de apanhar como ministro, o petista é bajulado como salvador da lavoura do partido em São Paulo Se aceitar ser candidato, precisará deixar a má vontade de lado; do contrário, será difícil entusiasmar o eleitorado Foi revelador da urgência do PT em ter candidaturas fortes nos estados assistir ao chamado da ministra Gleisi Hoffmann para que todos vistam a camisa do partido na eleição de outubro. Em particular, Fernando Haddad, segundo ela qualificado para encarar o desafio em São Paulo. Mais sintomático foi ver o sorriso de banda do ministro da Fazenda ao ser instado a comentar a declaração. "Comemoro ser elogiado por Gleisi", disse, para em seguida se desvencilhar dos microfones e entrar na portaria do ministério, deixando no ar a ironia. A cena aconteceu na quinta-feira (29) e deu a Haddad a chance de revidar as críticas que a então presidente do PT fazia a ele antes de assumir a pasta da articulação política. Na mais ácida delas, Gleisi qualificou a política conduzida pelo ministro como "austericídio fiscal". A pregação por mudança de rumo significava que Fernando Haddad traía as ideias do partido. Portanto, natural que ele se questione se compensa atender ao apelo de quem o considerou um traidor. Pois então, não servia para comandar a economia, mas serve para defender as bandeiras do petismo naquela que deve ser a mais difícil das disputas estaduais de 2026? A situação impõe um dilema ao ministro já em ritual de despedida do cargo. Sofre pressão poderosa para se engajar na luta mesmo contra vontade, mas se não ceder pode ser responsabilizado por não ter contribuído para ajudar a campanha de Lula no maior colégio eleitoral do país. Numa eleição apertada como a que se desenha, uma boa votação em São Paulo pode fazer a diferença entre o êxito e o fracasso. A despeito de haver razões adicionais para a hesitação, ele pode não querer correr o risco de incluir no currículo a quarta derrota em dez anos. Mas, se resolver arriscar —inclusive porque eleição não se decide de véspera—, Haddad vai precisar deixar o desagrado de lado. Desanimado e indo ao pleito forçado, não conseguirá convencer o eleitorado de que, mais uma vez, vale a pena tentar. Foi Um Rio Que Passou em Minha Vida Paulinho da Viola Se um dia Meu coração for consultado Para saber se andou errado Será difícil negar Meu coração tem mania de amor Amor não é fácil de achar A marca dos meus desenganos ficou, ficou Só um amor pode apagar A marca dos meus desenganos ficou, ficou Só um amor pode apagar Porém (ai, porém) Há um caso diferente que marcou num breve tempo Meu coração para sempre Era dia de Carnaval Carregava uma tristeza Não pensava em novo amor Quando alguém que não me lembro anunciou Portela, Portela O samba trazendo alvorada Meu coração conquistou Ah! Minha Portela! Quando vi você passar Senti meu coração apressado Todo o meu corpo tomado, minha alegria voltar Não posso definir aquele azul Não era do céu nem era do mar Foi um rio que passou em minha vida E meu coração se deixou levar Foi um rio que passou em minha vida E meu coração se deixou levar Foi um rio que passou em minha vida E meu coração se deixou levar! Composição: Paulinho da Viola.
Não se trata, como pode parecer à primeira vista, de um desentendimento episódico entre dois ministros de um mesmo governo. A troca de farpas é apenas o sintoma visível de uma engrenagem mais antiga e mais profunda: a disputa permanente pelo controle do sentido da lealdade dentro do poder. Fernando Haddad ocupa, nesse tabuleiro, a posição ingrata do mensageiro que compreendeu cedo demais o risco do próprio recado. Ao sentir o cheiro de golpe — não o clássico, mas o doméstico, silencioso, burocrático — reage com ironia, arma predileta dos que não dispõem do comando, mas tampouco aceitam a submissão plena. O chefe comum a ambos, experiente na arte de sobreviver aos seus, adota a estratégia que a ciência política reconhece como equilíbrio pela ambiguidade: simula apoio a um, acena ao outro, e assim impede que qualquer deles consolide capital político suficiente para prescindir de sua bênção. Governa-se, assim, não pela confiança, mas pela dependência mútua. Na história recente do partido, poucos ousaram tensionar esse arranjo. Dilma Rousseff foi exceção notável. Não por bravata, mas por método: dispunha de informações, convicção e uma leitura própria da correlação de forças. Pagou por isso. Foi lançada ao sacrifício político em nome da preservação do centro do poder e, mais tarde, privada até mesmo do prêmio menor — o Senado — para que o chefe fosse poupado de nova exposição. Outros aprenderam a lição. Gleisi Hoffmann, que já transitara pelas esferas mais altas da República, retornou ao Paraná para disputar um mandato modesto, movimento que ilustra com precisão aquilo que Darcy Ribeiro chamava de “o paraíso”: chega-se a ele, mas não se permanece sem consentimento. O partido, nesse sentido, funciona menos como comunidade de iguais e mais como hierarquia disciplinada, onde a lealdade é sempre vertical. Recorda, aqui, o velho Sargento Getúlio: a ordem desce, nunca sobe; os soldados obedecem convictos de que servem à causa, mesmo quando a causa se confunde com a preservação do comandante. A deslealdade aparente entre pares é tolerada — às vezes estimulada — desde que não ameace o vértice. Assim, a controvérsia entre ministros não deve ser lida como ruído, mas como método. Não é crise; é rotina. No fundo, ninguém disputa ideias. Disputa-se o lugar na fila da sucessão — e, sobretudo, quem terá o direito de sair dela sem ser empurrado.
"Quando eu era muito jovem, vivi uma experiência que marcaria a minha vida. Era noite de carnaval, e, naquela época, os desfiles aconteciam na Avenida Rio Branco, no centro do Rio. Eu, ainda garoto, subi, sem que ninguém percebesse, na sacada do prédio do Museu de Belas Artes e ali fiquei escondido. O dia estava amanhecendo quando olhei por cima da sacada e vi a Portela passar, feito um rio azul que se lançava rumo à Cinelândia. Muitos anos depois, a partir dessa lembrança, fiz a música “Foi um Rio Que Passou em Minha Vida”. Lembro dessa história hoje, neste #tbt pré-carnaval, para desejar a todos uma boa diversão! Esta primeira foto foi tirada no desfile do carnaval de 1957, e as demais, em outros carnavais."
Foi um Rio que Passou pelo Poder Entre a ironia de Haddad, a coreografia do comando e o samba que ensina como a política também arrasta corações — e carreiras — sem pedir licença Ilustração Fotografia de Paulinho da Viola desfilando pela Portela, em tom azul predominante, semblante sereno, olhar baixo, em meio à avenida. Imagem amplamente disponível em arquivos jornalísticos, acervos culturais e redes sociais ligadas ao carnaval e à música brasileira. (Sugestão de crédito: Acervo / Reprodução redes sociais) Resenha A troca de farpas entre Fernando Haddad e Gleisi Hoffmann, destacada no artigo de Dora Kramer, não é um episódio menor nem um conflito de vaidades. É, antes, a manifestação visível de um mecanismo antigo do poder político: a administração calculada das lealdades, o controle da sucessão e o uso da ambiguidade como método de comando. Haddad, colocado na posição de possível candidato em São Paulo após ter sido alvejado como ministro, responde com ironia — recurso clássico de quem compreende o jogo, mas percebe que o tabuleiro não lhe pertence. Gleisi, que antes o acusara de “austericídio fiscal”, reaparece como fiadora de sua candidatura, não por conversão ideológica, mas por necessidade partidária. O elogio tardio diz menos sobre Haddad e mais sobre a urgência do PT. No centro, o chefe comum a ambos mantém o equilíbrio pela indecisão calculada: acena, mas não entrega; estimula, mas não consagra. A ciência política conhece bem essa técnica — governar não pela confiança, mas pela dependência. Assim se evita que qualquer ator acumule capital político suficiente para agir por conta própria. Essa lógica não é nova. Dilma Rousseff, a única que enfrentou o centro do poder com método e informação, foi levada ao sacrifício em nome da preservação do comando. Perdeu mais do que o governo: perdeu o direito à reparação simbólica, ao Senado, para proteger aquele a quem servira. Gleisi, por sua vez, conheceu o caminho inverso: do “paraíso”, como dizia Darcy Ribeiro, ao retorno disciplinado a um mandato modesto. É aqui que o samba “Foi um Rio que Passou em Minha Vida”, de Paulinho da Viola, deixa de ser apenas trilha sonora e se torna chave interpretativa. O rio do samba não pergunta se o coração está pronto; ele passa. Na política, como na vida, não são raros os que resistem à correnteza — mas são muitos os que acabam levados por ela, alguns com resignação elegante, outros com ironia defensiva. Haddad, como o personagem do samba, carrega marcas, desenganos e uma história de derrotas que não se apagam por decreto partidário. Se aceitar o chamado, precisará fingir entusiasmo; se recusar, arcará com a culpa de não ter servido ao coletivo. O dilema não é pessoal — é estrutural. No fim, como no universo de Sargento Getúlio, a ordem desce, nunca sobe. Soldados e cabos obedecem acreditando-se leais, mesmo quando a lealdade exige o sacrifício de um par. A política segue seu curso como o rio do samba: indiferente às intenções individuais, fiel apenas ao seu próprio leito. Referências Artigo: Dora Kramer, Folha de S. Paulo Samba: “Foi um Rio que Passou em Minha Vida” — Paulinho da Viola 🔗 (link para o samba) Foi Um Rio Que Passou em Minha Vida Paulinho da Viola

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