Inspirados já nos ensinamentos de Sófocles, aqui, procurar-se-á a conexão, pelo conhecimento, entre o velho e o novo, com seus conflitos. As pistas perseguidas, de modos específicos, continuarão a ser aquelas pavimentadas pelo grego do período clássico (séculos VI e V a.C).
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026
O QUE SERÁ — À FLOR DA PELE DO PODER
Caricatura, canção e mal-estar institucional
Imagens
Imagem 1 — STJ
Caricatura de ministro do Superior Tribunal de Justiça. A figura surge isolada, sob uma nuvem carregada, como quem atravessa um inferno astral silencioso. O rosto não expressa culpa nem defesa, mas pressão — um estado febril em que a crise não encontra repouso nem tradução jurídica imediata.
Imagem 2 — STF
Caricatura espelhada de Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, sentados lado a lado. Os dois ministros aparecem em vigilância mútua, mais atentos ao peso do poder que compartilham do que ao diálogo explícito. São apontados como resistentes à implantação de um código de conduta, e a imagem traduz essa tensão não em palavras, mas em gestos contidos, sobrancelhas cerradas e silêncio institucional.
Legenda comum:
Imagem criada • Moraes e Toffoli em caricatura
A canção
“O Que Será (À Flor da Pele)” — Chico Buarque
com participação eterna de Milton Nascimento
A canção opera no território do indizível. Não explica, não acusa, não absolve. Nomeia apenas o estado: aquilo que nasce por dentro, sobe ao rosto, perturba o sono e escapa a qualquer tentativa de controle moral, político ou institucional. É o mal-estar que não aceita remédio nem governo.
Na voz de Milton Nascimento, esse sentimento ganha dimensão universal. Sua interpretação transforma a canção em experiência corporal e histórica ao mesmo tempo. Não por acaso, ainda nos anos 1980, um aluno peruano, em um cursinho na Avenida Oxford, em Londres, respondeu sem hesitar à provocação do professor: Milton era, para ele, o maior cantor do mundo. Não como idolatria, mas como reconhecimento intuitivo de uma voz que ultrapassa fronteiras, estilos e épocas.
Diálogo entre imagem e música
As caricaturas e a canção se encontram no mesmo ponto de tensão: o instante em que a forma já não contém o conteúdo.
No ministro do STJ, o inferno é solitário — um embate entre biografia, cargo e exposição pública. Nos ministros do STF, o inferno é compartilhado e estrutural — nasce da fricção entre poder e limite, entre permanência e regra, entre autonomia e controle.
Assim como na canção, não se trata de um conflito que possa ser resolvido por mandamentos, ritos ou fórmulas técnicas. O que emerge é um estado — algo que aperta o peito, trai o olhar e se manifesta no corpo antes de se tornar discurso.
A caricatura, como a música, não sentencia. Ela suspende. Congela o momento em que o poder se revela humano, vulnerável e tensionado, à flor da pele.
Referências
🎵 Ouça a canção no YouTube:
https://youtu.be/lkRe-6evscY
📝 Letra da música (fonte externa):
https://www.letras.mus.br/chico-buarque/1217237/
Fecho
Entre o traço e a voz, entre o jornal e a canção, constrói-se um campo sensível onde o poder deixa de ser abstração e passa a ser experiência. As caricaturas fixam o instante; a música o atravessa no tempo.
É nesse intervalo — onde não há repouso, nem disfarce possível — que a arte atua: revelando aquilo que não tem medida, não tem descanso e não aceita silêncio.
S
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