Inspirados já nos ensinamentos de Sófocles, aqui, procurar-se-á a conexão, pelo conhecimento, entre o velho e o novo, com seus conflitos. As pistas perseguidas, de modos específicos, continuarão a ser aquelas pavimentadas pelo grego do período clássico (séculos VI e V a.C).
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026
ENTRE TANQUES, TOGAS E MARÇOS
POSTO DE COMBUSTÍVEL DO AEROPORTO DE JUIZ DE FORA QUE ABASTECEU OS CARROS E VEÍCULOS AUTOMOTORES QUE PARTICIPARAM DA CARREATA NA VINDA DO EX-PRESIDENTE À CIDADE DE JUIZ DE FORA
Política, Justiça e Canção na Travessia Inacabada da República
“O correr da vida embrulha tudo; a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta.”
— João Guimarães Rosa
Uma carreata às margens do aeroporto.
Um posto de combustível convertido em ágora improvisada.
Um Supremo às voltas com sua própria consciência institucional.
Um diálogo imaginário entre Rui Barbosa e Machado de Assis.
E, ao fundo, a enxurrada circular de “Águas de Março”, composta por Tom Jobim e eternizada na voz de Elis Regina.
Entre o asfalto e a partitura, entre o cartão corporativo e a Constituição de 1988, entre a ironia literária e a solenidade da toga, desenha-se um mesmo dilema histórico: a difícil separação entre o público e o privado no Brasil.
A República abastece-se de símbolos — mas nem sempre presta contas do combustível.
O Judiciário assume a pedagogia ética — mas nem sempre escapa da vertigem corporativa.
A modernização promete ruptura — mas carrega continuidades discretas no porta-malas da história.
Talvez por isso faça falta a lente sociológica de Luiz Werneck Vianna: menos para julgar personagens do momento e mais para compreender as estruturas que os produzem.
Do posto ao Supremo, da abolição à judicialização, da ironia machadiana ao rigor rui-barbosiano, o país oscila entre a letra e o espírito — entre o fato e o mito — entre o fim do caminho e o começo que sempre retorna.
Porque, no Brasil, até a crise tem ritmo.
E toda travessia, cedo ou tarde, deságua em março.
O posto de combustível localizado nas proximidades do Aeroporto de Juiz de Fora (Aeroporto da Serrinha), que serviu como ponto de referência para a concentração e abastecimento de veículos em carreatas e motociatas de ex-presidente, é o Auto Posto Aeroporto. Aqui estão os detalhes sobre o local e as visitas registradas: Nome do Estabelecimento: Auto Posto Aeroporto (bandeira Petrobras). Localização: Avenida Deusdedith Salgado, 2020 - Teixeiras, Juiz de Fora - MG. Eventos Relacionados: Visita em 15 de julho de 2022: Bolsonaro chegou ao aeroporto e iniciou uma motociata que percorreu cerca de 12 km pela cidade. O posto costuma ser o primeiro ponto de parada para os apoiadores que aguardam a chegada da comitiva no Aeroporto da Serrinha. Lançamento de Campanha (16 de agosto de 2022): O ex-presidente desembarcou no aeroporto às 10h e participou de nova motociata em direção ao centro. Visita em 6 de setembro de 2024: Bolsonaro participou de uma motocarreata ao lado de candidatos locais, utilizando novamente a região do aeroporto como ponto de partida. YouTube YouTube +6 O Auto Posto Aeroporto é amplamente utilizado nessas ocasiões por sua localização estratégica na principal via de acesso ao aeroporto e à entrada da cidade. undefined undefined undefined 7 sites Eletroposto Auto Posto Aeroporto em Juiz De Fora - Carregados Check-ins. Compartilhe sua experiência! Ganhe +2 pontos! Carregados Em Juiz de Fora, Bolsonaro participa de motocarreata e volta ... 6 de set. de 2024 — Ex-presidente participou de ato de campanha ao lado de Charlles Evangelista, candidato do PL à Prefeitura de Juiz de Fora. Rádio Itatiaia Bolsonaro participa de motociata em Juiz de Fora (MG) 15 de jul. de 2022 — Bolsonaro participa de motociata em Juiz de Fora (MG) - YouTube. This content isn't available. YouTube · Poder360 1:05 Mostrar tudo QUEM BANCOU OU FINANCIOU OS ABASTECIMENTOS DOS VEÍCULOS GRATUITAMENTE? Não existem registros oficiais ou provas documentadas de que houve abastecimento gratuito generalizado para os veículos de apoiadores civis durante as passagens do ex-presidente Jair Bolsonaro por Juiz de Fora. Em eventos dessa natureza, os custos individuais (como combustível de carros e motos de participantes) costumam ser arcados pelos próprios apoiadores e grupos de mobilização local. No entanto, o financiamento de motociatas e carreatas presidenciais foi alvo de investigações e delações relacionadas ao uso de recursos públicos: Cartão Corporativo: Segundo investigações da Polícia Federal e dados obtidos via Lei de Acesso à Informação pelo Fiquem Sabendo, o cartão corporativo da Presidência foi utilizado para custear despesas de logística, segurança e assessoria em eventos de motociatas. Isso inclui o abastecimento de veículos oficiais e descaracterizados utilizados pelas equipes do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) e da Agência Brasileira de Inteligência (ABIN). Delação de Mauro Cid: Em depoimentos recentes, o ex-ajudante de ordens Mauro Cid afirmou que recursos do cartão corporativo foram usados para financiar aspectos dessas motociatas. Investigações de Financiamento: O ministro Alexandre de Moraes chegou a solicitar explicações sobre o financiamento de motociatas após denúncias de que eventos de arrecadação (venda de ingressos) estariam sendo usados para promover atos políticos, o que poderia configurar financiamento irregular de campanha. YouTube YouTube +5 Em resumo: enquanto os veículos da comitiva oficial e equipes de segurança tiveram gastos cobertos por recursos públicos (cartão corporativo), não há confirmação de que o combustível para os veículos do público em geral tenha sido pago por uma única entidade ou doador de forma gratuita. Estado de Minas Estado de Minas"
"Esta é uma proposta de pastiche literário de alto nível. Para simular esse "achado" — que funde o rigor jurídico-inflamado de Rui com a ironia oblíqua de Machado, sob a lente satírica de Cacaso e a dramaticidade épica de Ruy Guerra — imagine um papel amarelado, com marcas de grampo enferrujado e tipografia de máquina de escrever Remington. Aqui está o esboço desse "vazamento" acadêmico-galhofeiro: FUNDAÇÃO CASA DE RUI BARBOSA / ARQUIVO M. ASSIS SÉRIE: DOCUMENTOS SOBRE O DESATERRO (SIGILO NIVEL III) FORMATO: MIMEÓGRAFO EM ÁLCOOL (TINTA ROXA) MINUTA APÓCRIFA: O PARECER DA INDECISÃO INTERESSEIRA Relator: R.B. | Revisor: M.A. Data: Circa 1889-1891 [O Texto] RUI BARBOSA (O Verbo): "É imperativo de justiça, ante a vacuidade do erário e o estrépito das senzalas vazias, que se examine o pleito dos proprietários. A lei, em sua majestade pétrea, não pode ser um moinho que tritura o direito adquirido sem a devida contrapartida de metal sonante. O ressarcimento não é prêmio ao chicote, mas o estancamento da hemorragia do capital que sustenta a ordem!" MACHADO DE ASSIS (A Glosa): "Diz bem o conselheiro, embora a 'majestade pétrea' pareça ter a consistência da argila de Botafogo. O capital, coitado, sofre de anemia. Os fazendeiros não pedem justiça; pedem uma certidão de óbito com data retroativa e uma pensão vitalícia pela perda do 'objeto' que, por um descuido da Princesa, descobriu-se humano. É a ética do soluço: chora-se o escravo, mas mira-se o cofre." RUI BARBOSA (A Fúria Ética): "Mas o Estado, Senhor Diretor, o Estado é o fiador das hipotecas morais! Se a abolição foi o sol da liberdade, que o Tesouro não seja a nuvem que obscurece o direito de quem investiu na fé pública de que o homem era res!" MACHADO DE ASSIS (O Xeque-Mate): "Precisamente. O direito da res. Mas veja que ironia: agora a res vota (ou finge que vota). O fazendeiro é um indeciso convicto: ama a República, desde que ela lhe pague o prejuízo da Monarquia. O Senado é o seu divã. Proponho que se dê a indenização em medalhas de latão: têm o brilho do ouro, o peso da honra e o valor de nada. O silêncio, afinal, é a melhor prosa do Império que não foi e da República que não é." NOTAS DOS EDITORES (Cacaso & Guerra): O documento exala um cheiro de mofo e cinismo. Rui quer salvar a letra da lei; Machado quer enterrar o cadáver da elite com um epitáfio elegante. Publicar em 100 cópias. Distribuir na Lapa sob chuva. Este exercício capta a indecisão interesseira de uma classe que queria a modernidade sem perder os dividendos do passado. Para avançar nesta construção, você prefere que foquemos no tom jurídico-pomposo (o "Rui de Ruy Guerra") ou na ferocidade da nota de rodapé (o "Machado de Cacaso")?"
Que falta nos faz Werneck Vianna nessa crise existencial do Supremo
Publicado em 20/02/2026 - 08:11 Luiz Carlos AzedoBrasília, Carnaval, Comunicação, Congresso, Ética, Governo, Justiça, Literatura, Memória, Política, Política
O caso Master expôs relações opacas, suspeitas de promiscuidade, cifras astronômicas, inexplicáveis, apesar das justificativas protocolares. E uma reação corporativa de autodefesa
Numa hora como essa, de crise existencial do Supremo Tribunal Federal (STF), que falta nos fazem as análises do sociólogo Luiz Werneck Vianna, que estudou o papel da Justiça Federal na manutenção da nossa integridade territorial e na formação do Estado brasileiro. Sua morte completará dois anos amanhã. Intérprete do Brasil contemporâneo, foi quem melhor compreendeu a “judicialização” da nossa política, que vive um momento institucionalmente grave: o caso Master está volatilizando a credibilidade da Corte e já provoca grave crise de confiança entre seus integrantes, sem nenhum sinal de que o conflito se resolva a curto prazo, nos marcos do que seria a normalidade institucional da Corte.
Em depoimento ao Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea (CPDOC) da Fundação Getúlio Vargas, em 2012, Werneck capturou o espírito dos constituintes em relação ao Supremo: “E o que faz o legislador em Constituinte? Naquela de 1988. Ele é um intérprete, ele é um leitor da História do Brasil, muito agudo, muito fino. O que ele faz? Ele recusa essa história? Não! Ele não recusa essa história porque, inclusive, ele não é fruto de uma revolução, não é? Ele é fruto de uma transição política. O que ele faz? Lendo tudo isso, ele concorda com uma tese capital da nossa formação que foi: ‘Não temos sociedade para fazermos grandes mudanças’. Precisamos que a pedagogia e a ética venham de cima. Virá de onde? Virá do Direito e dessas instituições, que nós vamos criar agora, em 1988. Quer dizer, há um elemento de continuidade aí ou há um elemento de descontinuidade do qual as marcas autoritárias vão ser erradicadas, mas essa precedência do público sobre o privado continua.”
Na Constituinte, grupos de empresários entendiam o moderno como a privatização do mundo; enquanto setores do sindicalismo, dos movimentos sociais e das instituições da sociedade civil, ao longo das lutas contra o autoritarismo, entendiam a modernidade como a democratização da esfera pública. A promessa era a recusa ao corporativismo, o empenho no fortalecimento das instituições da democracia representativa, o desenvolvimento do promissor embrião da democracia participativa que se desenvolvia, a instituição de nexos fecundos entre essas duas, a regulação democrática de sua vida interna e o envolvimento vivo e concreto com os movimentos sociais e suas associações nos processos decisórios.
Para Werneck, a história da modernização no Brasil, aliada à lógica privatista, era a negação do sistema da representação política e dos partidos políticos pela convivência corporativista. Ao movimento democrático e popular organizado caberia a combinação entre representação clássica e a democracia participativa de massas. A política social, o pluralismo político e a cidadania plena e livre seriam fundamentais nesse processo. O que deu errado?
Não existe resposta simples. Estamos na iminência de uma crise institucional muito grave, dessa vez protagonizada por quem deveria evitá-la. O retorno dos ministros à Praça dos Três Poderes não teve a liturgia dos recomeços, mas a continuidade da crise que antecedeu o carnaval. O Supremo volta ao trabalho com a sensação de que já não controla o próprio enredo. A crise não é apenas externa, com Planalto e Congresso já no embalo das campanhas eleitorais; é interna, de corredor, de confiança quebrada. Quando uma Corte constitucional perde o chão, a toga vira tapete mágico.
Leia também: Mendonça dá à PF amplo acesso às provas do Master
No fundo, o caso Master é um exemplo de “precedência do público sobre o privado”. A promessa de 1988 foi civilizar o poder, submeter interesses privados à publicidade, impessoalidade e responsabilidade. Mas o escândalo expôs o oposto: relações opacas, suspeitas de promiscuidade, cifras astronômicas, inexplicáveis, apesar das justificativas protocolares. E uma reação corporativa de autodefesa, contra os órgãos controladores, em que o heterodoxo inquérito das “Fake News” foi exumado. Já não está sendo usado para defender a democracia.
Acima das suspeitas
No clássico do cinema italiano “Indagine su un cittadino al di sopra di ogni sospetto” (Investigação sobre um cidadão acima de qualquer suspeita), do diretor Elio Petri, estrelado por Gian Maria Volonté e Florinda Bolkan (Bulcão), como Augusta Terzi, um inspetor do alto escalão da polícia italiana, com reputação ilibada, fama de incorruptível, mas reacionário, mata sua amante. Resolve pagar para ver se a polícia irá acusá-lo e, por isso, como em “Crime e castigo”, de Fiódor Dostoiévski, vai plantando pistas óbvias que o identificam como o assassino, ao mesmo tempo em que vê os colegas ignorando-as, intencionalmente ou não.
Voltemos ao caso Master. Não é casual que, em vez de discutir o mérito do problema, a conversa interna no Supremo (vazada, gravada ou reconstituída) tenha derivado para a guerra contra quem investiga, contra quem notícia, contra quem “ousa” tocar no clube de futebol. É “judicialização” da própria crise do Judiciário: pedidos, ofícios, operações, rastreamentos, apurações paralelas, com o uso de instrumentos excepcionais para blindar os integrantes da Corte, em lugar da transparência, do rito e do contraditório. E o improviso retaliatório.
Leia mais: O “Inquérito das Fake News” e a mão pesada de Moraes
O ambiente externo é o pior possível, exatamente por causa da “judicialização da política”. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva mantém distância regulamentar da PF; na Câmara, agitam-se as CPIs, que ninguém sabe como terminam. O Senado, por ora, não quer saber de impeachment. Ninguém aparece para apagar o fogo. O mais grave é a crise de autoridade moral: o Supremo pode continuar decidindo, porém, com menos crédito social; seus limites são cada vez mais opacos e sinuosos.
Ou seja, deu errado quando a promessa de “pedagogia e ética vindas de cima” se transformou em tutela sem controle. Quando a judicialização foi capturada por uma cultura de corporação. A modernização avançou por meio de vínculos pessoais, mercados de influência e portas giratórias; e a política representativa foi substituída por tribunais, corporações e moralismos de ocasião. É uma crise existencial.
Nas entrelinhas: todas as colunas no Blog do Azedo
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#Câmara, #Constituinte, #Master, #Senado, #Supremo, Werneck
AH, A FALTA QUE ELE FAZ...
(Convolação lítero-jurídico-lítero-jornalístico-sociológica das três entradas, aos cuidados escrivães do professor e sociólogo Luiz Werneck Vianna, citado por Luiz Carlos Azedo.)
I — O POSTO, A CARREATA E A PEDAGOGIA DO ASFALTO
Houve um tempo — e não vai longe — em que a política brasileira trocou o palanque pela rotatória. A ágora virou pista dupla; o comício, motociata; o discurso, buzinaço. Em Juiz de Fora, nas imediações do antigo Aeroporto da Serrinha, um posto de gasolina tornou-se metáfora involuntária da República abastecida a vapor moral.
O chamado Auto Posto Aeroporto — bandeira de estatal outrora símbolo da soberania energética — serviu de ponto de concentração nas passagens do então presidente Jair Bolsonaro. Ali, entre tanques e tanques, a pergunta nunca foi apenas quem abasteceu; foi quem autorizou o imaginário de que a política pudesse ser movida a combustão espontânea.
A resposta factual — de que não há prova de abastecimento gratuito generalizado aos apoiadores — convive com a sombra mais espessa: o uso do cartão corporativo para despesas logísticas e de segurança. E eis o ponto werneckiano: a “precedência do público sobre o privado” como princípio fundador da Constituição de 1988 transmutada, na prática, em ambiguidade operacional.
O que é público quando a máquina estatal se desloca em cortejo? O que é privado quando a liturgia do cargo se mistura à coreografia eleitoral? A modernidade brasileira, ensinava Werneck, não elimina o patrimonialismo; ela o racionaliza.
II — O CASO MASTER E A JUDICIALIZAÇÃO DA PRÓPRIA TOGA
No artigo de Azedo, o “caso Master” aparece como sintoma de crise existencial do Supremo Tribunal Federal. Não se trata apenas de um escândalo administrativo ou de relações opacas; trata-se da erosão simbólica da Corte que, na leitura de Werneck, deveria encarnar a pedagogia republicana.
A Constituição de 1988 — filha de transição, não de ruptura — atribuiu ao Judiciário o papel de fiador ético da modernização. Ao Supremo caberia a função de árbitro das tensões entre mercado, representação e cidadania. Porém, quando o árbitro passa a disputar o jogo, instala-se a vertigem.
A judicialização da política foi, durante décadas, mecanismo de contenção de maiorias voláteis e de minorias insurgentes. Agora, observa-se a judicialização do próprio Judiciário: inquéritos sobre inquéritos, blindagens corporativas, suspeições cruzadas. A toga, que deveria pesar como símbolo, começa a flutuar como retórica.
Werneck falava da continuidade histórica brasileira: modernizamos sem romper; ampliamos direitos sem dissolver privilégios; constitucionalizamos o conflito sem erradicar o personalismo. O “caso Master” é menos um desvio que uma revelação estrutural.
III — RUI, MACHADO E A INDENIZAÇÃO DO PASSADO
O pastiche proposto — esse diálogo apócrifo entre Rui Barbosa e Machado de Assis — não é mero exercício literário: é alegoria sociológica.
Rui defende a coerência formal do direito; Machado desnuda a ironia material da história. Um fala da fé pública; o outro, da fé interesseira. Entre ambos, desenha-se a tensão que Werneck identificou na formação do Estado brasileiro: a tentativa de civilizar a elite sem desestruturá-la.
A indenização aos senhores após a abolição — nunca efetivada — simboliza a expectativa recorrente de compensação pelo fim de privilégios. A República nasce sob a sombra de uma pergunta incômoda: é possível democratizar a esfera pública sem indenizar simbolicamente os herdeiros do mando?
Machado, com sua pena oblíqua, sugeriria que o Brasil prefere medalhas de latão: brilham como ouro, pesam como honra, valem como silêncio.
IV — CONVOLAÇÃO: DO POSTO AO SUPREMO, DA SENZALA AO CARTÃO CORPORATIVO
As três entradas — o posto de combustível, a crise do Supremo e o diálogo ficcional entre Rui e Machado — convergem num mesmo eixo sociológico: a dificuldade brasileira de separar com nitidez o público e o privado.
No posto, a política se mistura à logística estatal.
No Supremo, a jurisdição se mistura à autopreservação corporativa.
No século XIX, a abolição se misturou à expectativa de compensação patrimonial.
Em todos os casos, o Estado aparece como fiador de expectativas privadas. A pedagogia “de cima”, que a Constituinte de 1988 imaginou, transforma-se em tutela ambígua. A modernidade jurídica avança, mas carrega no porta-malas as malas do passado.
V — AH, A FALTA QUE ELE FAZ...
Faz falta a lente de Werneck porque ele recusava tanto o moralismo fácil quanto o cinismo resignado. Sua análise não absolvia, mas contextualizava; não relativizava, mas historicizava.
Talvez dissesse que o problema não é a motociata, nem o inquérito, nem o pastiche; é a persistência de uma cultura política que confunde institucionalização com personalização. Que celebra a Constituição e negocia seus limites nos bastidores. Que judicializa a política e politiza a Justiça.
No fundo, a crise não é do posto, nem do presidente, nem do Supremo. É da promessa de que o Direito seria a pedagogia nacional. Quando a toga vira personagem e o tanque vira tribuna, percebe-se que a modernização brasileira continua sendo — como no diálogo de Rui e Machado — uma conversa entre a letra e a ironia.
E entre ambas, o silêncio.
Ah, a falta que ele faz.
Elis Regina & Tom Jobim - "Aguas de Março" - 1974</b>
Night Lights B
AH, A PROMESSA DE VIDA NO CORAÇÃO
É pau, é pedra — mas também é partitura.
E, se a pedra rola, rola com síncope.
Num acaso encontro em Nova York — essa encruzilhada onde os sotaques perdem o passaporte — cruzam-se dois destinos saídos do sul do mapa e do fundo do Brasil: o maestro soberano, herdeiro de ventos pampeanos, e a gauchinha rica-menina-pobre, criada em conjunto habitacional da periferia de Porto Alegre.
Ele, primo e neto de gaúchos, educado na travessia entre o rigor e o improviso.
Ela, menina de concreto e céu aberto, aprendendo que o mundo cabe numa nota sustentada.
Se fosse preciso dar-lhes nomes — e o Brasil gosta de batizar seus mitos — diríamos:
ele, Tom Jobim;
ela, Elis Regina.
Ou, como preferem os íntimos da eternidade: Tom e Regina.
Som e realeza puros.
A promessa de vida no coração não é apenas verso — é pacto civilizatório.
Quando Vinicius de Moraes escreveu “É pau, é pedra”, desenhou o inventário do mundo.
Quando Tom musicou, transformou obstáculo em harmonia.
Quando Elis cantou, devolveu à pedra sua febre humana.
E ali, em Nova York — cidade que ensinou o Brasil a se ouvir em inglês sem deixar de ser português — a bossa cruzou com o jazz. A arte travessa atravessou fronteiras. O sul virou hemisfério. O conjunto habitacional virou palco do mundo.
Mas você pede ordem na toada.
“Só mesmo um mineiro.”
Chamem João Guimarães Rosa.
Porque Rosa sabia que travessia é destino. Que o sertão é do tamanho do mundo. Que a curva da lida não é desvio, é revelação. Ele poria ordem não pela régua, mas pelo espanto: “o correr da vida embrulha tudo”, diria, e nesse embrulho cabem Tom, Regina, o sul, o asfalto, o jazz, a periferia e o Itamaraty invisível da canção.
Num país de tantos Joões — João de barro, João ninguém, João do Rio, João Gilberto — a vida se organiza pela música. E quando a música encontra sua realeza plebeia, nasce uma diplomacia sem embaixada.
A promessa de vida no coração é isto:
não a certeza do final, mas a insistência da travessia.
O pau vira ritmo.
A pedra vira compasso.
O encontro vira país.
E no fim da curva — aquela que parece despedida —
cruzam-se de novo as linhas:
Tom ao piano, Regina no sopro,
e o Brasil, por um instante,
em estado de harmonia civil.
Som e realeza puros.
Você tem razão — e que belo zelo pela partitura da verdade.
Factualmente: “Águas de Março” — com seu célebre inventário “É pau, é pedra…” — foi composta (letra e música) por Tom Jobim. Não há coautoria de Vinicius de Moraes nesse caso específico. O poetinha foi parceiro maior em tantas obras — “Garota de Ipanema”, “Chega de Saudade”, “Insensatez” — mas ali, na enxurrada metafísica de março, a pena e o piano foram de Tom.
E, no entanto, simbolicamente, você também tem razão.
Porque Vinicius, mesmo ausente da ficha técnica, estava presente no clima de mundo que permitiu que aquela enumeração virasse cosmogonia. A bossa nova não era apenas uma soma de autores; era um estado de espírito compartilhado. Tom escreve sozinho — mas escreve dentro de uma atmosfera criada a muitas mãos e copos.
E quando Elis Regina grava “Águas de Março” ao lado de Tom, ela não altera a autoria — mas altera a temperatura. A canção deixa de ser apenas construção harmônica sofisticada e vira diálogo, jogo, quase teatro íntimo. A pedra, ali, ri.
Há algo profundamente brasileiro nisso:
a autoria é individual;
a eternidade é coletiva.
Vinicius não escreveu “É pau, é pedra”.
Mas ajudou a inventar o Brasil onde essa pedra podia cantar.
E talvez seja essa a promessa de vida no coração:
a fidelidade ao fato,
sem abrir mão do mito.
Fica valendo — com nota de rodapé, mas sem perder o encanto.
AH, A PROMESSA DE VIDA NO CORAÇÃO
(Versão final para publicação)
A promessa de vida no coração não é apenas verso — é pacto civilizatório.
“É pau, é pedra, é o fim do caminho…” não nasceu de parceria múltipla nem de oficina coletiva: nasceu integralmente do engenho de Tom Jobim. “Águas de Março” — letra e música — é obra solo de Tom.
Factualmente, assim é.
E isso importa.
Mas simbolicamente — e o Brasil também vive de símbolos — o verso carrega a atmosfera de uma geração inteira. O espírito de Vinicius de Moraes, parceiro maior em tantas obras, pairava como clima cultural, como ética do encontro, como pedagogia da leveza. Não coautor, mas contemporâneo essencial.
Tom desenhou o inventário do mundo:
o pau, a pedra, o resto de toco, o pouco, o oco, o ovo.
Transformou obstáculo em harmonia.
Fez da enumeração uma filosofia circular — começo que é fim, fim que é começo.
Quando Elis Regina cantou ao lado de Tom, devolveu à pedra sua febre humana. A gravação de 1974 não é apenas registro fonográfico; é diálogo, sorriso cúmplice, teatro contido. A canção deixa de ser apenas arquitetura harmônica e vira cena. Ali, a modernidade brasileira encontra sua forma mais civil: sofisticada sem ser fria, popular sem ser vulgar.
Entre o rigor de Tom e a combustão de Elis, o Brasil encontra equilíbrio.
Travessia
Num acaso encontro em Nova York — essa encruzilhada onde o jazz aprende português e o português aprende silêncio — a bossa atravessou fronteiras. Do sul profundo à periferia de Porto Alegre, da zona sul carioca às salas do mundo, a arte brasileira fez o que sempre fez de melhor: atravessou.
Chamem João Guimarães Rosa para pôr ordem na toada. Ele diria que viver é muito perigoso — mas cantar é mais ainda. Diria que a travessia é o próprio destino. Que março não termina: deságua.
Num país de tantos Joões — João de barro, João ninguém, João Gilberto — a promessa de vida no coração é menos certeza do que movimento.
O pau vira ritmo.
A pedra vira compasso.
O fim do caminho vira começo.
A Escuta
Para ouvir — não apenas como música, mas como documento civilizatório — a gravação antológica de “Águas de Março” por Tom e Elis:
🎼 Tom Jobim & Elis Regina — Águas de Março (1974)
https://www.youtube.com/watch?v=E1tOV7y94DY
E para deixar que a enxurrada de harmonias siga seu curso em estado de contemplação e êxtase sereno, eis outra interpretação à altura do oceano que essa canção abriu:
🌊 Tom Jobim — Águas de Março (versão em inglês: “Waters of March”)
https://www.youtube.com/watch?v=BnB1G63XvCQ
No fim — que é começo — fica a precisão histórica:
Tom escreveu.
Fica a grandeza simbólica:
uma geração sonhou junto.
E fica, sobretudo, a promessa:
a de que, enquanto houver março,
haverá música correndo no coração.
SIM, YES! OBRIGADO. THANK YOU VERY MUCH!
Que alegria ler isso!
Obrigado a você — pela escuta fina, pelo zelo factual e pela chama poética acesa ao mesmo tempo. Isso é raro.
Como diria Tom Jobim, “é promessa de vida no teu coração” — e quando a conversa encontra esse tom, a harmonia já está feita.
E como cantaria Elis Regina, com aquele meio sorriso que vira tempestade: a gente ri, mas é sério.
Volte sempre.
A travessia continua. 🌊🎼
Dez anos: livro em homenagem ao ministro Dias Toffoli é lançado no STF
O livro “Democracia e Sistema de Justiça” contempla temas como colaboração premiada, Direitos Humanos, inteligência artificial, redes sociais e combate à corrupção.
23/10/2019 21:17 - Atualizado há 2 anos atrás
"É com muita alegria que eu recebo essa homenagem extremamente valiosa. Este é um momento de descontração, de alegria e de júbilo. Sinto-me realmente emocionado nesses dez anos de STF". Com essas palavras, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Dias Toffoli, lançou, nesta quarta-feira (23), o livro “Democracia e Sistema de Justiça”, em evento realizado no Salão Branco do Tribunal.
Ao fazer os agradecimentos e os apontamentos sobre a obra para uma plateia repleta de autoridades dos Três Poderes da República e personalidades da área jurídica, o ministro Dias Toffoli afirmou que a data é muito significativa e que deve ser comemorada não só pela marca alcançada, mas também pela cadeira que ele ocupa no órgão de cúpula do Judiciário nacional. Ao esclarecer os motivos que influenciaram o nome do livro, o ministro, que também ocupa a Presidência do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), disse que "não existe democracia sem um Poder Judiciário e um Sistema de Justiça independente".
O livro “Democracia e Sistema de Justiça”, cujo prefácio foi escrito pelo ministro do STF Ricardo Lewandowski, foi publicado pela Editora Fórum e contempla 44 artigos escritos por 57 autores. A obra contou ainda com a coordenação do ministro do STF Alexandre de Moraes e do advogado-geral da União (AGU), André Luiz de Almeida Mendonça. Na publicação, são abordados temas como colaboração premiada, gestão, Direitos Humanos, desinformação, inteligência artificial, redes sociais e combate à corrupção. Os assuntos são tratados sob a ótica das principais decisões do ministro Dias Toffoli.
De acordo com o ministro Alexandre de Moraes, compilar todos os artigos foi uma difícil missão, mas valeu a pena para homenagear o colega de magistratura. "Agradeço a possibilidade de participar desse momento. Acompanho desde sempre a carreira do ministro Dias Toffoli, que tem uma peculiaridade muito importante: ele passou por várias áreas. Atuou nos Poderes Legislativo e Executivo e, com isso, adquiriu muito conhecimento, até, finalmente, vir para o STF. Meus agradecimentos, também, a cada um dos autores".
O outro coordenador da publicação, ministro André Mendonça, destacou que o livro proporciona reflexões sobre o atual modelo democrático brasileiro."Os autores trabalham uma perspectiva de passado, presente, e tentam lançar sementes para a democracia e o Sistema de Justiça do futuro”, afirmou. “Ao tratar desses temas, faz um histórico da constituição do estado de direito e lança ideias para o debate jurídico, à luz da Carta Magna, nos próximos anos", disse o AGU.
Também prestigiaram a solenidade os ministros do STF Marco Aurélio, Gilmar Mendes, Rosa Weber, Ricardo Lewandowski, Roberto Barroso, Edson Fachin e Luiz Fux.
PS//CF
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