sábado, 28 de fevereiro de 2026

Entre Keynes, o nacionalismo econômico e os mitos políticos

O carnaval brasileiro tem uma peculiaridade: ele nunca termina exatamente quando o calendário manda. Começa antes, prolonga-se depois e deixa no ar uma espécie de ressaca coletiva. Algo parecido ocorre com a política contemporânea. As disputas não se encerram quando deveriam, as narrativas prolongam-se para além dos fatos e os personagens transformam-se em mitos que passam a organizar a percepção da realidade. Foi nesse clima que Marco Aurélio Nogueira observou, recentemente, que a política brasileira tende a caminhar novamente para um confronto entre dois “mitos”: o lulismo e o bolsonarismo. Em tal cenário, advertiu ele, o debate público tende a perder densidade programática e a transformar-se em um duelo de identidades políticas. Essa observação ajuda a situar um fenômeno mais amplo, que ultrapassa as fronteiras brasileiras. Em diferentes países, a política contemporânea tem sido dominada por lideranças fortemente personalizadas que mobilizam identidades nacionais, ressentimentos sociais e expectativas econômicas.
Entre essas lideranças encontram-se Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, dois personagens frequentemente apresentados como antípodas ideológicos, mas que compartilham algumas características estruturais de atuação política. Para compreender melhor esse paradoxo, convém convocar à roda uma terceira figura intelectual: John Maynard Keynes.
A esfinge do dinheiro e a política No ensaio recente de Luiz Gonzaga Belluzzo e Manfred Back, publicado em CartaCapital, Keynes aparece como o pensador que desafiou a pretensão da economia de prever o futuro com exatidão matemática. No célebre capítulo XII de The General Theory of Employment, Interest and Money, Keynes argumenta que decisões econômicas são tomadas em um ambiente de incerteza radical. Investidores e empresários não operam com certezas, mas com expectativas frágeis, muitas vezes guiadas por estados de confiança ou por ondas de otimismo e pessimismo. Essa percepção altera profundamente a forma de compreender o capitalismo. Se o futuro é intrinsecamente incerto, o sistema econômico não pode depender apenas da autorregulação dos mercados. Torna-se necessário algum tipo de coordenação institucional capaz de estabilizar expectativas e sustentar a atividade econômica. Daí emerge o papel do Estado como agente de estabilização do capitalismo, não como seu substituto.
Trump, a globalização e a ruptura É nesse ponto que a crítica de Marcus Pestana ganha relevância. Em sua leitura, Trump representa uma ruptura com a ordem econômica liberal construída após a Segunda Guerra Mundial. Essa ordem foi organizada em torno de instituições multilaterais como: United Nations International Monetary Fund World Trade Organization Durante décadas, tais instituições sustentaram um modelo de capitalismo baseado na globalização produtiva e na liberalização comercial. Trump rompe parcialmente com esse paradigma ao defender políticas de nacionalismo econômico, protecionismo comercial e prioridade absoluta aos interesses industriais dos Estados Unidos. A retórica do “America First” expressa precisamente essa tentativa de reorganizar a relação entre Estado, mercado e economia nacional. Paradoxalmente, embora se apresente como defensor do mercado, Trump questiona elementos centrais do capitalismo global liberal.
Lula e o desenvolvimentismo O caso brasileiro segue outro caminho. Desde os anos 2000, os governos liderados por Luiz Inácio Lula da Silva têm sido associados a uma tradição desenvolvimentista que combina mercado, políticas sociais e atuação estatal. Nesse modelo, o Estado atua como indutor do crescimento econômico por meio de: investimento público políticas de crédito expansão do mercado interno programas de transferência de renda Tais instrumentos dialogam diretamente com a tradição keynesiana, pois procuram sustentar a demanda agregada e reduzir as oscilações do ciclo econômico. Se Trump representa uma contestação nacionalista da globalização, Lula procura reorganizar o capitalismo brasileiro ampliando o papel do Estado na promoção do desenvolvimento e da inclusão social.
Mitos políticos e democracia Apesar dessas diferenças substantivas, há um ponto de convergência que merece atenção. Tanto Trump quanto Lula operam em sistemas políticos marcados por forte personalização da liderança. Nos Estados Unidos, o trumpismo transformou-se em uma identidade política que ultrapassa o próprio Partido Republicano. No Brasil, o lulismo tornou-se uma referência simbólica que vai além da estrutura partidária do Partido dos Trabalhadores. É nesse terreno que a advertência de Marco Aurélio Nogueira ganha força. Quando a política passa a girar em torno de mitos, ela tende a empobrecer o debate programático e a reduzir a disputa democrática a um confronto de identidades. A democracia deixa então de ser um espaço de deliberação sobre projetos coletivos e transforma-se em um campo de batalha entre narrativas políticas concorrentes. Conclusão A comparação entre Trump e Lula revela um quadro mais complexo do que a oposição simplificada entre direita e esquerda costuma sugerir. Lula apresenta maior afinidade explícita com a tradição keynesiana, tanto em sua retórica quanto em sua prática de governo. Trump, por sua vez, rejeita essa tradição no plano discursivo, mas adota em determinados momentos instrumentos fiscais e industriais que produzem efeitos semelhantes aos previstos pela teoria keynesiana. Ambos permanecem, contudo, dentro do horizonte do capitalismo contemporâneo. Suas diferenças dizem respeito sobretudo às formas de organização do capitalismo nacional que cada um procura promover. Em última análise, Trump e Lula representam variantes distintas de um mesmo fenômeno histórico: o retorno do Estado como instrumento de fortalecimento econômico nacional em um mundo marcado pela incerteza — precisamente a condição que John Maynard Keynes identificou como característica permanente do capitalismo moderno. E talvez seja justamente essa incerteza que explique por que, em tempos de turbulência, as sociedades tendem a buscar não apenas programas econômicos, mas líderes capazes de personificar suas esperanças e seus medos. S Não Tem Solução
O carnaval tem um lado esquecido que define seu paradoxal temperamento de ser, ao mesmo tempo, uma festa profana e sagrada. Se no carnaval as irreverências são possíveis, deve-se lembrar que ele ocorre entre o Advento e a Quaresma – o nascimento e a paixão de Cristo. O carnaval inventa um intervalo libertino entre dois eventos cruciais da religiosidade católica: o nascimento, a morte e a ressurreição de Deus encarnado em Jesus Cristo. A festa de Momo é um espaço de licenciosidades que invertem o cotidiano – gênero e idade são neutralizados; a rua vira casa e a noite, dia; o bloco voluntário substitui a compulsão da família; o canto malicioso, o discurso e a prece; e a estrutura social fantasiosamente se inverte: pobre vira nobre e negro ganha a liberdade do branco. Depois dessa liberdade cósmica expressa no abuso do corpo ou carne – pois carnaval (carne levare) significa “abandonar a carne” –, chega a Quaresma, exprimindo uma polaridade comum em todas as sociedades: depois do excesso e da guerra, vêm a disciplina e a paz. Conforme afirmei nas minhas pesquisas, o papel do carnaval neste Brasil legislado e dominado por gente branca que ocupa altos cargos e, se culpada, escapa da lei pela lei, o carnaval se modernizou. Incorporou dimensões capitalistas, organizando-se em grupos profissionais, com desfiles competitivos, ingressos, tempo regulado e prêmios. Nesses tempos de moderno desencanto, o “brincar” tem sido vencido pela competição que – como no esporte e na vida em geral – determina o campeão e o prêmio. Tudo realizado sob a égide do “progresso” que calcula, racionaliza e, como dizia Max Weber, desencanta. É dentro desse contexto que ocorre a guinada dos deuses, orixás, fadas e outras figuras encantadas para as celebridades. Tudo se passa, como é típico do capitalismo, no movimento que vai dos céus à crueza do mundo real. A fantasia tem sido absorvida pela voracidade capitalista da luta por dinheiro e, com ela, por uma ameaça ainda mais perversa: a da propaganda político-partidária. Se houver esse movimento infeliz de abrir o carnaval para a louvação e a adesão política, como fez a Escola de Samba Acadêmicos de Niterói ao petismo e ao presidente Lula, o carnaval será canibalizado pelo que ele sublima: a luta de classes, sem pandeiro, mas com guilhotinas. Seria o fim do que o carnaval expressa como alternativa simbólica. Será a morte de Dom Carnal pela convencionalidade burra, hipocrisia, mentira e pelas regras que, desde a sua invenção, celebram o lado mais humano da nossa humanidade. O riso pelo riso e a vida mesmo sabendo que se morre. Nota: Se conservador é simbolizado como lata de conserva, todo canhoto seria esquerdista; e os destros, fascistas. PS: Expresso aqui meus sentimentos pela morte do prof. João Baptista Borges Pereira, um companheiro profissional afetuoso.
Por Marialva Barbosa* A célebre frase de Karl Marx na abertura de O 18 de Brumário de Luís Bonaparte, de 1852, ainda que se refira a outros contextos e à conjuntura política da França do século XIX (1), serve como epígrafe do texto que ora apresento e que traz algumas reflexões, a partir da história, sobre o terrível momento em que estamos mergulhados. * Marialva Barbosa é professora titular da Escola de Comunicação (ECO) da UFRJ e pesquisadora do CNPq
Epílogo na avenida O carnaval brasileiro sempre foi mais do que festa. Como lembra Roberto DaMatta, ele é uma espécie de laboratório simbólico da sociedade: um momento em que hierarquias se embaralham, papéis se trocam, identidades se reinventam e o cotidiano é suspenso por alguns dias de licença ritual. Na avenida, o mundo se reorganiza como narrativa. O pobre vira rei, o rei vira caricatura, a ordem vira brincadeira e a brincadeira revela a ordem. A fantasia não oculta a realidade; ela a ilumina por contraste. No desfile carnavalesco, mito e rito caminham juntos: os personagens tornam-se símbolos e os símbolos passam a organizar a percepção coletiva do mundo. Algo semelhante acontece na política contemporânea. Em tempos de incerteza econômica e de turbulência institucional — justamente o tipo de cenário que John Maynard Keynes descreveu como próprio do capitalismo — as sociedades passam a buscar narrativas capazes de dar sentido ao caos. Líderes políticos transformam-se em personagens quase míticos, encarnando expectativas, medos e promessas de redenção coletiva. Assim, o debate público frequentemente se organiza menos em torno de programas e mais em torno de figuras simbólicas. No Brasil, o enredo dominante parece girar em torno de personagens como Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro, enquanto no plano internacional a figura de Donald Trump ocupa papel semelhante na política norte-americana. Cada um deles funciona como um tipo de personagem carnavalesco da política: condensações simbólicas de valores, ressentimentos, projetos e identidades coletivas. Como nos desfiles de escola de samba, o enredo não é apenas racional. Ele é afetivo, narrativo, imagético. Ele organiza o imaginário social. Mas, como também ensina DaMatta, o carnaval não destrói a ordem social: ele a revela. Depois da folia, todos voltam para casa. A fantasia retorna ao armário, os instrumentos silenciam e a vida cotidiana retoma seu curso. O rito termina, mas deixa marcas no modo como a sociedade se percebe. Talvez a política democrática funcione de maneira semelhante. Ela precisa de rituais — eleições, debates, manifestações — e também de narrativas capazes de mobilizar cidadãos. O risco surge quando o mito substitui completamente o debate público e quando a política passa a ser vivida apenas como desfile de identidades irreconciliáveis. Nesse caso, a avenida fica cheia de personagens, mas vazia de projetos. O desafio democrático consiste justamente em manter aberta a praça pública onde os cidadãos possam conversar para além dos mitos, sem negar a dimensão simbólica que inevitavelmente acompanha a vida política. Afinal, como no carnaval, a sociedade precisa de enredos que a representem — mas precisa também lembrar que, ao final do desfile, o que permanece não é a fantasia, e sim a realidade comum que todos terão de compartilhar quando a música parar. E quando isso acontece, talvez a melhor sabedoria seja a mais antiga das escolas de samba da política: saber celebrar, mas também saber governar depois que a avenida se esvazia. 🎭 S

Sexo

Eu sei, e estou certo no Senhor Jesus, que nenhuma coisa é de si mesma imunda a não ser para aquele que a tem por imunda. – Paulo. (Romanos, 14:14.) Quando Paulo de Tarso escreveu esta observação aos romanos, referia-se à alimentação que, na época, representava objeto de áridas discussões entre gentios e judeus. Nos dias que passam, o ato de comer já não desperta polêmicas perigosas, entretanto, podemos tomar o versículo e projetá-lo noutros setores de falsa opinião. Vejamos o sexo, por exemplo. Nenhum departamento da atividade terrestre sofre maiores aleives. Profundamente cego de espírito, o homem, de maneira geral, ainda não consegue descobrir aí um dos motivos mais sublimes de sua existência. Realizações das mais belas, na luta planetária, quais sejam as da aproximação das almas na paternidade e na maternidade, a criação e a reprodução das formas, a extensão da vida e preciosos estímulos ao trabalho e à regeneração foram proporcionadas pelo Senhor às criaturas, por intermédio das emoções sexuais; todavia, os homens menoscabam o lugar santo, povoando-lhe os altares com os fantasmas do desregramento. O sexo fez o lar e criou o nome de mãe, contudo, o egoísmo humano deu-lhe em troca absurdas experimentações de animalidade, organizando para si mesmo provações cruéis. O Pai ofereceu o santuário aos filhos, mas a incompreensão se constituiu em oferta deles. É por isto que romances dolorosos e aflitivos se estendem, através de todos os continentes da Terra. Ainda assim, mergulhado em deploráveis desvios, pergunta o homem pe la educação sexual, exigindo-lhe os programas. Sim, semelhantes programas poderão ser úteis; todavia, apenas quando espalhar-se a santa noção da divindade do poder criador, porque, enquanto houver imundície no coração de quem analise ou de quem ensine, os métodos não passarão de coisas igualmente imundas. Livro PÃO NOSSO – EMMANUEL / Chico Xavier – 94 – Sexo Centro Espírita No Caminho da Luz - Espiritismo Cristão Chico Xavier 12 de junho de 2015 | 1 94 Sexo Pão Nosso #094 - Sexo NEPE Paulo de Tarso | Evangelho e Espiritismo Transmitido ao vivo em 30 de mar. de 2023 Série de estudos, com Artur Valadares, da obra "Pão Nosso", de Emmanuel/Chico Xavier.
A estação de Peirópolis, sem data. Foto cedida por A. C. Belviso PAINEIRASFrederico Peiró residia a quatro léguas da nascente do rio Uberaba, próximo à estação ferroviária de Paineiras — mais tarde, Peirópolis, em homenagem aos grandes serviços que ele prestara ao local — ao pé de uma cadeia de alterosas serras, que descrevem uma curva circular quase fechada, compostas algumas delas de enormes moles de rocha calcárea, donde graças a essa riqueza e ao gênio empreendedor de Peiró, formou-se um núcleo considerável de população laboriosa e próspera, à qual não faltava a escola, a Agência do Correio, o Telefone, a Farmácia Espírita gratuita e outros benefícios. Aquelas rochas são ali convertidas em alta escala, em alvo e saboroso pão, em fartura para toda aquela pequena colmeia humana. Pois não há só indivíduo completamente pobre: têm tudo o que é indispensável à vida, mesmo aqueles que não podem trabalhar por doença ou velhice.” Recolhemos esses dados da Gazeta de Uberaba, de 12 de março de 1910. Transcrevemos da mesma excelente crônica, o extraordinário retrato do espanhol, que teve papel destacado no pioneirismo Espírita do Brasil, em nossa região. 68 Corina Novelino Ei-lo: É um homem de estatura mediana, bem proporcionado, rosto sensivelmente redondo e de traços regulares, cabelos e bigode loiros, olhos azuis, fisionomia simpática e aspecto de bondade. É singelo no vestir e no dizer e jamais faz alarde de suas obras. À primeira vista parecer anglo-saxão; mas viu a luz primeira no esplendoroso sol da zona temperada do hemisfério setentrional, na pitoresca Ibéria, sob céu azul da Andaluzia, no ubérrimo solo da Província de Jean, em Linares. Há cerca de três lustros reside nesta vasta, fértil e encantadora Minas. Emprega a sua atividade, com inteligência, na indústria, no comércio e na agricultura, auferindo bons resultados. Nunca, porém, será grande pela riqueza, pois professa a religião do Bem e essas duas grandezas são, no mesmo indivíduo e no estado atual das coisas, incompatíveis (sic). É um propagandista incansável da evolução, do aperfeiçoamento humano. Acorre e auxilia, moral e materialmente, todas as causas e idéias, que tendem ao bem geral. É justamente estimado por todos aqueles que vivem a seu redor, seguindo-lhe de maneira louvável os exemplos, a sã orientação, que ele sabe imprimir aos seus atos. É um dos poucos homens que têm coração, que sentem os males alheios, que têm a noção das causas que se originam e que cumprem com assombro dever combater estas e diminuir aqueles, na medida de suas possibilidades, prestando aos seus semelhantes a maior soma possível de benefícios. Onde há sofrimentos a mitigar, necessidades a socorrer, enfermos a assistir, prejuízos a combater, aí está o humano indivíduo, cuja imagem tive por um instante ante o objetivo, pronto a prestar todo o seu valioso concurso, a praticar a sublime religião, cujo único ídolo é o Bem. Como se vê, o homem e suas tarefas edificadoras foram focados com respeito, lealdade e abertamente. Todavia, a Doutrina Espírita, que ele professava desde 1896, aparece na imprensa leiga da época sob um véu sutil... Mas, o essencial é salientar a personalidade, seus esforços nas tarefas doutrinárias e fraternas. Um opúsculo, divulgado em 1915, dedicado a Frederico Peiró pela colônia espanhola, de Uberaba, traz importante registro histórico, no campo do Espiritismo, em Minas Gerais. Acentua o valioso documentário que, até 1893, Frederico Peiró era materialista, adiantando, que, nesse tempo, freqüentou sessões espíritas, Eurípedes — o Homem e a Missão 69
O mandamento maior 4. Mas, os fariseus, tendo sabido que ele tapara a boca aos saduceus, se reuniram; – e um deles, que era doutor da lei, foi propor-lhe esta questão, para o tentar: – Mestre, qual o grande mandamento da lei? – Jesus lhe respondeu: Amarás o Senhor teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu espírito. – Esse o maior e o primeiro mandamento. – E aqui está o segundo, que é semelhante ao primeiro: Amarás o teu próximo, como a ti mesmo. – Toda a lei e os profetas se acham contidos nesses dois mandamentos. (S. MATEUS, 22: 34 a 40.) 5. Caridade e humildade, tal a senda única da salvação. Egoísmo e orgulho, tal a da perdição. Este princípio se acha formulado nos seguintes precisos termos: “Amarás a Deus de toda a tua alma e a teu próximo como a ti mesmo; toda a lei e os profetas se acham contidos nesses dois mandamentos.” E, para que não haja equívoco sobre a interpretação do amor de Deus e do próximo, acrescenta: “E aqui está o segundo mandamento que é semelhante ao primeiro”, isto é, que não se pode verdadeiramente amar a Deus sem amar o próximo, nem amar o próximo sem amar a Deus. Logo, tudo o que se faça contra o próximo o mesmo é que fazê-lo contra Deus. Não podendo amar a Deus sem praticar a caridade para com o próximo, todos os deveres do homem se resumem nesta máxima: FORA DA CARIDADE NÃO HÁ SALVAÇÃO. O Evangelho seg. o Espiritismo [Ep95] Parábola do Bom Samaritano (cap XV, 1-3)
Náo perca a chance de ser feliz. A felicidade de um instante fica gravada para sempre no coração.
PEIRÓPOLIS 🦕 Do presente ao passado: A História de Peirópolis antes dos fósseis setembro 23, 2019 Pet História Peirópolis, bairro uberabense ícone da Paleontologia, tem uma História singular. Quando passeamos pelos jardins ou visitamos o Museu, deslumbrados pelo bucolismo do lugar, quase ninguém percebe que ali já foi uma estação ferroviária. Este espaço, bem como outra dezena de construções da região central do bairro passaram,desde 1992, por processos de tombamentos pelo Patrimônio Histórico de Uberaba. Todo este processo e a conversão do prédio da antiga estação férrea em Museu Paleontológico foi uma luta empenhada pelos moradores da comunidade. No fim da década de 1980, eles se uniram, através da Associações do Amigos e Moradores de Peirópolis, para barrar a dinamitação das rochas para exploração do calcário, já que elas continham grande quantidade de fósseis por escavar. Além disso, munidos de um sentimento coletivo e conscientes da riqueza patrimonial dos fósseis, os moradores lutaram por um espaço de pesquisa e exposição dos fósseis encontrados no bairro, pois, na ausência deste espaço, eles eram levados para o Rio de Janeiro. Trabalho este articulado pelo renomado cientista – e que hoje nomeia o museu – Dr. Llewellyn Ivor Price (1905- 1980). Assim, a comunidade conquistou este espaço de pesquisa e exposição no prédio da antiga estação férrea. Ela esteve abandonada desde 1970, quando foi desativada. Neste intervalo (1970-1992), o bairro teve uma estagnação do grande movimento que a ferrovia proporcionava. A causa disso? Um trágico acidente em 28 de setembro de 1970. O trem descarrilou em uma subida e os vagões de cimento tombaram sobre os vagões de pessoas. A tragédia deixou uma comunidade de famílias em luto e encerrou a célebre ferrovia. Ela representa uma saudade constante de um bairro distante da urbanidade, porém, completamente antenado. A ferrovia integrava o bairro com todas as cidades vizinhas através do transporte de pessoas, além de escoar a produção do cal. Peirópolis que antes se chamava Paineiras (1899), foi reflexo do progresso brasileiro dos anos 1910 e 1920. Além da prosperidade econômica na figura da ferrovia, o bairro era rural, mas se comunicava com outros lugares através da linha telefônica na Casa da Telefonista e um posto dos Correios e Telégrafos na estação, que recebia correspondências diariamente. O nome que homenageia a estação em 1924 é do imigrante espanhol Frederico Peiró (1859-1915). Empreendedor e visionário, ele chega ao bairro na mesma década que a ferrovia, em meados de 1890. Peiró é o precursor de dois eventos marcantes e que atravessam a história do lugar: a religião e a escola. Amigo de Eurípedes Barsanulfo, Peiró estimulou o espiritismo, sendo que, esta foi a religião preponderante no bairro, que possui três centros espíritas. Nos dias de hoje, o espiritismo teve uma pequena decadência, mas ainda é forte e coexiste pacificamente com católicos e protestantes. A escola também é icônica: datando de 1910, em um período em que a educação era elitizada, o espanhol construiu uma escola para os filhos de seus funcionários. Atualmente ela está sob a gestão municipal. Assim, do Passado ao Presente, na Pacata Paineiras, passou Peiró com o Progresso, passou o Price com a Paleontologia e a peculiar Peirópolis pode parecer um pedacinho do paraíso.
Fontes ¹http://www.portaluberaba.online/peiropolis-e-tema-de-livro-que-sera-entregue-com-sessao-de-autografos-no-dia-28-de-junho/ ²http://www.curtamais.com.br/uberaba/peiropolis-a-terra-dos-dinossauros-e-um-dos-passeios-imperdiveis-em-uberaba ³Acervo PET História UFTM, 2019. ⁴Acervo PET História UFTM, 2019 ⁵Acervo PET História UFTM, 2019 ⁶Associação dos Amigos e Moradores de Peirópolis, sem data. ⁷Acervo da Associação de Amigos de Peirópolis, década de 1980 ⁸Acervo da Associação de Amigos de Peirópolis, 1989 ⁹Lista de Agências Postais em 1911 enumera uma agência na Estação Paineiras em Uberaba - Hemeroteca Digital. Diccionario Postal Brasileiro, 1911. Edição A00068, p.66. Disponível em: http://bit.ly/2kWZ6Jn ¹⁰Lista de ida e volta de trens na Estação Paineiras da Companhia Mogyana. Almanak Laemmert, 1910, Edição A00067, p.399. Disponível em: http://bit.ly/2mzTpkM
Tobias Rosa foi um dos dirigentes do Jornal Gazeta de Uberaba. Imagem do final do século XIX. Acervo: Superintendência do Arquivo Público de Uberaba. Jornal Gazeta de Uberaba Acervo: 1879 a 1912 A Imprensa no Brasil: Os jornais são referências fundamentais para as pesquisas historiográficas por garantirem acesso à informação e revelarem ideologias diferenciadas, as tradições, os usos, os costumes, as atividades comerciais, os aspectos políticos, sociais, culturais e econômicos, que marcaram a trajetória de um povo. No Brasil, qualquer atividade de imprensa era proibida antes de 1808 e, consequentemente a imprensa brasileira nasceu tardiamente, assim como o ensino superior, as manufaturas, a própria independência política e a abolição da escravatura. Ao contrário dos principais países latino-americanos, o Brasil entrou no século XIX sem tipografia, sem jornais e sem universidades, inviabilizando a formação do público leitor. Isso gerou um legado de analfabetismo, sentido até hoje. A primeira tipografia a funcionar de forma duradoura no País viria a bordo da nau Medusa, integrante da esquadra que transferiu a Corte Portuguesa para o Brasil em 1808, fugindo das tropas napoleônicas. Utilizando-se desse material tipográfico o príncipe D. João baixou um decreto em 13 de maio de 1808, determinando a instalação da Impressão Régia no Rio de Janeiro, com a ressalva de que nela “se imprimam exclusivamente toda a legislação e papéis diplomáticos que emanarem de qualquer repartição do meu real serviço, e se possam imprimir todas e quaisquer obras, ficando inteiramente pertencendo seu governo e administração à mesma Secretaria”. A imprensa brasileira tem como marcos fundadores: o lançamento, em Londres, do Correio Braziliense, em 1º de junho, e a criação da Gazeta do Rio de Janeiro, em 10 de setembro, ambos de 1808. Apesar dos percalços e limitações, a imprensa brasileira conquistou espaço em sua trajetória histórica e possui um número apreciável de jornais que têm revelado notável capacidade de inovação técnica e editorial, o que lhes permitem vencer todos os desafios surgidos até hoje. A Imprensa em Uberaba: Em Uberaba, a imprensa surgiu em fins do século XIX e desde então revela fatos importantes que marcaram a história da cidade e do Brasil. Os jornais fundados na cidade tiveram o desafio de construir um jornalismo informativo, crítico e esclarecedor. O primeiro jornal impresso que se tem notícia no Triângulo Mineiro surgiu em Uberaba, intitulado O Paranaíba, que segundo o pesquisador Hildebrando Pontes[1], foi criado pelo médico francês Henriques Raimundo des Genettes em 01 de outubro de 1874. Hildebrando Pontes revela que a maioria dos primeiros impressos obedecia a fins políticos, “daí ser a política uma das causas que mais eficazmente contribuíram para o progressivo desenvolvimento da imprensa entre nós” [2]. Lembra que por estes impressos manterem posicionamentos políticos em suas abordagens, alguns jornalistas sofreram violências das partes ofendidas. Segundo Hildebrando Pontes, em boa parte era graças aos jornais que a civilização ganhava força: “Hoje, graças ao benemérito influxo da civilização, cuja maior parte se deve à imprensa, a leitura de jornais é tão necessária ao espírito como o alimento que da vida e força ao organismo. Um fato parece não ter importância se dele não se ocupa a imprensa”. Jornal Gazeta de Uberaba: Com a preocupação em viabilizar para o público o acesso às informações pertinentes à imprensa de Uberaba, a Superintendência do Arquivo Público tem como um dos objetivos recuperar acervos documentais. Diante disso, intermediou junto a Arnaldo Rosa Prata, ex-prefeito de Uberaba, a disponibilização do Jornal Gazeta Uberaba para ser digitalizado e disponibilizando via internet para o público. O Gazeta de Uberaba foi distribuído pela primeira vez em 1875 e teve como primeiro diretor e redator José Alexandre de Paiva Teixeira. Na primeira etapa de sua existência foi publicado até fevereiro de 1876. Em 27 de abril de 1879 o mesmo jornal foi recriado por João Caetano e Tobias Rosa (tio de Arnaldo Rosa Prata) e nessa época o impresso manteve uma atuação político-partidária oponente ao Partido Liberal que era representado por outro jornal com o título de Correio Uberabense. O Jornal Gazeta de Uberaba foi o quarto periódico criado em Uberaba. Arnaldo Rosa Prata resguarda o acervo há anos e gentilmente emprestou os jornais para serem digitalizados pela Superintendência do Arquivo Público de Uberaba. Um acervo de grande importância para a história do município e região e se refere ao período de 27 de abril de 1879 a 1912. O Gazeta de Uberaba era um periódico semanal, que após 30 de novembro de 1894 passou a circular seis vezes por mês. Em 1º de janeiro de 1903, a circulação passou a ser diária e tornou-se o primeiro jornal diário que Uberaba teve. Nas oficinas montadas com capricho, na Rua Tristão de Castro, nº 2, executavam-se excelentes trabalhos de arte tipográfica. A sua tiragem era de 1.200 exemplares impressos em 4 a 6 páginas. Na sua existência de aproximadamente meio século de circulação, o Gazeta de Uberaba contava com um numeroso corpo de colaboradores representados por distintos jornalistas nacionais e estrangeiros. Em 1891 assumiu a direção do jornal o professor Alexandre Barbosa, sucedido pelo promotor de justiça pública de Uberaba, Joaquim José Saraiva Júnior, que também não permaneceu por muito tempo na direção, uma vez que foi transferido para a Promotoria de Monte Alegre. Sendo assim, a coordenação e redação passaram para as mãos de Chrispiniano Tavares, José Maria Teixeira de Azevedo e outros. Quando entrou em cena a República, a aderência política afeita pela folha ajustou-se ao Partido Republicano Mineiro (PRM). Já no ano de 1895, o então proprietário do jornal Gazeta de Uberaba, Tobias Antônio Rosa, mudou-se para o município de Ribeirão Preto, levando consigo o jornal, que passou a ser intitulado São Paulo e Minas. Em 1897 Tobias Antônio Rosa voltou para Uberaba e reabriu as portas da redação do jornal com o seu nome anterior, Gazeta de Uberaba. Na sucessão da presidência do Estado de Minas Gerais, de Bias Fortes, para Silviano Brandão, surgiu em Uberaba o Partido da Lavoura e Comércio, entidade que representava os interesses de segmentos econômicos da região que eram contrários às taxações cobradas em detrimento aos seus interesses financeiros. Assim nasceu também o jornal Lavoura e Comércio, em 1889, de propriedade de Antônio Garcia de Adjunto. O embate de interesses políticos na região ficou marcado claramente nas linhas editorias dos dois jornais: de um lado estava o Gazeta de Uberaba, alinhado com as proposições políticas do governo de Minas Gerais, de Silviano Brandão; do outro lado, o Lavoura e Comércio, entrincheirando os interesses classistas locais. A oposição do jornal Gazeta de Uberaba ao jornal Lavoura e Comércio se deu até a fusão do Partido da Lavoura e Comércio com o Partido Republicano Mineiro, em janeiro de 1903. Após esse período o Gazeta de Uberaba centrou-se noutras questões de interesses gerais como relata Pontes[3]. Hildebrando Pontes, mostra no seu estudo sobre a imprensa de Uberaba que, o Gazeta de Uberaba, a partir de 1909, ajustou seu enfoque editorial à defesa do recém-criado Partido Civilista, contrário a indicação feita pela convenção nacional ao pleito da Presidência da República. Hildebrando Pontes ainda conta que o jornal tomou outra linha absolutamente diferente pela marcada até então, quando: [...] Entretanto por transação de 21 de janeiro do ano seguinte, entre os diretores os senhores Tobias Rosa e Filho e o Coronel Américo Brasileiro Fleury, passou a ser, a Gazeta de Uberaba, desse dia em diante propriedade do último. Essa transação inverteu diametralmente, os pólos de defesa política do jornal, que passou a ser agora, órgão francamente hermista, politicamente redigida pelo deputado Afrânio de Mello Franco, e literariamente redigido pelo José Afonso de Azevedo, figurando, ainda, no seu corpo de colaboradores, além de outros, o Dr. José Julio de Freitas Coutinho, Juiz Municipal de Uberaba. Cessada a campanha hermista, continuou como órgão do PRM, redactoriado pelos doutores Lauro de Oliveira Borges, Alaor Prata Soares e José Julio de Freitas Coutinho. (PONTES, JORNAL CORREIO CATÓLICO, 1931. n/p). A partir de 24 de janeiro de 1911, o jornal Gazeta de Uberaba tornou-se “Propriedade de uma Associação”, dirigida pelos mesmos senhores, menos o Dr. Coutinho, que se retirou. No entanto, o Jornal Gazeta de Uberaba teve suas atividades interrompidas em 1912. Em novembro de 1913, o coronel Tobias Rosa, fundou a Gazeta do Triângulo, uma associação que defendia os interesses do PRM – Democrata. Em 1915 rearticulou a volta do Gazeta de Uberaba, que dessa vez atendia aos interesses do “Partido da Concentração Municipal de Uberaba”. Desse modo, o Gazeta de Uberaba funcionou até 1917, ano em que faleceu o coronel Tobias Antônio Rosa. Marta Zednik de Casanova Superintendente do Arquivo Público de Uberaba
Jornal: O Estado de S. Paulo Data: Quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026 Seção: Cultura & Comportamento Autor: Roberto DaMatta Política no carnaval? O carnaval tem um lado esquecido que define seu paradoxal temperamento de ser, ao mesmo tempo, uma festa profana e sagrada. Se no carnaval as irreverências são possíveis, deve-se lembrar que ele ocorre entre o Advento e a Quaresma — o nascimento e a paixão de Cristo. O carnaval inventa um intervalo libertino entre dois eventos cruciais da religiosidade católica: o nascimento, a morte e a ressurreição de Deus encarnado em Jesus Cristo. A festa de Momo é um espaço de licenciosidades que invertem o cotidiano — gênero e idade são neutralizados; a rua vira casa e a noite, dia; o bloco voluntário substitui a compulsão da família; o canto malicioso, o discurso e a prece; e a estrutura social fantasiosamente se inverte: pobre vira nobre e negro ganha a liberdade do branco. Depois dessa liberdade cósmica expressa no abuso do corpo ou carne — pois carnaval (carne levare) significa “abandonar a carne” —, chega a Quaresma exprimindo uma polaridade comum em todas as sociedades: depois do excesso e da guerra, vêm a disciplina e a paz. Conforme afirmei nas minhas pesquisas, o papel do carnaval neste Brasil legislado e dominado por gente branca que ocupa altos cargos e se culpada escapa da lei pela lei, o carnaval se modernizou. Incorporou dimensões capitalistas, organizando-se em grupos profissionais, com desfiles competitivos, ingressos, tempo regulado e prêmios. Nesses tempos de modernização e desencanto, o “brincar” tem sido vencido pela competição que — como no esporte e na vida em geral — determina o campeão e o prêmio. Tudo realizado sob a égide do “progresso” que calcula, racionaliza e, como dizia Max Weber, desencanta. É dentro desse contexto que ocorre a guinada dos deuses, orixás, fadas e outras figuras encantadas para as celebridades. Tudo se passa, como é típico do capitalismo, no movimento que vai dos céus à crueza do mundo real. A fantasia tem sido absorvida pela voracidade capitalista da luta por dinheiro e, com ela, por uma ameaça ainda mais perversa: a da propaganda político-partidária. Se esse movimento infeliz de abrir o carnaval para a louvação e a adesão política, como fez a Escola de Samba Acadêmicos de Niterói ao petismo e ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o carnaval será canibalizado pelo que ele sublima: a luta de classes, sem pandeiro, mas com guilhotinas. Seria o fim do que o carnaval expressa como alternativa simbólica. Será a morte de Dom Carnal pela convencionalidade burra, hipocrisia, mentira e pelas regras que, desde a sua invenção, celebram o lado mais humano da nossa humanidade. O riso pelo riso e a vida mesmo sabendo que se morre. Nota: Se conservador é simbolizado como lata de conserva, todo canhoto seria esquerdista; e os destros, fascistas. PS: Expresso aqui meus sentimentos pela morte do prof. João Baptista Borges Pereira, um companheiro profissional afetuoso. Roberto DaMatta é antropólogo, escritor e autor de “Carnavais, Malandros e Heróis”.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

O dia mais difícil

Para quem só espera a repetição do que já aconteceu, o acontecimento inédito chega como ruptura — e o deixa, por um instante decisivo, atônito diante do inesperado. COISAS NOSSAS Night Lights A 'Nesse sentido, os últimos meses do ano de 1888 têm a força de um exemplo – e de um exemplo completamente demolidor para ele.'
A revolta dos escravos e o fim do Império 1975 - CANTO DO POVO DE UM LUGAR Todo dia o sol levanta E a gente canta Ao sol de todo dia Fim da tarde a terra cora E a gente chora Porque finda a tarde Quando a noite a lua mansa E a gente dança Venerando a noite Tonada Música y letra: Caetano Veloso © 1975 Ed. Gapa/Saturno
Letra: Queria ser pandeiro Pra sentir o dia inteiro A tua mão na minha pele a batucar Saudade do violão e da palhoça Coisa nossa, coisa nossa O samba, a prontidão E outras bossas, São nossas coisas, São coisas nossas! Malandro que não bebe, Que não come, Que não abandona o samba Pois o samba mata a fome, Morena bem bonita lá da roça, Coisa nossa, coisa nossa O samba, a prontidão E outras bossas, São nossas coisas, São coisas nossas! Baleiro, jornaleiro Motorneiro, condutor e passageiro, Prestamista e o vigarista E o bonde que parece uma carroça, Coisa nossa, muito nossa O samba, a prontidão E outras bossas, São nossas coisas, São coisas nossas! Menina que namora Na esquina e no portão Rapaz casado com dez filhos, sem tostão, Se o pai descobre o truque dá uma coça Coisa nossa, muito nossa O samba, a prontidão E outras bossas, São nossas coisas, São coisas nossas! Música Noel Rosa - "São Coisas Nossas" (Noel Rosa Pela Primeira Vez Vol. 3/2002) Gravadora Galeão O DIA MAIS DIFÍCIL: LULINHA NA MIRA, O FANTASMA DE FLÁVIO E PALANQUES EMPACADOS MyNews
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026 Quebra de sigilo do filho de Lula mostra cerco da oposição ao governo, por Luiz Carlos Azedo Correio Braziliense A CPMI do INSS deixou de ser apenas instrumento de apuração e se converteu em arena de desgaste continuado. Opera em dois tempos: o jurídico e o midiático A quebra dos sigilos bancário e fiscal de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, pela CPMI do INSS, somada à decisão judicial que já havia autorizado medidas semelhantes no âmbito da investigação criminal, representaram uma típica “bola nas costas” no Palácio do Planalto. O governo vinha administrando a comissão com relativa folga, amparado por maioria circunstancial e pela capacidade de modular convocações incômodas. A votação que atingiu o filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva mudou o eixo político da CPMI. O fato novo não é apenas a deliberação da comissão parlamentar. O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), já havia autorizado a quebra de sigilos em investigação conduzida pela Polícia Federal. Agora, Lula está diante de um duplo cerco, um na frente política (CPMI), outro na judicial (STF), que vão se apertar e aumentar o desgaste pessoal do presidente da República e do governo. A CPMI investiga descontos indevidos em benefícios de aposentados e pensionistas do INSS, supostamente operacionalizados por Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”. O prejuízo é estimado em R$ 6,3 bilhões e atinge um segmento social historicamente associado à base eleitoral do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Trata-se de um escândalo com alto potencial simbólico: envolve idosos, renda mínima e confiança no Estado. Até a citação de Lulinha, o governo se defendia com uma narrativa eficaz: tratava-se de esquema iniciado em 2019, atravessando a gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro. O Palácio do Planalto tomou providências para ressarcimento e apuração rigorosa do escândalo. A entrada do filho do presidente no radar, mesmo que não seja denunciado, altera a equação. Mesmo que não se prove qualquer ilícito, o custo político é sobretudo eleitoral. A oposição ganha uma narrativa fácil para comunicação com o eleitor, associando corrupção bilionária, aposentados prejudicados e possível elo com familiar do presidente. Como a mulher de Cesar, o dilema dos filhos de presidentes ajuda a ilustrar o problema: não basta ser honesto; é preciso parecer honesto. A situação impõe a Lula uma postura institucionalmente correta, reafirmar autonomia da PF e do Judiciário, mas pessoalmente constrangedora. A comissão deixou de ser apenas instrumento de apuração e se converte em arena de desgaste continuado. Opera em dois tempos: o jurídico e o midiático. O primeiro depende de provas; o segundo, de fatos políticos e vazamentos seletivos. Mesmo sem indiciamento, a simples manutenção do nome de Lulinha no noticiário por meses já produzirá efeito corrosivo. É nesse ponto que o governo se torna dependente do Centrão. Para evitar convocações mais agressivas, ampliação de diligências ou pautas hostis, o Executivo precisa negociar apoio permanente. Isso significa concessões orçamentárias, espaço político e influência em cargos estratégicos. O custo da governabilidade será muito alto. Promiscuidade Em ano eleitoral, qualquer associação entre o presidente e escândalo que atinja aposentados tem peso ampliado. Ainda que Lula tenha afirmado publicamente que “ninguém ficará livre” e que “se tiver filho meu envolvido, será investigado”, a oposição explorará cada etapa da investigação como evidência de fragilidade moral. Um governo eleito com discurso de reconstrução institucional e justiça social passa a depender ainda mais de alianças pragmáticas para conter danos políticos. Escândalos envolvendo familiares têm impacto próprio. Mesmo quando não resultam em condenação, alimentam percepções difusas de promiscuidade entre público e privado. E percepções, nas eleições, são como fatos. O INSS nasceu em 1990 da fusão do IAPAS com o INPS e convive historicamente com fraudes, desde o caso Jorgina de Freitas nos anos 1990 até os esquemas atuais. O problema é estrutural: fragilidade de controles, volume gigantesco de recursos e capilaridade nacional. O escândalo atual é ainda maior e ocorre em ambiente de hiperexposição digital. Se nada for comprovado contra Lulinha,o governo poderá alegar tentativa de exploração política. Mas até lá, a investigação será uma dor de cabeça permanente. Cada nova fase da Operação Sem Desconto, cada novo depoimento ou planilha apreendida, reacenderá a controvérsia. O Planalto também subestimou o potencial de convergência entre investigação judicial e iniciativa parlamentar. A quebra de sigilo, tanto na esfera da CPMI quanto na decisão do ministro do STF, cria um corredor institucional difícil de bloquear sem custo político elevado. Para contê-lo, o governo terá que se entender com o Centrão nos termos estabelecidos pelos presidentes do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), e da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB). Ontem, a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI)do INSS ouviu Paulo Otávio Montalvão Camisotti, filho do empresário Maurício Camisotti, e aprovou a quebra dos sigilos bancário e fiscal de Fabio Luís Lula da Silva, o Lulinha.A sessão foi precedida por confusão e chegou a ser suspensa após bate-boca entre parlamentares. A base governista decidiu recorrer ao presidente do Congresso, Davi Alcolumbre (União-AP), para contestar a votação que aprovou a quebra de sigilo fiscal e bancário de Lulinha, no âmbito da CPMI do INSS. Sua decisão ainda é uma charada.
Entre a investigação e a narrativa: a política como arena de desgaste permanente A decisão da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que apura irregularidades no Instituto Nacional do Seguro Social de aprovar a quebra de sigilo bancário e fiscal de Fábio Luís Lula da Silva reposicionou o eixo político da investigação. Até então, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva conseguia administrar a comissão dentro de uma margem razoável de previsibilidade, apoiado em articulações parlamentares e na tentativa de circunscrever a apuração a fatos ocorridos em gestões anteriores. A entrada do filho do presidente no radar da investigação altera substancialmente essa equação. Não apenas pelo seu conteúdo jurídico — ainda sujeito à produção de provas e à verificação de eventuais responsabilidades —, mas sobretudo pelo impacto político inerente à exposição prolongada de familiares de chefes de governo em investigações de grande visibilidade. Em democracias contemporâneas, comissões parlamentares raramente funcionam exclusivamente como instrumentos técnicos de investigação. Elas operam em dois planos simultâneos: o jurídico e o político-midiático. No primeiro, a comissão exerce poderes constitucionais relevantes — convocação de testemunhas, requisição de documentos e aprovação de medidas investigativas. No segundo, produz fatos políticos capazes de influenciar a agenda pública, mobilizar narrativas e alterar a correlação de forças no debate público. Esse fenômeno não é exclusivo do Brasil. Parlamentos de diversas democracias utilizam comissões investigativas como instrumentos de fiscalização e também como arenas de disputa política. A diferença reside na intensidade com que essas dimensões se sobrepõem. Em contextos de elevada polarização política e intensa exposição digital, a dimensão simbólica tende a ganhar protagonismo. No caso brasileiro, a investigação ocorre em um terreno particularmente sensível. O INSS administra recursos destinados a aposentados e pensionistas — um dos pilares do sistema de proteção social do país. Fraudes envolvendo benefícios previdenciários produzem repercussão imediata, não apenas pela dimensão financeira, mas pelo impacto moral associado à vulnerabilidade do público afetado. Nesse cenário, cada decisão institucional passa a produzir efeitos que transcendem o processo investigativo. A autorização judicial para quebra de sigilos no âmbito de investigações conduzidas pela Polícia Federal — incluindo decisões proferidas por ministros do Supremo Tribunal Federal, como André Mendonça — cria uma convergência entre esferas investigativas que amplia a complexidade do caso. Essa convergência entre investigação parlamentar e judicial produz aquilo que cientistas políticos descrevem como “corredores institucionais de pressão”: processos paralelos que se retroalimentam, ampliando o alcance e a visibilidade da investigação. Em paralelo, emergem no debate público especulações recorrentes sobre a existência de jogos políticos previamente calculados — interpretações que sugerem que determinados movimentos institucionais fariam parte de arranjos tácitos entre atores políticos. A metáfora frequentemente mobilizada para ilustrar essa percepção é a das manipulações esportivas, nas quais partidas aparentemente competitivas ocultariam resultados previamente acordados. Contudo, uma análise institucional mais rigorosa recomenda cautela diante desse tipo de leitura. Sistemas democráticos complexos raramente operam por meio de roteiros previamente definidos. O que prevalece, em geral, é a interação estratégica entre atores com interesses distintos e incentivos institucionais próprios. A experiência brasileira recente fornece exemplos claros desse dinamismo institucional. Decisões judiciais proferidas por ministros do Supremo, como Dias Toffoli, tiveram impacto profundo em investigações de grande repercussão pública, incluindo processos relacionados à Operação Lava Jato e casos envolvendo autoridades políticas de diferentes espectros ideológicos. Essas decisões, embora fundamentadas juridicamente na proteção de garantias constitucionais e na legalidade dos procedimentos investigatórios, frequentemente geram interpretações políticas divergentes. Para alguns setores, representam correções necessárias a excessos investigativos; para outros, simbolizam limitações indevidas à responsabilização de agentes públicos. Essa tensão revela um fenômeno sociológico mais profundo: a crescente dificuldade de separar, no debate público, a análise jurídica da interpretação política. Em ambientes polarizados, decisões institucionais passam a ser lidas menos por seus fundamentos normativos e mais por suas consequências políticas percebidas. Nesse contexto, investigações que envolvem familiares de governantes adquirem peso simbólico particular. A história política demonstra que, mesmo na ausência de condenações formais, tais episódios frequentemente deixam marcas duradouras na percepção pública de integridade e legitimidade. O desafio das instituições democráticas, diante desse cenário, é preservar a credibilidade de seus procedimentos. Investigações precisam ser conduzidas com rigor jurídico e transparência, evitando tanto a instrumentalização política quanto a percepção de seletividade. A política democrática não é um jogo previamente combinado. Mas tampouco é um espaço neutro de apuração técnica. Trata-se, antes, de uma arena permanente de disputa — onde direito, poder e narrativa se entrelaçam de forma inevitável. O resultado final dessas disputas raramente é determinado por um único ato institucional. Ele emerge, ao longo do tempo, da interação entre investigações, decisões judiciais, disputas parlamentares e, sobretudo, da forma como a sociedade interpreta esses acontecimentos. Em última instância, é essa interpretação coletiva — construída no espaço público — que define o verdadeiro impacto político de episódios como o que agora mobiliza Brasília.
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026 Quebrado ao meio, Ivan Alves Filho O filósofo alemão Friedrich Nietzsche, que tanto marcou o pensamento moderno, afirmou certa vez desejar “quebrar ao meio a História da Humanidade”. Talvez ele não tenha logrado seu intento. Mas pelo menos uma certeza podemos ter: Friedrich Nietzsche quebrou ao meio a sua própria história. Explico: o filósofo passaria os últimos onze anos de sua existência internado em um asilo de alienados. Morreu em 1900, logo após completar 56 anos. Teve pouco tempo para produzir, como se vê, mas o fez intensamente. Provavelmente por vislumbrar a tragédia, Nietzsche não seria o primeiro na história do pensamento. Acusado frequentemente de ser um filósofo de propósitos autoritários, Friedrich Nietzsche recorreu por diversas vezes aos aforismos como forma de expressar o seu pensamento. Curiosamente, o aforismo implica a adoção de um sistema aberto por parte do pensador. É seguramente contrário a qualquer rigidez conceitual. Não fica difícil perceber que Nietzsche se recusou a colocar uma grade no que quer que seja. Pensa como vive, ou seja, em liberdade. Apesar das especulações existentes em torno da sua concepção de Übermensch (ou Super-homem) o termo utilizado por Friedrich Nietzsche tem mais que ver com a ideia de uma superação a que o homem deve buscar sempre, no sentido de ultrapassar suas dificuldades e até limites. Assim, essa concepção nada tem que ver com uma noção de mundo dos nazistas, que dela tentaram se apropriar, transformando-a em algo que apontava para uma Herrenrasse (ou uma raça de mestres, superior às demais). Seu sistema de raciocínio é flexível, revelando semelhanças com aquele de outro gigante da filosofia europeia, Michel de Montaigne. E talvez seja o caso também de pensarmos em Chamfort e em suas máximas. De qualquer forma, a agilidade mental dos autores de aforismas impressiona ainda hoje. Assim, em um diálogo travado com Ruhlière, o moralista Chamfort, ao ouvir dele que em sua vida só cometeu “uma única maldade”, replicou imediatamente: “E quando ela vai terminar?” Nietzsche foi influenciado inicialmente por Arthur Schopenhauer, pelo músico Wagner e pela tragédia grega, três constantes em seu trabalho. Depois, romperia com o pessimismo de Schopenhauer. Vive de forma modesta, compõe muito e viaja, sobretudo pela Itália e pela Alemanha. Na verdade, estamos a mil léguas de um pensamento especulativo meramente abstrato. Nietzsche busca na própria vida a matéria para suas reflexões. Não é nem de longe um acadêmico, um filósofo profissional. Não é pago para pensar. Pelo contrário: paga o preço pelo que pensa. Mesmo sendo esse preço extremamente alto, como de fato o foi. O próprio filósofo apontava para essa característica fundamental de sua obra e em seus últimos escritos pedia que ninguém tomasse “partido” por ela, querendo apenas ser olhado pelas pessoas “com uma dose de curiosidade, como uma planta estranha”. E uma bela oportunidade de praticar isso nos é dada pela leitura de seus melhores textos filosóficos, publicados na prestigiosa coleção Bibliothèque de la Pléiade, da editora Gallimard, de Paris. Na edição coordenada por Marc de Launay, alguns textos são inéditos inclusive. Trata-se da edição definitiva dos escritos de Friedrich Nietzsche, não resta dúvida. Há ali muitas, mas muitas plantas estranhas mesmo. Muito se especulou (e se especula até hoje) a respeito da loucura de Nietzsche. Foram levantadas as mais diferentes hipóteses, da sífilis à psicose maníaco-depressiva. Provavelmente ninguém chegará a uma conclusão exata. Até porque o cérebro humano possui cerca de 100 bilhões de neurônios, ultra compactados em uma massa de pouco mais de um quilo e meio, totalmente interligados entre si. Difícil mesmo de entender. De toda maneira, o próprio Friedrich Nietzsche percebia que algo não ia lá muito bem com ele. Assim, já em 1881, apenas oito anos antes de enlouquecer, o autor de Genealogia da moral escrevia ao seu amigo Peter Gast: “Ah, amigo, tenho por vezes o pressentimento de levar uma vida muito perigosa. Meu espírito me diz que sou uma dessas máquinas que podem explodir de uma hora para outra”. Dito e feito. E vamos tentar saber por qual razão, independentemente das especulações a respeito de sua saúde mental. Há quem estabeleça ligações, por exemplo, entre a evolução do seu pensamento (ou do próprio ritmo de seu pensamento, melhor dizendo até) e a instalação da loucura em seu cérebro. Poderia ter sido um caso extremo de estafa. Nesse sentido, os últimos meses do ano de 1888 têm a força de um exemplo – e de um exemplo completamente demolidor para ele. Esses são meses quase emblemáticos, para não dizer mesmo fatais, para esse grande leitor de Stendhal e Dostoiévski. A produção intelectual de Friedrich Nietzsche nesse período impressiona qualquer pessoa. Vejamos então. Em agosto de 1888, ele redigiu O caso Wagner. Em setembro, O crepúsculo dos ídolos. Em outubro, O anticristo. Em novembro, Nietzsche escreveu Ecce Homo. Ou seja, um ritmo simplesmente alucinante. “Trabalhe em algo, para que o diabo te encontre sempre ocupado”, asseverou São Jerônimo. E Nietzsche parece ter seguido isso à risca, apesar de nunca ter professado muitas simpatias pelo Cristianismo, cuja moral criticava, conforme sabemos. Mas Nietzsche nutria uma grande admiração por Cristo. O filósofo alemão ainda não se daria por satisfeito, contudo: antes mesmo daquele fatídico ano de 1888 terminar, ele põe um ponto final em dois outros trabalhos ou ensaios, intitulados respectivamente Ditirambos de Dionísio e Nietzsche contra Wagner. Um assombro. Certa vez, o filósofo escreveu algo que se encaixa perfeitamente em sua trajetória: “Quanta verdade suporta, de quanta verdade é capaz um espírito? Essa sempre foi para mim a mais preciosa e mais valiosa medida...Toda conquista, todo passo adiante na senda do conhecimento é fruto de um ato de valor, de dureza contra si mesmo, de própria depuração”. Isso posto, é preciso reconhecer os equívocos de Nietzsche em matéria de pensamento, uma vez que, por intermédio da apologia que fez do absurdo e do desespero, contribuiu seguramente para conduzir a filosofia ocidental a alguns impasses sérios. Seja como for, a 3 de janeiro de 1889 Friedrich Nietzsche mergulhava para sempre na loucura. O seu cérebro certamente não aguentou tamanha carga. Na verdade, cérebro algum talvez suportasse. *Ivan Alves Filho, historiador Enem 2023: Caetano Veloso responde questão que o menciona na prova Enem 2024: questão polêmica sobre Caetano Veloso tem resposta oficial diferente da apontada pelo cantor; veja gabarito Pergunta aborda o uso reiterado da palavra 'coisa' em uma crônica com referências intertextuais a músicas do artista baiano. Caetano marcaria a "A", mas Inep considerou a "C" como a certa. Por Redação g1 — São Paulo 14/11/2024 09h58 Atualizado há um ano Caetano Veloso responde questão do Enem na qual é citado Os organizadores do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2024 não tiveram a mesma interpretação de Caetano Veloso ao decidirem qual a alternativa correta na questão que citava músicas do artista. Segundo o gabarito oficial, divulgado nesta quinta-feira (14) pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), a resposta correta é a "C". Caetano, no entanto, em vídeo compartilhado nas redes sociais em 4 de novembro, afirmou que marcaria a "A". Professores ouvidos pelo g1 chegaram a sugerir que as duas opções fossem consideradas certas. O Inep descartou essa possibilidade. ➡️Qual a questão "polêmica"? Era da prova de Linguagens (33 da prova VERDE 🟢, 20 da AZUL🔵, 8 da BRANCA⚪ e 45 da AMARELA🟡). ➡️Qual era o tema? A pergunta trazia uma crônica em que a autora, Tati Bernardi, menciona seu nervosismo ao notar que já escreveu textos com o termo genérico "coisa". Em um tom bem-humorado, ela faz uma reflexão de maneira metalinguística: emprega essa palavra 11 vezes, incluindo cognatos (vocábulos que têm etimologicamente uma origem comum), como "coisar" e "coisinha". Em todos os momentos, há referências a versos cantados por Caetano. Cabia ao candidato decidir qual o recurso usado para garantir a "progressão textual" do trecho. Veja abaixo:
Questão 33 da prova VERDE — Foto: Reprodução ➡️Quais seriam as duas alternativas supostamente corretas? Segundo Eduardo Calbucci, professor do Anglo, o uso reiterado de "coisa" contribui para a progressão textual e para a unidade temática do texto, dando à palavra uma função poética e destacando seu papel como um "termo coringa". Isso justificaria marcar a alternativa C, que foca na repetição da palavra e no seu impacto na estrutura do texto ("reiteração, marcada pela repetição de um determinada palavra e de seus cognatos"). Contudo, Bernardi também faz referências diretas a quatro canções de Caetano Veloso: "Qualquer Coisa", "Sampa", "Lindeza" e "Samba de Verão". Como essas músicas contêm a palavra "coisa", seu uso na crônica estabelece uma intertextualidade relevante para o desenvolvimento e a coesão temática, justificando também a alternativa A (intertextualidade, marcada pela citação de versos de letras de canções"), apontada por Caetano. Por isso, Calbuci sugeriu que as duas opções fossem consideradas corretas. O Inep, no entanto, classificou a "C" como a certa. Enem 2024: correção da questão de Português sobre Coisa de Caetano Veloso Enem Inep

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Tolamente, um parlamentar

E talvez — com a modéstia dos antigos — apenas um homem da velha guarda.
Lula perde favoritismo e Flávio consolida a candidatura da oposição Publicado em 26/02/2026 - 08:07 Luiz Carlos Azedo Brasília, Comunicação, Economia, Eleições, Goiás, Governo, Justiça, Memória, Paraná, Partidos, Política, Política, Rio Grande do Sul Cenários reforçam essa percepção. Em três simulações contra Flávio Bolsonaro, Lula oscila entre 45% e 45,3%, enquanto o senador varia entre 39,1% e 39,5% A pesquisa Atlas/Bloomberg, divulgada nesta quarta-feira (25), confirma aquilo que já vinha se desenhando nos levantamentos mais recentes: a eleição presidencial de 2026 está aberta, o favoritismo de Luiz Inácio Lula da Silva deixou de ser confortável e Flávio Bolsonaro consolida-se como o polo da direita na disputa, cristalizando novamente uma polarização dura, de alta rejeição dos dois lados. Os números falam por si. No principal cenário testado, Lula aparece com 45% das intenções de voto, contra 37,9% de Flávio. O importante é o movimento: em relação à rodada anterior, Lula perdeu 3,8 pontos percentuais, enquanto Flávio cresceu 2,9. No segundo turno, Flávio Bolsonaro alcança 46,3% das intenções de voto, e Lula registra 46,2%, dentro da margem de erro de um ponto percentual. Em comparação ao levantamento anterior, o presidente recuou três pontos, enquanto o senador avançou 1,4 ponto. Trata-se de uma inflexão relevante, sobretudo porque ocorre em um momento em que o governo ainda colhe indicadores econômicos menos negativos e mantém políticas populares, como a isenção do Imposto de Renda até R$ 5 mil e a proposta de redução da jornada de trabalho. A oposição já sentiu o cheiro de animal ferido na floresta: Lula segue liderando, mas já não transmite a sensação de vitória antecipada. O “prêmio de incumbência”, isto é, a expectativa natural de poder associada ao exercício da Presidência, começa a se dissipar. A eleição deixa de ser percebida como um referendo confortável sobre o governo e passa a ser vista como uma disputa real, competitiva, em que cada erro de comunicação, cada tropeço simbólico e cada ruído institucional contam muito. Os cenários alternativos reforçam essa percepção. Em três simulações diferentes contra Flávio Bolsonaro, Lula oscila entre 45% e 45,3%, enquanto o senador varia entre 39,1% e 39,5%. A distância permanece, mas é estável e estreita, dentro de um ambiente de polarização máxima. Já no cenário em que entra Tarcísio de Freitas, Lula cai para 43,3%, e o governador paulista aparece com 36,2%, acompanhado de um crescimento expressivo de Romeu Zema. Esse quadro indica que a direita, quando consegue apresentar nomes competitivos, reduz ainda mais a margem do presidente. Lweia também: Atlas/Bloomberg: Lula e Flávio empatam no segundo turno O quinto cenário, no qual Lula amplia a vantagem para 47,1% contra 33,1% de Flávio, mostra que a base lulista permanece sólida, graças à “economia do afeto”, mas também revela a volatilidade do eleitorado intermediário, aquele que decide eleições apertadas, refratário à “cultura de rechaço” do PT. No sexto cenário, com a substituição de Lula, Haddad aparece com 39,1%, tecnicamente empatado com Flávio, que marca 37,1%. Esse empate revela que Haddad se tornou eleitoralmente viável, algo impensável poucos anos atrás; e mostra que Lula continua sendo o grande fiador eleitoral do campo governista. Sem ele, a disputa fica ainda mais imprevisível. “Nós com nós” Flávio Bolsonaro alcançou seu objetivo central: herdou o antipetismo, bloqueou o surgimento de uma terceira via robusta e se tornou o nome natural da direita. É impressionante a sua capacidade de “absunção” do capital eleitoral do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. Mesmo sem o carisma do pai, o sobrenome, o apoio do núcleo duro bolsonarista e a convergência quase automática da direita não lulista em torno de sua candidatura fazem de sua candidatura a expressão de um movimento orgânico na sociedade. Leia mais: Flávio monta palanques no Rio, em SC e no DF A pesquisa mostra também que governadores como Caiado, Zema, Ratinho Júnior ou Eduardo Leite terão que comer muito feijão com arroz para saírem da condição periférica no primeiro turno, incapazes, até aqui, de romper a lógica binária. Nesse escalão, destaca-se a resiliência do governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), que tem mais gana de ser candidato do que os governadores do Paraná, Ratinho Jr, e do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, apesar das simpatias da Faria Lima e dos que sonham com a “terceira via”. Lula continua competitivo, lidera todos os cenários e dispõe da máquina federal, de políticas públicas populares e de uma economia que dá sinais de melhora marginal. Mas está entrando numa faixa muito perigosa, que pode lhe custar a aura de invencibilidade natural em quem concorre à reeleição. De agora em diante, cada gesto passa a ser escrutinado. O PT precisa tirar o boizinho da sombra e ir à luta, buscar mais protagonismo no Congresso e tecer alianças amplas nos estados. Em um país dividido quase ao meio, como indicam reiteradamente as pesquisas, a vitória em 2026 dependerá menos de ampliar bases já consolidadas e mais da capacidade de dialogar com um eleitorado cético, volátil e cansado da política. Nesse contexto, não há margem para erros nem para soberba. Episódios do tipo “nós com nós”, como desfile da Acadêmicos de Niterói, por exemplo, que mexeram com a autoestima de Lula e seu partido, e ao mesmo tempo seguiram a lógica da narrativa do “nós contra eles”, têm o outro lado da moeda: não ampliam a base política e dão munição aos adversários. Nas entrelinhas: todas as colunas no Blog do Azedo O CARNAVAL DOS PENDURICALHOS: TETO SALARIAL FURADO, VERBAS SEM IMPOSTO E BOLADAS MILIONÁRIAS MyNews Ensaio sociológico Polarização política e o equilíbrio degradado do sistema brasileiro 1. Introdução A política brasileira contemporânea pode ser interpretada como um sistema de equilíbrio instável entre polos antagonistas. A disputa recorrente entre lideranças como Luiz Inácio Lula da Silva e o campo político associado a Jair Bolsonaro — atualmente representado eleitoralmente por figuras como Flávio Bolsonaro — revela menos uma alternância de projetos nacionais e mais um mecanismo de neutralização recíproca. Esse fenômeno pode ser analisado sociologicamente por meio de uma metáfora ambiental inspirada na história do Rio Tietê, cuja degradação urbana se tornou símbolo das contradições do desenvolvimento brasileiro. Assim como o rio atravessa a maior metrópole do país carregando diferentes tipos de poluição, o sistema político brasileiro transporta conflitos históricos, desigualdades sociais e narrativas ideológicas concorrentes, produzindo um equilíbrio funcional, porém profundamente deteriorado. 2. Polarização como estrutura do sistema político A polarização política não é apenas um fenômeno eleitoral. Trata-se de uma estrutura de organização do conflito social. Desde meados da década de 2010, o sistema político brasileiro passou a operar segundo uma lógica de bipolaridade identitária, na qual os campos políticos se definem menos por programas e mais por antagonismos. Nesse modelo: cada polo fortalece sua identidade ao rejeitar o outro; o eleitorado é mobilizado por sentimentos de pertencimento e repulsa; alternativas intermediárias encontram grande dificuldade de consolidação. O resultado é um sistema em que a disputa política se transforma em confronto simbólico permanente, reduzindo o espaço para consensos institucionais. 3. A metáfora ambiental: o rio como sistema social Estudos ambientais conduzidos por pesquisadores da Universidade de São Paulo mostram que a poluição do Tietê resulta da convergência de múltiplas fontes: esgoto doméstico urbano; resíduos industriais; sedimentação histórica da urbanização. Paradoxalmente, certos processos químicos entre esses poluentes podem produzir neutralizações parciais, impedindo a morte completa do ecossistema. Contudo, essa sobrevivência não significa recuperação. O rio continua degradado, sustentado por um equilíbrio tóxico. Essa lógica oferece uma poderosa analogia sociológica: o sistema político também pode sobreviver em condições degradadas quando forças antagonistas se neutralizam mutuamente sem resolver as causas estruturais do conflito. 4. Neutralização política e estabilidade precária Na dinâmica política brasileira recente, a rivalidade entre os principais polos ideológicos produz um efeito semelhante. Cada campo político mobiliza sua base social por meio da rejeição ao adversário. Assim, a existência de um polo radicalizado legitima e fortalece o outro. Essa interação cria um circuito de retroalimentação: o antipetismo fortalece o bolsonarismo; o antibolsonarismo fortalece o lulismo; ambos se sustentam politicamente pela permanência do conflito. O sistema permanece operacional — eleições acontecem, instituições continuam funcionando — mas o ambiente político torna-se cada vez mais saturado por tensões e ressentimentos. 5. Urbanização, crise social e rios subterrâneos A metáfora pode ser ampliada para além da política eleitoral. Nas grandes cidades brasileiras, rios foram canalizados, ocultados ou comprimidos sob o crescimento urbano. Em períodos de pressão climática ou saturação da infraestrutura, esses cursos d’água reaparecem na forma de enchentes e deslizamentos. De modo semelhante, conflitos sociais frequentemente permanecem latentes sob a superfície institucional: desigualdade estrutural; precarização do trabalho; crise de representação política; descrédito nas instituições. Essas tensões funcionam como rios subterrâneos da vida social, acumulando pressão ao longo do tempo. 6. Democracia em equilíbrio degradado Do ponto de vista sociológico, o Brasil pode ser compreendido como uma democracia que opera em equilíbrio degradado. O sistema não colapsa, mas também não resolve suas contradições fundamentais. Ele continua funcionando porque seus antagonismos se estabilizam mutuamente. Esse tipo de equilíbrio apresenta três características principais: alta polarização política; instituições resilientes, porém tensionadas; dificuldade de renovação estrutural. Tal configuração não significa necessariamente decadência irreversível, mas indica que mudanças profundas dependem de transformações sociais que ultrapassem o campo eleitoral. Conclusão A política brasileira, assim como certos rios urbanos, continua a fluir mesmo sob condições adversas. O desafio sociológico consiste em compreender que a estabilidade de um sistema não implica necessariamente sua saúde. Enquanto antagonismos políticos se neutralizam e mantêm o fluxo institucional, as águas da vida social seguem carregando sedimentos históricos, conflitos não resolvidos e expectativas de mudança que, em algum momento, poderão alterar novamente o curso do rio democrático brasileiro. Oposição quebra sigilo de Lulinha e PT parte para agressão | Narrativas #569 Madeleine Lacsko O Antagonista
"Putin mergulhou numa situação que dá razão aos que foram mais realistas do que ele e que sabem que a Rússia está perdendo, pois não conseguiu ganhar, e a Ucrânia está ganhando, pois não perdeu." CPMI do INSS quebra sigilo de Lulinha | Fim dos ... YouTube · O Antagonista · 26 de fev. de 2026

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

QUATRO ANOS DE HISTÓRIA

Silêncio De Um Minuto Não te vejo e não te escuto O meu samba está de luto Eu peço o silêncio de um minuto Homenagem a história De um amor cheio de glória Que me pesa na memória Nosso amor cheio de glória De prazer e de emoção Foi vencido e a vitória Cabe à tua ingratidão Tu cavaste a minha dor Com a pá do fingimento E cobriste o nosso amor Com a cal do esquecimento Teu silêncio absoluto Obrigou-me a confessar Que o meu samba está de luto Meu violão vai soluçar Luto preto é vaidade Neste funeral de amor O meu luto é saudade E saudade não tem cor Maria Bethânia Composição: Noel Rosa. WW - UCRÂNIA TRANSFORMA SOBREVIVÊNCIA EM TRUNFO - 24/02/2026 CNN Brasil
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026 Julgamento de mandantes do assassinato de Marielle será divisor de águas, Luiz Carlos Azedo Correio Braziliense O crime contou com a cobertura do próprio chefe da Polícia Civil à época, o delegado Rivaldo Barbosa, que prejudicava as investigações para evitar que chegassem aos verdadeiros assassimos e seus mandantes A Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) iniciou ontem o julgamento dos acusados de mandar matar a vereadora carioca Marielle Franco e o seu motorista, Anderson Gomes, com o pedido de condenação dos réus pela Procuradoria-Geral da República (PGR) e as defesas dos acusados. Marielle foi morta a tiros em 14 de março de 2018, no bairro da Lapa, na região central da capital fluminense. A vereadora, que saía de um evento com mulheres negras, foi assassinada com quatro disparos na cabeça. Anderson Gomes, motorista do carro que a transportava, foi atingido por três projéteis nas costas e morreu. Advogados dos denunciados pediram a absolvição do grupo; alegam falta de provas e questionam a veracidade da delação do principal responsável pela execução de Marielle e Anderson, o ex-policial militar Ronnie Lessa. Querem a absolvição de Domingos Inácio Brazão, conselheiro do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro; João Francisco Inácio Brazão, deputado federal cassado; Rivaldo Barbosa de Araújo Júnior, delegado e ex-chefe da Polícia Civil do RJ, Ronald Paulo Alves Pereira, major da Polícia Militar; e Robson Calixto Fonseca, policial militar e ex-assessor de Domingos Brazão. Todos acusados de duplo homicídio qualificado e tentativa de homicídio contra a assessora Fernanda Chaves, além de organização criminosa. Hoje, os ministros deverão apresentar seus votos, sendo relator o ministro Alexandre de Moraes. Em circunstâncias normais, todos seriam submetidos ao 4º Tribunal do Júri do Rio de Janeiro e julgados por cidadãos comuns, como aconteceu com Ronie Lessa e Élcio Queiroz. Ocorre que Chiquinho Brazão, um dos envolvidos, tem foro privilegiado por ter ocupado o cargo de deputado federal. Somente seis anos depois do crime, foram condenados os ex-policiais militares Ronnie Lessa, que reconheceu ter sido autor dos disparos, a 78 anos e 9 meses de prisão; e Élcio Queiroz, que confessou ter dirigido o carro usado no crime, aos 59 anos e oito meses. O Caso Marielle é um divisor de águas porque desnuda a conexão entre a política fluminense, o crime organizado e a corrupção no sistema de segurança pública. Tanto que a defesa de Rivaldo Barbosa se empenhou em desqualificar a acusação de corrupção e lavagem de dinheiro. Segundo a defesa, não haveria prova de pagamentos ao delegado nem de que foi nomeado para o cargo por influência dos irmãos Brazão. Ronnie Lessa, entretanto, revelou a existência de negócios milionários dos irmãos Domingos e Chiquinho Brazão por trás das execuções. A vereadora atrapalhava a venda de terrenos e imóveis em loteamentos ilegais na região de Jacarepaguá, Zona Oeste do Rio de Janeiro, que poderiam render milhões de dólares. “Era muito dinheiro”, disse o ex-policial militar, ligado ao chamado Escritório do Crime. Lessa disse que o crime foi encomendado por Domingos, ex-conselheiro do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro (TCE-RJ), e seu irmão, o deputado federal Chiquinho, sob promessa de que receberia um loteamento clandestino que poderia render até R$ 20 milhões, e passaria a ser um chefe de milícia. “Na verdade, não fui contratado para matar Marielle, como um assassino de aluguel. Eu fui chamado para uma sociedade”, disse. Segundo Lessa, houve três reuniões para discutir a execução de Marielle. Negócio milionário A formação de milícias é um negócio milionário no Rio de janeiro, porque envolve venda de terrenos, construção e aluguéis de imóveis; exploração de comércio ilegal, como venda de botijões de gás, internet e tevê a cabo piratas; gatos nas redes elétrica e de distribuição de água, serviços de van e motoboys. Ou seja, toda a economia informal que se forma nessas regiões é controlada pelas milícias, que ocupam o espaço deixado pelo poder público, cujas políticas públicas são capturadas por grandes interesses privados. Assim como territórios dominados por traficantes, o mercado imobiliário das milícias está acoplado ao uso eleitoral do controle sobre a população, daí a forte conexão com o mundo político e setores da segurança pública, que deveriam combater as organizações criminosas. O que deseja um cidadão de periferia é um mínimo de qualidade de vida — ou seja, água, esgoto, energia, meios de comunicação, saúde, educação e cultura, meios de transporte e abastecimento de gêneros adequados. Onde o poder público não garante esses serviços, as milícias têm um terreno fértil: achacam, chantageiam e matam, como os traficantes. Para agravar a situação, o envolvimeto dos milicianos com políticos faz com que até os serviços fornecidos pelo Estado passem a ser explorados pelo crime organizado. A morte de Marielle Franco é o exemplo das conexões do crime organizado com a política e as dificuldades de combatê-lo, por causa da sua infiltração no aparelho de segurança. Marielle foi assassinada em plena atividade política como parlamentar, que debatia o tema da violência. O crime contou com a cobertura do próprio chefe da Polícia Civil à época, o delegado Rivaldo Barbosa, que prejudicava as investigações para evitar que chegassem aos mandantes. Somente após a Polícia Federal entrar no caso é que o crime foi elucidado, e Barbosa foi preso. O delegado chegou a prometer aos pais de Marielle que o assassinato não ficaria impune. Caçada Chico Buarque Não conheço seu nome ou paradeiro Adivinho seu rastro e cheiro Vou armado de dentes e coragem Vou morder sua carne selvagem Varo a noite sem cochilar, aflito Amanheço imitando o seu grito Me aproximo rondando a sua toca E ao me ver você me provoca Você canta a sua agonia louca Água me borbulha na boca Minha presa rugindo sua raça Pernas se debatendo e o seu fervor Hoje é o dia da graça Hoje é o dia da caça e do caçador Hoje é o dia da graça Hoje é o dia da caça e do caçador Eu me espicho no espaço feito um gato Prá pegar você bicho do mato Saciar a sua avidez mestiça Que ao me ver se encolhe e me atiça E num mesmo impulso me expulsa e abraça Nossas peles grudando de suor Hoje é o dia da graça Hoje é o dia da caça e do caçador Hoje é o dia da graça Hoje é o dia da caça e do caçador De tocaia fico a espreitar a fera Logo dou-lhe o bote certeiro Já conheço seu dorso de gazela Cavalo brabo montado em pelo Dominante, não se desembaraça Ofegante, é dona do seu senhor Hoje é o dia da graça Hoje é o dia da caça e do caçador Composição: Chico Buarque. A simple way to understand wave motion A ELEIÇÃO MAIS IMPORTANTE DO BRASIL NÃO É A PRESIDENCIAL: ISSO EXPLICA MUITA COISA DA POLÍTICA BRASILEIRA Por analogia ao estilo analítico de Antonio Lavareda A obsessão presidencialista A cada ciclo eleitoral no Brasil , repete-se um fenômeno previsível: o debate público concentra-se quase inteiramente na disputa pelo Palácio do Planalto . A imprensa, as redes sociais e a militância tratam a eleição presidencial como se fosse o único pleito relevante. Essa leitura, embora compreensível, é incompleta. O sistema político brasileiro é presidencialista, mas opera sobre uma engrenagem parlamentar complexa. Quem ignora isso costuma se surpreender quando um presidente recém-eleito descobre que ganhar a eleição não significa, necessariamente, governar. A chave está nas eleições legislativas. Em 2026 , os eleitores brasileiros não escolherão apenas o presidente da República. Estarão também renovando toda a Câmara dos Deputados e dois terços do Senado. E é aí que a equação política realmente se define. O poder decisivo da Câmara dos Deputados A Câmara dos Deputados é o verdadeiro centro gravitacional do poder legislativo brasileiro. São 513 deputados , eleitos proporcionalmente nos estados. Toda a Casa é renovada a cada eleição. É nela que: nascem a maior parte dos projetos de lei se decide o orçamento federal são instaladas CPIs e, sobretudo, se autoriza ou não a abertura de processos de impeachment . Em termos práticos, o presidente governa apenas se tiver maioria na Câmara — ou se conseguir construí-la por meio de coalizões. A história recente confirma esse padrão. Tanto Fernando Collor quanto Dilma Rousseff perderam seus mandatos após perderem sustentação parlamentar. O papel estratégico do Senado Se a Câmara define o ritmo da política cotidiana, o Senado Federal funciona como uma espécie de câmara de estabilidade institucional. São 81 senadores , com mandatos de oito anos. Em 2026, 54 cadeiras (dois terços da Casa) estarão em disputa. O Senado possui atribuições que influenciam diretamente o equilíbrio entre os poderes: aprova ministros do Supremo Tribunal Federal julga processos de impeachment sabatina autoridades indicadas pelo governo decide questões institucionais sensíveis. Por isso, o resultado dessa eleição pode definir o ambiente político de todo um governo. O sistema de coalizões e o papel do centro Outro elemento decisivo da política brasileira é a fragmentação partidária. O Congresso costuma reunir mais de uma dezena de partidos relevantes, o que torna inevitável a formação de coalizões. Nesse contexto, blocos pragmáticos do centro político — frequentemente associados ao chamado Centrão — tornam-se pivôs da governabilidade. Eles raramente definem eleições presidenciais. Mas quase sempre definem quem consegue governar depois delas . 2026: duas eleições em uma As eleições de 2026 terão, portanto, duas camadas simultâneas. A primeira é a disputa presidencial, ainda marcada pela polarização entre campos políticos associados a Luiz Inácio Lula da Silva e J air Bolsonaro. A segunda, menos visível mas possivelmente mais decisiva, será a formação do novo Congresso. O resultado dessa eleição legislativa responderá perguntas fundamentais: O presidente eleito terá maioria parlamentar? A oposição controlará a agenda do Congresso? O centro político continuará atuando como fiel da balança? Sem essas respostas, qualquer análise presidencial fica incompleta. O verdadeiro termômetro do poder Há uma lição recorrente na experiência política brasileira. Presidentes podem vencer eleições com grande votação popular e ainda assim enfrentar enormes dificuldades para governar. Isso acontece porque, no desenho institucional brasileiro, o poder é distribuído entre Executivo e Legislativo de forma muito mais equilibrada do que a narrativa pública costuma admitir. Por essa razão, analistas experientes frequentemente fazem uma provocação que parece contraintuitiva: a eleição mais importante do Brasil não é a presidencial . É a eleição para o Congresso. A presidência define quem ocupa o comando formal do governo. Mas é o Congresso que determina até onde esse comando pode ir . AO VIVO: WW - 25/02/2026 CNN Brasil Chico Buarque - 1994 - Programa Ensaio / TV Cultura