Inspirados já nos ensinamentos de Sófocles, aqui, procurar-se-á a conexão, pelo conhecimento, entre o velho e o novo, com seus conflitos. As pistas perseguidas, de modos específicos, continuarão a ser aquelas pavimentadas pelo grego do período clássico (séculos VI e V a.C).
segunda-feira, 29 de junho de 2026
A Tabuleta das Gerais
Esther Solano afirma que haverá bolsonarismo sem a figura de Bolsonaro
Folha de S.Paulo
25 de jun. de 2026
Pesquisadora afirma ao programa Desenquadrando que extrema direita interpretou transformações sociais em curso no país
Flávio Bolsonaro era visto como moderado, mas agora é percebido como cínico por eleitores, segundo Solano.
segunda-feira, 29 de junho de 2026
Lula precisa mesmo de palanque em Minas? Por Bruno Carazza*
Valor Econômico
Disputa presidencial tem outras dinâmicas com emendas parlamentares e polarização
Na edição de 19 de junho, a revista The Economist trouxe uma matéria chamando Minas Gerais de espelho do Brasil e termômetro das eleições presidenciais deste ano.
As comparações se prestam a esclarecer ao público estrangeiro dois fatos repetidos na imprensa brasileira a cada quatro anos: a diversidade da composição populacional no segundo colégio eleitoral do país (que possui regiões conectadas com o Nordeste, o Centro-Oeste, Rio de Janeiro e São Paulo) e a coincidência estatística de que até hoje nenhum candidato foi eleito para o Palácio do Planalto sem também se sagrar vencedor em Minas Gerais.
Mirando as eleições deste ano, a publicação britânica destacou tanto as dificuldades de Flávio Bolsonaro em pacificar a direita mineira - fragmentada diante da decisão do ex-governador Romeu Zema (Novo) em lançar-se em voo solo à Presidência e a postura não submissa do deputado Nikolas Ferreira (PL) à liderança bolsonarista - quanto as sucessivas visitas de Lula ao Estado nos últimos meses.
Também nas últimas semanas o noticiário político deu bastante espaço para as articulações do Partido dos Trabalhadores em definir um candidato a governador em Minas. Depois da desistência do senador Rodrigo Pacheco (PSB), Lula titubeou entre apoiar o ex-prefeito de Belo Horizonte Alexandre Kalil (PDT), o ex-presidente da Câmara da capital mineira Gabriel Azevedo (MDB) e o empresário Josué Gomes (PSB) - filho de José Alencar (1931-2011), seu vice nos dois primeiros mandatos.
Na semana passada, Lula e as lideranças nacionais do PT teriam batido o martelo e decidido lançar uma candidatura própria ao Palácio da Liberdade. No entanto, o nome mais forte do partido no Estado, a ex-prefeita de Contagem Marília Campos, não está disposta a arriscar uma eleição quase certa ao Senado em nome de uma aventura com poucas chances de vitória como governadora.
O impasse reflete as dificuldades de Lula em constituir um palanque para fortalecer a sua campanha em Minas, mas tem como pano de fundo as particularidades da política mineira. Na década passada, escândalos de corrupção quase dizimaram os dois principais grupos políticos que rivalizavam entre si na capital mineira e no Estado: os tucanos ligados a Aécio Neves e os petistas comandados por Fernando Pimentel.
Por outro lado, a ascensão de Zema na onda bolsonarista de 2018 não foi capaz de ocupar de forma definitiva o vácuo de poder - tanto que seu sucessor, o vice Mateus Simões, patina nas pesquisas de opinião. Nos últimos levantamentos, quem lidera com ampla margem é o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos), um político de direita com discurso popularesco alinhado a Jair Bolsonaro, mas que ultimamente tenta se colocar como independente.
Peculiaridades locais à parte, essa questão da importância de Lula ter um palanque em Minas merece ser relativizada - e, quem sabe, também servir como termômetro e espelho para outras regiões do Brasil. Como pode ser visto no gráfico, não há uma correlação forte entre os históricos de votação de candidatos do PT a presidente e os postulantes ao governo estadual vindos do próprio partido ou aliados.
Em tempos de polarização acirrada no plano nacional, tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro dividem o eleitorado sem depender tanto do apoio de candidatos a governador pedindo votos em seu nome no interior dos Estados.
Por outro lado, mesmo que a capilarização da campanha continue importante para fidelizar simpatizantes e conquistar a pequena parcela de eleitores independentes, a dinâmica do coronelismo brasileiro sofreu uma mudança relevante com o surgimento das bilionárias emendas parlamentares. Se antes as políticas públicas levadas a cabo pelo governo estadual eram fundamentais para cooptar prefeitos e lideranças locais, hoje deputados e senadores conquistam essa lealdade de forma direta, irrigando suas bases eleitorais com dezenas de milhões de reais transferidos diretamente para os municípios.
Seguindo essa nova lógica da distribuição do poder, o maior problema de Lula em Minas pode não estar na carência de um palanque forte para governador. O PT conta com apenas nove representantes entre os 53 deputados e três senadores mineiros no Congresso. Além de poucos distribuidores de emendas, o partido tem poucos receptores locais: nas eleições de 2024, o partido elegeu apenas 35 prefeitos nas 853 cidades do Estado.
No espelho do Brasil, Lula só tem a própria imagem refletida na campanha.
*Bruno Carazza é professor associado da Fundação Dom Cabral e autor de “O País dos Privilégios (volume 1) e “Dinheiro, Eleições e Poder”, ambos pela Companhia das Letras.
A Tabuleta das Gerais
Por Marília Campos
Há na política um vício antigo, comum às almas que confundem o tamanho do próprio chapéu com a vastidão do céu, que consiste em desenhar o destino dos outros sem antes consultar-lhes a têmpora ou o estômago. Falo com a autoridade de quem governou Contagem por quatro vezes, ouvindo a voz do povo e não os sussurros que ecoam dos palácios da Corte. Agora, ao renunciar aos dois anos finais de meu mandato, vejo-me cercada por conselheiros de ocasião, todos munidos do pincel da conveniência partidária.
Lumbrai-vos de Custódio, o célebre confeiteiro de Machado de Assis em Esaú e Jacó. Assustado com a queda do Império e a subida da República, Custódio paralisou-se diante de sua tabuleta. Se pintasse "Confeitaria do Império", a turba republicana quebrar-lhe-ia as vidraças; se arriscasse "Confeitaria da República", os saudosistas do Imperador boicotariam seus doces. Brasília, hoje, assemelha-se a esse mestre-sala das massas. O presidente Luiz Inácio, em sua infinita sabedoria de monarca republicano, quer que eu pinte na minha tabuleta o teto do Palácio Tiradentes. Exige que eu dispute o governo de Minas Gerais tão somente para servir de anteparo, de palanque dócil aos seus desígnios nacionais, ignorando que minha rota já está traçada rumo ao Senado Federal.
O erro dos que habitam o topo da pirâmide é crer que Minas se governa por controle remoto ou por decretos de fidelidade cega. Querem-me como Aires, o conselheiro neutro, que assistia às brigas dos gêmeos com um sorriso cético e nenhuma ação? Não. Recuso o papel de peão no xadrez alheio.
Basta olharmos para os lados para ver o resultado das tabuletas pintadas sob encomenda de Brasília. Em São Paulo, Fernando Haddad aceitou a encomenda, pintou o que o chefe mandou e colheu a derrota para o governo estadual. No Paraná, Gleisi Hoffmann submeteu-se ao mesmo figurino e assistiu ao naufrágio de suas pretensões ao Executivo. Foram sacrificados no altar da estratégia centralizadora, que prefere o território devastado à perda do controle da narrativa.
Minas Gerais não é paragem para experimentos coloniais. O eleitorado mineiro, tal qual o Conselheiro Aires, guarda uma desconfiança natural de quem exibe entusiasmo excessivo ou ordens vindas de fora. Desejo um palanque que eu possa chamar de meu, construído com o suor de quem conhece as esquinas de Contagem e as carências das Gerais, e não um palanque emprestado, cujas tábuas rangem ao sabor dos interesses de Brasília.
A Real Política, afinal, sobrevive tanto na República quanto no Império, mas os reinos passam e as lideranças locais, se forem autênticas, permanecem. Se o partido insiste em um equívoco estratégico para agradar ao soberano, manterei meus olhos no Senado. Custódio acabou por pintar apenas "Confeitaria do Custódio", salvando o seu negócio por focar na própria identidade. Minha tabuleta está limpa, o giz é meu, e nela escreverei o futuro que Minas escolheu, não o que Brasília tentou me impor.
Na linha do horizonte — onde o mar encontra o tempo e o tempo encontra a memória — Machado de Assis cultiva sua sacada como quem semeia ironias finas sobre o destino dos homens. Ao lado, das Gerais alterosas, ergue-se a prudência de quem aprendeu a confiar desconfiando, pois sabe que o canto do galo nem sempre anuncia apenas a manhã, mas também os disfarces da ilusão.
Entre flechas sorrateiras e promessas de ocasião, resta o gesto sereno: não pintar tabuletas alheias, mas sustentar o próprio nome contra os ventos da conveniência. E assim, sob um céu que lentamente azulou na linha do mar, política e literatura se reconhecem — ambas cientes de que o coração só resiste quando abriga, ao mesmo tempo, lucidez e distância.
Paulinho da Viola, Beatriz Rabello - Na Linha Do Mar (Ao Vivo)
Paulinho da Viola
30 de jan. de 2025
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Na linha do Mar
Paulinho da Viola
A TABULETA, O PALANQUE E A SACADA
Minas entre a estratégia e a ironia
Entre o cálculo frio da análise política e a ironia oblíqua da tradição literária, Minas Gerais reaparece como espelho — não apenas do Brasil, mas das tensões entre estratégia e identidade.
De um lado, a leitura contemporânea da política sugere uma inflexão: o velho dogma de que vencer em Minas exige um palanque robusto já não se sustenta plenamente. A dinâmica eleitoral foi redesenhada por dois vetores principais — a polarização nacional e o poder descentralizado das emendas parlamentares. Nesse novo arranjo, o candidato presidencial depende menos da capilaridade de lideranças estaduais e mais de sua própria capacidade de mobilizar afetos e rejeições em escala ampla. O palanque, outrora essencial, torna-se relativo.
Mas a crônica — como convém ao espírito das Gerais — responde com desconfiança.
Se o palanque perdeu centralidade estratégica, não perdeu seu valor simbólico. É nesse intervalo que emerge a recusa: não ser instrumento de uma engenharia eleitoral desenhada à distância. A “tabuleta” que se pede não é apenas uma candidatura; é um gesto de adesão a uma lógica centralizadora que transforma lideranças locais em peças de um tabuleiro maior.
A tensão entre análise e crônica não é contradição, mas complemento. De um lado, o sistema mudou: o centro já não precisa tanto da periferia como antes. De outro, a periferia — Minas — insiste em não ser apenas meio; reivindica ser fim, preservar sua autonomia narrativa e política.
É aí que se revela o traço machadiano. Como um Conselheiro Aires que ainda nos observa, paira a lição silenciosa: confiar desconfiando. Minas hesita, calcula, observa — e evita entregar-se por inteiro a qualquer projeto que não reconheça como seu. Se a análise sugere que o palanque é dispensável, a crônica responde que a identidade não é.
No fim, como o velho Custódio, resta a escolha mais prudente e mais arriscada: escrever na própria tabuleta apenas o próprio nome. Não por neutralidade, mas por lucidez. Porque, em tempos de império das narrativas, sobreviver politicamente talvez dependa menos de aderir ao poder central e mais de sustentar, com ambiguidade e firmeza, a própria voz.
segunda-feira, 29 de junho de 2026
O cerne do lulismo e o realinhamento eleitoral, por Altamir Peterson*
A esquerda contemporânea na América Latina enfrenta a urgência de compreender o "lulismo" em toda a sua complexidade analítica para superar as leituras dicotômicas e reducionistas que dividem e polarizam o debate político. De um lado, deve-se rejeitar a idealização apologética que enxerga o modelo apenas como um projeto redistributivo perfeito; de outro, deve-se descartar a condenação mecânica que o simplifica como mera extensão do neoliberalismo estrito.
O caminho para essa apreensão profunda reside em reconhecer que o modelo de reforma gradual implementado ao longo de cinco governos petistas caminhou essencialmente sob o signo da contradição. O lulismo estruturou-se por meio de uma combinação inédita de opostos: articulou conservação e mudança, promoveu a reprodução sistêmica ao mesmo tempo em que realizava superações parciais, e transitou permanentemente entre a decepção da ortodoxia política e a manutenção da esperança popular. Dominar essa dimensão contraditória é o passo indispensável para que a esquerda latino-americana possa extrair lições reais e avançar programaticamente.
O lulismo é definido como um modelo de reformismo gradual e conciliação de classes. Sua engrenagem principal consiste em reduzir a miséria extrema da população historicamente excluída sem enfrentar diretamente os privilégios econômicos das elites financeiras e da burguesia.
O marco dessa dinâmica foi a eleição de 2006, que operou um grande realinhamento político no Brasil ao desconectar o "subproletariado" (a massa de trabalhadores informais e precarizados) da influência das classes dominantes e da classe média tradicional, transformando essa massa na base fiel do projeto lulista.
A Ideologia do subproletariado: ordem e progresso social
O lulismo deslocou o debate político do eixo ideológico clássico ("Direita vs. Esquerda") para uma percepção prática de "Ricos vs. Pobres". Contudo, o próprio subproletariado impôs um limite à radicalização: essa classe deseja um Estado forte que combata a miséria, mas exige rigorosamente a manutenção da ordem socioeconômica e da paz social, rejeitando conflitos abertos, e sem qualquer horizonte de revolução social.
Essa característica alinha o lulismo ao conceito de "revolução passiva" de Antonio Gramsci: uma modernização conduzida de cima para baixo pelo Estado, que inclui os marginalizados, mas esvazia a mobilização popular e preserva interesses tradicionais (como o latifúndio e o capital especulativo).
A política econômica e o "Sonho Rooseveltiano"
O modelo lulista é marcado por uma contradição interna que conciliou duas forças:
Ortodoxia Macroeconômica: Sobretudo no primeiro mandato (balizado pela "Carta ao Povo Brasileiro"), manteve-se a feição conservadora e a estabilidade herdada dos anos 1990.
Políticas Distributivas Ativas: A partir do segundo mandato, aproveitando o boom global de commodities, o Estado atuou fortemente como indutor do crescimento através de um tripé de inclusão:
Massificação do Bolsa Família.
Valorização real e sistemática do salário mínimo.
Expansão expressiva do crédito popular e consignado.
Indicadores do Ciclo (2002–2010)
Essa combinação extraiu saldos sociais profundos da própria dinâmica capitalista:
Desigualdade: Redução histórica e contínua do Índice de Gini.
Desemprego: Despencou de “10,5\%” para “5,3\%”.
Crédito Doméstico: Saltou de “25\%” para “45\%” do PIB.
Crescimento: O PIB passou de uma alta de “1,3\%” (2003) para um recorde de “7,5\%” (2010).
Por que o lulismo não é neoliberal?
Classificar o lulismo como "intrinsicamente neoliberal" é um erro metodológico e político. Enquanto o neoliberalismo prega a retração do Estado e a precarização do trabalho, o lulismo fez o oposto: expandiu o funcionalismo, investiu em infraestrutura e transformou subproletários em trabalhadores formais amparados por direitos.
Rotular o modelo de neoliberal gera um perigo político para a própria esquerda: se a população beneficiada associar as melhorias reais de sua vida (universidade, crédito, renda) ao termo "neoliberalismo", o sistema neoliberal passará a ser visto como palatável e positivo pelas classes populares.
Limites históricos e o caminho para a esquerda
O "reformismo fraco" do lulismo não foi uma traição voluntária, mas a diluição possível diante de uma correlação de forças adversa. Esse pacto social não eliminou as contradições do capitalismo periférico e mostrou limites estruturais evidentes.
Para superar o imobilismo de uma crítica puramente retórica ou a rotulagem simplista do lulismo como neoliberal, o melhor caminho para a esquerda passa por uma estratégia dialética de incorporação e superação. Isto é, reconhecer o lulismo não como um erro a ser descartado, mas como uma etapa material concreta da formação social brasileira que alterou o patamar de vida das classes populares e que, agora, serve de base para saltos organizativos mais profundos.
O itinerário para essa construção política e programática apoia-se em quatro pilares fundamentais:
Assumir a base material conquistada como novo patamar de luta
O primeiro passo é compreender que a inclusão pelo consumo, o acesso ao crédito, os programas de transferência de renda (como o Bolsa Família) e a valorização real do salário mínimo transformaram a fisionomia do subproletariado brasileiro. Essa massa, antes marginalizada do mercado formal, experimentou conquistas materiais indubitáveis.
A esquerda não deve menosprezar essas vitórias rotulando-as de "ilusão consumista". Pelo contrário, deve utilizá-las como o novo ponto de partida: quem conquistou o direito de comer e de consumir agora tem as condições materiais mínimas para lutar por direitos estruturais. A fome desmobiliza; a estabilidade material básica gera a segurança necessária para a organização política. O discurso emancipatório deve demonstrar que a manutenção e a expansão desses direitos sociais básicos só são historicamente viáveis se as estruturas que geram a desigualdade forem enfrentadas.
Transitar da "Inclusão pelo Mercado" para a "Inclusão por Direitos Universais"
A grande limitação da conciliação lulista — o chamado "reformismo fraco" — foi promover o bem-estar popular majoritariamente por canais privados: o consumo de mercadorias, o endividamento familiar facilitado e o acesso a serviços privados mercantilizados (como planos de saúde populares e o ensino superior privado via ProUni).
O caminho para ir além da conciliação passiva é politizar a contradição desse modelo. A esquerda precisa organizar a classe trabalhadora em torno da exigência de bens públicos universais e desmercantilizados:
Transformar o alívio da pobreza em uma rede intransponível de seguridade social.
Lutar por um sistema de saúde (SUS) e de educação pública que não precisem de complementos privados.
Pautar a reforma urbana, o transporte público de qualidade e a habitação como direitos, retirando-os da esfera estrita da especulação imobiliária e financeira.
Romper o silenciamento de classe através da formação e organização de Base
O arranjo do lulismo tendeu a desmobilizar os movimentos sociais, substituindo o conflito aberto pela arbitragem institucional e pela passividade da "revolução passiva" gramsciana. Para que a classe trabalhadora caminhe em direção à emancipação soberana, é indispensável reconstruir o tecido organizativo "por baixo":
Trabalho de base cotidiano: Abandonar o foco puramente institucional e eleitoral, reocupando os territórios periféricos, os novos ambientes do proletariado precarizado (como os trabalhadores de aplicativos e do setor de serviços) e as associações comunitárias.
Formação política: Explicar didaticamente como a mecânica do capitalismo periférico funciona. A população precisa compreender que a riqueza que permitiu as melhorias sociais do passado veio do próprio trabalho da classe, e que o limite dessa melhoria é imposto pela barreira dos lucros do capital financeiro e do latifúndio agrário. Trata-se de reverter a fragmentação perceptiva e consolidar uma clara identidade de classe.
Construir uma plataforma de reformas estruturais anticompanheiras de conciliação
A estratégia de "dar aos mais pobres sem tirar dos mais ricos" esbarrou no teto fiscal e na crise de lucratividade das elites burguesas. Para enfrentar as desigualdades estruturais de forma soberana e democrática, a esquerda precisa unificar os movimentos populares em torno de reformas que a conciliação historicamente evitou:
Reforma Tributária Progressiva: Superar a tributação sobre o consumo (que penaliza os mais pobres) e focar taxativamente sobre a renda, as grandes fortunas, as heranças e os lucros e dividendos retidos pelo topo da pirâmide financeira.
Soberania Econômica e Reindustrialização: Pautar o controle democrático sobre os setores estratégicos (energia, saneamento, telecomunicações e recursos minerais) e redirecionar o fundo público para investimentos produtivos, reduzindo a submissão do Estado à ditadura do superávit primário e do pagamento de juros da dívida pública à elite rentista.
Reforma Agrária Popular e Transição Ecológica: Unir a histórica pauta da terra ao enfrentamento do agronegócio predatório, fortalecendo a agricultura familiar, a soberania alimentar e modos de produção sustentáveis que protejam os biomas nacionais.
*Antigo dirigente da Contag e do Incra
Esaú e Jacó por Machado de Assis
Capítulo LXII: "Pare no D." Capítulo LXIII→
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(Áudio referente aos capítulos LXI, LXII e LXIII)
— Mas, S. Excia.está almoçando, dizia o criado no patamar da escada a alguém que pedia para falar ao conselheiro.
Era falso, Aires acabava justamente de almoçar; mas o criado sabia que o amo gostava de saborear o charuto depois do almoço, sem interrupção. Agora estava no canapé e ouviu o diálogo do patamar. A pessoa insistia em dizer uma palavrinha.
— Não pode ser.
— Bem, eu espero; logo que S. Excia.acabe...
— O melhor é voltar depois; não mora ali defronte? Pois volte daqui a uma hora ou duas...
A pessoa era o Custódio e foi para casa, mas o velho diplomata, sabendo quem era, não esperou que acabasse o charuto; mandou-lhe dizer que viesse. Custódio saiu, correu, subiu e entrou assombrado.
— Que é isso, Sr. Custódio? disse-lhe Aires. O senhor anda a fazer revoluções?
— Eu, senhor? Ah! senhor! Se V. Excia.soubesse...
— Se soubesse o quê?
Custódio explicou-se. Vá, resumamos a explicação.
Na véspera, tendo de ir abaixo, Custódio foi à Rua da Assembléia, onde se pintava a tabuleta. Era já tarde; o pintor suspendera o trabalho. Só algumas das letras ficaram pintadas, — a palavra Confeitaria e a letra d. A letra o e a palavra Império estavam só debuxadas a giz. Gostou da tinta e da cor, reconciliou-se com a forma, e apenas perdoou a despesa. Recomendou pressa. Queria inaugurar a tabuleta no domingo.
Ao acordar de manhã não soube logo do que houvera na cidade, mas pouco a pouco vieram vindo as notícias, viu passar um batalhão, e creu que lhe diziam a verdade os que afirmavam a revolução e vagamente a república. A princípio, no meio do espanto, esqueceu-lhe a tabuleta. Quando se lembrou dela, viu que era preciso sustar a pintura. Escreveu às pressas um bilhete e mandou um caixeiro ao pintor. O bilhete dizia só isto: "Pare no D." Com efeito, não era preciso pintar o resto, que seria perdido, nem perder o princípio, que podia valer. Sempre haveria palavra que ocupasse o lugar das letras restantes. "Pare no D".
Quando o portador voltou trouxe a notícia de que a tabuleta estava pronta.
— Você viu-a pronta?
— Vi, patrão.
— Tinha escrito o nome antigo?
— Tinha, sim, senhor: "Confeitaria do Império".
Custódio enfiou um casaco de alpaca e voou à Rua da Assembléia. Lá estava a tabuleta, por sinal que coberta com um pedaço de chita; alguns rapazes que a tinham visto, ao passar na rua, quiseram rasgá-la; o pintor, depois de a defender com boas palavras, achou mais eficaz cobri-la. Levantada a cortina, Custódio leu: "Confeitaria do Império". Era o nome antigo, o próprio, o célebre, mas era a destruição agora; não podia conservar um dia a tabuleta, ainda que fosse em beco escuro, quanto mais na Rua do Catete...
— O senhor vai despintar tudo isto, disse ele.
— Não entendo. Quer dizer que o senhor paga primeiro a despesa. Depois, pinto outra coisa.
— Mas que perde o senhor em substituir a última palavra por outra? A primeira pode ficar, e mesmo o d... Não leu o meu bilhete?
— Chegou tarde.
— E por que pintou, depois de tão graves acontecimentos?
— O senhor tinha pressa, e eu acordei às cinco e meia para servi-lo. Quando me deram as notícias, a tabuleta estava pronta. Não me disse que queria pendurá-la domingo? Tive de pôr muito secante na tinta, e, além da tinta, gastei tempo e trabalho.
Custódio quis repudiar a obra, mas o pintor ameaçou de pôr o número da confeitaria e o nome do dono na tabuleta, e expô-la assim, para que os revolucionários lhe fossem quebrar as vidraças do Catete. Não teve remédio senão capitular. Que esperasse; ia pensar na substituição; em todo caso, pedia algum abate no preço. Alcançou a promessa do abate e voltou a casa. Em caminho, pensou no que perdia mudando de título, — uma casa tão conhecida, desde anos e anos! Diabos levassem a revolução! Que nome lhe poria agora? Nisso lembrou-lhe o vizinho Aires e correu aouvi-lo.
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Esaú e Jacó por Machado de Assis
Capítulo LXIII: Tabuleta nova Capítulo LXIV→
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(Áudio referente aos capítulos LXI, LXII e LXIII)
Referido o que lá fica atrás, Custódio confessou tudo o que perdia no título e na despesa, o mal que lhe trazia a conservação do nome da casa, a impossibilidade de achar outro, um abismo, um suma. Não sabia que buscasse; faltava-lhe invenção e paz de espírito. Se pudesse, liquidava a confeitaria. E afinal que tinha ele com política? Era um simples fabricante e vendedor de doces, estimado, afreguesado, respeitado, e principalmente respeitador da ordem pública...
— Mas o que é que há? perguntou Aires.
— A república está proclamada.
— Já há governo?
— Penso que já; mas diga-me V. Excia.: ouviu alguém acusar-me jamais de atacar o governo? Ninguém. Entretanto... Uma fatalidade! Venha em meu socorro, Excelentíssimo. Ajude-me a sair deste embaraço. A tabuleta está pronta, o nome todo pintado. — "Confeitaria do Império", a tinta é viva e bonita. O pintor teima em que lhe pague o trabalho, para então fazer outro. Eu, se a obra não estivesse acabada, mudava de título, por mais que me custasse, mas hei de perder o dinheiro que gastei? V. Excia.crê que, se ficar "Império", venham quebrar-me as vidraças?
— Isso não sei.
— Realmente, não há motivo; é o nome da casa, nome de trinta anos, ninguém a conhece de outro modo.
— Mas pode pôr "Confeitaria da República"...
— Lembrou-me isso, em caminho, mas também me lembrou que, se daqui a um ou dois meses, houver nova reviravolta, fico no ponto em que estou hoje, e perco outra vez o dinheiro.
— Tem razão... Sente-se.
— Estou bem.
— Sente-se e fume um charuto.
Custódio recusou o charuto, não fumava. Aceitou a cadeira. Estava no gabinete de trabalho, em que algumas curiosidades lhe chamariam a atenção, se não fosse o atordoamento do espírito. Continuou a implorar o socorro do vizinho. S. Excia., com a grande inteligência que Deus lhe dera, podia salvá-lo. Aires propôs-lhe um meio-termo, um título que iria com ambas as hipóteses, — "Confeitaria do Governo".
— Tanto serve para um regime como para outro.
— Não digo que não, e, a não ser a despesa perdida... Há, porém, uma razão contra. V. Excia. sabe que nenhum governo deixa de ter oposição. As oposições, quando descerem à rua, podem implicar comigo, imaginar que as desafio, e quebrarem-me a tabuleta; entretanto, o que eu procuro é o respeito de todos.
Aires compreendeu bem que o terror ia com a avareza. Certo, o vizinho não queria barulhos à porta, nem malquerenças gratuitas, nem ódios de quem quer que fosse; mas, não o afligia menos a despesa que teria de fazer de quando em quando, se não achasse um título definitivo, popular e imparcial. Perdendo o que tinha, já perdia a celebridade, além de perder a pintura e pagar mais dinheiro. Ninguém lhe compraria uma tabuleta condenada. Já era muito ter o nome e o título no Almanaque de Laemmert, onde podia lê-lo algum abelhudo e ir com outros, puni-lo do que estava impresso desde o princípio do ano...
— Isso não, interrompeu Aires; o senhor não há de recolher a edição de um almanaque.
E depois de alguns instantes:
— Olhe, dou-lhe uma idéia, que pode ser aproveitada, e, se não a achar boa, tenho outra à mão, e será a última. Mas eu creio que qualquer delas serve. Deixe a tabuleta pintada como está, e à direita, na ponta, por baixo do título, mande escrever estas palavras que explicam o título: "Fundada em 1860". Não foi em 1860 que abriu a casa?
— Foi, respondeu Custódio.
— Pois...
Custódio refletia. Não se lhe podia ler sim nem não; atônito, a boca entreaberta, não olhava para o diplomata, nem para o chão, nem para as paredes ou móveis, mas para o ar. Como Aires insistisse, ele acordou e confessou que a idéia era boa. Realmente, mantinha o título e tirava-lhe o sedicioso, que crescia com o fresco da pintura. Entretanto, a outra idéia podia ser igual ou melhor, e quisera comparar as duas.
— A outra idéia não tem a vantagem de pôr a data à fundação da casa, tem só a de definir o título, que fica sendo o mesmo, de uma maneira alheia ao regime. Deixe-lhe estar a palavra império e acrescente-lhe embaixo, ao centro, estas duas, que não precisam ser graúdas: das leis. Olhe, assim, concluiu Aires, sentando-se à secretária, e escrevendo em uma tira de papel o que dizia.
Custódio leu, releu e achou que a idéia era útil; sim, não lhe parecia má. Só lhe viu um defeito; sendo as letras de baixo menores, podiam não ser lidas tão depressa e claramente como as de cima, e estas é que se meteriam pelos olhos ao que passasse. Daí a que algum político ou sequer inimigo pessoal não entendesse logo, e... A primeira idéia, bem considerada, tinha o mesmo mal, e ainda este outro: pareceria que o confeiteiro, marcando a data da fundação, fazia timbre em ser antigo. Quem sabe se não era pior que nada?
— Tudo é pior que nada.
— Procuremos.
Aires achou outro título, o nome da rua, "Confeitaria do Catete", sem advertir que havendo outra confeitaria na mesma rua, era atribuir exclusivamente à do Custódio a designação local. Quando o vizinho lhe fez tal ponderação, Aires achou-a justa, e gostou de ver a delicadeza de sentimentos do homem; mas logo depois descobriu que o que fez falar o Custódio foi a idéia de que esse título ficava comum às duas casas. Muita gente não atinaria com o título escrito, e compraria na primeira que lhe ficasse à mão, de maneira que só ele faria as despesas da pintura, e ainda por cima perdia a freguesia. Ao perceber isto, Aires não admirou menos a sagacidade de um homem que em meio de tantas tribulações, contava os maus frutos de um equívoco. Disse-lhe então que o melhor seria pagar a despesa feita e não pôr nada, a não ser que preferisse o seu próprio nome: "Confeitaria do Custódio". Muita gente certamente lhe não conhecia a casa por outra designação. Um nome, o próprio nome do dono, não tinha significação política ou figuração história, ódio nem amor, nada que chamasse a atenção dos dois regimes, e conseguintemente que pusesse em perigo os seus pastéis de Santa Clara, menos ainda a vida do proprietário e dos empregados. Por que é que não adotava esse alvitre? Gastava alguma coisa com a troca de uma palavra por outra, Custódio em vez de Império, mas as revoluções trazem sempre despesas.
— Sim, vou pensar, Excelentíssimo. Talvez convenha esperar um ou dois dias, a ver em que param as modas, disse Custódio agradecendo.
Curvou-se, recuou e saiu. Aires foi à janela para vê-lo atravessar a rua. Imaginou que ele levaria da casa do ministro aposentado um ilustre particular que faria esquecer por instantes a crise da tabuleta. Nem tudo são despesas na vida, e a glória das relações podia amaciar as agruras deste mundo. Não acertou desta vez. Custódio atravessou a rua, sem parar nem olhar para trás, e enfiou pela confeitaria dentro com todo o seu desespero.
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