Inspirados já nos ensinamentos de Sófocles, aqui, procurar-se-á a conexão, pelo conhecimento, entre o velho e o novo, com seus conflitos. As pistas perseguidas, de modos específicos, continuarão a ser aquelas pavimentadas pelo grego do período clássico (séculos VI e V a.C).
domingo, 21 de junho de 2026
O Fenômeno, o Moinho e a Mentira
"A gente fica sentindo e pensamenteando sempre o gosto dessa comida. O nobre, o simples, não direi o divino, mas o humano Cartola, que se apaixonou pelo samba e fez do samba o mensageiro de sua alma delicada. O som calou-se, e “fui à vida”, como ele gosta de dizer, isto é, à obrigação daquele dia." Carlos Drummond de Andrade
Epígrafe de um mundo que se desfaz
Na Floresta
Silvio Caldas
Na floresta dei-te um ninho
E mostrei-te um bom caminho
Mas quando a mulher não tem brio, dizem que
É malhar em ferro frio
Luiz Felipe Pondé: “Hoje, a mentira é um método” | THE BUSINESS OF LIFE
Brazil Journal
19 de jun. de 2026
Filósofo, escritor e comentarista, Luiz Felipe Pondé quase foi médico — mas decidiu levar a filosofia para o grande público. Uma das vozes mais conhecidas do debate intelectual brasileiro, ele é o convidado deste episódio de The Business of Life, apresentado por Nilton Bonder.
Filho de pai católico e mãe judia, Pondé nasceu no Recife, mas deixou Pernambuco ainda criança. O pai, capitão médico da Aeronáutica, foi atingido pela repressão depois do golpe de 1964. “Eu lembro de um período meio confuso, de a gente entrando numa Kombi e indo embora,” diz.
A família se mudou para Salvador. Além do pai, o avô, a irmã e outros parentes eram médicos — todos, segundo ele, com interesse pelas humanidades. “Eu fui o único que deu salto e me meti com humanas de fato,” diz.
O salto ocorreu quando Pondé cursava o quinto ano de medicina, na Bahia. “A minha crise não era tanto com o curso, mas porque eu comecei a projetar minha vida futura,” diz. A ponte para as humanidades foi a psicanálise. “O Freud me levou para a filosofia,” diz.
Assista no Brazil Journal: https://braziljournal.com/luiz-felipe...
Epígrafe
“O mundo é um moinho.” — Cartola
“Hoje, a mentira é um método.” — Luiz Felipe Pondé
Resumo
Este ensaio investiga a convergência entre filosofia, poesia e crônica na interpretação da condição humana contemporânea. A partir do pensamento de Luiz Felipe Pondé, da lírica de Cartola e da escrita de Carlos Drummond de Andrade, articula-se uma leitura do mundo como construção instável, marcada pela institucionalização da mentira e pela impossibilidade de acesso direto ao real. A metáfora do moinho sintetiza a dinâmica de destruição e transformação que rege a existência, enquanto a arte emerge como forma de permanência simbólica diante da finitude.
Introdução
Vivemos em uma época em que a verdade parece ter perdido sua centralidade. Não porque tenha sido refutada, mas porque foi substituída. No lugar da verdade, instala-se a narrativa; no lugar do real, a sua performance. Nesse cenário, a provocação filosófica de Luiz Felipe Pondé — “a mentira é um método” — não soa como exagero, mas como diagnóstico.
Paralelamente, a tradição filosófica nos lembra: o mundo não é apreendido em si mesmo, mas mediado por nossas estruturas cognitivas. O mundo é fenômeno. E, se assim é, tudo o que tomamos como sólido pode não passar de interpretação.
É nesse entrelaçamento entre engano estrutural e fragilidade ontológica que a poesia irrompe, oferecendo não respostas, mas imagens mais verdadeiras que os próprios conceitos.
Desenvolvimento
1. A Estrutura da Ilusão — Pondé e a mentira como método
A modernidade tardia transforma a mentira em ferramenta funcional. Não se trata mais de falha moral, mas de estratégia. O marketing substitui a verdade pela narrativa; a política se ancora no afeto; a identidade se torna performática.
Nesse contexto, a verdade deixa de ser critério — torna-se obstáculo. O que importa é a adesão, o engajamento, a eficácia simbólica. Vive-se, assim, uma estética da simulação.
2. O Mundo como Fenômeno — limites do real
Inspirada na filosofia kantiana, a noção de que o mundo é fenômeno implica uma ruptura radical: não conhecemos a realidade em si, apenas suas aparências mediadas.
Biologia, linguagem, cultura e ego operam como filtros. A história, o progresso, o controle — tudo pode ser apenas narrativa estabilizadora diante de um fundo caótico.
3. O Moinho — Cartola e a poética da destruição
🎵 Ouça e leia a letra de “O Mundo é um Moinho”:
https://www.letras.mus.br/cartola/44901/
https://www.youtube.com/results?search_query=Cartola+O+Mundo+%C3%A9+um+Moinho
Na canção de Cartola, o mundo deixa de ser conceito e torna-se máquina. O moinho tritura sonhos, ilusões e inocências com precisão mecânica e indiferença absoluta.
Não há maldade — há funcionamento. O sofrimento humano não é exceção, mas subproduto inevitável.
A metáfora é brutal porque é exata.
4. O Disparo Poético — Drummond e o epitáfio em vida
📜 Leia a crônica “Cartola, no moinho do mundo”:
Cartola, no moinho do mundo
Carlos Drummond de Andrade
100 anos: 1902-2002
Drummond: na praia, em pose que virou estátua em Copacabana
A crônica ao lado não está em nenhum livro de Drummond. É um tributo ao compositor mangueirense Angenor de Oliveira, o Cartola (1908-1980), e tem uma história curiosa. Foi publicada no Jornal do Brasil em 27/11/1980, três dias antes da morte do criador de "As Rosas Não Falam".
Ao saber que Cartola estava doente, Drummond decidiu escrever-lhe uma homenagem. "Em seus derradeiros momentos de lucidez, em sua cama no hospital, Cartola ainda pôde lê-la, transformando-a em sua última felicidade", conta o jornalista e pesquisador musical Arley Pereira, autor do livro Cartola – 90 Anos.
Embora reservado e totalmente avesso às freqüentações públicas, Drummond acompanhava com grande interesse as manifestações da cultura popular, o que pode ser claramente observado nesta crônica.
Ele também ficou muito satisfeito, em 1980, quando Martinho da Vila (com Rodolfo de Souza e Tião Graúna)
compôs para a escola da Vila Isabel o samba-enredo "Sonho de um Sonho", baseado em poema homônimo de sua autoria (de Claro Enigma, 1951).
•
Neste 20 de novembro, dia do herói Zumbi dos Palmares, com esta crônica em que Drummond evoca os grandes Cartola, Pixinguinha e Carlos Cachaça, estendo a homenagem a todos os artistas negros do país ― sem esquecer, já que nosso foco é o texto, o mestre Machado de Assis.
•
Mais uma vez, todos nós ficamos em débito com a colega jornalista Marta Alves, por ter desentranhado das névoas do passado esta delícia de crônica.
Você vai pela rua, distraído ou preocupado, não importa. Vai a determinado lugar para fazer qualquer coisa que está escrita em sua agenda. Nem é preciso que tenha agenda. Você tem um destino qualquer, e a rua é só a passagem entre sua casa e a pessoa que vai procurar. De repente estaca. Estaca e fica ouvindo.
Eu fiz o ninho.
Te ensinei o bom caminho.
Mas quando a mulher não tem brio,
é malhar em ferro frio.
Aí você fica parado, escutando até o fim o som que vem da loja de discos, onde alguém se lembrou de reviver o velho samba de Cartola; Na Floresta (música de Sílvio Caldas).
Esse Cartola! Desta vez, está desiludido e zangado, mas em geral a atitude dele é de franco romantismo, e tudo se resume num título: Sei Sentir. Cartola sabe sentir com a suavidade dos que amam pela vocação de amar, e se renovam amando. Assim, quando ele nos anuncia: “Tenho um novo amor”, é como se desse a senha pela renovação geral da vida, a germinação de outras flores no eterno jardim. O sol nascerá, com a garantia de Cartola. E com o sol, a incessante primavera.
A delicadeza visceral de Angenor de Oliveira (e não Agenor, como dizem os descuidados) é patente quer na composição, quer na execução. Como bem me observou Jota Efegê, seu padrinho de casamento, trata-se de um distinto senhor emoldurado pelo Morro da Mangueira. A imagem do malandro não coincide com a sua. A dura experiência de viver como pedreiro, tipógrafo e lavador de carros, desconhecido e trazendo consigo o dom musical, a centelha, não o afetou, não fez dele um homem ácido e revoltado. A fama chegou até sua porta sem ser procurada. O discreto Cartola recebeu-a com cortesia. Os dois convivem civilizadamente. Ele tem a elegância moral de Pixinguinha, outro a quem a natureza privilegiou com a sensibilidade criativa, e que também soube ser mestre de delicadeza.
Em Tempos Idos, o divino Cartola, como o qualificou Lúcio Rangel, faz o histórico poético da evolução do samba, que se processou, aliás, com a sua participação eficiente:
Com a mesma roupagem
que saiu daqui
exibiu-se para a Duquesa de Kent
no Itamaraty.
Pode-se dizer que esta foi também a caminhada de Cartola. Nascido no Catete, sua grande experiência humana se desenvolveu no Morro da Mangueira, mas hoje ele é aceito como valor cultural brasileiro, representativo do que há de melhor e mais autêntico na música popular. Ao gravar o seu samba Quem Me Vê Sorrir (com Carlos Cachaça), o maestro Leopold Stockowski não lhe fez nenhum favor: reconheceu, apenas, o que há de inventividade musical nas camadas mais humildes de nossa população. Coisa que contagiou a ilustre Duquesa.
* * *
Mas então eu fiquei parado, ouvindo a filosofia céptica do Mestre Cartola, na voz de Sílvio Caldas. Já não me lembrava o compromisso que tinha de cumprir, que compromisso? Na floresta, o homem fizera um ninho de amor, e a mulher não soubera corresponder à sua dedicação. Inutilmente ele a amara e orientara, mulher sem brio não tem jeito não. Cartola devia estar muito ferido para dizer coisas tão amargas. Hoje não está. Forma um par feliz com Zica, e às vezes a televisão vai até a casa deles, mostra o casal tranqüilo, Cartola discorrendo com modéstia e sabedoria sobre coisas da vida. “O mundo é um moinho...” O moleiro não é ele, Angenor, nem eu, nem qualquer um de nós, igualmente moídos no eterno girar da roda, trigo ou milho que se deixa pulverizar. Alguns, como Cartola, são trigo de qualidade especial. Servem de alimento constante. A gente fica sentindo e pensamenteando sempre o gosto dessa comida. O nobre, o simples, não direi o divino, mas o humano Cartola, que se apaixonou pelo samba e fez do samba o mensageiro de sua alma delicada. O som calou-se, e “fui à vida”, como ele gosta de dizer, isto é, à obrigação daquele dia. Mas levava uma companhia, uma amizade de espírito, o jeito de Cartola botar em lirismo a sua vida, os seus amores, o seu sentimento do mundo, esse moinho, e da poesia, essa iluminação.
Drummond: 100 anos
Carlos Machado, 2002
Carlos Drummond de Andrade
In Jornal do Brasil
27/11/1980
© Graña Drummond
https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/795/cartola-no-moinho-do-mundo
Carlos Drummond de Andrade escreve sob a iminência da morte de Cartola. Sua crônica não é posterior — é antecipatória, quase profética.
Ao afirmar que todos somos moídos, mas que alguns são “trigo de qualidade especial”, Drummond realiza uma transfiguração: a arte não impede a destruição, mas a ressignifica.
5. Epígrafe e Epitáfio — fusão simbólica
O verso de Cartola opera simultaneamente como abertura e fechamento. Epígrafe e epitáfio se confundem.
A palavra que introduz a reflexão é a mesma que sela a existência. A linguagem, assim, não explica o mundo — acompanha sua dissolução.
Considerações Finais
Entre a mentira institucionalizada e o fenômeno inapreensível, o ser humano habita um território de instabilidade. Não há garantias metafísicas, nem fundamentos absolutos.
E, ainda assim, algo persiste: a capacidade de transformar ruína em forma.
Conclusão
O mundo pode ser moinho. Pode ser fenômeno. Pode ser construção ilusória.
Mas, diante disso, resta ao humano uma possibilidade radical: olhar.
Olhar com lucidez, sem consolo fácil.
Olhar com melancolia, sem desespero absoluto.
Olhar — e, nesse gesto, resistir.
Biografias
Luiz Felipe Pondé — Filósofo e ensaísta brasileiro contemporâneo, conhecido por sua crítica ao otimismo moderno e à cultura do narcisismo.
Cartola (Angenor de Oliveira) — Um dos maiores compositores da música brasileira, fundador da Estação Primeira de Mangueira.
Carlos Drummond de Andrade — Poeta e cronista brasileiro, um dos principais nomes da literatura do século XX.
Referências
PONDÉ, Luiz Felipe. Entrevistas e ensaios contemporâneos.
CARTOLA. O Mundo é um Moinho.
Letra: https://www.letras.mus.br/cartola/44901/
Vídeo: https://www.youtube.com/results?search_query=Cartola+O+Mundo+%C3%A9+um+Moinho
DRUMMOND, Carlos. Cartola, no moinho do mundo.
https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/795/cartola-no-moinho-do-mundo
KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura.
Citação de Encerramento
“Alguns são trigo de qualidade especial.” — Carlos Drummond de Andrade
Luiz Felipe Pondé: "Hoje, a mentira é um método" / "O mundo é um fenômeno", parafraseio
Essas duas frases sintetizam perfeitamente a visão filosófica de Luiz Felipe Pondé sobre a modernidade e a condição humana. Elas conectam o realismo político contemporâneo com o ceticismo filosófico clássico.
Aqui está o significado prático e filosófico dessas duas provocações:
"Hoje, a mentira é um método"
Pondé argumenta que o engano deixou de ser um desvio moral individual e virou uma engrenagem institucional.
Estratégia de Marketing: A verdade foi substituída pela narrativa e pelo engajamento.
Indústria do Afeto: Empresas e políticos mentem profissionalmente para validar os sentimentos e o narcisismo do público.
Sobrevivência Social: Para ser aceito em certos círculos, o indivíduo é obrigado a fingir virtudes que não possui.
"O mundo é um fenômeno"
Esta leitura de matriz kantiana e cética lembra que não temos acesso direto à "realidade em si", apenas às nossas percepções.
Filtros Humanos: Enxergamos o mundo através da biologia, da cultura, da linguagem e do ego.
Ceticismo Contra a Causalidade: A crença de que controlamos a história ou de que o progresso é linear não passa de uma ilusão reconfortante.
O Caos sob a Superfície: A ordem social é frágil e temporária; por baixo dela, o mundo opera de forma imprevisível e indiferente aos nossos desejos.
Para O compositor Cartola, “O mundo é um moinho.”
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário