Inspirados já nos ensinamentos de Sófocles, aqui, procurar-se-á a conexão, pelo conhecimento, entre o velho e o novo, com seus conflitos. As pistas perseguidas, de modos específicos, continuarão a ser aquelas pavimentadas pelo grego do período clássico (séculos VI e V a.C).
terça-feira, 17 de março de 2026
A tensão entre impessoalidade e comunidade
terça-feira, 17 de março de 2026
Habermas e a Reconstrução ética da economia, por Giovanni Beviláqua*
Correio Braziliense
Sob essa perspectiva, os pequenos negócios não são meras unidades estatísticas ou engrenagens de baixa produtividade; eles são, em essência, os últimos redutos do Mundo da Vida na economia.
A partida de Jürgen Habermas, em 14 de março de 2025, aos 96 anos, não representa apenas o fim da trajetória de um dos últimos gigantes da filosofia do século XX, mas marca o momento em que sua obra deixa de ser uma promessa teórica para se tornar uma necessidade prática urgente. Em um mundo fragmentado por crises de alteridade e pela tecnocracia asfixiante, Habermas nos legou a bússola da racionalidade comunicativa, uma ferramenta indispensável para quem busca repensar a economia a partir de sua base: os pequenos negócios e o desenvolvimento territorial.
O núcleo da provocação habermasiana reside na tensão dialética entre o "Sistema" e o "Mundo da Vida". Para o pensador, o Sistema — composto pelo mercado e pelo Estado — opera sob uma lógica instrumental, centrada na eficácia, no lucro e no poder. Já o Mundo da vida é o espaço da cultura, da identidade e da solidariedade, onde a linguagem serve ao entendimento e não apenas ao resultado. O grande drama da modernidade, segundo ele, é a "colonização do mundo da vida", um processo patológico onde a frieza dos números e a burocracia tentam silenciar as relações humanas espontâneas e os valores compartilhados.
Quando transpomos essa lente para a realidade brasileira, em especial para os pequenos negócios, a potência do pensamento de Habermas torna-se clara e profundamente transformadora. Sob essa perspectiva, os pequenos negócios não são meras unidades estatísticas ou engrenagens de baixa produtividade; eles são, em essência, os últimos redutos do Mundo da vida na economia. Enquanto as grandes corporações operam sob o domínio da racionalidade instrumental pura, o pequeno empreendedor sobrevive e prospera por meio do agir comunicativo. Nesses espaços, o valor não se reduz à transação financeira; ele se expande na construção de confiança, na formação de reputação e no reconhecimento mútuo. É uma economia enraizada nos territórios, onde o diálogo é o ativo mais valioso e a intersubjetividade é a base da sustentabilidade do negócio.
Essa perspectiva é revolucionária para a formulação de políticas públicas e para o desenvolvimento social. Habermas nos ensina, em sua obra monumental Direito e democracia, que a legitimidade de qualquer norma ou política depende da deliberação. No Brasil, contudo, ainda vivemos uma profunda exclusão comunicativa. A esfera pública econômica é frequentemente capturada por grandes interesses financeiros, enquanto os milhões de brasileiros que sustentam a economia real são tratados como meros destinatários de decisões tomadas em gabinetes distantes.
Uma sociedade verdadeiramente justa, inclusiva e próspera exige o que podemos chamar de justiça comunicativa. Isso significa reconhecer o pequeno empreendedor como um sujeito deliberativo legítimo. O desenvolvimento social não pode ser um pacote pronto entregue pelo Estado; ele deve ser o resultado de um consenso ético construído de baixo para cima, respeitando o capital social e simbólico de cada território. Quando falamos em acesso ao crédito, por exemplo, não estamos tratando apenas de liquidez financeira; estamos falando de autonomia. O crédito, sob a ótica habermasiana, deve ser um instrumento que fortalece o Mundo da vida, permitindo que o sujeito exerça sua capacidade de agir e transformar sua realidade, e não um mecanismo de pressão que aprofunda a colonização sistêmica.
Habermas nos instiga a pensar que a prosperidade não é um acúmulo solitário de capital, mas uma construção coletiva de sentidos e bem-estar. Uma economia plural é aquela que valoriza as muitas vozes de seus agentes e entende que o dinamismo econômico é indissociável do amadurecimento democrático. A racionalidade comunicativa nos oferece o caminho para uma gestão mais humana, onde a escuta e o entendimento mútuo superam a mera busca por resultados imediatistas e despersonalizados.
Honrar o legado de Habermas é trabalhar para que o Brasil real tenha não apenas o direito de produzir, mas o direito de falar e de ser ouvido. É acreditar que a reconstrução ética da economia brasileira passa pela valorização dos pequenos negócios como agentes de cidadania e racionalidade pública. Como ele mesmo defendia, a razão não se realiza no isolamento, mas no ruído produtivo do encontro entre iguais que buscam, por meio do diálogo, construir o mundo em que desejam viver. Que a nossa economia aprenda, finalmente, a ouvir a base que a sustenta.
*Giovanni Beviláqua — Doutor em economia pela Universidade de Brasília (UnB)
A tensão entre impessoalidade e comunidade
O texto defende que o pensamento de Jürgen Habermas é essencial para repensar a economia atual, especialmente no Brasil. A partir da ideia de tensão entre “Sistema” (mercado e Estado, guiados por lucro e eficiência) e “Mundo da Vida” (relações humanas, cultura e solidariedade), o autor argumenta que os pequenos negócios representam esse “Mundo da Vida” dentro da economia.
Neles, o valor não está só no dinheiro, mas na confiança, no diálogo e nas relações sociais. Por isso, políticas públicas deveriam incluir esses empreendedores como participantes ativos nas decisões, promovendo uma “justiça comunicativa”.
O texto conclui que o desenvolvimento econômico deve ser construído coletivamente, com mais escuta e participação, valorizando os pequenos negócios como fundamentais para uma economia mais justa, democrática e humana.
JÜRGEN HABERMAS | (Modernidade reflexiva) Filosofia Contemporânea | Série: Filosofando na História
História é Vida
5 de mai. de 2025 #Democracia #Filosofia #Educação
Falaaaa Galeraaaa, vamos que vamos História é Vida no seu último episódio da série Filosofando na História, desta vez explorando o pensamento de Jürgen Habermas, um dos maiores filósofos contemporâneos e defensor da razão crítica e do diálogo democrático.
Neste vídeo, vamos entender onde Habermas se situa no debate moderno, o que ele propõe com sua Teoria da Ação Comunicativa, seu conceito de esfera pública, e como ele enxerga a relação entre democracia, ética e comunicação. Diferente dos pensadores pós-modernos, Habermas acredita no potencial da razão como meio de emancipação coletiva e construção do bem comum.
Acompanhe essa reflexão que liga filosofia, história e os desafios do nosso tempo: da desinformação à crise da democracia. Chegamos ao fim dessa playlist de filosofia na história, mas muito mais virão por aí!
#Habermas #Filosofia #FilosofandoNaHistória #HistóriaÉVida #EsferaPública #TeoriaCrítica #Democracia #Educação
"A imagem gerada busca traduzir visualmente a Agir Comunicativo de Habermas aplicada à visão de Givaldo Siqueira: a transição da rigidez das engrenagens burocráticas (o atraso) para a fluidez da informação e da educação (a oxigenação). No centro, o "formulador" atua como o catalisador que transforma a técnica cega em democracia deliberativa."
Algo que notei ao longo da vida, é que pessoas inteligentes também erram, mas Givaldo raramente se equivocava em suas conclusões. E ele estava certíssimo ao propor um resgate da Democracia pelo movimento marxista. O atraso tecnológico resultava também daí, dessa falta de oxigenação da vida pela informação e pela educação. O Givaldo enxergava lá na frente.
Independentemente de discordarmos dele em uma ou outra visão política que poderia expressar, Givaldo Siqueira encarnava a velha escola partidária, que forjava formuladores de grande qualidade - e que tanta falta faz ao Brasil de hoje
*Ivan Alves Filho, historiador
Assinar:
Postar comentários (Atom)



Nenhum comentário:
Postar um comentário