terça-feira, 24 de março de 2026

O bêbado e a equilibrista

Opinião Seriedade sob medida Não é de hoje que presidentes da República se sentem à vontade para classificar os outros Poderes como se estivessem comentando um campeonato de várzea — “esse joga bem”, “aquele é caneludo”, “este aqui é sério”. Falta só distribuir cartões. Ao dizer que um ministro do Supremo é “alguém sério”, o presidente não elogia apenas um — rebaixa, por tabela, os outros. É uma dessas frases que, de tão aparentemente simples, vem carregada de implicações. No mínimo, sugere que há um critério pessoal — e não institucional — para medir a seriedade da mais alta corte do país. O presidente, que já foi beneficiado por decisões do próprio Supremo, parece esquecer que tribunais não existem para agradar governos, mas para contrariá-los quando necessário. Já os ministros, goste-se deles ou não, não são auxiliares do Executivo — nem personagens de confiança ou desconfiança presidencial. Desde Montesquieu, convencionou-se que os Poderes devem ser independentes e, se possível, até desconfiados entre si. Quando um chefe de Estado passa a emitir juízo de valor sobre a “seriedade” de juízes, o problema não é exatamente quem ele elogia ou critica — é o fato de achar que essa avaliação lhe cabe. No fim, a frase diz menos sobre os ministros do Supremo e mais sobre a tentação, sempre presente em Brasília, de tratar instituições como extensões de afinidades pessoais. E isso, convenhamos, nunca foi um bom sinal — nem para a política, nem para a República. O Bêbado e a Equilibrista João Bosco Caía a tarde feito um viaduto E um bêbado trajando luto Me lembrou Carlitos A lua tal qual a dona do bordel Pedia a cada estrela fria Um brilho de aluguel E nuvens lá no mata-borrão do céu Chupavam manchas torturadas Que sufoco! Louco, o bêbado com chapéu coco Fazia irreverências mil Pra noite do Brasil, meu Brasil Que sonha com a volta do irmão do Henfil Com tanta gente que partiu Num rabo de foguete Chora a nossa pátria, mãe gentil Choram Marias e Clarisses No solo do Brasil Mas sei que uma dor assim pungente Não há de ser inutilmente A esperança dança Na corda bamba de sombrinha E em cada passo dessa linha Pode se machucar Azar, a esperança equilibrista Sabe que o show de todo artista Tem que continuar
Composição: João Bosco, Aldir Blanc, John Turner, João Bosco João Bosco (João Bosco de Freitas Mucci, nascido em 13 de julho de 1946, em Ponte Nova, Minas Gerais) é um cantor, compositor e violonista brasileiro, reconhecido como um dos mestres da música popular brasileira (MPB). Sua obra combina sofisticação harmônica, lirismo poético e influências do samba, jazz, bossa nova e ritmos afro-brasileiros. Principais fatos Nascimento: 13 de julho de 1946, Ponte Nova (MG) Parceiros marcantes: Aldir Blanc, Vinicius de Moraes, Chico Buarque Canções icônicas: “O bêbado e a equilibrista”, “O mestre-sala dos mares”, “Papel machê” Prêmio de excelência: Grammy Latino pelo conjunto da obra (2017) Álbum recente: Boca cheia de frutas (2024)【turn0search4】【turn0search6】【turn0search7】 Trajetória e estilo Formado em engenharia, Bosco iniciou-se na música em Ouro Preto nos anos 1960, onde conheceu Vinicius de Moraes, seu primeiro parceiro. A partir de 1970, consolidou com Aldir Blanc uma das mais fecundas duplas da MPB. Suas composições ganharam projeção com gravações de Elis Regina, como “Bala com bala” e “O bêbado e a equilibrista”, esta última símbolo da anistia política no Brasil. Seu estilo de violão alia ritmo percussivo e harmonia complexa, criando uma linguagem singular que dialoga com o jazz e o samba【turn0search6】【turn0search2】. Legado e colaborações Ao longo de mais de cinquenta anos de carreira, João Bosco gravou mais de vinte álbuns e colaborou com nomes como Milton Nascimento, Caetano Veloso e Djavan. Trabalhou intensamente com o filho Francisco Bosco e foi homenageado em 2024 pela Universidade Estadual de Campinas, que destacou seu papel como símbolo da diversidade musical brasileira【turn0search4】. Produção recente O disco Boca cheia de frutas (2024) reafirma a vitalidade criativa do artista, com parcerias com Francisco Bosco, Aldir Blanc e Roque Ferreira. A obra mescla novas composições e reinterpretações de clássicos de Milton Nascimento e Chico Buarque, reforçando sua busca constante por inovação dentro da tradição da MPB【turn0search6】.

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