Inspirados já nos ensinamentos de Sófocles, aqui, procurar-se-á a conexão, pelo conhecimento, entre o velho e o novo, com seus conflitos. As pistas perseguidas, de modos específicos, continuarão a ser aquelas pavimentadas pelo grego do período clássico (séculos VI e V a.C).
quinta-feira, 12 de março de 2026
Entre a força e a lei
O discurso de Stephen Miller a militares latino-americanos reacende um antigo dilema das democracias: até onde vai o poder da força quando confrontado com o juramento constitucional defendido por oficiais como Mark Milley.
Legenda:
“Força ou Constituição?” — À esquerda, o assessor presidencial Stephen Miller simboliza a visão de poder baseada no uso ampliado da força militar contra ameaças internas e externas. À direita, o general Mark Milley, ex-chefe do Estado-Maior Conjunto, representa a tradição institucional das Forças Armadas americanas de lealdade à Constituição acima de qualquer líder político. A tensão entre essas duas concepções de autoridade reaparece no debate provocado pelo discurso de Miller a militares latino-americanos no encontro de Doral, na Flórida.
O discurso de Doral
DORAL, Flórida — Em março de 2026, durante o Shield of the Americas Summit, realizado na cidade de Doral, o assessor presidencial Stephen Miller voltou ao centro do debate político no hemisfério.
Diante de ministros da Defesa e generais de 16 países latino-americanos, o principal estrategista de segurança e imigração do presidente Donald Trump apresentou uma visão agressiva para o combate ao narcotráfico e à imigração ilegal — uma visão que inclui o uso ampliado das Forças Armadas.
O discurso, de tom marcadamente belicoso, defendeu que militares da região assumam papel direto na perseguição a cartéis e redes migratórias. Em sua intervenção, Miller afirmou que, sob Trump, os Estados Unidos estariam usando “poder coercitivo, poder militar e força letal para proteger a pátria americana”.
Mais controversa foi sua mensagem implícita de desprezo pelos limites jurídicos da guerra ao crime organizado. Ao comentar as restrições legais enfrentadas por oficiais latino-americanos, sugeriu que não deveriam dar atenção excessiva aos advogados.
Para críticos, a fala representa um convite explícito à militarização da segurança pública e à erosão de garantias legais.
O general que disse não
O contraste mais forte dentro do universo político que orbitou a presidência Trump não está apenas entre governos ou partidos, mas dentro do próprio aparato estatal americano.
Apesar da semelhança sonora do sobrenome, o militar que protagonizou alguns dos episódios mais tensos do governo Trump foi o general Mark Milley, então chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas dos Estados Unidos.
Milley tornou-se uma figura central na tentativa de preservar a separação entre política e comando militar durante o primeiro mandato de Trump.
O episódio mais simbólico ocorreu em junho de 2020. Após a dispersão de manifestantes na Praça Lafayette, em Washington, Trump caminhou até a Igreja de St. John’s para posar diante das câmeras segurando uma Bíblia. Ao lado dele estava Milley, em uniforme.
Poucos dias depois, o general fez algo raro para um oficial daquele nível: pediu desculpas publicamente.
“Eu não deveria estar lá”, afirmou, reconhecendo que sua presença criou a percepção de que os militares estavam sendo usados em uma encenação política.
Relatos posteriores indicaram que o general chegou a considerar renunciar.
Lealdade ao presidente ou à Constituição?
Nos meses seguintes, o relacionamento entre Trump e Milley deteriorou-se profundamente.
Segundo reportagens e depoimentos posteriores, o general expressou preocupação com decisões impulsivas do presidente no final do mandato — incluindo o risco de conflitos militares ou medidas extraordinárias para contestar o resultado da eleição de 2020.
Em conversas internas, Milley insistiu em um princípio central da tradição militar americana: oficiais juram lealdade à Constituição, não a um indivíduo.
Esse posicionamento o colocou em choque direto com figuras do núcleo político da Casa Branca, entre elas Stephen Miller, conhecido por defender respostas mais duras a protestos e imigração.
Um dilema antigo
A diferença entre Miller e Milley revela duas concepções distintas de integridade política.
Para Miller, a coerência moral reside na fidelidade absoluta à agenda do presidente eleito — especialmente à política de segurança e imigração associada ao slogan “America First”.
Para Milley, o dever fundamental é outro: preservar as instituições constitucionais mesmo diante da pressão do poder político.
A divergência sintetiza um dilema clássico das democracias modernas: até onde vai a obediência ao poder civil quando decisões políticas parecem ameaçar os próprios fundamentos institucionais do Estado?
A advertência para a América Latina
O discurso de Miller em Doral reacendeu essa pergunta — desta vez em escala continental.
Ao incentivar militares latino-americanos a agir com menos restrições legais, críticos argumentam que o assessor de Trump propõe uma lógica em que a segurança se sobrepõe ao Estado de direito.
Há mais de dois mil anos, o orador romano Cicero formulou uma máxima que se tornou um dos pilares do pensamento jurídico ocidental:
“Somos escravos da lei para que possamos ser livres.”
A tensão entre essas duas visões — a primazia da força ou a primazia da lei — continua a definir debates sobre democracia, segurança e poder, tanto em Washington quanto no restante das Américas.
Referência jornalística
Este artigo dialoga com a análise “Uma nova ameaça ao Brasil”, publicada em 11 de março de 2026 pelo jornalista Marcelo Godoy no jornal O Estado de S. Paulo, que examina os riscos de militarização da segurança regional e possíveis implicações para a soberania brasileira.
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