Inspirados já nos ensinamentos de Sófocles, aqui, procurar-se-á a conexão, pelo conhecimento, entre o velho e o novo, com seus conflitos. As pistas perseguidas, de modos específicos, continuarão a ser aquelas pavimentadas pelo grego do período clássico (séculos VI e V a.C).
sexta-feira, 13 de março de 2026
Leme, Batuta e Bastão
O peso de governar e a leveza de parecer governar
Jornalista e escritor brasileiro. 🪦(1881 - 1922)
Mario Sergio Cortella - O Brasil não tem povo; tem público
A política raramente se apresenta como realmente é. Ao observador distraído, ela se assemelha a um concerto. O governante ergue a batuta e, com gestos elegantes, sugere que a harmonia nasce naturalmente de sua condução. O público, seduzido pelo espetáculo, acredita que basta o movimento do maestro para que a música exista.
Mas o Estado não é uma sala de concerto. É uma embarcação em mar aberto.
Na realidade do poder, o instrumento decisivo não é a batuta. É o leme. Pesado e muitas vezes invisível para quem observa da superfície, ele exige esforço constante para enfrentar correntes contrárias, ventos imprevisíveis e o atrito permanente das águas. Governar significa lidar com esse trabalho obscuro e pouco celebrado que mantém o rumo da embarcação mesmo quando o mar se torna incerto.
Entre a estética da batuta e o peso do leme existe ainda um terceiro instrumento: o bastão. Ele aparece quando o governante prefere não conduzir nem reger diretamente. O bastão passa de mão em mão. Delegam-se decisões, distribuem-se responsabilidades e, pouco a pouco, o comando efetivo se dilui em arranjos institucionais.
Nesse arranjo, muitos governos descobrem uma forma confortável de existir: mantêm a aparência de liderança com a batuta, evitam segurar o leme e utilizam o bastão para transferir decisões a outros atores políticos.
Assim preservam o prestígio do comando enquanto o custo das decisões recai sobre terceiros.
A política contemporânea acrescentou a esse quadro um novo elemento: o ambiente digital. Redes e plataformas oferecem a promessa de apagar máculas digitais — rastros de declarações, contradições ou decisões inconvenientes. A memória pública, acredita-se, pode ser editada. Marcas seriam reversíveis.
Mas o tempo raramente coopera com tais ilusões.
Hoje é 13 de março, e o horizonte político aponta para outubro. Sete meses separam o presente de um momento decisivo. Houve um tempo em que se dizia que sete meses eram o mínimo necessário para que um feto pudesse sobreviver fora do ventre, caso fosse colocado em uma incubadora.
Desde então, a tecnologia e os recursos médicos evoluíram muito.
Nem todas as matrizes humanas, porém, acompanharam essa evolução.
Algumas continuam apostando que a leveza da batuta substituirá o peso do leme — e que o bastão, discretamente passado adiante, resolverá as dificuldades do caminho.
O mar, entretanto, costuma ensinar outra lição.
Ilustração editorial
(Imagem conceitual: leme, batuta e bastão em composição simbólica envolvendo instituições políticas, redes digitais e mar revolto.)
Legenda da imagem
Na política, três instrumentos competem pelo comando: o leme que governa, a batuta que encena liderança e o bastão que transfere responsabilidades. Em momentos de crise institucional, a disputa entre eles define quem realmente dirige o rumo do Estado.
Quando o leme pesa e a batuta hesita
Uma leitura visual do artigo “Para onde vai o caso Master”
O artigo recente de Fernando Gabeira, publicado em O Estado de S. Paulo, levanta uma pergunta central sobre o escândalo do Banco Master: até onde as investigações poderão avançar quando alcançam as próprias estruturas do poder?
A questão não é apenas jurídica. É institucional.
O caso reúne empresários, parlamentares, autoridades financeiras e ministros da mais alta corte do país. Nesse ambiente, a investigação deixa de ser apenas um procedimento técnico e passa a se tornar também uma disputa política.
É nesse ponto que a metáfora do leme, da batuta e do bastão se torna esclarecedora.
O leme representa a condução efetiva das investigações: o trabalho concreto da Polícia Federal, do Ministério Público e das instituições responsáveis por estabelecer fatos e responsabilidades.
A batuta simboliza o plano visível da política: discursos públicos, narrativas, gestos de solidariedade institucional e tentativas de moldar a percepção do episódio perante a opinião pública.
O bastão, por sua vez, aparece quando decisões são deslocadas entre instituições — do Judiciário ao Legislativo, do Executivo ao sistema de investigação — criando um circuito em que a responsabilidade final se torna difusa.
Na imagem que acompanha esta página, o mar revolto sugere esse cenário de instabilidade institucional. O leme parcialmente submerso indica que a direção real do processo permanece disputada. O bastão passando entre mãos diferentes lembra que, em crises políticas complexas, a transferência de responsabilidades pode se tornar uma estratégia.
Enquanto isso, a batuta continua no ar, conduzindo o espetáculo visível da política.
A pergunta que permanece é simples e difícil ao mesmo tempo:
quem realmente segura o leme?
A resposta determinará não apenas o destino de uma investigação, mas também o grau de confiança nas instituições responsáveis por conduzi-la.
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