quinta-feira, 19 de março de 2026

Cartas A Um Amigo

Carta introdutória a um amigo curioso https://www.instagram.com/reel/DVHwrtdDGJt/?igsh=MWV4OXNneXR3eHYxcQ==
De um observador distante, no espírito das viagens e inquietações do saber Meu caro amigo, Parto agora não por desertos ou montanhas, mas por caminhos feitos de ideias, e levo comigo o mesmo desejo que moveu antigos viajantes: compreender os homens, seus costumes e as estranhas leis que governam suas ações. Chegaram-me às mãos alguns escritos que, embora distintos em forma e origem, parecem conversar entre si como velhos conhecidos. Neles encontrei reflexões que ora me inquietam, ora me esclarecem — e julguei que poderiam também interessar ao teu espírito atento. Um desses textos, de Roberto DaMatta, descreve uma curiosa disposição dos homens de certa terra: lá, o que é crime para uns pode ser celebrado como engenho para outros. Não sei se devo admirar tal flexibilidade ou temer suas consequências, pois parece que as leis ali se dobram diante das relações pessoais, como se a justiça tivesse dois pesos — um para os próximos, outro para os distantes. Em outro escrito, encontrei as ideias do sábio Jürgen Habermas, que se dedica a compreender como os homens podem discordar sem se destruírem. Ele sustenta que a convivência não exige silêncio, mas palavras; não impõe uniformidade, mas requer que as diferenças sejam expostas à luz, como mercadorias em praça pública, onde todos possam examiná-las. Confesso-te que tal esperança me parece ao mesmo tempo nobre e frágil. Também me detive em uma antiga correspondência, a célebre Cartas Persas, na qual viajantes, como nós, descobrem que o mundo é maior do que suas certezas. Ali aprendi que o estrangeiro vê com mais clareza aquilo que o hábito torna invisível — e que, muitas vezes, é preciso afastar-se para compreender. Por fim, observei relatos de acontecimentos recentes, transmitidos por vozes públicas como as do Jornal da Cultura, nos quais se revelam as inquietações do presente: disputas de poder, decisões políticas e os movimentos de uma sociedade que parece sempre à beira de um novo equilíbrio. Dize-me, meu amigo: como podem os homens viver entre leis que nem sempre respeitam, opiniões que raramente conciliam e desigualdades que insistem em perpetuar? Será possível construir uma ordem onde a justiça não dependa da proximidade, e o desacordo não conduza ao ódio? Leio tudo isso não como quem busca respostas definitivas, mas como quem deseja formular melhores perguntas. E é por isso que te envio estas reflexões: para que, mesmo à distância, possamos compartilhar o exercício mais difícil e mais necessário — o de pensar. Escreve-me quando puderes, e conta-me o que pensas dessas estranhas sociedades que, embora distantes, talvez não sejam tão diferentes da nossa. Adeus, meu caro amigo. Permaneço, em qualquer lugar onde esteja, teu fiel observador.
quarta-feira, 18 de março de 2026 Crime ou esperteza? Por Roberto DaMatta O Estado de S. Paulo É mais fácil alienar o pobre, remediando sua pobreza, do que criar instituições para ajudá-lo a prosperar Eis uma questão que requer um seguro ou, talvez, um envergonhado “depende”... Depende da pessoa, das circunstâncias, do lugar. Em geral, a esperteza engloba o crime, dissolvendo-o na moldura da malandragem e do “arrumar-se” como um modo consentido e “esperto” de “ficar rico”. O crime é relativo a muitas circunstâncias. Tirar dinheiro do pai, vender gato por lebre, falsificar documentos ou roubar livros de bibliotecas públicas são espertezas, malandragens e jeitinhos. Tais práticas, feitas por parentes e amigos, serão enquadradas na ética de reciprocidade da “casa” ou da categoria profissional, o que os jornais chamam de “corporativismo”. Ora, o corporativismo tem como base precisamente esse transbordamento pessoal que anula regras igualitárias impessoais em favor de simpatias e favores pessoais, o que leva à desmoralização institucional e à descrença na igualdade, visto que a obrigação de retribuir favores anula normas profissionais. Há um óbvio desequilíbrio entre costumes jamais criticados e normas legais racionais, de modo que não conseguimos ultrapassar a dominação tradicional, efetivando a dominação burocrática. Dilema que se expressa no batido: se for “nosso”, é esperteza; se for “deles”, é crime! Nesse axioma cultural há a incontornável força dos hábitos e costumes que – como definiu E.B. Tylor em 1871 – são aprendidos pelos membros de uma sociedade como “cultura”. Se o nosso sistema moral adota uma ética de ambiguidade, a igualdade como um ideal antiaristocrático sofre aceitação ou rejeição. Se eu roubar numa ciranda financeira impessoal, por intermédio de uma prestigiosa rede pessoal, o crime pode virar esperteza. Mas sem elos políticos importantes a esperteza corre o excepcional risco de virar crime. Como sair dessa ambiguidade determinada pelo axioma de que a sociedade é feita de doutores e analfabetos, sabidos e trouxas? Como acabar com pobres e ricos, abandonando a ideia de que são os ricos que vão, nobremente, acabar com os pobres, em vez de pensar num sistema no qual todos possam enriquecer? É mais fácil alienar o pobre, remediando sua pobreza, do que criar instituições capazes de fazê-lo prosperar. Mas como abrir o cofre das fortunas sociais de modo igualitário e universal? Será somente pela política, como até hoje insistimos em imaginar? Ou seria pela criação de um movimento de conscientização igualitária, por intermédio de uma simplificação desses legalismos que sustentam um obsoleto sistema cultural incapaz de distinguir crime e esperteza. •
quarta-feira, 18 de março de 2026 Habermas: o filósofo das condições civilizadas do desacordo, por Wilson Gomes Folha de S. Paulo A esfera pública sustenta a legitimidade das decisões democráticas Em tempos de sectarismo, ele ainda ensina como discordar sem destruir a democracia Quem, como eu, se formou em filosofia ou ciências humanas no último quartil do século passado teve o mundo povoado e profundamente marcado por professores nascidos nas primeiras três décadas do século 20: Gadamer, Lévi-Strauss, Popper, Ricoeur, Eco, Apel, Rawls, Habermas. Fora Popper, falecido ainda nos anos 1990, todos morreram neste século; o último, o filósofo alemão Jürgen Habermas, foi-se neste sábado (14), aos 96 anos. Era o último filósofo vivo do peculiar século 20, o das duas guerras mundiais, da ascensão e queda do fascismo e do totalitarismo socialista. A história do pensamento de Habermas, registrada em uma obra monumental publicada ao longo de quase 65 anos de vida intelectual ativa, pode ser resumida de muitos modos. Eu a abordo como a história de um dos problemas-chave do regime democrático: como transformar a divergência, natural em toda forma social, em processo legítimo de formação da opinião e da vontade política comum em sociedades pluralistas. Ao contrário de uma caricatura comum, a filosofia política de Habermas não consiste em uma exortação piedosa à convergência e ao entendimento. Habermas não é o pregador do consenso, mas o filósofo das condições civilizadas do desacordo. O seu é um pensamento que considera com seriedade a disputa na vida pública, mas examina as condições em que o atrito de interesses, ideias, pretensões e vontades, que é natural esperar em sociedades livres e pluralistas, pode ser legítimo e produtivo. A sua obra é uma tentativa de explicar como sociedades podem trabalhar a colisão de vontades e ideias em benefício da democracia. Das duas ou três coisas fundamentais que aprendi com Habermas, a primeira delas é que a democracia não é um regime político que bane o conflito, mas um modelo de sociedade capaz de transformar diferenças em trocas argumentativas públicas. Supondo-se que sociedades livres são inevitavelmente plurais, atravessadas por valores incompatíveis, interesses divergentes e visões de mundo rivais, há vários modos de lidar com isso. Pode-se calar as divergências pela força, pelos automatismos institucionais e burocráticos ou com intolerância e autoritarismo. Ou pode-se acolher as diferenças exigindo delas que ganhem a forma de argumentos a serem expostos de forma franca e aberta e discutidos livremente à vista de todos. É isso a famosa esfera pública habermasiana, a infraestrutura básica da democracia, em que interesses e vontades, transformados em argumentos, são ao mesmo tempo visíveis e contestáveis. É preciso garantir que tudo possa ser examinado, submetido à contestação. O que supõe condições comunicativas mínimas, como o reconhecimento do pluralismo, a disposição à crítica e o reconhecimento da legitimidade do adversário. Além das obrigações recíprocas assumidas por quem quer autenticamente argumentar, que consistem em considerar o que o outro diz, discutir lealmente e justificar publicamente as próprias posições. Apesar das sucessivas reelaborações desse pensamento na obra de Habermas —desde "Mudança Estrutural da Esfera Pública", passando pela "Teoria da Ação Comunicativa", pela ética do discurso e, enfim, pela formulação madura de "Direito e Democracia"—, há quem tenha sempre achado essa ideia pouco realista. Já eu a acho mais necessária do que nunca. Compreendo o sentimento geral de desânimo de quem vê hoje um modelo de convivência política em que as pessoas buscam se refugiar em seitas, tribos e facções nas quais é vedado considerar o que o outro lado diz, é proibido rever as próprias convicções, é inaceitável enxergar o problema a partir da posição do interlocutor ou admitir que ele fale de boa-fé ou que algum de seus argumentos possa ser, se não verdadeiro, ao menos razoável. Mas não há caminho para assegurar pluralismo e democracia que não passe pela contenção do autoritarismo e da intolerância. Pela superação da "balcanização" da sociedade, fragmentada em unidades cada vez menores e extremamente hostis entre si, em que encontrar um solo comum está se tornando uma impossibilidade. Sim, é fato que os sectarismos atuais não parecem estar apenas de visita em nossa cambaleante democracia, mas isso não quer dizer que estamos condenados a nos despedaçar em comunidades de ódio e ressentimento recíprocos. O impulso para buscar entendimentos e acordos a fim de encontrar um modo de conviver na diferença é também um motor poderoso da nossa história e tende a funcionar como contratendência para frear as pulsões de autodestruição por fragmentação e incapacidade de comunicação.
Cartas A Um Amigo Carta I: Usbek a seu amigo Rustan Em Isfahan "Apenas ficamos um dia em Com; quando terminamos nossas devoções no túmulo da virgem que pôs no mundo doze profetas, retomamos o caminho; e ontem, vigésimo quinto dia da nossa partida de Ispahan, chegamos a Tauris. Rica e eu somos talvez os primeiros, entre os persas, que a vontade de saber fez sair de seu país, e que renunciaram às doçuras de uma vida tranquila para ir buscar laboriosamente a sabedoria. Nascemos num reino florescente; mas não acreditamos que os seus limites fossem os dos nossos conhecimentos, e que a luz oriental devesse ser a única a iluminar-nos. Manda-me dizer o que se fala de nossa viagem; não me lisonjeies: não conto com um grande número de aprovadores. Endereça a tua carta para Erzeron, onde ficarei algum tempo. Adeus, meu caro Rustan. Fica certo de que, em qualquer lugar do mundo onde eu esteja, tens um amigo fiel." De Tauris, no 15 da lua de Saphar, 1711. Onde ler a obra completa: Em Português (PDF): Além do link da Tinta da China, você encontra versões no Scribd. Original em Francês: O texto integral original está disponível no Projeto Gutenberg e na Gallica (Biblioteca Nacional da França). A IA pode cometer erros. Por isso, cheque as respostas JORNAL DA CULTURA | 18/03/2026 Jornalismo TV Cultura Transmissão ao vivo realizada há 2 horas #JC #JornalDaCultura No Jornal da Cultura desta quarta-feira (18), você vai ver: Polícia Federal investigará as fraudes do Banco Master por mais 60 dias; CCJ do Senado adia votação sobre o fim da aposentadoria compulsória a juízes como punição; explosão perto de usina do Irã acende o alerta da comunidade internacional; e mais. Para comentar essas e outras notícias, Rita Lisauskas recebe José Vicente, reitor da Universidade Zumbi dos Palmares, e o economista, Gesner Oliveira, da Fundação Getulio Vargas. #JC #JornalDaCultura

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