Inspirados já nos ensinamentos de Sófocles, aqui, procurar-se-á a conexão, pelo conhecimento, entre o velho e o novo, com seus conflitos. As pistas perseguidas, de modos específicos, continuarão a ser aquelas pavimentadas pelo grego do período clássico (séculos VI e V a.C).
segunda-feira, 16 de março de 2026
Problemas nos trilhos do crédito
segunda-feira, 16 de março de 2026
O elo perdido entre a máfia do INSS e o Banco Master, por Bruno Carazza
Valor Econômico
Farra com consignado lesou milhões e indica que outras instituições financeiras possam ter seguido o mesmo caminho do Master
O sinal de alerta me soou lendo a coluna de Jairo Saddi, aqui no Valor. No artigo de 02/03, o advogado chamou a atenção para dados de uma pesquisa acadêmica sobre o padrão de disputas judiciais envolvendo instituições financeiras. Como o tema me interessa, fui atrás da fonte. E acabei encontrando aquele que pode ser o elo perdido entre as fraudes bilionárias da máfia do INSS e do Banco Master.
E mais: talvez seja um problema que vá além do Careca do INSS e de Daniel Vorcaro. Em vez de obras de gênios do mal, podemos estar diante de uma prática sistêmica que lesa milhões de pessoas e compromete a estabilidade do sistema financeiro nacional.
Instituições financeiras aparecem como alvo em 9,1% dos processos e eram autoras de 5% das ações em tramitação na Justiça brasileira. Tomando por base apenas os casos iniciados em 2024, o ranking é liderado por Bradesco, Banco do Brasil, Itaú e Santander. Até aí, nada de mais: é esperado que os maiores bancos sejam aqueles com mais ações contra e a favor.
No entanto, um padrão diferente aparece quando se analisam o índice de litigância de cada empresa - o número de ações dividido pela sua base de clientes - e se os bancos são predominantemente alvo ou autores dos processos. Combinando os dois critérios, é possível identificar um conjunto de instituições que i) têm um número muito elevado de processos em relação à sua quantidade de correntistas e ii) na imensa maioria dessas ações elas são processadas, e não autoras.
Nesse grupo destacam-se Agibank, BMG, Mercantil do Brasil, Master e BRB. Em comum, eles têm um número de processos por clientes muitas vezes superior ao das maiores instituições do mercado e em mais de 90% dos casos eles são processados pelos correntistas, e pouco recorrem à Justiça para reaver bens dados em garantia, por exemplo. Para completar, são instituições especializadas numa modalidade específica de operação: o crédito consignado.
Essas informações foram retiradas do artigo “Características Essenciais da Litigância do Setor Financeiro: evidências da Justiça estadual brasileira”, publicado na Revista de Direito do Consumidor de dezembro de 2025, de autoria de Lucas Silva, Pedro Gregorini e Maria Paula Bertran.
As conclusões do estudo despertaram o interesse do Brasilcon - Instituto Brasileiro de Política e Direito do Consumidor, uma organização não governamental há muito preocupada com o crescimento do endividamento da população brasileira. Na visão da entidade, os dados comprovam uma suspeita que tira o sono de seus integrantes: o abuso de certas instituições financeiras nas operações de crédito consignado, inclusive com fraudes na celebração de contratos.
A modalidade de crédito consignado em folha de pagamento, criada em 2003, foi expandida posteriormente para abarcar operações consignadas em cartão de crédito e cartões de desconto. Base do modelo de negócios do Credcesta (Master e depois Pleno), essas últimas são potencialmente muito mais lesivas ao consumidor, pois sofrem a incidência mensal de juros de crédito rotativo e sofrem o desconto de apenas 5% do valor da dívida na folha de pagamento. O resultado é uma bola de neve praticamente impossível de ser paga por pessoas que em geral têm renda muito baixa.
Instrução normativa do INSS chegou inclusive a autorizar a contratação de empréstimos consignados por crianças e adolescentes sem autorização judicial, em total desrespeito ao Código Civil. Com base nessa norma, mais de 2 milhões de contratos foram firmados em nome até mesmo de bebês desde 2022, a maioria celebrados por C6, Panamericano e Facta Financeira.
Para piorar, muitas das operações com consignado têm sido criadas sem o consentimento dos clientes. Dados da plataforma Consumidor.gov.br, do Ministério da Justiça, mostram que as reclamações referentes a cobranças por empréstimos não solicitados explodiram nos últimos anos. E entre os campeões em queixas estão justamente BMG, Agibank, Daycoval, Master e Mercantil do Brasil, assim como o Banco do Brasil (que tem um volume de operações bem maior).
Além dos milhões de pessoas penduradas no consignado por operações legais ou fraudulentas praticadas por essas instituições, há um problema sistêmico de proporções ainda maiores. Envelopados em Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), esses empréstimos de recuperação duvidosa estão lastreando ativos de muitas instituições financeiras, como se viu no caso Master e BRB. Caso não venham a performar como o esperado (o que é possível, dado o perfil de risco dos clientes), podemos estar diante de um fenômeno que guarda muitas semelhanças com a crise do subprime nos Estados Unidos.
Celebração fraudulenta, ampliação das margens para abarcar cartões de crédito e falta de fiscalização nos FIDCs lastreados nessas operações: temos aí uma conexão entre a máfia do INSS, o Credcesta e as operações do Master com o BRB que pode ter sido replicada por outras instituições.
Talvez estejamos diante de um problema muito mais grave do que aqueles que a delação de Vorcaro possa revelar.
ENTENDA O COMPLEXO ESQUEMA QUE ENVOLVE O BANCO MASTER | Bruno Carazza explica de forma clara e direta como funcionava as supostas fraudes na instituição de Daniel Vorcaro, rastreada pelo Banco Central.
Jornal da Globo
15 de janeiro
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Resumo claro do artigo
O artigo de Bruno Carazza aponta que pode existir uma conexão estrutural entre fraudes no crédito consignado do INSS e operações financeiras de alguns bancos, especialmente envolvendo o Banco Master. Mais do que casos isolados, o problema pode indicar um padrão sistêmico no mercado financeiro brasileiro.
1. O alerta inicial
Um estudo acadêmico analisou processos judiciais envolvendo bancos.
Ele revelou um padrão incomum em algumas instituições:
possuem muito mais processos proporcionalmente ao número de clientes
mais de 90% das ações são contra elas, movidas por consumidores
Entre os bancos com esse padrão aparecem:
Agibank
BMG
Mercantil do Brasil
Master
BRB
Essas instituições têm algo em comum: forte atuação em crédito consignado.
2. O problema do crédito consignado
O crédito consignado é descontado diretamente do salário ou benefício do cliente.
Com o tempo, o modelo foi ampliado para incluir:
cartões de crédito consignados
cartões de desconto consignados
Essas modalidades podem ser muito mais perigosas para o consumidor, porque:
cobram juros rotativos elevados
apenas 5% da dívida é descontada mensalmente
o restante vira juros acumulados
Isso pode gerar dívidas praticamente impagáveis, especialmente para pessoas de baixa renda.
3. Indícios de fraudes
Há indícios de contratos feitos sem autorização dos clientes.
Reclamações por empréstimos não solicitados cresceram muito nos últimos anos.
Entre os bancos mais citados nas reclamações estão:
BMG
Agibank
Daycoval
Master
Mercantil do Brasil
Além disso, uma norma do INSS chegou a permitir contratos de consignado em nome de crianças e adolescentes, o que gerou mais de 2 milhões de contratos desde 2022, inclusive em nome de bebês.
4. Risco maior para o sistema financeiro
O problema não atinge apenas consumidores.
Esses empréstimos são empacotados em fundos financeiros chamados FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios).
Ou seja:
os bancos concedem empréstimos de alto risco
transformam essas dívidas em ativos financeiros
vendem esses ativos para investidores
Se muitos desses empréstimos não forem pagos, o sistema pode enfrentar um efeito semelhante ao da crise do subprime nos Estados Unidos em 2008.
5. A possível ligação entre os escândalos
O autor sugere que existe um elo entre três elementos:
fraudes no consignado do INSS
o produto financeiro Credcesta
operações do Banco Master e do BRB
Essas práticas podem ter sido replicadas por outras instituições, ampliando o risco.
Conclusão
O artigo alerta que o problema pode ser muito maior do que os casos já investigados.
Não se trataria apenas de ações isoladas de alguns operadores, mas possivelmente de um modelo de negócios baseado em crédito consignado arriscado, abusivo e por vezes fraudulento, que:
prejudica milhões de consumidores
gera milhares de processos judiciais
pode representar risco para a estabilidade do sistema financeiro brasileiro.
S
Problemas nos trilhos do crédito
VOZ DA CENTRAL 🚂
A Bruta até o Último Vagão
Uma locomotiva antiga avança pesada pelos trilhos gastos.
Na frente, a Bruta da Central do Brasil puxa a composição com esforço, cuspindo fumaça enquanto o caminho à frente se mostra torto e incerto.
Atrás dela, vagão após vagão segue acoplado.
Todos dependem da mesma tração.
Todos estão presos aos mesmos trilhos.
Pelo percurso aparecem placas estranhas, avisos mal colocados e sinais que ninguém parece controlar.
Entre eles, um aviso torto à beira da linha: “Crédito Consignado”.
A máquina continua andando.
O maquinista sabe que parar no meio da linha é impossível.
Mas também percebe que os trilhos já não inspiram confiança.
E assim segue o trem da Central:
da locomotiva até o último vagão, carregando passageiros que embarcaram com esperança, mas agora atravessam um trecho em que os sinais são confusos e o terreno parece instável.
A pergunta que ecoa pelos vagões é simples:
quem está realmente conduzindo essa viagem — e para onde vão esses trilhos?
S
VEJA COMO A GUERRA COM O IRÃ DEFINIRÁ O FUTURO DE ISRAEL E DOS EUA | MYNEWS ENTREVISTA
MyNews
Na charge de Luniyass, uma palavra faz todo o trabalho: “escort”.
Entre a escolta naval e o trocadilho malicioso, a cena sugere que, no teatro do poder, interesses também podem ser “acompanhados” até a porta do governo.
A caricatura exagera, provoca e simplifica — como toda boa charge — para deixar no ar a suspeita que sustenta a piada: talvez algumas alianças cheguem ao poder muito bem escoltadas.
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