domingo, 22 de março de 2026

O LINCE — porque ver é mais do que olhar.

Maria Lúcia Godoy - QUEM SABE - Carlos Gomes e F.L. Bittencourt Sampaio luciano hortencio 🦅 O LINCE — Edição Especial (com referências e locações) Tão longe, tão perto — sob o olho de lince por Olho de Lince
Opinião Estadão @opiniao_estadao #EspaçoAberto | Luiz Sérgio Henriques O ‘hegemon’ que não sabe recuar - Político talhado para o conflito, Donald Trump é causa e efeito de uma gigantesca destruição não criadora https://estadao.com.br/opiniao/luiz-sergio-henriques/o-hegemon-que-nao-sabe-recuar/ 📸Julia Demaree Nikhinson/AP 7:00 AM · 22 de mar de 2026 · Chico Buarque - Sabiá (1968) Composição de Tom Jobim (música) e Chico Buarque (letra), de 1968, ganhadora do III Festival Internacional da Canção. Versão de compacto de Chico, também de 1968, lançado pela RGE.
Na reportagem, a Economist destaca que a guerra está minando três das principais armas de Trump em seu governo: "sua capacidade de impor sua própria realidade ao mundo, seu uso implacável de influência e seu domínio sobre o Partido Republicano". Também diz que o regime iraniano está tendo sucesso em sua estratégia de prolongar o confronto e pressionar a indústria energética global com o bloqueio do Estreito de Ormuz, que levou o preço do petróleo a chegar aos US$ 110 por barril. "O presidente demonstrou uma notável capacidade de distorcer os fatos e, certamente, insiste que já triunfou no Irã. Contudo, a guerra revela uma verdade própria. (...) O tempo está a favor do Irã", ressalta o texto. Para a revista, uma guerra prolongada deve prejudicar também as eleições legislativas de meio de mandato, que ocorrerão em novembro, para o Partido Republicano, o do presidente americano.
domingo, 22 de março de 2026 O ‘hegemon’ que não sabe recuar, por Luiz Sérgio Henriques O Estado de S. Paulo Político talhado para o conflito, Donald Trump é causa e efeito de uma gigantesca destruição não criadora Um hegemon vingativo, destruidor de instituições que ele próprio ajudou a inspirar, a começar pela ONU e sua Carta de Direitos, está em evidente curso de dissolução da própria hegemonia. Conceito complexo este último. Nutre-se não só do poderio industrial ou militar, mas também, e amplamente, da capacidade de direção política e intelectual – de soft power, em suma. Essa é uma lição secular, anterior a qualquer formulação gramsciana. Já o centauro maquiaveliano, educador de políticos, alertava contra o uso exclusivo da violência. Se o príncipe só mobiliza as qualidades do leão e menospreza as manhas da raposa, ele incute medo nos lobos e termina preso numa armadilha. Político talhado para o conflito, Donald Trump é causa e efeito de uma gigantesca destruição não criadora. Seu ato inaugural foi a deflagração de uma guerra comercial global, com o cancelamento dos mecanismos de regulação das disputas entre nações. Politicamente, os Estados Unidos de Trump passaram a ser um país que tensiona alianças de longa data, obcecado pelo interesse de se tornar “grande de novo”. Ao menos na retórica, agora seria o momento de se fechar num esplêndido isolamento, longe das tentações intervencionistas tanto dos adversários democratas quanto dos republicanos de feição neoconservadora. A ilusão não durou muito. De fato, o que se fez foi reorientar a presença norte-americana num mundo concebido como luta de soberanias sem qualquer limitação. A nova direita, como sabemos, diz-se “soberanista” por toda parte, mesmo quando se afirma em países com pouco poder relativo, aos quais cabe ficar à sombra daqueles que são verdadeiramente fortes. Estabelecidas as respectivas áreas de influência, as potências com vocação imperial se entendem entre si e cuidam de submeter os demais. Torna-se mais fácil a convergência de Trump com Putin do que com Zelenski. E é natural que Netanyahu, apoiado na supremacia dos Estados Unidos, ignore os direitos dos palestinos assegurados em inúmeras resoluções da ONU. Manda quem pode, obedece quem tem juízo. Um hegemon suicida abdica de qualquer pensamento estratégico. Compreende-se a crítica trumpista de sucessivas intervenções levadas a efeito sob o lema do regime change, a troca de governos considerados internamente despóticos e externamente desestabilizadores. Um exemplo particularmente trágico foi a destruição do Estado iraquiano por obra dos neoconservadores de George W. Bush. A boa intenção – uma destas de que o inferno está repleto – consistia em “impor a democracia” de cima para baixo, sem examinar suas condições de possibilidade na própria sociedade civil. Agora, no entanto, não se pode mais supor nenhum vestígio de boa intenção. O caso venezuelano, perigosamente perto de nós, expôs a nova tática de “extração” do governante e quase simultânea convivência com a estrutura autocrática de que ele era só a expressão imediata. Antes da operação tecnicamente bem-sucedida, houve toda uma ilegal operação de asfixia sob o pretexto da guerra ao narcoterrorismo, na novilíngua da política trumpista. Uma armada poderosa passou semanas a destruir barcos em águas internacionais, servindo-nos naufrágios e mortes como videogame – essa insuportável pat ol ogi a contemporânea. E o dirigente sequestrado, símbolo político de um penoso “socialismo do século 21”, dificilmente terá tido papel destacado no tráfico propriamente dito. Vingança – e também interesses energéticos – são os móveis do hegemon em declínio. Tomado pelo “sucesso” do paradigma venezuelano, Trump logo determinaria alvos de valor simbólico até maior, a saber, Irã e Cuba. A metodologia é a mesma, a expectativa é a “rendição incondicional”. Não muda a determinação de levar as duas situações ao ponto extremo da crise humanitária, como se a teocracia iraniana, num caso, e o stalinismo tardio, no outro, justificassem ou requeressem o castigo coletivo a que as populações civis estão sendo submetidas. Em contraposição gritante, basta mencionar as políticas do ex-presidente Obama há cerca de dez anos, participando de um acordo nuclear multilateral com o Irã e promovendo o reatamento de relações com Cuba. O hegemon já então não dirigia unilateralmente os acontecimentos nem tinha os recursos de poder que antes o credenciavam como protagonista indiscutido. Estava a pleno vapor uma nova “fábrica do mundo”, de superestrutura política autocrática, começando a projetar poder pela rota do comércio, dos investimentos e de uma versão particular de poder suave. Em tese, porém, com dirigentes formados na tradição anterior teria sido possível levar a termo uma retirada ordenada. Na guerra, como na política, tal movimento tem valor comparável ao de uma ofensiva, especialmente quando reforçado pela dimensão democrática própria das sociedades abertas – uma dimensão que as tornou até hoje singularmente atraentes. Seja como for, trata-se de uma especulação, razoável embora. Menos especulativo será afirmar que, se recorrer apenas à violência, mesmo um grande país fatalmente cairá em armadilha que, por natureza, leões não percebem. Música | Sidney Miller - Botequim Nº1
Tão longe, tão perto, duração da guerra do Irã pode decidir eleições no Brasil Publicado em 22/03/2026 - 10:50 Luiz Carlos Azedo Brasília, Comunicação, Economia, Eleições, EUA, Governo, Imposto, Irã, Itamaraty, Memória, Partidos, Política, Política, Segurança, Transportes, Violência A Operação Fúria Épica parece distante de um fim próximo, embora concebida para durar poucos dias. O nó górdio da guerra é o bloqueio do Golfo de Ormuz, controlado pelo Irã Neste ano eleitoral, há três fatores imponderáveis para os humores da sociedade: o desfecho do escândalo do Banco Master, em relação à credibilidade das instituições; a prisão em regime fechado do ex-presidente Jair Bolsonaro, com suas recorrentes internações por problemas de saúde; e a guerra do Irã, com forte impacto no preço dos combustíveis e, consequentemente, na inflação. O primeiro favorece uma candidatura outsider, o segundo a do senador Flávio Bolsonaro e, o terceiro, qualquer um dos dois ou um candidato de “terceira via”. Ou seja, para se reeleger, o presidente Luís Inácio Lula da Silva precisa ficar esperto, o tempo fechou. Desses fatores, a guerra do Irã é aquela que está completamente fora do alcance da política brasileira. Embora traga a política externa para o debate interno, devido às relações do governo brasileiro com o regime dos aiatolás, o contencioso com Israel e as fricções entre Lula e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, é uma “externalidade negativa” que precisa ser mitigada. Entretanto, o Itamaraty não pode influenciar o destino da guerra e seu impacto na economia depende da duração do conflito. Hoje, esse é o fator mais crítico para a economia global, sobretudo devidos à escala dos danos permanentes causados à infraestrutura da região. Historicamente, o preço do petróleo acompanha as crises do Oriente Médio. Leia também: Trump diz que EUA ‘aniquilarão’ usinas nucleares do Irã A Guerra do Yom Kippur (1973), que durou três semanas, foi a causa do primeiro “Choque de Petróleo”. Em retaliação ao apoio a Israel, a OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), fundada em 1960, um cartel inicialmente formado por Arábia Saudita, Irã, Iraque, Kuwait e Venezuela, quadruplicou o preço do petróleo, que saltou de 3 para 12 dólares o barril. Aqui no Brasil, isso provocou o fim do “milagre econômico” no governo Geisel e a derrota eleitoral dos militares em 1974. Outras guerras causaram elevação do preço do petróleo e grande instabilidade nos mercados. A tomada do poder pelos aiatolás no Irã e a subsequente guerra com o Iraque (1980–1988) foram responsáveis pelo segundo Choque do Petróleo, em 1982, e a Crise da Dívida dos países em desenvolvimento. A alta nos preços do combustível e a elevação dos juros americanos foram o estopim da hiperinflação no Brasil, só superada com o Plano Real, em 1994. Em 1991, a Guerra do Golfo (invasão do Kuwait pelo Iraque) durou sete meses e provocou forte alta do petróleo, somente contida pela intervenção dos Estados Unidos e o uso de reservas estratégicas de combustível. Nova crise no mercado se deu com a Guerra do Iraque, em 2003, com a invasão do país pelos Estados Unidos, sob o falso pretexto de que Sadam Hussein estaria produzindo armas químicas de extermínio em massa. Seis semanas de ocupação não confirmaram a acusação e desestabilizaram o país até hoje. Na época, os preços chegaram a 40 dólares o barril de petróleo. Nacionalismo Nessa guerra do Irã, ataques a refinarias no Kuwait e Arábia Saudita fizeram o petróleo Brent disparar mais de 6% em um único dia. Dependendo da escala, o barril pode atingir os US$ 200. Depois de realizar cerca de oito mil voos sobre o território iraniano, atingir cerca de 7 mil a 7,8 mil alvos no país e matar o líder supremo da República Islâmica, Ali Khamenei, e parcela considerável da cúpula do regime, os Estados Unidos ainda parecem longe de atingir os objetivos anunciados no início das hostilidades. A guerra provoca a maior disrupção de oferta de petróleo da história, segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), com a cotação do barril atingindo quase US$ 120 esta semana, além de causar pressão inflacionária global e abalo de cadeias produtivas. O preço do petróleo na sexta-feira (20), estava a US$ 113,10 (R$ 590,04), alta de 4,05% na comparação com o dia anterior. O mercado trabalha com três cenários: choque temporário, barril a US$ 73,1, com menor impacto na inflação; choque persistente, com preço médio do barril em US$ 82; e choque disruptivo: preço médio do barril acima de US$ 100, com aumento significativo da inflação global e do valor dos combustíveis. Iniciada em 28 de fevereiro, a Operação Fúria Épica parece distante de um fim próximo, embora tenha sido concebida para durar poucos dias. O nó górdio da guerra é o bloqueio do Golfo de Ormuz, controlado pelo Irã, por onde circulam 20% da produção mundial, e a estratégia de escalada e guerra assimétrica agora adotada pelo regime dos aiatolás. Leia mais: Armadilha de Escalada, guerra no Irã pode sair de controle No Brasil, o presidente Lula zerou o PIS-Pasep sobre combustíveis e pressiona governadores pela redução do ICMS, mas os efeitos ainda não chegaram às bombas. A crise reacendeu o debate entre privatização e estatização, considerado superado pelo mercado. Em visita à Refinaria Gabriel Passos (Regap), entre Betim e Ibirité (MG), em Minas, Lula disse que “a Petrobras voltou a ser a empresa mais rentável do país”, e anunciou a recompra da Refinaria Landulpho Alves (RLAM), na Bahia. Lula criticou também a privatização da BR Distribuidora (atual Vibra Energia), com o argumento de que sua venda reduziu a capacidade de regulação de preços. Ao que tudo indica, pretende politizar a crise e resgatar uma velha bandeira de defesa da Petrobras: “o petróleo é nosso”. Em 2006, deu certo contra o então candidato tucano Geraldo Alckmin, hoje no PSB e seu vice-presidente. Nas entrelinhas: todas as colunas no Blog do Azedo Compartilhe: Clique para compartilhar no Facebook(abre em nova janela)Clique para compartilhar no Twitter(abre em nova janela)Compartilhe no Google+(abre em nova janela)Clique para compartilhar no Pinterest(abre em nova janela) #Guerra. #Petróleo, #inflação, #Irã, #Trump, Lula Olho de Lince (part. Waly Salomão) Jards Macalé Quem fala que sou esquisito, hermético É porque não dou sopa, estou sempre elétrico Nada que se aproxima, nada me estranha Fulano, sicrano e beltrano Seja pedra, seja planta, seja bicho, seja humano Quando quero saber o que ocorre à minha volta Ligo a tomada, abro a janela, escancaro a porta Experimento tudo, nunca me iludo Quero crer no que vem por aí, beco escuro Me iludo Passado, presente, futuro Reviro na palma da mão o dado Presente, futuro, passado Tudo sentir de todas as maneiras É a chave de ouro do meu jogo Fósforo que acende o fogo De minha mais alta razão Na sequência de diferentes naipes Quem fala de mim tem paixão Quando quero saber o que ocorre à minha volta Ligo a tomada, abro a janela, escancaro a porta Experimento, invento, luto, nunca, jamais me iludo Quero crer no que vem por aí, beco escuro Iludo Passado, presente, futuro Viro balanço Reviro na palma da mão o dado Futuro, presente, passado Tudo sentir Total é a chave de ouro do meu jogo É fósforo que acende o fogo De minha mais alta razão E na sequência de diferentes naipes Quem fala de mim tem paixão Composição: Waly Salomao, Jards Macale.
📍 [Imagem principal da crônica — inserida no topo da matéria] Link: https://example.com/imagem-hegemon-sombra.jpg Não confio em sombras. Aprendi cedo que elas não apenas escondem — elas inventam formas. Por isso, quando vi o homem de boné erguido ao vento, com seu pássaro estampado como quem carrega o céu na cabeça, não me detive na pose. Abri a janela, liguei a tomada, fiz o que manda o instinto de quem observa: procurei o que não se mostrava. Diziam ser ele o hegemon, senhor das distâncias, aquele que decide de longe o que acontece perto. Mas havia uma rachadura. Fina no começo, quase discreta, depois alargando-se como conta malfeita. E eu, com meu olho de lince, desconfiei: nenhuma soma fecha quando o mundo entra como variável. A guerra, lá do outro lado do mapa, parecia apenas mais um ruído. Porém, bastou girar o dado — passado, presente, futuro — para entender o cálculo escondido. Um estreito bloqueado, navios parados, petróleo em ascensão. Some-se isso ao tempo, multiplique-se pelo medo e o resultado aparece onde ninguém esperava: no preço da gasolina, no pão, na escolha do voto. Fiz as contas na palma da mão, como ensinava a vida: longe ÷ tempo = perto guerra × mercado = inflação inflação + incerteza = mudança Ele, lá no alto de sua imagem, ainda sustentava o olhar firme. Talvez visse o horizonte. Talvez não visse a sombra que lhe cortava a visão. Porque há coisas que não se alcançam com altura, mas com atenção. Eu experimento tudo, invento, duvido. Nunca me iludo — ou me iludo sabendo. E é assim que sigo: abrindo portas, encarando becos escuros, sentindo o mundo de todas as maneiras. Porque o real não se entrega inteiro a quem apenas manda; ele se revela a quem observa. No fim, entendi: o poder quer prever, mas é o detalhe que decide. E enquanto alguns governam de olhos semicerrados, outros aprendem a ver no escuro. — Olho de Lince 🖼️ Retrato da edição (coluna lateral) 📍 [Imagem da artista — posicionada à direita da seção musical] Link: https://example.com/imagem-evinha.jpg 🎶 Bônus da Saideira: o rouxinol feminino da MPB Hoje, o Lince fecha sua edição com a voz de Evinha, do Trio Esperança. A canção Menino de Braçanã nos leva a outro tipo de travessia: não a geopolítica, mas a da infância, do medo e da fé. 📍 [Letra completa da canção] Link: https://www.letras.mus.br/evinha/menino-de-bracana/ 📍 [Vídeo da canção] Link: https://www.youtube.com/watch?v=example Nela, um menino caminha na escuridão, dividido entre: o temor do castigo o receio do desconhecido e a confiança em algo maior 👉 Assim como na crônica, há um “beco escuro”. Mas aqui, a resposta não está no cálculo — está na crença: quem anda com fé não teme a escuridão Se, na política, o mundo se resolve em variáveis incertas, na canção, resolve-se no íntimo: no coração que insiste em seguir. 🐾 Nota de Rodapé (Epitáfio do Lince) O pássaro no boné voa alto. O lince enxerga no escuro. Um domina as alturas. O outro, as sombras. Entre voo e visão, fica a dúvida que move o mundo. 🗺️ Guia de Locações na Página 📰 Topo da página: imagem do hegemon com sombra 🖊️ Corpo central: crônica “Tão longe, tão perto” 🎶 Coluna lateral direita: imagem de Evinha + seção musical 🔗 Rodapé da seção musical: links (letra + vídeo) 🐾 Rodapé final: epitáfio do Lince O LINCE — porque ver é mais do que olhar.
Como era diferente acompanhar um Oscar na década de 1970 - Estadão Cultura Colunas EXCLUSIVO Ignácio de Loyola Brandão Coluna quinzenal do escritor Ignácio de Loyola Brandão com crônicas e memórias Opinião Como era diferente acompanhar um Oscar na década de 1970 Assim que a transmissão – precária diante da tecnologia de hoje – se iniciava, ‘nossa rede’ entrava no ar: três telefones se fechavam em circuito
Foto do autor Ignácio de Loyola Brandão Por Ignácio de Loyola Brandão 22/03/2026 | 00h00
"Com Donald Trump, a América perdeu o humor, a revolta, o cinismo, a ironia, a raiva? Não digo isso porque nada ganhamos. Alguém acaso acreditava que Hollywood desse dois prêmios seguidos em tão curto espaço de tempo? Vá, vá, vá! - como diria minha avó Branca. Nos anos 1960, pedi um visto para os States e me foi negado com o argumento de que eu, ao lado de Armindo Blanco e Jean-Claude Bernardet éramos contra o cinema americano. Eu, um nada, contra o poder dos estúdios? Vá, vá, vá. Ignácio de Loyola Brandão Vá, vá, vá É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR DE 'ZERO' E 'NÃO VERÁS PAÍS NENHUM'" Vá, vá, vá (ou K, K, K?) — crônica sob o olho de lince por Olho de Lince Há vozes que nos empurram para o mundo. Outras, nos empurram para dentro dele. Na lembrança do cronista, ecoa o “vá, vá, vá” de avó Branca — não como ordem dura, mas como impulso inaugural. Um sopro de coragem diante do desconhecido. Vá. Siga. Atravesse. Como se viver fosse sempre esse gesto de sair, mesmo sem saber exatamente para onde. Mas o mundo — ah, o mundo — responde com outro som. K. K de impasse. K de enigma. K de labirinto. Como nos universos de Franz Kafka, onde avançar não significa chegar, e toda porta aberta conduz a outro corredor, e não à saída. O personagem caminha, mas não alcança; fala, mas não é ouvido; existe, mas não se reconhece no próprio reflexo. Entre o “vá” e o “K” instala-se o drama. Na crônica do jornal, o neto observa o mundo em suas dobras: política, cultura, memória. Fala de um tempo em que as histórias eram contadas em circuito, quase sussurradas entre vozes conhecidas. E lembra — talvez sem dizer — que o impulso primeiro vinha de alguém simples, de dentro de casa, não dos grandes centros de poder. Já sob o olho de lince, o cenário se amplia. O hegemon ergue-se, o mundo se arma, a guerra se desloca em mapas e mercados. Tudo parece mensurável, como se a realidade pudesse ser resolvida em equações. Mas eis o ponto cego: o cálculo não prevê o absurdo. E o absurdo é K. Faz-se a conta: longe ÷ tempo = perto guerra × mercado = inflação Mas onde entra o desvio? Onde se insere o erro que não cabe na fórmula? Talvez esteja no instante em que alguém diz “vá” e o mundo responde “K”. Talvez esteja na diferença entre o impulso humano e a engrenagem impessoal. Talvez esteja na própria linguagem, que promete clareza e entrega ambiguidade. O lince observa. Vê o líder que olha longe, mas não enxerga a rachadura. Vê o cronista que escreve, mas também hesita. Vê o menino que parte, mesmo com medo do escuro. E entende: viver é oscilar entre comando e confusão. O “vá” é linha reta. O “K” é curva, desvio, atraso. Mas sem o “vá”, não há movimento. E sem o “K”, não há consciência. No fim, talvez a sabedoria não esteja em escolher entre um e outro, mas em sustentar ambos: avançar mesmo sem compreender, e compreender que jamais se avançará por completo. Vá, então. Ainda que o mundo responda em K. — Olho de Lince

Nenhum comentário:

Postar um comentário