Inspirados já nos ensinamentos de Sófocles, aqui, procurar-se-á a conexão, pelo conhecimento, entre o velho e o novo, com seus conflitos. As pistas perseguidas, de modos específicos, continuarão a ser aquelas pavimentadas pelo grego do período clássico (séculos VI e V a.C).
domingo, 11 de janeiro de 2026
Quando eu morrer não deixo pena, pena deixo para quem fica
Assentamento
Miúcha
O cosmos não interrompe seu giro para o luto, mas a cultura pausa para o silêncio. Em um intervalo de apenas uma rotação terrestre — um único dia entre 9 e 10 de janeiro de 2026 — o mundo perdeu o olhar crítico de Beatriz González e a crônica afetiva de Manoel Carlos.
Entre o nascimento de Maneco (1933) e de Beatriz (1938), a Terra completou 5,67 voltas ao redor do Sol. Foram 2.073 auroras de diferença que moldaram trajetórias distintas: ele, pintando o cotidiano carioca com palavras; ela, recortando a história colombiana em cores e móveis populares.
Neste "último traslado", enquanto o planeta avançava apenas 0,0027 de sua órbita, os dois se despediram, deixando-nos a herança de quem soube observar o tempo. Como bem interpretado por Chico Buarque na obra de Paulo Vanzolini, a morte não deixa pena para quem vai, mas o peso da saudade para quem permanece no giro incessante da vida.
🎧 Ouça aqui: "Quando Eu Morrer" - Chico Buarque (Composição de Paulo Vanzolini)
“O tempo não para, mas a arte eterniza o instante em que a Terra parou para eles.”
Los suicidas del Sisga II (Sobre una obra de Beatriz González)
Mãe e filha foram primeira e última Helena de Manoel Carlos
— A primeira Helena do autor, que morreu neste sábado (10) no, Rio de Janeiro, foi a atriz Lílian Lemmertz, em 'Baila Comigo', de 1981.
Gshow
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há 21 horas
Assentamento
Chico Buarque
Quando eu morrer, que me enterrem na
beira do chapadão
-- contente com minha terra
cansado de tanta guerra
crescido de coração
Tôo
(apud Guimarães Rosa)
Zanza daqui
Zanza pra acolá
Fim de feira, periferia afora
A cidade não mora mais em mim
Francisco, Serafim
Vamos embora
Ver o capim
Ver o baobá
Vamos ver a campina quando flora
A piracema, rios contravim
Binho, Bel, Bia, Quim
Vamos embora
Quando eu morrer
Cansado de guerra
Morro de bem
Com a minha terra:
Cana, caqui
Inhame, abóbora
Onde só vento se semeava outrora
Amplidão, nação, sertão sem fim
Ó Manuel, Miguilim
Vamos embora
Composição: Chico Buarque.
Quando eu morrer não deixo pena, pena deixo para quem fica
Crédito consignado, poder político e Minas Gerais: duas décadas de uma mesma engrenagem
A história do crédito consignado no Brasil não é linear nem episódica. Ela atravessa governos, partidos e décadas, sempre orbitando o mesmo núcleo sensível: o INSS, os aposentados e a interseção entre política e sistema financeiro. Para compreendê-la com honestidade intelectual, é necessário separar os tempos — sem apagar os vínculos estruturais que permanecem.
I — O presente: o escândalo dos descontos indevidos (2024–2025)
Desde 2024, o INSS voltou ao centro de uma crise de grandes proporções. A Polícia Federal, a CGU e o Congresso Nacional, por meio da CPMI do INSS, investigam um esquema de descontos não autorizados aplicados diretamente nos benefícios de aposentados e pensionistas.
O que está comprovado até agora
Houve descontos indevidos, realizados por meio de convênios firmados entre o INSS e entidades associativas, muitas vezes sem autorização expressa ou consciente dos beneficiários.
Houve prisões. Entre elas, a do ex-presidente do INSS, Alessandro Stefanutto, acusado de envolvimento em um esquema de corrupção e favorecimento de entidades conveniadas.
Houve mandados de busca e apreensão que atingiram operadores políticos e pessoas com mandato parlamentar.
O que está sob investigação (sem condenação)
O deputado federal Euclydes Pettersen (Republicanos-MG) foi citado em relatórios e foi alvo de medidas investigativas. Até o momento, não há condenação judicial, e sua menção decorre exclusivamente de investigações em curso.
Empresas em nome de familiares de agentes políticos aparecem como suspeitas de recebimento de valores, o que ainda está sendo apurado.
Não há, até aqui, comprovação de que bancos privados sejam os protagonistas diretos do esquema atual; o foco central recai sobre entidades associativas, intermediários e falhas institucionais do INSS.
II — O passado: a origem do consignado e o ciclo do Mensalão (2002–2005)
Voltar no tempo não é confundir fatos: é reconhecer a origem estrutural do problema.
O crédito consignado foi instituído no início do primeiro governo Lula, com a promessa de ampliar acesso ao crédito a aposentados, utilizando o desconto em folha como garantia.
O banco mineiro da origem
O Banco BMG, de Minas Gerais, foi a primeira instituição financeira privada a firmar convênio com o governo federal para operar crédito consignado para aposentados do INSS.
Esse protagonismo colocou o banco no centro de debates e investigações posteriores, especialmente no contexto do Mensalão.
O elo político daquele período
O deputado mineiro Romeu Queiroz (PTB-MG) foi condenado pelo STF por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, em razão de repasses ligados às empresas de Marcos Valério.
Parte das investigações analisou a relação entre empréstimos do BMG ao PT, contratos públicos e a expansão acelerada do consignado.
Esses fatos resultaram na Ação Penal 420, julgada pelo Supremo Tribunal Federal. Trata-se de um escândalo encerrado juridicamente, ainda que suas consequências institucionais permaneçam.
III — Virgílio Guimarães, Marcos Valério e a família do banco
Outro nome central daquele período foi o deputado Virgílio Guimarães (PT-MG).
Virgílio admitiu ter apresentado Marcos Valério à direção do PT no início do governo Lula.
Ele é primo de Ricardo Guimarães, então presidente do Banco BMG.
Dirigentes do banco foram denunciados por gestão temerária e operações financeiras irregulares, mas não houve prisões prolongadas nem condenações equiparáveis às de agentes políticos do Mensalão.
Anos depois, já em outro contexto histórico, o BMG firmaria acordos bilionários relacionados a práticas no cartão consignado, reconhecendo falhas e ressarcindo consumidores.
IV — O fio que não se rompe
Não se trata de dizer que os escândalos são o mesmo. Eles não são.
Mas tampouco se pode fingir que são acidentes isolados.
O que atravessa os anos é:
a fragilidade do aposentado diante de sistemas automáticos;
a opacidade dos convênios com o INSS;
a recorrente presença de operadores políticos;
a dificuldade histórica de responsabilização plena.
Os nomes mudam.
Os partidos se alternam.
As operações ganham novos nomes.
Mas quem fica — sempre — é quem depende do benefício para viver.
Quando eu morrer não deixo pena.
Pena deixo para quem fica.
E, no Brasil, quem fica quase sempre é o aposentado.
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