domingo, 4 de janeiro de 2026

Mané sem drible, Jair sem perna

Poesia | O menino que carregava água na peneira, de Manoel de Barros O menino era ligado em despropósitos. (...) A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta! Você vai carregar água na peneira a vida toda. Você vai encher os vazios com as suas peraltagens, e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos! O Menino Que Carregava Água Na Peneira | Poema de Manoel De Barros com narração de Mundo Dos Poemas Mundo Dos Poemas
domingo, 4 de janeiro de 2026 Opinião do dia - Zygmunt Bauman “Nós nos acostumamos a encarar o ser humano apenas como unidade estatística. Não ficamos chocados ao vermos indivíduos como força de trabalho. O poder de compra de uma sociedade ou a capacidade de consumo tornaram-se critérios cruciais para se avaliar o grau de adequação de um país para se associar ao clube do poder, ao qual aplicamos os sonoros títulos de várias organizações internacionais. A questão de saber se você é uma democracia só se torna relevante quando você não tem nenhum poder e, portanto, deve ser controlado por meio de varetas retóricas ou políticas. Se você é rico em petróleo ou pode consumir ou investir muito, isso o absolve de suas falhas em respeitar a política e as sensibilidades morais modernas ou permanecer comprometido com as liberdades civis e os direitos humanos.” *Zygmunt Bauman (1925-2017), Filósofo polonês, foi o grande pensador da modernidade e deixou uma vasta obra. ‘Mal líquido’, p.191. Editora Zahar, 2019. Epígrafe — à la João Saldanha “Time que insiste em jogar contra si mesmo não precisa de adversário. Precisa de técnico — e de juízo.” (atribuível a João Saldanha sem desmentido possível, mesmo que nunca tenha dito exatamente assim)
O gênio que jogava apesar do corpo torto e o mestre que ensinava antes do mito nascer. Entre o improviso e o método, o futebol brasileiro aprendeu que talento não se herda — se revela. Citação — Nenê Prancha “Quem corre errado pode até chegar primeiro… mas chega no lugar errado.” Nenê Prancha, filósofo do futebol e da vida prática Mané sem drible, Jair sem perna Há comentaristas que veem esquema tático até em tropeço de calçada. Quando Mané Garrincha mancava, era gênio; quando caía, era estratégia; quando errava o passe, estava inventando o futuro. O Brasil aprendeu a amar o torto quando o torto ganhava jogo. O problema começa quando se tenta reaproveitar o mito sem o talento — e confundir tropeço com drible. Em 2018, e depois em 2022, muita gente jurou ver ali uma repetição histórica: uma espécie de bicampeonato espiritual, uma reencarnação improvisada. Mané teria voltado em Jair. Não o da Rosa Pinto, claro, mas o outro, montado num cavalo sem sela, cercado por intérpretes que confundiam perda com destino e erro com virtude. O delírio foi coletivo. O hospício, geral. A diferença é que Garrincha ganhava apesar do caos. Jair perdeu por causa dele. Dora Kramer, sem violão, sem Caymmi e sem atravessar a rua de lugar nenhum, fez o que lhe cabia: contou os gols contra. Um por um. Sem poesia. Sem redenção. Só a súmula fria da partida mal jogada por uma família especializada em chutar o próprio tornozelo. O pai, preso, colhe o que semeou e ainda se espanta com a colheita. O primogênito tenta explicar rejeição como se fosse perseguição. O filho do meio arruma briga até em espelho. O caçula existe apenas no rodapé. Michelle fala bem, mas joga no banco. Eduardo, que se achava ponta-direita internacional, acabou dispensado antes do aquecimento — fritou hambúrgueres, perdeu mandato, perdeu fantasia diplomática e agora corre atrás de visto como quem corre atrás da bola já fora do estádio. Diante desse placar, alguém pergunta: por que insistir numa candidatura presidencial com o mesmo sobrenome? Porque não se trata de ganhar. Trata-se de não desaparecer. É o chute alto, sem direção, só para ouvir o barulho da bola. Manter o nome da camisa circulando, ainda que o time não exista mais. Um último drible imaginário para uma torcida que já confunde vaia com aplauso. Não é Jair contra o sistema. Não é Jair contra a esquerda. É Jair contra Jair. E dessa vez não há Mané para resolver no improviso. Só sobra o tropeço — agora sem graça, sem gol, sem história para contar depois. Epitáfio — Zagallo Aqui jaz a Estratégia Tentou ganhar no grito, confiou na sorte, culpou o juiz, e esqueceu de treinar. “Vocês vão ter que me engolir”, mas ninguém engoliu. Roda Viva - Chico Buarque (Letra)
O menino que carregava água na peneira Tenho um livro sobre águas e meninos. Gostei mais de um menino que carregava água na peneira. A mãe disse que carregar água na peneira era o mesmo que roubar um vento e sair correndo com ele para mostrar aos irmãos. A mãe disse que era o mesmo que catar espinhos na água. O mesmo que criar peixes no bolso. O menino era ligado em despropósitos. Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos. A mãe reparou que o menino gostava mais do vazio, do que do cheio. Falava que vazios são maiores e até infinitos. Com o tempo aquele menino que era cismado e esquisito, porque gostava de carregar água na peneira. Com o tempo descobriu que escrever seria o mesmo que carregar água na peneira. No escrever o menino viu que era capaz de ser noviça, monge ou mendigo ao mesmo tempo. O menino aprendeu a usar as palavras. Viu que podia fazer peraltagens com as palavras. E começou a fazer peraltagens. Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela. O menino fazia prodígios. Até fez uma pedra dar flor. A mãe reparava o menino com ternura. A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta! Você vai carregar água na peneira a vida toda. Você vai encher os vazios com as suas peraltagens, e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos! Fonte: Manoel de Barros BARROS, Manoel (1999). Exercícios de ser criança. Bordados de Antônia Zulma Diniz, Ângela, Marilu, Martha e Sávia Dumont sobre os desenhos de Demóstenes. São Paulo: Salamandra. Dora Dorival Caymmi Dora, a rainha do frevo e do maracatu Dora, rainha cafuza de um maracatu Que conheci no recife dos rios Cortados de pontes Dos bairros, das fontes coloniais Dora, chamei Ô, Dora! Ô, Dora! Eu vim à cidade Pra ver meu bem passar Ô, Dora Agora no meu pensamento Eu te vejo requebrando pra cá Ora pra lá, meu bem Os clarins da banda militar Tocam para anunciar Sua Dora, agora vai passar Venham ver o que é bom Ô, Dora Rainha do frevo e do maracatu Ninguém requebra, nem dança Melhor do que tu Ô, Dora Rainha do frevo e do maracatu Ô, Ninguém requebra, nem dança Melhor que tu Ô, Dora! Ô, Dora! Composição: Dorival Caymmi.

Nenhum comentário:

Postar um comentário