Inspirados já nos ensinamentos de Sófocles, aqui, procurar-se-á a conexão, pelo conhecimento, entre o velho e o novo, com seus conflitos. As pistas perseguidas, de modos específicos, continuarão a ser aquelas pavimentadas pelo grego do período clássico (séculos VI e V a.C).
sábado, 10 de janeiro de 2026
O banqueiro e os ratos
Entre a ficção de Dyonélio Machado e a crônica política do Brasil contemporâneo, o dinheiro segue como força que corrói consciências, instituições e horizontes éticos
“A rua assim, com as casas todas fechadas, parece outra. Já não se vê mais nas partes altas dos sobrados aquela faixa alaranjada e distante. Não é que o sol já haja entrado; lá ainda está aquela moeda em brasa, a dois palmos acima do horizonte, mas por tal forma envolvida na ‘evaporação’, que a sua luz já desapareceu de todo.”
(Os ratos, Dyonélio Machado)
Publicado em 1935, Os ratos, de Dyonélio Machado, permanece como uma das mais incisivas alegorias da vida social brasileira sob o signo da miséria material, da angústia psicológica e da opressão econômica. O romance acompanha um único dia na vida de Naziazeno Barbosa, funcionário público esmagado pela urgência de conseguir dinheiro para pagar uma dívida. Ao longo desse percurso obsessivo, o livro revela um mundo em que o dinheiro deixa de ser simples meio de troca e se converte em força absoluta, capaz de corroer relações humanas, distorcer a percepção da realidade e reduzir os indivíduos a um estado quase animal, subterrâneo — o dos ratos.
Quase um século depois, o artigo “CPI para o ‘gabinete do ódio’ do Master”, de Roseann Kennedy, publicado no Estado, oferece um retrato contemporâneo que, embora situado em outro patamar social, dialoga de modo perturbador com a lógica exposta por Dyonélio. Se no romance acompanhamos o drama de quem sofre pela falta do dinheiro, no caso do Banco Master vemos o outro polo da engrenagem: o do capital concentrado, capaz de mobilizar políticos, influenciadores, instituições e estruturas inteiras de poder para se proteger.
O banqueiro Daniel Vorcaro surge no noticiário como figura central de uma rede complexa de relações políticas e midiáticas. Diferentemente de Naziazeno, que vaga pela cidade implorando pequenas quantias, Vorcaro dispõe de recursos suficientes para financiar um verdadeiro “gabinete do ódio”, destinado a atacar autoridades e tensionar o debate público. Ainda assim, os dois universos se conectam por uma mesma lógica implacável: a do dinheiro como eixo organizador da vida social, da ação política e da própria moral.
A Reunião Geral dos Ratos é uma fábula atribuída a Esopo e recontada por La Fontaine[1].
Em Os ratos, a cidade é um espaço fechado, opaco, em que portas se encerram à medida que o tempo passa e as possibilidades se esgotam. No artigo de Roseann Kennedy, o Congresso também aparece como um espaço de portas semicerradas, onde uma CPI com assinaturas suficientes corre o risco de ser enterrada por conveniência política. O temor de uma eventual delação premiada — que “sobraria para todo lado” — ecoa a atmosfera de claustrofobia moral que atravessa o romance de Dyonélio: todos estão implicados, todos dependem do sistema, todos temem o colapso da engrenagem que os sustenta.
A metáfora dos ratos, no romance, não se limita à pobreza material. Ela aponta para um modo de existência marcado pela sobrevivência, pela repetição e pela ausência de horizonte ético. Nesse sentido, o comportamento de parte da classe política contemporânea — governistas que evitam assinar a CPI, lideranças que alegam “falta de viabilidade pragmática” — não está distante dessa lógica subterrânea. Não se trata mais de indivíduos acuados pela fome, como Naziazeno, mas de agentes públicos que se movem silenciosamente pelos corredores do poder, evitando a luz, protegendo-se mutuamente.
O contraste entre o silêncio inicial do governo e a posterior mudança de discurso, quando o escândalo se populariza nas redes sociais, reforça esse paralelo. Em Os ratos, Naziazeno também é empurrado pela urgência do tempo e pelas circunstâncias, reagindo menos por escolha consciente do que por necessidade. A diferença crucial é que, no romance, o personagem é vítima declarada do sistema; no caso do Banco Master, muitos dos envolvidos são seus beneficiários diretos.
Assim, Os ratos e o debate em torno da CPI do Master revelam faces complementares de uma mesma estrutura social. De um lado, o homem comum esmagado pela falta de dinheiro; de outro, o banqueiro cercado por um emaranhado de poder, influência e medo. Entre ambos, circula a mesma força corrosiva, que transforma a política em cálculo, a ética em conveniência e a vida pública em um espaço onde a sobrevivência — do indivíduo ou do sistema — se sobrepõe à justiça.
Ao aproximar essas duas narrativas, percebe-se que os ratos de Dyonélio Machado não pertencem apenas ao subsolo da ficção dos anos 1930. Eles continuam circulando, agora em ambientes climatizados, gabinetes parlamentares e redes digitais, movidos pela mesma lógica implacável que transforma o dinheiro em sol, a moeda em brasa e a sociedade em um labirinto sem saída.
“A rua assim, com as casas todas fechadas, parece outra. Já não se vê mais nas partes altas dos sobrados
aquela faixa alaranjada e distante. Não é que o sol já haja entrado; lá ainda está aquela moeda em brasa, a dois palmos acima do horizonte, mas por tal forma envolvida na ‘evaporação’, que a sua luz já desapareceu de todo.”
O banqueiro e os ratos
Os ratos de Pavlov e o galeão Brasil
"Banqueiro tem relações com políticos de diversos partidos; governistas não assinaram pedido"
Em Os ratos, romance publicado em 1935, Dyonélio Machado constrói uma das mais contundentes alegorias da vida social brasileira sob o signo da miséria material, da angústia psicológica e da opressão econômica. A narrativa acompanha um único dia na vida de Naziazeno Barbosa, funcionário público esmagado pela urgência de conseguir dinheiro para pagar uma dívida. Ao longo desse percurso obsessivo, o romance revela um mundo em que o dinheiro não é apenas meio de troca, mas força absoluta, capaz de corroer relações humanas, distorcer a percepção da realidade e reduzir os indivíduos a um estado quase animal, subterrâneo — o dos ratos.
Quase um século depois, o artigo “CPI para o ‘gabinete do ódio’ do Master”, de Roseann Kennedy, oferece um retrato contemporâneo que, embora situado em outro plano social, dialoga de modo perturbador com a lógica exposta por Dyonélio Machado. Se em Os ratos acompanhamos o drama de quem sofre pela falta do dinheiro, no caso do Banco Master vemos o outro polo da engrenagem: o do capital concentrado, capaz de mobilizar políticos, influenciadores, instituições e estruturas inteiras de poder para se proteger.
O banqueiro Daniel Vorcaro surge no texto jornalístico como figura central de uma rede complexa de relações políticas e midiáticas. Diferentemente de Naziazeno, que vaga pela cidade implorando pequenas quantias, Vorcaro dispõe de recursos suficientes para financiar um verdadeiro “gabinete do ódio”, destinado a atacar autoridades e manipular a opinião pública. Ainda assim, ambos os universos se conectam pela mesma lógica implacável: a do dinheiro como eixo organizador da vida social e da ação política.
Em Os ratos, a cidade é um espaço fechado, opaco, em que as portas se fecham à medida que o tempo passa e as possibilidades se esgotam. No artigo de Roseann Kennedy, o Congresso também aparece como um espaço de portas semicerradas, onde uma CPI que reúne assinaturas suficientes corre o risco de ser enterrada por conveniência política. O medo da delação premiada, que “sobraria para todo lado”, ecoa a atmosfera de claustrofobia moral que permeia o romance de Dyonélio: todos estão implicados, todos dependem do sistema, todos temem o colapso da engrenagem que os sustenta.
A metáfora dos ratos, no romance, não se limita à pobreza material. Ela aponta para um modo de existência marcado pela sobrevivência, pela repetição e pela ausência de horizonte ético. Nesse sentido, o artigo sugere que o comportamento de parte da classe política — governistas que evitam assinar a CPI, lideranças que alegam “falta de viabilidade pragmática” — não está distante dessa lógica subterrânea. Não se trata mais de indivíduos acuados pela fome, como Naziazeno, mas de agentes públicos que se movem silenciosamente pelos corredores do poder, evitando a luz, protegendo-se mutuamente.
O contraste entre o silêncio inicial do governo e a posterior mudança de discurso, quando o escândalo se populariza nas redes sociais, reforça esse paralelo. Em Os ratos, Naziazeno também é empurrado pela urgência do tempo e pelas circunstâncias, reagindo menos por escolha consciente do que por necessidade. A diferença fundamental é que, no romance, o personagem é vítima declarada do sistema; no caso do Banco Master, muitos dos envolvidos são seus beneficiários diretos.
Assim, Os ratos e o artigo sobre a CPI do Master revelam faces complementares de uma mesma estrutura social. De um lado, o homem comum esmagado pela falta de dinheiro; de outro, o banqueiro cercado por um emaranhado de poder, influência e medo. Entre ambos, circula a mesma força corrosiva, que transforma a política em cálculo, a ética em conveniência e a vida pública em um espaço onde a sobrevivência — seja do indivíduo, seja do sistema — se sobrepõe à justiça.
Ao aproximar essas duas narrativas, percebe-se que os ratos de Dyonélio Machado não pertencem apenas ao subsolo da ficção dos anos 1930. Eles continuam circulando, agora em ambientes climatizados, gabinetes parlamentares e redes digitais, movidos pela mesma lógica implacável que transforma o dinheiro em sol, moeda em brasa e a sociedade em um labirinto sem saída.
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