Estado Engenheiro vs. Estado Advogado
O conflito entre o tecnicismo autoritário e a burocracia do "Estado sou eu"
Silhueta, contraste e a beleza do imperfeito.

Prompt de Atuação: Articulista Sênior e Cientista Político
Atue como um articulista sênior, cientista político e ensaísta acadêmico de alta estirpe, habituado a publicar artigos de opinião densos, críticos e eruditos em veículos como The New York Times e O Estado de S. Paulo (Estadão).
Sua tarefa é converter e formatar o conteúdo bruto fornecido ao final deste prompt, aplicando rigorosamente uma abordagem ESTRUTURAL e eliminando completamente qualquer viés PERSONALISTA.
Diretrizes de Escrita e Abordagem Teórica
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Deslocamento de Causalidade: Não atribua crises, avanços ou problemas às intenções, moral, estilo ou psicologia de indivíduos específicos (políticos, empresários ou líderes). Explique-os a partir de engrenagens invisíveis do sistema, como desenhos institucionais, gargalos macroeconômicos, matrizes históricas, fluxos de mercado e condicionantes sociológicos.
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Rigor Epistemológico: O indivíduo deve ser tratado como um produto de sua estrutura (tempo, classe, regras do jogo e linguagem). O texto deve demonstrar que o fenômeno persistirá mesmo se os atores individuais mudarem.
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Tom e Estilo Verbal: Use prosa analítica, elegante, sóbria e densa. Escreva de forma estritamente impessoal, abolindo a primeira pessoa (eu/nós). Prefira a voz passiva analítica ou construções que foquem no objeto/fato (ex: "observa-se o fenômeno", "o desenho institucional impõe").
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Vocabulário de Excelência: Utilize termos técnicos precisos (ex: "vulnerabilidade fiscal crônica", "presidencialismo de coalizão", "pressões sistêmicas", "arquitetura institucional", "gargalos logísticos"). Evite jargões fofoqueiros, tom panfletário ou adjetivações morais sobre pessoas.
Estrutura Textual do Artigo-Ensaio
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TÍTULO: Deve ser sofisticado, conceitual e focado no problema sistêmico (evite nomes próprios no título).
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INTRODUÇÃO: Apresente o fato atual não como um evento isolado, mas como o sintoma visível de uma disfunção estrutural profunda.
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DESENVOLVIMENTO ANALÍTICO: Divida a argumentação em vetores de pressão sistêmica (histórico, econômico e institucional), demonstrando como as regras e os fluxos moldam o comportamento dos agentes.
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CONCLUSÃO: Proponha reflexões sobre reformas de desenho, mudanças de matriz ou reconfigurações do sistema, sem focar em soluções messiânicas baseadas na "mudança de liderança".
Dados Brutos / Contexto para o Texto
[INSIRA AQUI O SEU CONTEÚDO BRUTO, IDEIAS, RASCUNHOS OU O TEMA QUE VOCÊ DESEJA QUE A IA TRANSFORME]
Use o código com cuidado.

Entre o Estado-engenheiro e o Estado-advogado: o dilema brasileiro na era da disputa entre Estados Unidos e China
A ascensão da China reabriu um dos mais importantes debates políticos do século XXI: o que explica o sucesso de determinadas nações na construção da prosperidade econômica e da influência internacional?
A resposta tradicional costuma oscilar entre dois polos. De um lado, atribui-se o êxito chinês ao autoritarismo político. De outro, destaca-se a adoção gradual de mecanismos de mercado. A tese apresentada pelo pesquisador Dan Wang e analisada pela cientista política Maria Hermínia Tavares propõe uma interpretação distinta: a força da China residiria, sobretudo, na construção de um Estado dirigido por uma elite técnica, formada predominantemente por engenheiros.
Essa abordagem oferece uma oportunidade valiosa para ampliar o debate e incluir o caso brasileiro.
A comparação entre o chamado Estado-engenheiro chinês e o Estado-advogado norte-americano revela, antes de tudo, a existência de duas formas distintas de compreender o exercício do poder.
Na China, o Estado é concebido como um instrumento de execução. O objetivo principal é resolver problemas por meio do planejamento técnico, da expansão da infraestrutura, da coordenação industrial e da mobilização de recursos em larga escala.
Nos Estados Unidos, a lógica é diferente. O sistema político foi estruturado para limitar a concentração do poder. O direito, a regulação, a fiscalização, a descentralização administrativa e os mecanismos de controle institucional são elementos centrais da arquitetura do Estado.
Nenhum desses modelos é inteiramente reproduzido no Brasil.
O país desenvolveu, ao longo do século XX, uma burocracia relativamente sofisticada, capaz de criar instituições importantes e implementar políticas públicas relevantes. Entretanto, nunca conseguiu consolidar uma capacidade estatal comparável àquela observada nas grandes experiências asiáticas de industrialização.
Ao mesmo tempo, também não construiu um sistema institucional tão estável e previsível quanto o norte-americano.
Essa limitação ajuda a explicar uma característica recorrente da política brasileira: a excessiva personalização do poder.
O debate público frequentemente se concentra na figura do presidente da República, enquanto questões estruturais permanecem em segundo plano.
Nesse contexto, a trajetória política iniciada em 2003 oferece um estudo de caso particularmente relevante.
Independentemente das preferências ideológicas, é impossível ignorar o protagonismo exercido pelo Partido dos Trabalhadores na política nacional durante as últimas décadas. Os governos petistas atravessaram diferentes conjunturas econômicas, sobreviveram a crises políticas, enfrentaram o impeachment de uma presidente da República, retornaram ao poder após um período de alternância e continuam ocupando uma posição central no sistema político brasileiro.
A longevidade desse ciclo político suscita uma pergunta inevitável: o país utilizou esse período para fortalecer suas capacidades estatais?
A resposta exige cautela.
Os avanços sociais registrados nas primeiras décadas do século XXI são amplamente reconhecidos. Entretanto, indicadores relacionados à produtividade, à infraestrutura, à inovação tecnológica, à qualidade da educação básica e à competitividade industrial sugerem que o Brasil não conseguiu construir um projeto nacional de desenvolvimento comparável ao das economias asiáticas.
O problema, contudo, não pode ser reduzido à biografia do presidente.
A escolaridade formal de um governante, por si só, não determina a qualidade de sua administração. A história política está repleta de exemplos que desautorizam qualquer tentativa de estabelecer uma relação automática entre formação acadêmica e competência administrativa.
Estados modernos são administrados por instituições, burocracias, centros de pesquisa, agências reguladoras e equipes técnicas. Líderes exercem influência decisiva, mas não substituem a capacidade institucional.
Isso não significa que a trajetória pessoal seja irrelevante.
As concepções individuais dos governantes influenciam a forma como eles se relacionam com especialistas, cientistas, juristas, economistas e servidores públicos. A visão que um líder possui sobre o conhecimento técnico pode afetar diretamente a formulação e a implementação de políticas públicas.
Nesse ponto, o caso brasileiro revela uma tensão recorrente entre política e direito.
O Estado-engenheiro tende a considerar procedimentos jurídicos excessivos como obstáculos à eficiência administrativa. O Estado democrático, por sua vez, depende desses mesmos procedimentos para estabelecer limites ao poder e proteger direitos individuais.
A convivência entre essas duas lógicas é inevitavelmente conflituosa.
Entretanto, a discussão não pode permanecer restrita ao plano doméstico.
Como observa o jornalista Luiz Carlos Azedo, a disputa entre Estados Unidos e China acrescenta uma dimensão geopolítica ao debate. O Brasil deixou de ser apenas um país em busca de maior eficiência administrativa. Tornou-se um espaço estratégico na competição entre a principal potência estabelecida e a principal potência emergente do sistema internacional.
Essa disputa transcende afinidades ideológicas.
A presença chinesa na América do Sul, o fortalecimento do Brics, a reorganização das cadeias produtivas globais e a tentativa norte-americana de recuperar sua influência hemisférica reposicionaram o Brasil no cenário internacional.
A grande questão deixou de ser apenas qual modelo de Estado o país pretende construir. A pergunta passou a ser outra: qual projeto nacional o Brasil deseja defender?
A resposta não será encontrada na simples importação do modelo chinês nem na reprodução mecânica do sistema norte-americano.
A experiência chinesa demonstra a importância da capacidade de execução. A experiência norte-americana reafirma o valor dos freios institucionais.
O desafio brasileiro consiste em combinar as virtudes desses dois modelos sem incorporar seus respectivos excessos.
Um Estado incapaz de executar políticas públicas compromete o desenvolvimento econômico. Um Estado sem mecanismos efetivos de controle ameaça as liberdades democráticas.
Entre a eficiência sem limites e a limitação sem eficiência, o Brasil continua procurando um caminho próprio.
Talvez essa seja a principal lição do debate contemporâneo: o desenvolvimento não depende exclusivamente da permanência prolongada de um partido no poder, da biografia de um líder carismático ou da adoção de modelos estrangeiros.
Depende, sobretudo, da construção de instituições capazes de sobreviver aos governos, às crises políticas e às mudanças de ciclo histórico.
A verdadeira disputa brasileira não é entre engenheiros e advogados.
É entre o personalismo e a institucionalidade.

quinta-feira, 13 de agosto de 2026
Grandezas e misérias do Estado-engenheiro chinês, por Maria Hermínia Tavares
Folha de S. Paulo
Livro propõe uma explicação original para a ascensão econômica e aumento do prestígio da China
Fazendo obras, tirou da pobreza milhões de concidadãos e melhorou a vida nas grandes cidades
A China é hoje mais bem avaliada que os Estados Unidos pelos habitantes de 30 de 36 países incluídos na "Pesquisa Global de Atitudes", conduzida anualmente pelo respeitado instituto americano Pew Research Center. E o líder chinês Xi Jinping inspira mais confiança aos entrevistados do que Donald Trump. É um resultado inédito. Reflete o enorme desgaste da imagem internacional dos EUA, produto da truculência com que a Casa Branca vem conduzindo a política exterior do país. Mas também atesta o crescimento do prestígio internacional da China graças à sua pujante ascensão econômica e à capacidade de ocupar posições na fronteira da inovação produtiva.
Para aqueles que, como eu, pouco sabem dessa nova potência, será de grande proveito a leitura de "A Todo Vapor: Tecnologia e poder na China e a disputa com os Estados Unidos", de Dan Wang (Intrínseca). Chinês de nascimento, criado no Canadá, formado em economia nos Estados Unidos, Wang trabalhou sete anos na sua terra natal como analista de tecnologia.
Seu livro propõe uma explicação original para o êxito econômico da China: não decorre do regime político autoritário de Beijing nem de uma forma específica de sistema econômico, mas das capacidades estatais desenvolvidas por uma liderança política formada por engenheiros. O Estado-engenheiro tem vocação e meios para encontrar soluções técnicas para os problemas e apetite aparentemente insaciável de fazer: ferrovias, pontes, metrôs, portos, aeroportos, usinas, redes elétricas, fábricas e cadeias industriais, habitação em larga escala, projetos de renovação urbana. Fazendo obras, tirou da pobreza milhões de concidadãos e melhorou a vida nas grandes cidades.
Wang contrapõe o Estado-engenheiro chinês ao Estado-advogado americano, habilitado a regular, limitar, contestar —e, em última instância,— bloquear iniciativas, tornando mais confusas as decisões de políticas públicas e muito mais lenta a sua implementação.
O livro não faz apologia do sistema chinês, mesmo quando descreve com admiração seus logros materiais. Em dois capítulos nos quais aborda o enfrentamento da pandemia da Covid e a política do filho único, expõe os enormes custos humanos envolvidos na gestão de questões sociais como se não passassem de um problema de engenharia.
A implacável tentativa de controlar a população e impor-lhe o confinamento, durante o surto epidêmico, fracassou, depois de ganhos iniciais, e acabou atabalhoadamente abandonada. A política do filho único —mediante controle coercitivo da natalidade— foi uma colossal catástrofe que alterou até hoje o equilíbrio demográfico do país. Incluiu abortos forçados; infanticídio de meninas; esterilização em massa de mulheres —e, em menor medida, de homens—; entrega de bebês para adoção por estrangeiros. Em suma, um crime contra a humanidade.
Wang julga possível compatibilizar a agilidade do Estado-engenheiro com limites políticos ao poder dos governantes, que só o Estado democrático de Direito consegue, mal e mal, prover. Algo mais fácil de propor do que de obter na prática, mas sempre um desafio às democracias diante do crescente prestígio da China dos engenheiros autoritários.

quinta-feira, 13 de agosto de 2026
Nas eleições, Trump deseja que o Brasil volte a ser quintal dos EUA, por Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense
Agora traduzida pelo slogan America First, a Casa Branca exuma a Doutrina Monroe: “A América para os americanos”, desde que “americanos” signifiquem os EUA
O Brasil é grande demais para virar marisco na briga entre os Estados Unidos, uma superpotência marítima, e a China, a grande potência continental emergente, que ameaça a hegemonia norte-americana e amplia sua influência na América Latina. Entretanto, o governo Lula pode não passar ileso pela guerra comercial, tecnológica e geopolítica entre as duas maiores economias do planeta.
O presidente Donald Trump sonha com uma volta ao passado, quando Washington podia tratar a América Latina como seu quintal e enquadrar aliados e adversários por meio de pressões econômicas, diplomáticas e militares. Agora traduzida pelo slogan America First, a Casa Branca exuma a Doutrina Monroe: “A América para os americanos”, desde que “americanos” signifiquem os EUA.
Essa nostalgia de uma ordem perdida aproxima Trump da figura descrita pelo cientista político norte-americano Mark Lilla. Para o autor de A mente naufragada (Record), o reacionário não é simplesmente um conservador. O conservador valoriza as tradições, mas reconhece que a sociedade muda; o reacionário considera a mudança uma catástrofe e deseja reconstruir um passado idealizado. Acredita que houve uma ruptura no curso da história e que a única saída é fazer o tempo correr para trás.
Trump é esse náufrago do passado: promete restaurar a grandeza industrial norte-americana, reafirmar o supremacismo racial, recompor fronteiras econômicas e recuperar uma hegemonia internacional incompatível com o mundo multipolar. Seu projeto tenta repetir, em escala muito mais perigosa, a virada de mesa promovida pelos Estados Unidos na década de 1980, quando o avanço industrial e tecnológico do Japão parecia ameaçar a hegemonia norte-americana.
Tóquio acumulava enormes superavits comerciais e suas montadoras e empresas de eletrônicos conquistavam o mercado dos Estados Unidos. Em 1985, Washington articulou o Acordo de Plaza, que provocou forte valorização do iene e reduziu a competitividade japonesa. O acordo foi uma das causas das “décadas perdidas” do Japão. Para todo o Ocidente, porém, o episódio se tornou símbolo do preço pago por um aliado que se submeteu à pressão norte-americana.
A China não é o Japão. Não depende militarmente dos Estados Unidos, dispõe de armas nucleares, controla cadeias industriais estratégicas e possui um gigantesco mercado interno, além de riquezas minerais estratégicas, como as terras raras. Além disso, tornou-se a principal parceira comercial de grande parte da América do Sul, inclusive do Brasil.
Um novo Acordo de Plaza não pode ser imposto por Trump a Pequim. Sua alternativa é cercá-la: restringir o acesso a semicondutores e tecnologias avançadas, reorganizar cadeias produtivas, elevar tarifas e tentar expulsar investimentos chineses de áreas consideradas estratégicas, como telecomunicações, energia, inteligência artificial, portos e minerais críticos. O mercado mais próximo é a América Latina.
Eleições de risco
É nesse contexto que ocorrem as eleições no Brasil. Nossa aproximação com a China, a participação no Brics, a defesa do multilateralismo e a autonomia da política externa contrariam Washington. A nova Doutrina Monroe já não se dirige às antigas potências coloniais europeias, mas à presença econômica chinesa. Trump deseja que os países latino-americanos aceitem a liderança dos Estados Unidos ou serão tratados como plataformas de expansão de Pequim.
A crescente interferência norte-americana nas eleições brasileiras nasce dessa lógica. Não se trata apenas de afinidade ideológica de Trump e do secretário de Estado Marco Rubio com a família Bolsonaro e a direita brasileira. Existe uma disputa concreta sobre a futura orientação do Brasil. Um governo alinhado a Washington poderia rever acordos tecnológicos, limitar investimentos chineses, enfraquecer o Brics e apoiar a estratégia dos Estados Unidos na região.
Já um governo comprometido com a autonomia diplomática, mesmo mantendo boas relações com os norte-americanos, preservaria espaço para negociar simultaneamente com Pequim e União Europeia. Para isso, Trump impõe tarifas, sanciona autoridades, critica o Supremo Tribunal Federal (STF) e já não esconde o apoio da Casa Branca à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL).
Às favas as normas diplomáticas. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva é considerado um estorvo pelos estrategistas da Casa Branca. Quando Washington relaciona medidas comerciais a decisões da Justiça brasileira ou ao andamento da campanha presidencial, transforma as tarifas em armas eleitorais.
Como a balança comercial com os Estados Unidos representa apenas 2% do nosso Produto Interno Bruto (PIB), essa interferência pode ir além das tarifas, por meio de manipulação do ambiente digital, pressões sobre empresas de tecnologia e campanhas de desinformação. A maior ameaça é a nova tentativa de desacreditar o sistema eleitoral, que constrói a perigosa narrativa segundo a qual o resultado das urnas eletrônicas somente será legítimo se reconhecido por Trump.

quinta-feira, 13 de agosto de 2026
Aspas em 'Lulinha' e 'Flávio', por Ruy Castro
Folha de S. Paulo
Certos nomes em que há algo de fake ou mal contado deveriam ser grafados entre aspas
'Lulinha' é usado para atingir Lula e 'Flávio' só existe porque é acoplado a Bolsonaro
Alexandra Moraes, ombudsman da Folha, perguntou neste domingo (5) por que Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente, é chamado pela imprensa e pela oposição de "Lulinha" se ninguém, íntimo ou não íntimo, o chama desse jeito. Ela mesma explicou: o tratamento surgiu na Folha há 20 anos, já numa história mal contada envolvendo dinheiro. Como o rapaz foi repetente no quesito, a oposição adotou o diminutivo, ideal para atingi-lo e ao seu pai. Mas, diz Alexandra, um apelido usado como arma política não deveria ser encampado pelo jornal.
Há alguns meses, aqui neste espaço, chamei a atenção para a leveza com que a imprensa estava se referindo ao então pré-candidato Flávio Bolsonaro, tratando-o de "Flávio" com uma familiaridade que não dispensava nem ao pai dele, o ex-presidente e presidiário Jair Bolsonaro. De fato, nos títulos e manchetes dos jornais, Jair Bolsonaro nunca foi chamado de "Jair". Foi sempre e só "Bolsonaro", como deve ser.
É verdade que, se um veículo se referir a Flávio Bolsonaro apenas como "Bolsonaro", os leitores poderão confundi-lo com seu apenado pai, daí a decisão de reduzi-lo a "Flávio". Mas "Flávio" não existe, a menos que se acrescente o "Bolsonaro" —é o que as pesquisas estão demonstrando. Mesmo com os desastres de campanha, levando seus apoiadores ao desespero, e por mais inviável que seja como candidato, ainda tem números invejáveis, graças ao nome e ao sobrenome no varal.
Daí ser surpreendente a decisão dos marqueteiros de passar a chamá-lo só de "Flávio", não mais de "Flávio Bolsonaro". Com isso, querem vender a imagem de alguém próximo, palpável. Mas quem quer estar próximo de "Flávio" e, pior ainda, apalpá-lo? A prova disso é que seu nome não é citado nem nos palanques de seus supostos aliados, os candidatos a governador.
Uma solução tanto para "Lulinha" quanto para "Flávio" é que passemos a nos referir a eles entre aspas. Aspas dão um sentido irônico a um nome e denotam algo de fake no sujeito. Como um rabo de papel que se pendura em alguém.

A gênese do termo bonapartismo remonta às primeiras décadas do século XIX na França. O conceito surgiu inicialmente para descrever o movimento político de apoio a Napoleão Bonaparte (e, posteriormente, ao seu sobrinho Luís Bonaparte, Napoleão III).
Ao longo do tempo, a expressão deixou de ser apenas uma referência dinástica para se tornar uma categoria científica rigorosa, utilizada para explicar regimes onde o Poder Executivo assume uma autonomia hipertrofiada diante de uma crise de hegemonia social.
🏛️ Origens e Autores Fundacionais
Karl Marx
O autor que verdadeiramente estruturou o bonapartismo como categoria sociológica e política foi Karl Marx na sua obra clássica O 18 de Brumário de Luís Bonaparte (1852). Marx analisou o golpe de Estado de 1851 perpetrado por Luís Bonaparte. Ele demonstrou como uma ditadura pessoal pode se instalar quando as classes sociais principais encontram-se em um estado de equilíbrio catastrófico: o proletariado já não tolera a velha ordem, mas a burguesia perdeu a capacidade política de governar diretamente.
Friedrich Engels
Engels complementou a tese de Marx em obras como A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado (1884). Ele definiu o bonapartismo como o estado de exceção em que as classes em luta se equilibram de tal forma que o poder político, temporariamente, adquire uma independência aparente em relação à sociedade, atuando como um "mediador" fictício.
Leon Trotsky e Antonio Gramsci
No século XX, o conceito foi expandido. Leon Trotsky usou-o para decifrar a ascensão do fascismo e do stalinismo (o chamado "bonapartismo soviético"). Antonio Gramsci, em seus Cadernos do Cárcere, preferiu correlacionar o bonapartismo ao conceito de Cesarismo, tratando-os como fenômenos irmãos onde uma força individual intervém para solucionar um impasse histórico.
🌐 O Conceito por Dimensões
DINÂMICA DO PODER BONAPARTISTA:
1. Equilíbrio Catastrófico (Nenhuma classe vence)
→ 2. Autonomização do Estado (O Executivo se eleva)
→ 3. Ramificação nas Esferas Política, Econômica e Filosófica.
1. Na Política (Regime e Sociedade)
- Liderança Personalista: O poder concentra-se na figura de um chefe carismático que se apresenta como o "salvador da pátria".
- Democracia Plebiscitária: Utilização de consultas diretas (plebiscitos e referendos) para legitimar decisões autocráticas de cima para baixo, esvaziando o papel do Poder Legislativo.
- Apelo Interclassista: O líder afirma governar acima dos partidos e das divisões sociais, angariando apoio tanto de setores da burguesia quanto de massas populares marginalizadas (como o campesinato conservador na análise original de Marx).
2. Na Economia (Função Estrutural)
- Preservação do Capitalismo: Embora a burguesia perca o controle político direto sobre o aparelho de Estado, o regime bonapartista garante a manutenção da propriedade privada e as condições de exploração econômica.
- Abdicação Política: A classe dominante aceita abrir mão de suas liberdades políticas clássicas e do parlamentarismo em troca da segurança jurídica de seus negócios e do esmagamento de ameaças revolucionárias.
3. Na Filosofia e Teoria do Poder
- Autonomização Relativa do Estado: Rompe com a visão simplista de que o Estado é apenas um comitê gestor da classe dominante. O aparato burocrático, militar ou judiciário assume vida própria e ganha traços de independência.
- A Ilusão da Neutralidade: O poder absoluto se justifica filosoficamente sob o manto da "defesa da ordem constitucional", "salvação nacional" ou "estabilidade democrática". O governante assume o papel de árbitro supremo dos conflitos da sociedade.
🔚 Conclusão Justificada
O bonapartismo é a forma política da decadência e da crise. Ele prova que o poder do Estado não é estático. Diante do colapso das instituições liberais tradicionais, o poder migra para o controle de uma burocracia ou de um indivíduo hipertrofiado.
O termo justifica-se rigorosamente na ciência política para explicar por que, em momentos de profunda polarização, a sociedade abdica do debate parlamentar em prol de uma autoridade centralizadora e pretensamente neutra que promete restabelecer a ordem.
📚 Fontes Utilizadas e Citadas
- MARX, Karl. O 18 de Brumário de Luís Bonaparte. (Obra de referência para a gênese do conceito no materialismo histórico).
- ENGELS, Friedrich. A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado. (Análise da autonomização do poder político).
- GRAMSCI, Antonio. Cadernos do Cárcere. (Desenvolvimento sobre o Cesarismo e equilíbrios catastróficos de forças).
- TROTSKY, Leon. A Revolução Traída / Escritos sobre o Fascismo. (Discussão do bonapartismo preventivo e do bonapartismo do século XX).
- DEMIER, Felipe. A teoria marxista do bonapartismo (Usina Editorial, 2021). (Compêndio contemporâneo de análise conceitual).
- LOSURDO, Domenico. Democracia ou Bonapartismo: Triunfo e Decadência do Sufrágio Universal. (Estudo sobre o uso plebiscitário do poder).

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